<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
	<atom:link href="https://marcozero.org/tag/tracunhaem/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://marcozero.org/</link>
	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 25 Nov 2025 21:07:46 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.7</generator>

<image>
	<url>https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/02/cropped-favicon-32x32.png</url>
	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
	<link>https://marcozero.org/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Impacto das linhas de transmissão de energia em comunidades rurais entra na agenda política</title>
		<link>https://marcozero.org/impacto-das-linhas-de-transmissao-de-energia-em-comunidades-rurais-entra-na-agenda-politica/</link>
					<comments>https://marcozero.org/impacto-das-linhas-de-transmissao-de-energia-em-comunidades-rurais-entra-na-agenda-politica/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Nov 2025 20:46:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[energia renovável]]></category>
		<category><![CDATA[Tracunhaém]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=73631</guid>

					<description><![CDATA[<p>No próximo dia 26 de novembro, o Sítio Agatha, em Tracunhaém (PE), vai receber uma visita da comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) para fazer uma escuta comunitária que deve ampliar a visibilidade sobre os conflitos gerados pela instalação das linhas de transmissão de energia no Complexo Prado. O encontro reunirá [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/impacto-das-linhas-de-transmissao-de-energia-em-comunidades-rurais-entra-na-agenda-politica/">Impacto das linhas de transmissão de energia em comunidades rurais entra na agenda política</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No próximo dia 26 de novembro, o Sítio Agatha, em Tracunhaém (PE), vai receber uma visita da comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) para fazer uma escuta comunitária que deve ampliar a visibilidade sobre os conflitos gerados pela instalação das linhas de transmissão de energia no Complexo Prado. O encontro reunirá moradores e entidades sociais diante de representantes de órgãos públicos que devem ser pressionados por medidas concretas em relação às denúncias prejuízos à agroecologia e violações de direitos. </p>



<p>A iniciativa é uma resposta do legislativo estadual às falhas no processo de licenciamento ambiental e à ausência de consultas prévias às comunidades afetadas. Nesse cenário, famílias agricultoras relatam perda de terras, redução de áreas cultiváveis e até problemas de saúde relacionados à proximidade das torres de alta tensão. Projetos sustentáveis, como o do Sítio Agatha, têm sido diretamente prejudicados por empreendimentos da chamada “energia limpa”.</p>



<p>Entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Fundo Casa e o Fundo Labora apoiam a resistência das famílias, enquanto a comissão de Meio Ambiente da Alepe, presidida pela deputada estadual Rosa Amorim (PT), já realizou vistorias técnicas com a deputada Rosa Amorim. A expectativa é que a escuta comunitária pressione órgãos como Incra, Ibama, CPRH e MPF a fiscalizar e exigir reparações adequadas.</p>



<p>O caso do Complexo Prado evidencia um padrão recorrente em megaempreendimentos energéticos no Brasil: benefícios concentrados em grandes centros e impactos distribuídos em regiões periféricas. Em 2023, a Marco Zero foi até o Sítio Ágatha para conhecer a história de Luiza Cavalcante, que também é presidente da Associação Sítio Ágatha, para entender como os moradores são afetados.</p>



<p>A linha de transmissão  500 kV Campina Grande III – Pau Ferro que atravessa parte da propriedade do Sítio Agatha, que foi instalada durante a pandemia da covid-19. Esta linha tem aproximadamente 130 quilômetros de extensão, passando por 15 municípios de Pernambuco e da Paraíba, e pertence a empresa Rialma S/A.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/linha-de-transmissao-de-energia-eolica-causa-desmatamento-em-terras-da-agricultura-familiar/" class="titulo">Linha de transmissão de energia eólica causa desmatamento em terras da agricultura familiar</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/energias/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Energias</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/impacto-das-linhas-de-transmissao-de-energia-em-comunidades-rurais-entra-na-agenda-politica/">Impacto das linhas de transmissão de energia em comunidades rurais entra na agenda política</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/impacto-das-linhas-de-transmissao-de-energia-em-comunidades-rurais-entra-na-agenda-politica/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Festival vai levar oficinas de arte e cultura à zona rural de Tracunhaém</title>
		<link>https://marcozero.org/festival-vai-levar-oficinas-de-arte-e-cultura-a-zona-rural-de-tracunhaem/</link>
					<comments>https://marcozero.org/festival-vai-levar-oficinas-de-arte-e-cultura-a-zona-rural-de-tracunhaem/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jul 2024 20:23:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Bell Puã]]></category>
		<category><![CDATA[Sítio Ágatha]]></category>
		<category><![CDATA[Tracunhaém]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=64142</guid>

					<description><![CDATA[<p>Com uma perspectiva socioambiental, agroecológica, étnico-racial e de gênero nas comunidades rurais, o Sítio Ágatha realiza a segunda edição do festival Rompendo Cercas Transmitindo Resistência, que acontece de 11 a 13 de julho, no próprio Sítio Ágatha e na comunidade Belo Oriente, em Tracunhaém, Zona da Mata Norte de Pernambuco. O sítio, localizado no assentamento [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/festival-vai-levar-oficinas-de-arte-e-cultura-a-zona-rural-de-tracunhaem/">Festival vai levar oficinas de arte e cultura à zona rural de Tracunhaém</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com uma perspectiva socioambiental, agroecológica, étnico-racial e de gênero nas comunidades rurais, o Sítio Ágatha realiza a segunda edição do festival <em>Rompendo Cercas Transmitindo Resistência</em>, que acontece de 11 a 13 de julho, no próprio Sítio Ágatha e na comunidade Belo Oriente, em Tracunhaém, Zona da Mata Norte de Pernambuco.</p>



<p>O sítio, localizado no assentamento Chico Mendes I, dentro do complexo de assentamentos do Prado, ficou conhecido por ter sido um território afetado pela instalação da Linha de Transmissão Campina Grande III &#8211; Pau Ferro. No entanto, apesar da resistência da comunidade, não foi possível impedir que as torres de energia fossem implantadas.</p>



<p>Por isso, hoje, Luíza Cavalcante e Nzinga Cavalcante, as fundadoras do Sítio Ágatha e da associação que leva o mesmo nome, atuam de diferentes maneiras para garantir a sustentabilidade do território e levar o debate sobre os riscos que os complexos de energia podem gerar nos territórios rurais.</p>



<p>Nos dias 11 e 12 de julho serão oferecidas uma série de oficinas gratuitas, para proporcionar momentos de formação artística e cultural para adolescentes, jovens e mulheres do território. As oficinas de Plantas Medicinais e Bioconstrução, acontecerão dia 11 de julho, no sítio Ágatha. Já as oficinas de Fotografia e Serigrafia Artesanal, acontecerão no dia 12, na Associação dos Moradores de Belo Oriente.</p>



<p>No sábado (13), por sua vez, vai acontecer a culminância dessas trocas e a continuidade do festival do com diversas apresentações artísticas na quadra municipal da Escola Anísio Cabral, em Belo Oriente. Com artistas da própria cidade e da Região Metropolitana do Recife, estarão presentes o Maracatu Pavão Dourado, Bell Puã, banda Styllo de Boyzinho, Coco do Catucá e DJ Boneka. A programação completa pode ser conferida nas redes sociais do <a href="https://www.instagram.com/sitioagatha/">Sítio Ágatha</a>.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/festival-vai-levar-oficinas-de-arte-e-cultura-a-zona-rural-de-tracunhaem/">Festival vai levar oficinas de arte e cultura à zona rural de Tracunhaém</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/festival-vai-levar-oficinas-de-arte-e-cultura-a-zona-rural-de-tracunhaem/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Linha de transmissão de energia eólica causa desmatamento em terras da agricultura familiar</title>
		<link>https://marcozero.org/linha-de-transmissao-de-energia-eolica-causa-desmatamento-em-terras-da-agricultura-familiar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Jun 2023 21:30:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[energia]]></category>
		<category><![CDATA[energia eólica]]></category>
		<category><![CDATA[Engenho Prado]]></category>
		<category><![CDATA[luta pela terra]]></category>
		<category><![CDATA[Tracunhaém]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=55668</guid>

					<description><![CDATA[<p>“Quem planta, colhe e depende da terra para viver sente de verdade a dor de ver ela sendo morta, desmatada, maltratada. Dói fisicamente mesmo em mim”. Aos 62 anos, Luiza Cavalcante é proprietária do Sítio Agatha, localizado no Engenho Toco, em Tracunhaém, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Integrante do movimento de luta por terra [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/linha-de-transmissao-de-energia-eolica-causa-desmatamento-em-terras-da-agricultura-familiar/">Linha de transmissão de energia eólica causa desmatamento em terras da agricultura familiar</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Quem planta, colhe e depende da terra para viver sente de verdade a dor de ver ela sendo morta, desmatada, maltratada. Dói fisicamente mesmo em mim”. Aos 62 anos, Luiza Cavalcante é proprietária do Sítio Agatha, localizado no Engenho Toco, em Tracunhaém, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Integrante do movimento de luta por terra e reforma agrária, a agricultora é parte da história de resistência do Complexo do Prado, que resultou na formação e reconhecimento dos assentamentos Chico Mendes I, Nova Canaã e Ismael Felipe<strong>.</strong></p>



<p>Agora, 18 anos após o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reconhecer a criação dos assentamentos e atribuir a  concessão de uso das terras aos agricultores da região após um longa luta contra uma das famílias mais poderosas do Nordeste, Luiza e seus vizinhos enfrentam um novo conflito: impedir que uma empresa de outra família influente na política nacional promova o desmatamento em suas terras para a implantação de linhas de transmissão de energia elétrica.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A história do Engenho do Prado</strong></h2>



<p>Antes de continuar com o principal assunto dessa reportagem, vale conhecer um pouco da história de resistência do Engenho Prado e da sua importância para a luta pela terra na região.</p>



<p>Com os olhos cheios de lágrimas, Luiza Cavalcante lembra como se fosse hoje do dia em que viu a ocupação que ajudou a montar ser destruída por uma ação de reintegração de posse realizada pela Polícia Militar. Em 1997, a agricultora junto com cerca de 300 famílias sem terra ocuparam o Engenho Prado, propriedade da Usina Santa Tereza, à época, pertencente ao grupo João Santos.</p>



<p>Depois da ocupação, as terras improdutivas passaram a ter uma rica produção de alimentos saudáveis e viraram um espaço comunitário para os trabalhadores da região. Porém, o proprietário do engenho não aceitou a ocupação e os agricultores viveram, de 1997 até 2005, diversos episódios de despejos violentos, perseguições e ameaças.</p>



<p>A fim de impedir a desapropriação das terras, o grupo João Santos apresentou um projeto de reflorestamento de bambu no Engenho do Prado. A iniciativa foi aprovada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e usada como álibi pelo grupo para questionar a vistoria do Incra na área. Mesmo assim, em 1998 o Incra realizou a vistoria e, após a terra ser declarada oficialmente como improdutiva, as propriedades do engenho foram destinadas à desapropriação para fins de reforma agrária.</p>



<p>Porém, o empresário conseguiu a reintegração de posse e, apesar do governo do Estado oferecer outras terras aos agricultores, os ocupantes resistiram ao primeiro despejo, que ocorreu em julho de 2003. Em novembro daquele mesmo ano, aconteceu o episódio de despejo mais truculento da história do Engenho Prado.</p>



<p>“Eles chegaram e disseram que em meia hora iam destruir todo o acampamento. Me pegaram às cinco da manhã. Retornei às oito da noite e ainda estava sendo desmanchado o acampamento que eu morava. Coisa mais linda, é algo que me emociona quando eu lembro, coisa mais linda do mundo, o povo unido e resistindo&#8221;, relembra Luiza.</p>



<p>Quando souberam da ação de despejo que estava prevista para acontecer em um sábado, os trabalhadores decidiram desocupar a área na sexta-feira. A perspectiva dos ocupantes era de que a reintegração pudesse ser anulada, que eles pudessem deixar o local pacificamente até que pudessem voltar a ocupá-lo, mas não foi isso que aconteceu. Ainda na madrugada da sexta para o sábado, quando os trabalhadores deixavam o assentamento para ocupar as margens da rodovia PE-41, que liga os municípios de Araçoiaba e Tracunhaém, o batalhão da Polícia Militar de Nazaré da Mata chegou ao local fortemente armado promovendo uma grande destruição na ocupação e agredindo os trabalhadores.</p>



<p>“Eles chegaram destruindo tudo, derramando comida no chão, ligar para as crianças que estavam com fome. Eles chegaram de vinte para as quatro da manhã. Eles destruíram as roças, toda nossa plantação, eles chegaram querendo nos matar mesmo”, contou Luiza. A agricultora chegou a ser agredida pelos policiais e foi detida.</p>



<p>“Eu lembro que, quando soubemos da ordem de reintegração, a primeira coisa que nós fizemos foi salvar as sementes. Nós tínhamos um galpão cheio de sementes e mandamos elas para outra ocupação. E doeu muito ver eles destruindo as plantas, as terras todas reviradas. Nós tínhamos um lugar que era sagrado, eram duas árvores gigantes, um pé de manga e um pé de jaca que unidas viraram um local sagrado para a gente. Era onde nos reuníamos para celebrar, almoçar juntos, fizemos até casamento neste local. Foi muito triste quando eles derrubaram essas árvores, você ver aquela cena do povo chorando assim, os mais velhos, os homens, todo mundo chorava”, disse a agricultora com lágrimas nos olhos.</p>



<p>Só em novembro de 2005, o Tribunal Regional Federal da 5ª região, em Pernambuco, acatou a decisão emitida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e suspendeu o mandado de segurança favorável ao grupo João Santos, concedendo, assim, a imissão da concessão de uso da terra aos assentados. Neste período, um grupo de trabalhadores assentados passaram 15 dias acampados em frente ao STF, em Brasília, para pressionar a decisão do órgão.</p>



<p>“No dia 9 de fevereiro de 1997 a gente entrou na terra e no dia 25 de novembro de 2005 a gente conseguiu a concessão de uso dela. Depois de muita peleja, até para Brasília nós fomos, para brigar pelo que era nosso”, afirmou Luiza Cavalcante.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868862764_17b3b275ed_c-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868862764_17b3b275ed_c.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868862764_17b3b275ed_c.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Luiza Cavalcante tem em sua casa um acervo de imagens sobre as disputas do Engenho do Prado. Crédito: Arnaldo Sete / MZ Conteúdo.</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O lote do assentamento de Luzia agora conta com uma associação, a Associação Sítio Agatha, que promove ações de educação, arte e cultura através da agroecologia, ou melhor, afroecologia, como explica Luíza: “É afroecologia porque nós entendemos que vem de uma formação ancestral, focada na experiência negra sobre a ecologia, a forma de viver, de plantar e dessa conexão com a terra”.</p>



<p>Agora que sabemos como as agricultoras enfrentaram a família de João Santos, vamos conhecer a nova luta contra outro sobrenome poderoso.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A nova ameaça ao território</strong></h2>



<p>“É um impacto tão grande, é uma dor na terra, na alma”. É nítido nos olhos e na fala trêmula de Luiza as consequências psicológicas que a chegada das torres de transmissão de energia elétrica à sua propriedade causaram. Em 2020, enquanto enfrentava a pandemia da covid-19, a agricultora também precisou lidar com a chegada do empreendimento da Rialma S/A em suas terras, causando desmatamento e outros transtornos.</p>



<p>“Não houve nenhum diálogo com a gente antes. Quando notamos já estavam acabando com a vegetação, abrindo estradas, passando as máquinas e tudo isso com a autorização do Ibama”, contou Luíza.</p>



<p>A Linha de Transmissão que ocupa parte da propriedade do Sítio Agatha é a Linha de Transmissão 500 kV Campina Grande III &#8211; Pau Ferro. Esta linha tem aproximadamente 130 km de extensão e sua instalação passa por 15 municípios de Pernambuco e da Paraíba.</p>



<p>O empreendimento pertence a empresa Rialma S/A, do <a href="https://www.gruporialma.com.br/quem-somos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Grupo Rialma</a>, com sede em Brasília e gerenciada pela família Caiado, nome de forte influência política, com atuação no estado de Goiás, incluindo o atual governador do estado, Ronaldo Caiado. O fundador do grupo empresarial é Emival Ramos Caiado Filho, pecuarista e primo do governador de Goiás.</p>



<p>O pecuarista foi condenado administrativamente em outubro de 2014 a constar na lista suja do trabalho escravo após fiscais encontrarem 26 trabalhadores em condições análogas à escravidão em uma de suas fazendas no Tocantins, mas em 2015 conseguiu uma decisão liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para suspender a inclusão do seu nome na lista do Ministério do Trabalho. Porém, em 2021, a liminar foi derrubada no STJ e o nome do pecuarista voltou a compor a lista.</p>



<p>O empresário é íntimo de políticos que fizeram parte da base de apoio a Jair Bolsonaro. Em 2022, de acordo com o sistema de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Emival doou R$ 1,84 milhão ao diretório nacional do partido União Brasil por meio de duas transferências eletrônicas, e afirmou que a doação seria direcionada a Pernambuco. O pecuarista ocupou o 6º lugar no ranking do TSE de Pessoas Físicas Doadoras no pleito de 2022.</p>



<p>O empresário também fez doações para as campanhas dos filhos do ex-ministro e senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). O grupo Rialma venceu os leilões de energia quando Fernando Bezerra Coelho era Ministro de Minas e Energia. De acordo com o TSE, Emival Caiado doou R$ 250 mil à campanha de Miguel Coelho, R$ 200 Mil à de Fernando Filho e R$ 150 mil à de Antônio, todos filiados ao partido União Brasil.</p>



<p>“Chegaram aqui um grupo de homens para fazer as obras. Um deles era um altão, de olhos claros, que disse ser da família Caiado. Ele chegou só avisando que a instalação seria feita e mostrou o licenciamento. A gente tinha que aceitar e pronto”, falou Luzia sobre o processo de instalação das torres da linha de transmissão.</p>



<p>Entre os impactos causados pelas linhas de transmissão, a supressão vegetal é a mais alarmante delas. Além da área onde as torres estão instaladas, uma área de 60 metros de largura abaixo dos fios é tratada como “faixa de servidão” e, de acordo com a própria Rialma S/A, não são permitidos nessas áreas: levantar bambus, varas cumpridas ou qualquer equipamento; plantação de porte médio ou elevado; fazer queimadas ou fogueiras; construir moradias, galpões ou qualquer benfeitorias. Com isso, calcula-se que para a instalação dos 130 quilômetros da linha de transmissão 500 kV Campina Grande III &#8211; Pau Ferro, uma área de aproximadamente 7,8 mil quilômetros quadrados foi desmatada. Isso sem contar com o que foi desmatado para a construção das estradas de acesso aos equipamentos de instalação.</p>



<p>“Nós estávamos construindo uma casa e os fios da linha de transmissão ia passar bem por cima dela e de acordo com as regras da empresa isso é proibido. Então, nós paramos a obra e, depois de muita luta e conversa com os empresários, conseguimos negociar para que eles mudassem um pouco a direção da torre e ela não atrapalhasse a construção”, contou Luiza Cavalcante.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868860394_e9ea67b9f2_c-1-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868860394_e9ea67b9f2_c-1.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868860394_e9ea67b9f2_c-1.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Luiza na casa que teve a construção interrompida devido a instalação da linha de transmissão. Crédito: Arnaldo Sete / MZ Conteúdo.</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Além disso, nosso terreno é extenso, mas nossa área agricultável não é tão grande assim, muitas das áreas são encostas e não dá pra plantar. Eles [trabalhadores da empresa] estão destruindo justamente a nossa área mais rica de plantação”, concluiu a agricultora.</p>



<p>Entramos em contato com a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) para saber mais detalhes sobre a licença de operação concedida ao grupo Rialma e sobre as medidas de compensação para a vegetação que está sendo suprimida. Em nota, a CPRH afirmou que “o empreendimento da RIALMA S.A não foi licenciado pela CPRH. Como o empreendimento ultrapassa os limites de dois estados da federação, a competência para o licenciamento é do Ibama”.</p>



<p>Também em nota enviada à Marco Zero, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que “ o empreendimento mencionado não é licenciado pelo Ibama. Sugerimos contato com órgão do estado para informações sobre o assunto”. No entanto, a licença prévia de instalação da Linha de Transmissão 500 kV Campina Grande III &#8211; Pau Ferro foi solicitada ao Ibama em março de 2018 através do processo nº 02001.106274/2017-83.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Consequências</h3>



<p>Além disso, Luiza Cavalcante afirmou que também teve contato com pessoas que se apresentaram como funcionários da CPRH. Procuramos mais uma vez a CPRH a fim de esclarecer os fatos, mas até o fechamento da matéria não obtivemos retorno.</p>



<p>Outra preocupação para Luzia e para seus vizinhos e vizinhas são os efeitos que as linhas de transmissão podem causar na saúde, ainda desconhecidos: “Os representantes da empresa falaram sobre um efeito eletromagnético que as torres podem ter, mas não detalham que efeitos são esses. Eu tenho medo de andar perto e embaixo dos fios, em dias de chuva eu evito ao máximo, mas eu preciso caminhar pela minha propriedade, cuidar da plantação&#8221;. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868857879_6d126e4945_c-1-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868857879_6d126e4945_c-1.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/06/52868857879_6d126e4945_c-1.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Fios expostos são encontrados na propriedade de Luzia, próximo a área de plantação da agricultora. Crédito: Arnaldo Sete / MZ Conteúdo.</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>De acordo com Luzia, desde a instalação da linha de transmissão, a qualidade do sinal de celular não é mais a mesma e os aparelhos eletrônicos de algumas casas, que estão mais próximas das torres, estão apresentando falhas e parando de funcionar. Além disso, os vizinhos das torres reclamam que há um barulho que incomoda. “Não é um barulho alto não, mas é um som contínuo e que não é natural e acaba incomodando, principalmente durante a noite. Sem falar na tristeza que toma conta da gente, né? Ver a nossa propriedade sendo destruída assim adoece a gente, eu mesma fiquei bem &#8216;deprê&#8217; quando começaram a instalação”, revelou a agricultora.</p>



<p>A fim de tornar público os impactos que as torres causam na vida dos moradores dos assentamentos de Tracunhaém, <a href="https://sitioagatha.org/?p=1069" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Associação Sitio Agatha lançou a campanha “Vizinha das Torres”, uma série de relatos das moradoras, disponível no site da organização</a>. </p>



<ul class="wp-block-list"><li><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></li></ul>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a></strong><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em><br><br><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></cite></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/linha-de-transmissao-de-energia-eolica-causa-desmatamento-em-terras-da-agricultura-familiar/">Linha de transmissão de energia eólica causa desmatamento em terras da agricultura familiar</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Luíza Cavalcante: “Temos presenciado a fome na zona rural”</title>
		<link>https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/</link>
					<comments>https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2020 13:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[agroecologia]]></category>
		<category><![CDATA[ancestralidade]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[Luíza Cavalcante]]></category>
		<category><![CDATA[Mata Norte Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Tracunhaém]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=29032</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Chico Ludermir, com colaboração de Anthony Santana No final dos anos 1990, Luíza Cavalcante ocupava, junto com outras 300 famílias, uma terra que estava há 25 anos improdutiva, na zona rural de Tracunhaém, Mata Norte de Pernambuco. Depois de conflitos que se arrastaram por uma década, o que incluiu o despejo violento dos acampados, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/">Luíza Cavalcante: “Temos presenciado a fome na zona rural”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Chico Ludermir, com colaboração de Anthony Santana</strong></p>



<p>No final dos anos 1990, Luíza Cavalcante ocupava, junto com outras 300 famílias, uma terra que estava há 25 anos improdutiva, na zona rural de Tracunhaém, Mata Norte de Pernambuco. Depois de conflitos que se arrastaram por uma década, o que incluiu o despejo violento dos acampados, o envenenamento da terra e o assassinato e prisão de trabalhadores e trabalhadoras, o conjunto de assentamentos Chico Mendes foi, enfim, demarcado (ver filme <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Khx-3ciKZRo" target="_blank" aria-label="undefined (opens in a new tab)" rel="noreferrer noopener">Engenho Prado &#8211; Guerra de Baixa Intensidade na Zona da Mata Norte de Pernambuco</a>).</p>



<p>Quando saiu de Casa Amarela, no Recife, onde nasceu, em busca de um terreno para plantar e colher, Luíza ainda não sabia que o lugar para onde estava indo era o mesmo onde sua bisavó tinha sido escravizada. Conversando com a avó, escutou: “Você foi buscar suas raízes” e teve a certeza de que era aquele o seu espaço. Firmada naquela terra onde estão as marcas da sua história e a do Brasil, Luíza, mulher negra, de meia idade, começou a construção de um novo mundo, que chamou de Sítio Ágatha, em homenagem à sua neta – um espaço agroecológico, feminista negro e matriarcal.</p>



<p>Em meio à pandemia que, sem previsões de fim, destroçou o mundo da maneira que o conhecíamos, busco em Luíza a partilha da sabedoria de quem nunca deixou de lutar pela sua vida e pela dos seus e suas: a experiência de quem firma o compromisso diário com a transformação e que tem colocado em prática outras formas de se relacionar com a natureza e com o consumo. Ao mesmo tempo, essa conversa, que tivemos às vésperas do São João, faz parte de um gesto de descentralização das narrativas acerca do presente. A zona rural, que está sempre às sombras das luzes do centros urbanos, como ela relata, está às voltas com a miséria. “A gente tem presenciado a fome”, comenta sobre seus vizinhos.</p>



<p>Na entrevista que segue, mais uma <strong>parceria da Marco Zero Conteúdo com o Programa Entre (Rádio Paulo Freire e Universitária FM)</strong>, Luíza fala sobre como a zona rural tem vivenciado as crises sanitárias, políticas e econômicas; sobre as possibilidades de uma perspectiva afrocentrada de agroecologia e sobre formas de resistir e sobreviver: “Estar organizado politicamente é uma maneira de se manter vivo. Estar sempre junto, nunca andar só”, afirma.</p>



<p><strong>Confira a íntegra da entrevista:</strong></p>



<p><strong>A sua história de vida e a do sítio Ágatha são simbólicas e representativas da luta pela terra. Queria que você contasse o que desemboca na criação desse espaço?</strong></p>



<p>A minha relação com o Sítio Ághata é bem ancestral. Vem da história de minha mãe, de minha avó e de minha bisavó. Vem da ancestralidade do povo negro que foi arrancado de suas raízes em África e trazido para serem escravizados aqui nas terras do Engenho Vinagre – e assim foi com meus bisavós maternos. Minha avó nasce aqui (onde hoje é Tracunhaém) e depois migra para Casa Amarela, no Recife, quando casa. Teve minha mãe, que me teve em Casa Amarela, um quilombo urbano ou “peri-urbano” como eu costumo dizer. Daí eu venho para a luta pela terra aqui, na Zona da Mata Norte. E é aqui que a gente, de posse da terra, vai se firmando. Compreendemos que é uma herança nossa. Uma herança da ancestralidade. É aqui onde estão nossas raízes da diáspora. Foi aqui que minha bisavó desapareceu quando minha avó era criança: ela foi buscar água no rio e nunca voltou. O rio nunca devolveu o que não tomou. Para gente é uma questão muito importante de tornar esse sítio um lugar de fato de vida, um lugar de bem viver, de força, de mulheres.</p>



<p><br><strong>A gente sempre tem muito mais acesso às narrativas a partir dos centro urbanos. Mas as experiências rurais têm diversas particularidades que são apagadas e invisibilizadas. Como vocês do sítio têm lidado com esse momento? O que você tem observado das redondezas, do assentamento Chico Mendes ou de outros espaços que você tem tido notícias?</strong></p>



<p><br>Aqui no nosso entorno a gente tem sentido, vivenciado, presenciado a fome. Já existe fome. Embora nós estejamos numa área de assentamento, os nossos vizinhos no entorno têm necessidades. Eles vivem da cana-de-açúcar, desse trabalho sazonal. São seis meses trabalhando, seis meses não. A gente sabe que o Bolsa-Família não atende as necessidades completamente, então esse povo, a maioria preto, cheio de crianças, tem sentido esse impacto da fome mesmo. Está faltando alimento.</p>



<p>A gente tem desenvolvido por aqui uma campanha de doação de kits para o enfrentamento (ao coronavírus), não só de limpeza, mas de comida, para o enfrentamento da fome. Aos poucos temos conseguido cestas básicas e distribuído para essas pessoas. Juntamos isso a produtos agrícolas – a macaxeira, o milho&#8230; Quem tem esses produtos está também distribuindo a esses outros companheiros e companheiras que estão sofrendo já esse impacto. A gente sente também a falta de informação. A informação ainda chega muito raramente nesses lugares. Muita gente ainda não conseguiu entender de fato o que é que está acontecendo esse momento de pandemia, qual é de fato o perigo desse vírus. Informação, formação, alimentação: isso tem faltado muito na zona rural.<br><br><strong>Eu sei que não é de agora que você tem pensado formas de organização, resistência e transformação, elas atravessam por completo toda sua história de vida. Mas, diante do agora, nesse cenário, o que você consegue enxergar como possibilidade?</strong></p>



<p><br>Eu enxergo como possibilidade essa organização que as pessoas vêm fazendo, especialmente, nas periferias. O movimento de solidariedade, de distribuição de kits, de alimentos, de estar cuidando desse povo, aponta para o tipo de governança que a gente quer e para o tipo de relação que a gente quer estabelecer com os outros e outras. Eu tenho esperança que isso sirva como um instrumento de reflexão e de fortalecimento. O afeto, o cuidado, a solidariedade são as bases para sustentar um sistema de governança de um povo num território e muita gente está se voltando para isso: para fazer, ou melhor, para intensificar o que já vinha fazendo. A gente sabe que quem está fazendo agora já vinha antes atuando dentro das comunidades e agora se fortalece com mais gente chegando e participando.</p>



<p><strong>A gente reconhece nas práticas comunitárias um lugar de potência e transformação. Por outro lado a gente vive uma instituição politica que esmaga essas práticas, assim como tenta eliminar a diferença. A gente tem visto que na gestão dessa pandemia a prática política institucional é deixar as pessoas morrerem de diversas formas – de fome, também, como você citou. Eu queria te convidar a pensar essa gestão da política institucional brasileira e te perguntar como você entende que a gente consegue incidir sobre o que extrapola a nossa comunidade.</strong></p>



<p><br>Nesse momento, a gente vive um sistema que é um sistema de eleição. Tudo se resolve pelos partidos. É o que temos. Nesse estado de governança por partidos é preciso que a gente pense bastante em quem a gente quer que nos represente. É uma sociedade de representação. Quem me representa? Quem eu quero lá? Então esse é um chamado que eu faço para que as pessoas reflitam sobre isso. A gente olha para dentro desse país e vê que quem tá lá decidindo as nossas vidas são homens brancos. Qual é a cultura do homem branco nesse país senão a de extorsão, de violação de direitos, de negação da vida. A história de que o lucro é deles e cada vez mais deles. Romper com isso é necessário nesse momento para que a gente possa de fato estabelecer uma governança boa. Quando a gente olha para a governança de mulheres – desde a casa, o seu lar, as associações comunitárias e as outras organizações – é sempre uma gestão eficaz, boa, afetuosa e solidária. A gente olha e pensa o todo, pensa em todos e todas. É um momento que a gente chama para isso: para que a gente pense e reaja no sentido de colocar mulheres no poder. Chega de homem branco decidindo a nossa vida. Vamos mudar. Se é esse o sistema que a gente tem para o momento, mudemos de posição. Pensar as mulheres, pensar as mulheres negras no poder para esse momento, é necessário. Nós sabemos gerenciar. A gente vive a vida inteira administrando pouco. A gente sabe como administrar, como distribuir para todo mundo igualmente: como pegar um ovo e alimentar dez, como pegar um pão e alimentar dez. Uma mulher, especialmente negra, em espaços de poder, administrando uma prefeitura, um estado, uma assembleia legislativa, uma câmara de vereadores, um senado, a presidência da república, essa mulher vai saber favorecer de fato toda a nação, todo o território.</p>



<p><br><strong>A agroecologia é um conjunto de práticas que apontam para outra relação entre humano e natureza. Sei que é um tema que você tem se debruçado há muito tempo – tanto estudado como colocado em prática. O que você acha que a partir da agroecologia é possível enxergar e transformar?</strong></p>



<p><br>Quando a gente pensa agroecologia, acaba sempre pensando como um espaço de produção de alimentos. A agroecologia é um espaço de produção de conhecimentos, de produção, de novas relações acima de tudo. Esse tem sido o grande desafio da gente: estabelecer relações de fato solidárias, saudáveis, de um bem viver entre as pessoas e de chamar as pessoas a refletirem sobre ser um animal e ser também uma semente. Como tal, eu preciso estar bem com esses dois reinos – animal e vegetal. A agroecologia faz isso. Mas, para além disso, nós temos sido provocadas e temos, a partir da agroecologia, pensado as estruturas de poder. Repensar, olhar e reagir com relação ao patriarcado e como ele afeta esse campo, especialmente rural. A agroecologia hoje, através de um movimento de mulheres, em especial, a articulação de mulheres da Ana (Associação Nacional de Agroecologia), e também através da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, vem trabalhando nesse aspecto do patriarcado e os impactos dele na vida das mulheres no campo agroecológico e não agroecológico também. Quando a gente vem para o rural são muito fortes as opressões que são estabelecidas. Visibilizar isso e lutar contra é uma obrigação que a gente tomou para si no campo agroecológico também. Se há racismo, não há agroecologia. Se há opressão contra a mulher, não há agroecologia. Então, sem feminismo não há agroecologia. A gente tem trazido esse debate pela divisão justa do trabalho doméstico e no enfrentamento a essas relações patriarcais. Ao mesmo tempo, há muito racismo. Em geral, quando se vinha para o campo pensando agroecologia enquanto produção de alimentos, a gente encontrava sempre os agricultores das famílias brancas nos espaços de feiras e também na mídia. O casal branco bem sucedido. Isso denuncia as estruturas de sociedade. Hoje o povo negro e indígena tem dito: “Estamos aqui. Somos povos ancestrais que trazem consigo esse conhecimento e prática. A gente não mais cede e nem permite mais que tomem nossa voz, nosso papel, que nos invisibilizem. Estamos fazendo e queremos estar também nos espaços de tomada de decisão”. E minimamente temos conseguido isso. A agroecologia vem cumprindo um papel muito importante de pensar o todo. Não só a produção do alimento, mas tudo o que envolve essa produção. Do alimento ao conhecimento. A produção também dos enfrentamentos às estruturas que trazem desamor, destruição.</p>



<p><br><strong>Você que tem na sua história a luta pela reforma agrária, que se colocou em confronto com grupos muito poderosos – com latifundiários, com a polícia, com o </strong><strong>E</strong><strong>stado e toda essa estrutura complexa de opressões, de gênero, de raça, como é possível enfrentar esse momento?</strong></p>



<p><br>Tomar água! (risos). Beber água é uma forma de se manter vivo. Mas se organizar, estar organizado, é uma maneira de se manter vivo. Se organizar dentro de casa com seus filhos, seus irmãos, seus pais, seus parentes, seus familiares; se organizar consigo mesmo; se organizar dentro da comunidade, nos sindicatos, nos grupos de mulheres, nos grupos de leitura; se organizar socialmente nos grupos de cultura. Se organizar, mobilizar, estar juntos é uma maneira de a gente se manter vivos neste tempo. Não andar só. Lembrar que a gente olha no olho do outro para confiar, como dizem os mais velhos: “o olhar é o portal da alma”. Você olha no olho do outro e vê a alma. Se você vê que a alma do outro é ruim, foge. Não confie em homem fardado e nem em determinadas instituições que a gente já sabe, são falidas. Elas vivem para nos negar o direito e violar a vida. Estar sempre juntos e beber muita água.</p>



<p><br><strong>Como eu tenho feito para todos os meus entrevistados e entrevistadas, eu queria terminar esse programa te fazendo o que eu tenho chamado de “pergunta entre”. Pensando nesse</strong><strong>s</strong><strong> outros possíveis, que t</strong><strong>ê</strong><strong>m </strong><strong>que </strong><strong>ser imaginados e refeitos, que outro mundo precisa entrar? Ou que experiências, práticas e sujeitos precisam entrar nesse outro mundo que é urgente criar?</strong></p>



<p>Precisa entrar um mundo de bem viver. Um mundo sem racismo, sem lesbofobia, sem homofobia, sem machismo. Um mundo sem patriarcado e sem capitalismo. Um mundo sem tudo isso que vem nos matando, mas, sim, um mundo de afeto, solidariedade. Um mundo de partilha e de compaixão. Esse mundo precisa retomar seu lugar e a gente tem muito em que se mirar: estão aí os povos indígenas, estão aqui os povos negros. Quando a gente olha para trás e para o lado – nem precisa olhar muito longe – existem muitos grupos resistindo, e reexistindo com uma vida de qualidade, lutando por isso, por um bem viver de fato. A natureza, ela é o maior exemplo. Você olha o campo – e a gente está aqui vivendo esse momento do cuidado – você olha o sol, os elementos da natureza, as plantas, as flores, os frutos, o ar, o vento, a noite, as estrelas, a lua, a água. Você olha todos esses elementos que estão aqui fartamente disponíveis. É cuidar disso, aprender a conviver com isso. Aprender a respeitar. É esse mundo que precisa entrar: um mundo que eu olho para tudo em volta de mim – e todas e todos – e respeito e me sinto bem. A gente se dá as mãos. Esse mundo.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/">Luíza Cavalcante: “Temos presenciado a fome na zona rural”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
