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Conflito Israel – Hamas e suas consequências em solo europeu

Marco Zero Conteúdo / 28/11/2023
Homem chora, debruçado sobre cadáver de parente envolto em tecido branco, verde e vermelho, cores da bandeira palestina. Ele é observado de perto por um menino de cabelos pretos e pele morena.

por Mariano Hebenbrock*, de Hamburgo (Alemanha)

Qualquer movimento se tornou perigoso. A confirmação da mensagem enviada via Whatsapp pode durar aproximadamente cinco horas para que seja marcada como visualizada. A resposta, em frases curtas, vai aparecendo lentamente na tela desgastada do telefone. “Nós não podemos mais. Acabou tudo. Nós estamos muito cansados. Não há energia. Não há água. Não há medicamentos. Se eles ao menos dessem uma trégua”. Após algumas trocas de mensagens entre Ahmed Wahr, residente em Hamburg, Alemanha, e Hashid Wahr, seu primo morador da Faixa de Gaza, mais uma vez a conexão chega ao fim. Ao mesmo tempo que mísseis israelenses rasgam o céu como resposta ao massacre e a tomada de reféns pelo Hamas na Faixa de Gaza, mesquitas, hospitais, escolas, blocos de apartamentos e posições do Hamas estão a ser arrasadas. É extremamente difícil falar com as pessoas que estão nesta região.

O exército israelense também atacou infraestrutura de telecomunicação e, desde então, muitos moradores foram afetados por interrupções na internet. Quem conseguir um curto tempo de conexão e ouvir curtas conversas com residentes, familiares, conhecidos e colegas perceberão histórias horríveis de bombardeamentos massivos, por vezes sem qualquer aviso prévio. Hashid descreve uma intensidade que supera todas as guerras anteriores na Faixa de Gaza. O ministério da Saúde de Gaza já contabilizava, uma semana após o início da operação israelense, mais de 1400 mortes entre os quais mais de 300 crianças. Hoje esse número já ultrapassa as 15 mil mortes, sendo a maioria de crianças e mulheres. Mesmo diante de tanta atrocidade, o exército israelense continua afirmando que o seu alvo são as instalações do Hamas e suas organizações extremistas islâmicas que professam a guerra santa. Em qualquer meio de comunicação de massa se pode ler, ouvir e ver o que foi anunciado pelo primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, uma “poderosa vingança” sobre o povo palestino.

Os residentes desta faixa costeira, densamente povoada, veem este anunciado como uma campanha de vingança contra toda a população Palestina, a qual a maioria não apoia os atos do Hamas. Dois dias após o ataque do Hamas, Israel isolou o fornecimento de alimentos e remédios e cortou o fornecimento de eletricidade e água. Essas atitudes são uma grande ameaça aos mais de dois milhões de residentes da área, que mal chega a medir 45 quilômetros quadrados, pouco mais da metade da cidade de Osasco na grande São Paulo, com uma catástrofe humanitária. Quem conhece esta região é ciente que a infraestrutura e a situação de abastecimento em Gaza já eram precárias antes mesmo dessa guerra. Dezesseis anos de bloqueio egípcio-israelense e repetidos bombardeamentos e operações militares contra o Hamas danificaram a infraestrutura e a economia, bem como o psicológico da população local.

A ONU por muitas vezes alertou que esta faixa costeira poderia em breve torna-se inabitável, em parte porque há falta constante de água potável. Em um ao vivo pela tv Al Jazeera um repórter informa que, desde o início do conflito,mais de quatro amigos da mesma emissora já perderam suas vidas em bombardeamentos. A médica Fátima Abdullah, da organização palestina Lua Crescente Vermelha, relatou que seis paramédicos morreram alvejados em ambulâncias. Após o bombardeio no hospital, uma semana anterior, outra clinica também foi atingida. “Todo o movimento se tornou perigoso e isso é um enorme problema para o transporte de feridos” afirma a médica. Ela também está preocupada com a escassez de combustível. É assim que os geradores de energia de emergências dos hospitais têm funcionado desde que Israel interrompeu o fornecimento de eletricidade. “Os recursos estão a esgotar-se. Sem eletricidade, tudo o que precisamos para cuidar dos feridos irá falhar”.

Diante deste cenário apocalíptico, o que leva as grandes potências ocidentais, Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra a defenderem a brutalidade de um regime opressor? Será o fato de Israel ser o único país ocidentalizado da região? Será o sentimento de culpa pelo Holocausto? Será a localização geográfica que facilita o acesso ao mediterrâneo? Desde início do conflito no dia 7 de outubro, palavras de ordem são lidas e ouvidas em meios de comunicação nesses países. O chanceler alemão, Olaf Scholz afirma que “em momentos de guerra, as promessas de segurança alemãs não devem permanecer palavras vazias.” Parte da população alemã busca decifrar esta frase entendendo que o chanceler está a cruzar as fronteiras da racionalidade. Será que o apoio incondicional a Israel ocorrerá como na guerra da Ucrânia, onde armamentos pesados foram enviados ao campo de guerra, ou a Alemanha será representada também com força física? Outra declaração, dada pela ex-chanceler Ângela Merkel em 2008, no Knesset, parlamento israelense, é repetida pelo governo alemão. “A sobrevivência de Israel é a nossa razão de ser.” 

Este sentimento de unidade não é percebido por Israel. País do Täter, assim é referida a Alemanha em Israel, ou seja, o país dos criminosos. Uma resolução da ONU levada a plenário no dia 28 de outubro de 2023, onde uma maioria de dois terços aprovou-a apelando a Israel um cessar-fogo, a fim de ajuda humanitária à população de Gaza. A abstenção da Alemanha na votação resultou em duras críticas por parte dos israelenses. De qualquer forma Berlim não hesita em mostrar ao mundo seu apoio a Israel, não apenas com a probabilidade de envio de armas pesadas, como também cortando ajuda financeira para o desenvolvimento em Gaza.

A ministra do desenvolvimento alemã, Svenja Schulze do Partido Social Democrata, pede um bloqueio imediato da ajuda financeira à Gaza. O direito de defesa de Israel é aclamado pelos partidos democráticos e os poucos críticos a Israel se calaram. O bombardeamento e a ofensiva terrestre estão resultando em um sofrimento insuportável para a população civil em Gaza. Como ficaram os direitos humanos e o direito humanitário internacional? Poderão os deputados alemães exigir isso de Israel ou deverão permanecer em silêncio, se acovardando por solidariedade ao povo judeu?

De acordo com o presidente da associação alemã-árabe, Michael Lüders, há uma grande tendência no ocidente de uma generalização das organizações políticas árabes. “Para se analisar o conflito atual, se faz necessário entender que o Hamas é uma organização palestina de resistência, tão importante quanto o Fatah no Cisjordânia.” Durante o período de governo de Netanyahu se observa uma clara agenda de anexação de terras palestinas na Cisjordânia por parte dos colonos. “Na visão do ocidente esta violação do direito internacional é como se fosse um conflito metafisico, mas este conflito é sobre recursos e poder.” Afirma Lüders.

Para o palestino, Tarek Azizi, refugiado na Suécia desde 2014, a escalada de conflitos vem ocorrendo há anos, além das tomadas de terra por colonos em sua grande maioria americanos e europeus nas cidades de Neblus e Dschenin, localizadas na Cisjordânia. “Muitas vezes, o exército israelense, em nome da segurança, destroem nossas casas e plantações, concretam nossas fontes de águas potáveis, raptam nossas crianças e as julgam em um tribunal militar”, afirma Azizi.  Josseff Alsaadi, refugiado na Alemanha, explica que os conflitos ocorrem com frequência, precisamente nas sextas-feiras, dia santo para os muçulmanos, na colina al Haram al Sharif, monte onde se localiza a mesquita Al-Aqsa, templo sagrado para os muçulmanos.

Mohammad Ibrahim nascido em Golan, na Síria, porém de nacionalidade palestina explica que cresceu ouvindo as histórias dos avós que foram expulsos por Israel em 1948. “Está prática de invasão, expulsão e desapropriação de terras não é algo recente na política israelense. Com a tomada de Golan em 1967, minha família foi mais uma vez dividida, uma parte tendo que fugir para Alepo, na Síria, e outra ficando dentro do Estado de Israel.” conclui Ibrahim. Relatos de expulsões e desapropriações de terras e casas são frequentes entre os palestinos, os casos mais recentes vêm ocorrendo no oeste de Jerusalém, no bairro de Me’a She’arim, onde casas e ruas inteiras são ocupadas por famílias judias, casos muitas vezes denunciados pela própria ONU. De acordo com Lüders, não se pode falar de violência dos palestinos sem levar em consideração a atual situação vivida pelo povo palestino durante os últimos 70 anos. Para este especialista, a violência e até mesmo o terror é uma reação de um povo que se vê desnudado em sua mais íntima essência. 

O comportamento de alguns Estados europeus, inclusive da Alemanha, levantando a bandeira da proteção judaica e o apoio incondicional a Israel, tem ferido o que há de mais sublime, ou seja, a sua própria democracia. Demonstrações pró Palestina vêm sendo proibidas em nome do antissemitismo, enquanto programas de televisões, jornais, rádios, plataformas digitais e cartazes enxurram a sociedade com mensagens pró Israel, deixando a comunidade muçulmana amordaçada. As demonstrações pró Palestina são automaticamente classificadas como pró Hamas, causando assim medo e furor na comunidade islâmica. Um lenço, uma bandeira, uma conversa é motivo de olhares atravessados.

Há políticos que falam em deportação ou retirada do direito de residência, caso jovens sejam pegos em manifestações com cânticos ou frases que, na visão do Estado, coloque a existência do Estado de Israel em cheque, afirmando que desta forma estes jovens estão ferindo o que a Alemanha tanto preza, ou seja, o seu status de integração. Grupos de parlamentares da coalizão CDU/CSU (Democracia Cristã/União Cristã Social) na Bavária, apoiam ação mais dura contra apoiadores do Hamas na Alemanha. De acordo com Andrea Lindholz, vice-líder da coalizão afirma que, “os cidadãos estrangeiros que semeiam ódio contra os judeus na Alemanha perdem o seu direito de residência e devem ser expulsos. O direito de residência já fornece instrumentos para isso. Estes devem ser aplicadas de forma consistente”, conclui a parlamentar.

Até mesmo alemães com históricos de migração e que possuem dupla nacionalidade se vêm obrigados ao silêncio diante dos alemães biológicos, como se também não tivessem o direito de compartilhar da dor e do sofrimento vivenciado pelo povo palestino, aumentando assim atos de xenofobia. Mais uma vez nos vemos obrigados a compactuar com a narrativa do ocidente de que Israel é o bom vizinho que procura a paz e o árabe, é o agressor, o bárbaro, o incivilizado.

Crédito: Instagram @freepalestinee3

*Bacharel em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (*Unicap), mestre em Política Internacional e Jornalismo Investigativo pela Universidade de Hamburgo (Alemanha) e doutor em Comunicação Política pela Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona(Espanha)

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