<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos feminismo negro - Marco Zero Conteúdo</title>
	<atom:link href="https://marcozero.org/tag/feminismo-negro/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://marcozero.org/tag/feminismo-negro/</link>
	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 22 Feb 2024 14:01:42 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/02/cropped-favicon-32x32.png</url>
	<title>Arquivos feminismo negro - Marco Zero Conteúdo</title>
	<link>https://marcozero.org/tag/feminismo-negro/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Ministério Público do Ceará tenta impugnar candidatura coletiva de mulheres pretas</title>
		<link>https://marcozero.org/ministerio-publico-do-ceara-tenta-impugnar-candidatura-coletiva-de-mulheres-pretas/</link>
					<comments>https://marcozero.org/ministerio-publico-do-ceara-tenta-impugnar-candidatura-coletiva-de-mulheres-pretas/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2020 23:05:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[candidaturas coletivas]]></category>
		<category><![CDATA[ceará]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições 2020]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[juntas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=30898</guid>

					<description><![CDATA[<p>Três mulheres pretas, periféricas e ativistas na luta por um mandato coletivo na vereança de Fortaleza. Adriana Gerônimo, Louise Santana e Lila Salú formam a chapa Nossa Cara, do Psol. Nesta semana, elas foram surpreendidas por uma ação de impugnação de registro de candidatura por parte do Ministério Público do Ceará (MPCE). O motivo alegado [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ministerio-publico-do-ceara-tenta-impugnar-candidatura-coletiva-de-mulheres-pretas/">Ministério Público do Ceará tenta impugnar candidatura coletiva de mulheres pretas</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Três mulheres pretas, periféricas e ativistas na luta por um mandato coletivo na vereança de Fortaleza. Adriana Gerônimo, Louise Santana e Lila Salú formam a chapa Nossa Cara, do Psol. Nesta semana, elas foram surpreendidas por uma <a href="https://consultaunificadapje.tse.jus.br/consulta-publica-unificada/documento?extensaoArquivo=application/pdf&amp;path=PJE-ZONA/2020/9/27/16/54/10/491a4f57417b1640c2c7f37339f38c945d7e8cfc7512a890f78631a80f098838" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ação de impugnação de registro de candidatura</a> por parte do Ministério Público do Ceará (MPCE). O motivo alegado pela promotora Ana Maria Gonçalves Bastos de Alencar é que o nome fantasia que aparecerá na urna fere a legislação eleitoral por “não se tratar do nome, prenome, cognome, sobrenome, apelido ou nome pelo qual a candidata é conhecida”.</p>



<p>O número de iniciativas compartilhadas cresceu nestas eleições, extrapolando inclusive o campo progressista, onde o movimento surgiu de forma orgânica e ganhou espaço no último pleito, em 2018. Esse crescimento agora pode vir acompanhado por reações institucionais como essa que aconteceu com a Nossa Cara e pelo risco de minar candidaturas coletivas.</p>



<p>Na legislação, não existe previsão para esse tipo de chapa. Apenas uma pessoa recebe o registro, disputa a eleição, presta contas e, em caso de vitória, é diplomada. Existe uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) no Congresso (nº 379/17), da deputada Renata Abreu (Pode-SP), para legitimar os mandatos compartilhados, mas a matéria ainda está em tramitação.</p>



<p>O artigo 25 da Resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) n°23.609/2019 diz que “O nome para constar da urna eletrônica terá no máximo 30 (trinta) caracteres, incluindo-se o espaço entre os nomes, podendo ser o prenome, sobrenome, cognome, nome abreviado, apelido ou nome pelo qual o candidato é mais conhecido, desde que não se estabeleça dúvida quanto a sua identidade, não atente contra o pudor e não seja ridículo ou irreverente”.</p>



<p>Mas o que para a promotora cearense é uma questão de rigor da lei e evita propaganda inverídica e que o eleitorado seja induzido ao erro achando que está votando em três pessoas, para as candidatas pode ser visto como uma tentativa de apartá-las do processo eleitoral atacando o modelo que escolheram para fazer política.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/nossa-cara_tse-144x300.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/nossa-cara_tse-492x1024.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/nossa-cara_tse-492x1024.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" width="253">
            </picture>

	                </figure>

	


<p>A candidatura coletiva foi uma forma escolhida pelas três para conseguir participar da disputa eleitoral e enfrentar as dificuldades cotidianas desse processo e da política institucional através da união e das pautas que as atravessam. Para mulheres negras e de periferia, esse tem sido muitas vezes o único caminho possível. Exemplos de experiências coletivas bem-sucedidas do ponto de vista da conquista do mandato e da quebra de barreiras são as deputadas estaduais Juntas (Psol-PE) e a Mandata Coletiva (Psol-SP). A Gabinetona, em Belo Horizonte, é outra caso, mas diferente no formato, por reunir quatro mandatos parlamentares em um mandato coletivo.</p>



<p>Na ação, a promotora Ana Maria argumenta também que, em Ata de Convenção do Psol, não constam os nomes de Louise e Lila. Ela entende que, caso quisessem concorrer à vaga na Câmara Municipal de Fortaleza, deveriam ser filiadas a um partido, ser escolhidas em convenção e apresentar individualmente seus respectivos registros de candidatura.</p>



<p>“As demais ‘candidatas agregadas’ podem até fazer propaganda para a Candidata/Requerente e lhe emprestar apoio, no entanto, a divulgação de uma candidatura tripla implicará em uma situação de fato sabidamente inverídico, induzindo o eleitorado a erro”, diz o texto da peça.</p>



<p>O registro da candidatura e a foto a aparecer na urna são de Adriana e é ela, portanto, o alvo da ação. Ela ficou sabendo da novidade através de um contato feito pela <strong>Marco Zero Conteúdo</strong> para solicitar entrevista nesta quarta-feira (30). Na sequência, acionou o advogado do Psol no Ceará e montou uma assessoria jurídica junto com outras parceiras para preparar uma defesa. O prazo para contestação é de sete dias, contados a partir da quarta (30).</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/juntas_tse-144x300.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/juntas_tse-492x1024.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/juntas_tse-492x1024.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" width="260">
            </picture>

	                </figure>

	


<p>Adriana irá se amparar na subjetividade da lei e nas experiências do mandato das Juntas (Psol-PE), formado por cinco codeputadas na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), registrado no nome de Jô Cavalcanti. Em 2018, o nome que apareceu na urna foi “Juntas”. </p>



<p>“Sabemos que inúmeros motivos são construídos para a manutenção de uma lógica onde nós, mulheres pretas e periféricas, sejamos afastadas do espaço de disputa da política institucional”, diz a <a href="https://www.instagram.com/p/CFz_WjLFw_c/?igshid=15yxfrmfdhqp6">nota</a> publicada pela Nossa Cara no Instagram nesta quinta-feira (1).</p>



<p>O advogado do Psol no Ceará Walber Nogueira acrescenta que, apesar de não existir uma permissão para as candidaturas coletivas, também não há uma proibição. Sobre o argumetno da indução ao erro, ele defende exatamente o contrário, que ter o nome coletiva na urna é mais uma forma de mostrar a realidade da proposta. </p>



<p>Ele cita que há outra candidatura coletiva, no Crato, interior do estado, chamada Sementes, também do Psol, e que, até o momento, não sofreu qualquer ação de impugnação. “Sabemos que é uma outra zona eleitoral. Mas, do ponto de vista jurídico, a justiça eleitoral é uma só, apesar de ser exercida por pessoas diferentes. É estranho que, dentro do mesmo estado, tenhamos um Ministério Público que vê a candidatura coletiva como irregular e outro que vê como regular”, argumenta.</p>



<p><strong>Confira a nota da Nossa Cara na íntegra:</strong></p>



<p><em>A candidatura coletiva Nossa Cara foi surpreendida na noite de ontem (30/10), com a informação da existência de um pedido de impugnação do registro de candidatura pelo Ministério Público Estadual (MPE) 117 ª Zona Eleitoral. Na ação, o MPE apresenta a argumentação que não haveria respaldo jurídico para uma candidatura no modelo coletivo e que as cocandidatas estariam induzindo o eleitorado fortalezense ao erro.</em></p>



<p><em>No entanto, as experiências de mandatos coletivos e compartilhados são uma realidade. Até 2018, existiram quase 100 candidaturas coletivas espalhadas pelo Brasil. Atualmente existe uma mandata coletiva de codepudatas em exercício, as Juntas, em Pernambuco. Tecnologia de ocupação da política desenvolvida e aplicada pelo mundo, os mandatos coletivos têm conseguido fortalecer os debates sobre a reforma política e ampliam a lógica de democracia participativa.</em></p>



<p><em>Sabemos que inúmeros motivos são construídos para a manutenção de uma lógica onde nós, mulheres pretas e periféricas, sejamos afastadas do espaço de disputa da política institucional.</em></p>



<p><em>Os espaços de poder pensados sem a real intervenção das maiorias sociais sentem o peso de iniciativas que chegam para desorganizar suas tão velhas engrenagens e propor o novo. Esse processo inclui o modo como são formuladas as leis, a operação e interpretação das mesmas, que seguem a lógica colonialista onde nossos modos de fazer a política acontecer não são incorporados a esse velho modelo.</em></p>



<p><em>Lemos isso como um ataque direto ao modelo que escolhemos para fazer política, um modelo que agrega corpos negros, periféricos, LGBTQIA+, de trabalhadoras e trabalhadores que ousam subverter a lógica dos lugares pré-estabelecidos, que reserva lugares para os mesmos nomes perpetuando uma história de ausências de acesso e direitos para o nosso povo.</em></p>



<p><em>A velha cara da política diz que se renovar assume uma face de perseguição e amedrontamento, mas nós não recuaremos. Queremos a Nossa Cara na Política! Somos muitas e vamos juntas construir uma Fortaleza.</em></p>



<p>LEIA TAMBÉM: <a href="https://marcozero.org/plataforma-mapeia-candidaturas-feministas-pelo-brasil/">Plataforma mapeia candidaturas feministas pelo Brasil</a></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Professora e ativista questiona prioridades do MP</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/evorah-cardoso-foto-Gui-Mohallem-300x168.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/evorah-cardoso-foto-Gui-Mohallem.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/evorah-cardoso-foto-Gui-Mohallem.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" width="351">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">&#8220;Pode ser uma perda de mobilização histórica, sobretudo para mulheres negras&#8221;, diz Evorah Cardoso. Crédito: Gui Mohallem</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Na avaliação de Evorah Cardoso, professora, ativista, co-diretora do <a href="http://merepresenta.org.br/">#MeRepresenta</a> e integrante do #VoteLGBT e da Rede Feminista de Juristas (deFEMde), há uma questão de subjetividade no tema em questão. “E como se esse fosse o grande problema a ser fiscalizado nestas eleições”, provoca. Ela acredita numa perseguição à ideia de mandatos coletivos e diz que não se pode descartar a possibilidade de racismo institucional. O #MeRepresenta é uma organização, com plataforma online, formada por coletivos de mulheres, pessoas negras e LGBT+ em busca de promoção da igualdade.</p>



<p>“Em vez de o Ministério Público estar preocupado em fiscalizar recursos para candidaturas negras, está preferindo fazer uma cruzada contra as candidaturas coletivas. Corre-se o risco de minar várias dessas iniciativas este ano e isso pode ser uma perda de mobilização histórica, sobretudo para mulheres negras”, comenta a advogada paulistana.</p>



<p>Em comunicado à imprensa esta semana sobre o assunto das candidaturas eleitorais, o presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE), desembargador Frederico Neves, comenta que “Pela legislação em vigor, a candidatura é um ato individual. A Justiça Eleitoral examinará as condições de elegibilidade e eventuais causas de inelegibilidade de apenas uma pessoa. Acresça-se que somente um nome será admitido na urna eletrônica e será votado, vindo a assumir o cargo e a exercer as funções a ele inerentes, acaso eleito”.</p>



<p>“Particularmente, vejo com simpatia a iniciativa, por estar convencido de que, duas ou mais pessoas especializadas, imbuídas num mesmo propósito, poderão prestar à sociedade, serviços mais abrangentes e de forma mais eficiente. Ocorre que, pela legislação em vigor, ainda não é possível a candidatura compartilhada”, complementa.</p>



<p>Procurado pela reportagem, o MPCE enviou uma nota. A reportagem não conseguiu entrevista com a promotora Ana Maria. </p>



<p><strong>Confira a nota do MPCE na íntegra:</strong></p>



<p><em>O Ministério Público Eleitoral, por meio da Promotoria da 117ª Zona Eleitoral, confirma que já foi protocolada a Impugnação desde o dia 27 de setembro de 2020. O prazo final para o Tribunal Regional Eleitoral (TRE/CE) e os demais Tribunais julgarem as impugnações de registro de candidatura é dia 26 de outubro de 2020. No caso em exame, a impugnação da candidatura de ADRIANA GERÔNIMO VIEIRA SILVA, ao cargo de vereadora, pelo partido PSOL, foi somente em relação ao nome da Urna, a saber, “Nossa Cara”, que não identifica a candidata e não obedece ao artigo 25 da Resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) n° 23.609/2019. Em 30 de setembro de 2020, através do Mural Eletrônico, foi feita a citação da candidata para, no prazo de sete dias, contestar a impugnação. Em redes sociais constam propagandas eleitorais e postagens da candidata Adriana Jerônimo, apelidada por “Nossa Cara” em referência à candidatura coletiva envolvendo mais duas pessoas, em total discrepância com a legislação eleitoral, que não prevê tal situação. Após a impugnação do nome, o Ministério Público Eleitoral adotará medidas para que não sejam divulgadas informações inverídicas na propaganda eleitoral, ou seja, propaganda de pessoas que não ostentam a condição de candidata.</em></p>



<p>LEIA TAMBÉM: <a href="https://marcozero.org/o-que-mudou-para-as-eleicoes-de-2020/">O que mudou para as eleições de 2020</a></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Conheça as mulheres da candidatura coletiva Nossa Cara</strong></h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/nossa-cara-foto-Sara-Vieira-Rosa-3-300x200.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/nossa-cara-foto-Sara-Vieira-Rosa-3-1024x682.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/10/nossa-cara-foto-Sara-Vieira-Rosa-3-1024x682.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Lila e Adriana e Louise. Crédito: Sara Vieira Rosas. Crédito: Sara Vieira Rosas</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Adriana Gerônimo</strong></p>



<p>Com 30 anos, Adriana é mãe de duas meninas e “militante fazedora de política no cotidiano”, como ela mesma define. Assistente social de formação, vive na comunidade Lagamar e também luta na disputa por equipamentos públicos &#8211; passou um ano para conseguir uma vaga na creche para a filha mais nova. Também milita no movimento por moradia e segurança pública na esfera popular.</p>



<p><strong>Louise Santana</strong></p>



<p>Com 30 anos, formada em pedagogia, está professora substituta numa escola pública da periferia de Fortaleza e é estudante de direito na Universidade Federal do Ceará (UFC). Cresceu no loteamento Santa Terezinha, na regional cinco, uma das mais precarizadas da cidade. Cristã, entrou cedo na movimento popular a partir da igreja, de associações de bairro e do movimento estudantil. Depois se organizou no movimento de mulheres. Em 2012, foi vítima de violência doméstica, fato que também faz parte da sua construção de luta social. Atualmente atua na Rede de Mulheres Negras do Ceará e na luta do movimento por direito à moradia.</p>



<p><strong>Lila Salú</strong></p>



<p>Com 32 anos, iniciou a militância aos 14 atraves do movimento hip hop e depois trilhando os caminhos com os movimentos LGBTQIA+ e feminista negro. Faz parte do grupo Tambores de Safo, que milita a partir da arte e da percussão. Nascida e criada na favela da Verdes Mares, hoje é moradora do conjunto Jardim União, no bairro Passaré. Estudante de bacharelado em humanidades na Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira). Além de ativista, é tia, irmã e filha a pauta a luta da mulher preta, trans, sapatão e da quebrada que ocupa o espaço de referência dentro de casa e do cuidado, sobretudo de crianças e idosos, além da questão da violência contra mulheres, crianças e adolescentes.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ministerio-publico-do-ceara-tenta-impugnar-candidatura-coletiva-de-mulheres-pretas/">Ministério Público do Ceará tenta impugnar candidatura coletiva de mulheres pretas</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/ministerio-publico-do-ceara-tenta-impugnar-candidatura-coletiva-de-mulheres-pretas/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Para Joaninha Dias, “quebrar correntes é o que a educação antirracista faz.”</title>
		<link>https://marcozero.org/para-joaninha-dias-quebrar-correntes-e-o-que-a-educacao-antirracista-faz/</link>
					<comments>https://marcozero.org/para-joaninha-dias-quebrar-correntes-e-o-que-a-educacao-antirracista-faz/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Helena Dias]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2020 22:31:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[antirracista]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[educação antirracista]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[Julho das Pretas]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres negras]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=29210</guid>

					<description><![CDATA[<p>“Você se reconhece como mulher negra?”, questiona Joaninha Dias à repórter logo no primeiro contato. Ao escutar a resposta, a professora antirracista e ativista da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco topou conversar com a Marco Zero e iniciou uma aula em forma de entrevista que explica desde a origem do seu sobrenome até a [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/para-joaninha-dias-quebrar-correntes-e-o-que-a-educacao-antirracista-faz/">Para Joaninha Dias, “quebrar correntes é o que a educação antirracista faz.”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Você se reconhece como mulher negra?”, questiona Joaninha Dias à repórter logo no primeiro contato. Ao escutar a resposta, a professora antirracista e ativista da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco topou conversar com a Marco Zero e iniciou uma aula em forma de entrevista que explica desde a origem do seu sobrenome até a vivência de quem se propõe diariamente a mover as estruturas da educação por uma sociedade antirracista.</p>



<p>Pedagoga formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Joaninha tem 37 anos de idade e atua como professora há 17 anos. Costuma dizer que é ativista no movimento negro desde criança, quando um tio a levava para as reuniões do Movimento Negro Unificado (MNU). Desde 2017, faz parte da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, processos organizativos que segundo ela “movimentam o mundo daqui para frente”.</p>



<p>“O sobrenome Dias da minha família veio de uma maneira muito ancestral mesmo. O meu bisavô foi criado em um orfanato. O nome dele era Carlos José André, ele não tinha sobrenome. Quando ele casou e o meu avô nasceu, ele colocou o nome de José Roque Dias e disse que a partir do nascimento do meu avô os ‘Dias melhores viriam’. Essa é a origem da minha família Dias.”</p>



<p>Mulher negra, gorda, bissexual e praticante do poliamor, como gosta de ressaltar, Joaninha é nascida e criada no bairro recifense de Água Fria. Mora lá até hoje, local de onde se expressa para o mundo como educadora, poeta, escritora e autora de atividades pedagógicas afrocentradas como é o caso do <em>Manual de Atividades com Contos Africanos</em> que escreveu. Atualmente, dá aula para o Ensino Fundamental I das redes públicas de duas cidades de Pernambuco.</p>



<p>A conversa sobre educação antirracista sob a perspectiva de Joaninha Dias, você pode conferir abaixo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/07/WhatsApp-Image-2020-07-20-at-12.26.17-300x225.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/07/WhatsApp-Image-2020-07-20-at-12.26.17.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/07/WhatsApp-Image-2020-07-20-at-12.26.17.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" width="580">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Crédito: Arquivo pessoal</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Como é ser professora antirracista em um país que ainda está longe de ter uma educação antirracista?</strong></p>



<p>Na verdade, na verdade&#8230; É um trabalho extremamente árduo porque nós estamos trabalhando uma educação antirracista em um país racista que não reconhece que é racista, nem reconhece que é o racismo que faz com que os corpos estejam no chão todos os dias. É muito complicado vivenciar essa realidade todos os dias quando você olha ao seu redor e vê o racismo em todos os ambientes, em todas as suas etapas, em todos os locais, em todos os sistemas, em tudo. É adoecedor. E ser uma professora antirracista dentro desse contexto é exatamente a luta árdua pela mudança, sabe? Porque a primeira coisa para você ser antirracista é o reconhecimento que a educação do Brasil é uma educação racista. Tudo o que tem no currículo é racista, a organização é racista, as aulas são racistas. Tudo é racista, porque na verdade é um projeto que fez o apagamento do povo indígena e do povo preto. Isso faz com que a gente necessite colocar o raio antirracista em tudo. Em todo material didático que a gente recebe, em todo livro didático, em toda aula. Temos que colocar na aula sempre a contribuição de todos os povos não brancos dentro do contexto, sabe? O tempo inteiro trazer as imagens de pessoas negras, as conquistas, as produções. E, desde o início da aula, se rebelar e não fazer a oração inicial que é sempre o pai nosso que dizem que é universal, mas só universal para quem é cristão, para quem não é cristão, não é. E a escola é laica. Então começa aí o ato de você não fazer essa oração e dizer às crianças que elas também não façam porque a escola não tem essa função social. A escola não é religiosa, não é pra ser, pelo menos. No horário do recreio, por exemplo, as pessoas dizem “parem de correr”. Não gente, é para correr mesmo, exercitar o corpo, brincar com o sol na cara. Entendesse? É esse tipo de coisa, é vivenciar o antirracismo em todas as situações. É o tempo todo. É cansativo, mas é extremamente necessário, porque é preciso que o antirracismo esteja presente em todos os momentos da educação.</p>



<p><strong>Nos processos organizativos dos movimentos negros, podemos dizer que a educação é a base?</strong></p>



<p>Sim. Na organização dos movimentos negros ela sempre foi a base de tudo, mas uma educação negra, uma educação baseada em nós, para nós, por nós. Valorizando os nossos conhecimentos, um currículo feito para nós e por nós, com nossa ancestralidade, com nossos conhecimentos, com um currículo organizado e pensado, com as contribuições do povo negro dentro. Esses processos educativos sempre estiveram presentes dentro dos movimentos negros Esse empoderamento educacional dos nossos, dentro dos nossos espaços, é o que faz com que a gente se torne mais forte ainda. Então, educação negra enraizada dentro de nós, para nós e por nós é um dos processos organizativos para ter a base para uma reconstrução e reorganização dos movimentos sempre todos os dias.</p>



<p><strong>Como se dão essas práticas hoje atualmente? Pergunto sobre você como professora antirracista e integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. O <em>Manual de Atividades com Contos Africanos</em> é um exemplo disso?</strong></p>



<p>Bom, falando primeiramente enquanto integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, nós temos vários processos educativos dentro do nosso movimento, porque a gente acredita que a educação de nós mesmas, mulheres pretas, é base para a luta. Então, temos muitas rodas de conversa, debates, palestras, oficinas em várias cidades e comunidades que atuamos. Nós temos também os trabalhos como as Jornadas Negras de Formação Política, atividade voltada para a aprendizagem de nossa história de luta e ministrada por e para mulheres negras de nosso estado. Atividade esta aberta também para movimentos e coletivos parceiros. Ainda temos as Jornadas Negras de Formação para Adolescentes, com uma pauta construída à partir dos interesses desse público e ministrada pelas mulheres dentro da faixa de juventude da Rede. Em 2019 realizamos o nosso primeiro Encontro de Crianças Negras, com atividades pensadas e organizadas para o entendimento nossa historicidade e ancestralidade, nossa luta, nossa beleza, brinquedos e brincadeiras, nossos heróis e heroínas, nossas heranças de África. E esses processos de educação se dão de maneira bem efetiva e afetiva, nessa busca por aprender e por ensinar. Porque a gente está nisso mesmo, sabe? Todas nós temos algo para ensinar e para aprender. Então existe essa troca, de uma ensinar a outra. Existem os momentos organizados para pensar sobre diversos temas. Organizar pessoas negras que falem sobre esses temas e construir conhecimento coletivo e ancestral. Essa formação garante muita coisa. Em relação à minha produção de material antirracista, eu sou uma professora e também autora de atividades pedagógicas sobre afrodescendência. Atividades antirracistas que, na verdade, buscam a ideia de popularizar materiais que tenham cunho antirracista e sejam distribuídos de maneira gratuita para que todas as crianças tenham acesso a esse material. E que o poder aquisitivo, o dinheiro, não seja um empecilho para aquele professor, aquela professora, aquela criança, aquela mãe e aquele pai que querem usar o material. Os responsáveis só precisam baixar o material e utilizar em casa.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong><em>LEIA TAMBÉM:</em></strong> <a href="https://marcozero.org/o-circo-popular-e-o-espetaculo-do-respeito-a-diversidade/">O circo popular e o espetáculo do respeito à diversidade</a><br></p></blockquote>



<p><strong>Em entrevista ao Instituto da Mulher Negra, Geledés, a pedagoga Clélia Rosa afirmou que a Lei 10.639/2003 não tem sido efetivada porque a educação antirracista tem acontecido por meio de projetos e não como uma mudança estrutural nas diretrizes e bases da educação nacional. Você compartilha desta análise?</strong></p>



<p>Concordo total com a colega. Uma máxima que eu falo sempre é “Educação antirracista não é projeto. É currículo!”. Projetos acontecem pontualmente em determinados momentos do ano letivo. A educação antirracista ela acontece todo dia, entendeu? Em cada momento da sala de aula, em cada análise, em cada conversa, texto, em cada vídeo e debate. As pessoas confundem, e muitas vezes é o racismo que faz isso, acreditam que a Lei 10.639/2003 veio com a obrigatoriedade e que fazer projeto dá conta. Projetos são feitos em datas comemorativas, eventos. E a educação antirracista tem que ser diária. Um exemplo disso é quando você chega na sala de aula e vai trabalhar o gênero textual poema. Você abre o livro didático e os poemas que estão lá são de pessoas brancas, quem ilustra aqueles poemas são ilustradores e ilustradoras brancas. Todo livro didático é branco. E como eu coloco o antirracismo nisso? Eu trago também poetas pretos e pretas, eu trago também ilustradores pretos e pretas, eu mostro a história deles e como eles escrevem. Trago para exemplo as imagens deles, porque a criança preta precisa se ver e a criança branca precisa entender que não existe só ela no mundo, sabe? Porque ela se vê demais.</p>



<p><strong>Você sente que as pessoas e os governos ainda acham que a educação antirracista é apenas para pessoas negras?</strong></p>



<p>As pessoas ainda acham que racismo só tem a ver com pessoa preta, então acreditam que a educação antirracista só tem a ver com pessoa preta também. É um erro enorme, porque a educação antirracista é para todos. É para todas as pessoas, porque as pessoas brancas têm a educação delas, porque é educação que prima por elas. Elas veem nas atividades, se veem nas fotos, se veem em tudo. Mas essa é uma educação racista, entendeu? A educação racista é para todos porque é com ela que o povo preto vai se ver na sala de aula todo dia e o povo branco vai entender que ele não é o único no mundo. </p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-center is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>&#8220;É comum algumas professoras brancas chegarem e dizerem “Joaninha, eu amo muito seu trabalho. Seu trabalho é maravilhoso! Eu gosto muito dele, acho massa o que você faz”. E eu viro para elas e digo: &#8220;Mas você tem que fazer também&#8221;</strong></p></blockquote>



<p>Vai reconhecer seus privilégios, privilégios de estarem em todos os lugares sem nunca terem parado pra pensar o porquê estão em todos os lugares e a pessoa preta nunca está. Só está em lugares de degradação. Então, os governos estão tentando fazer a linha da educação das relações étnico-racial, mas tentando sair do esquema de projeto. Mas, ainda longe de chegar no esquema diário e interligado com as organizações, conceitos e ideias do que se pode fazer. Isso é uma coisa que deixa a gente muito irritada mesmo, arretada, porque é mais uma pedra no caminho. Mais um problema que a gente tem que ultrapassar para fazer o trabalho, para conseguir fazer o entendimento. É comum algumas professoras brancas chegarem e dizerem “Joaninha, eu amo muito seu trabalho. Seu trabalho é maravilhoso! Eu gosto muito dele, acho massa o que você faz”. E eu viro para elas e digo: &#8220;Mas você tem que fazer também&#8221;. Porque a educação antirracista é para ser feita por todas as professoras e não somente as pretas.</p>



<p><strong>De acordo com as suas experiências em sala de aula, quais são as principais questões levantadas pelas crianças em relação à temática racial? É um desafio diferenciar o bullying do racismo?</strong></p>



<p>Primeiramente, a questão de diferenciar bullying de racismo é uma coisa muito recorrente em sala de aula. Existe uma naturalização do racismo como bullying, isso é mais um traço do racismo institucionalizado. Eu faço sempre a alusão de que, quando você chama um colega de macaco e você chama uma colega de baleia, a diferença é que quando se chama uma pessoa negra de macaca você está dizendo que ela não é uma pessoa, que ela não tem humanidade, que ela não merece o título de humana, sabe? Isso é o traço racista em tudo. Se eu chamo uma pessoa de baleia porque ela é gorda, é gordofobia. Entendo tudo isso! A diferença é que eu não digo que ela é uma baleia literalmente, eu só digo que ela se assemelha. Quando eu chamo uma pessoa preta de macaco, eu estou dizendo que ela é inferior a mim humanamente. E essa é a conversa que se tem em sala de aula, aí perguntamos o porquê de não chamar de outra coisa. Fazemos essas reflexões porque a escola é onde as crianças sofrem muito racismo. E esse racismo termina sendo naturalizados pelas escolas como caso de abuso, não tratam como racismo. Não se trata a ideia de que não foi um abuso, de que a criança foi desumanizada racista e estruturalmente. Essa conversa com as crianças, lógico que não nesse tipo de linguagem, é uma linguagem voltada ao entendimento de que a gente tem que levar essas questões. Dentro das salas de aula, quando eu trabalho, eu levo muitos artistas e escritores. Muitas pessoas pretas de todas as áreas do conhecimento, pessoas de perto e de longe e tudo o que você possa imaginar. Uma coisa que é recorrente, que a gente sempre tem muita conversa, é principalmente o racismo religioso. As crianças tem muito interesse em saber porque são religiões que são demonizadas na vida delas, então elas têm interesse sobre isso. E também sobre questões como, por exemplo, Pernambuco foi a capitania que deu mais lucro na época da cana-de açúcar porque o povo que veio para cá foi o povo banto, que é o povo de África que era especialista em agricultura, que criou os instrumentos como enxada e tudo mais. Essa vontade de aprender e conhecer vai surgindo e as aulas vão ficando motivadas. E a gente vai levando esses materiais e entrelaçando com os assuntos que estão dentro do currículo, porque é isso que eu chamo de raio antirracista. O currículo está lá, eu pego ele e transformo em uma educação antirracista.</p>



<p><strong>Recentemente, as mortes de George Floyd nos EUA e a morte do menino Miguel aqui no Recife causaram comoção. Mas, perdemos vidas negras todos os dias desde o tempo da colonização do Brasil com pouca ou nenhuma comoção social. Houve um levante de pautar a educação antirracista como forma de mudar esta realidade. O que você pensa sobre estes levantes na perspectiva de luta? Eles se dissolvem ou representam transformações?</strong></p>



<p>A morte de George Floyd teve muita cobertura da mídia mundial e isso fez com que chegasse à maioria dos lugares do mundo, sim, e vem a reflexão de que as pessoas pretas morrem todo tempo em todo lugar. Nossos jovens morrem pelas mãos da polícia o tempo todo, todo dia. Nossas mulheres pretas morrem tentando dar à luz às crianças pretas e não recebem anestesia porque dizem que nós aguentamos mais dor. Nós estamos encarceradas e encarcerados nos presídios em condições insalubres, nós vivemos abaixo da linha da pobreza.</p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-center is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>&#8220;Casos como o de George Floyd mostram para as pessoas que é isso que acontece com a gente diariamente. Que aquilo que aconteceu com Floyd é o que acontece com a gente o tempo todo, não é um caso isolado.&#8221;</strong></p></blockquote>



<p>Somos os que ganhamos menos e que menos nos alimentamos direito. E isso tudo remete ao racismo estrutural que nos permeia o tempo todo. Casos como o de George Floyd mostram para as pessoas que é isso que acontece com a gente diariamente. Que aquilo que aconteceu com Floyd é o que acontece com a gente o tempo todo, não é um caso isolado. E existem sim, nesses levantes, muita comoção nas redes sociais, mas na vida real mesmo são poucos os aliados e as aliadas que se firmam nessa luta antirracista, nessa busca por uma educação antirracista que realmente coloque que a dor e a vida do povo preto são importantes. Depois da comoção geral, os aliados que ficam são poucos, sabe? Nós temos o caso do menino Miguel, desse crime hediondo, e o quanto que isso dilacera todas as pessoas pretas. As mulheres pretas. E nós, da Rede de Mulheres Negras, ficamos totalmente dilaceradas por dentro, por fora, na alma, no espírito, no corpo e na mente. Estamos na luta nas passeatas, na organização dos atos, mas o outro lado a gente está também de conversar com Mirtes, saber como ela está. Saber se ela tem alimento, do lado de ter uma conversa, de cuidar. As políticas públicas não veem para cuidar de nós e sim vem nos dilacerar mais. Falo isso emocionada porque isso me toca muito no que vivencio a vida inteira. Essas comoção e empatia são pontuais, momentâneas, e se dissolvem. Ficam alguns apoios e algumas pessoas que reconhecem seus privilégios e vêm para junto na luta antirracista, mas não representam tantas transformações. Ainda são os nossos que morrem e ainda não causam tanto espanto como se fosse uma pessoa branca morrendo. A perspectiva de luta que se tem e que se reconhece é que, no final das contas, a comoção tem que fazer mais do que comover. Tem que comover e tem que propiciar atitude de luta e apoio, parceria e junção para que o antirracismo prevaleça em todas as esferas sociais desse país.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/07/WhatsApp-Image-2020-07-17-at-15.23.58-291x300.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/07/WhatsApp-Image-2020-07-17-at-15.23.58.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/07/WhatsApp-Image-2020-07-17-at-15.23.58.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Crédito :Arquivo pessoal</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Como está a educação antirracista em tempos de pandemia?</strong></p>



<p>Eu sou professora de escola pública, sempre fui. Nessa pandemia, vem a preocupação de que as crianças não conseguem ter a estrutura para estudar, não conseguem se concentrar porque não tem como fazer pela internet algo que no pessoal a gente já tem dificuldade de fazer. Há preocupação com a alimentação dessas crianças, com o ambiente que elas estão em casa. Com o acesso à internet e ao celular, ao que puder, sabe? Preocupação com o tipo de atividade que elas estão fazendo. E como se dá a educação antirracista em tempos de pandemia? A minha preocupação maior é que as crianças não estão tendo acesso ao que a escola sempre propiciou, sabe? Que era o momento de estar ali. Estou falando por mim, estou falando nesse momento enquanto professora e pessoa. E o que a sala de aula sempre representou para mim e o que eu queria que representasse para as crianças. Sempre foi um ponto de segurança, um lugar seguro. A sala de aula era o momento de interação, aprendizado e cumplicidade. De conversa, de apoio e segurança, de você falar o que fosse para a professora e saber que tinha ali uma pessoa para lhe ajudar, para lhe auxiliar em todos os sentidos e que, no outro dia, você voltaria e encontraria aquele ambiente rico de produção de conhecimento e aprendizado. Se vendo nos desenhos, a sua cor preta lá. Vendo pessoas que escreveram, que produziram, que construíram coisas no tom da sua pele também. A preocupação é grande demais. Porque, no final das contas, o que é internet e celular pra ter aula online se a dificuldade para aprender e a ler dentro da sala de aula é tanta? Imagina no celular. O que eu faço para dar uma minimizada porque eu não tenho como fazer mais já que é pandemia? As atividades vão seguindo., principalmente atividades relacionadas à música pra ter uma ludicidade com cantores e cantoras pretas para termos atividades de alfabetização neste contexto. Usando as músicas desses artistas, muitos jogos e brincadeiras dentro do contexto de caça-palavras, palavras cruzadas, jogo de sete erros, pinturas. Muita contação de história, muito aconchego e acalanto na melhor maneira que dá para fazer.</p>



<p><strong>Estamos no Julho das Pretas, mas a dica vai servir para a vida. Te peço que indique um livro que você considera indispensável para as mulheres negras lerem e peço que direcione uma fala para elas. Algo que diria à todas.</strong></p>



<p>Eu não posso indicar um livro, entendeu? Eu sou quem indica pessoas que escreveram os livros, porque o meu mantra é “Leia pessoas negras.”Leia homens negros, mas leia mulheres negras. O mercado editorial coloca homens brancos e mulheres brancas nas publicações. Ler homens negros e mulheres negras é revolução. Então, lê mulher preta! Lê a tua vizinha, a tua amiga, lê a tua amiga que faz um poema. A tua irmã que escreveu a receita de bolo que a tua vó passou. Lê as pessoas da tua cidade, do teu estado, as pessoas do país todo. Leia Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Maria Carolina de Jesus, Juliana Borges, Cidinha da Silva, Inaldete Pinheiro, Odailta Alves, Joy Thamires. Lê e vai lendo, lendo e reconhecendo essas mulheres pretas que tem muito a dizer, a escrever e muito a contar. Na verdade, o que conta esse reconhecimento é nosso. Somos nós e nós. Ler mulheres negras é se reconhecer nas linhas, se ver nas palavras. É olha para outra mulher e estar com um espelho, saber que aquela mulher te olha e se vê também e o quanto isso é ancestral e maravilhoso.</p>



<p>O recado que eu quero dar para você, mulher preta, é que você se olhe no espelho e se reconheça maravilhosa. Porque você descende de um povo inteligente, organizado, belíssimo, estruturado, dono de todas as belezas e riquezas de África. Você já nasceu para ser maravilhosa e lembre-se que você não está sozinha, que você não precisa ser forte o tempo todo porque o racismo nos coloca em um lugar tão desumanizador que parece que a gente não pode sofrer. Parece que a gente não pode chorar ou sentir a dor. Só precisa sentir as pancadas e ficar firme? Não. Você pode chorar, se apoiar da sua amiga, sua irmã e seu irmão e dizer: eu estou cansada. E ele ou ela vão ser apoio e cuidado para você. Aqui não estamos mandando ninguém desistir, é só poder descansar contando um com outro. Lembre-se: você não está sozinha.</p>



<p>Os materiais afrocentrados produzidos por Joaninha Dias e citados na matéria são: Manual de Atividades com Contos Africanos; Contos Africanos: a ancestralidade guiando nossos passos; Caderno de atividades Afrocentradas; Orin: Música Preta na Sala de Aula. Interessados em ter acesso podem enviar um e-mail para o endereço eletrônico: joaninha.dias@yahoo.com.</p>



<figure class="wp-block-embed-wordpress wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-marco-zero-conteudo"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="08X0ipCRvr"><a href="https://marcozero.org/a-trajetoria-de-joelma-lima-da-dor-a-luta-por-justica-para-mario-e-contra-o-genocidio-do-povo-negro/">A trajetória de Joelma Lima: da dor à luta por justiça para Mário e contra o genocídio do povo negro</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;A trajetória de Joelma Lima: da dor à luta por justiça para Mário e contra o genocídio do povo negro&#8221; &#8212; Marco Zero Conteúdo" src="https://marcozero.org/a-trajetoria-de-joelma-lima-da-dor-a-luta-por-justica-para-mario-e-contra-o-genocidio-do-povo-negro/embed/#?secret=jlOWN3ppZN#?secret=08X0ipCRvr" data-secret="08X0ipCRvr" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/para-joaninha-dias-quebrar-correntes-e-o-que-a-educacao-antirracista-faz/">Para Joaninha Dias, “quebrar correntes é o que a educação antirracista faz.”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/para-joaninha-dias-quebrar-correntes-e-o-que-a-educacao-antirracista-faz/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Luíza Cavalcante: “Temos presenciado a fome na zona rural”</title>
		<link>https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/</link>
					<comments>https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2020 13:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[agroecologia]]></category>
		<category><![CDATA[ancestralidade]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[Luíza Cavalcante]]></category>
		<category><![CDATA[Mata Norte Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Tracunhaém]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=29032</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Chico Ludermir, com colaboração de Anthony Santana No final dos anos 1990, Luíza Cavalcante ocupava, junto com outras 300 famílias, uma terra que estava há 25 anos improdutiva, na zona rural de Tracunhaém, Mata Norte de Pernambuco. Depois de conflitos que se arrastaram por uma década, o que incluiu o despejo violento dos acampados, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/">Luíza Cavalcante: “Temos presenciado a fome na zona rural”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Chico Ludermir, com colaboração de Anthony Santana</strong></p>



<p>No final dos anos 1990, Luíza Cavalcante ocupava, junto com outras 300 famílias, uma terra que estava há 25 anos improdutiva, na zona rural de Tracunhaém, Mata Norte de Pernambuco. Depois de conflitos que se arrastaram por uma década, o que incluiu o despejo violento dos acampados, o envenenamento da terra e o assassinato e prisão de trabalhadores e trabalhadoras, o conjunto de assentamentos Chico Mendes foi, enfim, demarcado (ver filme <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Khx-3ciKZRo" target="_blank" aria-label="undefined (opens in a new tab)" rel="noreferrer noopener">Engenho Prado &#8211; Guerra de Baixa Intensidade na Zona da Mata Norte de Pernambuco</a>).</p>



<p>Quando saiu de Casa Amarela, no Recife, onde nasceu, em busca de um terreno para plantar e colher, Luíza ainda não sabia que o lugar para onde estava indo era o mesmo onde sua bisavó tinha sido escravizada. Conversando com a avó, escutou: “Você foi buscar suas raízes” e teve a certeza de que era aquele o seu espaço. Firmada naquela terra onde estão as marcas da sua história e a do Brasil, Luíza, mulher negra, de meia idade, começou a construção de um novo mundo, que chamou de Sítio Ágatha, em homenagem à sua neta – um espaço agroecológico, feminista negro e matriarcal.</p>



<p>Em meio à pandemia que, sem previsões de fim, destroçou o mundo da maneira que o conhecíamos, busco em Luíza a partilha da sabedoria de quem nunca deixou de lutar pela sua vida e pela dos seus e suas: a experiência de quem firma o compromisso diário com a transformação e que tem colocado em prática outras formas de se relacionar com a natureza e com o consumo. Ao mesmo tempo, essa conversa, que tivemos às vésperas do São João, faz parte de um gesto de descentralização das narrativas acerca do presente. A zona rural, que está sempre às sombras das luzes do centros urbanos, como ela relata, está às voltas com a miséria. “A gente tem presenciado a fome”, comenta sobre seus vizinhos.</p>



<p>Na entrevista que segue, mais uma <strong>parceria da Marco Zero Conteúdo com o Programa Entre (Rádio Paulo Freire e Universitária FM)</strong>, Luíza fala sobre como a zona rural tem vivenciado as crises sanitárias, políticas e econômicas; sobre as possibilidades de uma perspectiva afrocentrada de agroecologia e sobre formas de resistir e sobreviver: “Estar organizado politicamente é uma maneira de se manter vivo. Estar sempre junto, nunca andar só”, afirma.</p>



<p><strong>Confira a íntegra da entrevista:</strong></p>



<p><strong>A sua história de vida e a do sítio Ágatha são simbólicas e representativas da luta pela terra. Queria que você contasse o que desemboca na criação desse espaço?</strong></p>



<p>A minha relação com o Sítio Ághata é bem ancestral. Vem da história de minha mãe, de minha avó e de minha bisavó. Vem da ancestralidade do povo negro que foi arrancado de suas raízes em África e trazido para serem escravizados aqui nas terras do Engenho Vinagre – e assim foi com meus bisavós maternos. Minha avó nasce aqui (onde hoje é Tracunhaém) e depois migra para Casa Amarela, no Recife, quando casa. Teve minha mãe, que me teve em Casa Amarela, um quilombo urbano ou “peri-urbano” como eu costumo dizer. Daí eu venho para a luta pela terra aqui, na Zona da Mata Norte. E é aqui que a gente, de posse da terra, vai se firmando. Compreendemos que é uma herança nossa. Uma herança da ancestralidade. É aqui onde estão nossas raízes da diáspora. Foi aqui que minha bisavó desapareceu quando minha avó era criança: ela foi buscar água no rio e nunca voltou. O rio nunca devolveu o que não tomou. Para gente é uma questão muito importante de tornar esse sítio um lugar de fato de vida, um lugar de bem viver, de força, de mulheres.</p>



<p><br><strong>A gente sempre tem muito mais acesso às narrativas a partir dos centro urbanos. Mas as experiências rurais têm diversas particularidades que são apagadas e invisibilizadas. Como vocês do sítio têm lidado com esse momento? O que você tem observado das redondezas, do assentamento Chico Mendes ou de outros espaços que você tem tido notícias?</strong></p>



<p><br>Aqui no nosso entorno a gente tem sentido, vivenciado, presenciado a fome. Já existe fome. Embora nós estejamos numa área de assentamento, os nossos vizinhos no entorno têm necessidades. Eles vivem da cana-de-açúcar, desse trabalho sazonal. São seis meses trabalhando, seis meses não. A gente sabe que o Bolsa-Família não atende as necessidades completamente, então esse povo, a maioria preto, cheio de crianças, tem sentido esse impacto da fome mesmo. Está faltando alimento.</p>



<p>A gente tem desenvolvido por aqui uma campanha de doação de kits para o enfrentamento (ao coronavírus), não só de limpeza, mas de comida, para o enfrentamento da fome. Aos poucos temos conseguido cestas básicas e distribuído para essas pessoas. Juntamos isso a produtos agrícolas – a macaxeira, o milho&#8230; Quem tem esses produtos está também distribuindo a esses outros companheiros e companheiras que estão sofrendo já esse impacto. A gente sente também a falta de informação. A informação ainda chega muito raramente nesses lugares. Muita gente ainda não conseguiu entender de fato o que é que está acontecendo esse momento de pandemia, qual é de fato o perigo desse vírus. Informação, formação, alimentação: isso tem faltado muito na zona rural.<br><br><strong>Eu sei que não é de agora que você tem pensado formas de organização, resistência e transformação, elas atravessam por completo toda sua história de vida. Mas, diante do agora, nesse cenário, o que você consegue enxergar como possibilidade?</strong></p>



<p><br>Eu enxergo como possibilidade essa organização que as pessoas vêm fazendo, especialmente, nas periferias. O movimento de solidariedade, de distribuição de kits, de alimentos, de estar cuidando desse povo, aponta para o tipo de governança que a gente quer e para o tipo de relação que a gente quer estabelecer com os outros e outras. Eu tenho esperança que isso sirva como um instrumento de reflexão e de fortalecimento. O afeto, o cuidado, a solidariedade são as bases para sustentar um sistema de governança de um povo num território e muita gente está se voltando para isso: para fazer, ou melhor, para intensificar o que já vinha fazendo. A gente sabe que quem está fazendo agora já vinha antes atuando dentro das comunidades e agora se fortalece com mais gente chegando e participando.</p>



<p><strong>A gente reconhece nas práticas comunitárias um lugar de potência e transformação. Por outro lado a gente vive uma instituição politica que esmaga essas práticas, assim como tenta eliminar a diferença. A gente tem visto que na gestão dessa pandemia a prática política institucional é deixar as pessoas morrerem de diversas formas – de fome, também, como você citou. Eu queria te convidar a pensar essa gestão da política institucional brasileira e te perguntar como você entende que a gente consegue incidir sobre o que extrapola a nossa comunidade.</strong></p>



<p><br>Nesse momento, a gente vive um sistema que é um sistema de eleição. Tudo se resolve pelos partidos. É o que temos. Nesse estado de governança por partidos é preciso que a gente pense bastante em quem a gente quer que nos represente. É uma sociedade de representação. Quem me representa? Quem eu quero lá? Então esse é um chamado que eu faço para que as pessoas reflitam sobre isso. A gente olha para dentro desse país e vê que quem tá lá decidindo as nossas vidas são homens brancos. Qual é a cultura do homem branco nesse país senão a de extorsão, de violação de direitos, de negação da vida. A história de que o lucro é deles e cada vez mais deles. Romper com isso é necessário nesse momento para que a gente possa de fato estabelecer uma governança boa. Quando a gente olha para a governança de mulheres – desde a casa, o seu lar, as associações comunitárias e as outras organizações – é sempre uma gestão eficaz, boa, afetuosa e solidária. A gente olha e pensa o todo, pensa em todos e todas. É um momento que a gente chama para isso: para que a gente pense e reaja no sentido de colocar mulheres no poder. Chega de homem branco decidindo a nossa vida. Vamos mudar. Se é esse o sistema que a gente tem para o momento, mudemos de posição. Pensar as mulheres, pensar as mulheres negras no poder para esse momento, é necessário. Nós sabemos gerenciar. A gente vive a vida inteira administrando pouco. A gente sabe como administrar, como distribuir para todo mundo igualmente: como pegar um ovo e alimentar dez, como pegar um pão e alimentar dez. Uma mulher, especialmente negra, em espaços de poder, administrando uma prefeitura, um estado, uma assembleia legislativa, uma câmara de vereadores, um senado, a presidência da república, essa mulher vai saber favorecer de fato toda a nação, todo o território.</p>



<p><br><strong>A agroecologia é um conjunto de práticas que apontam para outra relação entre humano e natureza. Sei que é um tema que você tem se debruçado há muito tempo – tanto estudado como colocado em prática. O que você acha que a partir da agroecologia é possível enxergar e transformar?</strong></p>



<p><br>Quando a gente pensa agroecologia, acaba sempre pensando como um espaço de produção de alimentos. A agroecologia é um espaço de produção de conhecimentos, de produção, de novas relações acima de tudo. Esse tem sido o grande desafio da gente: estabelecer relações de fato solidárias, saudáveis, de um bem viver entre as pessoas e de chamar as pessoas a refletirem sobre ser um animal e ser também uma semente. Como tal, eu preciso estar bem com esses dois reinos – animal e vegetal. A agroecologia faz isso. Mas, para além disso, nós temos sido provocadas e temos, a partir da agroecologia, pensado as estruturas de poder. Repensar, olhar e reagir com relação ao patriarcado e como ele afeta esse campo, especialmente rural. A agroecologia hoje, através de um movimento de mulheres, em especial, a articulação de mulheres da Ana (Associação Nacional de Agroecologia), e também através da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, vem trabalhando nesse aspecto do patriarcado e os impactos dele na vida das mulheres no campo agroecológico e não agroecológico também. Quando a gente vem para o rural são muito fortes as opressões que são estabelecidas. Visibilizar isso e lutar contra é uma obrigação que a gente tomou para si no campo agroecológico também. Se há racismo, não há agroecologia. Se há opressão contra a mulher, não há agroecologia. Então, sem feminismo não há agroecologia. A gente tem trazido esse debate pela divisão justa do trabalho doméstico e no enfrentamento a essas relações patriarcais. Ao mesmo tempo, há muito racismo. Em geral, quando se vinha para o campo pensando agroecologia enquanto produção de alimentos, a gente encontrava sempre os agricultores das famílias brancas nos espaços de feiras e também na mídia. O casal branco bem sucedido. Isso denuncia as estruturas de sociedade. Hoje o povo negro e indígena tem dito: “Estamos aqui. Somos povos ancestrais que trazem consigo esse conhecimento e prática. A gente não mais cede e nem permite mais que tomem nossa voz, nosso papel, que nos invisibilizem. Estamos fazendo e queremos estar também nos espaços de tomada de decisão”. E minimamente temos conseguido isso. A agroecologia vem cumprindo um papel muito importante de pensar o todo. Não só a produção do alimento, mas tudo o que envolve essa produção. Do alimento ao conhecimento. A produção também dos enfrentamentos às estruturas que trazem desamor, destruição.</p>



<p><br><strong>Você que tem na sua história a luta pela reforma agrária, que se colocou em confronto com grupos muito poderosos – com latifundiários, com a polícia, com o </strong><strong>E</strong><strong>stado e toda essa estrutura complexa de opressões, de gênero, de raça, como é possível enfrentar esse momento?</strong></p>



<p><br>Tomar água! (risos). Beber água é uma forma de se manter vivo. Mas se organizar, estar organizado, é uma maneira de se manter vivo. Se organizar dentro de casa com seus filhos, seus irmãos, seus pais, seus parentes, seus familiares; se organizar consigo mesmo; se organizar dentro da comunidade, nos sindicatos, nos grupos de mulheres, nos grupos de leitura; se organizar socialmente nos grupos de cultura. Se organizar, mobilizar, estar juntos é uma maneira de a gente se manter vivos neste tempo. Não andar só. Lembrar que a gente olha no olho do outro para confiar, como dizem os mais velhos: “o olhar é o portal da alma”. Você olha no olho do outro e vê a alma. Se você vê que a alma do outro é ruim, foge. Não confie em homem fardado e nem em determinadas instituições que a gente já sabe, são falidas. Elas vivem para nos negar o direito e violar a vida. Estar sempre juntos e beber muita água.</p>



<p><br><strong>Como eu tenho feito para todos os meus entrevistados e entrevistadas, eu queria terminar esse programa te fazendo o que eu tenho chamado de “pergunta entre”. Pensando nesse</strong><strong>s</strong><strong> outros possíveis, que t</strong><strong>ê</strong><strong>m </strong><strong>que </strong><strong>ser imaginados e refeitos, que outro mundo precisa entrar? Ou que experiências, práticas e sujeitos precisam entrar nesse outro mundo que é urgente criar?</strong></p>



<p>Precisa entrar um mundo de bem viver. Um mundo sem racismo, sem lesbofobia, sem homofobia, sem machismo. Um mundo sem patriarcado e sem capitalismo. Um mundo sem tudo isso que vem nos matando, mas, sim, um mundo de afeto, solidariedade. Um mundo de partilha e de compaixão. Esse mundo precisa retomar seu lugar e a gente tem muito em que se mirar: estão aí os povos indígenas, estão aqui os povos negros. Quando a gente olha para trás e para o lado – nem precisa olhar muito longe – existem muitos grupos resistindo, e reexistindo com uma vida de qualidade, lutando por isso, por um bem viver de fato. A natureza, ela é o maior exemplo. Você olha o campo – e a gente está aqui vivendo esse momento do cuidado – você olha o sol, os elementos da natureza, as plantas, as flores, os frutos, o ar, o vento, a noite, as estrelas, a lua, a água. Você olha todos esses elementos que estão aqui fartamente disponíveis. É cuidar disso, aprender a conviver com isso. Aprender a respeitar. É esse mundo que precisa entrar: um mundo que eu olho para tudo em volta de mim – e todas e todos – e respeito e me sinto bem. A gente se dá as mãos. Esse mundo.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/">Luíza Cavalcante: “Temos presenciado a fome na zona rural”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/luiza-cavalcante-temos-presenciados-a-fome-na-zona-rural/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A potência do feminismo negro de Patricia Hill Collins</title>
		<link>https://marcozero.org/a-potencia-do-feminismo-negro-de-patricia-hill-collins/</link>
					<comments>https://marcozero.org/a-potencia-do-feminismo-negro-de-patricia-hill-collins/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Oct 2019 19:15:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[democracia em colapso]]></category>
		<category><![CDATA[editora boitempo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[Patrícia Hill Collins]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://marcozero.org/?p=19616</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo A cada mesa de debates que se iniciava no segundo dia do seminário internacional &#8220;Democracia em colapso?&#8221; no Sesc Pinheiros, nesta quarta-feira, 16, Kim Doria, da Boitempo Editorial, insistia para que o público participante aproveitasse os espaços de encontro e troca criados com o evento. A [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-potencia-do-feminismo-negro-de-patricia-hill-collins/">A potência do feminismo negro de Patricia Hill Collins</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png"><img decoding="async" class="wp-image-19605 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png" alt="67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F" width="149" height="126"></a>A cada mesa de debates que se iniciava no segundo dia do seminário internacional <strong>&#8220;Democracia em colapso?&#8221;</strong> no Sesc Pinheiros, nesta quarta-feira, 16, Kim Doria, da Boitempo Editorial, insistia para que o público participante aproveitasse os espaços de encontro e troca criados com o evento. A sugestão reflete as discussões feitas ao longo do dia, marcadas pelo esforço coletivo dos debatedores e debatedoras em oferecer críticas, caminhos de enfrentamento e respostas às opressões produzidas pelos principais poderes instituídos em funcionamento na nossa sociedade: o estado, os grupos econômicos, a justiça, a família, a religião.</p>
<p>O destaque foi a presença da socióloga norte-americana Patricia Hill Collins, acolhida por uma calorosa ovação motivada por sua trajetória como pensadora e ativista do feminismo negro, introduzida de maneira cuidadosa pela ativista e pesquisadora Winnie Bueno e comentada com notável engajamento pela historiadora Raquel Barreto. Hill Collins assumiu desde o início de sua apresentação na mesa &#8220;Feminismo negro e a política do empoderamento&#8221; a tarefa de falar sobre política não no sentido formal ou ideológico, mas &#8220;de baixo para cima&#8221;, das pessoas para o mundo, de modo a ressaltar um repertório de apoio, conhecimento e ação a partir do feminismo negro.</p>
<p>Em primeiro lugar, a socióloga tratou de contrapor a ideia, muito recorrente em círculos intelectuais hegemônicos, de que o feminismo negro seja apenas uma &#8220;versão negra&#8221; de algo já existente. E fez isso através da reflexão em torno da noção de cativeiro: lugares, situações e circunstâncias históricas que aprisionam as mulheres negras, objetiva e subjetivamente. Tais circunstâncias se alteram e a palavra cativeiro pode até sumir, observa ela, mas as tecnologias que as sustentam são reinventadas. Diante das situações concretas de opressão, levando em conta raça, classe, gênero, sexualidade, nacionalidade, o feminismo faz então uma pergunta fundamental: &#8220;o que uma pessoa negra precisa no momento para ser livre?&#8221;</p>
<p>O caminho para a resposta está, segundo a autora, nas políticas de empoderamento, que passam por quatro pontos: a esperança capaz de nutrir de força para as &#8220;questões de vida e morte&#8221;; a interseccionalidade, que permite uma análise de como o mundo social molda a experiência das mulheres negras; a tomada de posição, que materializa uma recusa indignada às injustiças sociais; e a ação política, que diz respeito ao enfrentamento de um conjunto particular de desafios. É no curso dessas políticas – complementares, jamais concorrentes – que entrariam formas de ação diversas, das estratégias básicas de sobrevivência, passando por uma política cultural que toma as artes e a estética como fatores de empoderamento negro, até a participação na política institucional ou partidária.</p>
<p><b>&#8220;O que vocês querem é destruir a família? Sim&#8221;, diz Amanda Palh</b>a</p>
<p>A primeira mesa do dia discutiu como visões ligadas à família e à religião, historicamente centrais para a experiência popular brasileira, têm sido mobilizadas hoje no campo da política institucional. Contando com a participação da cientista política Flávia Biroli, da educadora&nbsp;e militante travesti Amanda Palha e do Pastor Henrique Vieira, o debate teve início com uma importante contextualização de Biroli, que revelou que o termo &#8220;ideologia de gênero&#8221; surgiu no seio da Igreja Católica da América Latina, assim usado em documento de 1998 da episcopal peruana, e encontra até hoje nos católicos a sua &#8220;base epistemológica&#8221;, mesmo que atualmente a reação conservadora em torno dele seja puxada por figuras evangélicas.</p>
<p>A contextualização da cientista abriu caminho para as contudentes considerações de Amanda Palha, que, antes de mais nada, fez questão de salientar o desrespeito de parte da esquerda a problemas concretos de LGBTs ao classificar as falas públicas machistas, homofóbicas e transfóbicas da ministra Damares Alves como mera &#8220;cortina de fumaça&#8221;. Mas Amanda Palha fez também um alerta aos movimentos: negar a existência de um desejo aberto de desconstruir o modelo de família tradicional é um retrocesso, contraditório, inclusive, em relação às origens dos movimentos feministas e LGBTs na América Latina, e nada trouxe de proveitoso à luta até aqui. Por isso, indagou e respondeu de um só golpe: &#8220;O que vocês querem é destruir a família? Sim!&#8221;.</p>
<p><div id="attachment_19627" style="width: 970px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/88284978-3AFC-4F68-B167-A101F8CCE5AC.jpeg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-19627" class="size-full wp-image-19627" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/88284978-3AFC-4F68-B167-A101F8CCE5AC.jpeg" alt="Educadora e militante travesti, Amanda Palha provocou a plateia no seminário Democracia em Colapso?" width="960" height="640"></a><p id="caption-attachment-19627" class="wp-caption-text">Educadora e militante travesti, Amanda Palha provocou a plateia no seminário Democracia em Colapso?</p></div></p>
<p>Em participação preocupada em desfazer os estigmas em torno da fé cristã evangélica e da massa de praticantes, o pastor Henrique Vieira argumentou a existência de uma pluralidade de visões dentro das igrejas brasileiras, situando o extremismo neopetencostal como um vetor de conservadorimos antes já dominantes na estrutura de nossa sociedade. Propôs, assim, uma prática religiosa não fundamentalista e, sem perder de vista a maneira pela qual o neoliberalismo econômico vem dilacerando o tecido social nos territórios mais empobrecidos e buscando pontos de contato com a fala de Amanda Paula, também a ressignificação da ideia de família.</p>
<h3><strong>Críticas aos aparatos jurídicos</strong></h3>
<p>Já no debate sobre &#8220;Judicalização da política e politização do judiciário&#8221;, notabilizou-se a análise incisiva da professora de direito Thula Pires sobre o papel do sistema jurídico na perpetuação e consolidação dos processos coloniais, com a qual dialogou o também professor de direito Alysson Mascaro, em uma abordagem macroestrutural da justiça no Brasil, e o especialista em segurança pública Luiz Eduardo Soares. Mas enquanto Luiz Eduardo Soares se concentrou na reflexão sobre a sanha punitivista e proibicionista do Brasil no período pós-reabertura democrática, Thula Pires enfatizou a necessidade de deslocamento do marco temporal: em vez da constituição de 1988, o momento de criação dos cursos de direito no Brasil.</p>
<p>A participação da professora esteve pautada nas referências afrodiaspóricas, ecoando alguns debates do dia anterior ao perceber na &#8220;politização da justiça&#8221; não uma perversão ou anomalia do sistema jurídico, mas a sua razão de ser na lógica capitalista, o motivo para o qual foi fabricado. Mas as ressonâncias entre um dia e outro de debates não pararam por aí. Tanto Thula Pires quanto Alysson Mascaro salientaram que a conquista de direitos no país se deu a despeito da ordem jurídica vigente, o que levou o professor a considerar: &#8220;Nenhum judiciário do mundo pode salvar nenhuma luta do mundo&#8221;.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-potencia-do-feminismo-negro-de-patricia-hill-collins/">A potência do feminismo negro de Patricia Hill Collins</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/a-potencia-do-feminismo-negro-de-patricia-hill-collins/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Três reportagens da Marco Zero para ler no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha</title>
		<link>https://marcozero.org/tres-reportagens-da-marco-zero-para-ler-no-dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/</link>
					<comments>https://marcozero.org/tres-reportagens-da-marco-zero-para-ler-no-dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jul 2019 11:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres negras]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://marcozero.org/?p=17625</guid>

					<description><![CDATA[<p>Em 1992, na República Dominicana, um grupo de mulheres negras organizou o 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas com o propósito de combater o racismo e o machismo sob uma perspectiva que só poderia ser construída por elas. Desse momento, nasceu o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, 25 de julho, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tres-reportagens-da-marco-zero-para-ler-no-dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/">Três reportagens da Marco Zero para ler no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1992, na República Dominicana, um grupo de mulheres negras organizou o 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas com o propósito de combater o racismo e o machismo sob uma perspectiva que só poderia ser construída por elas. Desse momento, nasceu o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, 25 de julho, que carrega o significado da luta diária das mulheres que vivem na região com os maiores índices de feminicídio do mundo. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), dos 25 países que têm as taxas mais elevadas, 14 são latino-americanos e caribenhos. Em 2017, o Brasil concentrou 40% dos feminicídios da América Latina.</p>
<p>Aqui, desde 2014, a data representa o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, em homenagem à liderança quilombola que viveu no Mato Grosso do Sul durante o século 18. Tereza chefiou o quilombo Quariterê, logo após a morte do seu marido José Piolho. Fez história criando um parlamento local, organizando a produção de armamento, alimentos e tecidos. Hoje, é inspiração e símbolo de força e luta, assim como Dandara, Luísa Mahin e tantas outras mulheres de resistência. A data dessa quinta-feira (25) é também o mote do Julho das Pretas, uma agenda dos movimentos de mulheres negras da Bahia e do Nordeste, que visa fortalecer organizações do feminismo negro.</p>
<p>Pautar questões étnico-raciais e de gênero é um compromisso da Marco Zero. O combate ao racismo e ao machismo está presente em vários dos nossos conteúdos jornalísticos. Pensando nisso e reafirmando esse posicionamento, selecionamos algumas reportagens para serem lidas neste Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.</p>
<p>Confira:</p>
<blockquote>
<h3><a href="https://marcozero.org/mulheres-negras-no-poder-potencializam-a-reestruturacao-da-esquerda/">Mulheres negras no poder potencializam a reestruturação da esquerda</a></h3>
<p>Forjadas nos movimentos sociais e nas práticas coletivas de mulheres negras que, de modo ancestral, já praticam o mantra recentemente difundido de não soltar as mãos de ninguém, Mônica Francisco e Áurea Carolina, eleitas deputada estadual pelo Rio de Janeiro e deputada federal por Minas Gerais, respectivamente, são forças políticas que estão reorganizando a esquerda brasileira. As duas se candidataram pelo Psol e constroem não apenas o partido, mas o campo da esquerda a partir de uma visão crítica.</p>
<p><div id="attachment_17629" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/301118MZC_Deputadas_009-1078x516.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-17629" class="wp-image-17629 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/301118MZC_Deputadas_009-1078x516-1024x490.jpg" alt="Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="702" height="335"></a><p id="caption-attachment-17629" class="wp-caption-text">Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<h3><a href="https://marcozero.org/entrevista-juliana-borges-a-radicalidade-da-transformacao-da-sociedade-esta-na-formulacao-que-mulheres-negras-estao-fazendo/">ENTREVISTA // Juliana Borges: “A radicalidade da transformação da sociedade está no que as mulheres negras estão fazendo”</a></h3>
<p>Radical, segundo o dicionário Michaelis, é aquilo que pertence ou é relativo à raiz. Outros significados disponíveis dão conta daquilo que “pretende reformas absolutas na política, na economia e na sociedade” ou, ainda, “que é seguidor do radicalismo”. Juliana Borges, autora do livro O que é encarceramento em massa – terceiro volume da coleção Feminismos Plurais da editora Letramento – não titubeia ao defender a radicalidade e a urgência do antipunitivismo e antiproibicionismo na sociedade brasileira.</p>
<p><div id="attachment_17631" style="width: 710px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/julianaokPeq.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-17631" class="wp-image-17631" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/julianaokPeq-300x159.jpg" alt="Crédito: Fran Silva/RENFA" width="700" height="373"></a><p id="caption-attachment-17631" class="wp-caption-text">Crédito: Fran Silva/RENFA</p></div></p>
<h3><a href="https://marcozero.org/minha-existencia-e-politica-o-pensamento-de-uma-afro-transativista/">“Minha existência é política”: o pensamento de uma afro transativista</a></h3>
<p>“Eu sou isso, mas não necessariamente eu vou ser o que você pensa. Isso é quebrar uma história única sobre a travesti”, diz Maria Clara Araújo dos Passos. Estudante do quinto período de Pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco, com 22 anos, a afro transfeminista é uma força pensante que se destaca no cenário de jovens ativistas no Brasil. Sua voz projeta a urgência das mulheres trans e travestis de falarem e produzirem conhecimento sobre si mesmas e, ao mesmo tempo, atuarem politicamente para mudar suas vidas.</p>
<p><div id="attachment_17632" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/20180411_163143-01-1024x516.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-17632" class="wp-image-17632" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/20180411_163143-01-1024x516.jpeg" alt="Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="702" height="354"></a><p id="caption-attachment-17632" class="wp-caption-text">Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tres-reportagens-da-marco-zero-para-ler-no-dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/">Três reportagens da Marco Zero para ler no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/tres-reportagens-da-marco-zero-para-ler-no-dia-internacional-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mulheres vão às ruas do Recife em homenagem a Marielle e contra a reforma da previdência</title>
		<link>https://marcozero.org/mulheres-vao-as-ruas-do-recife-em-homenagem-a-marielle-e-contra-a-reforma-da-previdencia/</link>
					<comments>https://marcozero.org/mulheres-vao-as-ruas-do-recife-em-homenagem-a-marielle-e-contra-a-reforma-da-previdencia/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Helena Dias]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Mar 2019 11:56:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[8 de março]]></category>
		<category><![CDATA[8M]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo Recife]]></category>
		<category><![CDATA[marielle franco]]></category>
		<category><![CDATA[Reforma da Previdência]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://marcozero.org/?p=13885</guid>

					<description><![CDATA[<p>Após um carnaval de resistência repleto de manifestações contra o governo de Jair Bolsonaro (PSL), o país voltou à rotina nas vésperas do Dia Internacional de Luta das Mulheres, o 8 de março, que deve mobilizar milhares de brasileiras por todo o país nesta sexta-feira. No Recife, o mote que levará as mulheres às ruas [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/mulheres-vao-as-ruas-do-recife-em-homenagem-a-marielle-e-contra-a-reforma-da-previdencia/">Mulheres vão às ruas do Recife em homenagem a Marielle e contra a reforma da previdência</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Após um carnaval de resistência repleto de manifestações contra o governo de Jair Bolsonaro (PSL), o país voltou à rotina nas vésperas do Dia Internacional de Luta das Mulheres, o 8 de março, que deve mobilizar milhares de brasileiras por todo o país nesta sexta-feira. No Recife, o mote que levará as mulheres às ruas no dia de hoje é “Marielles: livres do machismo, do racismo e pela previdência pública”, homenageando a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL), assassinada em 14 de março de 2018, e se posicionando contra a reforma da previdência que está sendo articulada no Congresso Nacional pelo presidente da República e sua equipe. A concentração do ato será às 14h, na Praça do Derby, e a saída está prevista para as 16h.</p>
<p>Onze eixos temáticos englobam a manifestação que vem sendo organizada desde janeiro, através de reuniões abertas ao público e pelas mãos de diversos movimentos feministas. A Marco Zero entrevistou cinco representantes de diferentes movimentos que fizeram parte da elaboração do ato recifense para entender a construção do 8 de março deste ano e os principais pontos que nortearam a primeira grande mobilização de mulheres após a vitória de Bolsonaro nas urnas.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/52394576_2326385587380150_6360646230921445376_n.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-13887 size-medium" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/52394576_2326385587380150_6360646230921445376_n-300x210.jpg" alt="52394576_2326385587380150_6360646230921445376_n" width="300" height="210"></a></p>
<blockquote><p>As mulheres continuam à frente da resistência, assim como aconteceu durante as eleições de 2018 com o levante “Ele não”. Confira os eixos:</p>
<p>1. Contra o Racismo: Vidas Negras Importam!</p>
<p>2. Pelo direito de viver e amar. Lesbofobia e Transfobia é Crime!</p>
<p>3. Pelo direito à proteção social: Não às Reformas Trabalhista e Previdenciária!</p>
<p>4. Por uma democracia justa e participativa para e pelas mulheres.</p>
<p>5. Pela Vida das Mulheres: Não ao Feminicídio!</p>
<p>6. A proibição das drogas mata e encarcera o povo negro. Pelo fim da guerra!</p>
<p>7. Legalização do aborto: pela autonomia e proteção das mulheres.</p>
<p>8. Em defesa dos territórios e da agroecologia: Margaridas do campo, das florestas, das águas e da cidade.</p>
<p>9. Não foi tragédia ambiental! Punição para os crimes da mineração!</p>
<p>10. Em defesa dos direitos e dos territórios das populações indígenas e quilombolas.</p>
<p>11. Pelo direito das mulheres com deficiência a uma vida plena! Abaixo a discriminação!</p></blockquote>
<p>Segundo a integrante do Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE), Sophia Branco, a formação do 8 de março é um momento de “desafio”, mas também de “crescimento” para os movimentos envolvidos. Os eixos estabelecidos são o resultado de um extenso diálogo que acontece de maneira mais densa em relação às outras mobilizações do calendário feminista. “É uma construção que dura mais ou menos dois meses e possibilita que a gente amadureça as ideias, o que é bem diferente de nos encontrarmos em uma plenária pontual.”, explica. Para ela, a grande tarefa nos últimos três anos de ato tem sido abarcar a “pluralidade das reivindicações” das mulheres e, com o governo Bolsonaro, essa preocupação se tornou ainda maior já que as demandas aumentam conforme os retrocessos da atual gestão se concretizam.</p>
<p>São cerca de cinco movimentos lidando diretamente com a organização do ato. De acordo com a militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Elisa Maria, o 8 de Março é também um “exercício muito amplo de unidade”. “A gente consegue demarcar com muita evidência os dois lados, não é?! Do lado de cá somos companheiras que sofremos com o machismo e do lado de lá (do governo Bolsonaro) temos um sistema machista, racista, capitalista e patriarcal. Então, temos mulheres com estratégias diversas, mas que não estão dispersas.”, afirma.</p>
<h2><strong>#Elenão</strong></h2>
<p><a href="https://marcozero.org/elenao-a-tag-que-uniu-as-mulheres-contra-bolsonaro-nas-redes-e-nas-ruas/">A tag que uniu mulheres contra a candidatura de Jair Bolsonaro nas redes e nas ruas</a>, durante as eleições de 2018, gera expectativa para a mobilização do 8 de Março. Desde os dois atos #Elenão, ocorridos no final dos meses de setembro e outubro do ano passado, mulheres que até então não participavam das construções destes tipos de manifestações políticas, agora se aproximam dos movimentos.</p>
<p>A integrante da Rede de Mulheres Negras, Liliana Barros, conta que há três anos faz parte da organização do ato, mas este ano ficou surpresa com a presença de mais mulheres não necessariamente ligadas a movimentos ou coletivos. “Para nós, este 8 de março traz um desafio ainda maior de estarmos cada vez mais juntas. Me surpreendi na primeira reunião da organização, tinham mais de 150 mulheres participando e as portas da sala nem fechavam. Estou com uma expectativa muito grande em relação a estas mulheres no ato”, conta Liliana.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/bannerAssine.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-13083 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/bannerAssine.jpg" alt="bannerAssine" width="730" height="95"></a></p>
<h2><strong>Reforma da Previdência</strong></h2>
<p>Principal ponto de convergência entre os setores do movimento feminista, a recusa à reforma da previdência do governo de Jair Bolsonaro, que determina o aumento da idade mínima e do tempo de contribuição para as mulheres se aposentarem, de 60 para 62 anos e de 15 para 20 anos, respectivamente, afeta diretamente a vida das mulheres.</p>
<p>Segundo a integrante da Central Única dos Trabalhadores (CUT-PE), Jorgiane Araújo, as temáticas anuais do 8 de março têm mudado significativamente desde o golpe de 2016, que depôs a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). “Nos anos anteriores ao golpe, a nossa luta era por direito ao nosso corpo, à igualdade salarial e direito à creche, por exemplo. Em 2016, nossos direitos sociais começaram a ser mais ameaçados. A previdência e a saúde pública cada vez mais sucateadas. As nossas escolas, a educação e os professores sem terem valorização. Outras bandeiras foram acrescentadas às nossas bandeiras que eram voltadas para o corpo das mulheres e a violência contra a mulher”.</p>
<h2><strong>Desafios</strong></h2>
<p>Para além do 8 de março, os movimentos feministas enxergam desafios a serem superados que ficaram mais evidentes após a eleição de Bolsonaro e o avanço do campo político mais conservador no Brasil. A militante da Marcha Mundial das Mulheres, Elisa Maria, acredita que o momento agora é de “territorializar as lutas”.&nbsp; “Somos um movimento nacional, mas o importante é termos núcleos de mulheres resistindo juntas em bairros e escolas, em locais de trabalho. É o que chamamos de trabalho de base e, para isso acontecer, temos que nos enxergar base. Nos enxergar criando laços onde estamos. Nós provocamos muitas companheiras a criar núcleos onde moram”, disse.</p>
<p><div id="attachment_13892" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/40712699801_0ebfad472a_h.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-13892" class="wp-image-13892 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/40712699801_0ebfad472a_h-1024x768.jpg" alt="Dia Internacional de Luta das Mulheres, 8 de Março de 2018. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="702" height="526"></a><p id="caption-attachment-13892" class="wp-caption-text">Dia Internacional de Luta das Mulheres, 8 de Março de 2018. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>Já Sophia Branco, do FMPE, enxerga os desafios em um contexto para além dos movimentos de mulheres. “Eu acho que toda esquerda tem passado por um processo de reavaliação. Alguns setores de forma mais intensa e mais pública e outros de forma mais interna. O movimento feminista tem um acúmulo metodológico que tem a ver com a escuta interna da nossa pluralidade, a não dissociação entre a política e a nossa vida, uma preocupação com o autocuidado da horizontalidade, estes são elementos que fazem com que nossa construção política seja singular, o que não significa que a gente não esteja fazendo uma autocrítica melhor ou pior”, esclareceu.</p>
<h2><strong>Pacote anticrime</strong></h2>
<p>Militante da Rede de Mulheres Negras, Liliana Araújo afirma que ao conversar com as mulheres negras da periferia o sentimento que permeia em relação ao governo Bolsonaro, a reforma da previdência e o pacote anticrime proposto pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, é o “medo”.</p>
<p>“O medo, porque a polícia chega com mais força, com mais evidência e liberdade de ação dentro das nossas comunidades. E, depois dessa licença para matar (pacote anticrime), dada pelo governo, o receio é muito grande. Nossa juventude está sendo exterminada. A cada 23 minutos um jovem nosso é assassinado. O medo é muito grande, o medo e a fome são duas coisas muito evidentes nas comunidades. Mas o povo negro, o nosso nome é resistência. E, para nós, a resistência é luta mesmo.”</p>
<p>O Pacote Anticrime proposto por Moro, apresentado ao Congresso Nacional em fevereiro, causou polêmica sobre diversos pontos, mas principalmente no que se refere à legítima defesa. O ministro propôs alterações no Código Penal e no Código de Processo Penal, que visam a possibilidade de o juiz reduzir a pena pela metade ou não aplicá-la quando o excesso na legítima defesa “decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Ainda propõe que seja considerada legítima defesa a ação do agente policial ou de segurança pública que esteja em situação de conflito armado ou em risco iminente de conflito armado e em situações com vítimas reféns.</p>
<p><div id="attachment_13889" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/39818250415_68afd203fb_h.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-13889" class="wp-image-13889 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/39818250415_68afd203fb_h-1024x682.jpg" alt="Dia Internacional de Luta das Mulheres, 8 de Março de 2018. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="702" height="467"></a><p id="caption-attachment-13889" class="wp-caption-text">Dia Internacional de Luta das Mulheres, 8 de Março de 2018. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>Sobre este mesmo pacote, a integrante da Rede de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), Priscila Gadelha, afirma que ele é a continuidade de medidas que já vêm sendo tomadas mesmo que não oficialmente. “É a continuidade de um projeto genocida do povo negro com amplitude. A gente vê o governo do Rio de Janeiro que assume a mesma linha e os índices de mortes de policiais e da população quase duplicados nos primeiros dias de 2019. Isso é a legitimidade de uma necropolítica, de que algumas pessoas podem morrer e outras não. E o debate da gente sempre foi esse, de que não dá para a gente ficar qualificando as vidas das pessoas e quantificando isso, dizendo quem pode e quem não pode morrer”.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/mulheres-vao-as-ruas-do-recife-em-homenagem-a-marielle-e-contra-a-reforma-da-previdencia/">Mulheres vão às ruas do Recife em homenagem a Marielle e contra a reforma da previdência</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/mulheres-vao-as-ruas-do-recife-em-homenagem-a-marielle-e-contra-a-reforma-da-previdencia/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mulheres negras no poder potencializam a reestruturação da esquerda</title>
		<link>https://marcozero.org/mulheres-negras-no-poder-potencializam-a-reestruturacao-da-esquerda/</link>
					<comments>https://marcozero.org/mulheres-negras-no-poder-potencializam-a-reestruturacao-da-esquerda/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Dec 2018 12:27:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[alerj]]></category>
		<category><![CDATA[Áurea Carolina]]></category>
		<category><![CDATA[deputada estaual]]></category>
		<category><![CDATA[deputada federal]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo negro]]></category>
		<category><![CDATA[feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[gabinetona]]></category>
		<category><![CDATA[marielle franco]]></category>
		<category><![CDATA[Monica Francisco]]></category>
		<category><![CDATA[mulher na política]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres negras]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres no poder]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[PSOL]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://marcozero.org/?p=11966</guid>

					<description><![CDATA[<p>Forjadas nos movimentos sociais e nas práticas coletivas de mulheres negras que, de modo ancestral, já praticam o mantra recentemente difundido de não soltar as mãos de ninguém, Mônica Francisco e Áurea Carolina, eleitas deputada estadual pelo Rio de Janeiro e deputada federal por Minas Gerais, respectivamente, são forças políticas que estão reorganizando a esquerda [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/mulheres-negras-no-poder-potencializam-a-reestruturacao-da-esquerda/">Mulheres negras no poder potencializam a reestruturação da esquerda</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Forjadas nos movimentos sociais e nas práticas coletivas de mulheres negras que, de modo ancestral, já praticam o mantra recentemente difundido de não soltar as mãos de ninguém, Mônica Francisco e Áurea Carolina, eleitas deputada estadual pelo Rio de Janeiro e deputada federal por Minas Gerais, respectivamente, são forças políticas que estão reorganizando a esquerda brasileira. As duas se candidataram pelo Psol e constroem não apenas o partido, mas o campo da esquerda a partir de uma visão crítica.</p>
<p>Não à toa, as duas emergências políticas e subjetivas que essas mulheres representam trazem aprendizados e reflexões para o momento político brasileiro. Sem pedir licença e sem tutela das estruturas e correntes tradicionais, mesmo dentro do Psol, suas eleições mostraram uma força que não estava contabilizada nas assembleias de esquerda &#8211; nem na conta das direitas tradicionais &#8211; e surpreendem pela nova forma de fazer política.</p>
<p>O desafio colocado para as duas parlamentares é gigante: construir mandatos que continuem próximos dos movimentos sociais, que reencantem as pessoas pela política, e com atuação propositiva no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A multiplicação de quadros também é uma preocupação de ambas, que lembraram a colega de partido e amiga Marielle Franco como símbolo da importância de ter mais mulheres nos espaços de poder.</p>
<p>Áurea Carolina foi a vereadora mais bem votada de Belo Horizonte nas eleições de 2016 e fundou a Gabinetona, experiência de mandato coletivo compartilhado com a vereadora Cida Falabella, e a articulação para ocupar a política institucional intitulada <em>Muitas</em>. Já Mônica Francisco, ativista com mais de 30 anos de lutas nas favelas cariocas, integrou o gabinete de Marielle Franco e era incentivada por ela a disputar um mandato. Foi após a execução da vereadora, em março deste ano, que ela aceitou a missão.</p>
<p>No Recife para um debate sobre os desafios das mulheres no atual cenário político, as duas deputadas eleitas foram entrevistadas com exclusividade pela Marco Zero Conteúdo.</p>
<p><div id="attachment_11963" style="width: 410px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_013.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11963" class="wp-image-11963" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_013-200x300.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="400" height="599"></a><p id="caption-attachment-11963" class="wp-caption-text">Feminista evangélica, Mônica Francisco compôs o mandato de Marielle Franco e ocupará uma cadeira na Alerj em 2019</p></div></p>
<p><b>Mônica Francisco: o desafio de construir um mandato quilombo</b></p>
<p>Há muita discussão por que mandato quilombo se não tem só preto, só preta. Mas a gente pode ter um problema com o movimento negro. Eu estou tentando recuperar o sentido de um mandato quilombo pensando nesse momento de que um mandato é uma ferramenta.</p>
<p>Até 14 de março a gente tinha um pensando, depois outro. Depois da prisão de Lula, depois da intervenção federal também mudou. Depois das eleições, com esse resultado o dia a dia de um mandato já vira outra coisa fora do que a gente tem como clássico de um mandato. <strong>O sentido do mandato quilombo é você se reorganizar, se reestruturar, criar estratégias que venho chamando de tecnologias de guerrilha. Os nossos coletivos na vida já faziam isso para garantir sua sobrevivência e a gente agora traz para o mandato.</strong> É muito difícil separar essa nossa personalidade de movimento dessa nova tecnologia de guerrilha que a gente tem e que tem que ser ao mesmo tempo um quilombo no sentido de acolher os movimento sociais, a sociedade civil organizada e de estar alinhada na luta, na convergência daquilo que a gente entende como pautas prioritárias e fundamentais</p>
<p>A gente precisa, às vezes, despertar as pessoas para esse momento que estamos vivendo, o que é esse contexto. As nossas vidas estão de fato em risco. Desde o risco da morte, de sermos mortas de alguma maneira, mas também a nossa vida em sociedade está em risco. O projeto que a esquerda veio construindo está em risco, está em xeque. Vemos agora o avanço de um projeto conservador que é muito maior do que nós e que passa pela submissão e aniquilação das mulheres pretas, principalmente.</p>
<p>A gente está no momento em que o mandato não é só o espaço de construção de projetos de lei. As pessoas querem saber como vai ser o mandato, mas é o tempo em que a gente tem que formular, em que tem que estruturar justamente para não cair na reatividade. Porque a gente não está lidando com imbecis. Podem ser rasos no sentido da política. A gente está lidando com um sentimento neofascista que não tem apreço por nada. Porque eles não precisam de nada que a gente precisa. A gente deixa de ser parlamentar, a gente vai voltar para o nossos lugar, esses caras não.</p>
<p>Minha experiência parlamentar foi na assessoria de Mariellle Franco. A gente vem com o que a gente tem de elementos dessa experiência, mas, para além disso, temos a relação com os movimentos sociais. É preciso não perder essa dimensão da realidade, do território. Eu sou favelada, não fazer essa desconexão é uma forma de preparar para o mandato. Porque assim a gente faz uma leitura da realidade, nesse contexto de extrema instabilidade democrática que a gente está vivendo, da dificuldade de ocupar esse espaço no parlamento, da histórica negação da capacidade cognitiva, de produzir e formular política pública.</p>
<p><div id="attachment_11962" style="width: 410px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_012.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11962" class="wp-image-11962" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_012-200x300.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="400" height="599"></a><p id="caption-attachment-11962" class="wp-caption-text">Áurea Carolina foi a vereadora mais votada em 2016, em Belo Horizonte, e tem experiência de mandato coletivo com Gabinetona</p></div></p>
<p><strong>Áurea Carolina: o</strong><b>cupando a política coletivamente</b></p>
<p>O que nos sustenta é uma trajetória de atuação em movimentos sociais, em lutas muito diversas, em construções que ora alcançam a institucionalidade, ora estão mais multiplicadas nos territórios. A Gabinetona em Belo Horizonte foi uma super construção de mandato coletivo, aberto, popular. É nossa matriz para chegar na Câmara dos Deputados. Em Minas, elegemos deputada estadual Andrea de Jesus, das <em>Muitas</em>. O mandato em Belo Horizonte agora vai ser expandido em três esferas. A gente já tem um antecedente de vivência dentro do sistema político que nos traz alguns aprendizados, uma atenção e alguns alertas.</p>
<p>Nas últimas semanas estamos em transição e planejando essa expansão. Eu localizo meu preparo nessa reunião de parceiras, pessoas que são mais diretas da articulação política. É com essas pessoas que estamos tecendo essa rede do mandato. Além disso, estou cuidado do preparo subjetivo também. Estou muito consciente de que preciso ter espaço meu de reflexão, de descanso, de formação própria e autocuidado. Nem sempre consigo colocar em prática, mas estou consciente disso e é um amparo que vem dessas outras mulheres que atravessaram esses espaços antes.</p>
<p>No Congresso eles vão fazer de tudo para fritar a gente na reatividade. A gente está a todo momento tentando pegar ar. A gente não pode ficar na resposta quente às provocações. A gente vai ter que desenvolver alguma sagacidade para continuar as denúncias, mas também pautar. Nós já estamos pautando, mas temos que pautar cada vez mais para tentar equilibrar isso. <strong>Não podemos ficar reféns de uma armação intencional deles para consumir todas as nossas energias. A gente pede capacidade organizativa. O vira voto foi isso, em vez de ficar falando de fascismo, a gente foi construir o vínculo com as pessoas. Entendo que nossos mandatos são recursos a serviço das lutas. A gente usa para fazer formação. Isso expande nosso potencial, não fica só ali reagindo</strong>.</p>
<p>O vira voto escapou completamente do controle dos partidos, dos movimentos mais tradicionais. A cidadania ativa se deu conta de que precisava fazer alguma coisa, tinha que virar o resultado e foi para cima, para a rua. Se não fosse o vira voto a gente tinha levado uma balaiada. E a gente demonstrou com essa rebeldia crítica, não muito consciente, mas efetiva, que tem outros jeitos de conectar essa rede.</p>
<blockquote><p><strong>Limites e desafios das esquerdas: i<span style="color: #000000;">nterseccionalidade, construção do Psol e estratégias para 2019</span></strong></p></blockquote>
<p><div id="attachment_11965" style="width: 460px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_016-e1543662048649.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11965" class="wp-image-11965" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_016-e1543662048649-300x200.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="450" height="300"></a><p id="caption-attachment-11965" class="wp-caption-text">Mônica Francisco (Psol), deputada estadual pelo Rio.</p></div></p>
<p><strong>Mônica Francisco</strong> &#8211; Nossa presença nesse contexto, casualmente ou não, e de estar no Psol significa uma reorganização da esquerda. Quando se fala em reorganização da esquerda, essa disputa de narrativa está muito na boca dos homens brancos da esquerda, das figuras que de alguma maneira são as figuras que capitanearam a esquerda até esse momento e que falam desse nirvana de união da esquerda, ou de unidade das esquerdas, ou reorganização das esquerdas no Brasil frente ao avanço desse neofascismo. Essa já é com certeza. Se não é pelo menos o processo inicial dessa reorganização da esquerda que se reorganiza a partir das mulheres, das mulheres negras. <strong>As mulheres negras são a vanguarda. Tenho quase que certeza profética de que as mulheres negras são a vanguarda da reorganização da esquerda</strong>.</p>
<p>Claro que com contra ofensivas que virão. O marco disso foi a execução da Marielle, mas não só. É também um horizonte para que a gente se debruce quando a gente está discutindo cuidados e redes de segurança e prudência, cuidado com a vida mesmo, sobrevivência. Porque isso também é extremamente traumático para a esquerda machista.</p>
<p>É muito traumático esse desconcerto que a nossa presença traz nesse cenário porque a gente é tachada como não puro sangue do partido, mas por outro lado, olhando da nossa perspectiva, dessa vanguarda feminista, a gente é a resposta que o partido ou os partidos estão construindo &#8211; não digo individualmente, mas esse coletivo de mulheres negras e que avançam nessa bancada feminista &#8211; com essa outra dinâmica mais alinhada aos movimentos sociais. Essa relação é dinâmica e quando chega dentro do partido isso é um choque, mas isso é um processo de reorganização da esquerda que passa pelo acesso das mulheres negras.</p>
<p>É uma resposta da própria dinâmica histórica da política. Acho que a gente só vai ter dimensão daqui a uns cinco anos porque a gente está fazendo a história agora. É uma reorganização fora da narrativa tradicional que vem dos homens brancos, sindicalistas. Quando a gente diz que a classe tem cor e tem gênero, ela é localizada socialmente em um determinado lugar. Não dá para pensar reorganização da esquerda sem repensar classe trabalhadora nesse contexto. A gente tem que pensar o que é o trabalho e pensar nas outras formas de trabalho. E há um discurso que avançou e cresceu exponencialmente depois de 2013 de fora partido, fora bandeira, fora sindicato, que está sob ataque e que a gente tem que, de alguma maneira, defender. É um momento para muita reflexão.<b></b></p>
<p>Lembrei da nossa cultura antropofágica. Lembrei de um artigo do Michel Lowy que diz que a gente tem que recuperar o marxismo revolucionário e a utopia surrealista. Que loucura para falar de Exu. Porque é isso, é essa outra cara que chega , que é outra coisa. A gente precisa digerir, ruminar esse marxismo que não cabe mais na nossa leitura. Ou é interseccional ou não é. Não tem como construir política na prática, de verdade, sem interseccionalizar a pauta. Não é racializar o debate, é colocar o racismo no centro do debate marxista. É outra lógica e a gente vem trazendo isso tudo para dentro e causa um rebuliço necessário. É a famosa dialética marxista revolucionária. O que vai dar isso a gente ainda vai ver. Não dá para pensar política hoje desde o micro ao macro sem pensar nas dimensões espirituais, seja da nossa conexão com o todo, as relações que a gente tem que arrumar.</p>
<p><div id="attachment_11957" style="width: 460px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_022-e1543662266620.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11957" class="wp-image-11957" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_022-e1543662266620-300x200.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="450" height="300"></a><p id="caption-attachment-11957" class="wp-caption-text">Áurea Carolina (Psol), deputada federal eleita por Minas Gerais.</p></div></p>
<p><strong>Áurea Carolina</strong>&#8211; Eles ficam falando de união, de unificação, reorganização desse campo genérico das esquerdas, mas têm uma atitude extremamente hegemonista e competitiva. Na prática, a maior parte das figuras que têm influência nos partidos e nas grandes organizações do campo continuam reproduzindo as suas formas viciadas de se relacionar. Não adianta falar em unidade, em aproximação, se o gesto é sempre o contrário. A gente viu isso nas eleições. Até mesmo na competição entre os partidos. O que foi a trama do PT tirando o PSB e o que isso impactou efetivamente no resultado eleitoral? Isso é só um exemplo muito evidente para nós. E como que isso desce até o nível imediato da convivência. Eles não têm autoridade ética para reivindicar essa unificação porque eles se desconectaram completamente da forma e do conteúdo das coisas que eles dizem e fazem. Isso para nós é muito mais caro, nas práticas feministas, negras, periféricas. Não dá para a gente ficar separando essas coisas. Claro que nem sempre a gente consegue resolver, mas a gente tem uma tradição no sentido de uma experiência e não como enquadramento normativo, de fazer mais aquilo que a gente diz. A gente vê como construímos uma comunidade de ajuda mútua, de possibilitar a vida das pessoas.</p>
<p><strong>Não basta reorganizar. Se você tira uma peça, muda de lugar, você move. Eu gosto da provocação da Rob (Robeyoncé Lima, codeputada das <em>Juntas</em> eleita para a Alepe) que falou sobre desconfigurar. Você desprograma, dá um curto circuito. Quando você desconfigura o sistema surta. Eu gosto dessa ideia de desconfigurar, de transformar, que não é simplesmente mover os atores.</strong> A gente precisa ter outras atitudes mentais. E a questão da unidade é isso. Precisa contar com os saberes que hoje são desconfortáveis dentro dos partidos, que são um incômodo. Não contavam que a gente seria essa grande força de renovação. Nós estamos indo na dianteira, fora do cálculo deles. Eles não esperavam, fomos sem pedir autorização.</p>
<p>Esses controladores dos partidos tudo que fazem é tentar conter a própria dinâmica da dialética, como se pudessem determinar uma unificação. Aí não contavam com a gente, nós escapamos do plano, só que nós somos um dado da realidade não previsto pela maior parte deles. Uma outra coisa é que a gente precisa lidar com essa multiplicidade de experiências, mesmo que elas sejam mais ou menos problemáticas, mais ou menos hierárquicas, para tentar enfrentar os ataques cada vez mais pesados que estão vindo aí. A gente tem que construir os lugares de mais confiança e ir fazendo pontes. Nós somos criaturas de fronteira, a gente atravessa muitos mundos. Exu faz isso. A gente tem que ter mais essas mediações. Entre os nossos espaços mais seguros com esses outros espaços que são de menos confiança, menos proximidade. A minha inserção no partido eu vejo dessa forma. Não é um espaço totalmente seguro para mim, mas eu consigo criar uma retaguarda em outros lugares que me permitem fazer uma travessia ali. Da mesma forma, transpondo do partido para uma relação com outro partido ou com outros movimentos, a gente tem que ter essa percepção. Se não for assim a gente não tem condição de sobreviver coletivamente. Aí é que está a generosidade que o momento exige, mas não como uma bondade, mas sim como estratégia. Por mais problemática que seja essa rede das esquerdas, ela precisa operar com algum grau de cooperação e virar rede efetivamente e não um apanhado de organizações que vive sempre em rota de colisão. Se tem uma unidade possível, no sentido mais geral, eu acho que é essa.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/mulheres-negras-no-poder-potencializam-a-reestruturacao-da-esquerda/">Mulheres negras no poder potencializam a reestruturação da esquerda</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/mulheres-negras-no-poder-potencializam-a-reestruturacao-da-esquerda/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
