Herdeiros do mesmo trono (parte 2): Orfeu e Sísifo

Marco Zero Conteúdo / 01/09/2026
A foto mostra Raquel Lyra e João Campos sorrindo lado a lado em um ambiente formal. Raquel está à esquerda, vestindo uma blusa branca e um casaco claro; João está à direita, com terno azul e camisa branca. Ao fundo, aparecem as bandeiras do Brasil e de Pernambuco, além de cortinas bege e uma mesa com pequenas figuras decorativas. A imagem transmite um clima de cordialidade e profissionalismo, típico de um encontro institucional.

Crédito: Hesíodo Goés/Secom

Por Tiago Paraíba* e Michel Chaves**

Tebas serviu de arquétipo para a disputa entre herdeiros em Pernambuco. Etéocles e Polinices nos deram a estrutura: dois filhos da mesma casa, disputando o mesmo trono, dentro dos mesmos muros que os formaram. Essa imagem explica quem disputa e por que a disputa é, no fundo, uma questão de sucessão, e não de guerra entre mundos opostos. Mas a cidade dos sete portões não basta para explicar como cada um disputa — o gesto, a retórica, o método com que cada herdeiro tenta convencer Pernambuco de que é ele quem rompe o ciclo. Para isso, é preciso outro par de espelhos: Orfeu e Sísifo, dois mitos que não pertencem ao ciclo tebano, mas que emprestam a Tebas o que lhe falta — a psicologia da disputa. Se Etéocles e Polinices dizem o que está em jogo, Orfeu e Sísifo dizem como cada herdeiro joga. É nesse par contraditório que João Campos e Raquel Lyra se inscrevem. Ambos, contudo, evitam a pergunta que o estado deveria formular: o que resta além da sucessão do trono?

Essa disputa não nasce no vazio. Ela é herdeira de um processo concreto: entre 2007 e 2022, o PSB governou Pernambuco por quatro mandatos consecutivos, construindo uma engenharia partidária com alcance real no território.

A morte de Eduardo Campos não encerrou essa estrutura — ela abriu uma disputa interna sobre direção e herança, que a vitória de Paulo Câmara em 2018 ainda conteve dentro de casa. Foi a ruptura de 2022, com a derrota do grupo indicado pelos Campos e a vitória de Raquel Lyra, que rachou publicamente o que antes era administrado internamente. Hoje, dois polos disputam o comando dessa reorganização: de um lado, os Campos tentando recuperar o governo estadual; do outro, Raquel tentando consolidar uma nova hegemonia. Lula funciona como ativo central nessa disputa, mas — como já demonstrado na Parte 1 — apoio não é identidade: é tração eleitoral emprestada, não sangue da casa. É esse terreno fático, e não a mitologia em si, que autoriza a leitura simbólica que segue.

João Campos: o Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás

Orfeu obtém dos deuses a graça de resgatar Eurídice sob uma única interdição: não voltar ou olhar para trás até a superfície. João Campos opera em regime invertido. Seu discurso invoca futuro, inovação e modernização, mas sua legitimidade política repousa numa arqueologia permanente — um movimento que Walter Benjamin chamaria de escovar a história a contrapelo, com o objetivo de reivindicar glórias seletivas.

Eduardo Campos é o pai simbólico, herança imediata; Miguel Arraes, o bisavô mítico, que amplia a espessura temporal da linhagem; Lula, o fiador nacional, que ancora o projeto no presente do governo federal. Trata-se de engenharia eleitoral precisa: o passado fornece identidade, Lula oferece capilaridade, e o discurso da modernização tenta transformar essa matéria arcaica em promessa de futuro.

Mas a contradição é interna e cresce com o próprio recurso ao arquivo familiar. Quanto mais João evoca os seus antepassados para definir-se, menos responde ao que efetivamente pretende ser. E há um silêncio significativo nessa genealogia política: Paulo Câmara, seu antigo chefe de gabinete, é sistematicamente omitido. Não se trata de lapso, mas de operação calculada: exclui-se o elo que aproximaria o herdeiro do desgaste do ciclo PSB de dezesseis anos, preservam-se os ícones imunes à corrosão do tempo.

João é, assim, Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás. Sua novidade não reside no conteúdo do projeto, mas na seleção dos mortos que o autorizam a falar em nome da vida futura.

Raquel Lyra: Sísifo e a pedra da ruptura que não cessa de recomeçar

Raquel Lyra constrói sua narrativa por outra via. Em 2022, sua vitória interrompeu a hegemonia do PSB, apresentando-se como antítese à velha ordem. A imagem de renovação tornou-se seu ativo central.

Sísifo, porém, adverte: condenado a rolar um bloco de mármore montanha acima, vê o esforço desfeito no instante em que o topo parece próximo e recomeça, eternamente, o mesmo gesto inútil. A pergunta que o mito impõe à governadora é incômoda: a ruptura de 2022 rompeu efetivamente as estruturas de poder ou apenas transferiu a mão que empurra a mesma pedra?

Sua trajetória não é externa ao universo que ela diz superar. Formada no PSB, forjada em suas redes, Raquel encarna menos uma cesura do que uma recomposição oriunda das elites — o que Maquiavel chamaria de novo príncipe com velhas clientelas. A pedra mudou de empunhadura, mas permanece a mesma: a concentração de poder, a dependência do Estado como mecanismo de reprodução de grupos, a baixa capilaridade das decisões econômicas. Renovação, nesse quadro, não pode se reduzir a troca de atores, estética ou alianças conjunturais. Exige alteração de prioridades, de matriz de desenvolvimento, de relação com as desigualdades estruturais — algo que o mito de Sísifo, justamente, nega ao condenar seu herói à repetição infinita do mesmo.

O que a disputa oculta — e por que isso importa

Os três registros míticos, lidos juntos, convergem. Tebas é o tabuleiro de herdeiros em disputa — a estrutura que Etéocles e Polinices desenham. Orfeu é João, que fala em porvir, mas retroalimenta-se de fantasmas. Sísifo é Raquel, que promete ruptura mas reproduz o ciclo. Ambos disputam o trono com gramáticas opostas — um reivindica a memória dos antepassados; a outra, a negação deles. Mas ambos operam dentro do mesmo horizonte: a sucessão, e silenciam sobre o que viria depois dela — exatamente como Etéocles e Polinices, cuja disputa termina em fratricídio nos portões da cidade, sem que nada realmente mude, e o poder simplesmente passa a Creonte por decreto.

O que está em jogo, portanto, não é a qualidade da herança, mas a própria herança como categoria política. Hegel, na Fenomenologia do Espírito, mostrou que o senhor só é senhor porque o escravo o reconhece como tal; o trono só existe enquanto os súditos aceitarem sua necessidade. A pergunta incômoda que nenhum dos dois candidatos formula é: por que Pernambuco precisa de um trono? Por que o futuro deve ser eternamente apresentado como escolha entre pretendentes de uma mesma linhagem, ainda que com roupagens diferentes?

Na falta de um projeto substantivo para o estado, a disputa simbólica torna-se o campo decisivo. João escava Arraes e Eduardo; Raquel escava a própria vitória de 2022 como fetiche de novidade. É uma eleição em que os candidatos competem menos pelo futuro de Pernambuco do que pela autoridade para interpretar o passado que lhes daria direito a ocupá-lo.

Essa é uma armadilha de época, em que o historicismo empático com os vencedores transforma a tradição em mercadoria de legitimação. Pernambuco não precisa saber quem é o mais legítimo herdeiro de Eduardo, o mais fiel a Arraes, o mais próximo de Lula ou o mais rompido com o PSB. Precisa saber qual projeto enfrenta a fome, o subemprego, a concentração fundiária, a precarização do serviço público — variáveis que nenhuma genealogia resolve.

Recusar a tragédia tebana

É nesse ponto que a esquerda, em particular, deve escapar do papel de coro auxiliar de um dos irmãos em contenda. Não lhe cabe escolher entre Orfeu e Sísifo, entre o nostálgico e o reiterativo — nem torcer, como o coro de Tebas, para ver qual herdeiro cai primeiro nos portões da cidade.

A tarefa é outra, mais espinosana: distinguir entre potentia (capacidade de agir coletivamente) e potestas (poder constituído sobre os corpos). O trono é potestas pura — concentração que se perpetua. A política que interessa é a que não quer ocupar o trono, mas dissolver sua própria necessidade; que não pergunta qual dos dois será o próximo faraó, mas por que ainda há faraós.

Essa recusa, porém, não pode ficar apenas no plano simbólico — sob risco de repetir, em chave filosófica, o mesmo silêncio que se cobra dos herdeiros. Dissolver a necessidade do trono significa, concretamente, perguntar o que nenhum dos dois candidatos pergunta: quais propostas enfrentam o déficit habitacional, o saneamento básico e a precarização do trabalho? Que caminhos para a segurança pública não se limitam ao repertório da punição como substituto de política? Como garantir desenvolvimento do interior para além de obras dissociadas de sustentação econômica e participação social? Como tratar a concentração econômica e a desigualdade racial como problema estrutural, e não como promessa episódica de governo? É nessas perguntas, e não na genealogia de quem tem o sangue mais legítimo, que se mede a diferença entre potentia e potestas.

João olha para trás para forjar o amanhã. Raquel empurra a pedra da renovação em direção ao mesmo cume. Ambos disputam Tebas. Mas Pernambuco talvez precise de uma política que não deseje apenas herdar o reino, e sim tornar o reino irrelevante.

Essa, sim, seria a verdadeira ruptura. Não escolher entre Orfeu e Sísifo.

É sair de Tebas.

* Tiago Paraíba integra a executiva nacional do PSOL e militante da Ação Negra.

**Michel Chaves é historiador e economista.

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