FORTALEZA, BRAZIL - JULY 04: Players of Brazil and Colombia hold up a Say No To Racism banner prior to the 2014 FIFA World Cup Brazil Quarter Final match between Brazil and Colombia at Estadio Castelao on July 4, 2014 in Fortaleza, Brazil. (Photo by Lars Baron - FIFA/FIFA via Getty Images)
Crédito: FIFApor Tiago Paraíba*
“Por mais que você corra, irmão pra sua guerra vão nem se lixar esse é o X da questão já viu eles chorar pela cor do Orixá?” (Emicida)
A Copa do Mundo de 2026 terminou, mas deixou um debate que merece sobreviver ao último apito. Durante semanas, redes sociais, programas esportivos e espaços de opinião foram tomados por discussões sobre racismo, colonialismo, imigração e identidade nacional. Não havia apenas um jogo em disputa; havia também uma disputa por quem ocupava o lugar da maior consciência moral.
Esse fenômeno, embora revele um avanço importante, afinal, o racismo deixou de ser um tema invisível no futebol, também expôs um limite da forma como parte desse debate é conduzida. Em muitos momentos, o antirracismo apareceu menos como um compromisso político permanente e mais como uma performance pública de virtude.
Não se trata de negar a existência do racismo na Argentina, na Espanha, no Brasil ou em qualquer outro país. O racismo é um fenômeno histórico que assume diferentes formas em cada sociedade. O problema surge quando sua denúncia passa a obedecer à lógica do evento, da viralização e, da necessidade de demonstrar superioridade moral diante dos outros.
Durante a Copa, parecia que torcer por uma seleção ou outra definia automaticamente o grau de compromisso de cada pessoa com a luta antirracista. O debate político foi substituído por uma espécie de tribunal das consciências, em que o principal objetivo era identificar quem estava do “lado certo” da história.
Essa dinâmica pouco contribui para enfrentar aquilo que o sociólogo Clóvis Moura identificava como o caráter estrutural do racismo na formação da sociedade brasileira. Moura rompeu com a ideia de que o racismo seria apenas um problema cultural ou comportamental. Para ele, o racismo é uma engrenagem do próprio capitalismo dependente brasileiro, um mecanismo que organiza a exploração do trabalho, a desigualdade e a distribuição do poder. Não é um desvio da democracia; é parte da forma como ela foi construída no Brasil.
Se Moura nos ajuda a compreender as estruturas, Lélia Gonzalez nos ensina a olhar para as dimensões culturais e políticas que sustentam essas estruturas. Ao formular o conceito de amefricanidade, ela mostrou que as experiências dos povos negros e indígenas nas Américas produzem formas próprias de resistência e elaboração política, invisibilizadas por uma leitura eurocêntrica da história. Para Gonzalez, combater o racismo significa transformar as relações de poder e reconhecer os sujeitos historicamente silenciados não apenas fazer denúncias ocasionais quando o tema ganha espaço na mídia.
É justamente essa perspectiva que parece faltar quando o antirracismo se reduz à lógica das redes sociais.
A indignação torna-se episódica. Durante algumas semanas, tudo gira em torno do racismo no futebol. Passada a final da Copa, desaparecem as discussões sobre violência policial, encarceramento em massa, desigualdade educacional, racismo religioso, acesso ao mercado de trabalho, representação política ou financiamento de políticas públicas de igualdade racial.
O algoritmo muda de assunto, e boa parte da militância performática muda junto.
Existe ainda outro efeito preocupante: o antirracismo deixa de ser uma prática coletiva de transformação para se tornar um marcador de distinção moral. Em vez de produzir consciência política, produz hierarquias simbólicas entre aqueles considerados suficientemente “conscientes” e aqueles vistos como moralmente inadequados.
Essa postura pouco dialoga com a tradição do movimento negro brasileiro. Clóvis Moura analisava a resistência negra como prática histórica de organização coletiva da quilombagem às lutas contemporâneas e não como afirmação individual de superioridade ética. Da mesma forma, Lélia Gonzalez insistia que o enfrentamento ao racismo exigia construção política, articulação popular e ruptura com as estruturas coloniais que continuam organizando nossas sociedades.
Vale lembrar que o reconhecimento do racismo como problema estrutural no Brasil não surgiu espontaneamente, muito menos foi uma concessão das elites ou resultado da mobilização nas redes sociais. Foi fruto de décadas de organização e luta do movimento negro brasileiro. Das denúncias do Teatro Experimental do Negro às mobilizações do Movimento Negro Unificado, das formulações de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Abdias do Nascimento e Clóvis Moura, às Marchas Zumbi dos Palmares e à Conferência de Durban, foi essa trajetória que obrigou o Estado brasileiro a reconhecer o racismo e construir políticas públicas de igualdade racial.
É curioso perceber que boa parte dos que hoje protagonizam um antirracismo performático durante grandes eventos raramente se mobilizam para defender esse legado. Não os vemos com a mesma disposição na defesa das cotas raciais, das ações afirmativas, da titulação dos territórios quilombolas ou da agenda de reparação histórica pelos mais de três séculos de escravidão. Também não os vemos na defesa das expressões culturais produzidas pelo povo negro. Pelo contrário: o silêncio costuma prevalecer diante da criminalização do funk, do brega, do hip hop, da capoeira e das religiões de matriz africana, manifestações que historicamente foram alvo de repressão, estigmatização e racismo institucional. Defender o antirracismo implica também defender o direito do povo negro de produzir sua cultura, professar sua fé e afirmar sua identidade sem ser tratado como caso de polícia ou expressão da marginalidade. A energia dedicada à performance moral nas redes nem sempre se converte em compromisso com as conquistas concretas construídas pelo movimento negro organizado
A Copa poderia ter sido um ponto de partida. Poderia servir para fortalecer movimentos negros, ampliar o debate sobre ações afirmativas, disputar políticas públicas e consolidar uma agenda antirracista permanente. Mas isso exige abandonar a lógica da performance.
Mais do que disputar quem ocupa o lugar da maior virtude pública, o desafio continua sendo aquele apontado por Clóvis Moura e Lélia Gonzalez: compreender que o racismo não é um acidente moral, mas uma estrutura histórica, e que sua superação exige organização política, transformação social e compromisso permanente.
A Copa acabou. A pergunta que permanece é simples: o antirracismo continuará em campo ou também ficará restrito aos 90 minutos do espetáculo?
*Membro da Executiva Nacional do PSOL, militante da Ação Negra e torcedor do Santa Cruz.
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