Racismo policial reprime encontros de ‘passinho’ e já fez a primeira vítima

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Esta matéria é baseada em relatos dos envolvidos e em informações de documentos oficiais. Por segurança das vítimas, os nomes reais de Gustavo, seu João e Janaína foram preservados.

Com colaboração de Lenne Ferreira / Inciti

Sexta-feira, 25 de janeiro de 2019. Por volta das 20h, Gustavo, 18 anos, saiu de casa com um grupo de amigos. Seguiram à pé para a praça da Avenida do Forte, no bairro dos Torrões, Zona Oeste do Recife, que fica a poucos metros da casa dele, na comunidade de Roda de Fogo. Foram a um encontro de passinho, dança que acompanha o ritmo brega-funk. Embora tenha o mesmo nome do bailado carioca, em Pernambuco a coreografia tem estilo diferente. O passinho pernambucano, nascido nas periferias da Região Metropolitana do Recife, é cheio de malemolência e se tornou a grande sensação do momento entre os jovens. Centenas de pessoas participam dos encontros e, naquela sexta-feira, a praça estava lotada.

O público desses eventos é majoritariamente formado por meninos e meninas entre os 12 e os 20 anos. Muitos fazem parte de grupos de dança, que exibem coreografias executadas ao som dos hits dos MCs. Eles usam uniformes com o nome do grupo e do bairro onde moram, o que funciona como uma forma de aproximação de comunidades que, muitas vezes, eram rivais.

Gustavo, embora seja tímido e não integre nenhum desses grupos de dança, gosta de acompanhar os eventos e curtir com os amigos. Era só o que ele queria naquela noite. Quando o relógio se aproximou das 22h, o estudante decidiu que era hora de voltar para casa. Naquele momento, duas viaturas da Rádio Patrulha da Polícia Militar se aproximaram da praça e os policiais começaram a revistar os jovens.

Até hoje ele não sabe explicar direito como a confusão começou. Lembra apenas que, em determinado momento, todos começaram a correr. Assustado, ele correu também. No meio do caminho, um policial mandou parar. Ele obedeceu. Olhou para trás. Sentiu o sangue escorrer pelo rosto. O policial havia disparado. A bala de borracha atingiu o olho direito de Gustavo.

Uniformizados, dançarinos de passinho exibem suas coreografias

Uniformizados, dançarinos de passinho exibem suas coreografias

Sem perceber que havia atingido o garoto, o policial voltou à praça. Só retornou para socorrer o garoto quando os amigos de Gustavo fizeram pressão. O estudante foi levado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do bairro dos Torrões. Com medo do que poderia acontecer a ele, uma amiga fez questão de acompanhá-lo durante o trajeto a bordo da viatura.

Por volta das 22h30, o Gustavo foi atendido pela UPA dos Torrões. Chegou acompanhado pelos policiais. Recebeu apenas soro e teve o olho enfaixado. Foi encaminhado ao Hospital da Restauração (HR), onde deu entrada na emergência às 23h01. “Atingido por bala de borracha da Polícia Militar” é o diagnóstico registrado no sistema do hospital.  “Quando cheguei o policial que atirou nele estava no HR. Ele me disse que deu um tiro para baixo. Mas a médica desmentiu porque, do jeito que a bala entrou, ele mirou no rosto do meu neto”, contou o avô de Gustavo, seu João, primeira pessoa da família a receber a notícia. “Meu neto poderia ter morrido”, disse o avô.

Como o HR não realiza cirurgias oftalmológicas, no dia seguinte, Gustavo recebeu alta para encaminhamento a outra unidade de saúde. No dia 26 de janeiro, foi atendido na Fundação Altino Ventura, referência em cirurgias oftalmológicas. A primeira intervenção conseguiu preservar o globo ocular, mas já havia “comprometimento importante da função visual”, diz o laudo médico, que o registra como “vítima de trauma ocular penetrante por projétil de borracha no olho direito”.

Gustavo ainda passou por nova cirurgia no Altino Ventura no dia 13 de fevereiro, mas os danos causados pelo tiro foram tão agudos que a equipe médica precisou retirar o olho direito do estudante.

“Meu filho não fez nada de errado”

A mãe de Gustavo é Janaína, 37 anos, e está desempregada. Ela conta com a ajuda de seu João para sustentar os filhos – tem mais dois, um de 16 e outro de 7 anos. O pai de Gustavo não paga pensão. Quando recebeu notícias do filho, Janaína tinha acabado de chegar do culto na igreja evangélica que frequenta. “Saí correndo para lá”, lembrou. Ela só conseguiu ver o garoto no outro dia, porque não é permitida a permanência de acompanhantes no hospital. “Foi a noite mais longa da minha vida”, contou.

Cada segundo depois daquela sexta-feira tem o peso incalculável de um futuro interrompido. Gustavo estava prestes a terminar o Ensino Médio e queria servir no Exército. Agora, parou de estudar e não quer mais sair de casa. Fica a maior parte do tempo mexendo no celular, disse a mãe, que repetiu os fatos narrados pelo menino pelo telefone, porque ele mesmo não quis falar com a reportagem. “Ele tem medo. Todos nós estamos com medo da polícia”, disse a mãe, reticente, durante nosso primeiro contato telefônico.

Janaína está totalmente dedicada ao filho. Cuida dos remédios, leva ao médico. Na semana passada, recusou uma oferta de emprego para não se distanciar dele durante a recuperação. “É muito difícil ver ele assim. Ele nem fala nada sobre a perda da visão, só fica calado, triste”, disse. Quando qualquer palavra se torna vazia demais para descrever a dor e tristeza de uma família ainda em estado de choque, a indignação vira porta-voz. “Não há explicações. Meu filho não fez nada de errado. O que vai ser do futuro dele agora?”, perguntou a mãe, desconsolada.

Juventude periférica na mira da polícia

O Boletim de Ocorrência registrado por Gustavo no dia 30 de janeiro, na Central de Plantões da Capital, deixa claro que ele foi vítima de “lesão corporal decorrente de intervenção policial”. O documento cita o nome do Cabo Aurino, como o suspeito de ter disparado o tiro de bala de borracha, que fez o estudante perder um olho. Foi ele quem se apresentou ao avô de Gustavo no hospital. Mas as informações sobre a gravidade do ferimento do garoto não aparecem no registro.

Ainda foi registrada uma denúncia de violência policial feita à Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS), porém as investigações ainda estão em curso. A SDS informou por nota que “o fato está sendo investigado pela Polícia Civil, após um Boletim de Ocorrência ter sido registrado na Central de Plantões da Capital. E que na Corregedoria Geral, instaurou-se investigação preliminar para apurar as circunstâncias do fato. Nessa fase, serão colhidos depoimentos, alem de exames periciais e outros elementos que ajudem na elucidação da ocorrência”.

O caso de Gustavo, infelizmente, não é o primeiro registro de violência policial contra jovens em encontros de passinho. Quem observa a efervescência dos eventos dançantes, que passaram a compor a paisagem do Marco Zero do Recife em divertidas tarde de domingo, mal pode acreditar na dura repressão que meninos e meninas moradores das periferias enfrentam para usufruir o direito de ocupar com música , dança e muitas cores os espaços públicos das suas cidades.

Em dezenas de vídeos que circulam na internet, estão registradas as abordagens violentas da polícia durante os encontros de passinho. Em um deles, um policial puxa pela camisa, com brutalidade, um jovem que estava dançando. Em outro, participantes denunciam que um dançarino foi detido sem qualquer justificativa.

As abordagens violentas da polícia parecem ter se tornado mais constantes quando os encontros de passinho saíram dos bairros periféricos e passaram a ocupar locais públicos em áreas elitistas, como o Marco Zero do Recife e o Parque da Jaqueira. Esses endereços caíram no gosto dos jovens por serem espaçosos e bonitos, o que ajuda na hora de gravar os vídeos das coreografias que bombam no Instagram.

Tailson José da Silva, 19 anos, do grupo de passinho “Os Coreano”, do município de Moreno, estava em um encontro no Marco Zero quando a polícia chegou. “Eles usaram spray de pimenta para encerrar o evento”. Estudante, Alana Santana, conta que no bairro de Sapucaia, em Olinda, os policiais chegaram atirando durante um encontro de passinho no dia 26 de janeiro. “Tinha acabado de sair com meu filho de um ano. Podia ter batido nele”, narrou.

“Se tiver um encontro de meninos dançando, eles são recebidos com spray de pimenta”, desabafou o MC Shevchenko. Ele é um maiores ícones do brega-funk pernambucano, autor do hit Gera bactéria, junto com o MC Elloco. O videoclipe da canção tem mais de cinco milhões visualizações no Youtube.

No começo de fevereiro, Shevchenko e sua equipe foram ao Parque da Jaqueira, na Zona Norte do Recife, gravar um videoclipe da música “Pipoqueira”. O espaço foi escolhido por ter muitos vendedores de pipoca. Mas eles foram impedidos de filmar pela segurança do parque. “Fomos tratados como bandidos. Passamos vergonha por puro preconceito”, comentou o Shevchenko.

O artista estava acompanhado do MC Colibri, do Rio de Janeiro, que participaria da gravação do clipe. “As pessoas de fora dão valor, porém o pessoal daqui não está tratando o passinho e o brega-funk como cultura, como um meio que está tirando muitas crianças e jovens da rua”, desabafou o MC pernambucano.

Procuradora de Justiça e coordenadora de Justiça do Ministério Público de Pernambuco, Maria Bernadete Azevedo, alertou que a má conduta dos policiais e agentes públicos nesses casos precisa ser combatida. Ela ressaltou que “Pernambuco tem altos índices de violência policial”, inclusive em relação à juventude negra – que representa a maioria da população dos bairros periféricos. Em 2016, 75 mortes decorrentes de intervenção policial foram registradas em Pernambuco, segundo Atlas da Violência do Ano Passado. Em 2017, o número chegou a 123 mortes, nas contas da Secretaria de Defesa Social (SDS).

Preconceito, violência policial versus direito ao espaço público

Thadysia dos Santos, 13 anos, moradora de Santo Amaro é dançarina de passinho e integrante do grupo “Império do Swingue”. No dia 9 de fevereiro, ela organizou, junto com as amigas, um encontro de passinho no Marco Zero. Geralmente são os próprios jovens que mobilizam esses eventos pelas redes sociais. “Quando a gente chegou, o policial disse que só podia fazer com autorização da prefeitura”, disse.

A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Controle Urbano do município negou que exista “qualquer impedimento na  legislação recifense para a realização dos encontros de passinho – onde não há aparato de som profissional, nem estrutura de palco – nos espaços públicos da cidade”. Apesar dessa informação oficial, outras barreiras invisíveis são impostas aos jovens. Uma delas é o preconceito, avaliou a arquiteta e urbanista do INCITI-Pesquisa e Inovação para as cidades, Raquel Meneses.

Thadysia e suas amigas organizaram, pelas redes sociais, um encontro de passinho no Marco Zero

Thadysia e suas amigas organizaram, pelas redes sociais, um encontro de passinho no Marco Zero

“Há locais nas cidades que são dominados por ricos. Qualquer atividade que fuja ao perfil da classe média é reprimida”, apontou. É o caso da Jaqueira, cenário de um dos episódios narrados acima. Ela avalia a ocupação dos espaços públicos por parte dos jovens, sobretudo dos moradores de periferias, têm relação com a vontade de fazer parte da cidade. “Existe uma demanda por reconhecimento”, comentou.

Jéssica Vanessa dos Santos, coordenadora do Centro de Comunicação e Juventude  (CCJ) lembrou que o Estatuto da Juventude estabelece como dever dos agentes públicos a promoção do território como espaço de integração. “O brega é uma expressão cultural do jovem de periferia, onde ele se enxerga. A juventude é reprimida e estigmatizada porque essa cultura não é para a classe média. Mas, nas baladas, essa galera rica ouve o mesmo pancadão, descendo até o chão, sem que a polícia aborde ninguém”, criticou.

A ascensão dos eventos de passinho levou o INCITI, uma rede de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco, a promover um debate sobre a interação dos grupos com os espaços públicos urbanos, no começo deste mês. Presente no encontro, Raquel Mendes destacou o “despreparo geral do poder público para lidar com as manifestações culturais dos jovens das periferias”.

A repressão contra o passinho configura racismo institucional, na avaliação da procuradora de Justiça do MPPE, Maria Bernadete Azevedo. Ela explica que o termo se refere a situações em que as instituições atuam de forma diferenciada em relação a algum grupo, por questões raciais. “A juventude que está sofrendo violência é majoritariamente negra. Porque se parte do pressuposto de que se for negro, se for pobre, só pode ser bandido ”, considerou. Ela ainda disse que a polícia de Pernambuco sempre foi violenta e “está se fortalecendo para isso”, em referência ao pacote de segurança do ministro Sérgio Moro, que é visto por especialistas como uma ‘licença para o policial matar’.

Secretário de Segurança Urbana da Prefeitura do Recife e responsável pela guarda municipal, Murilo Cavalcanti informou que está tentando uma aproximação entre a administração pública e os grupos de dança. “Procurei o secretário de Defesa Social para dizer que era preciso entender esse movimento.(…) É como o caso dos rolezinhos. Não adianta coibir”, argumentou. Cavalcanti assegurou que não recebeu qualquer queixa de abordagem violenta por parte da guarda municipal nos eventos, mas disse que existem dois lados. “Tem gente lá dentro (dos encontros) que se aproveita para querer brigar. Eles mesmos reconhecem isso”, ressaltou.

Passinho é resistência

Jaqueline Castro é produtora do grupo de passinho chamado “As caciques”. Ele é formado por oito meninas com idades entre 12 e 15 anos, moradoras da comunidade de Olho D’água. O grupo foi criado pela própria Jaqueline com um objetivo social. “Só permanece no grupo quem estuda e tira notas boas. Também procuro incentivar um bom comportamento”, contou.

Grupo de passinho "As Caciques" realiza trabalho social através da dança

Grupo de passinho “As Caciques” realiza trabalho social através da dança

Costureira e estudante de Recursos Humanos, Jaqueline também se preocupa em escolher o repertório de músicas ensaiadas. “Sei que muitas tem um conteúdo sexual forte, então seleciono mais e procuro conversar com elas”, explicou. As caciques sempre participam dos encontros de passinho acompanhadas de Jaqueline. O objetivo do grupo é profissionalizar as suas apresentações, por isso, há ensaios semanais. Elas, inclusive, gravaram um clipe recentemente. “A gente quer chamar atenção, ser famosa”, diz Gizlayne Fábia, de 14 anos.

Mesmo enfrentando tanta repressão, o brega-funk e o passinho mostram  resistência. É um movimento que só cresce em Pernambuco. “A praça tá aqui para o povo se divertir. A gente quer mostrar que o passinho é cultura igual a todas as danças”, disse Vitória Santos, de 15 anos, do grupo “Nova Era do Passinho”.

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

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