Como a IA reconfigura a ação política e por que é preciso definir regras rigorosas na disputa eleitoral

Marco Zero Conteúdo / 28/08/2026
A imagem mostra o edifício moderno do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília. A construção tem formato curvo, fachada de vidro escuro e detalhes brancos nas extremidades superiores. Em frente ao prédio, há três estruturas brancas em forma de cúpula, dispostas sobre uma ampla área pavimentada, com pequenas luzes ao redor e mastros de bandeiras ao centro. O entorno é composto por gramados e outros prédios públicos, característicos da arquitetura monumental da capital brasileira.

Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

por Paulo Faltay*

Em Pernambuco, a memória de Eduardo Campos faz campanha. Cerca de um mês separa duas publicações produzidas por IA que “reviveram” o ex-governador, ambas publicadas nas redes do filho, candidato ao governo em 2026. Em 28 de maio, com a legenda anunciando que “o legado vai continuar”, o ex-governador aparece em um vídeo cedendo ao filho o lugar no tradicional “caixote” usado em suas campanhas. Já em 27 de julho, outro vídeo mostra Eduardo empunhando uma bandeira do estado e a passando para João Campos. “A Missa do Vaqueiro é tradição passada de geração em geração”, narra a postagem.

A rememoração é um recurso até batido em campanhas políticas: mobilizar o passado, lembrar de onde viemos para produzir sentido sobre o que podemos ser. Uma fotografia de Eduardo Campos pode evocar sua trajetória, um registro antigo pode relembrar as realizações dos seus governos. Sua imagem pode funcionar como uma espécie de atalho para uma memória política compartilhada. Aliás, tem sido assim há cinco eleições desde a sua morte. Há, porém, uma diferença fundamental entre o gesto de lembrar uma figura política e fazê-la voltar a agir.

A inteligência artificial vai além do arquivo. Ela traz à presença a figura política ausente. É uma tecnonecromancia eleitoral. Uma liderança pode continuar aparecendo, falando e mobilizando apoiadores mesmo quando seu corpo já não está disponível para participar da disputa.

A tecnologia reconstrói a imagem, a fala e os gestos de alguém para produzir momentos que nunca aconteceram. A crescente indistinção entre verdadeiro e falso, entre invencionice e fato é um problema grave, ainda mais em contextos sensíveis como o eleitoral. Mas não quero discutir a capacidade da IA produzir imagens mais ou menos convincentes. A inquietação com os vídeos de Eduardo Campos produzidos por IA me parece ser de outra ordem. É preciso discutir quais são as consequências políticas quando uma figura política ausente não é simplesmente rememorada e passa a ter a capacidade de intervir diretamente no presente. Duas questões são centrais aqui: como a tecnologia está reconfigurando a presença e a ação política e como o domínio desigual dessas ferramentas pode aprofundar assimetrias na própria disputa democrática.

O primeiro aspecto nos convoca a pensar coletivamente novas formas de equacionar e regular plataformas digitais, modelos generativos, campanhas eleitorais, normas jurídicas e práticas de circulação de comunicação política. O segundo aspecto, decorrente do primeiro, carrega a preocupação de como o uso dessas ferramentas pode aprofundar desequilíbrios no próprio jogo democrático. Afinal, grupos políticos com maior capacidade de compreender o funcionamento dessas tecnologias, de mobilizar recursos técnicos especializados e de investir financeiramente na produção e na disseminação desses conteúdos passam a dispor de possibilidades de intervenção, circulação e persuasão que não estão igualmente disponíveis aos demais atores políticos.

Tomemos o exemplo do que aconteceu na convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Em um vídeo também produzido com IA, uma representação de Jair Bolsonaro aparece dizendo que escolheu o filho para substituí-lo e pede aos apoiadores que o recebam de braços abertos. A tecnologia não foi utilizada apenas para recordar Bolsonaro. Ela foi mobilizada para fazer com que ele continuasse a falar, para que pudesse demonstrar uma escolha e para legitimar politicamente seu sucessor.

A controvérsia jurídica que se desenrolou após a exibição do vídeo explicita meu ponto. A inteligência artificial altera as próprias condições de presença dos atores políticos. Neste sentido, importa menos se as representações de IA são autênticas, ou se o vídeo em questão poderia ser enquadrado enquanto uma deepfake. O desafio é compreender como os sistemas de IA transformam o próprio significado de representação e participação política. Proibido de se manifestar publicamente, Bolsonaro continuou a participar do debate público com o vídeo. Ou seja, quando a tecnologia permite que uma pessoa continue falando depois que seu corpo perde as condições biológicas ou jurídicas de se manifestar, estamos diante de uma mudança nas próprias condições de ação política.

A política moderna sempre esteve profundamente associada à presença corporal. Discursos, comícios, entrevistas e debates pressupõem um corpo presente, capaz de falar, de se tornar visível e de mobilizar afetos e eleitoras. Este corpo político também se coloca na posição de ser observado, interrompido, confrontado e responsabilizado por suas declarações. A presença física sempre implicou uma forma de exposição às contingências da interação democrática. A inteligência artificial rompe parcialmente essa associação ao dissociar duas dimensões que historicamente caminhavam juntas: a presença política e a vulnerabilidade política. Os avatares preservam a capacidade de estar presente no debate público, mas reduzem a exposição às formas convencionais de contestação.

A ação política passa a ser produzida por uma infraestrutura sociotécnica que permite sua disponibilidade contínua sem submetê-la às mesmas condições de confronto, imprevisibilidade e responsabilização que caracterizam a atuação de um agente político vivo. Nesse sentido, o uso de IA, mais do que uma estratégia de comunicação política, deve ser entendida como a transformação das condições materiais sob as quais esta presença é exercida, deslocando sua dependência do corpo para uma rede composta por modelos computacionais, arquivos digitais, sistemas de recomendação das plataformas, algoritmos e estratégias de campanha.

É bem verdade que a IA não inaugura a distribuição da pessoa política. Nas campanhas digitais, a presença da figura política depende da ação compartilhada de apoiadores e dos algoritmos das plataformas. Mas nem todos os candidatos, partidos e grupos conseguem fazer uma mensagem circular com a mesma intensidade. Capacidade financeira para impulsionar conteúdos, domínio técnico das ferramentas de segmentação e produção, organização de redes de apoiadores, maior adequação às lógicas de funcionamento e mesmo o alinhamento ideológico às políticas das big techs vêm se convertendo em vantagens concretas na disputa pela atenção pública.

As plataformas, portanto, já aprofundaram assimetrias nas condições de visibilidade na disputa política. Com a IA generativa, esse fenômeno passa a depender também de modelos capazes de produzir novas enunciações em nome dessa liderança. A agência deixa de ser apenas distribuída e passa a ser computacionalmente reencenada, permitindo que determinadas capacidades políticas continuem operando mesmo na ausência do corpo biológico. Esse deslocamento transforma a presença política, que permanece disponível para agir, mas em condições profundamente diferentes daquelas que caracterizam a participação democrática tradicional.

Mais do que simples representação mimética da pessoa, os avatares sintéticos passam a funcionar como atualizações parciais da capacidade de agir politicamente. Ou seja, ao invés de reproduzir integralmente o indivíduo, os avatares reativam capacidades específicas, como endossar candidatos, mobilizar afetos e conferir legitimidade, contribuindo para a manutenção de uma figura política que continua produzindo efeitos mesmo na impossibilidade biológica ou jurídica da presença.

Passamos assim para o segundo ponto da inquietação. A democracia depende de uma determinada distribuição e equalização das capacidades de agir. Candidatos podem falar, adversários podem responder, jornalistas podem questionar, eleitores podem avaliar e instituições podem responsabilizar. Em outras palavras, a democracia organiza a participação no debate público, estipulando quem pode agir sobre quem. Quando uma campanha mobiliza um avatar póstumo ou de alguém proibido juridicamente de se manifestar, essa paridade é parcialmente rompida. Enquanto os candidatos vivos e presentes continuam submetidos às regras ordinárias da disputa, podendo ser criticados, responder a acusações, cometer erros, rever posições e prestar contas de suas declarações, o avatar permanece sobretudo como uma fonte estabilizada de autoridade. Ele não improvisa, não pode ser colocado em contradição por novas circunstâncias, não responde a críticas e não está sujeito às formas habituais de responsabilização política. Ainda assim, continua produzindo efeitos no presente ao participar do debate público. A inteligência artificial, nesse sentido, redistribui as condições sob as quais a autoridade pode ser exercida e, sobretudo, contestada na democracia. Os avatares de IA consistem em agentes eleitorais que reúnem capacidades políticas antes incompatíveis. Sua participação é seletiva: preserva a capacidade de influenciar, mas elimina parte das vulnerabilidades inerentes à participação democrática.

A inteligência artificial pode aprofundar as condições de visibilidade desiguais – já presente nas campanhas plataformizadas – ao ampliar ainda mais a capacidade daqueles que já dispõem de recursos financeiros, técnicos e organizacionais para produzir conteúdos em escala, testar formatos, ocupar diferentes espaços de circulação e manter determinadas figuras e narrativas permanentemente disponíveis. O risco do uso de IA nas eleições, portanto, reside na concentração desigual da capacidade de produzir presença, visibilidade e influência política.

O problema colocado pela IA nas eleições não pode se restringir à checagem do que é verdadeiro ou falso. Se a plataformização da política já transformou poder econômico, conhecimento técnico e capacidade de mobilização digital em vantagens assimétricas, a expansão das tecnologias generativas pode tornar essas diferenças ainda mais determinantes. Grupos com mais dinheiro podem adquirir maior capacidade de produzir, experimentar, segmentar, distribuir e fazer circular ações políticas. Quando essas capacidades se distribuem de maneira profundamente desigual, o que está em jogo é a própria busca por paridade das condições da disputa eleitoral.

O desafio que se coloca, portanto, é coletivo. Cabe às instituições eleitorais, às instâncias reguladoras, aos agentes políticos, à imprensa e à sociedade discutir quais usos da inteligência artificial devem ser permitidos ou proibidos. Ainda, e mais importante, devemos deliberar sobre quais condições materiais e tecnológicas devem ser estabelecidas para que eleições possam ser disputas paritárias. Preservar a democracia diante das transformações tecnológicas significa enfrentar as desigualdades na capacidade de produzir visibilidade e influência política. Uma eleição democrática não depende apenas de garantir que diferentes atores possam falar, mas de impedir que a capacidade financeira e tecnológica de alguns torne a voz dos demais progressivamente inaudível.

*Paulo Faltay é professor de Comunicação no campus do agreste da UFPE, coordenador do Estopim -Laboratório de Tecnopolítica, Comunicação e Subjetividade, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE.

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