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	<title>Arquivos identidade - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos identidade - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Plataformas online agregam candidaturas trans, LGBTQIA+, negras e feministas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Aug 2022 20:37:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[candidaturas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A diversificação da representação política é um desafio do Brasil. Com um Congresso Nacional que não refletem a maioria da população brasileira &#8211; que é negra (54,9% na população, mas apenas 24,3% na Câmara Federal) e mulher (51% na população geral, mas só 15% na Câmara Federal) &#8211; as candidaturas que oferecem ao eleitor uma [&#8230;]</p>
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<p>A diversificação da representação política é um desafio do Brasil. Com um Congresso Nacional que não refletem a maioria da população brasileira &#8211; que é negra (54,9% na população, mas apenas 24,3% na Câmara Federal) e mulher (51% na população geral, mas só 15% na Câmara Federal) &#8211; as candidaturas que oferecem ao eleitor uma chance de ver não só suas ideias mas sua identidade &#8211; com toda a bagagem que isso traz &#8211; refletida na urna têm crescido e se fortalecido. Algumas plataformas online funcionam como agregadores, apresentando ao eleitor uma gama de candidaturas com pautas em comum. Confira abaixo alguma dessas plataformas que apoiam candidatos e candidatas trans LGBTQIA+, negras e feministas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong><a href="https://votelgbt.org/2022#amcands" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vote LGBT </a></strong></h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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<p>O #VoteLGBT é um coletivo que existe desde 2014 para aumentar a representatividade das pessoas LGBTQIA+ na política. Neste ano, a organização registrou o recorde de 214 candidaturas, distribuídas em 20 partidos. A meta é de que esse aumento também se reflita nos resultados das urnas, já que, segundo o VoteLGBT, apenas 0,16% dos cargos políticos eletivos são ocupados por pessoas assumidamente LGBTQIA+.</p>



<p>Na plataforma, é possível ver as candidaturas por estado e conferir suas propostas. Em Pernambuco, por exemplo, são seis pessoas, de três partidos. Ainda é possível candidatos e candidatas se cadastrarem e divulgarem suas campanhas na plataforma. O coletivo também oferece apoio psicológico para candidatos e candidatas LGBTQIA+, além de manuais sobre financiamento, estratégias de campanha e saúde mental. </p>



<h3 class="wp-block-heading"><a href="https://campanhaindigena.info/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Campanha indígena</strong></a></h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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<p>Uma pesquisa do Inesc, em parceria com o coletivo Common Data, mostrou que o número de candidaturas autodeclaradas indígenas em 2022<a href="https://marcozero.org/em-resposta-as-ameacas-do-governo-bolsonaro-candidaturas-indigenas-crescem-32/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> aumentou 32%</a> em relação às eleições de 2018: passou de 130 candidaturas para 172. Pelo menos nas candidaturas, a população indígena está representada: neste ano os indígenas representam 0,62% do total de candidaturas para o legislativo, um pouco acima da representação na população brasileira, que é de 0,5%, de acordo com o último censo.</p>



<p>Para fortalecer essas candidaturas &#8211; e conquistar a representação entre eleitos &#8211; a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tem o site Campanha Indígena, com informações para candidatas e candidatos e uma carta aberta. &#8220;Nunca, na história democrática dos últimos 34 anos do Brasil, os direitos dos nossos povos foram tão vilipendiados como foi no atual governo de Jair Bolsonaro&#8221;, diz a associação. As candidaturas indígenas ainda podem se inscrever na plataforma. No instagram, o projeto apresenta e divulga as candidaturas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong><a href="https://antrabrasil.org/eleicoes2022/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Antra</a></strong></h3>



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<p><br>Desde 2014 a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) faz um diagnóstico e um levantamento das candidaturas de pessoas trans no Brasil. Para as eleições de 2022, foram mapeadas o número recorde de 76 candidaturas pelo Brasil, sendo 67 (88%) travestis e mulheres trans contra 52 em 2018. Foram levantadas também 5 (7%) candidaturas de homens trans, enquanto em 2018 foi apenas uma, e 4 (5%) candidaturas com identidades não binárias. É um aumento expressivo de 44% em relação a 2018, quando a Antra apontou 53 candidaturas trans no país. </p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong><a href="https://quilombonosparlamentos.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Quilombolo nos parlamentos</a></strong></h3>



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<p><strong><a href="https://quilombonosparlamentos.com.br/"><br></a></strong>A iniciativa reúne 120 candidaturas negras comprometidas com a agenda da Coalizão Negra Por Direitos. Fazem parte candidaturas do PT, PSOL, PSB, PCdoB, Rede, PDT, UP e PV. O objetivo é de reduzir o hiato de representatividade no Poder Legislativo e lutar contra o racismo. São 36 candidaturas para o Congresso Nacional e 84 candidaturas às assembleias legislativas e à Câmara Distrital de Brasília. </p>



<p>Em Pernambuco, estão catalogadas sete candidaturas, sendo cinco do Psol e duas do PT. No site é possível ver a foto, uma breve biografia e as redes sociais e sites das candidaturas. </p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong><a href="https://mosaico.meuvotoserafeminista.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mosaico Feminista 2022</a></strong></h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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<p><strong><a href="https://mosaico.meuvotoserafeminista.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><br></a></strong>Esta é a terceira edição do mosaico da articulação Meu voto será feminista, plataforma que cataloga as candidatas feministas por todo o país. As inscrições para participar do mosaico seguem abertas no link, mas já há dezenas de candidatas cadastradas e que podem ser consultadas no site. De Pernambuco, são 18 candidatas, de quatro partidos. Além da divulgação das candidaturas, a plataforma oferece alguns tipos de apoios, como colocação de lambe-lambes. Para participar do mosaico, a candidata deve se comprometer a seguir uma série de pontos que estão na carta compromisso, como o de lutar contra a violência obstétrica e pela humanização do SUS e o de lutar pela revogação das reformas trabalhista da previdência.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong><a href="http://euvotoemnegra.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Eu Voto em negra</a></strong></h3>



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<p><strong><br></strong>Mais do que uma plataforma para divulgar candidaturas, a campanha Eu voto em negra oferece uma ampla gama de ferramentas e preparação para que as mulheres negras do Nordeste que querem se candidatar. A ideia é apoiar mulheres negras, rurais e populares, com perspectiva feminista decolonial, para enfrentar os contextos de crise democrática no Brasil e na América Latina. As candidatas que fazem parte da campanha têm suas candidaturas divulgadas no instagram da plataforma.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><a href="https://enegrecerapolitica.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Enegrecer a política </strong></a></h3>



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<p><br>Com foco nas candidaturas das regiões Norte e Nordeste, o projeto Enegrecer a política desenvolve ferramentos para apoiar pessoas negras que se comprometem em suas pautas com direitos humanos e a luta antirracista. As inscrições para as candidaturas estão abertas <a href="http://ly/candidaturasnegras2022" target="_blank" rel="noreferrer noopener">neste link.</a> Posteriormente, as candidatas e candidatos serão divulgados nas redes sociais e no site do projeto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em><br><br><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></cite></blockquote>
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		<title>Festival FALA! inicia terceira edição debatendo a democracia brasileira</title>
		<link>https://marcozero.org/festival-fala-inicia-terceira-edicao-debatendo-a-democracia-brasileira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Aug 2022 10:38:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[distopia]]></category>
		<category><![CDATA[Festival Fala]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A terceira edição do FALA! teve início nesta quinta-feira, 25 de agosto. Com o tema “Comunicação, culturas e jornalismo de causas”, o festival reuniu artistas, comunicadores, educadores e um público diverso no Teatro Gregório de Mattos, no Centro de Salvador, a fim de debater novas perspectivas no campo da comunicação. Tendo como mote o pensamento [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A terceira edição do FALA! teve início nesta quinta-feira, 25 de agosto. Com o tema “Comunicação, culturas e jornalismo de causas”, o festival reuniu artistas, comunicadores, educadores e um público diverso no Teatro Gregório de Mattos, no Centro de Salvador, a fim de debater novas perspectivas no campo da comunicação.</p>



<p>Tendo como mote o pensamento crítico sobre a formação de uma democracia mais inclusiva, onde a comunicação se coloca como uma ferramenta fundamental de construções de novas narrativas populares, culturais, históricas e identitárias, o evento promoveu a pluralidade e a diversidade desde o início. Em suas falas de abertura, os representantes dos veículos de jornalismo e mídia independente Alma Preta Jornalismo, Marco Zero Conteúdo, Ponte Jornalismo e 1 Papo Reto, responsáveis pela organização do FALA!, enfatizaram a importância do festival na promoção de um diálogo mais amplo com a sociedade para pensar o jornalismo de causas.</p>



<p>“É um desejo que a gente continue também com esses encontros fora do eixo Rio-São Paulo para que a gente consiga de alguma maneira ampliar a discussão do jornalismo e trazer o jornalismo também para discutir com a cultura, com a comunicação de maneira mais ampliada, e que a gente consiga fazer de toda essa potência um vetor fundamental para a transformação social”, disse Pedro Borges, editor do Alma Preta.</p>



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	                                        <p class="m-0">Organizadores do Festival, representantes da Ponte Jornalismo, Alma Preta, 1 Papo Reto e Marco Zero Conteúdo defenderam o jornalismo de causas e deram as boas-vindas ao público. Crédito: Fernanda Maia</p>
	                
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<p>“Essa discussão sobre o compromisso com os direitos humanos, com a democracia verdadeiramente inclusiva, com a agenda antirracista, anti-homofóbica, anti-transfóbica, de tolerância religiosa e de busca incansável pela igualdade com respeito, é o que nos move aqui para fortalecer esse conceito de jornalismo de causas”, finalizou o editor da Marco Zero, Laércio Portela. </p>



<p>A abertura contou com a performance poética da rapper baiana Amanda Rosa, que trouxe em sua apresentação um discurso sobre territorialidade, ancestralidade e um tensionamento entre a educação formal acadêmica e a sabedoria ancestral. Em seguida, a mesa de abertura, que teve como tema “O lugar da utopia em um mundo distópico”, foi conduzida pelo fundador do Instituto Brasileiro de Diversidade, o professor Hélio Santos, e a doutora em comunicação, Cintia Guedes, com a mediação da apresentadora Cris Guterres. </p>



<p>O primeiro dia do evento encerrou com a apresentação da cantora Iane Gonzaga, que encantou o público com o show do seu EP &#8220;Territóriamente&#8221;. O Festival FALA! segue até o dia 27 de agosto com uma programação variada, que conta com mesas de debates, oficinas e intervenções artísticas. </p>



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	                                        <p class="m-0">A rapper baiana Amanda Rosa foi a primeira a se apresentar no Teatro Gregório de Mattos. Em sua performance com um facão, tensionou a relação entre a produção acadêmica de conhecimento e a sabedoria ancestral. Crédito: Fernanda Maia</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Radicalizar a democracia: um processo que passa pela racialização</strong></h2>



<p>A interdisciplinaridade da comunicação ficou evidente na primeira mesa do FALA!. Tendo como convidados o professor Hélio Santos e a professora Cintia Guedes, o evento promoveu um debate centrado nas questões de raça para pensar a formação de uma democracia verdadeiramente inclusiva, onde as transformações sociais só são possíveis com o protagonismo das pessoas negras em todas as esferas sociais, e principalmente na política.</p>



<p>Durante as suas falas, os dois participantes defenderam a necessidade da continuação dos sonhos para formar uma utopia social onde as desigualdades raciais, sociais, econômicas e de gênero serão finalmente superadas. “Há trezentos anos, o lugar que eu estou hoje era o impossível e é por isso que eu digo que sou filha da distopia”, disse Cintia Guedes.</p>



<p>“O Estado brasileiro investiu pesado para construir essa distopia gigantesca que está aqui e para desarrumar isso depende das nossas utopias, então estamos longe de ser o problema, nós somos a solução”, afirmou Hélio dos Santos. Em sua explanação, o intelectual negro enfatizou a necessidade de radicalizar a democracia e trouxe como fundamento dessa radicalização as politicas de ações afirmativas, dando como um bom exemplo as cotas raciais, responsáveis por aumentar a inclusão de pessoas negras nas universidades.</p>



<p>“Equidade racial e de gênero, é esse o remédio. Nós temos que primeiro assumir que o Brasil é um país profundamente doente, um país onde você tem milhares de condomínios contracenando com seis mil e quinhentas favelas e o IDH desses condomínios rivaliza com o da Suécia, com o da Dinamarca, então, nós temos aqui uma assimetria que é bizarra e, por conta disso, nós temos que sonhar muito, nós temos que virar esse jogo”, defendeu o professor.</p>



<p>Pensando na estrutura colonial da formação do Brasil, os educadores tensionaram as discussões sobre o racismo. Cintia Guedes questionou as posturas da “esquerda branca brasileira” e provocou o público a pensar uma nova forma de sociedade. “A escravidão e a expropriação do corpo negro, que segue se repetindo, não é fruto de uma má educação, ela é absolutamente necessária para sustentar o mundo no molde que a gente conhece. Então, quando eu penso em utopia é o arruinamento de todas essas estruturas de uma maneira radical, é a fundação de uma democracia que talvez a gente tenha que inventar outro nome para chamar esse modo de conviver, co-viver, cooperar, de se atravessar”, afirmou a professora.</p>



<p>“As ações, mesmo com governos progressistas, jamais deram centralidade à questão racial, mas não vai mais ser assim e as pessoas sabem disso”, completou Hélio dos Santos, também provocando a branquitude brasileira em pensar nas estruturas políticas como uma forma de manutenção do racismo.</p>



<p>Ao final da mesa, a sensação que ficou é de que, como afirmou Hélio dos Santos em uma de suas explanações, a democracia inclusiva e com justiça social só é possível porque as pessoas negras não querem mais &#8220;band-aids para tapar fraturas expostas”.</p>



<p><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do<a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do<a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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		<title>522 anos de resistência indígena no Nordeste e não queremos o seu &#8216;parabéns&#8217;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Aug 2022 18:44:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[candidatura icoletiva indígena]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento social]]></category>
		<category><![CDATA[identidade]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[povos indígenas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>* Por Bia Pankararu Há poucos dias, em 9 de agosto, tivemos como data comemorativa o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Dia criado em 1994 pela ONU para celebrar e fortalecer a existência dos povos originários no mundo, afirmação cultural, de identidade, memória e uma caminhada árdua e constante para garantia de direitos humanos, políticas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>* <strong>Por Bia Pankararu</strong></p>



<p>Há poucos dias, em 9 de agosto, tivemos como data comemorativa o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Dia criado em 1994 pela ONU para celebrar e fortalecer a existência dos povos originários no mundo, afirmação cultural, de identidade, memória e uma caminhada árdua e constante para garantia de direitos humanos, políticas públicas e investimentos reais para subsistência e bem viver desses povos.</p>



<p>Entretanto, enquanto indígena que vive em território o ano inteiro, percebo que datas como essa não conseguem chegar nem perto do que poderia significar nos dias atuais. Enquanto existe um interesse crescente em parte da sociedade em relação aos povos indígenas, ainda é pouco diante dos séculos de histórias mal contadas e meias verdades.</p>



<p>Nosso apagamento na história da formação da identidade brasileira gera interpretações folclóricas sobre nós e nossa visão de mundo e de vida. Se eu parar em qualquer rua de qualquer cidade de Pernambuco e dizer que o estado tem 17 territórios indígenas e mais alguns ainda em resistência, saibam, o espanto é real.</p>



<p>Perdi a conta de quantas vezes, em Recife, precisei explicar que sim, em Pernambuco tem territórios demarcados, homologados, e no meio da conversa ouvir “mas vocês não tem cara de índio não” ou “mas índio de verdade já não existe mais”. Como dialogar sobre povos e territórios indígenas em 2022 enquanto habita no imaginário coletivo a imagem do indígena de1500?</p>



<p>Como explicar, todo dia, que os povos indígenas do Nordeste foram os que mais sofreram com o contato dos colonizadores e suas interferências culturais, de língua e território, com a exposição de doenças, conflitos, escravidão, extermínio do corpo e da memória da gente que já habitava nessa parte do continente que um dia se tornaria Brasil? Esse contato, que dura desde a primeira caravela aportada em nosso litoral, faz com que o Nordeste seja a região do país que em que há mais tempo os povos indígenas precisaram desenvolver estratégias de sobrevivência e resistência.</p>



<p>Como, depois de 522 anos, ainda nos cobram que sejamos iguais? Coisas assim a gente precisaria aprender na escola, mas as crianças chegam em casa no 19 de abril cantando a musiquinha da Xuxa, “índio quer apito”, e de novo reforçando o imaginário desse “índio” fantasioso, distante e fora da realidade geral da sociedade.</p>



<p>Em Pernambuco, somos Pankararu, Pankararu Entre Serras, Atikum, Pankará, Pipipã, Kapinawá, Kambiwá, Truká, Tuxi, Tuxá, Fulni-ô, Pankaiwká, Xukuru, Xucuru de Cimbres e somos mais. Somos múltiplos e ainda não chegamos perto de termos um diálogo de entendimento diante de nossas diferenças e semelhanças. No campo das tradições, estamos conseguindo manter o que nossos antepassados deixaram, mas não estamos lidando bem com a herança colonial que permanece nos colocando às margens da cidadania plena de direitos.</p>



<p>Seguimos sendo os primeiros homenageados e os últimos a serem considerados importantes nas tomadas de decisões e no cenário social e político desde que esses cenários existem no país.</p>



<p>Assim como é difícil começar a entender a perspectiva indígena levando em consideração o processo de colonização, para nós, que vivemos essas questões diariamente, também é difícil e muito cansativo ainda precisar explicar que hoje se usa ‘indígena’ e não “índio”, que não andamos todos nus, que não falamos todos o tupi guarani, que não foi descobrimento, foi invasão. Ainda demora muito pra gente chegar nesse pé de entendimento, pra conseguirmos avançar em temas que nos são também urgentes.</p>



<p>Saúde, educação, infraestrutura, saneamento básico, emprego, segurança alimentar, abastecimento de água, o médico e o postinho de saúde nos são urgentes. Violência conta mulher, fome, abuso sexual, alcoolismo, homofobia, machismos, adoecimento mental e emocional, vulnerabilidades mil em todos os territórios e o que ganhamos são homenagens a nossa resistência.</p>



<p>Até quando a visão romântica e idealizadora de como são os territórios vai encobrir e sustentar tantos problemas estruturais e éticos que pioram dia após dia? Os conflitos no campo estão cada vez mais violentos e as perseguições mais intensas. Os Povos estão crescendo e junto deles os problemas que afetam toda a sociedade somadas as problemáticas que triplicam em caso de territórios indígenas.</p>



<p>Precisamos preservar a memória do que nos fortalece e traçar estratégias contra o que nos enfraquece. Infelizmente, por todos os lados, as violências e violações nos territórios têm crescido consideravelmente e não somos capazes de levantar certos debates e mexer em algumas feridas.</p>



<p>De usina eólica no povo Kapinawá, usina nuclear ameaçando os Pankará e todos os outros povos indígenas e quilombolas, os impactos não reavaliados das usinas hidroelétricas e todo distanciamento que a CHESF impõe aos indígenas e povos tradicionais do Rio São Francisco.</p>



<p>Enquanto isso, o povo Pankararu ainda vive incertezas e muitos boatos sobre a população pagar energia elétrica depois de décadas de linhas de transmissão cortando todo território sem distribuição elétrica adequada e segura, prejudicando escolas, danificando bens e causando acidentes fatais ao longo da história. Já existe, só ao redor de Pankararu, a usina hidroelétrica da CHESF e a usina híbrida de energia eólica e solar, mas não existe fornecimento energético de qualidade à população que vive ao lado das usinas.</p>



<p>Se não bastasse, ronda um burburinho local sobre a vinda de mais uma usina eólica, agora para dentro dos limites da reserva Pankararu e a prefeitura de Tacaratu pretende construir um complexo turístico numa serra que também faz parte da reserva indígena, obra essa avaliada em 9 milhões e, segundo os defensores do projeto, a obra vai acontecer com “a peste dos índios querendo ou não” e que somos “burros em não querer um investimento desse”. Investimento e benefício para quem?</p>



<p>Enquanto a cidade sonha com esse tipo de investimento para o progresso da economia local, minha aldeia Agreste, por exemplo, sonha com a construção do postinho de saúde há mais de quinze anos enquanto as equipes da SESAI atendem na igrejinha local. Meu povo sonha com a coleta de lixo que nunca existiu, com a conclusão de obras que levam anos para finalizar, com o abastecimento de água regular, com geração de renda sem precisar vender ou privatizar o pouco território que nos resta.</p>



<p>É possível um caminho de desenvolvimento social e econômico mais justo e respeitoso com os povos tradicionais, mas nenhum caminho será benéfico sem a nossa participação.</p>



<p>Acredito que ocupar os espaços políticos é sim um bom caminho para fortalecer as pautas indígenas, ninguém melhor para falar de nós do que um ou vários dos nossos.</p>



<p>Recentemente foi lançada uma chapa de candidatura coletiva indígena com representantes de 5 etnias do estado. O Coletivo Indígena vem pela primeira vez organizado para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Pernambuco e essa organização me enche os olhos para como estamos conseguindo nos organizar politicamente. Esse movimento já é histórico e pode despertar mais intensamente a importância dos povos indígenas nos processos eleitorais e de representatividade.</p>



<p>Ao mesmo tempo penso que ainda precisamos muito nos organizar e nos fortalecer internamente enquanto Povos tradicionais. Não é tradição de nenhum Povo violentar seu próprio Povo. Casos graves de homofobia se perpetuam nos territórios com muita naturalidade, assim como violência contra mulheres, crianças e adolescentes também são negligenciadas, silenciadas e esquecidas.</p>



<p>O racismo religioso e a evangelização de muitos indígenas geram vários desentendimentos e conflitos. Estamos em falta com a juventude, em trazer mais gente pra perto dos movimentos, em somar forças com quem está chegando para fortalecer as próximas gerações. Como fortalecer o futuro se não fortalecendo o presente? Quando deixamos de entender que um indivíduo do Povo violentado representa toda uma comunidade violentada, perdemos o senso de coletividade.</p>



<p>São tantas complexidades em cada território que fica difícil acompanhar todas as investidas que ameaçam os direitos coletivos e, muitas vezes, o problema começa com quem deveria nos defender. Espero ansiosa pelo momento em que falarei mais sobre como ser indígena é significante, como nossos povos mantém a sanidade da natureza e como me orgulho de pertencer a uma nação indígena, mas por hora, só consigo deixar meu temor pelo futuro trágico que o progresso anuncia.</p>



<p>*<strong>Bia Pankararu tem 28 anos, é mulher indígena, sertaneja, mãe de Otto, LGBT+, técnica em enfermagem e produtora cultural e audiovisual. Ativista pelos direitos humanos e ambientais. Comunicadora da rede @povopankararu.</strong></p>



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