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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>De volta à idade da pedra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Nov 2026 20:48:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Toda tarde, José Borges atravessa a rua para aproveitar a sombra que se forma do lado oposto à sua casa, próxima a uma movimentada esquina de Dona Inês, no Brejo paraibano. É um ritual que se repete há quase 18 anos, desde que se aposentou. Zé Menino, como é conhecido, passa horas conversando com os vizinhos e com quem mais aparecer por ali. Da calçada onde se senta, tem uma vista privilegiada da pedreira em que trabalhou por 44 anos. “É muito tempo, né?”, diz, sorrindo.</p>



<p>Desde que se aposentou, porém, nunca mais pisou no antigo local de trabalho. “Fiquei preguiçoso”, brinca. O sorriso, agora, parece mais de alívio. É que o trabalho na pedreira é pesado. Ao longo de mais de quatro décadas, Zé Menino quebrou pedra à força de marreta, ferramentas manuais e dos próprios músculos. Tirou do Lajedo da Serra paralelepípedos, meios-fios e pedras para construção. “Em uma semana eu tirava 1.200, 1.500 pedras. Dependia das obras na cidade.”</p>



<p>Foi deste trabalho duro que veio boa parte do sustento da família. “Eu tenho sete filhos. Criei tudo com pedra. A vida era muito difícil, mas consegui.”</p>



<p>Tudo começou em 1966, quando Zé Menino tomou uma decisão que mudaria sua vida. Próximo de completar 18 anos, ainda morando no município vizinho de Solânea, aceitou o convite de Luiz José Hermínio, conhecido como Luiz da Pedra, para trabalhar em Dona Inês. Guarde esse nome. Ele é importante para entender como a exploração do lajedo da Serra começou.</p>



<p>A mudança deu certo. Sete anos depois, Zé Menino já estava estabelecido na cidade e se casou com uma cunhada de Luiz da Pedra. O casal teve 14 filhos, dos quais sete estão vivos. Dois deles também seguiram o caminho do pai e foram trabalhar na pedreira.</p>



<p>Quando Zé Menino chegou a Dona Inês, a enorme cratera que hoje domina parte da paisagem da cidade ainda não existia. “Era o lajedo todo inteiro”, recorda. Onde hoje trabalhadores e caminhões circulam em áreas escavadas ao longo de décadas, havia uma extensa formação rochosa. Zé Menino aponta para uma das partes ainda preservadas do lajedo para explicar como era antes. A pedra, segundo ele, se estendia inteira por onde hoje existe um grande vazio.</p>



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	                                        <p class="m-0">Zé Menino trabalhou durante 44 anos na pedreira de Dona Inês</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando a pedra virou trabalho</strong></h2>



<p>A história da exploração mineral em Dona Inês começou no fim da década de 1950, quase por acaso. Em 1958, uma tentativa frustrada de construir uma barragem deixou expostas grandes rochas de granito no Lajedo da Serra. Moradores logo perceberam o valor daquele material resistente. A atividade ganhou impulso em 1962, quando o então prefeito Mozart Bezerra Cavalcanti convidou Luiz da Pedra, aquele mesmo que levou Zé Menino para trabalhar na pedreira, para ensinar o ofício e fornecer material para pavimentar as ruas da cidade.</p>



<p>No começo, o principal comprador era o próprio poder público. A pedra servia para calçar as ruas da jovem cidade, emancipada politicamente em 1959. Não havia ainda uma cadeia comercial consolidada nem caminhões saindo diariamente para abastecer outros municípios. Quando terminava uma obra de pavimentação, o trabalho diminuía. Era preciso procurar outra coisa para fazer.</p>



<p>Zé Menino voltava então para o campo. Durante anos, alternou a pedra com o corte do agave, atividade que teve peso importante na economia da região. A fibra natural abasteceu diferentes atividades industriais, mas perdeu espaço com o avanço das fibras sintéticas. Com a decadência do agave, sobretudo a partir da década de 1980, a pedreira passou a absorver parte dos trabalhadores que perderam uma de suas fontes de renda.</p>



<p>Como muitos em Dona Inês, Zé Menino viveu essa transição indo do agave para a pedra e, sempre que necessário, de um trabalho para outro. Estudou apenas até o primeiro ano do ensino fundamental. Quando perguntado sobre o que teria feito se pudesse escolher outra profissão, responde que qualquer outro ofício também poderia ter sido bom. Pedreiro, comerciante, “qualquer coisa”. Mas nunca teve oportunidade de aprender.</p>



<p>Com o passar das décadas, a atividade cresceu. A produção deixou de servir apenas às obras de Dona Inês e passou a abastecer outras cidades da Paraíba e até municípios de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. Apesar de sua importância para a cidade, quase tudo ali funciona na informalidade e há poucos dados oficiais sobre a atividade.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Isso aqui não é força. É jeito”</strong></h2>



<p>Dentro de um dos barracos improvisados da pedreira, Luiz Carlos Rodrigues da Silva prepara as próprias ferramentas. O ferro vai ao fogo e, quando atinge a temperatura certa, é retirado ainda avermelhado e martelado até ganhar uma ponta fina, “como uma agulha”. Depois, é mergulhado no óleo para ganhar resistência antes de enfrentar a pedra.</p>



<p>Aos 42 anos, Luiz Carlos passou mais da metade da vida trabalhando no Lajedo da Serra. Começou por volta dos 17, fazendo serviços por diária. Juntava lajes, limpava a área e realizava trabalhos que não exigiam o domínio das técnicas de corte. Mas aproveitava o tempo para observar os homens mais experientes.</p>



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	                                        <p class="m-0">Luiz Carlos aprendeu o ofício de quebrar pedras olhando os mais velhos</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
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<p>Depois do expediente, pegava as ferramentas e tentava aprender. “Quando via todo mundo trabalhando, pensava que era melhor cortar a pedra do que carregar caminhão. Aí, quando terminava meu dia de serviço, ia cortar pedra para aprender.”</p>



<p>Hoje, diante de uma rocha, Luiz explica que não adianta simplesmente bater. É preciso encontrar a “veia”, identificar as fissuras, escolher o lado certo e atingir o ponto exato. Uma pessoa sem experiência pode passar horas golpeando a pedra sem conseguir parti-la como deseja. Tudo isso utilizando uma marreta que pesa cerca de oito quilos. “Isso aqui não é força. Isso é jeito.”</p>



<p>O conhecimento foi adquirido na prática, observando outros trabalhadores, errando e repetindo. Não há curso, manual ou escola técnica. Na pedreira, o ofício passa de trabalhador para trabalhador e, muitas vezes, de pai para filho.</p>



<p>Depois de cerca de 25 anos, Luiz percorreu quase toda a hierarquia informal da pedreira. Começou como diarista, passou anos carregando material e aprendeu a cortar a rocha. Hoje, como toqueiro, controla um dos setores de exploração e trabalha com uma equipe de seis pessoas. Apesar da dureza do trabalho, Luiz não demonstra arrependimento. “Não existe nada fácil aí. Tem que dar duro mesmo.”</p>



<p>A informalidade também significa, para ele, autonomia. Não há patrão controlando o horário de entrada e saída. Quanto mais produz, mais recebe. “Hoje, se o prefeito me der um emprego, eu não quero. Assim está melhor.”</p>



<p>Essa percepção não é exclusiva de Luiz. Uma pesquisa “Aspectos socioeconômicos da extração mineral no município de Dona Inês-PB”, da geógrafa Natália Freire da Silva, apresentado em 2022 na Universidade Estadual da Paraíba, identificou que parte dos trabalhadores reconhecia os benefícios que uma eventual formalização poderia trazer, como renda fixa, férias, 13º salário e proteção previdenciária, mas temia perder a autonomia para definir os próprios horários e dias de trabalho.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A informalidade e as condições de trabalho no Lajedo da Serra estão na mira dos órgãos de fiscalização. Em 2026, o Ministério Público do Trabalho na Paraíba (MPT-PB) participou de uma fiscalização na pedreira de Dona Inês em conjunto com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e outros órgãos públicos.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Segundo o MPT-PB, foram constatadas “várias irregularidades” relacionadas à saúde e à segurança dos trabalhadores e ao trabalho informal. O órgão mantém, em sua sede em João Pessoa, um procedimento para investigar a atividade na pedreira.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>O Ministério Público do Trabalho informou que a apuração ainda está em andamento e que, a partir dela, serão definidas as providências a serem adotadas. Procurado pela Marco Zero, o órgão não forneceu detalhes sobre as irregularidades encontradas durante a fiscalização nem sobre eventuais responsáveis.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Um plano de carreira sem carteira assinada</strong></h2>



<p>Embora funcione à margem das relações formais de emprego, a pedreira possui uma organização própria. Há funções, diferenças de remuneração, aprendizado técnico e até uma espécie de plano de carreira tácito.</p>



<p>Na base estão os diaristas, responsáveis por serviços como limpeza e preparação das áreas. Há também os carregadores, pagos para colocar nos caminhões as pedras já cortadas. Acima deles, em termos de conhecimento técnico e remuneração, estão os cavouqueiros. São os trabalhadores que sabem quebrar a rocha, transformando grandes blocos de granito em paralelepípedos, meios-fios, pedras para muros, britas e outros produtos.</p>



<p>No topo da hierarquia informal estão os chamados toqueiros. São eles que controlam diferentes setores da pedreira, organizam equipes, fornecem parte dos insumos e equipamentos necessários ao trabalho e fazem a intermediação com os compradores. A propriedade dessas áreas, porém, é nebulosa. “Não é nosso porque não está registrado no nome da gente”, reconhece Luiz Carlos.</p>



<p>Segundo relatos colhidos pela reportagem e estudos realizados sobre o Lajedo, os setores foram sendo historicamente ocupados e administrados por diferentes pessoas, numa relação que envolve a prefeitura e a divisão informal da área. No estudo “Extrativismo mineral e seus impactos ambientais no Lajedo da Serra em Dona Inês/PB”, o geógrafo Edson Felipe Pereira da Silva afirma que o lajedo foi dividido em lotes e que pessoas encarregadas desses espaços passaram a ser conhecidas como toqueiros.</p>



<p>Zé Menino lembra de uma versão embrionária desse sistema. Quando chegou a Dona Inês, trabalhava com Luiz da Pedra, que controlava uma área onde atuavam entre oito a dez pessoas. Os trabalhadores produziam e repassavam uma comissão a ele. A área, segundo Zé Menino, era da prefeitura. “Aí ele tomou conta dessa área e botou o povo para trabalhar.”</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>De pai para filho</strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Bajau já trabalha há três décadas quebrando pedra</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Se você chegar à pedreira perguntando por Josenildo Martins, talvez pouca gente saiba de quem se trata. Mas basta perguntar por Bajau que todos já indicam o caminho de onde encontrá-lo. Aos 41 anos, ele já passou quase três décadas quebrando pedra. Começou aos doze, “fazendo brita”, quebrando em pedaços menores as sobras deixadas pela produção dos trabalhadores mais experientes. Com o tempo, aprendeu o ofício. Hoje, calcula no olho as dimensões das pedras e consegue produzir cerca de 1.500 paralelepípedos em uma semana.</p>



<p>Bajau é uma figura popular no Lajedo e também fora dele. Aparece em dezenas de vídeos publicados na internet. <a href="https://www.youtube.com/watch?v=fiJkYpkdsMw" data-type="link" data-id="https://www.youtube.com/watch?v=fiJkYpkdsMw" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Um deles, postado em 2016, acumulou mais de 2,1 milhão de visualizações</a>, mas sua história na pedreira começou bem antes.</p>



<p>O pai, Cícero Martins, hoje com 61 anos, também trabalhou quebrando pedra. Começou a atividade por volta dos 30, depois de passar pela agricultura e por uma temporada em São Paulo, percorrendo o caminho de muitos da sua geração. Além de Bajau, outros filhos de seu Cícero foram trabalhar na pedreira.</p>



<p>Quando a reportagem esteve em Dona Inês, Cícero ensinava a um deles, Josélio Martins, então com 34 anos, como encontrar o ponto certo para quebrar o granito. “É mais jeito do que força. Tem que saber o lugar certo de bater.”</p>



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	                                        <p class="m-0">Cícero, Josélio e Bajau: um trabalho que passa de pai para filho</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Josélio frequenta a pedreira desde os 16 anos, quando começou carregando caminhões. Entre idas e vindas, alternou o trabalho no lajedo com empregos no comércio da cidade. Agora aprendia uma nova função. Quando pegasse o “jeito”, deixaria de ser carregador para se tornar cavouqueiro. Na pedreira, essa mudança significa também a possibilidade de ganhar mais.</p>



<p>A família Martins está longe de ser uma exceção. Zé Menino, por exemplo, trabalhou ao lado dos próprios filhos enquanto estava na ativa. Esse também é o caso de Pedro Araújo, hoje com 52 anos, e que chegou a Dona Inês em 1986 acompanhado do pai, Luiz Araújo, o Luizão. Os dois já trabalhavam com pedra no Rio Grande do Norte. “Tava ruim lá e resolvi vir para cá com meu pai.”</p>



<p>Luizão morreu aos 97 anos. Segundo o filho, trabalhou até os 90. A geração seguinte da família Araújo também passou pela pedreira. Um dos netos, João Paulo, hoje com 26 anos, trabalhava como motorista de caçamba, transportando o material retirado do lajedo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Onde a pedra se torna pão</strong></h2>



<p>Edson Felipe cresceu perto do Lajedo da Serra. Durante a infância, a pedreira não era apenas parte da paisagem. “Meu pai era cavouqueiro, quebrava pedras. Foi o meio que ele encontrou para a minha subsistência. Acompanhei de perto toda a dureza e o drama dessa vida.”</p>



<p>O pai, Feliciano Ribeiro da Silva, hoje com 66 anos, sustentou a família cortando pedra. O irmão mais velho também trabalhou no lajedo antes de se mudar para São Paulo em busca de outras oportunidades. Mas Edson seguiu um caminho diferente. “Eu escapei porque consegui estudar.”</p>



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	                                        <p class="m-0">Edson: &#8220;Acompanhei de perto toda a dureza e o drama dessa vida.”</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Formou-se em Geografia, especializou-se em Ciências Ambientais e passou a olhar para a pedreira que marcou sua infância também como objeto de pesquisa. “Depois de adulto, a gente começa a refletir sobre tudo isso.”</p>



<p>Em 2019, transformou parte dessas reflexões em um trabalho acadêmico sobre os impactos ambientais da extração mineral no Lajedo da Serra. A pesquisa ouviu 15 cavouqueiros e 20 moradores das áreas próximas. Entre os trabalhadores, o medo de acidentes apareceu como uma das principais preocupações. Os entrevistados relataram casos de perda de membros, queimaduras graves, cegueira e até morte.</p>



<p>Anos depois, a experiência familiar ganhou outra forma. Em 2023, Edson participou da criação do espetáculo “Onde a pedra se torna pão”, apresentado na abertura da Rota Cultural Raízes do Brejo. O título resume uma das contradições mais difíceis de Dona Inês. A mesma pedra que adoece, machuca e modifica a paisagem é a pedra que põe comida na mesa.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>“É por meio do trabalho braçal que a pedra vem em pão se transformar, pra centenas de famílias grande fome não passar. Pois apesar de cansado, devido todo aquele solzão, a pedra que se fazia dura, na mesa se torna pão.”</strong></p>



<p class="has-text-align-right"><em>Trecho do musical “Onde a pedra se torna pão”(2023)</em></p>
</blockquote>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Uma cidade voltada para a pedreira</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">A pedreira já faz parte da identidade de Dona Inês</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
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<p>Por conta da topografia do local, de quase todo o núcleo urbano de Dona Inês é possível avistar o Lajedo da Serra. A pedreira está tão presente no horizonte da cidade que acabou incorporada à própria identidade do município. Mas sua importância vai muito além da geografia. É econômica.</p>



<p>Com pouco mais de 10 mil habitantes, Dona Inês tem uma economia fortemente dependente dos rendimentos do funcionalismo público, das aposentadorias, dos benefícios sociais, do comércio e do trabalho informal. Nesse cenário, a extração mineral ocupa um espaço importante. A pesquisa “Aspectos socioeconômicos da extração mineral no município de Dona Inês-PB”, já citada anteriormente, estimou que cerca de 250 pessoas trabalhavam na pedreira e concluiu que a renda gerada pela atividade circulava no comércio e nos serviços do próprio município. Uma pesquisa anterior, de 2019, falava em cerca de 300 trabalhadores.</p>



<p>Essa variação dos números diz muito sobre a pedreira. Não existe um cadastro público confiável de todos os trabalhadores. Não há folha de pagamento. Não há uma empresa reunindo os cavouqueiros. Não existe sequer uma única “pedreira” do ponto de vista de quem trabalha ali. “Lá eles não consideram uma única pedreira. São várias pedreiras. A de fulano, a de ciclano”, explica Edson.</p>



<p>Cada setor tem sua própria dinâmica, seus trabalhadores e seu toqueiro. A informalidade permite que um cavouqueiro experiente, em períodos de boa produção e muitas encomendas, possa obter uma renda superior à de muitos empregos formais disponíveis numa cidade pequena.</p>



<p>Foi assim que Zé Menino construiu sua vida. Ele lembra de períodos em que o dinheiro da pedra tinha um poder de compra que sua aposentadoria não tem hoje. Conta, orgulhoso, das motos e carros que conseguiu comprar ao longo dos anos. “Hoje eu não posso comprar nem um pneu. Só dá para comer.”</p>



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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Do pó ao sol</strong></h2>



<p>Na pedreira, o corpo é a principal ferramenta de trabalho e também é onde o custo da atividade se acumula. Os homens passam horas expostos ao sol, à poeira e ao esforço físico repetitivo. Trabalham com marretas pesadas, ferramentas cortantes e fragmentos de pedra que podem ser projetados durante o corte. Em determinadas etapas da extração, explosivos também foram historicamente utilizados para romper grandes blocos de rocha.</p>



<p>Zé Menino carrega marcas desse tempo no corpo. “Ruim era quando levava um machucado.” Em um dos acidentes, conta, precisou levar 17 pontos na perna. O medo de perder a visão aparece repetidamente entre os trabalhadores. Pequenos fragmentos de granito podem ser lançados durante os golpes. “Meu pai tem um medo danado de ficar cego”, conta Bajau sobre Cícero. Ele próprio já se cortou algumas vezes e carrega na perna uma cicatriz de um acidente que terminou com três pontos.</p>



<p>Os riscos não estão apenas nos acidentes repentinos. O estudo “Prevalência de queilite actínica em trabalhadores extrativistas minerais na cidade de Dona Inês-PB”, da pesquisadora Rafaelle Ferreira dos Santos, realizado com 202 trabalhadores extrativistas, encontrou 79 casos de queilite actínica, o equivalente a 39,1% dos examinados. A lesão está associada à exposição crônica à radiação solar nos lábios e pode evoluir para câncer. Os trabalhadores pesquisados tinham uma jornada média de 7 a 8 horas por dia. O estudo também encontrou associação entre a presença da lesão, maior idade e mais tempo acumulado de trabalho.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O Lajedo que desaparece</strong></h2>



<p>Mariano Ferreira da Costa, morador de Dona Inês e ex-secretário municipal, conheceu outro Lajedo da Serra quando era criança. “Na minha infância eram pequenos afloramentos rochosos, com o que nós chamávamos de capão de mato. E ali havia pequenas casas, casas de taipa”. Em alguns pontos, a rocha ainda estava coberta por uma camada de terra e era possível se plantar.</p>



<p>Havia cacimbas e tanques naturais que acumulavam água nas depressões da rocha. Muitos carregavam os nomes das pessoas que viviam por perto: Cacimba de Maria Cícera, de Maria Rita, de Rita Cajueiro, tanque de João Pereira. Lá, mulheres lavavam roupas, moradores buscavam água e jovens faziam piqueniques.</p>



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	                                        <p class="m-0">Mariano é uma espécie de guardião da memória de Dona Inês</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Com o avanço da exploração, as famílias foram vendendo seus pequenos terrenos. A terra foi retirada para expor o granito. A pedra passou a ocupar o lugar dos roçados, das casas e de parte dos reservatórios. Segundo Mariano, há áreas escavadas a mais de 40 metros de profundidade.</p>



<p>Pesquisas realizadas sobre o lajedo registraram mudanças contínuas na paisagem, degradação e perda de reservatórios hídricos e redução da flora e da fauna. Moradores das proximidades também relataram impactos provocados por poeira, explosões e abalos.</p>



<p>A transformação é irreversível. Mariano tentou, por diferentes caminhos, preservar ao menos parte da memória daquele território. Em 2009, quando ocupava a secretaria municipal de Cultura, reuniu toqueiros para discutir a criação do Memorial Lajedo da Serra. A ideia era preservar alguns dos grandes paredões que permaneciam em pé e transformá-los numa espécie de linha do tempo.</p>



<p>Anos depois, em 2023, o artista Tarcísio Play começou a pintar nesses paredões cenas da história da pedreira. A proposta era que oito grandes formações fossem preservadas. Segundo Mariano, restou apenas uma. Em 2024, trabalhadores começaram a explorar também a pedra onde estavam os painéis.</p>



<p>Mariano diz ter tentado argumentar. Segundo ele, em uma das discussões, lembrou a um trabalhador que aquela pedra contava a história de seu próprio avô. A resposta foi simples. O avô já tinha morrido e ele precisava colocar feijão na mesa.</p>



<p>A frase revela o impasse que Dona Inês adiou por mais de seis décadas. Preservar o lajedo significa limitar uma atividade da qual centenas de pessoas dependem. Regularizar a pedreira significa mexer numa forma de trabalho que muitos valorizam justamente pela autonomia. Melhorar as condições de segurança exige enfrentar uma cadeia econômica construída sobre a informalidade.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/em-cruz-da-menina-o-autorreconhecimento-comeca-na-primeira-infancia/" class="titulo">Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/raca/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Raça</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/de-volta-a-idade-da-pedra/">De volta à idade da pedra</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>A anatomia da violência bolsonarista no segundo turno das eleições do Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/a-anatomia-da-violencia-bolsonarista-no-segundo-turno-das-eleicoes-do-brasil/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Nov 2026 19:54:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[violência bolsonarista]]></category>
		<category><![CDATA[Violência Política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Jorge Cavalcanti* “Não tenhas inveja do homem violento, nem sigas nenhum de seus caminhos”. O ensinamento bíblico do Rei Salomão está registrado no Antigo Testamento, mais precisamente no livro dos Provérbios, capítulo 3, versículo 31. E tem sido colocado à prova pelo bolsonarismo que parece conter a violência em seu DNA. Foi para analisar [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Jorge Cavalcanti*</strong></p>



<p>“Não tenhas inveja do homem violento, nem sigas nenhum de seus caminhos”. O ensinamento bíblico do Rei Salomão está registrado no Antigo Testamento, mais precisamente no livro dos Provérbios, capítulo 3, versículo 31. E tem sido colocado à prova pelo bolsonarismo que parece conter a violência em seu DNA. Foi para analisar essa premissa que o designer Lucas Mendes de Oliveira, 37 anos, que atua na área de tecnologia, decidiu fazer um levantamento de episódios violentos com evidência ou indício de que tenham sido praticados por apoiadores de Flávio Bolsonaro.</p>



<p>O resultado foi surpreendente até mesmo para quem acompanha de perto o noticiário político: em 24 dias, 37 casos confirmados. Dentre eles, três ocorrências de agressão física, uma delas praticada contra um homem por outros dois, sendo um deles assessor do vereador Jair Renan Bolsonaro, irmão do então candidato a presidente do PL e vereador em Balneário Camboriú (SC).</p>



<p>A pesquisa compilou também outros 57 casos que estão catalogados como “em apuração”. Estes envolvem, por exemplo, a morte de cinco pessoas, uma tentativa de homicídio de uma mulher em Minas Gerais e um <a href="https://www.instagram.com/reel/De-EoROkUsB/">atropelamento de um homem por uma viatura da Polícia Rodoviária Federal</a> em Santa Catarina.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong><a href="https://claude.ai/artifact/AA8qgAxdDax3aHSG9gVpmS" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Clique aqui para acessar o levantamento na íntegra</a></strong></li>
</ul>



<p>“Vi vários casos fragmentados de pessoas compartilhando episódios de violência, inclusive aqui no Recife, na Praça de Casa Forte. Eu já tinha feito algo similar, mas para outras questões. Daí quis entender se a percepção que eu tinha, da minha bolha, era um problema maior. E, de fato, ficou demonstrado que é”, contextualiza Lucas Mendes.</p>



<p>“Algum caso concreto pode ter ficado de fora da contagem, mas o resultado final é suficiente para nos dar a dimensão da violência muitas vezes praticada por apoiadores desse projeto político e ideológico”, ressalta o designer.</p>



<p>O levantamento foi feito com o uso do assistente de inteligência artificial chamado Claude, montado a partir de buscas por cada estado da federação e compreendeu o período de 4 a 28 de outubro; ou seja, o dia da votação do primeiro turno das eleições, todo o segundo turno e os três dias subsequentes.</p>



<p>Cada caso foi checado com, pelo menos, duas fontes, uma delas sendo veículo da mídia corporativa tradicional ou órgão oficial.</p>



<p>Na listagem, o episódio consta como “confirmado” quando corroborado por fonte de nível A ou site ou perfil de órgão oficial, e o autor pode ser identificado como alguém com identificação ideológica com o bolsonarismo por meio de aspectos como o uso de camisa ou adesivo 22, presença em ato pró-Flávio, declaração ou perfil de rede social.</p>



<p>Para o levantamento, Lucas Mendes, que trabalha com artefatos digitais, considerou como fonte nível A veículos como G1, Folha, Estadão, UOL, CNN, Metrópoles, Agência Brasil e Reuters. Completaram a categoria jornais regionais de referência e agências de checagem. Nos casos em que um episódio foi registrado em mais de um local, as duplicidades foram desconsideradas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Vereadora do PT é apedrejada e ferida no rosto</h2>



<p>Iara Pimentel, de Montes Claros, Minas Gerais, <a href="https://g1.globo.com/mg/grande-minas/eleicoes/2026/noticia/2026/10/25/vereadora-do-pt-fica-ferida-apos-agressao-durante-carreata-em-mg.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">precisou ser internada em hospital em decorrência de ter sido atingida na região da cabeça</a> por pedras e objetos atirados a curta distância por apoiadores de Bolsonaro. O episódio ocorreu no dia 24, um sábado. O ataque a impôs convulsões, fraturas no nariz, suturas na face e o uso de medicamentos. No levantamento, está catalogado como “tentativa de homicídio”.</p>



<p>No dia seguinte ao ataque, com rosto bastante inchado, Iara Pimentel olhou para a câmera e asseverou: “a gente segue na luta. Nós, que viemos de baixo, sabemos que luta é para toda vida e não vamos desistir de lutar por democracia, de lutar por um país mais justo, uma cidade mais justa”. O vídeo publicado no seu perfil do Instagram ultrapassou a marca de 1 milhão de visualizações, embalado por uma corrente de indignação e solidariedade.</p>





<p>Coordenadora do Fórum de Mulheres de Pernambuco, Natália Cordeiro tem acompanhado de perto o recrudescimento da violência política de gênero no Brasil, com a organização da extrema-direita facista em torno do bolsonarismo. “Nos últimos tempos, temos visto a retomada do papel da mulher fincada unicamente no ambiente doméstico e, portanto, que precisa ser mantida distante da coisa pública e da política institucional. Em paralelo, ocorre a demonização e perseguição da figura do ‘outro’, que pode ser a mulher, o negro, o petista. Tanto no campo do simbólico quanto do prático, essa tipo de ideologia precisa da violência para se manter”, analisa ela, que também é educadora do SOS Corpo &#8211; Instituto Feminista para a Democracia.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Homem desfere socos em mulher e é liberado por PMs</strong></h2>



<p>O caso da vereadora do PT Iara Pimentel foi o de maior repercussão na mídia e nas redes digitais, por conta do flagrante em vídeo e da brutalidade das cenas, mas esteve longe de ser o único considerado grave. Também no dia 24, véspera da eleição, em São Paulo, um homem <a href="https://www.metropoles.com/colunas/demetrio-vecchioli/pm-promete-investigar-policias-que-liberaram-bolsonarista-que-socou-mulher" target="_blank" rel="noreferrer noopener">branco desferiu três socos contra uma mulher</a> que vestia camiseta vermelha. Dois policiais militares intervieram e, em seguida, liberaram o suspeito sem ao menos perguntar-lhe o nome.</p>



<p>Os agentes envolvidos na ocorrência são dos quadros da ativa da Polícia Militar de São Paulo, do governador por Tarcísio de Freitas (Rep), a mesma instituição a que pertencem, pelo menos, outros três PMs que foram <a href="https://www.youtube.com/watch?v=FmDK4dqWvbE" target="_blank" rel="noreferrer noopener">apontados como responsáveis por obrigar suspeitos de tráfico de drogas a vestirem camisetas com referência à campanha de Lula</a>. O caso ocorreu na comunidade Vitória do Pantanal, em Piracicaba, cidade do interior, há quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><span style="font-weight: 400;">Episódios com morte, obviamente, ocupam a faixa de número 1, a de maior gravidade da pesquisa, seguidos por tentativa de homicídio e lesão grave. Agressão física (3); intimidação ou coação (4); ameaça, perseguição e ofensa (5); dano a patrimônio (6); absurdo institucional (7); e fake news e ataque simbólico (8) completam a catalogação. </span></p>
        </div>
    </div>



<h3 class="wp-block-heading">Perseguição econômica é a “novidade”</h3>



<p>Parlamentares do PL e influenciadores digitais, desta vez, pediram publicamente a demissão de “petistas”, com referência a todo e qualquer eleitor(a) das 64.256.232 pessoas que votaram pela reeleição do presidente Lula.</p>



<p>Em quatro cidades do Rio Grande do Sul e em outras seis do Espírito Santo, circularam listas de boicote a comerciantes. “Vamos matar esses desgraçados de fome” e “só na bala” foram alguns dos dizeres por escrito. O Ministério do Trabalho e Emprego, do governo federal, recebeu <a href="https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2026/outubro/mte-registra-4-3-mil-denuncias-de-assedio-eleitoral-no-trabalho-em-apenas-tres-dias" target="_blank" rel="noreferrer noopener">4,3 mil denúncias de assédio eleitoral no trabalho em apenas três dias</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Violência escalonou e foi maior onde Bolsonaro tem mais apoio</strong></h3>



<p>A onda de violência seguiu um escalonamento à medida que se aproximava o dia da votação do segundo turno das eleições. De 4 a 17 de outubro, foram 3 casos confirmados e 5 em apuração. De 18 a 24, saltou para 4 confirmados e 10 em apuração. O momento mais agudo foi o dia do comparecimento à urna (25), quando foram catalogados 6 casos confirmados e 18 em apuração.</p>



<p>Os Estados do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) &#8211; onde o agronegócio é forte, assim como o apoio a Bolsonaro &#8211; concentraram os casos que envolvem armas de fogo e ameaças a indígenas.</p>



<p>A coordenadora-executiva do Gajop, Edna Jatobá, destaca a importância dos símbolos na política. “O gesto da arminha, marca do bolsonarismo, fortalece uma narrativa política que apresenta a violência como resposta legítima aos conflitos sociais. E quando a violência é incorporada à linguagem e simbologia de um movimento político, há o risco de que ela passe a ser socialmente tolerada ou até estimulada. Vale lembrar que, na campanha de 2018, Bolsonaro, de cima de um trio e segurando o tripé do microfone como se fosse uma arma, soltou um ‘bora fuzilar a petralhada aqui do Acre’”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mestre de capoeira foi a 1ª vítima da letalidade bolsonarista</strong></h3>



<p>Romualdo Rosário da Costa, mais conhecido como Mestre Moa do Katendê, pode ser considerado a vítima de número 01 da violência letal do bolsonarismo. No dia 8 de outubro de 2018, após o resultado do primeiro turno das eleições no Brasil, ele chegou ao Bar do João, na região central de Salvador, acompanhado de um irmão. Juntamente com um amigo em comum, começaram a falar sobre a eleição, até serem interrompidos pelo barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, de 36 anos.</p>



<p>O dono do bar olhou para Paulo Sérgio e o censurou pela intromissão na conversa alheia e a má educação para com um senhor sexagenário. O barbeiro, então, pagou a conta e se retirou. Pouco tempo depois, ele retornou e surpreendeu Moa com 12 facadas.</p>



<p>Para a contra-mestra de capoeira Gaby Conde, o bolsonarismo pode ser considerado uma atualização das correntes do colonialismo, um projeto que reafirma estruturas históricas de dominação e impõe uma forma violenta e perversa de se relacionar com a diferença.</p>



<p>“Mestre Moa carregava, simbolicamente, muitos dos marcadores que esse projeto odeia: era negro, periférico, artista, mestre de uma cultura de matriz africana, capoeirista e de esquerda. Seu assassinato não pode ser dissociado desse contexto de violência política. A capoeira, no entanto, conhece essa história há séculos. Foi perseguida, criminalizada e tratada como caso de polícia porque representava muito mais do que uma prática corporal. Era espaço de organização, identidade, solidariedade e afirmação da liberdade negra”.</p>
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		<title>Mobilização permanente como forma de governo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Nov 2026 18:53:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[André Janones]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Governo Federal]]></category>
		<category><![CDATA[Jones Manoel]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Rodrigo de Abreu Pinto* Lula foi reeleito e se tornou o primeiro candidato, desde a redemocratização, a vencer um segundo turno depois de chegar atrás no primeiro. O petista reverteu uma desvantagem de 2,2 milhões de votos para Flávio Bolsonaro e terminou com 4,4 milhões à frente. As três semanas que separaram as duas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Rodrigo de Abreu Pinto*</strong></p>



<p>Lula foi reeleito e se tornou o primeiro candidato, desde a redemocratização, a vencer um segundo turno depois de chegar atrás no primeiro. O petista reverteu uma desvantagem de 2,2 milhões de votos para Flávio Bolsonaro e terminou com 4,4 milhões à frente.</p>



<p>As três semanas que separaram as duas votações foram de intensa mobilização, em nada parecida com o que se via até então. Na véspera do primeiro turno, o cientista político Jairo Nicolau descreveu na Folha de S. Paulo uma campanha sem pulso: “poucos carros com adesivos, comícios e carreatas muito mais vazios do que em eleições anteriores, menos conversas sobre política”.</p>



<p>Ao menos na esquerda, havia uma boa dose de salto alto nisso. Parte vinha de uma visão economicista, segundo a qual os bons números da economia bastariam. Outra parte, de certo apelo messiânico em torno de Lula, que disputava sua última eleição. Deu no que deu.</p>



<p>Mas, olhando para trás, é difícil imaginar a virada sem aquele tropeço. A verdade é que a derrota pôs a esquerda em marcha. Primeiro vieram reações espontâneas, como o ato puxado por estudantes da UFF em Niterói menos de 24 horas depois da apuração. Depois, para alcançar quem não tem a militância dos universitários, veio o método proposto pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), o “general” do Exército do Lula.</p>



<p>Logo após o primeiro turno, o eleitorado de esquerda estava cindido entre a vontade de fazer algo e a sensação de que nada adiantaria. As missões de Janones destravaram esse impasse. Com tarefas diárias e concretas, as pessoas recuperaram a capacidade de agir e, mais do que isso, o sentimento de que faziam parte de algo maior.</p>



<p>O que movia as pessoas não era a ação em si, mas ver seu efeito: cada resultado alimentava a ação seguinte. Pela primeira vez, a esquerda deixou de usar as redes como instrumento e passou a entendê-las como uma arquitetura com regras próprias. À medida que milhões de “soldados” cumpriam as missões, a esquerda passou a pautar o algoritmo, em vez de ser pautada por ele.</p>



<p>Diante disso, a campanha petista (“a menos organizada desde 1989”, nas palavras do próprio Lula) teve ao menos um mérito, o da humildade. Em vez de tentar comandar o levante espontâneo, deixou-se levar por ele. Foi assim com o exército de Janones e com outros nativos digitais, como a deputada eleita Ana Elisa (PT-MG), de quem partiu o conselho para que Lula gravasse vídeos curtos olhando direto para a câmera frontal do celular. O primeiro deles ultrapassou 23 milhões de visualizações em um dia.</p>



<p>O espaço conquistado nas redes acendeu o pavio nas ruas, numa imbricação entre real e digital que não se via à esquerda desde junho de 2013. Em escala macro, voltaram as grandes manifestações, como o ato na avenida Paulista na véspera da eleição, apontado pelo cientista político André Singer como o maior da história política brasileira. Em escala micro, o corpo a corpo para virar votos resgatou a tradição de trabalho de base que está na origem do PT, nas Comunidades Eclesiais de Base, nos sindicatos e nos clubes de mães, todos dedicados a discutir os problemas concretos das pessoas, como descreve Celso Rocha de Barros no ótimo <em><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/9786559211234-pt--uma-historia-3656/p">PT, uma história</a></em>.</p>



<p>O resultado foi o que se viu nos quatro cantos do país nos últimos dias de campanha. Gente contando que tinha virado um, dois, três votos, como quem acaba de completar uma maratona. Gente que combinou de buscar a avó que não tinha votado no primeiro turno. Gente que pôs o carro à disposição dos vizinhos. Gente que passou dias no grupo da família desfazendo <em>fake news</em>. Gente que levou a discussão sobre a escala 6&#215;1 para o almoço do trabalho. Inúmeras tecnologias afetivas de formação de comunidade, que levaram 3 milhões de pessoas a mais às urnas no segundo turno e ajudaram Lula a somar 10,4 milhões de votos entre um turno e outro, contra só 3,7 milhões de Flávio.</p>



<p>Além da vitória, a esquerda sai da eleição com o esboço de uma estética (a retomada do verde e amarelo), de uma comunicação de massa (os vídeos de <a href="https://www.tiktok.com/@euannaelisa" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ana Elisa</a> no TikTok, as aulas de <a href="https://www.instagram.com/jones.manoel/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Jones Manoel</a>, os episódios do <a href="https://www.youtube.com/@revelando_br" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Revelando</a>), de um diálogo com a espiritualidade popular (a defesa de Nossa Senhora Aparecida) e de uma utopia: a da solidariedade como meio de transformar a realidade. A missão agora é converter mobilização em organização, e rápido, enquanto ainda está viva nas pessoas a descoberta de que podem mudar o rumo da história.</p>



<p>A combinação de rede e rua segue indispensável, mas o modelo hierárquico das missões funciona para um tiro curto, com alvo definido. O dia a dia de um governo é uma disputa pulverizada, travada em 38 ministérios e em incontáveis temas. O Exército do Lula representou um letramento digital: a cada missão, o eleitor aprendia algo sobre o algoritmo. Esse conhecimento deve servir agora para criar um ecossistema que não seja tão descentralizado a ponto de nada acontecer, nem tão centralizado a ponto de não dar conta da realidade. Precisa ser policêntrico, e os primeiros polos podem ser as jovens lideranças recém-eleitas, como Ana Elisa, Guilherme Cortez, Jones Manoel, Luna Zarattini, Rick Azevedo e Rosa Amorim.</p>



<p>E por que isso importa tanto? Porque, diante de um Congresso hostil e mais à direita, o governo precisará recorrer ao que os cientistas políticos chamam de presidencialismo plebiscitário, em que o presidente busca no apoio direto da população a força que lhe falta no Parlamento. Esse modelo, de levar pautas à sociedade e deixar que a pressão faça o resto, já foi testado na luta pelo fim da escala 6&#215;1, pauta nascida nas redes que boa parte dos parlamentares via com maus olhos e que, sob pressão, acabou aprovada por maiorias acachapantes na Câmara e no Senado. Falta transformá-lo em método de governo.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>Rodrigo de Abreu Pinto</strong> é advogado, filósofo e presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais</p>
    </div>



<p></p>
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		<title>Ao ser acusado de um crime, fuja pra onde?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Oct 2026 18:57:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Flávio Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[fuga]]></category>
		<category><![CDATA[internacional]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Thiago Diniz* Antes de tudo, queria começar dizendo que esse texto não é sobre política, é sobre imagem, comunicação e posicionamento. Sempre fui um aficionado por cinema. Até hoje, sou. Lembro bem de assistir, quando criança, a filmes da TV repetidas vezes, já que as emissoras compravam sempre os mesmos títulos e o Netflix [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Thiago Diniz*</strong></p>



<p>Antes de tudo, queria começar dizendo que esse texto não é sobre política, é sobre imagem, comunicação e posicionamento. Sempre fui um aficionado por cinema. Até hoje, sou. Lembro bem de assistir, quando criança, a filmes da TV repetidas vezes, já que as emissoras compravam sempre os mesmos títulos e o Netflix era algo absolutamente distante dos anos 1980, década em que cresci.</p>



<p>Uma das memórias mais claras era o destino de alguns personagens no final dos filmes. Nos roteiros policiais mais previsíveis, o plano era quase sempre o mesmo: assaltar um banco e, com o dinheiro, viver<br>tranquilamente nos trópicos. O que sempre me deixou curioso é que um dos grandes destinos da roubalheira era ninguém menos que nós: o Brasil. Mais especificamente, viver no Rio de Janeiro parecia ser o desejo de muitos gatunos estadunidenses de olhos azuis e bolsos cheios.</p>



<p>Eram os anos da ditadura, e os esforços para construir uma imagem internacional do nosso país eram outros. A visão internacional frequentemente se resumia a alguma fotografia do Pão de Açúcar. Claro que turismo é apenas uma das ferramentas de construção da imagem de um país. O que eu não esperava, diante da minha antiga TV Telefunken de origem alemã, era que, anos depois, Justiça e Eleições também ajudariam a reposicionar o Brasil no imaginário internacional.</p>



<p>As eleições brasileiras passaram a dialogar com disputas políticas em países como Estados Unidos, França, Israel e Sérvia. É interessante observar como símbolos, estratégias de mobilização e narrativas políticas atravessam fronteiras e são apropriados por atores locais. O gesto do “L”, associado à campanha de Lula, também apareceu em manifestações internacionais de resistência à extrema direita. A ex-prefeita de Barcelona fez o &#8220;L&#8221; em referência à resistência contra a extrema direita espanhola. O mesmo gesto<br>tem sido feito em alusão ao receio do avanço da eterna candidata da extrema direita na França, Marine Le Pen. Esses movimentos não significam que o Brasil determine os rumos de outras eleições, mas revelam como repertórios políticos brasileiros passaram a circular além de nossas fronteiras. </p>



<p>No sentido inverso, os Estados Unidos e a Itália aparecem como destinos de políticos brasileiros envolvidos em controvérsias judiciais. E aqui não se trata de discutir culpa, mas de observar o que acontece quando um país passa a ser percebido como possível destino de atores que alegam perseguição política ou buscam distância de conflitos institucionais em seus países de origem. A percepção pública sobre esses movimentos importa tanto quanto os próprios movimentos.</p>



<p>É nesse ponto que a imagem internacional dos Estados Unidos merece atenção.</p>



<p>Durante a Guerra Fria, o país investiu na projeção de valores como liberdade, democracia e superioridade de seu modelo político. O cinema foi uma das ferramentas dessa construção simbólica. Basta lembrar o confronto entre Rocky Balboa e Ivan Drago, em Rocky IV, ou a representação do autoritarismo em Star Wars, de George Lucas. Entre entretenimento e política, narrativas culturais também ajudaram a organizar a maneira como o mundo imaginava os Estados Unidos e seus adversários. Mas o que acontece quando as ações de um país parecem entrar em tensão com os valores que ele projeta internacionalmente?Quando decisões de seu governo são interpretadas como favorecimento a aliados políticos estrangeiros, que impacto isso pode ter sobre sua credibilidade? E como públicos de outros países distinguem a defesa de princípios democráticos do uso estratégico da influência internacional?</p>



<p>A diplomacia pública não se resume ao que um governo diz sobre si mesmo. Ela também depende de como suas ações são percebidas por outros públicos. A imagem de um país não é construída apenas por campanhas oficiais, atrações turísticas ou produções de Hollywood. É construída, sobretudo, na relação entre discurso e prática. A pergunta que fica, portanto, é: os Estados Unidos estão diante de uma crise de imagem ou apenas revelando uma faceta de sua atuação internacional que, durante muito tempo, ficou em segundo plano?</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>Thiago Diniz</strong> é mestre em Marketing pela University of Huddersfield e doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).</p>
    </div>
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		<title>A política está em toda grande literatura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2026 20:16:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Dia do Livro]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Publicada originalmente pela Revista Aracá com o título O espaço da opinião nunca fica vazio Nesta entrevista para a Revista Araçá, o ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Eduardo César Maia afirma que a política está em toda grande literatura. O problema não é o tema, é o &#8220;como&#8221;. E o &#8220;como&#8221;, [&#8230;]</p>
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<p><strong>Publicada originalmente pela <a href="https://www.aracarevista.com.br/edicao/27/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Revista Aracá</a> com o título <a href="https://www.aracarevista.com.br/o-espaco-da-opiniao-nunca-fica-vazio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O espaço da opinião nunca fica vazio</a></strong></p>



<p>Nesta entrevista para a Revista Araçá, o ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Eduardo César Maia afirma que a política está em toda grande literatura. O problema não é o tema, é o &#8220;como&#8221;. E o &#8220;como&#8221;, diz ele, é o que a sala de aula e a crítica andam esquecendo.</p>



<p><strong>Quando os seus alunos precisam citar uma referência intelectual para entender o país, quem aparece? Algum escritor pernambucano vivo é citado?</strong></p>



<p><strong>Eduardo César Maia</strong> ー Tenho duas disciplinas que trabalham o pensamento brasileiro: História do Pensamento Brasileiro e Cultura Brasileira, para alunos não de Letras, mas de Comunicação. Utilizo muito a literatura brasileira como fonte do pensamento brasileiro, e não simplesmente o que normalmente se faz, que é trabalhar a sociologia, a história e, às vezes, a economia do Brasil.</p>



<p>Mas devo admitir que, apesar de dar muita atenção ao contemporâneo, não uso nessas duas cadeiras nenhum escritor pernambucano vivo. Vivo, não. Tenho que ser honesto. Enfim, a pergunta me fez pensar, porque realmente não consigo lembrar de citar nessas aulas a opinião de algum escritor. No âmbito mais nacional, diria que sim, já citei e cito alguns, mas pernambucanos vivos eu não citei.</p>



<p><strong>Em Pernambuco, o escritor como referência pública existiu de fato ou é memória da idade de ouro? Em que época e para quem?</strong></p>



<p>Acredito que sim, tanto em Pernambuco quanto em todo o Brasil, houve uma época em que o escritor ou o crítico atuava como um árbitro do debate público. Atualmente, com a ascensão das mídias sociais, o cenário ficou muito mais misturado, o que traz ganhos e perdas. Os ganhos se dão no sentido de uma maior participação, pois qualquer pessoa pode opinar e participar de um debate qualquer. No entanto, fica cada vez mais difícil selecionar o que é uma opinião relevante e intelectualmente embasada do que é simplesmente guerra cultural, como vivenciamos atualmente. Existiram grandes intelectuais pernambucanos que foram direcionadores da cultura. Álvaro Lins foi chamado de imperador da crítica por causa de Drummond de Andrade. Pode-se citar também Gilberto Freyre, que teve uma influência esmagadora em sua época, além de um Ariano ou de um Osman Lins, que escrevia para jornais e também exercia a sua influência. A figura desse intelectual mais específico já teve um grande poder de movimentação cultural. Esse poder continua existindo, mas de forma muito mais diluída devido ao formato de funcionamento das redes.</p>



<p><strong>O lugar de voz intelectual que o escritor ocupava passou para o acadêmico, o jornalista, o influenciador, ou ficou vazio?</strong></p>



<p>O jornalismo tradicional, no qual iniciei minha carreira, deixou de existir em seus moldes originais, dando espaço a novas formas de exercício da opinião pública. O espaço de formação da opinião e da retórica pública nunca fica vazio; sempre há quem o ocupe. Há uma valorização desproporcional da opinião rápida e superficial dos influenciadores digitais, que frequentemente exercem mais impacto do que acadêmicos de formação rigorosa e erudita.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="605" height="744" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto.jpeg" alt="" class="wp-image-77202 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto.jpeg 605w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto-244x300.jpeg 244w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto-150x184.jpeg 150w" sizes="(max-width: 605px) 100vw, 605px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>No campo da literatura, é comum ver críticos de excelente formação acadêmica presentes nas redes sociais recebendo pouca atenção, enquanto jovens sem qualificação específica atraem grandes audiências por meio de linguagem acessível ou posturas polêmicas. Em um projeto de pesquisa recente sobre estratégias retóricas da crítica literária contemporânea nos meios digitais, constatamos que não existe relação direta entre qualidade e número de seguidores. </p>
</div></div>



<p></p>



<p>Críticos de excelência costumam dialogar com nichos restritos, enquanto perfis que funcionam como meros publicitários literários — muitas vezes patrocinados por editoras — mobilizam multidões.</p>



<p>O grande público raramente busca um aprofundamento crítico severo; a motivação principal costuma ser a reafirmação de seus próprios pontos de vista ou o pertencimento identitário a uma discussão.</p>



<p><strong>Você acha que o curso de Letras forma leitores para o debate público ou para a própria academia? Essa ponte existe?</strong></p>



<p>Antigamente, o intelectual letrado podia vir de qualquer área e participava do debate público de maneira muito complexa. Falava sobre tudo: religião, política, economia; era, nesse sentido, um intelectual humanista. Acredito que a universidade caminhou e ainda tem caminhado para uma espécie de setorização do conhecimento, de especialização, o que dificulta um pouco a formação do intelectual público. Na verdade, a chave estará na vocação pessoal de cada um.</p>



<p>Considero o curso de Letras um dos melhores nas humanidades até hoje. É muito melhor, por exemplo, do que o curso de Jornalismo que eu fiz. Mas, para dar esse salto para o debate público que você pergunta, a academia teria que incentivar também outro tipo de diálogo voltado para fora dessa setorização.</p>



<p><strong>O meio acadêmico daqui tolera quem pensa diferente da maioria, entre estudantes, escritores e colegas?</strong></p>



<p>Dentro do nosso tempo de emergência das guerras culturais e da atual polarização política, sou um pouco pessimista sobre se o meio acadêmico tolera quem pensa diferente. Acredito que não tolera. Existe um certo nível de tolerância entre quem pensa de forma apenas um pouco diferente, mas certas coisas parecem inaceitáveis. Não diria somente em relação a quem pensa, mas quem problematiza artisticamente qualquer coisa é visto sob suspeita. Tenho escrito sobre isso utilizando um conceito que venho desenvolvendo chamado de hiper-humanização da arte. O tema é abordado em um artigo que publiquei no jornal O Estado de S. Paulo.</p>



<p>O que vejo hoje é uma hipertrofia dos afetos. O que as pessoas parecem buscar, e o que a crítica parece validar nas obras de arte, é um compromisso direto com o que já é sabido e pensado, com os afetos e com uma espécie de retribuição às vítimas da história. Isso ocorre de forma muito clara, em detrimento da pesquisa formal e da avaliação da própria expressão artística. Evidentemente, como se trata de uma generalização, isso deve ser avaliado caso a caso.</p>



<p><strong>Você se lembra de algum caso específico?</strong></p>



<p>São muitos casos. Um de que me lembro de forma muito marcante ocorreu em uma disciplina. Houve uma grande procura por essa disciplina e os alunos se matricularam. Depois disso, porém, a coordenação me chamou informando que um grupo de alunos a havia procurado para problematizar o fato de que, na bibliografia da disciplina, constava “um demônio, uma pessoa do mal”, chamada Gilberto Freyre.</p>



<p>Eles não foram reclamar diretamente comigo, mas solicitaram à coordenação que conversasse comigo sobre a possibilidade de retirar Gilberto Freyre da bibliografia. É claro que eu não aceitei. Respondi que preferia cancelar a disciplina a retirar o autor, pois não faz o menor sentido, dentro de uma cadeira de Cultura ou Pensamento Brasileiro, não trabalhar a perspectiva de Freyre.</p>



<p>Esse é apenas um exemplo de como a academia pode agir a partir de supostas boas intenções, na tentativa de impor um discurso moralmente acima de tudo, do bem e do mal. O que para eles pode parecer uma boa intenção, acabam não percebendo que, na verdade, é uma intolerância.</p>



<p>Um outro caso que lembro como muito interessante, também envolvendo alunos, foi o uso da obra de Nabokov na disciplina. Uma aluna problematizou o fato de ele ser o autor de Lolita e estar no programa, considerando isso inaceitável. Até Machado de Assis já chegou a ser problematizado em minhas salas. A questão não era um texto específico com uma opinião particular, mas o simples fato de usar o autor. O engraçado é perceber que as pessoas criticam sem ter lido a obra, como ocorre claramente com Gilberto Freyre.</p>



<p><strong>O escritor que se posiciona politicamente ganha ou perde como escritor, aos olhos da crítica e da sala de aula?</strong></p>



<p>Do ponto de vista literário ele não ganha nem perde. O posicionamento político fora da literatura não transforma a obra em algo melhor ou pior. No mundo real, no entanto, um posicionamento político pode atrapalhar ou beneficiar um autor, visto que muitos escrevem para a sua própria bolha. O que prejudica a literatura é quando o escritor utiliza essa percepção política pública para obter simpatia, deixando rastros ideológicos em sua obra para receber o beneplácito de um grupo — um ponto sobre o qual Guimarães Rosa falava muito.</p>



<p>O grande desafio não é evitar o tema, pois a política está presente na vida de todos e é um grande tópico da existência humana. É impossível fazer literatura sem política, assim como é impossível uma literatura que não fale de amor ou de outros grandes temas.</p>



<p>A verdadeira dificuldade é encarnar essas ideias e visões de mundo na obra de maneira artística, evitando que se tornem meros esquemas de visões pré-configuradas. Poucos autores conseguem atingir esse feito. A maioria cai em um esquematismo político, tentando explicitar ideologias na narrativa, na criação poética ou na construção de um personagem. Um grande escritor ou escritora pode tratar de quaisquer temas políticos sem nenhum problema; a questão central é o “como” essa abordagem é feita.</p>



<p><strong>O que a literatura consegue dizer que um artigo de opinião ou um post não consegue?</strong></p>



<p>São registros diferentes, que obedecem a retóricas e a propósitos distintos. Um post, um artigo de opinião ou uma argumentação no debate público tenta mover as pessoas em direção a uma visão muito clara das coisas: o que se quer, o que se combate, o que se acha certo e o que se acha errado. A literatura, ou a expressão artística em geral, vai além disso, porque o objetivo literário não se encerra em passar uma mensagem que diga A, B ou C. A expressão artística lida com as ambiguidades, com as possibilidades simbólicas, com a difusão dos significados e, fundamentalmente, também com a forma — ou seja, como forma e fundo se relacionam em uma determinada expressão.</p>



<p>A última coisa que discuti nesse sentido foi um artigo que escrevi na Folha de S. Paulo sobre a questão da forma, após a polêmica envolvendo o depoimento de Aurora Bernardini. A professora, crítica e tradutora do russo que vive no Brasil queixou-se de que a literatura brasileira contemporânea esqueceu a forma e se dedica quase que exclusivamente ao tema. Ela foi muito atacada e eu tentei fazer um artigo de ponderação, porque acredito que o interessante em literatura não é essa disjunção que, na verdade, não cabe: ou forma, ou fundo, ou conteúdo.</p>



<p>O discurso da filosofia, da sociologia e da opinião pública é monológico. Ele se dirige a uma lógica única que precisa ser apreendida, ou que se pretende que seja entendida em um sentido único e determinado. O discurso da arte, não. É um sentido que se espalha, que varia muito de pessoa para pessoa, e aí está a riqueza das grandes obras.</p>



<p>Para exemplificar isso, eu poderia perguntar: qual é o sentido do Romance d’A Pedra do Reino? Essa pergunta não faz o menor sentido, porque o Romance d’A Pedra do Reino é um manancial de sentidos. O mesmo vale para uma obra de Clarice Lispector, Hilda Hilst ou qualquer grande escritor e poeta: o sentido se dilata. É isso que faz a arte ser algo especial, que não se reduz somente ao utilitário ou ao meramente informativo. 6 Ela transcende isso, apesar de que, como qualquer discurso, também tem suas mensagens.</p>
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		<title>Festival de Jornalismo Recife reúne 15 jornalistas de destaque da imprensa brasileira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2026 18:41:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quinze nomes de destaque da imprensa brasileira estarão reunidos para falar a estudantes e profissionais do jornalismo, nesta quarta-feira, dia 28 de outubro, durante o Festival de Jornalismo Recife. Uma das participantes é a repórter da Marco Zero Maria Carolina Santos. O Festival acontece no auditório da OAB-PE, das 13h às 20h, no bairro de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quinze nomes de destaque da imprensa brasileira estarão reunidos para falar a estudantes e profissionais do jornalismo, nesta quarta-feira, dia 28 de outubro, durante o Festival de Jornalismo Recife. Uma das participantes é a repórter da Marco Zero Maria Carolina Santos. O Festival acontece no auditório da OAB-PE, das 13h às 20h, no bairro de Santo Antônio. As inscrições gratuitas estão abertas através deste <a href="https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdLuJJciVN_cXCw4kw96HtGOodgxxExBShQF8Utg-NfVXyqpw/viewform?pli=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">link</a>.</p>



<p>O principal objetivo do Festival de Jornalismo Recife é, em parceria com as universidades, complementar a formação dos futuros profissionais com conhecimentos que o currículo acadêmico não contempla, explica a organização do evento. Jornalistas e dirigentes de entidades de comunicação vão apresentar caminhos para o futuro do Jornalismo no Brasil.</p>



<p>A programação começa às 13h30, com o painel “O Papel do Jornalismo”, que contará com Breno Pires, da revista Piauí e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji); Carla Egydio, da Associação de Jornalismo Digital (Ajor); e Patrícia Blanco, do Instituto Palavra Aberta e do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional.</p>



<p>Às 14h30, o painel “Os desafios do Jornalismo em Pernambuco” apresentará aos estudantes experiências e perspectivas de profissionais que atuam na imprensa local. Participam Carol Santos, do Marco Zero; Leusa Santos, da Folha de Pernambuco; Laurindo Ferreira, do Sistema Jornal do Commercio; e Magno Martins, do Blog do Magno.</p>



<p>A conferência magna será proferida pelo jornalista e repórter Francisco José, sobre o Jornalismo nas Linhas de Frente. Ele falará às 15h30, compartilhando experiências de sua trajetória profissional.</p>



<p>Às 16h30, o painel “O que o Mercado espera de você” abordará as competências e habilidades valorizadas na contratação de jornalistas. Participam Eduardo Scolese, da Folha de S.Paulo; Eldo Gomes, do Blog do Eldo; e Felipe Resk, do Diário de Pernambuco.</p>



<p>A precisão da informação e seus efeitos sobre a sociedade estarão em pauta às 17h20, no debate “Precisão da Informação e o Impacto na Sociedade”, com Basília Rodrigues, do SBT News, e Roberta Aureliano, da TV Guararapes. O encontro permitirá discutir critérios de apuração e os cuidados necessários para garantir a qualidade do trabalho jornalístico.</p>



<p>Às 18h10, os participantes assistem ao documentário <em>Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado</em>, conduzido pelo repórter Valmir Salaro e que revisita um dos casos mais emblemáticos da imprensa brasileira e oferece uma oportunidade para refletir sobre apuração, ética e responsabilidade profissional. Valmir Salaro foi o primeiro a noticiar as acusações de abuso sexual contra crianças em idade pré-escolar na Escola Base, em São Paulo. O documentário retoma o caso ocorrido em março de 1994. Os acusados eram inocentes, mas foram expostos a um escândalo de repercussão nacional.</p>



<p>O Festival de Jornalismo Recife tem patrocínio do Banco do Nordeste, da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe) e da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). O evento conta com o apoio do Instituto Palavra Aberta, de Jornalistas &amp; Cia, da RXZ e da OAB-PE.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Programação completa</strong></h2>



<p>13h – Recepção dos convidados</p>



<p><strong>13h30 – Abertura oficial | O Papel do Jornalismo</strong></p>



<p>Breno Pires – revista <em>Piauí</em> e Abraji</p>



<p>Carla Egydio – Ajor</p>



<p>Patrícia Blanco – Instituto Palavra Aberta e Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional</p>



<p><strong>14h30 – Os desafios do Jornalismo em Pernambuco</strong></p>



<p>Carol Santos – Marco Zero</p>



<p>Leusa Santos – <em>Folha de Pernambuco</em></p>



<p>Laurindo Ferreira – Sistema Jornal do Commercio</p>



<p>Magno Martins – Blog do Magno</p>



<p><strong>15h30 – Conferência magna</strong></p>



<p>Francisco José – <em>Francisco José e o Jornalismo nas Linhas de Frente</em></p>



<p><strong>16h30 – O que o Mercado espera de você</strong></p>



<p>Eduardo Scolese – <em>Folha de S.Paulo</em></p>



<p>Eldo Gomes – Blog do Eldo</p>



<p>Felipe Resk – <em>Diário de Pernambuco</em></p>



<p><strong>17h20 – Precisão da Informação e o Impacto na Sociedade</strong></p>



<p>Basília Rodrigues – SBT News</p>



<p>Roberta Aureliano – TV Guararapes</p>



<p>18h10 – Exibição do documentário</p>



<p><em>Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado</em></p>
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		<title>Indígena e sertaneja: a cidade mais lulista do Brasil é em Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 21:19:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaubeira da Penha]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Lula]]></category>
		<category><![CDATA[segundo turno]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi do sertão de Pernambuco que veio a maior vitória proporcional de Lula no segundo turno. Em Carnaubeira da Penha, município de 12.239 habitantes que fica a 501km do Recife, o petista recebeu 92,34% dos votos válidos, contra 7,66% de Flávio Bolsonaro. Dos 10.441 eleitores que foram às urnas, 9.474 votaram em Lula e 786 [&#8230;]</p>
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<p>Foi do sertão de Pernambuco que veio a maior vitória proporcional de Lula no segundo turno. Em Carnaubeira da Penha, município de 12.239 habitantes que fica a 501km do Recife, o petista recebeu 92,34% dos votos válidos, contra 7,66% de Flávio Bolsonaro. Dos 10.441 eleitores que foram às urnas, 9.474 votaram em Lula e 786 em Flávio. A cidade tem 12.560 eleitores aptos.</p>



<p>O prefeito, Elizio Soares Filho, o Elizinho (PSDB), apoiou Lula para presidente e Raquel Lyra (PSD) para governadora. Depois da confirmação da vitória de Lula, moradores fizeram uma carreata pelas principais ruas do centro.</p>



<p>Carnaubeira da Penha tem a maior proporção de indígenas de Pernambuco. No Censo 2022 do IBGE, 10.506 moradores se declararam indígenas, o equivalente a 85,84% da população. A maioria deles, 7.474, vive fora de terras indígenas demarcadas. No ranking nacional, o município ocupa o oitavo lugar entre os de maior percentual de indígenas.</p>



<p>O município é ocupado por dois povos indígenas, que vivem nas serras e mantêm ali sua cultura e a agricultura familiar: os Pankará, na Serra do Arapuá, e os Atikum, na Serra Umã. O território Pankará, com 15.114 hectares, teve a portaria de demarcação assinada em novembro de 2025, mas ainda aguarda homologação. A Serra do Arapuá é o ponto mais alto do município, com mais de 900 metros de altitude, e de lá a vista alcança até o rio São Francisco, segundo a prefeitura. Na Serra Umã fica a Pedra do Gentio, um dos pontos turísticos mais tradicionais da cidade e também local de devoção religiosa.</p>



<p>Carnaubeira da Penha também tem presença quilombola: 267 moradores se declararam quilombolas no Censo 2022. Duas comunidades do município são certificadas pela Fundação Cultural Palmares, Massapê (desde 2005) e Tiririca dos Crioulos (desde 2008). Tiririca se define como quilombo-indígena, unindo a ancestralidade negra às tradições indígenas da região.</p>
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		<title>Tetra. E muito além dos números</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 18:59:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Lula]]></category>
		<category><![CDATA[virada de Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Jane Santos* Vencemos. E ainda estou tentando encontrar palavras para a dimensão do que vivemos ontem. O tanto de emoção e choro, abraçadas, eu e minha filha. Em meio aos gritos emocionados da vizinhança, parte expressiva da classe média alta, sim da classe média alta. Houve os números: 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Jane Santos*</strong></p>



<p>Vencemos.</p>



<p>E ainda estou tentando encontrar palavras para a dimensão do que vivemos ontem. O tanto de emoção e choro, abraçadas, eu e minha filha. Em meio aos gritos emocionados da vizinhança, parte expressiva da classe média alta, sim da classe média alta.</p>



<p>Houve os números: 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos e a confirmação de Lula para um quarto mandato. Uma virada histórica.</p>



<p>É tetra! E não consigo deixar de pensar na imagem: quatro mandatos, como os quatro dedos da mão de Lula — justamente um homem tantas vezes atingido pelo etarismo e pelo capacitismo.</p>



<p>Mas os números, sozinhos, não contam o que aconteceu. Cada número tinha rosto.</p>



<p>Adolescentes e jovens nas ruas. Pessoas com deficiência. Idosos que já nem eram obrigados a votar e foram. Nordestinos atravessando distâncias para voltar à sua terra depois de tantas humilhações dirigidas a quem somos.</p>



<p>Era memória. Superação. Dignidade. Direitos. Soberania.</p>



<p>Era gente dizendo: nós existimos. nós lembramos. nós temos esperança. nós também decidimos o Brasil.</p>



<p>E Lula falou para o país que governará para todos, respeitando a Constituição e dialogando inclusive com um Congresso mais conservador. Será dificil. Mas, estamos juntos. O gostinho de ruas cheias pegou.</p>



<p>Quase imediatamente vieram cobranças de parte da mídia e do mercado: e o ajuste fiscal? E os gastos? E o pacote econômico?</p>



<p>Ora, bolas. Naquele primeiro discurso, quase sem voz e ainda tomado pela emoção, ele falava de democracia, que estava em risco, soberania, educação, SUS, economia digital, tecnologia e segurança. E que logo conversaria com os empresários. Haveria mesmo de transformar a celebração de uma vitória histórica numa planilha de cortes?</p>



<p>Há tempo para celebrar e há tempo para governar. A agenda econômica existe, o programa prevê controle fiscal e a equipe já discute medidas de ajuste.</p>



<p>Mas talvez parte do chamado mercado precise se lembrar de uma coisa: o Brasil não é uma planilha.</p>



<p>É um país. Com gente. Com voto. Com sede de direitos. Com memória. Com democracia.</p>



<p>E, como se a própria noite, com uma lua cheia linda a também celebrar, precisasse nos lembrar por que tudo isso importa, o candidato derrotado anunciou que não reconhece o resultado e que tentará anulá-lo — embora a questão que contesta tenha envolvido pedido de ambas as candidaturas. E envolve aproximadamente 35 mil votos que, se todos fossem destinados ao patético reclamante com seu DNA Golpista de sempre, não superariam os mais de 4, 4 milhões de dianteira de Lula. Faz-me rir.</p>



<p>Então, não. Não passarão (minha homenagem aos fantásticos <a href="https://www.youtube.com/channel/UC2bZgihqibFD_vhaYEXQZFg">Galãs feios</a>).</p>



<p>Oposição é democracia. Questionamento pelas vias legais é democracia. Discordância é democracia. Mas democracia começa por algo elementar: o voto do povo precisa valer. E ontem o povo fez bonito. Que escolha!</p>



<p>E eu quero guardar as imagens: o jovem na rua. a pessoa com deficiência chegando à urna. o idoso que fez questão de votar, alguns, mesmo em condições adversas de saúde. o nordestino voltando para casa, a mão apertando a tecla, a lágrima, o abraço, a bandeira.</p>





<p>E Lula, eleito para o quarto mandato. Tetra.</p>



<p>Hoje eu me permito celebrar. A memória. A superação. A esperança. A dignidade. Os direitos.<br>A soberania. A democracia.</p>



<p>Porque o Brasil não pertence ao ódio, ao escárnio, ao preconceito ou à humilhação.</p>



<p>O Brasil pertence ao seu povo. E ontem o povo falou.</p>



<p>Vencemos.</p>



<p>E, desta vez, eu confesso em plenitude:</p>



<p>lavamos a alma. Vitória do Brasil com S!</p>
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		<title>Nunca duvide do povo brasileiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 03:25:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Flávio Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O povo brasileiro tomou contas das ruas e das redes para, pela primeira vez na história das eleições presidenciais brasileiras, virar o resultado negativo no primeiro turno e reeleger Lula para seu quarto mandato, o que, aliás também é inédito. Foi uma vitória construída de baixo para cima. Primeiro, os estudantes assumiram à frente das [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O povo brasileiro tomou contas das ruas e das redes para, pela primeira vez na história das eleições presidenciais brasileiras, virar o resultado negativo no primeiro turno e reeleger Lula para seu quarto mandato, o que, aliás também é inédito.</p>



<p>Foi uma vitória construída de baixo para cima. Primeiro, os estudantes assumiram à frente das manifestações de rua e superaram o baixo astral causado pelo susto da votação do dia 4 de outubro.</p>



<p>Depois, mais de 10 milhões de mulheres, homens e crianças se uniram em canal de whatsapp coordenado por um deputado federal mineiro, André Janones, e, sem pedir licença aos marqueteiros e especialistas, viraram de cabeça para baixo a comunicação da campanha.</p>



<p>Por fim, na última semana da campanha, milhões de pessoas lotaram desde a avenida Paulista e a praia de Copacabana até as pracinha das pequenas cidades do Nordeste. Agora, Lula tem o desafio de governar com as ruas e em conexão com as mais de 64 milhões de pessoas que o elegeram.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A carreira de Lula</h2>



<p>Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, começou a construir sua carreira política a partir do movimento sindical do ABC paulista. Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, liderou importantes greves operárias do fim dos anos 1970, participou da fundação do PT, em 1980, e da CUT, em 1983. Perdeu sua primeira eleição em 1982, quando disputou o governo de São Paulo. Em 1986, foi eleito deputado federal constituinte por São Paulo com mais de 650 mil votos, a maior votação do país, e participou da elaboração da Constituição de 1988. Foi derrotado nas disputas presidenciais de 1989, 1994 e 1998 e venceu na quarta tentativa: em 2002, aos 57 anos, elegeu-se presidente no segundo turno com quase 53 milhões de votos, contra José Serra (PSDB). Sempre foi do Partido dos Trabalhadores (PT).</p>



<p>Reeleito em 2006 com mais de 58 milhões de votos, contra Geraldo Alckmin, governou até 1º de janeiro de 2011, quando passou a faixa a Dilma Rousseff. Em 2018, foi preso após condenação na Lava Jato e ficou 580 dias na cadeia. O STF anulou as condenações ao reconhecer a incompetência e a parcialidade do juiz responsável. Em 2022, venceu Jair Bolsonaro com 50,9% dos votos válidos e voltou à Presidência pela terceira vez.</p>



<p>No primeiro governo, Lula lançou o Fome Zero e, em outubro de 2003, criou o Bolsa Família por medida provisória, convertida na Lei 10.836, de 2004. O programa unificou benefícios anteriores, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio Gás. Também são de 2003 o Luz para Todos, que leva energia elétrica a áreas rurais, e de 2004 o Farmácia Popular e o ProUni, de bolsas em universidades privadas. Em 2009, já no segundo mandato, criou o Minha Casa, Minha Vida. No governo Dilma, vieram o Brasil sem Miséria (2011), o Pronatec (2011) e o Mais Médicos (2013).</p>



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                                            <span>Crédito: Ricardo Stuckert</span>
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<p>No terceiro mandato, Lula recriou o Bolsa Família em 2023, com piso de R$ 600 por família e adicional de R$ 150 por criança de até 6 anos. Em 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social, o programa atendia mais de 20 milhões de famílias. O governo também relançou o Minha Casa, Minha Vida, com novas faixas de renda, ampliou o Farmácia Popular e criou o Desenrola Brasil (2023), de renegociação de dívidas, e o Pé-de-Meia (2024), poupança para estudantes do ensino médio público.</p>



<p>Sob governos do PT, o Brasil saiu duas vezes do Mapa da Fome da FAO, agência da ONU para alimentação, que lista os países em que mais de 2,5% da população está subalimentada. A primeira saída foi em 2014, durante o governo Dilma, após mais de uma década de políticas de segurança alimentar iniciadas por Lula. O país voltou ao mapa no triênio 2018-2020. Em julho de 2025, o relatório SOFI 2025 da FAO registrou a segunda saída: na média de 2022 a 2024, a subalimentação caiu para menos de 2,5% da população.</p>



<p>Na educação, os governos petistas promoveram a maior expansão da rede federal. Segundo o MEC, foram criadas 14 universidades federais nos governos Lula, de 2003 a 2010. Com as instituições criadas por Dilma, o total chega a 18. O número de universidades federais passou de 45, em 2002, para 63 em 2014, e o de municípios atendidos foi de 114 para 237 até 2011. Na educação profissional, foram criados 38 institutos federais a partir dos antigos Cefets e escolas técnicas. Entre 1909 e 2002, o país havia construído 140 escolas técnicas federais. Entre 2003 e 2016, o MEC entregou mais de 500 novas unidades, e a rede chegou a 644 campi em funcionamento.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A virada da campanha no segundo turno</strong></h2>



<p>Derrotado no primeiro turno por uma margem de quase dois pontos percentuais (45,16% contra 47,03% de Flávio Bolsonaro), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reformulou a campanha para o segundo turno. O núcleo estratégico teve mudanças, com reforço na comunicação digital com vídeos em formato selfie. O ministro da Secom, Sidônio Palmeira, tirou férias para se dedicar à campanha e reposicionou o discurso em temas populares, como o fim da escala 6×1 e a disputa em torno dos sigilos dos dois candidatos. A coordenação política ficou com o senador Camilo Santana e o presidente do PT, Edinho Silva, e o governador do Piauí, Rafael Fonteles, assumiu a comunicação estratégica.</p>



<p>A principal novidade nestas três semanas foi o “Exército do Lula”, canal de WhatsApp comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG), reeleito em 4 de outubro. Com linguagem militar (“missão”, “tropa”, “soldados”), Janones distribuiu vídeos, áudios e orientações para ampliar o alcance dos conteúdos nas plataformas digitais. O canal chegou a mais de dez milhões de participantes e ganhou o reforço espontâneo de fã-clubes de artistas pop.</p>



<p>A exitosa mobilização do canal virou disputa judicial. A pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, suspendeu o canal. Segundo o Poder360, o corregedor-geral eleitoral, Villas Bôas Cueva, restabeleceu o “Exército” menos de quatro minutos depois de receber o pedido do PT. O próprio Kassio Nunes liberou o canal depois que a campanha petista registrou seu endereço na Justiça Eleitoral.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Os debates eleitorais no 2º turno</h3>



<p>Nos dois debates do segundo turno, as agências de checagem encontraram mais informações falsas nas falas de Flávio Bolsonaro do que nas de Lula. Na Band, em 18 de outubro, a Agência Lupa registrou que o senador repetiu a informação falsa de que Lula gastou R$ 7 bilhões em viagens com a primeira-dama: o valor se refere a despesas de toda a estrutura do governo federal entre 2023 e 2025. O Aos Fatos classificou como falsas as afirmações de Flávio de que Lula foi aos Estados Unidos defender organizações criminosas e de que condenados do Mensalão integram o governo, e apontou como distorcido o dado de que 73% dos presos votaram no petista. O debate motivou uma petição, com mais de 790 mil assinaturas, e um pedido formal do PT para que a Globo fizesse checagem ao vivo no confronto seguinte.</p>



<p>Na Globo, em 23 de outubro, a Lupa verificou 43 afirmações, 27 de Flávio e 16 de Lula. Segundo a agência, Flávio repetiu acusações já desmentidas, como a de que Lula seria o “pai do Tigrinho” e a de que teria defendido o roubo de celulares para “tomar uma cervejinha”, frase que, segundo o Aos Fatos, distorce declarações do presidente. O Aos Fatos apontou ainda que o Auxílio Brasil de R$ 600 citado por Flávio só foi pago no fim do governo Bolsonaro e que o número de obras paradas é 4.215, não 11.500. Lupa, Aos Fatos e Estadão Verifica, que seguem os critérios da rede internacional de checadores IFCN, convergiram em apontar mais problemas nas falas do senador.</p>
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		<title>Decisão do STF chegou depois do fechamento das urnas e confundiu mesários no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2026 22:13:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[apuração]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2016]]></category>
		<category><![CDATA[TRE]]></category>
		<category><![CDATA[TSE]]></category>
		<category><![CDATA[urnas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pouco antes do horário previsto para o fim da votação, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a extensão do horário de votação até as 19h, no horário de Brasília, em todo o Brasil. Como a decisão foi anunciada tardiamente, várias urnas já tinham sido encerradas e não podiam mais ser reabertas. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Pouco antes do horário previsto para o fim da votação, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a extensão do horário de votação até as 19h, no horário de Brasília, em todo o Brasil. Como a decisão foi anunciada tardiamente, várias urnas já tinham sido encerradas e não podiam mais ser reabertas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu a totalização dos votos. Na última atualização antes da pausa, às 17h06, cerca de 336 mil votos para presidente haviam sido apurados, em 1.225 seções.</p>



<p>A decisão atendeu a um pedido da coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. A campanha apontou falta de ônibus em três municípios da Bahia: Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas. Segundo a coligação, as prefeituras não ofereceram frota suficiente para levar os eleitores aos locais de votação, o que descumpriria entendimento do STF sobre transporte público em dias de eleição. Segundo Zanin, o pedido chegou ao Supremo às 16h32. Antes, a campanha já havia pedido ao TSE a prorrogação em pelo menos nove estados, entre eles Pernambuco. O TSE nada fez.</p>



<p>A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) também pediu ao TSE duas horas a mais de votação, por causa das chuvas. O pedido incluía apenas algumas cidades. Em Minas Gerais, Belo Horizonte, Poços de Caldas e municípios da Região Metropolitana com locais de votação sem energia elétrica. No Rio Grande do Sul, citava São Borja, Itaqui e Uruguaiana, atingidas pelas chuvas e pela cheia do rio Uruguai.</p>



<p>Em Salvador, a Justiça Eleitoral mandou prender o secretário municipal de transporte, que estava em Paris. Depois da decisão, a prefeitura liberou todos os ônibus. O prefeito atribuiu o atraso à retirada de propaganda eleitoral. Em Pernambuco, depois de denúncias de falta de ônibus, a desembargadora eleitoral Roberta Viana Jardim, do TRE-PE, determinou em liminar que a circulação na Região Metropolitana do Recife fosse normalizada de imediato, com a frota e as viagens programadas para o segundo turno.</p>



<p>Diante das urnas já encerradas, Zanin publicou nova decisão limitando a prorrogação às seções que ainda estavam abertas. “Determino que a decisão seja cumprida nos locais onde as urnas não foram fechadas, com a posterior totalização dos votos nas condições enunciadas, sendo que, nas urnas que já foram fechadas os votos serão computados e totalizados”, escreveu.</p>



<p>O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, assinou às 17h49 o Ofício-Circular nº 354/2026, enviado aos presidentes dos TREs. O documento orienta que “as seções eleitorais que ainda estiverem abertas permaneçam em funcionamento até as 19h” e pede que os tribunais orientem os juízos eleitorais e as mesas receptoras de votos. O ofício não trata dos eleitores que chegassem a seções já encerradas.</p>



<p>No Recife, a mudança de regras no finalzinho da tarde deixou mesários sem orientação. A professora Izabella Barros, presidente da mesa da seção 444 da 7ª Zona Eleitoral, na Blue School, perto da Ilha do Retiro, conta que às 17h o cartório eleitoral mandou desligar as urnas, retirar as mídias e encerrar a votação. Às 17h38, os mesários foram impedidos de sair e receberam as urnas de volta, já com os portões fechados havia cerca de 40 minutos. “As urnas estão aqui com a gente, mas completamente desligadas, sem mídia, sem nada e sem nenhuma orientação”, relatou.</p>



<p>Segundo Izabella, primeiro chegou a informação de que eleitores poderiam votar em cédula de papel; depois, a de que quem chegasse deveria ouvir que não podia votar. Em seguida, os mesários foram dispensados, os presidentes de mesa ficaram retidos e as urnas foram recolhidas de novo. “Se alguém chegasse a orientação era de que não tem como votar e mandar a pessoa ir embora”, disse.</p>



<p>Outra pessoa que trabalhou na votação, e que pediu para não ser identificada, confirmou a orientação. “A orientação está vindo do cartório eleitoral. As urnas que já foram encerradas, os eleitores não têm como votar”, afirmou. No Colégio Maciel Pinheiro, na Torre, todas as seções também foram encerradas às 17h, segundo uma pessoa que trabalhou no local. Nos três locais, os entrevistados afirmaram que as eleições foram tranquilas e com abstenção menor do que no primeiro turno.</p>
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