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	<title>Arquivos Entrevista - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Entrevista - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Especialistas alertam para o risco de racismo no uso de reconhecimento facial durante o carnaval</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Feb 2024 18:09:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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		<category><![CDATA[carnaval 2024]]></category>
		<category><![CDATA[governo Raquel Lyra]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Jorge Cavalcanti* As pontes que dão acesso ao Bairro do Recife e os principais polos de folia de Olinda este ano estarão sendo monitorados no carnaval por um sistema de câmeras de reconhecimento facial cujo objetivo é identificar foragidos da Justiça. O anúncio foi feito pela Secretaria de Defesa Social (SDS) na entrevista coletiva [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Jorge Cavalcanti*</strong></p>



<p>As pontes que dão acesso ao Bairro do Recife e os principais polos de folia de Olinda este ano estarão sendo monitorados no carnaval por um sistema de câmeras de reconhecimento facial cujo objetivo é identificar foragidos da Justiça. O anúncio foi feito pela Secretaria de Defesa Social (SDS) na entrevista coletiva de divulgação do esquema de segurança para o período festivo, terça-feira (30). O uso da ferramenta gera debate sobre o viés racista dos algoritmos que determinam o funcionamento da tecnologia e a possibilidade de pessoas negras serem presas injustamente. A Marco Zero Conteúdo ouviu especialistas para entender quais são os riscos e questionamentos.</p>



<p>A SDS tratou como “inovação” o uso do sistema de reconhecimento facial, mas não informou o nome do software adquirido pelo Estado de Pernambuco ao valor de R$ 400 mil, com recursos do Fundo Nacional de Segurança. A tecnologia vai estrear no desfile do Galo da Madrugada, no Sábado de Zé Pereira, no centro do Recife, e operar durante os demais dias de folia. O anúncio acontece depois do governo ter desligado, no final do ano passado, 240 câmeras de videomonitoramento instalados no Recife e outras 38 em Olinda, por conta do fim do contrato e a não realização de uma nova licitação.</p>





<p>Estudos apontam que os sistemas de reconhecimento facial atualmente no mercado apresentam índices maiores de erro quando mapeiam rostos de mulheres e negros. Um trabalho desenvolvido nos Estados Unidos identificou taxas do chamado “falso positivo” para asiáticos e afro-americanos até 100 vezes maiores do que para brancos.</p>



<p>Na entrevista coletiva da SDS, a secretária executiva da pasta, Dominique de Castro Oliveira, defendeu o uso da ferramenta no carnaval. “É mais um equipamento à disposição do policial, não funciona por si só. A câmera de reconhecimento facial, sozinha, não determina a prisão. Ela apenas traz um alerta e, a partir dali, apura-se a informação de forma a confirmar se é o caso de um mandado de prisão em aberto. A tropa está orientada a fazer esse check de identidade”, garantiu.</p>



<p>De acordo com a representante do governo, o sistema que será usado no tem como base de dados o Banco Nacional de Mandados de Prisão. São hoje 332.548 ordens de prisão à espera de cumprimento listadas no banco, dos quais 13.457 em Pernambuco, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O órgão não consegue, porém, informar quantos desses mandados de prisão em aberto são alimentados também com a fotografia da pessoa procurada.</p>



<p>Em reserva, a reportagem conversou com profissionais do sistema de justiça criminal para entender melhor como esse banco nacional funciona. E ouviu que não há atualização em tempo real porque precisa ser alimentado por servidores em cada unidade da federação.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Cadê o debate</strong>?</h2>



<p>A presidente do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), Raquel Saraiva, relembra uma <a href="https://portal.mppe.mp.br/w/em-audiencia-publica-promovida-pelo-mppe-estado-e-prefeitura-informam-que-ferramenta-nao-sera-adotada-antes-de-um-debate-amplo" target="_blank" rel="noreferrer noopener">audiência pública</a> realizada pela 8ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife, em dezembro do ano passado, em que Prefeitura do Recife e Governo do Estado se comprometeram a só implantar a tecnologia após discussões amplas para aperfeiçoar as ferramentas.</p>



<p>“Essa notícia nos pegou de surpresa. É sabido que essa tecnologia funciona a partir de um recorte de raça, classe e gênero. Para nós, é uma aplicação de alto risco, ainda mais sem um processo de discussão”, avalia Raquel Saraiva. O IP.rec elaborou uma nota técnica sobre o assunto. O trabalho, feito antes do anúncio da SDS, aborda aspectos técnicos e jurídicos e lista campanhas nacionais e internacionais que tratam do tema. <strong><a href="https://ip.rec.br/publicacoes/nota-tecnica-revelando-rostos-ocultando-sujeitos-como-a-implementacao-do-reconhecimento-facial-fere-direitos-garantidos-na-constituicao-federal/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Clique aqui para ler a nota técnica na íntegra.</a></strong></p>



<p>Pesquisador na área da segurança pública, o advogado Almir Felitte ressalta que já são de conhecimento público os casos de prisões injustas e ilegais baseadas no “falso positivo” do reconhecimento facial. “Costumo dizer que essa ferramenta não é nem inteligente, porque apresenta taxas de erro para além do aceitável, nem artificial, porque trabalha a partir de uma lógica gerada por humanos dentro de uma perspectiva racista”, analisa. Ele é autor do livro <em>A história da polícia no Brasil: estado de exceção permanente?</em></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Comandantes usarão bodycams</strong></h3>



<p>Além do sistema de reconhecimento facial para capturar foragidos, para este ano, a outra novidade anunciada foi o uso das câmaras corporais acopladas à farda de policiais durante o carnaval. “Elas, às vezes, são fruto de alguns questionamentos e dilemas. Mas, na visão da SDS, é um equipamento muito importante não só na defesa do cidadão, mas também para o próprio policial”, destacou a secretária executiva da pasta.</p>



<p>O uso de câmeras corporais pelas forças de segurança foi recomendado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em portaria publicada em janeiro. De acordo com a pasta, as <em>bodycams</em> devem estar ligadas e em modo de gravação ininterrupta durante o turno de serviço do agente; o conteúdo deve ficar armazenado e acessível por um período de seis meses.</p>



<p><strong><a href="https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/19.01.2024Recomendaosobreousodecmerascorporaisnasatividadesdosagentesdeseguranapblicaedeseguranaevigilncia.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Clique aqui para ler a portaria.</a></strong></p>



<p>Pernambuco dispõe hoje de 187 câmeras corporais. Elas começaram a ser usadas em setembro do ano passado, num projeto-piloto desenvolvido no 17º Batalhão de Polícia Militar, com atuação em Paulista e Abreu e Lima, cidades do Grande Recife. Três meses depois, o major José Evandro Barros, acompanhado de outro oficial, compareceu ao Ministério Público de Pernambuco para falar a três promotoras sobre o uso experimental da tecnologia.</p>



<p>“A orientação é de que a câmera fique ligada, mas em <em>stand by</em>, sendo acionada sempre que tiver início qualquer ocorrência”, explicou o tenente Reginaldo Medeiros, na ocasião. Naquela data, 5 de dezembro de 2023, de acordo com os oficiais, <a href="https://portal.mppe.mp.br/w/promotores-esclarecem-duvidas-de-sobre-uso-de-bodycams-com-17-batalhao-da-pm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">apenas 57 das 187 <em>bodycams</em> estavam em uso</a> por conta de problemas técnicos relativos à estação de armazenamento das imagens.</p>



<p>A advogada Maria Clara D’Ávilla destaca que o uso do equipamento por policiais em serviço é uma demanda de alguns anos das organizações da sociedade civil que monitoram a segurança pública. Ela atua no Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop)</p>



<p>“É uma tecnologia importante no esforço de reduzir a violência e letalidade policial. Mas elas, isoladamente, nem sempre garantem isso. É preciso ter também outros mecanismos, como transparência no funcionamento do equipamento e armazenamento dessas imagens, a independência das ouvidorias das Polícias Militares e o fortalecimento do controle externo das atividades policiais”.</p>



<p>Em Pernambuco, até o momento, as imagens captadas pelas bodycams estão sendo armazenadas no 17º Batalhão. Pelo que os oficiais da PM informaram ao MPPE, as mídias são auditáveis, sendo possível descobrir tentativas de acesso indevido ao banco de dados.</p>



<p>No Brasil, hoje, a tecnologia é usada em 25 dos 27 Estados do Brasil, com diferentes níveis de presença. Recentemente, o governador Tarcísio Freitas (Republicanos) recuou da intenção de desfinanciar o uso da tecnologia em São Paulo.</p>



<p>*<strong>Jornalista com 19 anos de atuação profissional e especial interesse na política e em narrativas de garantia, defesa e promoção de Direitos Humanos e Segurança Cidadã</strong></p>
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		<title>&#8220;A negação do racismo é algo muito comum em todo o mundo&#8221;, afirma cineasta francesa Rokhaya Diallo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jan 2024 21:00:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Antirracismo]]></category>
		<category><![CDATA[baobácine]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Definida como uma das ativistas mais proeminentes da luta antirracista na França pelo The New York Times, a jornalista, escritora e cineasta francesa, Rokhaya Diallo esteve no Recife na última semana para participar da terceira edição da Mostra de Filmes Africanos e da Diáspora de Pernambuco &#8211; Baobácine.  Criada nos bairros operários de Paris, Rokhaya [&#8230;]</p>
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<p>Definida como uma das ativistas mais proeminentes da luta antirracista na França pelo <a href="https://www.nytimes.com/2017/12/28/opinion/france-racism-rokhaya-diallo.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">The New York Times</a>, a jornalista, escritora e cineasta francesa, <a href="https://www.instagram.com/rokhayadiallo?igsh=MXdlOTc3cHRkdmhtcg==" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rokhaya Diallo</a> esteve no Recife na última semana para participar da terceira edição da <a href="https://www.instagram.com/baobacine?igsh=MWQzYjFnaXBwaDl2" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mostra de Filmes Africanos e da Diáspora de Pernambuco &#8211; Baobácine</a>. </p>



<p>Criada nos bairros operários de Paris, Rokhaya visitou o Nordeste do Brasil pela primeira vez para promover um intercâmbio de conhecimentos em debates com ativistas do movimento negro, que foram realizados pela organização da mostra. </p>



<p>As atividades do Baobácine aconteceram entre os dias 15 e 18 de janeiro nas cidades do Recife e Caruaru. A mostra contou com a exibição de três documentários dirigidos por Rokhaya Diallo, entre eles, o longa <em>Bootyful</em>, que promove um debate sobre os padrões de beleza e os estigmas em torno da bunda, pensando na hiper sexualização das mulheres negras.</p>



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	                                        <p class="m-0">Cartaz de Bootyful</p>
	                
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<p>Reconhecendo a importância de manter o diálogo e criar confluências com as pessoas negras descendentes da diáspora africana, a ativista francesa utiliza de sua projeção para manter ativo os debates sobre o antirracismo. Para isso, Diallo dirige filmes que têm como tema principal a representatividade de pessoas negras nas mídias, além de escrever para jornais reconhecidos mundialmente como o <a href="https://www.theguardian.com/profile/rokhaya-diallo" target="_blank" rel="noreferrer noopener">The Guardian</a>. A jornalista também já escreveu diversos livros e artigos e foi apresentadora de programas de rádio e TV na França. </p>



<p>De acordo com Rokhaya, realizar trabalhos com múltiplas linguagens em diferentes lugares do mundo é uma forma de combater um traço marcante do racismo: a negação. Em entrevista para a Marco Zero Conteúdo, a ativista francesa falou sobre sua passagem por Pernambuco e as afinidades da luta antirracista no Brasil e na França. </p>



<p>Marco Zero Conteúdo<strong> &#8211; Como foi a sua estadia no Brasil e a participação na Baobácine?</strong></p>



<p><strong>Rokhaya Diallo</strong> &#8211; Foi uma oportunidade de descobrir um espaço que eu não conhecia no Brasil, nunca tinha estado no Nordeste. Então eu pude ter uma nova perspectiva, um olhar diferente do que você costuma ouvir de como é o Brasil lá no exterior e o acolhimento das pessoas tem sido muito bom, vivi muitos encontros emocionantes. </p>



<p><strong>Você consegue reconhecer semelhanças na luta antirracista no Brasil e na França?</strong></p>



<p>Obviamente a situação política de todos os países é diferente. Mas o que noto em qualquer lugar que conheço e que vou falar sobre o antirracismo é que existe uma negação. A negação do racismo é algo muito comum em todo o mundo. Eu acredito que no Brasil, por ter uma população que em sua maioria se identifica como negra, o sentimento de injustiça é muito maior do que na França, então há também suas diferenças.</p>



<p><strong>Quais estratégias você adotou na sua trajetória profissional para se tornar uma figura pública de visibilidade internacional?</strong></p>



<p>Isso não foi planejado, eu nunca teria imaginado ter tanta visibilidade. Eu diria que minha jornada é, ao mesmo tempo, uma sucessão de acidentes e encontros, e eu precisei ser muito resistente. Não vou negar que sendo um das únicas mulheres negras no campo do jornalismo de opiniões eu enfrento muitas dificuldades, porque há muitos jornalistas negros na França, mas são poucos os que realmente fazem uma análise política de enfrentamento. Há muito racismo e seximos envolvidos, e eu já passei por situações de assédio, polêmicas, tentativas de intimidação, há muita gente que é contra o meu trabalho na França. Então eu posso dizer, entre aspas, que uma das minhas estratégias tem sido trabalhar para a mídia internacional. Por exemplo, atualmente eu escrevo para o<a href="https://www.washingtonpost.com/people/rokhaya-diallo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Washington Post</a> e o The Guardian e com isso eu acabo estabelecendo uma forma de ter autoridade, e assim as pessoas na França não conseguem me ignorar, elas precisam ouvir o que eu tenho a dizer. </p>



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	                                        <p class="m-0">A ativista francesa, Rokhaya Diallo, conversou com ativistas do movimento negro pernambucano. Crédito: Fran Silva/Baobácine </p>
	                
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<p><strong>Como foi para você poder encontrar com ativistas negros do Brasil durante essa participação na Baobácine e qual a importância desse intercâmbio?</strong></p>



<p>Para mim é muito enriquecedor. E eu acho muito importante porque isso permite com que a gente se situe em uma diáspora para observar, como tenho visto também nas idas aos Estados Unidos e em outros países, que temos lutas em comum e também precisamos criar espaços seguros para dialogar. O que eu vejo é que realmente há uma sede, uma sede de troca, uma sede de criar uma ligação e um espaço onde estejamos seguros e nesse sentido o trabalho da Baobácine tem muito mérito. </p>



<p><strong>Em seus documentários você traz sempre a questão da representatividade para o centro do debate. Por que você faz essa escolha? E para você, qual é a relação do cinema com a propagação do antirracismo?</strong></p>



<p>O cinema cria o imaginário coletivo e tem um impacto extremamente forte nas representações, tanto daquelas pessoas que são representadas quanto das que não estão representadas. O cinema é um lugar onde as pessoas podem ser vistas e, eu tenho certeza, que quando você nunca vê certas pessoas no cinema você começa a questionar a existência delas, você acha que essas pessoas são indignas de existir. Nina Simone dizia que o dever dela enquanto artista era refletir sobre o seu tempo e eu concordo com ela, acho essencial ecoar as questões que precisam ser debatidas na sociedade. </p>



<p>Eu trabalhei em um documentário intitulado <em>Onde estão os negros?</em> E neste documentário, uma das sociólogas que é entrevistada, Marie-France Malonga, diz que para as minorias negras existem três tipos de representações que são muito comuns no cinema francês. Há a representação de &#8220;selvagem&#8221;, essa é uma pessoa que não é adequada para viver em um ambiente civilizado. Há a representação da &#8220;vítima&#8221;, essa é uma pessoa que está sempre necessitada, que precisa ser salva, geralmente por pessoas brancas. E por fim, tem a figura do &#8220;encrenqueiro&#8221;, é um delinquente, um terrorista, uma pessoa que não é honesta e causa problemas. Estas são representações que ainda continuam muito presentes no cinema, mesmo que ao longo dos anos nós tenhamos evoluído nos debates raciais, porque há cada vez mais diretores negros que contam suas próprias histórias. </p>



<p><strong>Uma das principais dificuldades encontradas por cineastas negros no Brasil é conseguir aporte financeiro para produzir seus filmes. Você também enfrenta essa dificuldade na França?</strong></p>



<p>É muito difícil conseguir financiamento na França também. E é incrível porque meus filmes são muito mal financiados, mas depois de lançados, eles são muito úteis, ganham muito reconhecimento e circulação. Eu sempre tenho que trabalhar com orçamentos muito pequenos. Para conseguir fazer meu primeiro filme eu tive que apelar para a solidariedade, fiz um apelo nas redes sociais para que as pessoas colaborassem.  E o meu último filme, que eu codirigi, demorou oito anos para conseguir financiamento. Então, não é fácil, mas já fiz oito documentários e hoje digo a mim mesma que, se não tenho meios para fazer meu trabalho corretamente, não irei mais trabalhar, porque eu não acho normal que com a minha experiência eu ainda possa ter dificuldades em encontrar meios de financiar os meus trabalhos. </p>



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	                                        <p class="m-0">Cartaz de Onde estão os negros?, de Rokhaya Diallo. </p>
	                
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<p></p>
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		<title>&#8220;Feminicídio não envolve necessariamente parceiro íntimo&#8221;, afirma Ana Paula Portella</title>
		<link>https://marcozero.org/feminicidio-nao-envolve-necessariamente-parceiro-intimo-afirma-ana-paula-portella/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jan 2024 19:46:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[feminicídio]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Pedro Paz* Recentemente, em João Pessoa, onde moro há seis anos, diversos homens foram flagrados, por câmeras de segurança, ao agredir uma mulher, geralmente sua companheira ou ex. Alguns casos ocorreram na frente de crianças. Eu não tenho a coragem de Luara Calvi Anic, de respirar fundo e clicar no ícone de imagem sensível, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Pedro Paz*</strong></p>



<p>Recentemente, em João Pessoa, onde moro há seis anos, diversos homens foram flagrados, por câmeras de segurança, ao agredir uma mulher, geralmente sua companheira ou ex. Alguns casos ocorreram na frente de crianças. Eu não tenho a coragem de <a href="https://gamarevista.uol.com.br/colunistas/luara-calvi-anic-colunistas/eu-respiro-fundo-e-clico-no-icone-de-imagem-sensivel/">Luara Calvi Anic</a>, de respirar fundo e clicar no ícone de imagem sensível, em redes sociais digitais como o Instagram, e assistir às cenas, talvez por ter vivenciado situações de violência doméstica durante minhas infância e adolescência.</p>



<p>Também talvez por isso e por ter formação jornalística, em 2017 pesquisei, no âmbito do curso de mestrado do programa de pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sob orientação do professor Pedro Benevides, <a href="https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/15172?locale=pt_BR">a produção de notícias sobre possíveis crimes de feminicídio</a>, na redação do telejornal local e vespertino JPB 1º Edição, da TV Cabo Branco, afiliada da Rede Globo em João Pessoa.</p>



<p>No desenvolvimento do meu estudo, foi fundamental um <a href="https://www.scielo.br/j/csc/a/SxDFyB4bPnxQGpJBnq93Lhn/#:~:text=Novas%20tipologias%20e%20cen%C3%A1rios%20incluem,estigmatizadas%3B%20morte%20de%20mulheres%20em">artigo</a> da Ana Paula Portella, escrito em parceria com Stela Nazareth Meneghel, acerca dos conceitos, tipos e cenários dos feminicídios. Apesar de acompanhá-la em redes sociais digitais, principalmente por conta da sua militância em torno de questões centrais na cidade do Recife, como o <a href="https://www.instagram.com/ocupeestelita/">Movimento Ocupe Estelita</a>, e sua participação em grupos de mobilização urbana, como o de <a href="https://www.facebook.com/DireitosUrbanos/?ref=embed_page"><u>Direitos Urbanos</u></a> no Facebook, não havia, ainda, me debruçado sobre sua tese de doutorado a respeito das configurações da violência letal contra mulheres em Pernambuco.</p>



<p>A tese virou o livro <a href="https://editora.ufpe.br/books/catalog/book/49"><em>Como morre uma mulher?</em></a><em>, </em>uma adaptação do trabalho homônimo, aprovado em 2014, pelo programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O texto foi premiado em 2016, como melhor produção em nível de doutorado, no 5º Concurso Internacional de Teses sobre Segurança Pública, Vitimização e Justiça na América Latina e no Caribe, realizado pelo Centro de Excelência para Informação Estatística de Governo, Segurança Pública, Vitimização e Justiça do México. O estudo também recebeu Menção Honrosa no Prêmio Capes de Teses em 2015.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Editora UFPE</p>
	                
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<p>Não pude ir ao lançamento da obra na UFPB em 2023, e fiquei me perguntando se as mulheres continuam morrendo da mesma maneira, no que se refere à violência letal. Na minha pesquisa, os crimes de feminicídios selecionados pelo JPB 1º Edição apresentavam as principais características apontadas pelo <a href="https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2016/04/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf">Mapa da Violência 2015 – Homicídios de Mulheres no Brasil</a>, também imprescindível para o meu trabalho. No período pesquisado, de 24 de abril a 20 de junho de 2017, houve casos da Grande João Pessoa ao sertão da Paraíba.</p>



<p>O local no qual aconteceram os assassinatos quase sempre era no domicílio da vítima ou de proprietário não informado ou em via pública, em localidade erma. O perfil das vítimas também não mudava muito: mulheres adolescentes ou adultas com recortes de classe e de raça ou cor não identificados, embora muitas estatísticas confirmem o maior número de mulheres pobres e/ou negras vítimas de feminicídio. Elas eram mortas, quase sempre, pelo companheiro ou ex. Os instrumentos utilizados eram exatamente os mesmos assinalados pelo Mapa: asfixia, estrangulamento, faca, arma de fogo e objeto contundente.</p>



<p>Quase dez anos após a publicação da tese da Ana Paula Portella, o cenário de insegurança para as mulheres aparentemente piorou no Brasil. De acordo com a <a href="https://forumseguranca.org.br/publicacoes_posts/17-anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/">17ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública</a>, divulgado em julho de 2023, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil teve 1.400 feminicídios em 2022, número que representou alta de 6,6% em relação a 2021, quando foram contabilizados 1.300 casos. Isso significa uma mulher morta a cada seis horas.</p>



<p>Em 2021, ao menos 4.473 mulheres foram vítimas de feminicídio ou feminicídio em 29 países e territórios na América Latina, segundo os últimos dados oficiais informados pelos países ao <a href="https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/cepal-menos-4473-mulheres-foram-vitimas-feminicidio-america-latina-caribe-2021#:~:text=Em%202021%2C%20ao%20menos%204.473,e%20o%20Caribe%20(CEPAL).">Observatório de Igualdade de Gênero da América Latina e do Caribe (OIG)</a>, da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).</p>



<p><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2022-11/onu-mais-de-81-mil-mulheres-foram-assassinadas-em-2021-diz-relatorio#:~:text=Um%20novo%20relat%C3%B3rio%20da%20Organiza%C3%A7%C3%A3o,ou%20outro%20membro%20da%20fam%C3%ADlia.">Relatório</a> da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em novembro do ano passado, expôs números preocupantes sobre o feminicídio no mundo. Em 2021, foram 81,1 mil assassinatos de mulheres. Desse total, 56% foram mortas pelo marido, parceiro ou outro membro da família.</p>



<p>Digo aparentemente, no início da apresentação desses dados, porque essa alta, pelo menos no Brasil, pode não indicar uma mudança cultural para pior, no ponto de vista dos direitos humanos e na perspectiva de gênero; pode ter relação com o aperfeiçoamento da identificação e classificação do crime de feminicídio, por parte dos agentes de segurança pública e judiciário. Em alusão ao Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, no último 25 de novembro, resolvi entrevistar a Ana Paula Portella, que se apresentacomosocióloga.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Para além da violência doméstica</strong></h2>



<p>Ao iniciar a entrevista, Ana Paula Portella, de pronto, teve muito cuidado ao responder à pergunta “Como morre uma mulher?” porque, no seu entendimento, é uma questão muito genérica e que pode, inclusive, induzir a erro ou má interpretação, porque seu trabalho trata, exclusivamente, de mortes violentas.</p>



<p>“É uma pergunta que tem o intuito de tentar quebrar o pensamento hegemônico, que havia no campo da sociologia, de acreditar que a morte violenta feminina acontecia apenas no contexto da violência doméstica. Hás muitas outras situações nas quais as mulheres são assassinadas, como no mercado de drogas ilícitas e familiar, não necessariamente envolvendo parceiro íntimo”, argumenta a socióloga.</p>



<p>Para Ana Paula Portella, os resultados da sua pesquisa podem ser aplicados a contextos semelhantes ao de Pernambuco, ou seja, às grandes cidades brasileiras, com extensas regiões metropolitanas e periferias, nas quais há uma cultura de legitimação da violência que favorece algumas condutas criminosas, com presença de facções criminosas e altas taxas altas de criminalidade e de desigualdades socioeconômicas.</p>



<p>Ana Paula Portella acredita que o Brasil não chegou ao nível “aceitável”, ou seja, o padrão que as Nações Unidas estabelece, que seria dez casos de homicídios, contando a população geral, para cada 100 mil habitantes, em um determinado período de tempo. Segundo a socióloga, apenas o estado de São Paulo enquadra-se nesse parâmetro; nos demais entes federativos, a proporção permanece mais alta.</p>



<p>“O que mudou foram os estudos e análises sobre o tema, especialmente sobre a vitimização da população negra e periférica, com informações novas sobre contextos específicos, com destaque para o estado do Ceará”, diz.</p>



<p>A socióloga compreende que a questão do feminicídio é complexa, porque conceitualmente há muitas controvérsias sobre seu significado exato e a amplitude das razões de gênero que o fundamentam. Embora teoricamente existam impasses, há o conceito utilizado pela legislação brasileira, que vem sendo aplicado nos casos de violência doméstica ou em que há razão de gênero explícita.</p>



<p>“Nos casos classificados pela Justiça brasileira, as razões envolvem o ciclo de violência doméstica. Os conflitos, já muito bem descritos pela literatura, começam com o ciúme e as tentativas de controle, que vão se intensificando e escalando, até que chega no momento que culmina no feminicídio. Eu uso o termo feminicídio para qualquer morte feminina, porque a questão de gênero opera em qualquer situação. Se a gente for pensar nos outros casos de morte violenta de mulheres, a gente vai ter dinâmicas específicas de gênero que operam nas diferentes situações”, explica.</p>



<p>Por sinal, em agosto de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu rejeitar a tese da legítima defesa de honra em crimes de feminicídio. A decisão foi unânime, pois seria uma tese arcaica, que reforça a ideia de submissão e de posse.</p>



<p>De acordo com a socióloga, no mundo da criminalidade, por exemplo, as hierarquias de gênero se repetem. As mulheres dificilmente são chefes de facção ou têm acesso a armamento pesado, capacidade de estabelecer estratégias ou enfrentamento. Geralmente estão em posições subordinadas a homens, fazendo tarefas para eles e em situação de maior vulnerabilidade.</p>



<p>Muitas vezes, ela conta, são mulheres casadas ou namorada ou filhas de homens que têm posição superior na rede criminosa. Portanto, têm menor capacidade de se defenderem. O mesmo acontece na violência familiar, quando sofre agressão de pai, irmão ou parente. Na concepção dela, é preciso analisar como o gênero opera em contextos familiares de hierarquia, quem tem mais poder. “Considero que as dinâmicas de gênero devem ser identificadas e analisadas em todos os contextos”, explica.</p>



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	                                        <p class="m-0">Socióloga questiona se feminicídios aumentaram ou se melhorou capacidade do Estado de identificar os crimes. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p>Ana Paula Portella chama atenção, inclusive, para os dados do Anuário, no sentido de que precisam ser analisados com mais cuidado, a fim de entender se o que está acontecendo no país é uma maior identificação e classificação de casos de feminicídio ou se realmente há um aumento do número de casos.</p>



<p>“Como a legislação é recente, requereu capacitação dos agentes de segurança e de justiça, para compreender como classificar os casos. Isso acontece aos poucos. O Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério das Mulheres fazem essas capacitações junto às secretarias de segurança pública e tribunais de justiça. À medida que os profissionais são capacitados, conseguem caracterizar melhor o crime. Por exemplo, em um determinado ano, de um conjunto de 100 casos, identificam que 30 são feminicídios. Após um ano ou dois, com mais agentes capacitados, identificam 40 ou 50. Eu não tenho ainda muita segurança pra dizer se está acontecendo uma mudança cultural ou se é uma melhora na capacidade do Estado de identificar e classificar esses crimes”, reconhece a socióloga.</p>



<p>Com o intuito de auxiliar o Estado nessa tarefa, propõe modelo de análise que permite chegar a resultados de identificação e classificação, mesmo em um contexto de falta de informações importantes. Para isso, utiliza dados do SUS e técnicas estatísticas para caracterizar o contexto, identificando a situação na qual acontece a violência letal de mulheres.</p>



<p>“Uso a técnica estatística conhecida como regressão logística, para tentar identificar os fatores que determinam as diferentes situações de violência letal de mulheres. Não é muito simples para leigos, mas é de fácil manejo para quem é da área de pesquisa quantitativa e espero que esteja sendo útil para pesquisadoras que trabalham com esse tema no Brasil”.</p>



<p>Resumidamente, a regressão logística é uma técnica de análise de dados que usa estatística para tentar encontrar as relações entre dois fatores de dados.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Fatores determinantes</strong></h3>



<p>Há fatores comuns e específicos que determinam a morte violenta de homens e mulheres, na lógica binária. Entre os comuns, a vida em áreas socialmente precárias, nas periferias das grandes cidades brasileiras. “A desorganização social facilita a resolução violenta dos conflitos. A gente nunca vai conseguir evitar a violência na sociedade. É naturalmente conflitiva e a gente continuará resolvendo os conflitos de diferentes maneiras, às vezes com mais violência e outras vezes com menos violência. O que tentamos continuamente é controlar o nível de violência, para que as sociedades sejam as mais pacíficas possíveis”.</p>



<p>Conforme Ana Paula Portella, na ausência de controles e normas que deslegitimem a violência letal, esses conflitos eclodem e a violência passa a ser uma forma legitimada culturalmente. “Não é à toa que a gente verifica, nessas áreas, uma grande valorização do uso da arma de fogo, da força, dos símbolos e imagens que as representam. Sendo assim, a violência passa a ser vista como uma espécie de pedagogia, como algo que ensina e define comportamentos”.</p>



<p>Essa pedagogia da violência educa crianças, mulheres. Faz com que as mulheres se conformem com seu papel de gênero e, em comunidades onde atuam grupos criminosos, reforçam e amplia o poderio destes grupos, que podem dominar inteiramente ou parcialmente uma área, exemplifica a socióloga.</p>



<p>“Há a valorização da virilidade, de um certo tipo de masculinidade, que conta muito no mercado sexual, afetivo e torna-se um valor. Estou simplificando bastante, mas explico isso nos capítulos iniciais do meu livro.</p>



<p>Com relação às mulheres, são determinantes as desigualdades de gênero, o patriarcado, os valores associados à masculinidade hegemônica, à virilidade e à ideia de que mulheres devem ser submissas aos homens. Tudo isso está na raiz de todas as violências contra as mulheres, mesmo aquelas que não acontecem em ambiente doméstico, segundo Ana Paula Portella.</p>



<p>Para ela, o Brasil tem um conjunto importante de políticas voltadas para o enfrentamento da violência contra as mulheres. Com relação à violência doméstica, sua recomendação é realmente implementar as que já existem, como a Lei Maria da Penha, a legislação de feminicídio, e resoluções das conferências de políticas para mulheres, com participação e controle social, e as que já foram aprovadas pelo congresso nacional.</p>



<p>“Algumas já foram implementadas em muitos municípios e estados, como a rede de proteção para vítimas e famílias e as medidas do judiciário para afastar o agressor das vítimas e garantir a sobrevivência dessas mulheres. Há muitas propostas boas, mas precisam ser integralmente aplicadas”.</p>



<p>Sobre outras situações de violência nas quais a mulheres também morrem, as recomendações são muitas. “Acho que a gente ainda tem um caminho enorme para percorrer. Precisamos de diagnósticos locais para compreender de que forma essas violências se expressam em diferentes contextos e ter um olhar diferenciado e com prioridade máxima para mulheres negras, pobres e indígenas. A gente compreende muito pouco essas dinâmicas”.</p>



<p>Além desses diagnósticos específicos, Ana Paula Portella defende uma articulação das ações de enfrentamento. “É preciso ter políticas integradas. Não é mais possível ter um campo de políticas para mulheres e outro de segurança, que trata de criminalidade, onde a questão da mulher é apenas uma parte. Esse modelo não funciona mais. É preciso integrar com as políticas de educação, saúde, de moradia digna, de urbanização. Se a precariedade social é um dos fatores que determina a violência letal, as políticas urbanas têm papel imenso na superação dessa precariedade. Existem várias experiências no mundo inteiro que demonstram a eficácia dessa integração”, conclui a socióloga.</p>



<p><strong>*Pedro Paz é jornalista, doutorando em Antropologia na UFPB e vencedor da edição 2023 do prêmio Cristina Tavares de Jornalismo.</strong></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/feminicidio-nao-envolve-necessariamente-parceiro-intimo-afirma-ana-paula-portella/">&#8220;Feminicídio não envolve necessariamente parceiro íntimo&#8221;, afirma Ana Paula Portella</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>&#8220;Não é no conforto, é na agonia que vão surgindo as coisas&#8221;. É assim que Karina Buhr faz arte</title>
		<link>https://marcozero.org/nao-e-no-conforto-e-na-agonia-que-vao-surgindo-as-coisas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Dec 2023 12:19:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Erika Muniz* Quem já a assistiu, dificilmente esquece a intensidade de sua entrega durante uma performance. Ou quem somente a ouviu cantar os versos e refrões que alinhavam sua poética sincera, sem meias palavras, composta de palavras inteiras, deve fazer ideia de sua inteireza no palco. Ela é capaz de criar por diferentes formas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Erika Muniz*</strong></p>



<p>Quem já a assistiu, dificilmente esquece a intensidade de sua entrega durante uma performance. Ou quem somente a ouviu cantar os versos e refrões que alinhavam sua poética sincera, sem meias palavras, composta de palavras inteiras, deve fazer ideia de sua inteireza no palco. Ela é capaz de criar por diferentes formas de expressão: na música, na poesia, na ficção, ou também no teatro. E, mais ainda, empresta sua capacidade de elaboração artística a desenhos que ressignificam o mundo e dão tom a personagens, como na arte da capa de <em>Mainá </em>(2022), seu mais recente livro.</p>



<p>Nascida na Bahia e radicada no Recife, a cantora, compositora, percussionista, atriz, escritora e artista visual Karina Buhr se divide entre Salvador e a capital pernambucana, depois de ter vivido também em São Paulo.</p>



<p>Nesta conversa, que aconteceu numa tarde em um café, na Zona Norte do Recife, a artista conversou sobre a sua relação com os diferentes meios de expressão que desenvolve seus trabalhos, de que forma costuma exercer sua capacidade de criação, também relembrou como foram os anos 1990 na cidade, além de falar sobre como é ser uma mulher à frente de um trabalho autoral, a importância de políticas culturais para o estado e a sua interpretação sobre a relevância da arte em nossas vidas.</p>



<p><strong><br>Como é ser uma artista que se expressa de muitas formas? Na música, artes visuais, poesia, ficção e cinema… Como é organizar isso tudo, se é que se organiza?</strong></p>



<p>Não organiza (risos)! Digo que é massa porque gosto – não sei se é gosto ou se é preciso, no sentido de necessidade – de fazer essas coisas todas. Minhas expressões são tocando, fazendo música, fazendo letras, cantando, atuando, desenhando, então, vai tudo misturando. E, aí, sempre tem um ou mais de um projeto meu rolando e tem os convites. A dança é tentar organizar isso, então, sempre é meio caótico mesmo, pela maneira que vou fazendo as coisas. Me entrego totalmente para fazer cada coisa, só que aí acabo me perdendo um pouco nas burocracias. Mas tenho uma produção massa, que resolve as coisas. É muito de organizar isso, o que é meu, o que estou fazendo no momento e o que é que vem de projeto de fora e a dança das datas, do tempo de concentração para cada coisa. Sempre funciona na doidera mesmo. Tem uma música para gravar semana que vem, então, chega dias antes, anoto uma coisa, vou fazendo. Concentração total. Tem várias maneiras de se fazer tudo junto.</p>



<p><strong>E ser uma mulher tocando percussão. Como é ocupar esse lugar? Quando você começou tinha referência de outras mulheres tocando percussão?</strong></p>



<p>Quando eu quis começar a tocar, não. Não via nenhuma perto de mim. Tinha referências longe, mas perto, não. Aí, logo depois, conheci Cristina Barbosa, Virgínia Barbosa e Neide Alves. E eu naturalmente comecei a tocar junto delas, no Angáatãnamú [grupo de percussão liderado pelo artista Éder O Rocha, do Mestre Ambrósio] e depois no Estrela. E foi sempre muito incrível isso. Tinha a dificuldade inicial de chegar nos lugares para tocar no cavalo-marinho, no afoxé, no maracatu, sempre foi muito difícil, mas, ao mesmo tempo, para tocar, você tinha que ter o convite da própria agremiação. No caso do Estrela, foi com Walter [França, mestre do baque do Estrela naquela época], mas também Marivalda [Maria dos Santos, rainha do Maracatu Nação<em>Estrela</em>Brilhante] estava ali, ainda não era rainha do Estrela, mas era totalmente envolvida em tudo. Teve esse abraço do Estrela, não foi “oi, Estrela Brilhante, eu quero tocar, me aceitem.” Inclusive, Walter tomou muito a frente disso, com a gente. De lutar por esse lugar da gente, porque ele também estava enfrentando outras situações, outras pessoas, por aceitar a gente tocar no Estrela Brilhante. Na época, era só a gente ali mesmo. Depois, no cavalo-marinho, afoxé… Sempre foi difícil, eu tocava, mas vivia tendo situações de virem caras tomarem instrumentos e começarem a tocar. Vivi isso no cavalo-marinho, vivi isso no afoxé. Eu tocava, mas sempre tinha. Mas aos poucos isso foi se espalhando. Quando comecei, no Boi da Gurita Seca, no Estrela Bilhante, no Piaba de Ouro. Alguns anos depois, começou a ter muitas mulheres tocando em vários lugares. Mas, nessa época, não tinha, não. Nessa época era bem difícil. Não é que era só a gente no mundo, mas, dentro desses espaços, no maracatu de baque virado, no maracatu do baque solto, no cavalo marinho. Inclusive, no baque solto, até hoje, é bem difícil. Quando você vai ver as sambadas dos maracatus tradicionais, ainda tem poucas mulheres.</p>



<p><strong>Como foi a criação de </strong><em><strong>Mainá </strong></em><strong>(2022)</strong><strong>, seu mais recente livro? E no que a criação dele se diferencia do</strong><em><strong> Desperdiçando Rima </strong></em><strong>(2015)</strong><strong>?</strong></p>



<p>É um romance, então, para mim, muda totalmente. A linguagem é totalmente diferente.</p>



<p>Quando fiz o <em>Desperdiçando Rima</em> eu já achava que era totalmente diferente de fazer música, falava muito isso. E foi realmente. Só que aí, depois o transformei em música. Tem coisa no <em>Desmanche</em>, de 2019, que catei de lá e mudei e saí transformando em música, espremi o livro todinho. E já com <em>Mainá</em> foi totalmente diferente mesmo. No romance, é uma coisa diária. Você escrever e fazer o roteiro das personagens. O começo, meio e fim. O que é que você já revelou, o que não, como é que vai terminar… Realmente foi uma experiência bem diferente de escrita.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: @dudaportella / Instagram @karinabuhr</p>
	                
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<p><strong>O que lhe tira da zona de conforto, enquanto artista?</strong></p>



<p>Acho que nunca estou na zona de conforto. Para compor música, para fazer melodia e tal, o que não significa que eu não estou gostando de fazer. Amo fazer isso, né? Cada vez que vou fazer uma música, que vou escrever um texto, é do zero. Nunca é “ah, já tenho uma fórmula pra isso.” Por mais que eu faça muito, né? Esse mês mesmo fiz bastante coisa, de criação de trilha, teve semana que eu fiz quatro músicas em uma semana, três na outra… Mas não é no conforto, é dessa agonia que vão surgindo as coisas mesmo, acho.<br><br></p>



<p><strong>C</strong><strong>omo você vê a importância das movimentações culturais que aconteceram </strong><strong>na década de 1990</strong><strong>, e que não foram só na música, para o Recife de hoje?</strong></p>



<p>Acho importantíssimo. E não acho que as coisas param, acho que tudo vai se transformando, vai sendo ligado. Acho que tudo isso que rolou nos anos 1990 também foi continuidade do que rolou nos 1980, nos 1970, nos 1960. As coisas vêm vindo, a gente vai pegando referências, transformando em outras coisas. Às vezes, vêm conscientemente mesmo, e é engraçado isso. Às vezes, com a necessidade de ruptura até, antes de fazer outra coisa. Mas essa ruptura já é uma influência também. Você dizer que está rompendo com a coisa que você já tem, então, você não vai apagar aquilo de você, por mais que você possa transformar em outras coisas. Lembro de uma vez, acho que foi Roberta Martinelli, no [programa] Cultura Livre<em>,</em> que tinha um quadro que era para você mostrar um vinil. Aí, levei um de Alceu Valença e lembro de ter falado isso na época, o quanto a gente não estava falando de Alceu quando era perguntado sobre isso. O que não significava que a gente não tinha influência de Alceu. Muito pelo contrário, todo mundo tem influência de Alceu. Até quem, por acaso, disser que não ou não gostar – porque você gosta ou não gosta das coisas –, é influenciado também. Acho que, às vezes, tem a necessidade de quebra, mas que não é de apagar a influência. Acho que tudo isso gera o que também tem hoje, né?</p>



<p><strong>Diz uma música que você colocaria como trilha da sua vida.</strong></p>



<p><em>Enquanto engoma a calça</em>, de Ednardo.</p>



<p><strong>E o que é que você sente quando está no palco?</strong></p>



<p>Acho que é um lugar onde fico muito em casa. Porque é um lugar onde qualquer coisa pode acontecer. Você sai desse lugar da “sala de visita”, que Zé Celso falava. O que acontece ali é de acordo com como estou naquela hora. Se estou triste, alegre, feliz, doente, como estou, aquele show, aquela peça vai acontecer. Cada vez de uma maneira diferente, mas sempre vai ser como estou, com o estado que estou naquele dia. Às vezes, forçando mais a barra ou não, dependendo. Mas sempre vai ter isso. Então, é um lugar onde eu me sinto mais em casa, acho.</p>



<p><strong>Do que você tem medo? Sei que isso é a minha percepção com relação a você, não dá para determinar, </strong><strong>m</strong><strong>as, às vezes, parece que você não tem medo de nada.</strong></p>



<p>Eu tenho! Tenho medo de avião (risos). Finjo que não e pego uns livros pra ler. “Esse povo fica lendo, avião caindo e esse povo lendo. Vou fingir que não tenho medo também, porque vou ficar lendo, e digo que estou de boa.” Mas tenho medo, sim, de um monte de coisa. Mas uns eu passo por cima e vou embora fazendo, outros, não. Outras coisas deixo de fazer mesmo, não vem nada agora na cabeça agora. Às vezes, tenho medo de multidão, às vezes, eu amo multidão. No Homem da Meia Noite, eu amo multidão. No Carnaval, eu amo multidão. Mas sei lá, às vezes, não quero ver ninguém, aí, fico em casa e fujo.</p>



<p><strong>Por que a gente precisa de arte, Karina?</strong></p>



<p>Acho que é uma das coisas principais, porque o modo de vida acaba sendo trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisa, ter dinheiro para o boleto, para o médico, não sei o que lá. Uns mais que outros. Uns trabalham única e exclusivamente para isso, que é o terror do capitalismo, a pessoa existir para tentar ter o básico. Não devia ser isso, mas é. Acho que na arte todo mundo, todas as pessoas são afetadas. Todo mundo vive a arte. Quem tem dinheiro, quem não tem. Todo mundo vive isso de uma maneira ou de outra. Acho que todo tipo de arte é uma das coisas mais importantes.</p>



<p><strong>O palco é um lugar, pra você, de reelaborar as suas certezas ou você chega com elas todas prontas lá?</strong></p>



<p>Não acho que eu tenha muitas certezas, não. O tempo todo isso está sendo modificado, no palco e fora do palco. Até de música mesmo. Tem música que não acho mais legal, não quero mais cantar, ou tem outra que eu faria de outro jeito. Acho que isso vai mudando a toda hora.</p>



<p><br><strong>Sobre sua experiência no palco, da época da Comadre Fulozinha para cá, o que você vê que mudou?</strong></p>



<p>Acho que principalmente de eu conseguir me colocar à frente, no sentido de assinar o que eu faço. Porque, por conta de um machismo imenso, que hoje a gente ainda vive, mas na cena dos anos 1990, era uma coisa totalmente paralisante. Isso não aparece tanto quando a gente vai falar disso, mas era paralisante. Naquele meio que eu tava, das bandas, dos shows e de tudo. Acho que demorei muito tempo pra conseguir. Para a Comadre Fulozinha mesmo, ainda fiz um disco, onde só tinha eu na formação original, em 2009. Ninguém sabe desse disco, não tem em nenhuma plataforma, em algum momento tenho que subir. Muito por isso, eu não conseguia. “Como assim? Eu, Karina Buhr?” Como se eu precisasse ter sempre uma banda, junto com outras pessoas. Sempre vai ser junto com outras pessoas, mas digo de assinar, ter a minha cara com o meu trabalho principal. A gente tinha uma coisa de se acostumar também a não assinar. Muitas vezes ter o seu trabalho, as suas letras, as suas coisas, no meio de um monte de coisa e você não ser reconhecida por isso. Então, a gente até acabava se acostumando, de uma certa forma. Para mim, acho que o principal foi romper com isso e conseguir botar a minha cara na frente. Inclusive, brigar muito por isso. Sempre briguei, né? Mas, aí, uma vez que eu me assumo no trabalho solo, isso aqui sou eu, aí, daí, é uma outra coisa. É dizer: “isso aqui é meu, essa letra é minha, essa música é minha.” Porque sempre tenho as confianças, né? Não só no primeiro disco, até hoje, de vez em quando, ainda escuto. “Tal música é sua? Você fez sozinha?” “Sim, fiz sozinha.” Tem muito isso, agora está melhorando, mas ainda tem.</p>



<p><strong>Eu, como jornalista, já ouvi de homens jornalistas que eu deveria fazer meu trabalho de tal maneira assim. Já aconteceu algo assim com você nos seus trabalhos?</strong></p>



<p>Ah, bastante, bastante, bastante. A gente até usa isso, em ensaios, em músicas. “Faça no seu”. Alguém dá uma ideia. “Por que você não faz de outro jeito?” “Está ótimo isso, faça no seu”.</p>



<p>Porque, claro, não é questão de que só as minhas ideias servem. Não é isso. Mas tem os limites do que é opinião, do que é fazer arranjo junto ou do que é simplesmente: “acho melhor por aqui, a minha ideia melhor que a sua.”</p>



<p><strong>O que a arte já te deu, Karina? E o que ela já tirou de você?</strong></p>



<p>Ela me dá um monte de coisa boa, de poder viver do que eu gosto, de fazer. Inclusive, isso é um privilégio imenso, né? Uma coisa que é difícil, você viver de arte. Ao mesmo tempo, tem o lado também da insegurança, falando daqui do lugar onde estou, a insegurança de não saber como é que vai ser. Tipo, no mês que vem eu não sei como é que vai ser. É muito isso, fica uma montanha-russa. Tem mês que você não para de trabalhar, no outro não faz nada. Tem essa insegurança, mas dentro desse lugar de viver do que eu faço. Reclamo isso na mesa de bar com meus amigos. Viver da minha arte, para mim, é uma coisa maravilhosa. As reclamações deixo para a mesa de bar. Só não quando reclamo no sentido do coletivo. Ou quando, tipo agora que eu reclamei da comemoração de Manguebeat, de eu não estar lá. Reclamo mesmo, acho que tem que reclamar. No sentido de busca de direitos. De quando tem grana de poder público envolvido, prefeitura, governo, carnaval. De falar do lugar que eu tenho, que eu posso falar e também de pessoas que vejo que não estão entrando. Sempre gosto de falar, ressaltar os maracatus, os afoxés, os caboclinhos, as orquestras. Por exemplo, no caso do carnaval, eles são as primeiras estrelas do carnaval e, na hora que a gente vai ver, as fatias do bolo não é bem assim que funciona. Na hora do dinheiro. Não é no sentido de não dar minha opinião. Isso é assim que vão botar. A coisa mais particular, eu deixo mais para mim e o que é coletivo, exponho.</p>



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<p><strong>Quando nós, mulheres, vamos reivindicar esse lugar que você está falando, de reivindicar direitos, por exemplo, com relação ao Manguebeat, costuma haver uma rebordosa com você ou não? Você percebe se acontece isso?</strong></p>



<p>Não tem meio para onde ter rebordosa, porque a rebordosa já estava estabelecida, né? Eu já não estava em nenhuma das comemorações de 2022 e nem 2023. Então, não tem muito pra onde. Agora, o meu ‘bocão’, sempre acaba prejudicando em algum momento, porque você está falando sobre pessoas. Mas, aí, eu acabo não deixando de falar, porque são coisas políticas que é preciso falar. Por mais que eu possa fazer reclamação sobre mim ou sobre o lugar que eu estou ali ocupando ou não, vai acabar envolvendo mais pessoas. Nesse caso, de falar sobre o Manguebeat, acabou sendo muito bom porque tive uma resposta muito massa de um monte de mulheres. Inclusive, tem uma coisa específica aí: o que aconteceu nos anos 1990, não está na internet. Então, “se você não fala, não existe”. Agora, é muito chato você ficar falando sobre você, né? “Ah, fiz isso, fiz aquilo.” Ficar me exaltando, é horrível. O ideal é você espalhar informação para o máximo de pessoas que você conseguir para que as pessoas falem sobre isso, porque se não chega as gerações de depois e não vão saber. As pessoas que estavam vivendo aquela situação naquele momento, elas têm obrigação de falar porque se não, você apaga mesmo a parte grande, inclusive, não só de mulheres. Quando falei sobre isso que escrevi o texto para a Continente até. Principalmente mulheres, mas também têm outros homens também que acabam que estão numa situação de menos poder e acabam não aparecendo.</p>



<p><strong>Como é viver de arte no Brasil, a partir da sua vivência? Sabendo que ela é um recorte dentro do país.</strong></p>



<p>Para mim, por ser de classe média, tem várias facilidades de você já ter, ali, garantido coisas que vão possibilitar: “será que vou viver disso?” Ao mesmo tempo, fácil não é. Principalmente pelas escolhas, depende das escolhas que você faz. Aí, minhas escolhas que vão também a partir do que sei fazer, porque a gente não só escolhe. As escolhas também são diante do que a gente consegue fazer, não são só o que a gente quer. A música que eu faço, por exemplo, não tem um nicho específico. Não faço um tipo de música que vai colar naquele público gigantesco que não sei o quê. É uma coisa muito autoral demais. No sentido de, no mesmo disco, ter umas músicas mais porradas, umas músicas mais tranquilas, umas coisas mais de percussão, umas mais de rock’n’roll. É um público diverso, isso é massa de ver no público. É uma galera totalmente diferente da outra, inclusive, de idade também. Ao mesmo tempo, é difícil. Como comunicar? Como chegar nas pessoas? Principalmente hoje em dia nas comunicações. Como é que você vai divulgar um show? O Instagram entrega para quem ele quer. Quando você faz uma música querendo, por esse motivo, ou naturalmente, mas que já tem um público específico, as coisas acabam correndo de maneira mais fácil. E também de dar opinião política. Tem vários jogos dentro disso que eu não faço. E, aí, acaba dificultando realmente, mas são escolhas minhas. Chamo do “mundo encantado da música.” Se você soubesse como é, não faria. De vez em quando tem isso: “que conselho você daria, o que você diria para quem está começando?” A primeira coisa que tenho vontade de dizer é: “desista” (risos). Aí, depois: “não, veja bem, tenta.” Mas porque tem hora que você satura mesmo. Aí, você faz um show e tudo volta. Ou você faz um lançamento de um livro, um bate-papo massa, que nem fiz agora em Sobral. A paixão volta. Sai o bode e volta a paixão.</p>



<p><strong><a href="https://revistacontinente.com.br/secoes/relato/manguetals">No texto publicado na Revista Continente</a>, você, além do apagamento feminino, denomina pessoas importantes que costuram a história da cultura pernambucana. Por que você acha que acontecem esses silêncios na história que costuma ser contada?</strong></p>



<p>Acho que é o machismo mesmo. É ele, porque não tem necessariamente um monte de gente dizendo: “vamos apagar as mulheres.” As pessoas fazem isso sem perceber. E quando percebem, também não fazem nada depois. Inclusive, esse texto quando fui fazer, desisti, falei: “não, não vou mais fazer.” Porque é isso, ao mesmo tempo que fiquei: “que massa, quero fazer.” Quando comecei a fazer, fiquei: “velho, não vou ficar fazendo um texto sobre mim para botar na revista.” Aí, falei: “vou botar o máximo de mulheres que conseguir.”</p>



<p><strong>Como foi para lembrar de todos aqueles nomes?</strong></p>



<p>É porque era uma convivência muito forte! Tem algumas amigas também que estavam comigo na época. “minha gente, esqueci de alguém aqui?” Mas estava todo mundo. Quem eu tinha esquecido era tipo um ou outro nome. “Eita, lógico, não posso esquecer.” Mas, de qualquer jeito, tem gente esquecida ali também, porque é isso, não vai ser do lugar onde você estava. Mas todo mundo que coloquei ali, convivi muito. Também tem isso, cheguei a dizer: “não quero mais fazer.” Porque sempre vai faltar gente. Depois, falei: “não tenho realmente que representar todo mundo, vou representar o que eu conseguir.” Cada um tem o seu ponto de vista. Não só sobre opinião, mas sobre o lugar que você está. No caso, consegui abranger um monte de gente também porque eu estava em muitos lugares diferentes uns dos outros. Eu estava no festival de rock, estava no maracatu, estava no baque solto, no baque virado, estava no afoxé, estava com Erasto Vasconcelos. Tinha realmente muita gente. Mas, ao mesmo tempo, pensei: “quando é que vou considerar que começou e que terminou o movimento manguebeat?” “Não, isso não está na minha mão, vou pegar 1990 até 2000 e vou botar o máximo de mulher que eu lembrar no texto.” E acabei citando também do Movimento Negro, da Terça Negra. Porque é muito importante ter também. Porque senão fica aquela coisa, você fecha em Nação Zumbi e Mundo Livre, que são ícones, mas tinha muita coisa acontecendo na cidade. E mesmo o próprio manifesto. Qualquer manifesto, inclusive, de qualquer movimentação artística, é um recorte. Eles mesmos falam. Era para ser um release, aí acabou virando um manifesto. Mas as coisas não aconteceram em volta desse manifesto, as coisas estavam acontecendo, estavam em ebulição na cidade, no Estado todo, nas cidades. Recife, Olinda, Jaboatão, Camaragibe e as cidades no interior também. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Então, não foi a partir de um manifesto que essas coisas aconteceram. O manifesto foi dentro desse contexto.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Reprodução site da revista Continente</p>
	                
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<p>C<strong>omo artista, trabalhadora da cultura, você acompanhou um momento de ascensão e de diminuição de políticas públicas voltadas para a cultura no nosso Estado. Qual a importância dessas políticas públicas na cultura a seu ver? E como você se relaciona com as dinâmicas delas, aqui, em Pernambuco?</strong></p>



<p>Acho que, para mim, é um grande conflito. É um assunto que sempre me aperreia desde o primeiro dia que comecei a trabalhar com isso. Porque justamente, por trabalhar nesses contextos totalmente diferentes de banda, de grupo, percebi essas realidades. Se você toca numa banda de classe média, seu cachê é um, banda local – odeio esse sobrenome “local”, porque acaba que significa tocar com menos estrutura e o seu cachê ser menor – ou você ser um nome nacional, ou você ser um maracatu, você ser uma ciranda, muda totalmente a estrutura de trabalho, o cachê. Inclusive, a maneira como se trata um grupo, porque o poder público não é só sobre injetar dinheiro, é sobre fomentar, é sobre chegar junto de estruturas que já existem. Por exemplo, no carnaval, os grupos já sabem fazer aquilo melhor do que ninguém, aquilo já acontece espontaneamente. Inclusive, os poderes públicos se aproveitam disso, né? Porque, na hora de botar foto, bota lá o caboclo de lança na capa. Não diz o nome dele, bota “maracatu de Pernambuco.” Não diz o nome do cara que está na foto. O motivo é o mesmo de sempre, sabemos, o racismo que está por trás de tudo isso. Mesmo quando melhora essa visão sobre culturas, sobre políticas culturais, ainda é sob um ponto de vista muito elitista. Sempre se tenta melhorar essas coisas, mas é sempre com muita luta dos próprios grupos, dos movimentos, para que essa coisa chegue aonde precisa mais chegar. Maravilha a Lei Paulo Gustavo, a Aldir Blanc, tudo isso, que bom, que incrível, que maravilhoso. Mas isso não é solução para todos os problemas. Isso é uma das coisas maravilhosas, mas se não trabalhar direito a distribuição, o acesso, quem é que vai ter acesso? As mesmas pessoas que têm acesso a outras coisas. Acompanhei de perto, não só durante a pandemia, mas depois também, e agora, a dificuldade de tanta gente. Porque não tem internet, porque não tem computador, porque não tem um celular bom, porque não tem acesso àquela maneira. Cada um por um motivo. Eu, por exemplo, tenho uma imensa dificuldade de escrever projetos, de planilhas, mas tenho acesso a pessoas que podem fazer isso para mim, que trabalham com produção. Mas tem gente que não tem, né? Quando você vê, passou o prazo e um monte de gente perdeu. Tem que acontecer um monte de coisa ao mesmo tempo e todo mundo tem que estar 24 horas por dia ligado nessas coisas, porque se não, passa batido.</p>



<p><strong>Às vezes, o público vê o trabalho acontecendo no palco, mas não imagina que tem todo um processo.</strong></p>



<p>Para sair, chegar e ter um carnaval lindo, aquele caboclinho trabalhou o ano todo. Então, chega o carnaval não tem dinheiro para a fantasia. Não adianta todo mundo dizer: “ai, que lindo! A cultura está sendo valorizada de novo”, se o (Caboclinho) Sete flechas está com a seda alagada. Precisa ter muito. E não é um favor que você está fazendo. É obrigação.</p>



<p><strong>Sempre penso nisso, que além da obrigação, é reparação também. Porque, muitas vezes o Estado coloca como se esses direitos das pessoas que fazem cultura, fosse um favor ou simplesmente um prêmio. Mas, na verdade, é uma reparação.</strong></p>



<p>Sim, inclusive, a maneira como são feitas as premiações, de Patrimônio Vivo, de tudo, né? A maneira como é feita, porque como é que você vai colocar as pessoas para competirem umas com as outras? Agora mesmo, acabei de votar em Patrimônio de Camaragibe. Votei no Mestre Zé Negão, merecedor, como todos que estavam ali também. Muita gente já devia ter as medalhas, os prêmios reconhecidos sem precisar de voto. Aí, você tem internet, quem vota mais. Isso tinha que ser de outro jeito, é gravíssimo e os mestres todos são os que mais sofrem com isso, os grupos, as agremiações. Tanta mestra de coco, dona Glorinha&#8230; Aurinha do Coco morreu sem ter esse reconhecimento. Aurinha precisava provar mais o quê? Precisava de voto de quem para ser reconhecida pelo trabalho imenso dela, que não tem fim? Mesmo depois dela não estar mais aqui, isso continua demais. Essa era uma das coisas para ser revista. Todos esses mestres e mestras, todo mundo tem que ter esse reconhecimento. Tem que ser todos, não existe uma competição. E é muito fácil saber quais são. “Ah, mas como é que vai saber?” Todo mundo sabe quem são, quem não sabe é porque está ligado a outras coisas. Mas quem vê como caminham as coisas, sabe quem são os mestres. Tem que ser reconhecido, tem que ganhar dinheiro, a estrutura, a sede bonita e pronto. Não tem que ir botar para votar.</p>



<p><strong>Você que é uma artista que circula muito por vários lugares. Como é que as pessoas percebem a música que você faz, sendo uma artista do Nordeste? Como o Sudeste lida com isso?</strong></p>



<p>Ainda é da mesma forma, ainda é o Sudeste como o “descobridor.” Ainda é isso, da mesma forma. Acontece ainda hoje. Os discursos estão mais bonitos, as pessoas estão mais informadas, mas, no final das contas, acaba abrangendo quem é de outros lugares que está por lá. Quando lancei o <em>Eu Menti Para Você </em>(2010), teve muito isso: “Foi descoberta.” Era como se tivesse zerado. “Novos artistas”, “nova cena.” Gente, eu era nova cena em 1994, como é que em 2010 sou nova cena? E ainda hoje, sou nova cena. Vou morrer como “nova cena” (risos). É a fonte da juventude?</p>



<p><strong>Como foi a mudança do Recife para São Paulo, a convite de Zé Celso? E ficar depois lá?</strong></p>



<p>Fui para lá, em 1998, a convite dele, na Soparia, para fazer Bacantes, na virada do século. Fui descobrir o mundo lá. Teatro Oficina, Bacantes, o próprio Zé Celso, que eu conhecia só de ver umas entrevistas aqui e ali. Mas essa figura dele e não exatamente a história dele. E conhecer isso tudo lá. Foi muito natural a minha volta para fazer <em>Os Sertões</em>, para fazer <em>A Terra</em>, a primeira parte, e ficar direto, fazer <em>Os Sertões</em> inteiro até o final de 2007. Passei sete anos direto na Oficina. Foi muito natural, uma coisa foi puxando a outra. Cheguei, fiquei totalmente em casa, então, eu me identifiquei totalmente com aquele teatro, com a direção de Zé, com aquela convivência. Fui ficando, ficando, quando vi, fiquei e só saí porque realmente vi que se não saísse, eu não ia conseguir fazer as minhas outras coisas. Eu estava com o disco <em>Eu Menti Para Você</em> “entupido”. Eu precisava fazer, precisava gravar, precisava lançar e vi que se eu engatasse em outro projeto do Oficina não ia sair mais, não ia conseguir fazer. Só saí por conta disso.</p>



<p><strong>Para a gente terminar, o amor é importante, Karina?</strong></p>



<p>Demais! Senão a gente não faz nada, né? Fazer o quê? Não o amor romântico, qualquer amor, né?</p>



<p>Amor pelo seu bichinho, pelo seu pé de manjericão. Mas é, acho que é o mais importante. O que me move é fazer as coisas mesmo. “O ideal seria fazer isso aqui.” “não, vou fazer isso aqui porque gosto disso aqui.” Inclusive com os riscos que isso tudo dá. Às vezes, seria muito mais fácil, muito mais tranquilo ir por esse caminho aqui e eu escolho o de cá, porque escolhi o de cá. Então, bate a cabeça na parede, volta, se for, tropeça e vai de novo. Vamos nessa! Talvez por isso eu seja eternamente “nova cena”, não sei. Vou descobrir… Ou não (risos).</p>



<p><strong>*Erika Muniz é jornalista formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco e em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco. Pesquisa a área de cultura, assinando trabalhos na Revista Continente, Quatro Cinco Um, Revista O grito! e JornaldoCommercio.</strong></p>



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		<title>Negro e gay, o sargento da PM que &#8220;luta pela existência das pessoas&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/negro-e-gay-o-sargento-da-pm-que-luta-pela-existencia-das-pessoas/</link>
		
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		<pubDate>Sun, 05 Nov 2023 12:31:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Cristian Goés, do portal Mangue Jornalismo “A minha pele preta é meu manto de coragem, impulsiona o movimento e envaidece a viadagem”. Esta frase, da música Bixa Preta, de Linn da Quebrada, abre a conclusão da dissertação de Mestrado em Sociologia de Tiago Damasceno Pereira na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Esse trabalho é [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Cristian Goés, do portal <a href="https://manguejornalismo.org/negro-e-gay-policial-militar-se-debrucou-sobre-o-ciclo-de-violencia-contra-corpos-pretos-de-almas-coloridas-e-trabalho-e-finalista-de-premio-nacional/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mangue Jornalismo</a></strong></p>



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<p>“A minha pele preta é meu manto de coragem, impulsiona o movimento e envaidece a viadagem”. Esta frase, da música Bixa Preta, de Linn da Quebrada, abre a conclusão da dissertação de Mestrado em Sociologia de Tiago Damasceno Pereira na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Esse trabalho é um dos finalistas do mais importante prêmio acadêmico do Brasil, o da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).</p>



<p>Tiago Damasceno é sargento da Polícia Militar em Sergipe há 18 anos e buscou uma outra trajetória nesse campo. Fez Administração e Psicologia na UFS, é mestre em Sociologia e doutorando nessa mesma área e instituição. O policial é também membro da Rede Nacional de Operadores em Segurança Pública LGBTQIA+ (Renosp) e realiza pesquisas políticas públicas, LGBTQIA+, racismo, preconceito e discriminação, saúde mental, trabalhando com minorias, diferenças, desigualdades e conflitos sociais.</p>



<p>“Ser policial militar, declaradamente gay, não é fácil. […] Como agente da segurança pública, como ativista de movimento social, como cidadão, tenho o dever em lutar pela existência das pessoas”, respondeu Tiago Damasceno à entrevista<strong>da Mangue Jornalismo</strong>no final da manhã de ontem.</p>



<p>A dissertação dele, que é finalista do prêmio da Anpocs, recebeu o título de “Negro e gay: do fetiche à discriminação”. O trabalho foi orientado pelo professor Petrônio José Domingues e também já foi transformado em livro pela editora da Secretaria de Estado da Educação e Cultura. O livro está disponível gratuitamente em formato digital. <strong><a href="https://drive.google.com/file/d/1FefnNzJpsPhJUWsm1oV-9EMo9A6DP565/view">Baixe aqui</a></strong>.</p>



<p>Em seu trabalho, Tiago “questiona os processos de invisibilização do ser negro e gay aos vínculos afetivos, perpassando ao seu apagamento nos movimentos sociais, findando às excludentes nas políticas públicas”. Para ele, “numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, discutir sobre afetividades negras configura-se como um elemento importante no processo de descolonização do pensamento e, sobretudo, de resgate à humanidade que lhes foi negada em séculos de escravidão”.</p>



<p>Na entrevista para a Mangue, Tiago afirma que “a cor da pele e a orientação sexual influenciam significativamente as relações afetivas, no acolhimento dos movimentos sociais, assim como o acesso à saúde, à educação e aos serviços sociais básicos, reforçando, assim, o ciclo de violências em que o negro gay vem sofrendo no Brasil”.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p><strong>Mangue Jornalismo – O que motivou você, quais incômodos, percepções, problemas fizeram o sujeito-pesquisador mergulhar no tema do racismo e da lgbtfobia?</strong></p>



<p><strong>Tiago Damasceno</strong> – A luta das minorias sociais faz parte da minha trajetória pessoal, profissional e acadêmica enquanto psicólogo (voluntário de ONGs da comunidade LGBTQIA+) e policial militar do estado de Sergipe, além de membro do movimento social – Renosp (Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública – LGBTQIA+), com a perspectiva em investigar o enfrentamento e sobrevivência a todo e qualquer preconceito e discriminação. Ainda na graduação em psicologia, realizei uma pesquisa inerente ao preconceito explícito e implícito de policiais militares heterossexuais contra policiais militares homossexuais e suas manifestações de discriminação dentro da corporação. Os achados apontaram para a não manifestação de preconceito e discriminação explícito, até aqui confirmando a tese que o combate à intolerância é uma das mais importantes áreas de avanço do Direito característico das modernas democracias ocidentais. Porém, ao aprofundar os estudos, foi evidenciado o preconceito implícito e suas práticas excludentes dentro da corporação. Esta trajetória de pesquisas sobre preconceito e discriminação teve continuidade, assistir ao documentário de Dagmar Schultz <em>Audre Lorde – The Berlin Years 1984 to 1992 (2012)</em>. Audre Geraldine Lorde é uma escritora caribenha-americana, feminista, negra, lésbica e ativista dos direitos civis. Ao estudar sobre racismo, abri os olhos para a maior violência humana.</p>



<p><strong>Como você encara essa pesquisa sendo sargento da Polícia Militar? Ao que parece, estamos falando de um local historicamente atravessado de preconceito e discriminação seja contra o negro e, talvez com maior força, contra gays. É isso?</strong></p>



<p>Ser policial militar, declaradamente gay, não é fácil. Entretanto, sendo de classe média, pardo, comportamento heteronormativo, traz alguns privilégios de pertencimento. Como agente da segurança pública, como ativista de movimento social, como cidadão, tenho o dever em lutar pela existência das pessoas e a academia é um veículo que dissemina informação, ciência, mas também, propaga resistências. Precisamos desafiar os sistemas para podermos avançar em todas as esferas, sociais, políticas, econômicas, culturais e encorajar outros. Este é um exercício do movimento social do qual faço parte, a Renosp.</p>



<p><strong>O que a relação negro e gay indica em termos de fetiche na sociedade brasileira? O que você chama de fetiche? Você avalia que isso é estrutural em nossa sociedade?</strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p>A palavra “fetiche” foi empregada pela primeira vez em 1756, pelo escritor francês Charles de Brosses. Desde então, a concepção pelo que é fetichismo variou muito. Derivada da palavra portuguesa &#8216;fetisso&#8217; (atualmente, feitiço), a noção proposta pelo francês era atinente aos cultos africanos e aos símbolos que deixavam os colonizadores impressionados. Mais tarde, o termo foi resgatado por pensadores como Marx, Freud, Kant, entre outros, e aos poucos um novo sentido foi adquirido. Segundo a psicanálise, “fetiche” é o desvio do interesse sexual para o corpo, ou partes deste, do parceiro (a), com a função fisiológica, para cenários ou locais inusitados, para fantasias de simulação. Na pesquisa trouxemos a realidade do negro gay, ao ser tipificado na categoria de não afeminado (hipermasculinidade) ou estereotipar a preferência sexual e seu dote, que seja o “fetiche”, que seja o brinquedo, trazendo o gay negro como o forte e reprodutor da época da escravidão, mantendo-o ainda hoje como símbolo de virilidade e potência, ou até mesmo no uso da expressão “não curto negros”.</p>



<p><strong>A gente poderia dizer que numa escala avaliativa de preconceito e discriminação social, o que mais sofre é o negro gay? E isso também ocorreria nos ambientes que deveriam ser de acolhimento, como movimentos negros ou comunidade LGBTQIA+?</strong></p>



<p>Percebemos que as mulheres negras foram excluídas das pautas no Movimento Negro em decorrência do machismo, assim como foram preteridas no Movimento Feminista devido ao racismo, levando-as a uma nova trajetória política e práticas mobilizatórias em prol de suas especificidades. Do mesmo modo, percebemos o percurso dos homens negros gays, os quais sofrendo racismo no Movimento LGBTQIA+ e lgbtfobia no Movimento Negro estão se articulando em novos coletivos, numa perspectiva interseccional, a fim de compreender os melhores processos ao atendimento real de seus dilemas e reivindicações. O não acolhimento dos sujeitos justapostos, invisibilizados aos movimentos “tradicionais”, vêm provocando a construção de novos grupos de luta, fomentando a tese que os indivíduos acumuladores de condições minoritárias tendem a se organizar entre aqueles que se identificam em todo o conjunto do seu eu, entre o aglomerado de suas subjetividades, viabilizando suas existências perante o afeto, às lutas sociais e o pertencimento enquanto cidadãos.</p>



<p><strong>A gente poderia falar numa tripla e profunda camada de preconceito e discriminação diante de uma pessoa negra, gay e pobre? Ou seja, você chegou a perceber no seu trabalho a condição de classe?</strong></p>



<p>As políticas de afirmação do negro continuamente incidiram à questão da mobilidade social. Seus defensores asseguram que desalinhando a disfunção de classes, solucionaria o problema do negro, o qual teria mais acesso à educação e à profissionalização, por exemplo. Mas, segundo Kabengele Munanga, a discriminação racial é um dos obstáculos fundamentais à mobilidade, pois alguns são preteridos, apenas por seus atributos físicos. O racismo é uma “desumanização”, o que aloca a vítima em um arranjo inferior sempre que acareada com um branco. Existem inúmeras formas de relacionar questões como raça, classe, gênero, identidade sexual e uma série de outras categorizações sociais, que não são binárias e que na maioria das vezes são impostas por grupos para exercer poder sobre determinados sujeitos. Diante dos papéis presumíveis que a sociedade pode expor, Foucault nos proporciona duas tecnologias de poder, divididas em duas séries: série corpo — organismo/disciplina/instituições, que são os mecanismos disciplinares e a série população — processos biológicos (que são os mecanismos regulamentares)/Estado. Não tem como não correlacionar a condição de classe com esta temática.</p>



<p><strong>Na vida, o que implica a relação do corpo negro e gay, por exemplo, no campo das políticas pública, no acesso à saúde, à educação, à segurança e aos serviços sociais básicos? Estamos falando de sujeitos e políticas invisíveis?</strong></p>



<p>Sob este segmento de políticas públicas, trago em meu artigo “Percepção de professores LGBTQIA+ negros acerca da lgbtfobia e do racismo no mundo do trabalho”, pesquisa apresentada em julho de 2020, no 20º Congresso Brasileiro de Sociologia, uma análise acerca da identidade social e a conjuntura organizacional sob a ótica da discriminação em local de trabalho direcionada a professores LGBTQIA+ negros de escolas públicas e privadas. Quanto à saúde pública, de acordo com meu artigo “Da população LGBTQI+ negra, covid-19 e crise da democracia”, trabalho apresentado ao III Seminário Nacional de Sociologia do PPGS/UFS, em outubro de 2020, desde dezembro de 2019, o mundo vinha registrando crescentes casos de infecção respiratória por um novo vírus, o Sars-CoV-2, o qual causa a COVID-19, as pessoas LGBTQIA+ negras continuam a sofrer discriminação, atitudes hostis e falta de entendimento tanto de funcionários quanto do sistema de saúde em si e, como resultado, muitos relutam em procurar atendimento médico, exceto em situações que parecem urgentes – e talvez nem quando a este nível. Quanto à Segurança Pública, segundo meu artigo “Interlocução policial: critérios na escolha dos abordados”, trabalho apresentado no XLIV encontro anual da Anpocs, percebe-se que, em sua essência, as ações, metas e planos de governo não são democráticos (não atendem, efetivamente, aos grupos minoritários), particularmente no combate à lgbtfobia e racismo estrutural.</p>



<p><strong>Uma questão que sempre se apresenta é a desmilitarização da polícia. Como sujeito que é agente de segurança, negro e gay, você acha que a desmilitarização da polícia teria efeitos práticos na forma como esse aparato estatal tem historicamente lidado com pessoas LGBTQIA+ e pretas?</strong></p>



<p>A desmilitarização da polícia traria mudanças significativas para a sociedade. Para que seja tomada tal medida teria que ser bem planejada, devendo, em um primeiro momento, ter a união dos Governos Federal, Estaduais e Municipais para que se estabeleça uma nova estrutura organizacional da polícia, diminuindo os gastos com armamentos e investindo em inteligência e tecnologia. E, por fim, investir mais na educação, de modo que se faça mais atuante nesse processo, nas escolas e na mídia, através de programas e debates, buscando aproximar os policiais e a sociedade, gerando mais respeito e segurança para ambos.</p>



<p><strong>Se você pudesse apontar, quais as três principais conclusões que você chegou ao seu trabalho?</strong></p>



<p>Essa pesquisa nos permitiu apreender os variados aspectos acerca do preconceito e discriminação sofridos pelas minorias sociais em nosso país. Resistência, renascimento e empoderamento são as perspectivas em que os negros homossexuais vêm se amoldando. No sentido em pauta, as entrevistas nos indicaram um quadro amplamente crítico nesse viés, ou seja, a cor da pele e a orientação sexual influenciam, significativamente, as relações afetivas e o acolhimento dos movimentos sociais, assim como o acesso à saúde, à educação e aos serviços sociais básicos, reforçando, assim, o ciclo de violências em que o negro gay vem sofrendo no Brasil. No campo do indivíduo e suas afetividades foi corroborada a hipótese em que a sociedade institui estereótipos sobre corpos e comportamentos, construindo um traçado simplista, mas sustido de modo apurado e que não se baseia fundamentalmente em expressivas vivências direta.</p>



<p><strong>Como foi receber a notícia de que sua dissertação é finalista de um dos prêmios mais importantes no país no campo da Sociologia?</strong></p>



<p>Fui tomado pela surpresa, pois fui inscrito pela PPGS/UFS, ou seja, o programa de pós-graduação em Sociologia acreditou na temática, apostou na importância da pesquisa e submeteu ao edital. Eu e o meu orientador, o professor Petrônio Domingues comemoramos o status de finalistas e acreditamos no potencial da dissertação. A dissertação já está no formato de livro impresso e digital, por meio de uma política pública do estado de Sergipe, por meio da editora SEDUC, ou seja, já temos o conteúdo disponível nas bibliotecas das escolas públicas de todo nosso estado. Esse era meu objetivo com o mestrado, ultrapassar as fronteiras da UFS.</p>



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		<title>Kleber Mendonça Filho fala sobre política cultural, defesa da cidade e a paixão por cinema</title>
		<link>https://marcozero.org/kleber-mendonca-filho-fala-sobre-politica-cultural-defesa-da-cidade-e-a-paixao-por-cinema/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Oct 2023 11:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Erika Muniz* Desde a infância, Kleber Mendonça Filho já se encantava com as potencialidades do cinema. E essa relação recebeu incentivo de sua família desde sempre, sobretudo por parte da sua mãe, a historiadora Joselice Jucá. Mas também – como é roteiro na vida de muitos que se propõem a seguir uma carreira ligada [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Erika Muniz*</strong></p>



<p>Desde a infância, Kleber Mendonça Filho já se encantava com as potencialidades do cinema. E essa relação recebeu incentivo de sua família desde sempre, sobretudo por parte da sua mãe, a historiadora Joselice Jucá. Mas também – como é roteiro na vida de muitos que se propõem a seguir uma carreira ligada às áreas artísticas – encontrou quem acreditasse que seria passageiro, que se tratava de um hobby ou que não imaginava que aquele interesse e dedicação fossem resultar numa parte importante de sua vida, sua profissão – mas, felizmente, é o que aconteceu. Hoje, já são mais de duas décadas deste pernambucano como realizador.</p>



<p>Diretor de obras como <em>O Som ao Redor</em>, <em>Aquarius</em> e <em>Bacurau</em>, entre muitas outras, Kleber lançou este ano <em>Retratos Fantasmas</em>, que, na melhor das sínteses, é um filme “sobre esse cinema” – essa linguagem capaz de reunir multidões em uma fila ao redor do Cinema São Luiz, na rua da Aurora, durante um festival dedicado a essa arte, seus sentimentos e seus encontros.</p>



<p>Além de cineasta, Kleber se dedica à coordenação de cinema do Instituto Moreira Salles, mas já trabalhou também como crítico no Jornal do Commercio e como programador do Cinema da Fundação, participando da construção de repertório de gerações de cinéfilos e cinéfilas recifenses.</p>



<p>“Tem a história do Paul Schrader, o roteirista de <em>Taxi Driver</em>, que é cineasta também. Ele sempre diz que descobriu o cinema aos 18 anos. Muito impressionante. Acho bonito até, a pessoa ter chegado tão tarde à ideia de cinema. Se apaixonar por um filme pela primeira vez aos 18 anos. Acho que é uma loucura e acho incrível que ele seja Paul Schrader e fale isso. Mas, no meu caso, realmente foi desde criança, desde pequeno. Eu ia para a máquina de escrever da minha mãe para poder escrever pedidos, com até o horário da sessão, para a gente ver um filme no cinema”, relembra o artista, durante nossa conversa, e complementa: “É coisa antiga.”</p>



<p>Esta entrevista aconteceu numa manhã de quarta-feira, no parque das Graças, em meio à agenda de viagens que o diretor vem realizando para a divulgação de sua mais recente produção, cuja estreia mundial aconteceu no Festival de Cannes – e, inclusive, já ultrapassa 70 mil espectadores. Bem próximo ao Capibaribe, o intenso calor do Recife deu uma trégua naquele turno e conversamos sobre <em>Retratos Fantasmas</em>, política pública de cultura, direito à cidade, mas também sobre ficção, poesia, “real”, a cidade que se deseja e sobre, como não poderia deixar de ser, o fazer cinema.</p>



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	                                        <p class="m-0">Cinema São Luiz marca a vida do cineasta e de várias gerações de recifenses. Crédito: João Carlos Lacerda</p>
	                
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<p>Marco Zero Conteúdo<strong> &#8211; Em <em>Retratos Fantasmas</em>, você traz sua mãe, a historiadora Joselice Jucá, para a narrativa. E ela lhe levava para a sala de cinema. A primeira vez que fui ao cinema, foi com a tia Eliane, que hoje trabalha lá. Foi justamente no São Luiz, ele que me apresentou o que é uma sala de cinema. Queria saber como foi a construção de sua relação com o cinema, que passa pela sua mãe. E, também, o que é o que o Cinema São Luiz significa para você?</strong></p>



<p><strong>Kléber Mendonça Filho</strong> &#8211; Bom, feito você, eu também tive essa experiência de ir pela primeira vez numa sala de cinema no São Luiz. Fui com minha mãe, acho que foi em 1973. Eu tinha 4 anos e ela me levou para ver um festival <em>Tom &amp; Jerry</em>, só desenho animado. E o São Luiz… claro que se tivesse sido em qualquer outro cinema, seria memorável. Mas, por sorte, foi o São Luiz, que é uma sala muito especial, e que permanece, né? Ela foi salva, digamos assim, ela sobreviveu. Tanto é que você, de uma geração que veio depois, também teve essa experiência. E hoje a sua tia trabalha no São Luiz. Mas o São Luiz foi só o início de uma relação muito próxima que eu tive – e que foi estimulada pela minha mãe – de ir ao cinema. Ir ao cinema no Recife, depois, quando ela foi estudar na Inglaterra, ir ao cinema na Inglaterra, ir ao cinema em vários lugares que a gente viajou. Ela me dar uma câmera fotográfica para tirar fotos, quando eu era adolescente. Então, todas essas relações passam muito por ela. A ideia de contar histórias passa por ela também. Ela não era só uma contadora de histórias de maneira informal, mas era uma historiadora, né? E ela ia geralmente nas fontes que não eram… que ninguém prestava muita atenção naquelas fontes. Pessoas chamadas “comuns”, que não são “pessoas comuns”, são pessoas. Mas dentro da ideia da Academia, eram “pessoas comuns”, não eram acadêmicos e intelectuais “que tinham algo a falar”. Isso tudo, para mim, é muito formador.</p>



<p><strong>Ainda sobre <em>Retratos Fantasmas</em>, queria que você contasse um pouco sobre essa seleção das imagens que foi utilizada e sobre o roteiro também.</strong></p>



<p>O roteiro, na verdade, não existiu. Não teve roteiro. Claro que agora que o filme está pronto, pensando no processo, alguém pode tentar argumentar que é claro que teve roteiro, que ele foi construído, mas ele foi construído na montagem. A montagem que me pedia – a montagem não é ninguém, é o filme sendo feito –, mas o filme me pedia que eu escrevesse determinadas falas para o filme. Aí, dia a dia, fui escrevendo novas falas e dia a dia, eu levava nessa hora, inclusive, para casa de Matheus (Farias, montador, diretor e roteirista), onde a gente trabalhava na montagem do filme. Então, ele não teve roteiro. <em>O Agente Secreto</em>, que é o meu novo filme, tem um roteiro, de 167 páginas. Até por uma questão de responsabilidade fiscal, tem que ter um roteiro, mas o <em>Retratos Fantasmas </em>foi se fazendo pelo material que encontrei. É como um historiador mesmo, que encontra depoimentos, encontra fotos, encontra documentos que vão construindo a ideia do historiador, da historiadora, sobre o que está escrevendo. É muito isso mesmo, é um filme de História ao pé da letra.</p>



<p><strong>Que cidade você deseja para a gente, Kleber? Falando sobre direito à cidade, mas também sobre direito à cultura.</strong></p>



<p>Desejo uma cidade onde a cultura estabeleça o estado de espírito da cidade. E eu desejo uma cidade onde o mercado não domine o estado de espírito da cidade. Acho que o mercado pode existir e faz parte da sociedade, mas o mercado não pode estabelecer o batimento cardíaco da cidade e acho que é isso que acontece em muitas cidades do mundo, brasileiras e tem acontecido com o Recife. “O mercado decidiu que o centro da cidade não é mais interessante.” Não, alguém precisa ignorar isso. “O mercado decidiu que o lugar para passear é o shopping center.” Isso não pode acontecer. “O mercado decidiu que o lugar para ver filme é o multiplex.” Isso não pode acontecer. A gente deveria ser capaz de somar coisas, não de aniquilar coisas para o mercado poder se aproveitar. E a cidade precisa ter uma governança humana. Porque a cidade é para muita gente, não é para uma tribo especial. Então, essa é a cidade que eu quero.</p>



<p><strong>Tem uma frase de <em>Retratos Fantasmas</em> que me marcou e muita gente tem comentado: “filmes de ficção são os melhores documentários”. Quanto de ficção tem no real e quanto de real existe na ficção?</strong></p>



<p>Bom, esse parque aqui (O parque das Graças, localizado no bairro homônimo), ele é o que ele é. Ele é um parque, ele foi projetado e foi construído. E você pode ter uma visão bem seca e pragmática dele, que acho que seria a “realidade”. Mas o que você coloca de bom no parque, que vem de você, talvez seja uma ficção. Mas acho que ela também é baseada na realidade. Você pode anular o Recife, dizer: “essa cidade é horrível”. Mas você pode dizer: “não, essa cidade é interessante…” O interessante é a sua parte, que você consegue trazer pra ela. É você que poetiza um pouco a cidade. Essa é a parte talvez ficcional da realidade, o quanto você consegue trazer de você mesmo para algo que é pragmático. Acho que o <em>Retratos Fantasmas</em> é sobre coisas reais, mas tem uma carga muito forte de poesia ali, né? E, na carga de poesia, existe também um sentimento real, por exemplo: pegar um uber é uma ação real, do mundo real, mas, a partir de um momento, a partir de uma determinada hora da noite talvez eu começo a sair fora da realidade, quando estou num uber. Às vezes, até a conversa com o motorista ou a motorista me leva a isso. Então, essa fronteira se torna bem difícil de estabelecer.</p>



<p><strong>Você se formou na UFPE. Como foi esse momento para você e como você vê a importância da valorização da universidade pública?</strong></p>



<p>A universidade pública é uma das bases da sociedade. No Brasil, com certeza; na Europa, com certeza. Nos Estados Unidos, ainda estão trabalhando nisso, mas espero que eles cheguem lá. Para mim, foram anos de formação muito importantes, entre 1988 e 1992. Conheci muita gente que me desafiou, que me fez companhia em pensamentos e que, até hoje, são parte da minha vida. Tive professores que me formaram, que me trouxeram ideias. A grande Nelly Carvalho, Inês Amorim são professoras que me acompanham até hoje em ideias. No uso do Português, na ideia de neologismo e nas fotografias. A universidade pública precisa sempre ser valorizada e defendida pelo Brasil. Não só pela gente, mas pelos governos. É uma base muito importante da sociedade brasileira.</p>



<p><strong>Em sua obra, alguns de seus filmes me fazem pensar muito sobre os lugares. Sobre a nossa relação com esses lugares, com a casa, com a cidade. E o centro da cidade também aparece. Mas de que lugares são feitos para você?</strong></p>



<p>Eles são feitos de história, de geografia… mas, como falei na outra resposta, eles são feitos também de você mesmo. É o que você consegue fazer do lugar. O São Luiz, por exemplo, não é só o São Luiz. É o que ele agregou ao longo de 70 anos em relação à população dessa cidade. E [agregou] a também muita gente que não é da cidade e, por acaso, se viu no São Luiz ao longo da vida. Alguém que veio numa viagem de trabalho, alguém que veio ficar com a família e terminou sendo levado para uma sessão no São Luiz. Tudo isso faz parte da experiência pessoal, a experiência pessoal é projetada no lugar. E o lugar também se projeta na pessoa. Isso, para mim, é fascinante. Acho que é por aí que surge a ideia de um sentimento fantasmagórico. Porque, no São Luiz, quando você vai no São Luiz… sei lá, quando você vai de manhã no São Luiz e estão fazendo a faxina e você entra naquela sala e vê aquela sala vazia, é muito forte. Porque, na verdade, você tem a experiência de estar naquele lugar repleto de gente. Essa carga se torna histórica. E, ao ser histórica, ela é cultural também. E ela é social. Porque o São Luiz é um dos poucos lugares no Recife que juntam uma diversidade muito grande de pessoas. Isso é muito forte. Aí, você está falando de cultura, de indústria – cinema é indústria também –, mas é cultura, é formação, é ponto de vista e identidade cultural.</p>



<p><strong>Às vezes, a gente escuta tanto no jornalismo cultural, como também na crítica de cinema, uma ideia de “cinema pernambucano”. O que é que você pensa sobre isso? Existe, na sua percepção, uma identidade do cinema pernambucano?</strong></p>



<p>Eu até acho que existe. Porque o cinema pernambucano é muito peculiar no jeito de… tem uma personalidade forte. Não existe, por exemplo, um cinema pernambucano comercial genérico. O cinema pernambucano, geralmente, é bem autoral. Hoje, neste momento, não sei muito bem como está o conjunto coletivo do cinema pernambucano. Eu tinha uma visão mais clara há dez anos, por exemplo. Acho que com a pandemia, com os anos de Bolsonaro, é como se tivessem botado água. Mas, de toda forma, esse cinema existe. E é um cinema que tem um ponto de vista que é muito diferente do cinema, por exemplo, sudestino, que domina, de uma certa forma, o cinema comercial, a teledramaturgia. É muito diferente de tudo isso. Durante muito tempo foi um padrão no Brasil, talvez ainda seja um padrão. Mas o cinema pernambucano tem um sotaque e um ponto de vista muito peculiar e muito nosso.</p>



<p><strong>A gente tem acesso a notícias da mídia de um filme brasileiro quando sai lá fora. Mas como costuma ser a reação do público? Como trocam com você sobre os seus filmes?</strong></p>



<p>Tenho a sorte de ter feito filmes que, de alguma maneira que eu não entendo muito bem como, eles se comunicam fora do Brasil também. É claro que um filme americano visto no Brasil não tem a mesma reação que ele pode ter numa cidade nos Estados Unidos. A mesma coisa com um filme brasileiro. Talvez se percam alguns aspectos relacionados à linguagem, a observações da vida no Brasil, mas em geral são filmes que… tipo, <em>Aquarius</em> é um filme que é muito visto na França, lançado nos Estados Unidos. Bacurau também, em muitos países. Acho que é muito boa a forma como esses filmes chegam. <em>Retratos Fantasmas,</em> muita gente, no início, que acho que vem de uma visão muito provinciana daqui, reagiu assim: “Ah, mas o filme é muito daqui, a produção é daqui, não sei se esse filme vai ser entendido lá fora, porque ele é muito sobre a ponte Duarte Coelho”. Lá fora, a ponte Duarte Coelho é uma ponte, você não sabe qual é o nome da ponte. A ponte da Boa Vista é uma ponte de ferro que você vê no filme, não acho que tem tanta diferença, não. Acho que o brasileiro tem uma tendência a achar que nossos filmes talvez não sejam compreendidos lá fora. Mas a gente vê filmes feitos no Brooklyn ou na Suécia e a gente os entende.</p>



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	                                        <p class="m-0">Kléber Mendonça acredita que público internacional entenderá Retratos Fantasmas. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p><strong>A gente está falando de arte, mas sobretudo de audiovisual. Qual a importância, na sua percepção, das políticas públicas de cultura para o desenvolvimento dessa cadeia produtiva no Brasil?</strong></p>



<p>Elas são totalmente importantes, são parte da Constituição. Você poder se expressar e ter os meios para poder se expressar, num mundo onde a gente recebe tudo pronto e empacotado dos Estados Unidos, é uma questão política, é uma questão de identidade cultural, é uma questão de cidadania. Então, que artistas brasileiros continuem tendo os meios para continuar pensando, produzindo e se expressando. Quando um filme como <em>Retratos Fantasmas</em> passa no Festival de Nova York – como vai passar – e tem matéria no New York Times, você está marcando presença como cultura, como país. Quando um filme como <em>Retratos Fantasmas </em>é lançado na França – como vai ser, no dia 11 de novembro –, você está dizendo: “a gente faz parte da discussão cultural.” E isso vem de um filme que foi feito com recursos públicos, um filme que custou 1 milhão de reais, o que é muito, muito pouco, sobretudo para um longa. Acho que prova que o sangue da cultura é feito pelas obras feitas no país. E que essas obras sejam cada vez mais diversas, que sejam do Rio Grande do Sul, que sejam de Tocantins, da Paraíba, do Rio de Janeiro, do Recife, que a periferia faça filmes, que o pessoal do Amazonas faça filmes e que tudo isso faça parte de um caldeirão de ideias e que isso seja feito com investimento do Estado, porque esse investimento vai voltar. Ele volta na quantidade de gente que trabalha no filme, na quantidade de gente que divulga o filme, nas pessoas que escrevem sobre o filme, que estão também ao redor dessa cadeia. E, tudo dando certo, nas pessoas que vão ao cinema ver o filme, ou no <em>streaming</em> que vai comprar o filme. Tudo isso faz parte do sangue da cultura. E esse dinheiro não é investimento ou fundo perdido, como muita gente diz, é um dinheiro que volta, ele faz parte da sociedade.</p>



<p><strong>Tenho amigos que fazem ou fizeram cinema, e você é uma das referências. Queria que você falasse, para quem está começando a fazer cinema agora. O que você gostaria de ter ouvido quando começou?</strong></p>



<p>Acho que hoje quem está fazendo cinema, e é muito jovem, está fazendo cinema numa época que é incrível, porque a tecnologia lhe permite se expressar. Hoje, com um telefone, como esse que você está segurando, você pode fazer algo incrivelmente bem-acabado, 100 vezes melhor do que eu conseguia fazer quando estava na universidade. Tinha acesso a um equipamento VHS, com fitas grandes e qualidade bem baixa. A parte que os jovens precisam entender é que tecnicamente a coisa está muito mais fácil, mas a capacidade de expressar ideias continua sempre o mesmo desafio. O mesmo desafio do início do século XXI, quando eu estava na faculdade, continua hoje. O que você vai colocar para fora? O que você vai expressar? Isso vem de experiência de vida, de talento artístico. Talento não é algo que você consegue comprar nem baixar um aplicativo. E da sua formação como pessoa, né? Isso vem de livros, vem da sua capacidade de interagir e entender o mundo, vem de filmes que você vê, vem de toda uma formação pessoal, que aí é você que tem que trilhar o seu próprio caminho. E você precisa estar de olhos e ouvidos abertos para o mundo. Essa é a parte que eu não tenho muito como ajudar, porque cada um trilha o seu caminho.<br><br>C<strong>omo nasce uma história que você queira realizar e queira contar nos seus filmes? Como ela costuma nascer? Ou ela não tem uma lógica?</strong></p>



<p>Não tem uma lógica. É algo que você vai pensando aos poucos, aos poucos e depois passa um tempo e você acha que aquela ideia realmente continua na sua cabeça e você está realmente pensando em desenvolvê-la. É algo que leva muito tempo e você tem que testar a ideia por um tempo, não através de uma prova com itens, mas você deixa o tempo passar e entende que aquilo realmente é algo que você quer fazer.</p>



<p><strong>Como é sua expectativa com relação à possibilidade de <em>Retratos Fantasmas</em> ir para o Oscar?</strong></p>



<p><em>Retratos Fantasmas</em> é o filme brasileiro de maior presença internacional este ano e, como tal, ele vai representar o Brasil no Oscar. Eu, como sempre, divulgo os meus filmes e trabalho para os meus filmes. Vou aonde os meus filmes vão. Vou para os Estados Unidos na semana que vem, vou para Los Angeles no final do mês e vou fazer tudo o que o filme quer que eu faça para divulgá-lo. É um filme sobre o cinema e Hollywood gosta de filmes que falam sobre o cinema. Encaro tudo isso com muita tranquilidade. Sei que é um pandemônio, as pessoas pensam em Oscar, mas, para mim, é um desafio como qualquer outro. O filme vai para o Festival de Cannes, vou para o Festival de Cannes; as pessoas fazem perguntas, tento responder às perguntas; a imprensa quer falar comigo, falo com a imprensa. Tudo isso faz parte do trabalho do filme. Acho que o Oscar é isso, talvez numa energia mais alta, mas estou sempre pronto para trabalhar para o filme.</p>



<p><strong>Sobre a política de Cota de Tela para produções cinematográficas nacionais. Como você percebe a relevância disso para a formação do público brasileiro?</strong></p>



<p>É totalmente importante e elas precisam voltar o mais rápido possível. O agronegócio tem cotas. Os sul-coreanos e os franceses usam cotas para defender o mercado nacional de filmes estrangeiros, de Hollywood. O <em>Retratos Fantasmas</em> já está com 70 mil espectadores – o que é muito bom e sem cotas – mas se tivesse cota, teriam muito mais, porque os cinemas precisam cumprir as cotas e ao tentar evitar as multas, vão procurar filmes brasileiros e geralmente eles pegam filmes que estão muito em evidência. <em>Retratos Fantasmas </em>é um filme que está em evidência, o <em>Elis &amp; Tom</em> é um filme que está em evidência, o <em>Nosso Sonho</em> é um filme que está em evidência, então, todos esses filmes se beneficiariam da Lei de Cota de Tela. Defendo e quero que ela volte o mais rápido possível.</p>



<p><strong>E, para finalizar, por que cinema?</strong></p>



<p>Porque, para mim, é fascinante poder capturar imagens e retransformá-las. Gosto muito da ideia dessas imagens serem vistas daqui a 300 anos. [risos] Tudo dando certo, vão ficar guardadas em algum lugar. E acho também que é uma maneira de eu colocar a minha mão para cima e dizer que tenho algo a falar. O grande desafio é entender se tenho algo a falar. O grande perigo é você colocar a mão para cima e quando vai falar, não tem o que dizer. Esse é o meu maior medo, talvez. Mas até agora estou indo de uma maneira que geralmente tenho algo a falar. <em>Retratos Fantasmas </em>foi esse último exercício, cronologicamente, no sentido de dizer que tenho algo a falar. O próximo é <em>O Agente Secreto</em>. Acho que cinema é como se fosse a criação de um álbum de imagens.</p>



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	                                        <p class="m-0">O papel do mercado na vida da cidade é alvo das críticas do diretor. Crédito: Cinemascópio</p>
	                
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<p><strong>*Erika Muniz é jornalista formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco e em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco. Pesquisa a área de cultura, assinando trabalhos na Revista Continente, Quatro Cinco Um, Revista O grito! e JornaldoCommercio.</strong></p>



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		<title>A fé e o fuzil: como as igrejas evangélicas e o PCC mudaram o mundo do crime</title>
		<link>https://marcozero.org/a-fe-o-fuzil-como-as-igrejas-evangelicas-e-o-pcc-mudaram-o-mundo-do-crime/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Oct 2023 19:54:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Samarone Lima* O jornalista Bruno Paes Manso trabalhava na redação da revista Veja, em 1999, quando recebeu uma pauta especial: investigar o que estava por trás da febre de chacinas, que se tornara rotina em Paulo. Só naquele ano, foram 78, com 274 mortos. Não imaginaria que a primeira entrevista, com um matador, iria [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Samarone Lima*</strong></p>



<p>O jornalista Bruno Paes Manso trabalhava na redação da revista Veja, em 1999, quando recebeu uma pauta especial: investigar o que estava por trás da febre de chacinas, que se tornara rotina em Paulo. Só naquele ano, foram 78, com 274 mortos.<br><br>Não imaginaria que a primeira entrevista, com um matador, iria levá-lo a uma jornada pessoal, que transformaria sua própria maneira de ver a periferia, as relações humanas, e sua própria trajetória como jornalista. Tinha 28 anos e descobriu um universo paralelo de brutalidade e violência &#8211; o universo dos matadores.<br><br>Resolveu continuar as entrevistas, para tentar entender o que estava por trás daquele mundo. Homens que já tinham matado muita gente, mas não demonstraram nenhum arrependimento, e tinham certeza absoluta que nenhuma das vítimas era inocente.<br><br>“Fiquei muito, muito impactado com esse material. Eram pessoas que moravam a cinco quilômetros de mim. Além de afirmarem que nunca tinham matado nenhum inocente, me explicavam sobre o ciclo de vingança, sobre a guerra que eles se envolviam, uma guerra territorial e havia uma certa moralidade que eles compartilhavam”.<br><br>Ele cita a aproximação com Alexandre, uma de suas fontes, preso em 1998, e condenado a 58 anos de prisão. Quem ajudou na aproximação foi uma ex-professora do criminoso no ensino fundamental, Jucileide Mauger, conhecida como Tia Ju, que se tornou diretora da escola Oliveira Vianna, no Jardim Ângela. Ela explicou como fazer contato com Alexandre na prisão para que Bruno enviasse a primeira correspondência, perguntando se topava conversar. Reservei para o final do parágrafo uma informação que vale por dezenas de balanços policiais: “Jucicleide me contou que, entre os anos 1980 e 1990, quando dava aulas na escola [do ensino fundamental], perdeu mais de 100 alunos assassinados”.</p>



<p>O jornalista foi tomado pelo tema. Seguiu pesquisando, entrevistando, fazendo conexões, descobrindo novas fontes. Para ter mais ferramentas, na busca da compreensão daquele mundo tão complexo em que a violência é um beco sem saída, buscou novas ferramentas: entrou num mestrado da Universidade de São Paulo (USP) e virou pesquisador.<br><br>O primeiro livro que publicou, em 2005, revela suas buscas: <em>O homem X: uma reportagem sobre a alma do assassino de São Paulo</em> (Record).</p>



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	                                        <p class="m-0">Bruno Paes Manso. Crédito: Instagram @manso.b</p>
	                
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<p>Não é comum jornalistas buscarem a alma de seus entrevistados. No máximo, com algum tempo e paciência, algumas revelações mais profundas.<br><br>Suas pesquisas chegaram a outro fenômeno que nasceu na Casa de Custódia de Taubaté, em 1993, mudando a forma de gerenciar e controlar a violência: o Primeiro Comando da Capital (PCC).<br><br>Em 2018, Bruno publicou<em> A guerra: A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil</em> (Todavia).<br><br>O mundo da criminalidade passou por uma nova transformação radical. Uma espécie de novo paradigma surgiu. Por decreto, estupros nas prisões foram proibidos, bem como o uso do crack. Com o passar do tempo, até para matar, era preciso apresentar justificativas e ter autorização da organização. Os velhos matadores, de gatilho fácil, perderam a força da justiça com as próprias mãos. Os fuzis tinham agora gerenciamento e era preciso obediência ao Comando.<br><br>Ao refazer contato com vários matadores, para novas entrevistas, ficou surpreso com um novo fenômeno: muitos deles tinham largado os revólveres, por causa da Bíblia. Eram agora ex-matadores, evangélicos cujo novo trabalho, ao invés do gatilho, era salvar almas do caminho do mal.<br><br>Nas conversas com esses homens que tinham se arrependido, ao passar por conversões das igrejas pentecostais, mudando completamente o comportamento, refazendo a vida e passando a lutar contra o mal, a Bíblia se tornava a nova arma. Era, na verdade, um mar de gente que adotava uma nova postura para viver, muito mais que sobreviver. Para isso, o “Não matarás” virou algo importante.<br><br>Era mais uma face do fenômeno que avança no Brasil de forma irreversível, cuja forma mais visível era quase caricata, com pastores ocupando grande parte da grade da TV, grandes templos e o crescimento das bancadas evangélicas em todo o país.<br><br>Em 1982, o Brasil tinha 12,1 mil templos evangélicos. Em 2022, eram 178.511 – uma média de 11 novos templos por dia.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A fé e o fuzil</strong></h2>



<p>Depois de 40 anos quase ininterruptos de crescimento, nos anos 2000 São Paulo passou a testemunhar uma queda contínua no número de assassinatos. Era algo inédito, porque nada impactante havia acontecido nas políticas de Segurança Pública. Ano após ano essa redução seguiria firme e, depois de duas décadas, alcançaria mais de 80% de queda, levando a taxa de homicídios a se tornar a menor entre todos os estados brasileiros.</p>



<p>O que teria acontecido? Melhor: o que está acontecendo? Esta é a principal questão a ser respondida pelo novo livro de Bruno Paes Manso, <em>A fé e o fuzil: Crime e religião no Brasil do século XXI </em>(Todavia).</p>



<p>O livro vai em busca de resposta para perguntas complexas:</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Instagram @todavialivros</p>
	                
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<p>De que modo o crime no Brasil se transformou com o crescimento das igrejas evangélicas a partir dos anos 1990? Como trajetórias individuais de criminosos foram afetadas a partir do contato com as novas denominações religiosas? Quais respostas as igrejas evangélicas oferecem que o catolicismo tradicional não oferecia? Como se relacionam o crescimento evangélico e o fluxo migratório para as cidades, decisivo para a compreensão do crime no país? De que modo valores conservadores associados às denominações evangélicas se tornaram centrais para a política brasileira?</p>



<p>Um parágrafo do livro parece sintetizar esta série de fatores aleatórios, que parecem não ter conexões, mas se tornam uma percepção de quem estava procurando, por muito tempo, uma resposta &#8211; ou o fio da meada:</p>



<p>“Tanto o PCC como as igrejas pentecostais são instituições criadas pelos pobres, para os pobres, que produziram novos discursos capazes de reprogramar as mentes. O novo Brasil pobre e urbano começava a inventar formas de se governar. Elas nasciam da miséria, nas ruas esburacadas das periferias, nas igrejas evangélicas e nas prisões, e eram alternativas de gerar ordem e propósito, que, nas décadas seguintes, ajudariam a definir o futuro brasileiro”.</p>



<p>Enquanto o Estado oferece uma polícia violenta, despreparada, presídios lotados, leis cada vez mais severas, para buscar, inutilmente, “controle e ordem”, os evangélicos pentecostais foram ampliando seus domínios com a força de suas mensagens.</p>



<p>Mais que mensagens. No livro, em diversos relatos, os pentecostais surgem para dar aos pobres “um pacote de crenças que os faça vencer neste mundo que já está pronto e que um dia pode acabar”.</p>



<p>A luta, portanto, não é individual.</p>



<p>“Para sobreviver, é preciso criar redes e ganhar dinheiro, encarar a realidade sem depender de favores”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O exército precisa crescer</h3>



<p>Um aspecto abordado pelo livro é a “batalha espiritual” travada com apoio dos canais de comunicação em massa, celulares e redes, igrejas grandes e pequenas, espalhadas por bairros pobres. As mensagens precisam ser contagiantes, dar respostas convincentes, estimular atitudes práticas, furar as bolhas, chegar aos lugares onde estão os mais vulneráveis.</p>



<p>“A busca deve ser feita entre os que mais precisam, dentro dos presídios, asilos, hospitais; nas cracolândias, abrigos, favelas; entregando sopas, alimentos, cestas básicas, roupas, tudo na tentativa de estabelecer vínculos e promover transformações individuais e apontar caminhos”, acrescenta o jornalista.</p>



<p>“Autoridade, ordem, propósito, redes de apoio. De repente, uma a nova forma de poder definia a direção do futuro do Brasil. Quanto mais popular e abrangente, mais a mensagem se normaliza e faz parte da cultura”.</p>



<p>Esta mensagem é recorrente, na vida dos brasileiros.<br><br>“Pode ser vista no show sertanejo ou na final do campeonato de futebol, na celebração dos gols e das vitórias mais importantes, quando o crente aponta os dedos indicadores para cima, como se compartilhassem com Deus os sucessos de sua vida”.</p>



<p><strong>* Jornalista, poeta e escritor, mestre em Estudos da América Latina pela USP</strong></p>



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		<title>Pior do que Bolsonaro? Jornalista explica porque ultradireitista ameaça a democracia na Argentina</title>
		<link>https://marcozero.org/pior-do-que-bolsonaro-jornalista-explica-porque-ultradireitista-ameaca-a-democracia-na-argentina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Sep 2023 14:21:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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		<category><![CDATA[eleições na Argentina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Samarone Lima*, com fotos de Sebastián Miquel** A eleição presidencial da Argentina, dia 22 de outubro, pode representar um desastroso retrocesso em um tema que o país se tornou exemplo na América do Sul: o julgamento e prisão dos militares envolvidos em graves violações de Direitos Humanos, logo após a reconquista da democracia. Toda [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Samarone Lima*, com fotos de <a href="https://sebastianmiquel.com.ar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sebastián Miquel</a></strong>**</p>



<p>A eleição presidencial da Argentina, dia 22 de outubro, pode representar um desastroso retrocesso em um tema que o país se tornou exemplo na América do Sul: o julgamento e prisão dos militares envolvidos em graves violações de Direitos Humanos, logo após a reconquista da democracia.<br><br>Toda a cúpula militar foi julgada e grande parte condenada, com transmissão pelo rádio e TV. Os sobreviventes fizeram comoventes e dolorosos relatos do que sofreram, numa espécie de catarse coletiva, tema do filme <em>1985</em>, do diretor Santiago Mitre, que levou multidões aos cinemas de todo o país, há dois anos.<br><br>Para ter uma idéia da importância da Justiça de Transição, realizada pelos Argentinos, o general Jorge Rafael Videla, que comandou a ditadura de 1976 a 1986, morreu em 17 de maio de 2013 aos 87 anos, no cárcere da prisão de Marcos Paz, onde cumpria pena de prisão perpétua.<br><br>O negacionismo da ditadura faz parte da campanha de Javier Milei, de 52 anos, vencedor das “primárias” (uma pré-eleição onde todos os presidenciáveis disputam), pelo partido Liberdade Avança.<br><br>Economista, novato na política, de extrema direita, tem um discurso que continua faturando alto nas urnas. Fala barbaridades o tempo todo, se declara “anarcocapitalista”, diz que vai “dinamitar” o Banco Central, defende a privatização do sistema de saúde e educação, pretende facilitar o acesso às armas de fogo e chegou a falar de um “novo mercado”, a venda de órgãos.<br><br>Não por acaso (ou inspiração), é admirador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-SP) e amigo de seu filho, Eduardo Bolsonaro. Os dois aparecem em fotos publicadas em redes sociais, simulando um revólver com os dedos. Milei considera “farsas da esquerda” as mudanças climáticas. Suas mensagens chegam a dois milhões de seguidores, nas redes sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ataques a um símbolo dos Direitos Humanos</strong></h2>



<p>Como o assunto da ditadura tem um forte impacto no país, coube a à candidata a vice-presidenta de Milei, Victoria Villarruel, fazer o “jogo sujo” da campanha. Frequentadora assídua de programas na TV, tem uma forte presença midiática. Começou a falar da ditadura Argentina pelo ângulo oposto &#8211; defendendo os militares e atacando quem luta por memória, verdade e Justiça.<br><br>Uma de suas propostas foi a de devolver o principal centro clandestino de tortura do país, a onde funcionava a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), atualmente o Museu da Memória, aos “seus donos” &#8211; os militares. Entre 1976 e 1983, o local recebeu cinco mil presos. Apenas 10% sobreviveram. Ali, foram roubadas de seus pais 500 crianças.<br><br>Ela colocou em dúvida os graves crimes cometidos no local, com farta documentação dos próprios militares, considerando-os “simples abusos”.<br><br>Victoria achou pouco. Resolveu atacar a presidenta da organização Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, chamando-a de “personagem sinistro”, que vive “um eterno relato” em relação à memória construído em torno da ditadura e dos anos 1970.<br><br>Carlotto, que tem uma filha, Laura Carlotto, desaparecida, teve um filho na prisão, que nunca foi entregue à família. Somente em agosto de 2014, após 36 anos de luta, Estella conseguiu encontrá-lo. Foi rebatizado de Guido Carloto, em homenagem a um tio. Um encontro que emocionou o país.</p>



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	                                        <p class="m-0">Estela de Carlotto foi atacada por candidata a vice de extrema-direita. Crédito: Sebastián Miquel</p>
	                
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<p>Ela preferiu não lançar mais holofotes à candidata da ultradireita:<br><br>“Há que se defender com a verdade e a luta permanentemente. As ofensas, que Deus a perdoe. São coisas que doem, me que Deus a perdoe”.<br><br>Mas advertiu:<br><br>“Ela está dando sinais de que isso de agora não é nada. O que será depois?”</p>



<p>Para entender melhor a ameaça que ronda a Argentina, entrevistamos o jornalista<a href="https://www.voltairenet.org/auteur122929.html?lang=es" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Gérmán Duschatzk</a>, ex-editor e colunista do jornal das Madres de la Plaza de Mayo, que também atuou como em várias emissoras de rádios e na mídia independente portenha. Ele também professor de redação no curso de Jornalismo do Instituto Universitario Nacional de Derechos Humanos Madres de Plaza de Mayo (IUNMA).</p>



<p>Nesta entrevista para a Marco Zero, ele se diz “profundamente envolvido” na realidade social e política da Argentina, que “sempre o comove”.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p>Marco Zero<strong>: Como explicar este ascenso da ultradireita na Argentina?</strong></p>



<p><strong>Gérmán Duschatzk:</strong> A primeira coisa que eu considero é que ela aparece num contexto de deterioração social, das identidades políticas e das expectativas reais da sociedade. É expressão de grandes setores da sociedade que não estão dentro do sistema formal de trabalho, com um discurso forte antissistema (político, representativo, tradicional) e de livre mercado. Isso encaixa bem na sensação de solidão frente ao mundo que tem qualquer trabalhador, precarizado, de aplicativo ou autônomo. Para esses setores, está dirigida boa parte dos slogans do Milei e dos parceiros dele.<br><br>A gente passou os quatro anos do governo Macri [Maurício Macri, governou de 2015 a 2019], que propiciaram grandes retrocessos em matéria de direitos e benefícios econômicos das maiorias, revertendo os 12 anos de ciclo de inclusão dos governos do Nestor Kirchner e Cristina Kirchner [ele foi presidente de 2003 a 2007, enquanto sua esposa presidiu o país de 2007 a 2015]. Como parte substancial disso, voltamos a ficar submetidos às exigências do FMI, com uma dívida impossível de pagar nos termos e prazos definidos. Depois chegaram os quatro anos desse governo que está acabando agora [Alberto Fernández tomou posse em 2019], que, no que se relaciona com esse assunto da inclusão, não teve respostas e gerou a maior perda de votos do peronismo na história, fora dos anos de proscrição. A falta de reação do peronismo nacional em frente disso, é produto do governo frustrante desses últimos quatro anos, onde a riqueza só se concentrou mais ainda, tanto que o mudo do trabalho continuou em permanente deterioração.<br><br><strong>O que há de diferença nesta “nova direita” Argentina?</strong><br><br>Essa nova direita, que retoma alguns aspectos da nova direita anterior, que foi o Macri, se encaixa num momento onde as instituições da República estão desacreditadas, produto dessa falta de respostas aos interesses das maiorias.<br><br>Agora, eles vem com tudo. A candidata a vice-presidenta do Milei, Victoria Villarruel, é filha e neta de militares, fez parte da resistência às políticas de direitos humanos e castigo aos crimes de lesa humanidade. Escondida atrás de um discurso que equipara as vítimas de atos da guerrilha com a política de terrorismo de estado, ela nega os crimes da ditadura.<br><br>Ao mesmo tempo, são contra o aborto, os migrantes, a educação sexual integral, a diversidade de gênero. Enfim, tem todo esse rosário de ideias reacionárias.<br><br>O discurso do Milei contra o que ele chama de &#8220;casta&#8221; da política também é bem efetivo, só dirigido contra o peronismo (e tudo o que eles qualificam como socialista, comunista, etc).<br><br><strong>O que representa o ataque a uma pessoa tão importante na luta pelos Direitos Humanos, como Estela de Carlotto?</strong></p>



<p>O ataque contra a Estela é o ataque contra a mais ecumênica das figuras, na luta pelos direitos humanos. As respostas foram variadas, entre pessoas do âmbito dos direitos humanos e outras pessoas s públicas. Foi bastante inédito, porque a Estela não é uma pessoa polêmica, digamos. Não tem um posicionamento de esquerda em geral. Ela é dos direitos humanos, da recuperação dos netos e teve uma adesão definida a Cristina Kirchner. Mas não é de propor coisas relacionadas com a política em geral e, quando emite opinião, costuma ser bastante conciliadora. Ela não dá opiniões sobre a política, se não sobre a democracia. O que ela considera é que é melhor não dar tanto espaço para essas polêmicas, porque é a estratégia delas.<br><br><strong>A declaração da Villarruel foi bastante bem violenta.</strong><br><br>Sim, bem violenta. Parece mais uma estratégia de sempre aparecer. Essa força tem constantemente entrado nas polêmicas que apareceram de um jeito frontal e brutal. Aparecer sempre, ser titular das notícias, polêmicas constantes, é uma estratégia que usam, e parece dar bons resultados.<br><br>Outro dia, li uma matéria que falava como que a maior parte dos votantes do Milei não escolhe pela afinidade com as ideias, mas porque ele é conhecido como personagem, como novidade num cenário político que há oito anos, de dois partidos opostos, que não dão respostas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Gérmán Duschatzk. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p><strong>Criar polêmicas parece sempre funcionar bem para essa direita.</strong><br><br>Não sei se você viu, mas o Milei também fez vários comentários bem polêmicos sobre um assunto muito importante para os argentinos, que são as Ilhas Malvinas. Ele, faz tempo, disse se identificar com Margareth Tatcher [primeira-ministra da Inglaterra, que liderou a Guerra das Malvinas]. Agora, a que seria a ministra de relações exteriores dele, falou que no governo deles, se respeitaria a autodeterminação da população das ilhas (que não é autóctone, são ingleses, porque nós, os argentinos fomos expulsos). Também falou de fechar o Conicet (Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, autarquia que existe desde 1958), que é a instituição pública mais importante em ciência e tecnologia.<br><br><strong>Quanto mais barulho, melhor</strong>?<br><br>Venda de órgãos, venda de crianças, privatização das ruas, vouchers para estudar e se tratar na área da saúde, acabar com a distribuição do dinheiro federal entre as províncias, enfim. Um monte de besteira, realmente, coisas impossíveis, só ditas para aparecer. A mais efetiva, nesse contexto de perda de valor do peso e constante inflação, é a dolarização.<br><br>Mas a eleição real vem daqui a mais de um mês. um mês e meio. Eu não sei qual vai ser o resultado mas não vai ser igual. Por fora disso, um terço real da população com capacidade de eleger, não votou nas primárias.</p>



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	                                        <p class="m-0">Duschatzk acredita que resultado das eleições de outubro será diferente das primárias. Crédito: Sebastián Miquel</p>
	                
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<p><strong>* Jornalista, poeta e escritor, mestre em Estudos da América Latina pela USP</strong></p>



<p><strong>**Editor de fotografia da revista MAIZ, Facultad de Periodismo de la Universidad de la Plata, trabalhou em veículos como Página 12, El País (Espanha) e revista Nova (Brasil). Vencedor do prêmio de Fotografia do Mercosur.</strong></p>



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		<title>&#8220;Ou comanda as Forças Armadas ou é comandado por elas&#8221;: o conselho de José Genoíno para Lula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Jan 2023 14:45:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Vasconcelo Quadros* Assessor Especial do Ministério da Defesa no governo da presidente Dilma Rousseff, o ex-deputado José Genoíno tem uma visão objetiva sobre os militares e um conselho útil ao novo governo: “Ou comanda as Forças Armadas ou é comandado por elas”, afirma nesta entrevista exclusiva para a Marco Zero. Ele frisa que o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Vasconcelo Quadros</strong>*</p>



<p>Assessor Especial do Ministério da Defesa no governo da presidente Dilma Rousseff, o ex-deputado José Genoíno tem uma visão objetiva sobre os militares e um conselho útil ao novo governo: “Ou comanda as Forças Armadas ou é comandado por elas”, afirma nesta entrevista exclusiva para a Marco Zero<strong>.</strong></p>



<p>Ele frisa que o poder civil emanado das urnas deve tratar de questões relacionadas à defesa sem necessariamente negociar com a cúpula militar. Na sua avaliação, a estranha leniência das Forças Armadas com o extremismo foi tática de pressionar o poder civil pelo medo, para manter os privilégios diante da derrocada do projeto bolsonarista que, na essência, é de inspiração militar.</p>



<p>Genoíno sugere que, além de devolver aos quartéis ou para casa os cerca de 8 mil militares da reserva ou da ativa que ocupam cargos de natureza civil, Lula deve se desviar da histórica tutela militar, conceito que inspirou os bolsonaristas a acampar em frente a unidades do Exército na esperança de um golpe contra o resultado das eleições. “Nosso governo deveria enfrentar essa questão. Se não desmilitarizar, nós não vamos conseguir governar bem”, alerta.</p>



<p>Com experiência de sete mandatos de deputado federal, fundador e ex-presidente do PT, mas sem a pretensão de voltar ao governo, o hoje professor de história e militante lulista e partidário não dá entrevista para a imprensa, da qual guarda certo ressentimento pela forma que foi tratado no escândalo conhecido como mensalão. Mas abriu uma exceção para a MZ, depois de explicar que quer se manter longe dos holofotes para expressar com liberdade e independência suas opiniões.</p>



<p>“É necessário desbolsonarizar as Forças Armadas e desmilitarizar o governo”, afirma Genoíno, que enxerga na politização dos quartéis e num eventual avanço do militarismo golpista possíveis tentativas de desestabilização do governo e da democracia. Ele avalia que os militares, que apostaram na reeleição de Bolsonaro, na prática, comandaram o governo que se encerrou. “Bolsonaro foi o cavalo selado que eles (os militares) montaram em cima na campanha e durante o todo o governo”, diz ele.</p>



<p>Genoíno cutuca seus correligionários lembrando que, no decorrer da transição, Lula se ocupou de tudo relacionado ao novo governo, menos do papel das Forças Armadas que, a seu ver, deve ser revisto e adequado ao projeto de políticas públicas de defesa do país.</p>



<p>O ex-deputado considerou um equívoco a nomeação de José Múcio Monteiro para o Ministério da Defesa. Ele diz que é necessário autoridade política para devolver os militares aos quartéis e definir um novo papel das forças, no qual velhas doutrinas, como “inimigo interno”, “poder moderador”, “tutela”, “golpismo”, “garantia da lei e da ordem” sejam substituídos por uma política de defesa que leve em conta a tecnologia para garantir a soberania do país diante de eventuais ameaças externas.</p>



<p>Genoíno defende ainda o fim das ações de garantia da lei e da ordem (GLO), critica os comandos militares que permitiram acampamentos de golpistas em áreas militares &#8211; de onde saíram arruaceiros e extremistas presos por tentar espalhar o caos com atentados a bomba &#8211; e diz que chefes que toleraram atos antidemocráticos ou se envolveram em contestação às urnas eletrônicas não devem ser promovidos a comandantes de força.</p>



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	                                        <p class="m-0">José Genoíno não falar com jornalistas desde o Mensalão, mas abriu exceção para a MZ. Crédito: Agência Brasil</p>
	                
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<ul class="wp-block-list"><li><strong>Leia a íntegra da entrevista:</strong></li></ul>



<p>Marco Zero<strong> &#8211; </strong><strong>Por que essa ideia de tutela ainda paira como ameaça?</strong></p>



<p><strong>José Genoíno</strong> &#8211; A tutela militar se expressa na ideia de que eles são o poder moderador, donos do estado e do patriotismo, mas são, na verdade, subordinados ao poder civil, que emana do voto popular. A tutela está em todas as constituições com essa história de garantia da lei e da ordem (GLO), que é uma forçação de barra para se colocar como poder moderador. Como portam arma e têm o monopólio da violência, acabam tendo a força na mão. É um modelo de pressão política. É inaceitável.</p>



<p><strong>Como avalia o papel dos militares diante de manifestantes que não se conformaram com o resultado das eleições?</strong></p>



<p>“Estão cometendo uma excrescência permitindo esses acampamentos em frente a quartéis. São militares da reserva, família de militares da reserva, família de militares da ativa. Estão com esses acampamentos fazendo pressão sobre o novo governo, tipo ‘não mexam conosco, nós queremos privilégios, queremos tutelar vocês’. Forças Armadas servem para defender o país. E o que é defesa? Acesso à tecnologia sensível, cooperação com países vizinhos, parceria em pesquisas, dissuasão para dificultar ameaças, integração com a América do Sul. No governo do inominável [Jair Bolsonaro], continuou a política de guerra cultural, retórica do ódio, contra o politicamente correto para alimentar a ideia de inimigo interno. Nosso governo deveria enfrentar essa questão.</p>



<p><strong>O que os militares querem?</strong></p>



<p>Qual é a tática? Levantam as armas para espalhar o medo. Foi assim em 2021 (no 7 de setembro), quando disseram que ia ter golpe. Não teve, mas espalharam o medo. Fizeram isso também com os caminhoneiros, e também não teve. Agora é com os acampamentos. Eles querem é amedrontar, causar pânico. É um novo tipo de guerra, um tipo de golpe não tradicional, usando a ameaça, a dissuasão, o medo e o apavoramento.</p>



<p><strong>Que avaliação o senhor faz de José Múcio no comando do Ministério da Defesa?</strong></p>



<p>Na relação com as Forças Armadas ou se comanda ou é comandado por elas, seja de esquerda ou de direita. O Ministério da Defesa deve ser dirigido por alguém com autoridade política e essa indicação não pode ser objeto de negociação com os militares. Quem manda nos militares é quem é eleito. O poder emana do povo. Os termos dos acertos via Múcio é um equívoco do atual governo, que está pensando em todas as questões, menos nessa.</p>



<p><strong>Como enfrentar a pressão militar?</strong></p>



<p>Ao longo da história eles, os militares, sempre impuseram as suas vontades. Na Constituinte de 1988 colocaram o artigo 142 para agir em nome da lei e da ordem. Defendo enfrentar essa tutela militar constitucionalizada. Comandante que pregou golpe e questionou urnas eletrônicas não devem ser promovidos para o comando do Exército, Marinha e Aeronáutica. Quem comanda politicamente as Forças Armadas é o ministro da Defesa. Como não é possível mudar agora a Constituição, tem de diminuir o uso militar para a ordem interna.</p>



<p><strong>Como? Acabando com as GLOs?</strong></p>



<p>Acho que tem de acabar a convocação de militares para ações de garantia da lei e da ordem em questões de segurança. A GLO é uma deformação constitucional. As Forças Armadas servem para defender o país.</p>



<p><strong>Como tratar a participação de militares na política?</strong></p>



<p>Defendo quarentena para os militares que quiserem entrar na política, posição que estendo a todos os servidores que ocupem funções de Estado, como policiais, juízes e promotores. Hoje eles só têm o bônus. Tem de ter o ônus também.</p>



<p><strong>Como desmontar a forte influência militar no aparelho estatal?</strong></p>



<p>É preciso desbolsonarizar as Forças Armadas e desmilitarizar o governo. Cargo civil deve ser ocupado por civil. Militar da reserva que estiver nesses postos deve ser mandado para casa. Os da ativa devem retornar aos quartéis.</p>



<p><strong>O que Bolsonaro representou para os militares?</strong></p>



<p>Bolsonaro foi o cavalo selado que eles montaram em cima na campanha e no exercício do governo. Se nosso governo não desmilitarizar o Estado, nós não vamos conseguir governar bem e a tutela militar vai continuar. Enfrentar essa realidade é uma exigência do novo momento. Por outro lado, é preciso valorizar as tarefas da defesa, como pesquisas e integração com a América do Sul. O governo faz investimentos altos na formação de militares para a defesa. Não faz sentido que sejam deslocados para áreas como Ibama, Incra, etc&#8230; Além de privilégio, é uma deformação prejudicial às Forças Armadas.</p>



<p><strong>Um dos últimos atos do governo Bolsonaro foi extinguir a comissão de mortos e desaparecidos políticos. O que isso representa?</strong></p>



<p>Os militares que não querem a revisão da Lei da Anistia estão revisando a lei que criou a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). A CEMDP agora vai precisar fazer o ‘desmonte do desmonte’ para concluir seus trabalhos, que é a reparação aos que foram perseguidos, seguida de um pedido de desculpas formal diante da violência praticada contra os direitos humanos. A lei não protege a prática de tortura e desaparecimento forçado. É necessário que se proclame uma desculpa formal do Estado aos familiares dos desaparecidos políticos. Foi isso que faltou na conclusão dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Esconder ou negar o que houve é um método violento de dominação. Seria necessário seguir o que se fez no Chile, Argentina e Uruguai, que repararam e puniram. Aqui se fez um acordo, a Anistia, para nada mudar. Não quero que essa tragédia se repita. Não precisa revisar a Anistia, mas reparar e pedir desculpas.</p>



<p><strong>Por que os militares não reconhecem que houve tortura, execuções sumárias e sumiço de oponentes?</strong></p>



<p>Os militares não reconhecem e nem fazem um pedido de desculpas porque são formados dentro de uma concepção autoritária. Os governos civis têm passado a mão na cabeça deles porque se criou uma cultura do medo, na qual os militares se impõem pelas armas. É só ver o que fizeram na pandemia e agora ao permitir acampamento, refúgio de manifestantes golpistas envolvidos em arruaças e atentados a bomba), em área de segurança nacional, onde normalmente atiram para matar num carro que simplesmente passe em alta velocidade. Estou decepcionado com os militares. Não esperava que fossem cumprir esse triste papel no governo Bolsonaro.</p>



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	                                        <p class="m-0">Para Genoíno, Bolsonaro foi o&#8221;cavalo selado&#8221; que os militares &#8220;montaram, Crédito: Antônio Cruz/Agência Brasil</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p><strong>Que papel os militares devem ter no novo governo?</strong></p>



<p>A defesa nacional precisa de um debate no Congresso, nas instituições públicas, sociedade civil e deve ser tratada como política pública. A guerra na Ucrânia mostrou que as armas tecnológicas agora são o míssil (de alta precisão) e drone. Em vez de discutir as novas tecnologias de defesa, os militares estão preocupados com acampamento no quartel. Estão cavando um poço que está rachando as Forças Armadas, que precisam ser revalorizadas dentro do seu papel. Defesa deve ser discutida como política de estado, com investimentos fiscalizados, com cadeiras também em universidades porque não é mais um tema apenas de interesse militar. A ESG (Escola Superior de Guerra) deveria abrir debates sobre defesa entre civis e militares.</p>



<p><strong>Como tratar as questões de inteligência artificial?</strong></p>



<p>O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e Agência Brasileira de Inteligência (Abin) devem ficar sob o comando civil. Inteligência e contrainteligência devem servir para assessoramento do presidente da República. Nas mãos de militares é um resquício do que foi a comunidade de informações da ditadura. Colocar essas atribuições dentro de um só sistema, como fez o GSI, é criar um poder militar enorme num único órgão.</p>



<p><strong>*Vasconcelo Quadros<strong> foi correspondente do Jornal do Brasil, entre 2005 e 2006, na Amazônia; entre 2006 e 2002, em São Paulo, com passagens pela Agência Estado, Folha da Tarde, Diário Popular, sucursal do Jornal do Brasil e revista IstoÉ; de 2002 até 2019, já em Brasília, passagens pelas sucursais da IstoÉ, Estadão, Jornal do Brasil, entre outros, sempre atuando na editoria de Brasil (antiga Nacional ou Geral).</strong></strong></p>



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		<title>Os caminhos de um jornalista para desvendar o poder camuflado dos militares</title>
		<link>https://marcozero.org/os-caminhos-de-um-jornalista-para-desvendar-o-poder-camuflado-dos-militares/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Dec 2022 17:35:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Era setembro de 2017. O jornalista pernambucano Fabio Victor, de 45 anos, encarava um novo desafio profissional, depois de 20 anos na <em>Folha de São Paulo,</em> onde trabalhou em diversas editorias e funções, de repórter especial a editor, além de correspondente em Londres. Iria para a primeira reunião de pauta da prestigiada revista <em>piauí</em>, criada pelo cineasta João Moreira Salles, em 2006, conhecida pelas suas longas reportagens, ensaios, crítica, ficção, charge e poesia.</p>



<p>Para a surpresa do editor e da a equipe da revista, ele propôs se debruçar num assunto que começava a intrigá-lo:</p>



<p>“Quero saber por que os militares das Forças Armadas estão voltando à cena política, aparecendo tanto na mídia como protagonistas políticos do governo de Michel Temer.</p>



<p>Naquele momento, o ex-presidente Lula estava na liderança das pesquisas para a presidência da República, com 35% das intenções de voto, seguido por Bolsonaro (17%) e Marina Silva (13%).</p>



<p>“Você acha que Bolsonaro tem chances de ser eleito?”, foi a primeira pergunta que fizeram.</p>



<p>Fábio respondeu que não.</p>



<p>“Naquele momento, nem eu, nem ninguém achava”, lembra o jornalista.</p>



<p>Ele não sabia que estava começando um mergulho de cinco anos no fechado mundo da elite das Forças Armadas do Brasil, com suas leis e credos próprios, contradições e temas intocáveis. Fontes militares falando de temas que pareciam inacessíveis aos civis.</p>



<p>O resultado é um livro do mais alto nível jornalístico: <em>Poder camuflado: os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com o bolsonarismo</em>, lançado pela editora Companhia das Letras neste final de ano.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O início</strong></h2>



<p>Uma pulga já tinha ficado atrás da orelha quando leu, nas páginas amarelas da revista <em>Veja, </em>uma entrevista do general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército. O título era “O protagonista silencioso”.</p>



<p>“Nasci durante a ditadura. Não lembro de generais dando entrevistas assim. Ele chamava de ‘tresloucados’ os que pediam golpe. Acendeu uma luzinha. Tem alguma coisa acontecendo”.</p>



<p>Fabio propôs fazer um perfil de Villas-Bôas, recebeu o sinal verde, mas em fevereiro de 2018, teve início uma intervenção federal no Rio de Janeiro, com a participação do Exército. Ele foi escalado para acompanhar o cotidiano e os bastidores da missão militar.</p>



<p>Quase seis meses depois, em março de 2018, a capa da <em>piauí </em>tinha como título “A política dos generais”, e o aviso aos leitores:</p>



<p>“Fabio Victor mostra como a intervenção do Exército no Rio de Janeiro divide o Exército”.</p>



<p>Na longa reportagem, o jornalista abordava a questionada intervenção no Rio, além de apresentar um perfil de Villas Bôas e do também general Sergio Etchegoyen, que se tornariam o que ele considera os “pais militares” do apoio das Forças Armadas ao bolsonarismo. O “pai civil é o Michel Temer”, completa.</p>



<p>Em novembro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições, a revista<em> </em>publicou um robusto perfil do general Hamilton Mourão, já candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, intitulado “O general do capitão”.</p>



<p>“Comecei a falar com o Mourão para o perfil quando ele ainda estava na ativa. As conversas eram em <em>off.</em> Quando ele foi para a reserva, começamos a falar em <em>on</em>. Isso eu respeito. Em nenhum momento você pode sacanear a fonte. Ele sabia que o perfil da revista é de centro-esquerda. Tenho que me ater aos fatos”.</p>



<p>A vantagem, para o jornalista, é que Mourão “topou ser perfilado”, e não criou barreiras para o acesso a certas informações e até situações inusitadas.</p>



<p>“Acompanhei até ele treinando em seu cavalo Às vésperas da eleição, acompanhei o Mourão numa competição de salto, na hípica do Rio de Janeiro. Ele levou uma queda. O cavalo parou e ele foi ao chão. Vi a cena, porque estava lá, porque ele me deu acesso. Tinha dezenas de pessoas no local, todas militares e seus parentes, então não saiu nada em canto nenhum”.</p>



<p>“Quando ele foi eleito, eu estava dentro de um avião com ele, indo para o Rio de Janeiro. Ele já desce no aeroporto com escolta da Polícia Federal e Bope esperando. Fui com ele até a casa do Bolsonaro, onde eles iriam comemorar, mas fui barrado”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Interesse de Victor no tema começou com uma pauta para revista. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>A reescrita da história</strong></h3>



<p>A edição 150 da <em>piauí, </em>de março de 2019, <em></em>tinha como título “História, volver &#8211; o 31 de março e a nostalgia da direita”, novamente com a assinatura de Fabio Victor.</p>



<p>“No começo de 2018 comecei a detectar que o governo estava começando a reescrever a história. Eles começaram a mudar toda a narrativa do golpe em diversos aspectos”.</p>



<p>O mais grave era a mitificação de um conhecido coronel que comandou um centro de tortura.</p>



<p>“Pela primeira vez desde o final da ditadura, o país atravessará a data histórica do golpe tendo à frente do Executivo alguém que contesta testemunhos e provas sobre as agressões e mortes cometidas pelos militares, mitifica um de seus oficiais mais associados à tortura, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, e está na linha de frente de uma cruzada revisionista pela memória do período, uma vez que considera que em 1964 não houve um golpe, mas um movimento feito por militares em favor dos valores democráticos”, dizia a reportagem.</p>



<p>Faltava a Fabio Victor conhecer de perto a “vitrine” do Exército Brasileiro, ou seja, a participação na “Minustah” (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, que durou 13 anos.</p>



<p>“O Exército criou até slogan: ‘Brasil no Haiti &#8211; um caso de sucesso’. Fez livros, organizou seminários, palestras, para mostrar o êxito da participação. Ótimo, mas sucesso para quem?”, pergunta Victor. “Os caras foram pra lá em busca de guerras.</p>



<p>Em seu livro, o jornalista oferece respostas.</p>



<p>“Haitianos dos mais variados estratos até hoje veem a missão como sinônimo de colonialismo, violações de direitos humanos, truculência e abusos de toda sorte contra a população”.</p>



<p>Uma frase do general Augusto Heleno parece sintetizar tudo.</p>



<p>“Eu era um médico sem doente. A missão de paz foi o doente da minha carreira”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A pandemia e o projeto do livro</strong></h3>



<p>Em agosto de 20020, em plena Pandemia da Covid-19, Fabio Victor sai da revista. Fica em seu apartamento, deu um tempo. Queria voltar ao jornalismo, mas não para redações. Surgiu uma conversa com a Companhia das Letras,<em> </em>para escrever um livro sobre os militares.</p>



<p>“Assinei contrato com a Companhia das Letras em 2021, para entregar os originais antes das eleições, ou até o final de 2022. Quando comecei a escrever, sabia que tinha um ovo da serpente sendo chocado, mas não imaginava que estariam, depois da eleição, multidões fazendo vigílias em frente aos quartéis, pedindo golpe militar. Isso foi demais. É uma distopia. Isso eu não imaginava”.</p>



<p>Fabio mostra como a “onda fardada”, que marcou o país, com a chegada de Bolsonaro ao poder, tem raízes profundas, com características próprias: a preservação (e ampliação) de seus interesses, uma profunda recusa em admitir os erros e de se subordinar plenamente ao poder civil. Uma jornada de fôlego do melhor jornalismo, da reabertura democrática, em 1985, ao questionamento das urnas eletrônicas, nas últimas eleições.</p>



<p>Não por acaso, o comandante da Marinha, o almirante de esquadra, Almir Garnier Santos, tenha se recusado a se encontrar com o futuro ministro da Defesa, José Múcio, para a formalização da troca no comando das Forças Armadas. A antecipação da cerimônia de substituição dos comandantes das forças seria para não bater continência ao presidente eleito, Luís Inácio Lula da Silva&#8221;.</p>



<p>“Essas dificuldade na transição é tudo fruto da politização das Forças Armadas promovida por Bolsonaro ao longo dos últimos anos, com a conivência dos chefes militares”, observa Fabio.</p>



<p>“Esses comandantes militares de agora, eles foram trocados. De uma forma muito rara, desde a redemocratização, os comandantes das três armas foram trocados no meio do mandato.  Em geral eles ficam. Começam e terminam. Com Bolsonaro não, porque os primeiros comandantes militares não eram tão bolsonaristas quanto ele gostaria que fossem.  Então, os caras começaram a ser fritados. O comandante do Exército, Edson Leal Pujol, era leal, era da mesma turma de Bolsonaro da Aman [Academia Militar das Agulhas Negras] de 1977. Ele era super leal, mas Bolsonaro queria mais. Fritou, e os outros dois chefes militares caíram juntos, na mesma leva. E entraram esses, que são mais bolsonaristas”.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/12/Exercito_Antonio-CruzAgBR.jpg" alt="À frente de um enorme painel em homenagem ao Exército, dois cavaleiros fardados com uniformes de gala, desfilam com seus cavalos puxando uma carroça que carrega antigo artefato militar que solta fumaça" class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Militares não admitem erros e defendem os próprios interesses. Crédito: Antônio Cruz/Agência Brasil</p>
	                
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<p>O autor faz uma observação sobre o período final do governo Bolsonaro e os militares.</p>



<p>“Se você prestar atenção ao noticiário nos últimos meses, e eu andei prestando atenção, não teve uma semana em que não teve um ponto de atrito, alguma questão grave envolvendo os militares, seja pelo fato de os militares entrarem naquela onda de colocar as urnas eletrônicas em dúvida, e participar daquela comissão de fiscalização das eleições, sempre deixando uma dúvida sobre a lisura, sobre a correção do processo eleitoral, a segurança das urnas… É desde tudo, desde Pazuello…”</p>



<p>“Espero que os militares leiam. Sei que muitos vão ficar decepcionados, ou podem querer deturpar. O Exército é uma instituição importante, mas não pode ser politizada, não é? Eu tenho uma visão crítica em relação a isso”</p>



<p>Victor não imaginava que aquela primeira pauta à <em>piauí </em>o levaria a um mergulho profundo nas águas muitas vezes turvas das forças armadas. Em cinco anos, fez 99 entrevistas, leu 160 livros de referência sobre o tema, pesquisou em arquivos e coleções de jornais.</p>



<p><em>Poder camuflado: os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com o bolsonarismo</em>, vem recebendo diversas resenhas elogiosas.</p>



<p>&#8220;Excepcional&#8221;, escreveu Ruy Castro em sua coluna na Folha de São Paulo.”Os militares também deviam lê-lo, para aprender sobre os militares”.</p>



<p>***</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Leia trechos do livro</strong>:</h4>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Arquivos da ditadura</strong></li></ul>



<p>“Por mais que tenha representado apenas um ínfimo raio de luz na escuridão que reinava (e em muitos aspectos até hoje reina) no quesito, Collor foi o primeiro presidente a autorizar, em 1991, a abertura dos arquivos da repressão, os dos Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo e do Rio de Janeiro, que estavam sob guarda da Polícia Federal &#8211; algo reconhecido por militantes de direitos humanos”.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Direito à memória e à verdade</strong></li></ul>



<p>“Ao apresentar o projeto de lei da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, que reconhecia como mortas pessoas desaparecidas por participação (ou acusação de participação em atividades políticas de 1961 a 1979, Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro presidente a assumir como responsabilidade do Estado os crimes cometidos pelos governos da ditadura”.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Guerra pela memória</strong></li></ul>



<p>“O fim da ditadura marca o início de um confronto diferente, a guerra pela memória. Desde a abertura política, vigora na caserna a ideia de que os militares perderam &#8211; para a historiografia, as universidades, s imprensa, a sociedade civil como um todo &#8211; as primeiras batalhas desse conflito. Até hoje é onipresente entre altos oficiais fardados a certeza de que, graças a essas derrotas na esteira da redemocratização, a maior parte dos brasileiros sem farda nutre em relação às Forças Armadas uma postura revanchista pelo ocorrido na ditadura”<strong>.</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Guerra cultural e kit gay</strong></li></ul>



<p>“Bolsonaro captou o espírito do tempo com sagacidade. A revisão histórica da ditadura era um tópico importante na guerra cultural, mas a agenda de costumes regressiva (uma espécie de atualização do lema fascista ‘Deus, pátria e família’, do começo do século XX e dos valores por trás da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964) seria também fundamental na construção de sua figura pública. Um golpe baixo, mas eficiente, nesse processo, foi a invenção do “kit gay”, expressão com que o deputado [Bolsonaro] batizou o material educativo do programa Escola sem Homofobia, lançado em 2011 pelo Ministério da Educação liderado por Fernando Haddad. Em pautas do tipo, Bolsonaro atuava em parceria com a bancada evangélica, e nesse caso, a ofensiva do grupo foi brutal: naquele 2011, deputados federais de direita atacaram o ‘kit gay’ em 47 discursos. Acossada por líderes evangélicos, Dilma caiu na esparrela. Embora o material do programa fosse voltado a professores, para auxiliá-los em atividades de combate à discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero, a presidente vetou o material e deu até declaração que parecia ter saído da boca de um fundamentalista religioso: “Não aceito propaganda de opção sexual. Não podemos intervir na vida privada das pessoas”.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>“Teto duplex” dos salários</strong></li></ul>



<p>“Em apenas um ano após a assinatura da portaria liberando os supersalários aos militares, os generais do governo Bolsonaro já haviam recebido R$ 350 mil a mais”.</p>



<p>“Os rendimentos do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucionalda Presidência, general Augusto Heleno, somaram R$ 866 mil, R$ 342 mil acima do teto constitucional”.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/12/Augusto-Heleno-MarcelloCasalAgBR.jpg" alt="General Augusto Heleno, homem idoso de cabelos brabcos e sem blante neutro, sentado por trás de uma bancada. Ao seu lado, projeções de fotos suas ao lado de Bolsonaro e fardado com boina azul das tropas das Nações Unidas." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">No governo, o general Heleno teve salários R$ 342 mil acima do teto. Crédito: Marcello Casal/Agência Brasil</p>
	                
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<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a></strong>ou, se preferir, usar nosso<strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>.<br><br><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong>.</cite></blockquote>
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