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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Duas reportagens que não chegaram ao fim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Mariama Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Dec 2019 11:00:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este é um texto que nenhum jornalista quer escrever. Sobretudo alguém que acredita no jornalismo como um serviço público, como uma ferramenta de luta contra injustiças sociais. Pode parecer ingenuidade &#8211; ou deslumbramento, mas a crença de posso ajudar a transformar a realidade de alguém sempre foi minha maior motivação. É difícil admitir a derrota [&#8230;]</p>
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<p>Este é um texto que nenhum jornalista quer escrever. Sobretudo alguém que acredita no jornalismo como um serviço público, como uma ferramenta de luta contra injustiças sociais. Pode parecer ingenuidade &#8211; ou deslumbramento, mas a crença de posso ajudar a transformar a realidade de alguém sempre foi minha maior motivação. É difícil admitir a derrota quando, mesmo depois da reportagem, nada muda.</p>



<p>Entre as histórias que acompanhei este ano, duas me tocaram profundamente. São narrativas de perdas e de desamparo. Na primeira, conhecia a realidade de <a href="http://marcozero.org/racismo-policial-reprime-encontros-de-passinho-e-ja-fez-a-primeira-vitima/">violência e de racismo que oprime jovens das periferias pernambucana</a>s, quando me aproximei dos grupos de passinho. Entre várias denúncias de repressão policial à dança, me deparei com Gustavo, um estudante de 18 que foi <a href="http://marcozero.org/passinho-ele-perdeu-um-olho-por-causa-da-policia-e-teve-a-protese-ocular-negada-pelo-estado/">atingido no olho por uma bala</a> de borracha da polícia em um encontro de passinho. </p>



<p>O segundo momento que me marcou este ano foi o dia <a href="http://marcozero.org/desocupacao-do-edificio-holiday-quem-se-responsabiliza/">do despejo de três mil pessoas do edifício Holiday</a>, em Boa Viagem. Famílias de baixa renda foram expulsas de suas casas, da noite para o dia. Muitas entraram em total desespero porque não tinham para onde ir. </p>



<p>Meses depois da publicação dessas reportagens, é revoltante perceber que pouca coisa mudou na vida das pessoas que entrevistei. As injustiças permaneceram. Voltar a esses casos, numa espécie de retrospectiva de um ano tão duro quanto 2019, é renovar a crença na força do jornalismo. Talvez narrar os fatos nem sempre produza o impacto necessário para mudar os resultados do jogo. Mas, reverberar vozes de pessoas silenciadas pela sociedade continua sendo importante. E, sim, ainda tenho esperança de algum dia conseguir narrar desfechos felizes para essas histórias.&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Passinho, violência policial e impunidade</strong> </h3>



<p>Em janeiro passado, um policial disparou um tiro de borracha que atingiu o olho de Gustavo. O estudante de 18 anos estava em um encontro da  passinho com amigos, a poucos metros da sua casa.  Ele perdeu o globo ocular direito. Contamos a história dele protegendo sua identidade e a dos seus parentes por segurança. (<a href="http://marcozero.org/racismo-policial-reprime-encontros-de-passinho-e-ja-fez-a-primeira-vitima/">Leia aqui</a>)</p>



<p>Embora o boletim de ocorrência registrado na Central de Plantões da Capital seja claro ao afirmar que Gustavo foi vítima de lesão corporal “decorrente de intervenção policial” e o diagnóstico do Hospital da Restauração declare que ele foi “atingido por bala de borracha da Polícia Militar”, até hoje o Cabo Aurino, autor do disparo, continua exercendo a função de policial.</p>



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	                </figure>

	


<p>&#8220;A Polícia Militar de Pernambuco abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) e as apurações foram remetidas à Corregedoria Geral da SDS (secretaria de Defesa Social), que está analisando o material para definir o procedimento administrativo adequado ao caso. O servidor continua nos quadros da PMPE (Polícia Militar de Pernambuco), com garantia à ampla defesa e ao contraditório, até a conclusão do processo&#8221;, informou a secretaria de Defesa Social.<br><br>A sensação de impunidade acompanha a família de Gustavo desde o incidente. Quase um ano depois, ele ainda não se recuperou totalmente do trauma. Muito tímido, o estudante só falou comigo uma vez, depois da publicação da primeira matéria. Desde que comecei a acompanhar  situação da família, Janaína, a mãe dele, se colocou com porta-voz do filho. </p>



<p>Janaína contou&nbsp;que Gustavo voltou a frequentar a escola e já sai de vez em quando com os amigos. É um avanço porque, depois do tiro, ele passou meses sem querer sair de casa.  &#8220;Na semana passada, ele comemorou a conclusão do Ensino Médio&#8221;, comemora a mãe.</p>



<p>Ela conta que a situação financeira da família continua complicada. Ainda mais porque eles jamais receberam qualquer ajuda financeira do Estado. “Até a prótese que ele usa foi comprada com dinheiro de doações”, conta Janaína. Ela reclama que o Governo do Estado não prestou assistência à família, mesmo sendo responsável pela situação do filho. Gustavo não recebeu qualquer tipo de indenização por ter sido vítima de violência policial.  </p>



<p>Além de acompanhar as consultas médicas periódicas do filho, Janaína também vive correndo atrás da Justiça. É uma rotina tão desgastante que não sobra energia para procurar emprego. Como o padrasto de Gustavo também não tem trabalho formal e o estudante não consegue trabalhar porque ainda está se adaptando à nova condição física, o orçamento ficou apertado. Com os custos dos remédios e ao aumento do aluguel foi preciso mudar para um imóvel mais barato. </p>



<p>“O pai dele não me ajuda com nada. E até agora não conseguimos nem o benefício por invalidez para Gustavo porque o INSS alegou que ele é muito jovem. Não sei o que fazer&#8221;, lamenta Janaína. </p>



<p>Até agora o processo que cobra uma indenização para Gustavo pelos danos físicos, no qual o Estado é réu, ainda está em tramitação. Isso desde fevereiro passado. A família também procurou a Justiça para pedir o ressarcimento pela prótese do olho, que custou R$ 1,4 mil, mas o reembolso foi negado. “Só compramos porque era um tratamento urgente e recebemos doações”, argumenta. </p>



<p>A cada consulta de manutenção da prótese, a família paga R$ 100. O serviço deveria ser fornecido gratuitamente pelo Altino Ventura, mas o hospital parou de fornecer as próteses por causa de uma dívida da secretaria de Saúde com a instituição, que comprometeu o fornecimento do material.&nbsp;Ou seja, o Estado que feriu Gustavo, também negou a ele o tratamento de saúde.  &#8220;Qual é o crime de dançar com os amigos? Era apenas isso que meu filho estava fazendo. O governo tirou o olho do meu filho e nunca nos deu nenhum apoio”, reclama Janaína.</p>



<h3 class="wp-block-heading"> <strong>Especulação imobiliária e abandono </strong> </h3>



<p>“A situação dos moradores é cada vez mais difícil”, desabafa José Rufino, síndico do Edifício Holiday, em Boa Viagem. O gigante que abrigava mais de três mil pessoas foi desocupado em março deste ano por riscos de desabamento e de incêndios. As famílias, majoritariamente de baixa renda, foram expulsas dos seus imóveis sem garantias de retorno, nem qualquer ajuda para custear um aluguel provisório. </p>



<p>Na época, a prefeitura ofereceu apenas 120 vagas em um abrigo municipal. Um quantitativo quase insignificante diante da demanda que a desmobilização do prédio causou. (<a href="http://marcozero.org/desocupacao-do-edificio-holiday-quem-se-responsabiliza/">Leia mais sobre o Holiday</a>).</p>



<p>Quase dez meses depois, muitos dos moradores do Holiday estão em situação de total desamparo. É o caso de Marlene Aparecida da Silva, 58 anos, que tinha apartamento próprio no Holiday, mas está morando em um barraco na favela do Entra-a-Pulso, em Boa Viagem. “A prefeitura não me deu nada. Tive que vender uma geladeira e uma armário pra dar entrada no barraco”, lamenta. O aluguel do barraco custa R$ 300, isso sem água e sem energia elétrica. É exatamente o que ela ganha com as faxinas, fora R$ 89 do benefício básico do Bolsa Família.&nbsp;</p>



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	                                        <p class="m-0">17 de março de 2019. Edifício Holiday, localizado na Zona Sul do Recife,  sofre interdição e moradores precisam desocupar imediatamente. Mais de 3 mil pessoas moravam nos 476 apartamentos que está sem energia e água. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>“Tenho depressão. Depois que saí de casa piorou”, conta Marlene, que vive sozinha. Ela lembra que quando a prefeitura chegou para retirar os moradores foram feitos cadastros para identificar a situação de um. “No meu caso só serviu pra eles me obrigarem a ir no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) todos os dias, porque descobriram que eu tomava remédio para depressão e vivia só”, avalia. </p>



<p>&#8220;Por se tratar de um imóvel privado e que está sendo interditado, mas não condenado, a prefeitura do Recife não oferece auxílio moradia&#8221;, informou por nota a prefeitura.  A prefeitura também informou que &#8220;forneceu caminhões para a realização das mudanças dos moradores e seus pertences, atendimento de saúde e encaminhamento social, quando necessário, inclusive com vagas em abrigo público municipal.&#8221;  </p>



<p>A administração pública diz que o auxílio só é concedido em casos de incêndios, deslizamentos ou enchentes, ou ainda quando a residência está comprometida e precisa ser demolida. &#8220;No caso do Edifício Holiday, a interdição não significa que o imóvel está condenado. Após os reparos, que devem ser realizados pelo condomínio e que devolvam a segurança aos moradores, eles &nbsp;poderão voltar às residências.&#8221;</p>



<p>Acontece que, até agora, o condomínio do Holiday não conseguiu a verba necessária para concluir as reformas exigidas pelo poder público para que os moradores possam retornar aos apartamentos. Os reparos estão avaliados em R$ 1 milhão. O condomínio não tem perspectiva de conseguir esse valor, mesmo depois de realizar campanhas de doação na internet. “Enquanto isso, as famílias continuam sem casas”, lamenta o síndico. “O governo arrancou a gente feito cachorro e não ajudou em nada. Deixaram o cidadão no meio da rua”, desabafa Marlene.<br></p>
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		<title>Desocupação do edifício Holiday, quem se responsabiliza?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Mariama Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 12:20:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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		<category><![CDATA[especulação imobiliária]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A escada em espiral causa certa vertigem. São 17 andares até o pavimento mais alto do edifício Holiday, no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. A subida sobrecarrega os joelhos, os pulmões e o coração. Estou preocupada com Josiane Miranda, moradora do condomínio há dez anos. As breves paradas que fazemos não são [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A escada em espiral causa certa vertigem. São 17 andares até o pavimento mais alto do edifício Holiday, no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. A subida sobrecarrega os joelhos, os pulmões e o coração. Estou preocupada com Josiane Miranda, moradora do condomínio há dez anos. As breves paradas que fazemos não são suficientes para que ela recupere o fôlego, entrecortado pelo choro e por relatos sobre a situação dos moradores.</p>
<p>Mesmo cansada, Josiane, que é presidente da Associação dos Barraqueiros de Coco de Boa Viagem, insiste em me levar até os andares mais altos do prédio. Quer que eu conheça os idosos, as gestantes, as crianças e as pessoas doentes que estão literalmente ilhadas desde que o fornecimento de energia foi cortado. A manhã da quinta-feira (14) passada foi minha primeira visita aos moradores do Holiday, feita nas horas iniciais do prazo de cinco dias úteis determinado pela Justiça para desocupação total do prédio.</p>
<p><div id="attachment_14212" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Interdição-do-Edifício-Holiday_-72.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-14212" class="wp-image-14212 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Interdição-do-Edifício-Holiday_-72-1024x682.jpg" alt="Fiscais da prefeitura acompanham a saída dos moradores (Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo)" width="702" height="467"></a><p id="caption-attachment-14212" class="wp-caption-text">Fiscais da prefeitura acompanham a saída dos moradores. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>A decisão se baseou em um pedido de interdição da Prefeitura do Recife, que apontou altos riscos de incêndio e de desabamento, em razão de problemas na parte elétrica e na estrutura. Desde 2012 a prefeitura havia determinado reparos para o condomínio, sob penalidade de multa diária de R$ 500. No mês de fevereiro, uma petição de interdição em tutela de urgência foi encaminhada à Justiça pelo município.</p>
<p>No último dia 6, depois de um curto-circuito em um poste na área do condomínio, inquilinos e proprietários dos 476 apartamentos ficaram totalmente sem energia. &nbsp;A Celpe (Companhia Energética) se negou a fazer a religação até que todos os problemas elétricos do prédio, que tem muitas ligações clandestinas, sejam sanados. Assim, elevadores e o bombeamento de&nbsp;água pararam de funcionar. Sem geladeira, também não há como&nbsp;conservar&nbsp;alimentos e medicamentos. Muitas pessoas estão dependendo totalmente da boa vontade de vizinhos e de voluntários, que ajudam como podem levando comida, baldes de água e outros suprimentos.</p>
<p>Para os que resistiram aos mais de dez dias no escuro, a&nbsp;ordem de desapropriação proferida no dia 13 foi mais um golpe. O curto espaço de tempo &#8211; cinco dias úteis &#8211; imposto pela Justiça para que as pessoas deixem suas residências abriu as portas para o desespero. “Moro há 46 anos no Holiday. Não casei, não tenho filhos e família. A única coisa que tenho é esse apartamento, que paguei passando fome para economizar o valor das parcelas”, contou, chorando, &nbsp;Josefa Regina da Conceição, 63 anos. Ela me abordou entre as escadarias para mostrar os braços cobertos de pequenas bolhas vermelhas. “Tá vendo isso aqui, minha filha? É nervosismo”.</p>
<p>De um dos últimos remanescentes de moradia a baixo custo na área que tem o metro quadrado mais valorizado da cidade, o Holiday se tornou um lugar de completa desolação, depois da ordem de desocupação.&nbsp; Às vésperas do Dia D para a retirada dos condôminos, nesta quarta-feira (20), os vários fatores que conduziram o edifício até a crise atual ainda não foram totalmente esclarecidos, nem para eles, nem para a sociedade.</p>
<p>Há anos, a gigantesca construção de linhas modernistas se deteriora diante dos olhos indiferentes dos que habitam os apartamentos de luxo na beira-mar.&nbsp; A falta de manutenção, a alta inadimplência dos condôminos e alguns problemas sociais, como os vários casos de ocupações, construíram gradativamente um abismo ao longo dos anos.&nbsp;Poucas providências foram tomadas para evitar sua ruína, que pode interessar à especulação imobiliária na região. Merece destaque também o descaso dos agentes públicos com um prédio que abriga quase um bairro inteiro e é um patrimônio arquitetônico do Recife.</p>
<h2>Pressão sobre os mais vulneráveis</h2>
<p>Embora os culpados e fatores envolvidos sejam muitos, a responsabilidade pela recuperação do Holiday está hoje apenas sobre os ombros dos mais vulneráveis. O condomínio e os seus moradores foram postos sozinhos na linha de frente de uma batalha pela sobrevivência do prédio, que acumula uma pilha de problemas e de dívidas, incluindo processos trabalhistas de funcionários. As obras de recuperação têm um orçamento milionário. Somente a parte elétrica custaria aproximadamente R$ 400 mil, dinheiro que o condomínio, com cerca de 70% de inadimplência e muitos moradores de baixa renda, dependentes de benefícios como o Bolsa Família, já disse não ter.</p>
<p>Se a Justiça não reconsiderar a decisão, os moradores que não deixarem residências até esta quarta-feira poderão ser retirados à força. A intenção, diz a ordem judicial, é evitar uma tragédia iminente, com potencial &#8220;dez vezes maior do que a Barragem de Brumadinho&#8221; em número de vítimas, segundo a Prefeitura do Recife. A conclusão se baseia em vistorias dos Bombeiros, da Defesa Civil e da Celpe, que detectaram pelo menos sete&nbsp;graves problemas estruturais.</p>
<p>A petição da prefeitura para a interdição em “tutela de urgência” leva em conta o alto risco de incêndio, em razão de problemas elétricos como gambiarras. Vários pontos de venda clandestina de gás de cozinha também foram registrados, além de problemas de oxidação na estrutura metálica de vigas. Esses e outros aspectos levaram a Defesa Civil a classificar o prédio no nível de risco estrutural 3, em uma escala que vai de de 1 a 4.</p>
<p>Mas os problemas elencados no processo de interdição do Holiday já eram conhecidos dos órgãos de fiscalização há pelo menos 20 anos. Em 1996, segundo os autos do processo, uma comissão formada por Defesa Civil, Celpe, Bombeiros e outros órgãos realizou uma vistoria no condomínio. Naquela época já foram encontrados problemas nas instalações elétricas. Desde então, várias vistorias foram realizadas pela Celpe e por outros órgãos de fiscalização, entre eles a Defesa Civil, sem que providências maiores fossem tomadas. Somente agora, por exemplo, a prefeitura iniciou um cadastramento de todos os moradores e dos comerciantes do Holiday. Na última quinta-feira, pelo menos 35 idosos já tinham sido cadastrados.</p>
<p>Apesar de receber os pagamentos das contas de energia dos condôminos, que pagam individualmente pelo consumo, e de ter conhecimento dos problemas há mais de duas décadas, a Celpe se negou a arcar com o valor dos reparos elétricos. Essa alternativa chegou a ser sugerida pela Prefeitura do Recife em audiência realizada com agentes públicos, entes privados e moradores no começo do ano. A companhia de energia também informou que só vai religar a energia do Holiday quando todas as falhas forem sanadas, por risco de incêndio. Em fevereiro passado, a Celpe já tinha tentado cortar a energia do prédio, mas foi impedida pelos moradores. Em nota, a companhia informou apenas que todas as informações sobre o caso constam no processo que decidiu pela interdição do condomínio.</p>
<p><iframe src="https://cdn.knightlab.com/libs/timeline3/latest/embed/index.html?source=178o8avg2CQ9gFepNBZy370pTA3DbWy5kqk2Vge4ZpFk&amp;font=Default&amp;lang=en&amp;initial_zoom=2&amp;height=650" webkitallowfullscreen="" mozallowfullscreen="" allowfullscreen="" width="100%" height="650" frameborder="0"></iframe></p>
<p>Por se tratar de um imóvel privado, a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado, que também estavam cientes da situação do edifício há anos, não assumiram responsabilidade na recuperação do Holiday. Até agora, tanto o estado quanto o município têm oferecido apenas apoios pontuais aos moradores, entre eles dez caminhões para auxiliar nas mudanças e serviços básicos, a exemplo de atendimentos de saúde. Também estão sendo ofertadas 120 vagas no abrigo municipal da Travessa do Gusmão, no bairro de São José, Centro da cidade.</p>
<p>“Querem tirar as pessoas das suas casas para colocar em um abrigo, como se fosse um mendigo”, reclamou Jeane Silva, moradora há mais de dez anos. &#8220;Se a gente sair daqui, nunca mais volta. Vão querer derrubar, vender para as construtoras&#8221;, comentou. Pergunto se ela ou outro morador recebeu alguma visita ou ligação de empresários do ramo de construção. Um dos proprietários chegou a dizer para a imprensa que recebeu uma oferta em dinheiro na semana passada. Ela diz que não foi abordada. Muitos moradores&nbsp;falam da influência de construtoras nos encaminhamentos do processo, mas não conseguem provar suas desconfianças.</p>
<p>A Prefeitura do Recife garantiu, por nota, que “após os reparos, realizados pelo condomínio, que devolvam a segurança aos moradores, eles poderão voltar às residências normalmente”. Apesar disso, os moradores não estão seguros de que poderão retornar. Também não há garantias sobre a segurança dos seus pertences, caso o condomínio seja realmente interditado e nem a possibilidade de concessão de auxílio moradia, permitido apenas para casos de incidentes, como incêndios, deslizamentos ou enchentes, ou quando a residência está comprometida e precisa ser demolida, segundo a prefeitura.</p>
<p><div id="attachment_14205" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Interdição-do-Edifício-Holiday_-20.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-14205" class="wp-image-14205 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Interdição-do-Edifício-Holiday_-20-1024x682.jpg" alt="Querem tirar as pessoas das suas casas para colocar em um abrigo, como se fosse um mendigo”, reclamou Jeane Silva (Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo)" width="702" height="467"></a><p id="caption-attachment-14205" class="wp-caption-text">Querem tirar as pessoas das suas casas para colocar em um abrigo, como se fosse um mendigo”, reclamou Jeane Silva. Crédito Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<h2><strong>Especulação imobiliária</strong></h2>
<p>Enquanto colchões, móveis e bagagens são carregados escadas abaixo do Holiday, eu e Josiane continuamos a subida. Ela para no meio do caminho para mostrar o seu apartamento. “Olha a vista para o mar. É um privilégio que querem tirar da gente. Dizem que o Holiday só tem ladrão e prostituta. Aqui tem muita gente de bem, trabalhadora, que paga suas contas”, &nbsp;frisou. Alguns andares acima chegamos ao apartamento de Josefa Regina da Conceição. Uma bela vista e uma brisa fresca nos recebem no corredor. A moradora de 63 anos, que mora sozinha em uma quitinete no 16º andar, mostra uma visão privilegiada para o mar de Boa Viagem, que se esconde entre os arranha-céus. “Se deixar meu apartamento, quem garante que vou voltar? Quem vai cuidar das minhas coisas?”, indagou.</p>
<p>As perguntas eram&nbsp; direcionadas ao vereador do Recife Aerto Luna (sem partido), que chegou logo depois de mim ao apartamento, acompanhado de assessores e agentes de saúde do Recife. “Garanto que a senhora volta e que ninguém vai mexer nas suas coisas”, assegurou o parlamentar, mesmo sem saber me responder qual será o prazo de realização das obras ou em que local seguro os moradores que, como dona Regina, não têm para onde ir, poderão deixar seus pertences.</p>
<p>Dona Regina já sofreu dois AVCs, é hipertensa e diabética. Anda com dificuldade, também por uma artrose no joelho. É impossível, para ela, descer os 16 pavimentos sozinha para buscar água, remédios e comida. Quando cheguei, restava apenas uma dose utilizável de insulina no apartamento. Ela precisa tomar duas por dia. “Morei de aluguel muitos anos até conseguir comprar esse imóvel. Trabalhei de doméstica, de babá para pagar as prestações. Acho que se a gente sair, não volta mais. Querem derrubar o prédio todo&#8221;, argumentou.</p>
<p>&#8220;O valor desse terreno é incalculável. A gente está no metro quadrado mais caro da cidade&#8221;, comentou o síndico José Rufino, quando perguntado sobre as motivações da determinação de saída emergencial dos moradores. Ele reconhece os problemas do prédio, mas discorda de que as falhas ofereçam um risco iminente de incêndio e/ou de desabamento. Desde que a energia foi cortada, Rufino tenta conseguir apoio para resolver a situação financeira e os dramas sociais do condomínio. &#8220;Quando a gente finalmente estava conseguindo apoio da Câmara dos Vereadores, de voluntários, a Justiça veio e determinou a saída. Sempre que a gente consegue dar um passo em direção à uma melhor organização, somos puxados para trás. Não sei a quem essa situação interessa, com certeza alguém está lucrando com isso&#8221;, sugeriu.</p>
<p>&#8220;Faz tudo&#8221; do condomínio, Vicente Soares mora no Holiday há 13 anos. Vive da renda de R$ 1 mil por mês que recebe para fazer todos os tipos de reparos, de reboco à manutenção elétrica no prédio. “Conheço todos os fios daqui. Se precisa fazer uma obra é só comprar as coisas que a gente faz. Não precisava expulsar ninguém”, argumentou, mostrando as melhorias mais recentes&nbsp; que fez, como a recuperação do hall de entrada e das marquises.</p>
<p>Pai e mãe do filho de 12 anos, Vicente não tem para onde ir caso realmente&nbsp; precise deixar o apartamento alugado. O filho dele estuda do outro lado da rua em uma escola pública. “Onde vou encontrar um aluguel barato? A gente paga aproximadamente R$ 500 aqui, onde tudo custa mais de R$ 1 mil. O que querem é tirar os pobres de Boa Viagem, jogar pra bem longe”, argumentou. Até agora, quase 200 moradores deixaram os apartamentos, segundo o síndico do prédio. Apenas quatro deles tinham aceitado ir para o abrigo da Prefeitura do Recife até o domingo passado. “Defendemos que as pessoas fiquem porque estamos lutando para reverter essa decisão”, argumentou.</p>
<p>O síndico ainda diz que até agora não recebeu um laudo detalhado da Celpe sobre que estruturas precisam ser recuperadas. “Como a gente vai fazer uma obra sem nem saber o que precisamos organizar?”, questionou. “Os laudos que existem não foram feitos com aparelhos específicos, se baseiam apenas na visão dos técnicos que tiraram algumas fotos.&nbsp;A gente é tratado como lixo, as pessoas pensam que somos ratos”, desabafou.</p>
<p><div id="attachment_14255" style="width: 499px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/celpe.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-14255" class="wp-image-14255 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/celpe.jpg" alt="Carta da Celpe traz poucos detalhes sobre situação do condomínio (Crédito: Reprodução)" width="489" height="566"></a><p id="caption-attachment-14255" class="wp-caption-text">Carta da Celpe traz poucos detalhes sobre situação do condomínio</p></div></p>
<p>Na entrada do Holiday, o comerciante Luciano Bento vende alimentos em uma pequena mercearia. É uma das lojas que funcionam no térreo do edifício. O espaço alugado custa aproximadamente R$ 400 por mês. &#8220;Lá fora a gente pagaria muito mais&#8221;, comentou. Do pequeno comércio, Luciano tira toda a renda da família, que inclui a esposa e o filho de dez anos. Eles também têm um apartamento residencial no 10º andar.</p>
<p>Atualmente, aproximadamente 30 unidades de comércio funcionam no térreo do Holiday com serviços variados, que não atendem apenas a demanda dos moradores, mas também uma boa parcela da classe média de Boa Viagem. De acordo com o secretário de Mobilidade e Controle Urbano do Recife, João Braga, há aproximadamente 60 pontos de comércio irregulares no prédio. Eles não estariam pagando impostos, nem obedecendo normas de segurança, como no caso dos pontos de venda de gás de cozinha que foram sinalizados nas vistorias. &#8220;Se querem cobrar algo a mais ou vender o prédio por causa da especulação imobiliária deveriam negociar logo com a gente, que&nbsp; está aqui sem saber o que fazer, moça&#8221;, reclamou Luciano. &#8220;É preciso que o Governo do Estado, a prefeitura, o juiz tenham mais sensibilidade. Deram um prazo pequeno pra gente se organizar. Não digo nem por mim, falo pelas crianças que estão sofrendo, deixando suas casas.&#8221;</p>
<h2><b>Na linha de defesa</b></h2>
<p>Advogados, engenheiros e outros voluntários se juntam a cada dia às vozes do edifício Holiday. No domingo passado, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) organizou um mutirão para traçar ações de defesa do condomínio junto com os moradores. Em uma vaquinha virtual (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/503588), o movimento tenta arrecadar R$ 1 milhão para a reforma. Uma página no Facebook chamada <a href="https://www.facebook.com/salveoedificioholiday/photos/?ref=page_internal">“Salve o Holiday!”</a> também está ajudando a mobilizar doações.</p>
<p><div id="attachment_14207" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Interdição-do-Edifício-Holiday_-23.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-14207" class="wp-image-14207 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Interdição-do-Edifício-Holiday_-23-1024x682.jpg" alt="Mutirão reuniu voluntários no último domingo (Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo)" width="702" height="467"></a><p id="caption-attachment-14207" class="wp-caption-text">Mutirão reuniu voluntários no último domingo. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>Lupercio Luizines, engenheiro e perito judicial é um dos voluntários que atuam na defesa do condomínio. Na visão dele, o prédio não corre risco de desabamento. “Isso poderia acontecer em caso de incêndio, como a maioria dos prédios. Mas com a energia desligada se eliminou essa possibilidade”, garantiu. O Ministério Público e Defensoria Pública de Pernambuco informaram que ainda estão estudando linhas de atuação no caso do Holiday. Tereza Mansi, advogada do Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH), frisou que “o poder público sempre é corresponsável por situações como a do Holiday”, mesmo em se tratando de propriedades privadas. “Isso porque é preciso garantir o direito constitucional à moradia”, argumentou.</p>
<p>Interesses privados podem, na visão de Tereza, estar por trás da crise no edifício. “Há uma suspeita de que as coisas estão ocorrendo para beneficiar uma parcela da sociedade, construtoras, por exemplo. Boa Viagem é um lugar valorizado, a vizinhança não quer ter como vizinhos uma população de vulneráveis”.</p>
<p>Assim como alguns vereadores da Câmara do Recife, Jô Cavalcanti e Carol Vergolino, deputadas do mandato coletivo Juntas, do Psol, também se uniram à causa do Holiday. Nesta terça-feira (19), uma audiência pública foi convocada por elas na Assembleia Legislativa. “O poder público precisa ser corresponsabilizado”, frisou Carol. Entre as alternativas para a recuperação do edifício, a parlamentar levantou a possibilidade de tombamento do imóvel pelo seu valor arquitetônico. Especialista em patrimônio histórico, o arquiteto Jorge Passos concordou que essa seria uma possibilidade viável para o&nbsp;Holiday. Ele reforçou que, assim como o edifício, “existe uma série de prédios modernistas que carecem de um olhar de preservação na cidade”. “O Holiday é um edifício perfeitamente restaurável&#8221;, disse, &#8220;que se adaptaria aos critérios de tombamento e preservação, por ser um prédio da década de 50, com projeto modernista, que conta a história do estado”, sustentou.</p>
<p>A advogada Maiza Amaral, que também&nbsp;atua como voluntária, sugeriu a criação de incentivos fiscais para construtoras, que seriam revertidos em investimentos na recuperação do condomínio. Ela reforçou que várias medidas já foram tomadas para sanar os problemas na semana passada, como a limpeza do lixo, a retirada da fiação e dos botijões de gás, e garantiu que, por isso, não há mais perigo de explosões. &#8220;Também foi feita a limpeza do fosso do elevador”, disse. Juntamente com mais duas advogadas voluntárias, Maíza promete apresentar um pedido de reconsideração da decisão à Justiça. Ela também quer que a Celpe, a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado assumam responsabilidade solidária. “Vamos apresentar um instrumento de agravo”, informou.</p>
<p>Enquanto conversava com Maíza na entrada do prédio, no domingo passado, ouvi um barulho de um vidro quebrando. Em um ato desesperado, andares acima, o marido de Josiane, André, tinha esmurrado uma das janelas do seu apartamento. Os estilhaços caíram no térreo e, por sorte, ninguém se machucou. “Pensei que ele fosse se jogar”, contou a vizinha Samirames dos Santos. Com a mão sangrando, André foi rapidamente retirado da residência por vizinhos. A esposa Josiane o acompanhou. Mais tarde, o síndico enviou um vídeo pelo Whatsapp onde André diz que não se arrepende dos seus atos e que faria tudo de novo, em defesa do Holiday.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/6uyFmeuxMms" allowfullscreen="allowfullscreen" width="697" height="392" frameborder="0"></iframe></p>
<p>“A gente ouve gente ameaçando se matar, tocar fogo no apartamento”, comentou Samirames, falando de sua preocupação sobre o que pode acontecer nos próximos dias. No meio de tanta desesperança, apenas a solidariedade&nbsp;de pessoas oferece certo conforto. O vizinho de André e Josiane, Gláucio Dantas, 66 anos, passa os dias subindo e descendo escadas para ajudar as pessoas. Ele vive sozinho, tem dois <em>stents</em> no coração, toma vários medicamentos. Está visivelmente cansado.&nbsp; “Os vizinhos&nbsp;me procuraram pedindo auxílio. Faz mais de dez dias que só como sanduíche, biscoitos, essas coisas que não estragam. Também estou sofrendo, mas tem gente em estado pior que o meu”.</p>
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