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	<title>Arquivos Diálogos - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Diálogos - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>A declaração de Lula e os genocídios lembrados ou esquecidos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Feb 2024 19:19:37 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[genocídio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Anderson Barbosa* No momento em que começo a escrever esse artigo quase 30 mil palestinos já foram assassinados pelo Estado de Israel. Entre eles, mais de 12 mil crianças. Mais de 1 milhão de pessoas foram expulsas de suas casas e se espremem em campos de refugiados improvisados, sofrendo a angústia de poderem ser [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Anderson Barbosa*</strong></p>



<p>No momento em que começo a escrever esse artigo quase 30 mil palestinos já foram assassinados pelo Estado de Israel. Entre eles, mais de 12 mil crianças. Mais de 1 milhão de pessoas foram expulsas de suas casas e se espremem em campos de refugiados improvisados, sofrendo a angústia de poderem ser as próximas vítimas dos bombardeios israelenses, ao mesmo tempo em que sofrem com a escassez quase completa de alimentos, sendo muitas vezes obrigadas a comer ração animal para não morrer de fome ou beber água poluída para não morrer de sede. Mais de 300 instalações de saúde foram atacadas e praticamente não existem mais locais para onde levar os feridos e doentes. E, mesmo quando existem ou existiam, não raras vezes as ambulâncias são impedidas por tanques de guerra ou por bombardeios de prestarem socorro às vítimas.</p>



<p>No momento em que você estiver lendo certamente os números acima já estarão desatualizados. É provável que já estejam mesmo agora, já que nem todas as vítimas e corpos puderam ser resgatados dos escombros e o número de assassinados tem tudo para ser muito maior que o oficial, registrado tanto pelas autoridades palestinas quanto pela Organização Mundial de Saúde.</p>



<p>Esse é o drama atual do povo palestino, ou melhor, é parte dele, já que minhas palavras são insuficientes para descrever o tamanho das atrocidades que estão sendo cometidas na Faixa de Gaza nos últimos quatro meses. Você pode chamar a isso pelo nome que quiser, mas isso não muda a realidade do que está acontecendo. A África do Sul chamou de genocídio e denunciou Israel na Corte Internacional de Justiça por isso. O Brasil, corretamente, endossou a acusação. No último 18 de fevereiro, o presidente Lula, de forma corajosa e correta, chamou novamente assim com todas as letras.</p>



<p>A verdade certamente dói aos ouvidos daqueles que idolatram a mentira. E de forma completamente esperada reagiram eles furiosamente à declaração de Lula. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, o genocida carniceiro de Gaza, obviamente esperneou e, como é habitual, distorceu a declaração de Lula. Para surpresa de ninguém utilizou a carta curinga que utiliza toda vez que seus crimes são denunciados e expostos: acusou Lula de antissemitismo. Acusou Lula de minimizar o holocausto judeu. Obviamente mentiu, já que em nenhum momento Lula fez isso.</p>



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	                                        <p class="m-0">Presidente Lula durante a cerimônia de Abertura da 37º Cúpula da União Africana, na Etiópia. Foto: Ricardo Stuckert/PR</p>
	                
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<p>Curiosa essa acusação de Netanyahu contra Lula, já que minimizar os crimes dos nazistas foi exatamente algo que o próprio Netanyahu fez alguns anos atrás: “Hitler não queria exterminar os judeus na época”. Estas foram as exatas palavras proferidas pelo genocida Netanyahu. <a href="https://youtu.be/f9HmkRYlVZw?feature=shared">Declaração que pode ser facilmente conferida clicando aqui</a>.</p>



<p>À reação do carniceiro de Gaza juntou-se a de seus vassalos na mídia brasileira, assim como na extrema-direita bolsonarista. O mesmo segmento da mídia que se escandaliza com a fala de Lula mas oculta ou minimiza e justifica o assassinato de mais de 12 mil crianças palestinas. A mesma extrema-direita que não se escandalizou quando Bolsonaro se encontrou e tirou foto sorridente ao lado da líder do partido neonazista da Alemanha, Beatrix Von Storch.<br>Mas a hipocrisia dos citados acima já é velha conhecida e não merece mais consideração do que já foi dada aqui. Vamos tratar da declaração de Lula.</p>



<p>O genocídio que vitimou os judeus certamente é algo que deve horrorizar a humanidade e que deve ser sempre lembrado com repulsa.</p>



<p>Mas infelizmente ele não foi o primeiro nem o maior da História. Em termos de escala de mortos o genocídio dos povos originários na América foi muito maior. Não foi o primeiro nem o maior nem mesmo do século passado. No início do século XX, pelo menos dez milhões de congoleses foram exterminados sob o comando do rei da Bélgica, Leopoldo II. Sobre o genocídio do povo congolês é possível dizer que choca não só a brutalidade do acontecimento em si, mas o fato dele ser frequentemente esquecido ou ignorado. E talvez por isso mesmo ele guarde mais semelhanças com o atual genocídio em Gaza. Mas voltemos a isso mais à frente.</p>



<p>Mas antes é preciso dizer que, evidentemente, não se trata aqui de fazer uma competição ou ranqueamento sobre qual povo sofreu mais. Sob determinado aspecto e dimensão a dor e o sofrimento de cada povo é único e incomparável a qualquer outro, assim como são a dor e o sofrimento de cada indivíduo. Há algo individual e particular na dor que é impossível mensurar externamente. Mas certamente há ali também algo de geral e universal e é exatamente isto que torna possível nossa empatia por quem sofre. Entre os povos algo semelhante acontece. E se é verdade que a tragédia de cada povo guarda particularidades que só podem ser compreendidas conhecendo profundamente este povo. É verdade também que há um aspecto ou dimensão geral, onde não só é possível mas é necessário comparar ou equiparar tal sofrimento. Aliás, é precisamente porque é possível comparar e equiparar esses episódios é que podemos chamar a todos eles pelo mesmo termo: genocídio.</p>



<p>Os povos indígenas da América, o povo congolês, os judeus foram igualmente vítimas de genocídios. E assim como se deve evitar a comparação sobre quem desses povos sofreu mais ou menos, deve-se igualmente evitar a seletividade de alguns que só conseguem enxergar em um deles a qualificação de vítimas de genocídio.</p>



<p>Não coincidentemente, é essa mesma seletividade que impede estas pessoas de enxergar que o que acontece hoje na Palestina é um genocídio. É essa seletividade que faz com que essas pessoas quando falam do holocausto como o maior genocídio da História, esqueçam ou ignorem que mais de dez milhões de congoleses foram assassinados pelo governo belga no mesmo século.</p>



<p>Os métodos de limpeza étnica, de extermínio com base no critério racial entre todos esses casos são basicamente os mesmos. Na comparação entre o genocídio do povo judeu e o atual do povo palestino há ainda a semelhança entre os campos de concentração. E no que Israel tornou a Faixa de Gaza, senão num gigantesco campo de concentração? Os palestinos vivem hoje sob um regime brutal de colonização e apartheid, muito semelhante ao qual foram submetidos os judeus pelos nazistas. Os palestinos são vítimas inclusive de experimentos para as armas israelenses ou até de roubo de seus cadáveres pelo exército israelense para serem levados a laboratórios. Mesmos métodos empregados pelo regime nazista contra os judeus.</p>



<p>Mas certamente para as pessoas que compartilham dessa seletividade é conveniente esquecer ou minimizar genocídios e massacres na África, Ásia ou América. Para elas, as vidas que de fato importam e merecem ser lembradas são as dos europeus e/ou brancos. E elas acreditam realmente nisso ainda que não percebam.</p>



<p>É precisamente isso que as impede de se comover de fato com a dor e o sofrimento do povo palestino. Os palestinos não são europeus nem são majoritariamente brancos. Os palestinos pertencem à mesma categoria de seres humanos a qual pertencem os congoleses. A categoria daqueles por quem a empatia deve ser, no máximo, passageira. Daqueles cujo sofrimento não merece jamais ser comparado ou equiparado ao de europeus e/ou outras populações majoritariamente brancas.</p>



<p>E quem ousar fazer diferente disso deve ser alvo de toda a ira da civilização ocidental. Lula ousou dizer a verdade. Talvez mais que isso: ousou elevar palestinos à categoria de seres humanos iguais aos filhos do ocidente. E portanto, a ele deve ser destinado todo o ódio e fúria dos que se dizem porta-vozes da civilização ocidental.</p>



<p><strong>*Professor de História licenciado pela UFPE</strong></p>



<p><br><br></p>
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		<title>Porque as autoridades, a FPF-PE e os dirigentes de clubes são culpados pela violência entre torcedores</title>
		<link>https://marcozero.org/porque-as-autoridades-a-fpf-pe-e-os-dirigentes-de-clubes-sao-culpados-pela-violencia-entre-torcedores/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jan 2024 21:44:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[polícia em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Adriano Costa* O Grupo de Trabalho do Futebol no Estado é um fórum que conta com a presença da Secretária de Defesa Social de Pernambuco, Poder Judiciário, Ministério Público Estadual, Federação Pernambucana de Futebol, clubes de futebol, polícias Militar, Civil e Corpo de Bombeiros. Menos a participação efetiva da sociedade civil organizada, incluindo aí [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Adriano Costa*</strong></p>



<p>O Grupo de Trabalho do Futebol no Estado é um fórum que conta com a presença da Secretária de Defesa Social de Pernambuco, Poder Judiciário, Ministério Público Estadual, Federação Pernambucana de Futebol, clubes de futebol, polícias Militar, Civil e Corpo de Bombeiros. Menos a participação efetiva da sociedade civil organizada, incluindo aí a representação de torcedores, torcedoras e torcidas.</p>



<p>A reivindicação para que isso aconteça não é nova.</p>



<p>Em 3 de dezembro de 2021 foi realizada uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) por iniciativa da então deputada estadual Teresa Leitão (PT), que recebeu o apelo de uma representação de torcedores dos três maiores times de Pernambuco junto à Associação Nacional de Torcidas Organizadas (Anatorg). Naquele encontro ficou encaminhado que, um Grupo de Trabalho reunindo representantes de instituições públicas e da sociedade civil seria formado, porém isso nunca ocorreu.</p>



<p>Durante a semana, a coordenação regional da Anatorg no Nordeste encaminhou ofício para todos os órgãos organizadores de eventos esportivos no estado e que fazem parte do atual GT. O documento, evocando o artigo 151 da nova Lei Geral de Esportes, que deixa claro que “é direito do espectador a implementação de planos de ação referentes a segurança, a transporte e a contingências durante a realização de eventos esportivos com público superior a 20.000 (vinte mil) pessoas”, se colocou à disposição em construir com muito diálogo junto às torcidas, movimentos, “barra bravas”, clubes e torcedores organizados, a elaboração de um plano de segurança para os clássicos entre Náutico, Santa Cruz e Sport pelo campeonato pernambucano.</p>



<p>Tal ofício foi protocalado na Grande Recife sob o número 0050500003.000360/2024-21, na secretaria de Defesa Social (protocolo 3900000003.000381/2024-72), e no Comando Geral da PMPE (3900000015.000227/2024-61), sendo encaminhado ao comandante-geral. Em nenhum dos casos, houve qualquer resposta. A Torcida Explosão Coral chegou inclusive a organizar um plano logístico, enviado para a coordenação regional da Anatorg e notificou as autoridades sobre trajetos e necessidades de escolta policial. Tal plano previa pontos de concentração em Maranguape (Paulista), ao norte; em Jaboatão Centro, ao oeste; em Prazeres (Jaboatão dos Guararapes), ao sul, além de um ponto de concentração geral da torcida na rua do Hospício, centro do Recife.</p>



<p>O plano informa ainda sobre o trajeto em caminhada da rua do Hospício até a Estação Recife do Metrô, de onde saiu um metrô expresso com a torcida tricolor, rumo ao terminal do TIP, onde estava previsto um esquema especial de policiamento que iria fazer a escolta até a Arena, mas esse destacamento policial não chegou. A torcida, então, seguiu em caminhada do TIP pela BR-232 até a entrada da área de visitantes. Eram pelo menos duas mil pessoas andando por mais de cinco quilômetros.</p>



<p>Há uns 500 metros para a entrada dos visitantes na Arena Pernambuco, ainda não se via sinal da escolta policial, tornando mais real a possibilidade de confrontos, o que acabou não acontecendo porque o grupo vinha sendo conduzido pelas lideranças da torcida organizada, que evitou o embate e aguardou o deslocamento do Batalhão de Choque em direção ao grupo.</p>



<p>É importante destacar que, durante toda a semana, o clube mandante descumpriu o artigo 143 da Lei Geral de Esportes (“É direito do espectador que os ingressos para as partidas integrantes de competições em que compitam atletas profissionais sejam colocados à venda até 48 horas antes do início da partida correspondente”), pois só liberou a compra apenas após uma abertura de processo em liminar solicitando gratuidade feita pela Anatorg na tarde da sexta-feira, 19 de janeiro. Com isso, faltando apenas 30 horas para o espetáculo iniciaram as vendas, com esgotamento imediato de ingressos meia entrada e, logo após, inteira, mesmo com vendas apenas virtuais.</p>



<p>Somente a uma hora do início da partida os portões para a torcida visitante foram abertos, mas com apenas três catracas funcionando, o que obrigou o uso de maquinetas para leitura de QR CODE dos ingressos. O resultado está nas redes sociais: sobram vídeos nas redes sociais com relatos de desumanidade, pisoteamento, maus tratos, violência policial, esmagamento, tortura, uso de cacetetes e spray de pimenta. mesmo sendo uma arena planejada para uma Copa do Mundo, foi proposital.</p>



<p>Em nota veiculada no site oficial do clube, o Sport Club do Recife, deixa claro que houve erros no GT, principalmente ao considerar a previsão de duas mil torcedores visitantes. A inoperância do diálogo do GT tem se deslocado da realidade da arquibancada e, por essa razão, toma decisões irresponsáveis.</p>



<p>Cabe à governadora Raquel Lyra e a SDS/PE intervir e reorganizar com urgência as forças policiais que fazem a segurança dos eventos esportivos em Pernambuco, com a abertura de um canal direto com a sociedade civil e comunidade pernambucana de torcedores.</p>



<p>O GT que atua subordinado ao Governo do Estado pode, pela Lei Geral de Esportes, ser responsabilizados judicialmente pelos problemas de segurança e organização deste sábado, 20 de janeiro, , como diz o artigo 149, “a responsabilidade pela segurança do espectador em evento esportivo será da organização esportiva diretamente responsável pela realização do evento esportivo e de seus dirigentes”.</p>



<p>As cenas confrontos entre torcedores na Região Metropolitana na manhã de sábado, com três pessoas baleadas perto do terminal integrado Pelópidas da Silveira, em Paulista, não aconteceram por acaso. Se os torcedores envolvidos são os atores da violência, as decisões do Grupo de Trabalho são responsáveis pela direção, montagem de palco e criação do cenário onde os protagonistas da barbárie atuam.</p>



<p><strong>*Adriano Costa é coordenador regional da Associação Nacional de Torcidas Organizadas (Anatorg) no Nordeste</strong></p>



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<p><br></p>
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		<title>O racismo do Armazém Coral e o protesto pelo professor discriminado</title>
		<link>https://marcozero.org/o-racismo-do-armazem-coral-e-o-protesto-pelo-professor-discriminado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jan 2024 17:47:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Martihene Oliveira* Quando esta jornalista negra se dirige a fazer uma reportagem sobre racismo, nunca é só sobre o fato. É sobre quem será entrevistado, sobre as circunstâncias que se encontra a fonte principal e sobre a própria jornalista também, afinal, talvez um dos exemplos mais convincentes para a sociedade de que a imparcialidade [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Martihene Oliveira*</strong></p>



<p>Quando esta jornalista negra se dirige a fazer uma reportagem sobre racismo, nunca é só sobre o fato. É sobre quem será entrevistado, sobre as circunstâncias que se encontra a fonte principal e sobre a própria jornalista também, afinal, talvez um dos exemplos mais convincentes para a sociedade de que a imparcialidade jornalística é um mito é quando entrevistadores e entrevistados se parecem, comungamos no mesmo diálogo.</p>



<p>Meus olhos marejaram quando o professor Eduardo Nogueira chorou, e eu senti um arrepio imensurável, por dentro e por fora, quando conversei com seu advogado que também é negro. Ao falar sobre o caso de seu cliente, o profissional acabou me relatando algumas de suas dores em uma conversa informal. A jornalista, o professor e o advogado encontraram-se na última quarta-feira (17), nas portas do Armazém Coral Achaqui, com mais umas 50 pessoas; entre nós, alguns brancos antirracistas. Todos com a mesma bandeira: a política de atendimento a clientes e funcionários negros do Armazém Coral de materiais de construção precisa urgente ser reconstruida. Não é só responsabilizar o funcionário, é capacitá-lo para um atendimento respeitoso, que não nos constranja quando na loja entrarmos, passarmos ou sairmos, além de indenização para a vítima e de cumprimento da lei.</p>



<p>O fato se deu porque no dia 6 de janeiro deste ano, quando o professor Eduardo comprou um produto no estabelecimento, foi constrangido por funcionários a abrir sua mochila e tirar todos os seus pertences na loja da avenida Getúlio Vargas, em Bairro Novo, Olinda. “Meu sentimento é de repúdio diante da minha integridade. Nunca roubei, nem matei e nem fiz nada de errado para isso ter acontecido. Fui acusado pelo gerente e pelo segurança de ter roubado o produto da loja e eu não roubei nada”, enquanto o professor me falava, lembrei das incontáveis preocupações em manter minhas mãos sempre à mostra quando entro nas lojas com sacolas. É que a gente respira melhor quando entramos em uma loja e já lacramos a sacola, melhor do que entrarmos com ela aberta, né não?! A gente tem todos os cuidados e ainda passa por isso. Lembrei do dia em que insinuaram que eu e meu irmão teríamos furtado brincos de R$ 5,00 em uma loja de miçangas e dos relatos das irmãs Adriana e Betânia, moradoras do Córrego do Sargento, em Linha do Tiro, que ao entrarem nas lojas Americanas com seus filhos, todos retintos, ouviram o grito de uma vendedora para a outra: “Olha o baculejo!”.</p>



<p>Essas coisas que a gente fala, todo mundo sabe que acontece. Sabe, sabe sim. Ninguém é inconsciente sobre isso, nem mesmo o negro sem letramento racial, que sente dores mas não sabe de onde vem, e, se ele não sabe de onde vem, não tem diagnóstico e, se não tem diagnóstico, demora pra encontrar remédio, mas, ainda que com toda essa problemática, causada pelo roubo da nossa identidade, até ele sabe que isso sempre acontece. Aí eu pergunto a vocês: o que nos cura do racismo sofrido?</p>



<p>“Eu provei a eles que estava com a sacola da própria loja e com a nota fiscal, mesmo assim, ele queria que eu abrisse a mochila e mostrasse o produto que estava dentro dela. Eu pedi para que chamassem a polícia e chamassem também alguém de testemunha para mim. Aí apareceu Betânia e Alexandre, seu esposo, clientes da loja, que serviram de testemunhas. Foi quando eu coloquei a mochila na mesa, tirei as coisas de dentro dela e não tinha nada da loja porque eu não roubei, a não ser o produto que eu paguei e que estava com a nota fiscal”, continuou.</p>



<p>Quando chegamos ao local do ato, o Movimento Negro Unificado (MNU) estava lá, a CUT, sindicatos e diversos movimentos sociais, algumas viaturas da Polícia Militar também, o que me gerou um questionamento instantâneo sobre a pressa da PM em estar no local, e eu tendo a certeza de que não foi o nosso povo quem chamou, – pois é, se não foi a gente, a serviço de quem a PM chegou? – a pressa da PM em evitar nossa “desordem”, como “negras e negros arruaceiros” que somos, não foi a mesma para atender o professor. Algo percebido por mim e por ele, e sei que se eu entrevistasse mais pessoas, elas também comentariam sobre isso. As cinco horas de espera para ser atendido foi destaque nos jornais da TV quando esse caso ocorreu.</p>



<p>Para o professor, houve negligência no atendimento da polícia, para mim, também. “Eu achei estranho o atraso da polícia, o primeiro registro foi às 11h09, e a polícia só chegou depois das 16 horas. Se fosse o contrário? Hoje, aqui neste ato, a gente chega e tem diversas viaturas aqui, porque não tiveram essa mesma urgência para atender a minha denúncia?”, disse.</p>



<p>Nesse ato, eu vi, um estudante branco que passou correndo para pegar o ônibus, enquanto ele corria, mostrava o dedo do meio ao armazém. Do outro lado da rua, um homem branco, de cabelos escuros, nariz afilado e um relógio caro, filmava por horas o nosso protesto, por trás de uma árvore, entre as folhagens. Depois, entrou tranquilamente, sem riscos de ser agredido, passando pelo nosso grupo ao som que saía dos nossos microfones, dizendo que ele podia filmar porque não vamos recuar. Brancos constrangidos rompiam nosso motim, alguns com cara de poucos amigos e enquanto isso, funcionários negros cravavam seus pés na porta da loja, enquanto outros puxavam carros de cimento para fora e entravam com carros vazios para dentro. Foi assim durante todo o protesto.</p>



<p>O advogado da vítima, informou que teve acesso às imagens da câmera de segurança e que não há nenhum sinal que possa ser subentendido que Eduardo estaria cometendo um crime. “Ao todo, cinco pessoas foram demitidas, mas o que queremos não é a demissão dos funcionários, o segurança, por exemplo, um homem negro, exerceu seu papel conforme foi orientado pela funcionária que operava as câmeras de vigilância. Nós queremos retratação do Armazém Coral com uma política de capacitação dos funcionários e de combate à discriminação racial, bem como a indenização para o professor”, afirmou o jurista.</p>



<p>Apesar da minha parcialidade, pela ética e pelo direito de resposta do outro lado, procurei o Armazém Coral para ouví-lo, não me receberam. Eu sei! Mesmo apresentando meu DRT, não foi minha câmera que intimidou o armazém. Foi o meu black, a minha cor, o meu vestido colorido que me denunciou. Eu não estava a favor deles.</p>



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	                                        <p class="m-0">Martihene Oliveira entrevista professor vítima de racismo em Olinda. Crédito: Agência Mazella</p>
	                
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                    </figure>

	


<p><strong>*Martihene Oliveira é mulher negra, jornalista, idealizadora do Coletivo de Mídia Independente e Popular Sargento Perifa e autora do Livro-reportagem <em>Urubu Marrom &#8211; Relatos de uma jornalista da favela</em>.</strong></p>
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		<title>Por que a linguagem não-binária não briga com a linguagem simples</title>
		<link>https://marcozero.org/porque-a-linguagem-nao-binaria-nao-briga-com-a-linguagem-simples/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Dec 2023 18:42:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[artigo de opinião]]></category>
		<category><![CDATA[gênero e linguagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Iran Melo* E, no apagar das luzes do ano, a linguagem não-binária volta a incomodar. No último dia 12, o Projeto de Lei nº 6256/2019, que institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta foi votado e aprovado na Câmara Federal, trazendo a antiga querela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por <a href="https://www.progel.ufrpe.br/pt-br/authenticated/iran-ferreira-de-melo">Iran Melo</a>*</strong></p>



<p>E, no apagar das luzes do ano, a linguagem não-binária volta a incomodar. No último dia 12, o <a href="https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2231632" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Projeto de Lei nº 6256/2019</a>, que institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta foi votado e aprovado na Câmara Federal, trazendo a antiga querela sobre o assunto para pensarmos um projeto de país. Dessa vez, tal PL defende que uma linguagem não-binária, por criar modelos não convencionais de representar gênero na gramática, é prejuízo para a escrita acessível de textos oficiais e, logo, deve ser banida desse contexto em território nacional.</p>



<p>O texto original sofreu grandes distorções durante a tramitação e, quanto ao seu tema central, que é a linguagem acessível, baseia-se em recomendações genéricas e, muitas vezes, vinculadas ao senso comum, portanto sem fundamento científico, para estabelecer “o conjunto de técnicas de linguagem simples” que deve ser observado pela administração pública em suas ações de comunicação dirigidas à sociedade. Entre essas recomendações, está a de se evitar o uso da voz verbal passiva e de estruturas intercaladas nas sentenças em qualquer situação, sem que se levem em conta o contexto e o objetivo da interação, regra básica tão cara aos estudos da linguagem.</p>



<p>A Associação Brasileira de Linguística (Abralin) por intermédio de sua comissão de Políticas Públicas, coordenada pelo professor doutor Xoán Lagares, estabeleceu diálogo com parlamentares federais para propor mudanças no texto do PL. Em reunião, conversou com a Deputada Erika Kokay (PT-DF), autora do projeto, a fim de apresentar contribuições da ciência da linguagem. Algumas colaborações foram acatadas, mas muitas outras ficaram pendentes e, mesmo assim, a matéria foi encaminhada para o Senado, que a votará em 2024.</p>



<p>Inadvertidamente, o compromisso desse texto e do grupo de representantes do povo que o propôs jogou a água da bacia com o menino dentro. Com fins de desburocratizar a leitura da voz da administração pública, não reconheceu que a linguagem é um bem cultural capaz de transformar a realidade na medida em que também se transforma. Num país que, por mais de dez anos consecutivos, está no topo dos mais transfóbicos do mundo, mudar a linguagem convencional, inventar novos modos de escrever, é mudar a convenção da violência que estrutura nossa sociedade e mata pessoas trans e travestis. A linguagem não-binária, que desmantela a ordem considerada normal das coisas, com seus “todes”, “elus” e “corpas” nos convida para outro horizonte social. A seguir, apresento algumas razões por que a linguagem não-binária é um direito de aprendizado para transformarmos o Brasil.</p>



<p>1. A legislação de uma língua nunca é de uma língua. É de usos dela. Quando a população cria uma palavra nova, uma maneira de interagir, um jeito de escrever, ela sempre está respondendo a necessidades sociais. É, de cara, um engano acharmos que vamos acabar com um modo de usar a linguagem por meio de decreto ou de lei. Mas, ainda que se busque legislar sobre a língua, é preciso que esse debate seja feito em diálogo com o povo e com especialistas. Algumas investidas assim já aconteceram em nosso país. Por exemplo, no começo dos anos 2000, o deputado Aldo Rebelo apresentou um projeto de lei que proibia estrangeirismos anglófonos no Brasil inteiro, com o objetivo de proteger a língua portuguesa do imperialismo estadunidense. Em meados dessa mesma década, o então governo Lula lançou uma cartilha orientando quais palavras eram proibidas em escolas, a fim de não criar ambientes “politicamente incorretos”. Essas tentativas não seguiram em frente, simplesmente porque, por mais bem intencionadas que estivessem, pregavam sobre a língua, mas não abriam conversa sobre ela. Nada sobre nós sem nós – qualquer legislação acerca da fala do povo deve ser aberta primeiramente à consulta pública e em franca interlocução com linguistas.</p>



<p>2. Proibir a linguagem não-binária é um retrocesso histórico, tanto do ponto de vista linguístico, quanto político. Linguisticamente, não paramos a língua censurando seus modos em usos específicos, como os textos do Estado. No máximo, com isso, o que fazemos é criar um lugar estratificado, estigmatizado, monitorado e de um determinado registro linguístico. Esse engessamento não é nada bom para quem usa a língua. O melhor a fazer é permitir que a mudança da língua afete os textos, sejam eles quais forem, sob pena de, além de se fomentar usos “de plástico” – não ligados ao natural do que as pessoas falam – também aprofundar a desigualdade de classe social, porque, por exemplo, ao se definir modelos prontos de escrita, criamos reservas de aprendizado para esses mesmos modelos e alavancamos pedagogias para o consumo de determinados modos em detrimento de outros (à maneira como já faz a escola no ensino de uma língua de prestígio). Já, politicamente, é imperativo nos perguntar: O que estamos fazendo se bloqueamos a disrupção, o rompimento, a mudança de criar novos paradigmas pela composição das palavras? Mantemos a estrutura presente. E é isso que queremos? Queremos que as pessoas continuem não reconhecendo que existem várias formas de gênero e que é saudável, bonito, interessante que valorizemos as muitas maneiras de representar essas formas? A língua anda conforme as passadas sociais, nem mais para frente nem mais para trás. Apostar no aprendizado pela diferença é também uma maneira de propiciar acessibilidade a textos escritos.</p>



<p>3. Com o projeto 6256/2019 estamos protegendo um direito e descobrindo outro. Imaginamos que as pessoas não conseguem entender a linguagem não-binária. Grande engano. Essa linguagem, que é também chamada de linguagem inclusiva de gênero por setores da Educação e do Direito, forma-se a partir de padrões que já existem nas gramáticas das línguas. Por exemplo, no nosso português, temos palavras com a terminação “-e”, que são designações para indicar que não estamos falando exatamente do masculino ou do feminino em pessoas, mas de uma possibilidade aberta de gênero, como no vocábulo “participante”, por meio do qual sabemos se estamos tratando de uma mulher ou de um homem não pela palavra em si, mas por outras relacionadas a ela, como o artigo “uma” em “uma participante”. Esse modelo de terminação (que, em termos técnicos, chamamos de vogal temática) é empregado pela linguagem não-binária, por isso, para não indicar o gênero de alguém ou para apresentar que esse alguém é de uma identidade de gênero não binária, muitas vezes, criamos palavras como “alune”, em vez de “aluno” ou “aluna”. É claro que esse modelo não se aplica a todos os investimentos da linguagem não-binária, mas este e todos os outros que existem seguem regularidades da língua, ou seja, no Brasil, os instrumentos usados para a criação de palavras novas que são encaradas como incompreensíveis nesse contexto são os mesmos que todas as pessoas já usam e aprendem na língua portuguesa. E isso não é uma novidade, pois um dos princípios da mudança linguística é de que ela acontece por padrões que se repetem de alguma forma. Quem propõe a linguagem não-binária pensa nesses padrões também e isso só mostra que ela acaba repetindo regularidades e que, portanto, não veio para ser inacessível, como se imagina.</p>



<p> Além dessas três observações, existe outra óbvia. O PL aprovado pode relativizar a linguagem não-binária e permitir alguns modos mais usuais e de fácil leitura que sirvam para desbinarizar os gêneros. Por exemplo, na pesquisa de mapeamento que faço desde 2021, percebo ser de maior absorção e mais fácil compreensão, no Brasil, a aplicação da terminação “-e” ou a dos chamados torneios linguísticos de gênero, isto é, incentivar que, sempre quando, nos textos oficiais, falarmos de pessoas em geral, sem discriminar seus gêneros, façamos uso de formas como as palavras “pessoa” e outras muitas que não marcam nem masculino nem feminino. Com essa estratégia dos torneios, também evitemos usar o masculino gramatical como universal para grupos formados por pessoas de diferentes gêneros, permitindo formas como, por exemplo, em vez de “prezados servidores”, “prezada equipe” ou “prezado departamento”.</p>



<p> O assunto vai longe e existem muitas nuances sobre ele, porém, o mais importante nisso tudo é não perder de vista, como o PL está perdendo, que a língua precisa ser um campo de diversidade, respeito e amor entre as pessoas. Tornar a linguagem simples é tornar as pessoas felizes.</p>



<p><strong>*Doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Análise Crítica do Discurso e Linguística na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)</strong></p>



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		<title>Desmatamento da Mata Atlântica em Pernambuco: de qual compensação estamos falando?</title>
		<link>https://marcozero.org/desmatamento-da-mata-atlantica-em-pernambuco-de-qual-compensacao-estamos-falando/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Dec 2023 11:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[APA Aldeia-Beberibe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Isabelle M. J. Meunier* A compensação ambiental foi concebida, no âmbito da política ambiental, como instrumento para contrabalançar as externalidades negativas associadas a impactos adversos ao meio ambiente. A legislação ambiental brasileira prevê diversas formas de compensação dos impactos ambientais negativos e sua exigência legal já indica que existe impacto ambiental considerável que não [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Isabelle M. J. Meunier*</strong></p>



<p>A compensação ambiental foi concebida, no âmbito da política ambiental, como instrumento para contrabalançar as externalidades negativas associadas a impactos adversos ao meio ambiente. A legislação ambiental brasileira prevê diversas formas de compensação dos impactos ambientais negativos e sua exigência legal já indica que existe impacto ambiental considerável que não pode ser evitado ou devidamente mitigado.</p>



<p>O termo “reposição florestal” tem significado mais específico e está previsto na Lei 12.651/2012 (Lei de Proteção da Vegetação Nativa, conhecida também como Código Florestal), determinando que “as pessoas físicas ou jurídicas que utilizam matéria-prima florestal oriunda de supressão de vegetação nativa ou que detenham autorização para supressão de vegetação nativa” estão obrigadas à reposição florestal, e isso deve se dar independentemente do estágio de sucessão da vegetação secundária. Concebida para garantir o fornecimento de matéria-prima (daí o nome reposição: embora a vegetação dificilmente possa ser reposta em sua composição, estrutura e complexidade, o estoque madeireiro, sim, pode ser reposto), o termo confunde-se com “compensação” quando se considera, além da biomassa, a conservação da biodiversidade e a recomposição de habitats.</p>



<p>Há muito o que se levar em conta quando se trata de supressão de vegetação em um fragmento florestal, considerando que, além de perda de cobertura vegetal, exposição do solo, intervenção no regime hídrico local, liberação e cessação do processo de captura de carbono, morte ou afungentamento de fauna e perda de habitats, há aumento do efeito de borda e sucessiva aproximação dos vetores de degradação, representados pelas atividades humanas. Por isso, essa possibilidade deveria ser a última a ser considerada em casos de real utilidade pública, ainda mais em Pernambuco, onde os fragmentos florestais são pequenos e isolados, resultado do processo histórico de ocupação e uso das terras.</p>



<p>Quando se fala em compensar o desmatamento de um fragmento florestal que integra a subzona de Proteção Florestal, na Zona de Proteção da Biodiversidade de Serviços Ambientais da APA Aldeia-Beberibe, para possíveis empreendimentos, há uma série de desafios a considerar. Talvez não sejam insuperáveis, mas são bem maiores do que parecem acreditar empreendedores e poder público.</p>



<p>Primeiramente, deve-se compreender que compensar não significa anular o impacto negativo. Um amplo projeto de reposição florestal pode trazer, sim, alguns impactos positivos, a depender de sua concepção e execução, mas ainda assim o impacto original existirá. Para a reposição florestal por meio de plantios, a identificação de locais onde se possa assegurar a manutenção da cobertura vegetal é a primeira questão a ser considerada: em áreas públicas ou particulares, onde e como garantir que mudas plantadas se tornem árvores e, depois disso, sejam os elementos estruturadores de um ecossistema florestal, complexo e dinâmico? Quais seriam os critérios de seleção de espécies para os plantios de compensação em áreas de preservação permanente? Qual a origem das sementes, se não há, em Pernambuco, áreas de coleta e de produção de sementes da Mata Atlântica demarcadas e registradas? Quais viveiros florestais seriam encarregados da produção dessas mudas, cuja quantidade só poderá ser estimada quando se contar com diagnósticos das áreas a serem restauradas? Como organizar e manter equipes operacionais encarregadas dos tratos culturais exigidos, em mais de 900 hectares? Quais seriam esses tratos culturais, implementados com que frequência e duração?</p>



<p>Há muitas outras questões técnicas a serem levantadas que não devem desestimular ações de restauração ambiental, mas embasá-las. É importante lembrar que o resultado da compensação ambiental não pode ser auferido por número de mudas de árvores produzidas ou plantadas, mas pela extensão de áreas efetivamente restauradas ambientalmente.<br>Preocupa Pernambuco não ter experiências exitosas, em escala, de restauração ambiental. Alguém pode citar os reflorestamentos de Suape, trazendo à memória décadas de tentativas e erros, áreas tantas vezes plantadas e replantadas. Quanto se tem, hoje, de área efetivamente restaurada? Qual o custo estimado por unidade de área? O que evidenciam os indicadores que devem estar sendo monitorados para avaliar o processo de restauração? Quais desafios e soluções identificados?</p>



<p>Também se pode lembrar o esforço de governo passado para grandes proprietários recuperarem suas áreas de preservação permanente, dando cumprimento à lei, em suaves prestações, e as consequentes reações contrárias e dificuldades alegadas. Como estão os projetos de recomposição da vegetação em área de preservação permanente na zona canavieira, em Pernambuco? Quais as razões de tantos insucessos em projetos de restauração e por que não contribuíram até hoje, para a ampliação da área de florestas na Mata Atlântica pernambucana?</p>



<p>Programas ambientais de reflorestamento e projetos de reposição florestal talvez não estejam compensando coisa alguma, tanto que a área do bioma com cobertura vegetal, em Pernambuco, não se ampliou &#8211; ao contrário, segundo dados do Atlas da Mata Atlântica, do SOS Mata Atlântica, sofreu redução próxima a 10.000 hectares entre 2013 e 2022.<br>A realidade concreta precisa ser considerada seriamente antes de se oferecer a compensação como alternativa razoável. Além disso, cabe indagar se recursos públicos deveriam ser empregados para recuperar passivos daqueles que têm obrigação e condições de fazê-lo.</p>



<p>Reflorestar, favorecer a regeneração natural para aumentar a extensão de cobertura por vegetação natural na Mata Atlântica de Pernambuco, conectar fragmentos por meio de recomposição da vegetação em áreas de preservação permanente e reserva legal, proteger nascentes e mananciais, desenvolver a cadeia produtiva da restauração são tarefas do nosso tempo, quando o agravamento da questão climática se soma aos problemas ambientais já conhecidos e exige atitudes imediatas, juntamente à manutenção e proteção das áreas florestadas, não em sua substituição.</p>



<p>A sociedade precisa saber que reposição florestal é uma exigência legal, mas, mesmo prevista em projetos bem-intencionados e bem elaborados, não garante a compensação de danos causados ao ambiente, não podendo se contar com algo que é apenas uma vaga expectativa de ganhos ambientais para justificar autorizações de desmatamentos.</p>



<p><strong>*Engenheira Florestal, doutora em Ciências Florestais e professora da UFRPE</strong></p>
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		<title>Áreas de Proteção Ambiental e a gestão do território: realidade ou ficção na gestão ambiental?</title>
		<link>https://marcozero.org/areas-de-protecao-ambiental-e-a-gestao-do-territorio-como-o-poder-publico-sabota-a-questao-ambiental/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Dec 2023 18:20:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[APA Aldeia-Beberibe]]></category>
		<category><![CDATA[artigo de opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Escola de Sargentos]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Isabelle M. J. Meunier* A Área de Proteção Ambiental (Apa) é a categoria de Unidade de Conservação talvez mais desafiadora e mais desacreditada do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC, criado pela lei 9.985/2000) e, em Pernambuco, pelo Sistema Estadual de Unidades de Conservação (SEUC–PE, de acordo com a lei estadual 13.787/2009). Segundo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Isabelle M. J. Meunier*</strong></p>



<p>A Área de Proteção Ambiental (Apa) é a categoria de Unidade de Conservação talvez mais desafiadora e mais desacreditada do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC, criado pela lei 9.985/2000) e, em Pernambuco, pelo Sistema Estadual de Unidades de Conservação (SEUC–PE, de acordo com a lei estadual 13.787/2009). Segundo a legislação, a APA “é uma área, em geral, extensa, com certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem estar das populações humanas. As Apas têm como objetivos básicos proteger a diversidade biológica e os recursos hídricos, disciplinar o processo de ocupação do solo, preservar paisagens notáveis e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais”.</p>



<p>Um dos desafios da gestão dessa Unidade está nos instrumentos para atingir seus propósitos. As APAs, abrangendo áreas públicas e particulares e, por vezes, se estendendo por dois ou mais municípios, geralmente contam com gestores sem poder; corpo técnico, quando existente, insuficiente para as atividades requeridas; conselhos consultivos que têm suas recomendações desconsideradas; e zoneamento ambiental tímido e ignorado pelo poder público municipal.</p>



<p>Sem possibilidade de estabelecer restrições mais efetivas para proteção de seus atributos relevantes e sem condições para promover as atividades desejáveis para promoção de sua conservação, as APAs são, quase sempre, exercícios de esperança na negociação, no convencimento, na informação e na participação social.</p>



<p>Cabe ao poder público instituidor da Unidade de Conservação decidir se busca superar os desafios, adotando a APA realmente como um instrumento para disciplinar o processo de ocupação do solo, ou assume a inutilidade da existência da Unidade, tomando ou acatando decisões alheias aos seus objetivos.</p>



<p>Aliás, Unidades de Conservação que não cumprem seu papel ambiental servem, muitas vezes, apenas para compor relatórios “verdes”, justificar viagens internacionais em busca de financiamento e, no caso de municípios, engordar a fração do fundo de participação por meio de cota especial do ICMS.</p>



<p>As Áreas de Proteção Ambiental poderiam ser uma grande oportunidade para a melhoria do processo de planejamento territorial, participação da população nas decisões e educação ambiental. Desconsiderar seus instrumentos – análises e posições do Conselho Consultivo e definições do zoneamento ambiental – é desconsiderar a própria existência da Unidade.</p>



<p>A APA Aldeia-Beberibe cumpre, hoje, um grande papel ao trazer essa questão ao debate, discutindo e propondo alternativas às intervenções planejadas para a área, todas de significativo impacto ambiental. Justifica-se a existência de uma APA se não como instância decisória sobre o processo de ocupação e sobre o que deve ser protegido, priorizando a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos e o uso sustentável dos recursos? </p>



<p>Sim, pode haver ocupação humana em uma APA, a categoria de Unidade de Conservação de Uso Sustentável mais transigente do sistema. Podem existir infraestrutura urbana e seus programas de melhoria. Mas é fundamental que a APA, por meio de gestão técnica comprometida com os objetivos do seu plano de manejo e de ativa participação social, estabeleça critérios que vão além das normas ambientais gerais. Caso contrário, não será APA, será uma fraude promovida pelo poder público e uma ilusão para a população que deveria ser protagonista no enfrentamento das questões ambientais globais.</p>



<p>*<strong>Doutora em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), onde é professora no curso de Engenharia Florestal</strong></p>



<p><strong><em>Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Marco Zero</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><p><em>Se você chegou até aqui, já deve saber que colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a></strong><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></p></blockquote>
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		<item>
		<title>Conflito Israel – Hamas e suas consequências em solo europeu</title>
		<link>https://marcozero.org/conflito-israel-hamas-e-suas-consequencias-em-solo-europeu/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Nov 2023 16:02:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Mariano Hebenbrock*, de Hamburgo (Alemanha) Qualquer movimento se tornou perigoso. A confirmação da mensagem enviada via Whatsapp pode durar aproximadamente cinco horas para que seja marcada como visualizada. A resposta, em frases curtas, vai aparecendo lentamente na tela desgastada do telefone. “Nós não podemos mais. Acabou tudo. Nós estamos muito cansados. Não há energia. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Mariano Hebenbrock</strong>*, <strong>de Hamburgo (Alemanha)</strong></p>



<p>Qualquer movimento se tornou perigoso. A confirmação da mensagem enviada via Whatsapp pode durar aproximadamente cinco horas para que seja marcada como visualizada. A resposta, em frases curtas, vai aparecendo lentamente na tela desgastada do telefone. “Nós não podemos mais. Acabou tudo. Nós estamos muito cansados. Não há energia. Não há água. Não há medicamentos. Se eles ao menos dessem uma trégua”. Após algumas trocas de mensagens entre Ahmed Wahr, residente em Hamburg, Alemanha, e Hashid Wahr, seu primo morador da Faixa de Gaza, mais uma vez a conexão chega ao fim. Ao mesmo tempo que mísseis israelenses rasgam o céu como resposta ao massacre e a tomada de reféns pelo Hamas na Faixa de Gaza, mesquitas, hospitais, escolas, blocos de apartamentos e posições do Hamas estão a ser arrasadas. É extremamente difícil falar com as pessoas que estão nesta região.</p>



<p>O exército israelense também atacou infraestrutura de telecomunicação e, desde então, muitos moradores foram afetados por interrupções na internet. Quem conseguir um curto tempo de conexão e ouvir curtas conversas com residentes, familiares, conhecidos e colegas perceberão histórias horríveis de bombardeamentos massivos, por vezes sem qualquer aviso prévio. Hashid descreve uma intensidade que supera todas as guerras anteriores na Faixa de Gaza. O ministério da Saúde de Gaza já contabilizava, uma semana após o início da operação israelense, mais de 1400 mortes entre os quais mais de 300 crianças. Hoje esse número já ultrapassa as 15 mil mortes, sendo a maioria de crianças e mulheres. Mesmo diante de tanta atrocidade, o exército israelense continua afirmando que o seu alvo são as instalações do Hamas e suas organizações extremistas islâmicas que professam a guerra santa. Em qualquer meio de comunicação de massa se pode ler, ouvir e ver o que foi anunciado pelo primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, uma “poderosa vingança” sobre o povo palestino.</p>



<p>Os residentes desta faixa costeira, densamente povoada, veem este anunciado como uma campanha de vingança contra toda a população Palestina, a qual a maioria não apoia os atos do Hamas. Dois dias após o ataque do Hamas, Israel isolou o fornecimento de alimentos e remédios e cortou o fornecimento de eletricidade e água. Essas atitudes são uma grande ameaça aos mais de dois milhões de residentes da área, que mal chega a medir 45 quilômetros quadrados, pouco mais da metade da cidade de Osasco na grande São Paulo, com uma catástrofe humanitária. Quem conhece esta região é ciente que a infraestrutura e a situação de abastecimento em Gaza já eram precárias antes mesmo dessa guerra. Dezesseis anos de bloqueio egípcio-israelense e repetidos bombardeamentos e operações militares contra o Hamas danificaram a infraestrutura e a economia, bem como o psicológico da população local.</p>



<p>A ONU por muitas vezes alertou que esta faixa costeira poderia em breve torna-se inabitável, em parte porque há falta constante de água potável. Em um ao vivo pela tv Al Jazeera um repórter informa que, desde o início do conflito,mais de quatro amigos da mesma emissora já perderam suas vidas em bombardeamentos. A médica Fátima Abdullah, da organização palestina Lua Crescente Vermelha, relatou que seis paramédicos morreram alvejados em ambulâncias. Após o bombardeio no hospital, uma semana anterior, outra clinica também foi atingida. “Todo o movimento se tornou perigoso e isso é um enorme problema para o transporte de feridos” afirma a médica. Ela também está preocupada com a escassez de combustível. É assim que os geradores de energia de emergências dos hospitais têm funcionado desde que Israel interrompeu o fornecimento de eletricidade. “Os recursos estão a esgotar-se. Sem eletricidade, tudo o que precisamos para cuidar dos feridos irá falhar”.</p>



<p>Diante deste cenário apocalíptico, o que leva as grandes potências ocidentais, Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra a defenderem a brutalidade de um regime opressor? Será o fato de Israel ser o único país ocidentalizado da região? Será o sentimento de culpa pelo Holocausto? Será a localização geográfica que facilita o acesso ao mediterrâneo? Desde início do conflito no dia 7 de outubro, palavras de ordem são lidas e ouvidas em meios de comunicação nesses países. O chanceler alemão, Olaf Scholz afirma que “em momentos de guerra, as promessas de segurança alemãs não devem permanecer palavras vazias.” Parte da população alemã busca decifrar esta frase entendendo que o chanceler está a cruzar as fronteiras da racionalidade. Será que o apoio incondicional a Israel ocorrerá como na guerra da Ucrânia, onde armamentos pesados foram enviados ao campo de guerra, ou a Alemanha será representada também com força física? Outra declaração, dada pela ex-chanceler Ângela Merkel em 2008, no Knesset, parlamento israelense, é repetida pelo governo alemão. “A sobrevivência de Israel é a nossa razão de ser.” </p>



<p>Este sentimento de unidade não é percebido por Israel. País do <em>Täter</em>, assim é referida a Alemanha em Israel, ou seja, o país dos criminosos. Uma resolução da ONU levada a plenário no dia 28 de outubro de 2023, onde uma maioria de dois terços aprovou-a apelando a Israel um cessar-fogo, a fim de ajuda humanitária à população de Gaza. A abstenção da Alemanha na votação resultou em duras críticas por parte dos israelenses. De qualquer forma Berlim não hesita em mostrar ao mundo seu apoio a Israel, não apenas com a probabilidade de envio de armas pesadas, como também cortando ajuda financeira para o desenvolvimento em Gaza.</p>



<p>A ministra do desenvolvimento alemã, Svenja Schulze do Partido Social Democrata, pede um bloqueio imediato da ajuda financeira à Gaza. O direito de defesa de Israel é aclamado pelos partidos democráticos e os poucos críticos a Israel se calaram. O bombardeamento e a ofensiva terrestre estão resultando em um sofrimento insuportável para a população civil em Gaza. Como ficaram os direitos humanos e o direito humanitário internacional? Poderão os deputados alemães exigir isso de Israel ou deverão permanecer em silêncio, se acovardando por solidariedade ao povo judeu?</p>



<p>De acordo com o presidente da associação alemã-árabe, Michael Lüders, há uma grande tendência no ocidente de uma generalização das organizações políticas árabes. “Para se analisar o conflito atual, se faz necessário entender que o Hamas é uma organização palestina de resistência, tão importante quanto o Fatah no Cisjordânia.” Durante o período de governo de Netanyahu se observa uma clara agenda de anexação de terras palestinas na Cisjordânia por parte dos colonos. “Na visão do ocidente esta violação do direito internacional é como se fosse um conflito metafisico, mas este conflito é sobre recursos e poder.” Afirma Lüders.</p>



<p>Para o palestino, Tarek Azizi, refugiado na Suécia desde 2014, a escalada de conflitos vem ocorrendo há anos, além das tomadas de terra por colonos em sua grande maioria americanos e europeus nas cidades de Neblus e Dschenin, localizadas na Cisjordânia. “Muitas vezes, o exército israelense, em nome da segurança, destroem nossas casas e plantações, concretam nossas fontes de águas potáveis, raptam nossas crianças e as julgam em um tribunal militar”, afirma Azizi.  Josseff Alsaadi, refugiado na Alemanha, explica que os conflitos ocorrem com frequência, precisamente nas sextas-feiras, dia santo para os muçulmanos, na colina al Haram al Sharif, monte onde se localiza a mesquita Al-Aqsa, templo sagrado para os muçulmanos.</p>



<p>Mohammad Ibrahim nascido em Golan, na Síria, porém de nacionalidade palestina explica que cresceu ouvindo as histórias dos avós que foram expulsos por Israel em 1948. “Está prática de invasão, expulsão e desapropriação de terras não é algo recente na política israelense. Com a tomada de Golan em 1967, minha família foi mais uma vez dividida, uma parte tendo que fugir para Alepo, na Síria, e outra ficando dentro do Estado de Israel.” conclui Ibrahim. Relatos de expulsões e desapropriações de terras e casas são frequentes entre os palestinos, os casos mais recentes vêm ocorrendo no oeste de Jerusalém, no bairro de Me&#8217;a She&#8217;arim, onde casas e ruas inteiras são ocupadas por famílias judias, casos muitas vezes denunciados pela própria ONU. De acordo com Lüders, não se pode falar de violência dos palestinos sem levar em consideração a atual situação vivida pelo povo palestino durante os últimos 70 anos. Para este especialista, a violência e até mesmo o terror é uma reação de um povo que se vê desnudado em sua mais íntima essência. </p>



<p>O comportamento de alguns Estados europeus, inclusive da Alemanha, levantando a bandeira da proteção judaica e o apoio incondicional a Israel, tem ferido o que há de mais sublime, ou seja, a sua própria democracia. Demonstrações pró Palestina vêm sendo proibidas em nome do antissemitismo, enquanto programas de televisões, jornais, rádios, plataformas digitais e cartazes enxurram a sociedade com mensagens pró Israel, deixando a comunidade muçulmana amordaçada. As demonstrações pró Palestina são automaticamente classificadas como pró Hamas, causando assim medo e furor na comunidade islâmica. Um lenço, uma bandeira, uma conversa é motivo de olhares atravessados.</p>



<p>Há políticos que falam em deportação ou retirada do direito de residência, caso jovens sejam pegos em manifestações com cânticos ou frases que, na visão do Estado, coloque a existência do Estado de Israel em cheque, afirmando que desta forma estes jovens estão ferindo o que a Alemanha tanto preza, ou seja, o seu status de integração. Grupos de parlamentares da coalizão CDU/CSU (Democracia Cristã/União Cristã Social) na Bavária, apoiam ação mais dura contra apoiadores do Hamas na Alemanha. De acordo com Andrea Lindholz, vice-líder da coalizão afirma que, “os cidadãos estrangeiros que semeiam ódio contra os judeus na Alemanha perdem o seu direito de residência e devem ser expulsos. O direito de residência já fornece instrumentos para isso. Estes devem ser aplicadas de forma consistente”, conclui a parlamentar.</p>



<p>Até mesmo alemães com históricos de migração e que possuem dupla nacionalidade se vêm obrigados ao silêncio diante dos alemães biológicos, como se também não tivessem o direito de compartilhar da dor e do sofrimento vivenciado pelo povo palestino, aumentando assim atos de xenofobia. Mais uma vez nos vemos obrigados a compactuar com a narrativa do ocidente de que Israel é o bom vizinho que procura a paz e o árabe, é o agressor, o bárbaro, o incivilizado.</p>



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<p><strong>*Bacharel em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (*Unicap), mestre em Política Internacional e Jornalismo Investigativo pela Universidade de Hamburgo (Alemanha) e doutor em Comunicação Política pela Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona(Espanha)</strong></p>
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		<title>29 de novembro será o Dia Internacional da Solidariedade Seletiva?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Nov 2023 19:18:00 +0000</pubDate>
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<p><strong>por André Frej Hazineh</strong>*</p>



<p>Desde o início da punição coletiva imposta pelo estado sionista de Israel à população civil de Gaza, assistimos a uma mudança no sentimento da comunidade internacional à medida que avança a ofensiva terrestre no enclave palestino.</p>



<p>Primeiramente, registre-se, a narrativa hegemônica dos meios de comunicação do ocidente protagonizou uma espécie de genocídio midiático, quando as vozes palestinas foram absolutamente silenciadas na cobertura da ação da resistência assumida pelo Hamas no próprio dia 7 de outubro.<br><br>No Brasil, um outro fenômeno agravou a situação para o lado palestino: nas redes sociais, as milícias digitais bolsonaristas sufocaram quem tentava furar o bloqueio midiático, denunciando postagens de ativistas, cancelando contas e promovendo o linchamento virtual de quem ousava se contrapor ao <em>mainstream</em>; nas igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais se propagava um discurso de ódio e intolerância &#8211; xenofobia, islamofobia e palestinofobia, tudo junto e misturado.<br><br>Nesse cenário, prevalecia o entendimento de que existiria um conflito restrito ao Hamas e o Estado teocrático judeu, que teria o direito de se defender dos ataques, superdimensionados por notícias falsas oriundas das forças de ocupação e publicadas sem a devida checagem da informação.<br><br>A cobertura ostensiva durante a primeira semana da efeméride armou uma arapuca para a própria mídia hegemônica, visto que foi obrigada a dar continuidade ao noticiário do conflito quando o exército de Israel passou a bombardear alvos civis indiscriminadamente, atingindo escolas, hospitais, abrigos e até escritórios da Organização das Nações Unidas.<br><br>Àquela altura, era evidente uma variação no temperamento da opinião pública mundial, estarrecida com a carnificina em curso na Faixa de Gaza (incluindo o deslocamento forçado de populações) e, ao mesmo tempo, ciente de que o ataque do Hamas não deveria ter sido tratado como evento episódico em função de a raiz do conflito ser a intenção do projeto colonial sionista de promover a limpeza étnica na Palestina.<br><br>Em todo o planeta, multidões tomaram as ruas para protestar contra o primeiro genocídio televisionado da história da humanidade ao passo que o conglomerado de comunicação, numa atitude absolutamente previsível, puxou o freio de mão na cobertura do conflito, pois era preciso sufocar os movimentos de solidariedade.<br><br>Aqui abro um parêntese apenas para pontuar a falência do modelo de governança global diante de tamanha catástrofe vivida pelo povo palestino (uma segunda Nakba), a partir do desprezo cínico aos apelos por pausas humanitárias por parte do Estado de Israel e do veto às resoluções propostas no Conselho de Segurança da ONU por parte dos Estados Unidos.<br><br>Uma observação mais acurada evidencia atualmente a estratégia de secundarizar o noticiário do conflito (com mais de 13.000 mortes &#8211; a maioria mulheres e crianças &#8211; o fato tenderia a contrapor o discurso oficial) ou desviar o foco para as narrativas paralelas como a estapafúrdia cantilena de associar quaisquer justas críticas ao sionismo e ao Estado de Israel a um pretenso antissemitismo.<br><br>Evidentemente, despiciendo revelar o desespero do governo israelense e mídia aliada com a derrota moral do ente sionista, que responderá nos Tribunais Penais Internacionais sobre os crimes de guerra e lesa humanidade cometidos.<br><br>Por outro lado, essa redução proposital na cobertura jornalística tem por objetivo arrefecer a indignação coletiva, minar as forças dos movimentos de solidariedade e, em última análise, esvaziar os atos que têm levado multidões às ruas no mundo inteiro.<br><br>Uma consequência, ao menos, já identificamos: o silenciamento das vozes palestinas, o “apagamento” das notícias, o controle das redes sociais nos faz testemunhar uma indiferença na maioria da população, mesmo diante de uma tragédia que expõe a fragilidade e crueldade da natureza humana.<br><br>Corpos carbonizados, crianças órfãs, famílias destruídas, a desumanização de uma população colonizada e vitimada pela necropolítica sionista não mais sensibiliza; diante desse novo cenário normal de ruína das almas, as pessoas indiferentes nos atordoam diariamente.<br><br>Sequer visualizamos bandeirinhas da Palestina em perfis das redes sociais, como vimos as da Ucrânia recentemente ou da França quando a redação do tabloide Charlie Hebdo foi atacada.<br><br>O que eu tenho a ver com a situação do povo palestino ? questionaria alguém a simbolizar a essência do pensamento de quem presentemente promoveu a necropolítica nas bandas de cá.<br><br>Aí reside a minha dor, eu tenho minha dor, é minha, não é de mais ninguém, ou melhor, não estou sozinho, muita gente sofrendo com essa indiferença, essa solidariedade seletiva.<br><br>Na próxima quarta-feira, 29 de Novembro, Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, haverá atos no mundo inteiro.<br><br>No Recife, a concentração será às 17 horas na Praça do Derby.<br><br>Será um dia decisivo para a história da humanidade. Multidões ocuparão as ruas contra a ocupação e o genocídio sionistas ? Ou renomearemos o 29 de Novembro com o Dia Internacional dessa tal Solidariedade Seletiva?<br><br>A resposta revelará o senso de humanidade de cada qual.</p>



<p><strong>*André Frej Hazineh é jornalista e integrante do Coletivo Aliança Palestina Recife</strong></p>



<p><strong>Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Marco Zero</strong></p>



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		<title>Pão, circo e barbárie no Mix Mateus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Oct 2023 19:59:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Fabio Atanásio Morais* Passados quase dois milênios e cinco séculos, constatamos que a política do “pão e circo”, estabelecida à época do Império Romano, segue tão atual como outrora. Não à toa verificamos espetáculos dantescos em que, por um lado, a população exterioriza avidez diante de supostas vantagens oferecidas ao custo de alguns solavancos [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Fabio Atanásio Morais*</strong></p>



<p>Passados quase dois milênios e cinco séculos, constatamos que a política do “pão e circo”, estabelecida à época do Império Romano, segue tão atual como outrora. Não à toa verificamos espetáculos dantescos em que, por um lado, a população exterioriza avidez diante de supostas vantagens oferecidas ao custo de alguns solavancos morais e físicos, a exemplo do que assistimos hoje na inauguração das lojas da rede “Mix Mateus”, em Olinda. </p>



<p>Ao mesmo tempo, alguns políticos acreditam que todo e qualquer acontecimento que mobilize “massas humanas” se constitui em boa oportunidade que devem ser apropriadas para promoção pessoal. Foi o caso governadora Raquel Lyra e do prefeito de Olinda, Professor Lupércio, ambos buscando angariar simpatias cortando a fita inaugural dos tais supermercados, imaginando que isso redundaria em prestígio, sobretudo quando se arrogam ao protagonismo de terem sido responsáveis pela atração de tais empreendimentos. </p>



<p>Tenho a convicção de que tanto ela, a governadora, quanto ele, o prefeito, estão enganados em acreditar que suas respectivas notoriedades se adensam em meio a esses espetáculos. Afinal, cenas lastimáveis marcaram os eventos.</p>



<p>Pessoas comuns, atraídas pela possibilidade da aquisição de alimentos e bens materiais a preços bem abaixo do praticado pelo mercado, se submetem a condições aviltantes onde, ao fim e ao cabo, prevalece a lei do mais forte. Em alguns vídeos, me pareceu estar assistindo não a uma prévia tupiniquim da Black Friday, mas sim do<em> Halloween, </em>celebrado com fantasias no 31 de outubro nos Estados Unidos e nos cursos de inglês, mas, nas lojas do Mix, como um festival de horror verdadeiro, em que cada consumidor ávido via no outro a personagem popular que se coaduna com o imaginário da expressão “bruxa”.</p>



<p>Pessoalmente, da mesma forma que não acredito nos ganhos de imagem para os políticos, me custa crer que essa estratégia de marketing repercuta em vantagem para imagem do grupo empresarial. Talvez por equívoco, ou mesmo por limitação intelectual, seus estrategistas não consigam enxergar o real impacto de tamanho desacerto.</p>



<p>Sem nenhuma intenção de justificar o injustificável, observo que talvez exista uma relação entre a opção de marketing adotada pelo supermercado para vender sua imagem e seus produtos e os caminhos trilhados por determinada escola política, isto na sua conotação mais vil e de menor estatura, na qual se vilipendia a inteligência popular, inclusive por acreditar que essa inexiste, oferecendo “ouro de tolo”, certos que será aceito e consumido pelos que fazem prosperar o <em>s</em><em>tatus </em><em>q</em><em>uo</em>, ou seja, aqueles que entregam “pão e circo” para garantir a manutenção do poder, que lhes é dado como que por merecimento.</p>



<p>Profundamente lamentável!</p>



<p><strong>*Servidor público do município de Olinda, ex-coordenador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), no Nordeste e na Amazônia; ex-presidente da Fundação de Cultura do Município de Belém (Fumbel)</strong></p>
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		<title>Sobre o que é ser filho da diáspora palestina no Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/sobre-o-que-e-ser-filho-da-diaspora-palestina-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Oct 2023 20:22:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[apartheid palestino]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por André Frej Hazineh* A recente ação histórica e heroica da resistência palestina promoveu, mais uma vez, um movimento midiático de espetacularização do pretenso sofrimento de quem vive nas colônias sionistas nos territórios ocupados. E, como de costume, a representação palestina no Brasil foi silenciada, como se não houvesse o outro lado da notícia. Nesse [&#8230;]</p>
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<p><strong>por André Frej Hazineh*</strong></p>



<p>A recente ação histórica e heroica da resistência palestina promoveu, mais uma vez, um movimento midiático de espetacularização do pretenso sofrimento de quem vive nas colônias sionistas nos territórios ocupados.</p>



<p>E, como de costume, a representação palestina no Brasil foi silenciada, como se não houvesse o outro lado da notícia.</p>



<p>Nesse sentido, eu poderia escrever sobre o direito internacional e inalienável de autodefesa ante projetos coloniais, sobre a limpeza étnica promovida pela entidade sionista desde a catástrofe de 1948, sobre o fato de Israel ter sido denunciado pelas contantes violações dos direitos humanos e por promover o apartheid, conforme documentos da Anistia Internacional e do Human Rights Watch.</p>



<p>Poderia ainda contestar a pecha que se quer imputar sobre o Hamas, movimento de resistência palestino eleito democraticamente para exercer o poder político na Faixa de Gaza, a verdadeira prisão à céu aberto, ou melhor, fechada no espaço áereo, territorial e marítimo.</p>



<p>Poderia, finalmente, constatar que a população eurojudia que hoje ocupa a Palestina e promove o holocausto é a mesma que foi vítima do nazismo na Segunda Guerra Mundial, por mais irônico que possa parecer, pra não dizer trágico.</p>



<p>Poderia, mas não pretendo fazê-lo.</p>



<p>Penso ser oportuno trazer a lume a experiência de ser um filho da diáspora palestina que nos meus 52 anos de vida sempre fui vítima de leituras distorcidas da realidade sobre a Questão Palestina.</p>



<p>Primeiramente, destaque-se, a ignorância é irmã do preconceito e da intolerância, e as pessoas escolhem se manter mal informadas sobre determinados temas, como restou comprovado nos últimos anos na arena eleitoral brasileira.</p>



<p>Diante de tal escolha, a vida inteira – e o tempo inteiro – me vejo coagido a ter de explicar o que se passa na Palestina ocupada militarmente pelo estado teocrático judeu, tentando desmistificar uma visão hegemônica de que Israel teria o direito de promover carnificina baseado numa narrativa, pasmem, religiosa.</p>



<p>Por outro lado, imiscuiu-se nas mentes dementes uma confusão intencional tentando associar a luta pela existência na Palestina às vertentes mais fundamentalistas do muçulmanismo, tentativa que logra êxito principalmente junto aos segmentos religiosos pentecostais, neopentecostais e do catolicismo carismático.</p>



<p>Nesse caso, de nada adianta tentar ensinar o beabá, dar leitinho para crianças numa linguagem pueril, porque, quando se trata de fé, as visões são embaçadas por uma teo-ideologia dominante que limita a capacidade de discernimento da realidade.</p>



<p>Essa perspectiva, por sinal, se agravou nos anos Bolsonaro, quando financiar os crimes de Israel entrou no radar do Governo, com o apoio incondicional de sua turba fanática, fato demasiadamente doloroso, por saber que seu eleitorado era (ainda é !) composto por familiares, bem como pessoas de origem árabe ou professantes da fé islâmica.</p>



<p>E a novidade (que não veio dar na praia porque o mundo é tão desigual) é, na condição de semita, ser acusado de antissemitismo, justamente por quem não suporta ouvir nosso grito a denunciar o projeto social genocida em curso no que restou dos territórios da Palestina histórica.</p>



<p>De novo no <em>front</em>, também, é a invenção disseminada desde a autoproclamação do Estado de Israel de que existiria um tal de sionismo de esquerda como se fosse possível normalizar o <em>apartheid</em>, a limpeza étnica, a violação constante e ininterrupta dos direitos humanos na Palestina, testemunhando companheiras e companheiros – supostamente de esquerda &#8211; que pregam a justiça social, a autodeterminação dos povos, a igualdade, defenderem os massacres perpetrados desde a Nakba.</p>



<p>Viver a palestinidade e defender a causa palestina no Brasil é assumir o risco de sofrer assédios em ambientes religiosos, profissionais, escolares etc, onde vez por outra a gente recebe alcunhas do tipo “homem bomba”; chega dá vontade de sair cantando por aí: “… eu ia explodir mas eles não vão ver os meus pedaços por aí… me deixa que hoje eu tô de bobeira&#8230;”.</p>



<p>Mesmo não enxergando poesia em ser sempre apelidado levianamente de “terrorista”, me socorro nas escrituras do poeta palestino Mahmoud Darwish, vítima da limpeza étnica em 1948, para terminar esse relato de alguém que insiste em ter esperança e não correr da luta.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Confissão de um terrorista</strong></h3>



<p>Ocuparam minha pátria<br>Expulsaram meu povo<br>Anularam minha identidade<br>E me chamaram de terrorista<br>Confiscaram minha propriedade<br>Arrancaram meu pomar<br>Demoliram minha casa<br>E me chamaram de terrorista</p>



<p>Legislaram leis fascistas<br>Praticaram odiada apartheid<br>Destruíram, dividiram, humilharam E me chamaram de terrorista</p>



<p>Assassinaram minhas alegrias,<br>Sequestraram minhas esperanças,<br>Algemaram meus sonhos,<br>Quando recusei todas as barbáries</p>



<p>Eles… mataram um terrorista!</p>



<p>*<strong>Jornalista, analista judiciário do TRE-PE e membro do coletivo Aliança Palestina Recife</strong><br><br><strong>**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Marco Zero Conteúdo</strong></p>



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