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	<title>Arquivos opinião - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos opinião - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>Saída de Priscila Krause deixa DEM cada vez menor em Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/saida-de-priscila-krause-deixa-dem-cada-vez-menor-em-pernambuco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Nov 2021 22:00:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[DEM]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Mendonça Filho]]></category>
		<category><![CDATA[opinião]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[Priscila Krause]]></category>
		<category><![CDATA[PSL]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Franco Benites* Ainda cedo para dizer quais os efeitos práticos, sobretudo do ponto de vista eleitoral, da fusão entre o DEM e o PSL que resultará na criação do União Brasil. Mas arrisco aqui a dizer que se alguém sai ganhando com esse movimento é a deputada estadual Priscila Krause, que após 27 anos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Franco Benites*</strong></p>



<p>Ainda cedo para dizer quais os efeitos práticos, sobretudo do ponto de vista eleitoral, da fusão entre o DEM e o PSL que resultará na criação do União Brasil. Mas arrisco aqui a dizer que se alguém sai ganhando com esse movimento é a deputada estadual Priscila Krause, que após 27 anos de fidelidade canina ao DEM\PFL, não caminhará mais com a sigla.</p>



<p>De análises políticas mais sérias a conversas de mesa de bar ou whatsapp, uma avaliação comum é a de que Priscila destoava do DEM há algum tempo. De um lado, havia uma deputada jovem e de ideias arejadas, que sabe ocupar o espaço de oposição que lhe tem sobrado em Pernambuco, e do outro havia uma legenda partidária que não soube se renovar e se aliou ao atraso ao abraçar a figura do presidente Jair Bolsonaro na eleição para a prefeitura do Recife no ano passado.</p>



<p>Mas como Priscila poderia deixar o DEM sem parecer oportunista ou sem alimentar teorias de descompasso com seu amigo e aliado Mendonça Filho? A resposta caiu no colo de Priscila com a criação do União Brasil &#8211; mas, recorrendo à alegoria do iceberg, essa é apenas a ponta visível do que levou à decisão final.</p>



<p>Embora tenha vivenciado toda a sua vida política em um partido de direita, Priscila ganhou, nos últimos tempos, a simpatia de eleitores de esquerda e centro-esquerda insatisfeitos com a gestão do PSB em Pernambuco. Esses eleitores davam crédito à deputada pela oposição à gestão pessebista no estado e no Recife. No entanto, ao integrar, na eleição municipal passada, uma chapa que usou verniz bolsonarista, Priscila criou fissuras na comunicação com esses eleitores. Agora, o diálogo talvez possa ser retomado.</p>



<p>Por falar em comunicação com os eleitores, Priscila já vinha sendo bastante questionada, em suas redes sociais, por internautas mais apegados ao bolsonarismo. Esse grupo vê, com decepção, a crítica da deputada ao negacionismo e a defesa que ela faz da vacina contra a Covid-19. Longe do DEM, ela perderá apoio entre esses eleitores, mas meu palpite é que isso trará mais bônus do que ônus para a carreira política e a biografia de Priscila.</p>



<p>Para encerrar, um dado curioso: Priscila deixa o DEM no mesmo ano da morte de Marco Maciel, seu mentor político. Ela é a segunda macielista de carteirinha a deixar o partido. O primeiro foi André de Paula, muitos anos atrás. Sem Priscila e sem ter se convertido oficialmente em União Brasil, o DEM em Pernambuco fica ainda menor do que já é.</p>



<p><strong>*Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade do Minho, de Portugal</strong></p>
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		<item>
		<title>Pandemia das sombras: como a quarentena intensifica a violência doméstica?</title>
		<link>https://marcozero.org/pandemia-das-sombras-como-a-quarentena-intensifica-a-violencia-domestica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2020 20:49:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[direitos das mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[opinião]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência doméstica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Gisele Meneses do Vale* e Júlia Sousa** “(&#8230;) os vizinhos estavam brigando e ele bateu na mulher, eu não consigo ouvir isso e não sentir vontade de chorar, parece que eu sinto na pele tudo o que ela está sentindo”. É assim que relato de uma usuária de rede social nos salta os olhos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por  Gisele Meneses do Vale* e  Júlia Sousa</strong>**</p>



<p>“(&#8230;) <em>os
vizinhos estavam brigando e ele bateu na mulher, eu não consigo ouvir isso e
não sentir vontade de chorar, parece que eu sinto na pele tudo o que ela está
sentindo</em>”. É assim que relato de uma usuária de rede social nos salta os
olhos e nos alerta para um pedido de socorro crescente nos últimos dias. </p>



<p>Não há dúvidas, pois, que para muitos a própria casa
pode significar um porto seguro, um local de conforto e acolhimento. Mas, para
diversas mulheres que sofrem violência doméstica, esse lugar pode configurar um
verdadeiro pesadelo. Desde o início da pandemia desencadeada pela Covid-19, uma
das recomendações prioritárias para impedir o avanço da doença é a quarentena
e/ou o isolamento social.</p>



<p>De acordo com
uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria
com a empresa Decode, houve um aumento em 431% de menções em redes sociais de
brigas de casal, por vizinhos, entre fevereiro e abril de 2020. Isso referenda
a tese de que há um crescimento da violência doméstica e familiar no período de
quarentena, ainda que os registros oficiais de denúncias tenham decaído. Uma
dúvida pode pairar sobre esse ponto: qual o motivo da redução dos registros de
denúncias nos órgãos oficiais, haja vista o considerável aumento dos casos de
violência doméstica?</p>



<p>Nessa questão, nosso alerta deve permanecer aceso já
que muitas vítimas retomam o convívio com seus agressores, ficando expostas à
toda sorte de violência. Noutro giro, nas atuais circunstâncias, se
intensificam as dificuldades para uma vítima da violência doméstica acionar o
sistema de proteção em casa quando ela tem, o tempo todo, a companhia do
agressor sob o mesmo teto.</p>



<p>Some-se a essa dificuldade o fato de que se tiver de sair de casa terá de romper com o isolamento, expondo-se à doença e com menos acesso aos serviços públicos. Não é necessário muito esforço para imaginar o drama atual vivido em inúmeros lares brasileiros.</p>



<p>Assim, entre
a cruz e a espada – em meio ao perigo de contaminação e à estada obrigatória no
ambiente de violência – as iniciativas políticas e empreendedoras que utilizam
as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) como instrumento de ação
vêm se mostrando essenciais na frente de combate.</p>



<p>No que diz respeito à experiência internacional, a
ativista chinesa Guo Jing contou à BBC que desde que as pessoas começaram a
passar mais tempo em casa para prevenir a infecção por coronavírus ao longo da
pandemia na China, mais mulheres noticiaram casos de violência que sofreram ou
presenciaram.
Inclusive, a hashtag<em><a href="https://www.instagram.com/explore/tags/antidomesticviolenceduringepidemic/">#AntiDomesticViolenceDuringEpidemic</a></em>(<a href="https://www.instagram.com/explore/tags/contraviol%C3%AAnciadom%C3%A9sticaduranteepidemia/">#ContraViolênciaDomésticaDuranteEpidemia</a>) foi usada mais de 3 mil vezes na rede social
chinesa<em> Sina Weibo </em>com relatos de
vítimas ou testemunhas.</p>



<p>Já na França,
é possível que as mulheres em situação de violência façam a denúncia através de
um canal online. Ademais, nesse mesmo país, há a opção de realização das
denúncias em farmácias ou supermercados, a fim de facilitar o encontro de um
ponto de apoio e acolhimento. Em casos em que não há acesso à internet, também
é possível que a vítima envie uma simples e gratuita mensagem de texto (sms),
com dizeres como <em>cry for help</em>, para
os contatos disponibilizados pelo governo. </p>



<p>Essa última
iniciativa, vale ressaltar, é de extrema importância visto que há um processo
de alijamento de muitas mulheres em relação ao acesso à internet e às
tecnologias da informação e comunicação em vários lugares do mundo. Esse
fenômeno é conhecido como <em>gender digital
divide</em> e somente replica a inequidade de gênero, que já conhecemos, para o
ambiente digital. Ao contrário do que nos coloca o senso comum, a sociedade da
informação, construída sobre a pauta da &#8220;Quarta Revolução Industrial ou
Economia 4.0&#8221; não é tão democrática o quanto parece. Na verdade, enfrenta
as mesmas questões que transversalizam e excluem diversos grupos sociais seja
pelo gênero, pela raça ou pela condição econômica. </p>



<p>Insta pontuar, nessa linha, que os maiores números de casos notificados relativos à violência doméstica contra a mulher se concentram nos países de terceiro mundo e são relativos às mulheres negras. Sobre isso, há um direcionamento de esforços pautados no fomento das TICs pelos objetivos traçados na Agenda 2030 da ONU. Dentre eles, a disseminação tecnológica com vistas a promover a educação de qualidade (objetivo 4), a igualdade de gênero (objetivo 5) e a redução das desigualdades (objetivo 10). </p>



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	                                        <p class="m-0">Dez anos da Lei Maria da Penha (Crédito: Tony Winston/Agência Brasília)</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quanto ao
Brasil, vários reflexos do isolamento já batem em nossas portas. De acordo com os dados fornecidos
por uma corte estadual, o Tribunal de Justiça de Pernambuco, entre os dias 16
de março e 15 de abril, foram concedidas 898 medidas protetivas de urgência e
no mesmo período foram recebidas 227 denúncias de casos de violência doméstica,
inclusive, a orientação dada aos magistrados deste tribunal é a de que tais
medidas protetivas devem ser prorrogadas a fim de que seja estendida a proteção
a mulheres vítima de violência doméstica. </p>



<p>Notadamente, na escalada de violências contra a mulher por vezes o desfecho mais comum é o feminicídio. Pois bem, nesse ponto, basta apenas lembrar que, lamentavelmente, o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio.</p>



<p>O outro sinal de alerta é que a violência doméstica
não é somente uma violação às mulheres
que são suas vítimas, mas também se configura como um problema de toda a
sociedade em diversos aspectos. </p>



<p>As agressões atingem os direitos de crianças e
adolescentes, que convivem com a violência dentro de suas casas. Não obstante,
também se trata de um impasse econômico: aponta a UNICEF que a violência de
gênero influencia diretamente nos valores de bens nos mercados de capitais. O
custo global da violência contra as mulheres já havia sido estimado em
aproximadamente 1,5 trilhão de dólares. Esse número só pode aumentar à medida
que a violência aumenta agora e continua após a pandemia. Assim, reduzir a
violência de gênero também
é um investimento em estabilidade econômica.</p>



<p>Dessa forma e
seguindo a experiência de alguns países que já enfrentam a disseminação do
vírus há mais tempo, algumas iniciativas que se utilizam da tecnologia, no
Brasil, para o combate ao vírus se mostraram de extrema importância.</p>



<p>Dentre elas, destaca-se a empresa Mete a Colher, que
possui mais de 13.000 mulheres conectadas em 63 cidades do Brasil, por meio de
um aplicativo de acolhimento e aconselhamento – jurídico e psicológico –
voluntário. Além disso, a equipe dessa <em>startup</em>,
fundada na cidade do Recife por um grupo de mulheres, também está trabalhando
em uma base de dados para traçar o perfil dos casos de violência em todo o
Brasil.</p>



<p>Outrossim, o renomado podcast Mamilos, presente em
algumas plataformas de <em>streaming, </em>disponibilizou
uma série de cinco episódios intitulada &#8220;Era uma vez&#8221;. Foram narradas
algumas histórias e impasses de vítimas de diferentes perfis sociais e
econômicos, de maneira anônima, como forma de difundir informações, reflexões e
força para as ouvintes que estão passando por algum tipo de relacionamento
abusivo e/ou violento.</p>



<p>Nessa linha, a rede de varejo Magazine Luiza, uma das maiores plataformas digitais de <em>e-commerce </em>no Brasil, também apoia diversas iniciativas empreendedoras e sociais no combate à violência doméstica, bem como possui um canal de denúncias através do seu próprio aplicativo, o Magalu. Essa funcionalidade pode ser acessada por qualquer pessoa e permite o contato direto com a Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal brasileiro.</p>



<p>No âmbito nacional, o Governo Federal, por intermédio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, lançou recentemente o aplicativo Direitos Humanos BR para facilitar e fomentar os registros dos casos de violência doméstica contra a mulher e violência contra a mulher, preservando, sobretudo, o anonimato.</p>



<p>Cabe pontuar, ainda, que os canais de denúncia
governamentais no tocante às violações contra as mulheres continuam em
funcionamento nesse período de quarentena, a exemplo do Disque 180, bem como as
Delegacias de Atendimento à Mulher para o devido registro e aplicação de
medidas protetivas de urgência.</p>



<p>Nessa esteira, bom seria se também voltássemos
nossos esforços para combater a violência contra a mulher com o mesmo empenho
que nos prevenimos do coronavírus, já que a violência doméstica é também uma
doença social presente nos lares de todo o mundo.</p>



<p>Posto tudo isso, a convergência entre aquilo que é privado e os valores coletivos se torna ainda mais necessária diante desse cenário. O setor público, a iniciativa privada, a academia e a sociedade civil organizada precisam, mais do que nunca, andar de mãos dadas no que diz respeito aos desafios acerca da violência doméstica. Precisamos ininterruptamente estar atentos e atentas às tantas vulnerabilidades enfrentadas pelas mulheres frente à essa pandemia, bem como quanto aos seus desdobramentos no tecido social.</p>



<p><strong>* Advogada, mediadora Extrajudicial, pós-graduanda em Ciências Penais</strong></p>



<p><strong>** Mediadora de Conflitos, especialista em proteção dos direitos da Propriedade Intelectual </strong></p>
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		<title>O vírus não está em guerra</title>
		<link>https://marcozero.org/o-virus-nao-esta-em-guerra/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Carlos Pinto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Apr 2020 15:35:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo e democracia]]></category>
		<category><![CDATA[mídia]]></category>
		<category><![CDATA[opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pandemia do Covid-19 tem feito acionar discursos que clamam pela valorização da ciência, do jornalismo e de outras coisas gestadas pela Modernidade. Não são poucos os (bons) argumentos que têm associado a necessidade de resgatar esses valores, em particular no Brasil e noutros países em que a extrema-direita negacionista chegou ao poder. Cabe, no [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A pandemia do Covid-19 tem feito
acionar discursos que clamam pela valorização da ciência, do jornalismo e de
outras coisas gestadas pela Modernidade. Não são poucos os (bons) argumentos
que têm associado a necessidade de resgatar esses valores, em particular no
Brasil e noutros países em que a extrema-direita negacionista chegou ao poder.
Cabe, no entanto, uma reflexão sobre como e para quem a retomada ou respeito a
esses campos de atuação podem e devem acontecer. Mas eu também acho que, nessa
crise toda, há também uma outra demanda a ser contemplada, que é entender,
também espiritualmente, tanto a crise quanto suas possíveis soluções táticas em
um contexto de herança colonial como o nosso.</p>



<p>É verdade que a pandemia do novo
coronavírus exige ainda mais que a linguagem jornalística seja usada e esteja
bem presente, desmistificando os mitos de toda espécie que empestam o cenário.
Mas também é verdade que parte do descrédito daqueles protagonistas que
poderiam estar ajudando mais (com estruturas de informação eficientes e em
rede) foi criado por eles mesmos, numa busca obtusa por influência política e
econômica na vida nacional – ou simplesmente por verbas publicitárias. Ainda
que os principais grupos de comunicação do país tenham resolvido voltar a fazer
um jornalismo sério, praticaram nos últimos 30 anos o jornalismo de interesse
público a depender de cada ocasião. </p>



<p>E foi nessa pisada que os
jornalões deterioraram o principal capital do jornalismo, de seus protagonistas
e de suas empresas: a credibilidade. E aí, quando se perde a confiança, é
difícil voltar a confiar depois de passada a crise. </p>



<p>O mesmo se pode dizer da ciência,
em cuja agenda de universalização do ocidentalismo, negou as chamadas
epistemologias do Sul global. Essa agenda esteve, e ainda está, em franca
articulação com os projetos de colonização e com a agenda da exploração – em
particular da exploração capitalista. Então, se precisamos resguardar a
necessidade e urgência dos conhecimentos científicos que salvam vidas, na mesma
medida precisamos reconhecer o divórcio crescente entre o desenvolvimento dos
conhecimentos científicos e técnicos, por um lado, e a cultura comum, por outro
– coisa que se expressou na história da manufatura e da fábrica automática, no
decorrer do capitalismo industrial, mas que também acontece agora com a
emergência do capitalismo de vigilância.</p>



<p>Aliás, a pandemia descortina não
somente a insuficiência interior do neoliberalismo para lidar com crises como
essas. Aponta mais além: a aparência não-econômica do Covid-19 (uma decorrência de um processo natural já elucidado por
biólogos do <a href="https://www.scripps.edu/">Scripps Research
Institute</a> e que virou <a href="https://www.nature.com/articles/s41591-020-0820-9">artigo</a> na revista Nature) e de outras crises ambientais
que estão na agenda do amanhã, já sugerem e justificam a intensificação da
invasão de privacidade, de autoritarismos estatais, e <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Mpv/mpv930.htm">da
apropriação de recursos públicos para sanar os apuros do sistema financeiro</a>.</p>



<p>É preciso encontrar outras
gramáticas, mas também outro cotidiano.</p>



<p>Eu sigo torcendo para que a
iminência do fim do mundo seja o início real de outro nível de combate global
em que não prevaleça esse jornalismo de interesse público a depender da
ocasião; tão pouco uma crença acrítica e ahistórica na ciência e o associado
apagamento de povos e de seus conhecimentos.</p>



<p>No presente brasileiro de
genocídio em curso, esses povos – das matas, das ruas e dos morros –, já
acionaram o instrumento
conceitual operativo que organiza de forma constante e confiável os meios de
defender sua sobrevivência física e cultural. Tal modelo associativo se
desenvolveu no país e se atualiza como ideia-força há quatro séculos, e já assumiu
as formas de rede de irmandades, confrarias, clubes, grêmios, terreiros,
centros, tendas, afoxés, escolas de samba e gafieiras. A essa práxis, Abdias
Nascimento deu o nome de quilombismo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                </figure>

	


<p> Como escreveu um amigo meu um dia desses, é um fio instável e que muitas vezes reflete uma memória coletiva, sua solidariedade ancestral, que sempre se manteve mais ou menos ativa, no difícil trabalho de<br> proteger-se do Estado e do mercado – como já o fez no passado, como faz<br> agora e como o fará mais à frente. Essa ideia-força nem sempre aparece<br> no noticiário. Parece difícil desconsiderar o papel que o quilombismo pode ter associado às tecnopolíticas de cuidado, mais do que nunca necessárias no contexto atual. </p>



<p>Também
parece difícil não considerar a necessidade de lidar com a morte, a peste, a
cura e a doença, bem como com a natureza e suas expressões no cotidiano e não
apenas episodicamente. É curioso que o discurso de diversas autoridades no
Brasil e <a href="https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2020-03-17/macron-and-merkel-s-war-on-virus-will-bite-as-factories-close">noutros países</a> seja de enfrentamento do vírus,
de <a href="https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-germany/merkel-tells-germans-fighting-virus-demands-war-time-solidarity-idUSKBN2153GX">guerra ao vírus</a> – também uma herança dos modos
de pensar Modernos, essa de declarar guerras… O vírus não quer guerra com
ninguém.</p>



<p>Mas ele suscita, isso sim, uma necessária reflexão de como eliminar o desperdício de comida, de recursos energéticos, de relações, de tempo. Ele deveria nos indicar a repensar nossa disposição para o cuidado coletivo e a atenção real que damos aos mais velhos e às crianças. Mais além: a pandemia do Covid-19 exige a disposição para considerar necessário a ideia de renda básica aos mais pobres.  Há uma reinvenção do cotidiano nos convocando todos os dias, assim como acontece de as idéias também nos chamarem para a ação. </p>



<p>São
todas feridas que não cuidamos e que requerem cura sistêmica, não uma guerra –
por mais que a metáfora possa parecer útil. Que apontam, também para a morte –
o que muda, forçosamente, a perspectiva das coisas. É nesse sentido que evoco
outro rastro não ocidental: o poder de cura de Omolu, a divindade que cuida das
pestes e das curas no sistema espiritual Yorubano. Um dos itans sobre esse
Orixá relata como ele precisou se esconder entre palhas para que não vissem as
feridas da peste que portava e das quais tinha vergonha. Até então Omolu, que
era velho, estava recolhido e em silêncio, em meio à festa que os outros Orixás
faziam, na qual dançavam e se divertiam.</p>



<p>Iansã,
rainha dos raios e trovoadas, apiedou-se do senhor das pestes e lançou um
feitiço na forma de vento, que levantou as palhas que escondiam as chagas de
Omolu e as fez explodirem no alto, em forma de pipoca. Omolu deixa de ser velho
e revelou ali sua face jovem e bela, Obaluaiyê. O itan nos serve como uma
referência para entender a necessidade do recolhimento (muito além da
quarentena), que sirva a uma mirada interior, direcionada a nossos cotidianos,
para que possamos sarar tantas chagas em nosso corpo social e que incluem a dificuldade Moderna de compreensão holística, a
arrogância, as desigualdades crônicas, a indiferença. </p>
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		<title>Naturam expellas (parte 2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Nov 2015 23:58:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>[N.B.: esta é a segunda parte de um texto sobre a velha questão “homem/natureza”, inspirado no ecocídio ocorrido semana retrasada em Mariana-MG e que está destruindo um dos nossos mais importantes rios.] Por Diego Viana No Para ler sem olhar Na linha do patriarca Na primeira interpretação, fazemos como José Bonifácio: tentamos criar um mundo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>[<span style="text-decoration: underline;"><em><strong>N.B.:</strong> esta é a segunda parte de um texto sobre a velha questão “homem/natureza”, inspirado no ecocídio ocorrido semana retrasada em Mariana-MG e que está destruindo um dos nossos mais importantes rios.</em></span>]</p>
<p>Por Diego Viana<br />
No<a href="https://vianadiego.wordpress.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"> Para ler sem olhar</a></p>
<p><b>Na linha do patriarca</b></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/josecc81-bonifacc81cio-500-mil-reis.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1339" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/josecc81-bonifacc81cio-500-mil-reis.jpg" alt="josecc81-bonifacc81cio-500-mil-reis" width="550" height="259"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Na primeira interpretação, fazemos como José Bonifácio: tentamos criar um mundo em que a natureza está fora e a civilização está dentro, exceto pelos jardins de que cuidamos bem e de algumas reservas naturais em que fazemos turismo e evitamos a extinção de nossas espécies preferidas. Mas se tem algo que aprendi com a leitura (na verdade, releitura exaustiva) de Simondon é que qualquer realidade se conhece pelas suas franjas, suas membranas, ali onde ela é obrigada a reafirmar-se na interação com o que passa por seu meio associado.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E, justamente, o meio associado é aquilo que, estando fora, é constituinte de qualquer idéia de interioridade.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Assim, a civilização contemporânea, no que tem de mais próprio, não se revela nas filas de castanheiras do jardim das Tulherias, nem na ordem-que-se-finge-de-caos (ou o contrário) de Times Square, nem na aparentemente milagrosa melhora dos índices de expectativa de vida ou ocorrência de doenças, registradas pelas estatísticas dos últimos dois séculos. A civilização contemporânea define-se pelas paisagens da Indonésia em chamas, dos <i>tar sands</i> canadenses, da dita “fronteira agrícola” do Mato Grosso, dos subúrbios de Altamira, mas também da Baixada Fluminense, e das barreiras que estouram em Minas Gerais.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Afinal, é ali que ela define o que vai deixar “de fora” e o que vai laboriosamente incorporar “para dentro de si”. Aqui é onde os dados são lançados: no gesto constante de expulsar a natureza para ter Times Square e bons indicadores socioeconômicos; na atividade infatigável de extrair a substância valorada e entregar rejeitos; na mania neurótica de produzir lixo, lixo e lixo.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">(Sobre o lixo, ouça-se o que diz Peter Szendy <a href="https://www.youtube.com/watch?v=FPJnsoli-X8" target="_blank" rel="noopener noreferrer">NESTE LINK</a> – tem legendas.)</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Eu disse que ia tratar da primeira forma possível de interpretar a idéia do “<i>naturam expellas furca</i>”, mas já abro revelando toda a minha discordância dela. São vícios argumentativos, não consigo evitar. Afinal de contas, a idéia de expulsar a natureza, deixando-a do lado de fora do ambiente em que nós mesmos vivemos nossas vidas – a cultura, a civilização, o que for –, à parte um certo número de mediações (arrancar alimentos do seio da terra, calafetar embarcações, cuidar da saúde, aquecer ambientes), tem qualquer coisa de hipostasia.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Como se a natureza fosse um ente bem delineado e concreto, que pudesse ser expulso de um outro ente delineado e concreto, algo que identificamos como nossa verdadeira habitação, a cultura, a civilização. Como se aquele que expulsa não fosse sempre também alguém que, bolas, não pode se arrancar do que ele mesmo considera natural e externo a si próprio! Como se o óleo que alimenta os carros da avenida Paulista, as lâmpadas de Times Square e a jardinagem das Tulherias não misturassem teimosamente o artifício e o natural, o cultural e o físico.</p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><b>* * *</b></p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/calor-na-icc81ndia.jpg"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1340" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/calor-na-icc81ndia.jpg" alt="calor-na-icc81ndia" width="550" height="310"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas parece que já naturalizamos esse modo de pensar. Com o passar dos séculos, nem mesmo nos lembramos do quanto se teve de argumentar para passar a crer na idéia de que fosse necessário colocar a natureza para fora do nosso mundo (nosso mundo, veja você). Talvez a formulação mais cruel dessa idéia esteja em Hobbes, quando ele diz que a vida no “estado de natureza” não tem “artes, letras ou sociedade”, então é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>2</sup></a>;. Aqui, o mesmo poder que funda uma sociedade – civilizada, poderíamos acrescentar – é aquele que extrai o humano da natureza: a natureza é guerra, diz Hobbes. Guerra, medo, ameaça.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Tal cisão radical entre o agente da expulsão (nós, a rigor) e a natureza que é expulsa pode ser identificada, em maior ou menor grau, em todas as descrições – míticas, a propósito, embora não possamos admiti-lo abertamente – que empregam a idéia de um estado de natureza que se oponha à civilização, ao mundo social, político, o que for<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>3</sup></a>. Algo parecido pode ser lido no <i>Discurso sobre a Desigualdade</i>, de Rousseau – esse malandro que vira o contratualismo de Hobbes de cabeça para baixo. Muito embora ele o afirme em tom de denúncia, quando enxerga na origem da propriedade privada o gesto autoritário do primeiro a dizer “isto aqui é meu”.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E é preciso levar a sério essa fórmula. Pois determinar que algo – um terreno, por exemplo, e de fato a posse da terra é uma dimensão de primeiríssima importância, como mais tarde vai mostrar com brilhantismo <a href="http://inctpped.ie.ufrj.br/spiderweb/pdf_4/Great_Transformation.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Karl Polanyi</a> a respeito do nascimento do capitalismo – é “de alguém” contém sempre um caráter de despotencialização. Uma parte da autonomia existencial (se posso falar assim) do objeto ou da porção de terra é perdida em nome de uma submissão ao artifício, à simbolização, à linguagem.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/masaccio-expulsacc83o-do-jardim-do-ecc81den.jpg"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1342" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/masaccio-expulsacc83o-do-jardim-do-ecc81den.jpg" alt="masaccio-expulsacc83o-do-jardim-do-ecc81den" width="550" height="413"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">A terra que era superfície (termo importante!) do planeta, sede da gênese de mundos, ambiente de circulação de entes vivos – humanos aí inclusos –, passa a ser “o terreno de alguém”. O gado que pasta e muge é “o rebanho de alguém”. Objeto de direito comercial. Patrimônio. O que esse ancinho performático faz é expulsar a natureza <i>do plano do discurso</i>, ao recobrir aquilo que era supostamente natural com uma superfície de determinações outras: culturais, financeiras, simbólicas. Um outro tipo de expulsão, como se vê, e igualmente ilusória.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">A propósito da questão discursiva, veja só como é interessante o lado religioso da questão – e não se pode deixar de fora a narração religiosa, que sempre manteve um diálogo de alta proximidade com outras narrativas totalizantes, em particular as metafísicas. No <i>Gênesis</i>, ao homem é dado o direito e a função de nomear todas as coisas, mas isso enquanto ele ainda está no Paraíso, isto é, dentro de algo que poderíamos ler como uma natureza intocada e perfeita, criada por Deus para o usufruto daquela criatura feita à sua imagem e semelhança.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas intervém o pecado original e o homem é expulso – note-se: não a natureza – do Jardim do Éden, obrigando-o a viver do suor de seu trabalho e a reproduzir-se com a dor do parto – mas mantendo seu caráter de imagem encarnada do Criador. Daí por diante, aquele que nomeou quando integrado ao Paraíso passará a enfrentar as adversidades de um vale de lágrimas: seria daí, então, que vem a reviravolta nada dialética, a peripécia pela qual torna-se ele mesmo um agente de expulsão da natureza? Será que é por isso que, com o perdão da piada infame, “Paraíso” no mundo dos humanos foi reduzido a um bairro de São Paulo não particularmente mais agradável do que o resto da cidade?</p>
<p class="western" align="CENTER"><b>* * *</b></p>
<p class="western" align="CENTER"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/encyclopedie-diderot.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1343" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/encyclopedie-diderot.jpg" alt="encyclopedie-diderot" width="528" height="400"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Seja como for, o ápice dessa mitologia que começa a se elaborar em paralelo à modernidade, e tem um caráter ao mesmo tempo titânico e masturbatório, pode ser encontrado (para variar) em Descartes, o estrito dualista das certezas claras e distintas. É no Discurso do Método que ele afirma, sem maiores pudores, que o conhecimento (adivinhe: claro e distinto…) de como funciona a realidade natural poderá fazer do ser humano “como o mestre e possessor da natureza”<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>4</sup></a>. Aqui, não se expulsa, mas se domina, subjuga e usa, “não só para gozar sem pena de seus frutos, mas sobretudo para a conservação da saúde”…</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Que ironia, hoje, pensar como o usufruto “sem pena” dos frutos da natureza resulta em enormes penas, de furacões a rios de lama, de enchentes a queimadas, de secas a cidades submersas… Cúmulo da ironia: tal domínio e tal usufruto chegaram a um tal nível que a “conservação da saúde” se tornou quase impossível: pense nisso quando estiver em São Paulo e precisar tomar um gole de água carregada de metais pesados.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas há duas coisas a notar nesse trecho de Descartes: a primeira é, evidentemente, sua paráfrase do “knowledge is power” de Bacon, autor que ele evidentemente havia lido. Mas Descartes diz algo mais interessante ainda: o conhecimento sobre <i>determinada dimensão da realidade</i> permite ter poder sobre essa mesma dimensão. E o filósofo francês é prudente: não corre o risco de dizer abertamente o que está implícito em seu texto. Afinal, para a mentalidade de seu tempo a natureza já tem um “mestre e possessor”, que atende pelo nome de “Aquele que É”: Deus.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/golfinhos.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1344" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/golfinhos.jpg" alt="golfinhos" width="550" height="367"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">O mesmo que, como vimos, entrega à sua criatura dileta o poder de <i>nomear</i> todas as coisas: mas, ora, se a linguagem é performática, então nomear é uma forma de saber. E se saber é controlar, já se pode vislumbrar aonde estamos chegando. Assim, para contornar os riscos de críticas oriundas da cúria – e tais críticas na época poderiam comprometer a vida de alguém até o talo –, Descartes diz abertamente que, ao colocar a natureza como objeto do conhecimento (isolado, portanto) e também da ação, o ser humano está <i>brincando de Deus</i>. Não será o último a fazer essa comparação…</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Segundo ponto, que já antecipa o que vou tratar um pouco mais adiante: Descartes quer que conheçamos “a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus” tão distintamente como conhecemos “os diversos metiês de nossos artesãos”, de modo a podermos “empregá-las do mesmo modo a todos os usos a que podem servir”. O trabalho da natureza sendo como o trabalho do artesão, a técnica deste último deverá tratar de colocá-la sob seu controle, fazendo com que ela sirva a seus próprios desejos e interesses.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas aqui é que entra uma questão importante que vai aparecer repetidamente neste texto: se fosse possível ter um conhecimento efetivamente exaustivo dessas forças todas, será que seria possível <i>controlá-las</i>? Se estivermos nós mesmos submetidos a elas, será que podemos reproduzir com sinal invertido o processo de expulsão do Paraíso, saindo nós mesmos dessa infinitude intensiva de forças, a ponto de tê-las sob nosso controle?</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Não poderíamos dizer, ao contrário, que toda convicção de que podemos controlar os potenciais naturais é um indicador de conhecimento faltoso e, por extensão, em se tratando de forças selvagens, arriscado e ilusório? Será essa disputa entre saber e poder, de fato, necessariamente, a relação que se pode nutrir entre a técnica e as forças “do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus”?</p>
<p class="western" align="CENTER"><b>* * *</b></p>
<p class="western" align="CENTER"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/goethe-faust-und-der-pudel-ramberg.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1346" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/goethe-faust-und-der-pudel-ramberg.jpg" alt="goethe-faust-und-der-pudel-ramberg" width="550" height="366"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Chegamos, assim, à origem do problema que, graças a Goethe, passou a ser chamado de <i>faustiano</i>. Foi Goethe que tornou o mito de Fausto algo capaz de abarcar todas as vertentes daquilo que convencionamos nomear <i>modernidade</i> e que já aparece em germe naquilo que discuti nos parágrafos acima. O âmbito religioso, em que o desejo de controlar (ou expulsar) a natureza aparece como pacto com o demônio, voltando-se contra a potência de nomear tal como presenteada por Deus. O desejo de conhecimento como poder para tornar-se “mestre e possessor”. A imposição de valorações de cunho financeiro (e, por extensão, venal) por cima tanto do que se considera uma realidade social quanto do que se considera uma realidade natural.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Marshall Berman, autor do espetacular <i><a href="http://monoskop.org/images/1/1a/Berman_Marshall_All_That_Is_Solid_Melts_into_Air_The_Experience_of_Modernity.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar</a></i>, tem razão ao chamar atenção para o fato de que as seis décadas necessárias para redigir o Fausto (Goethe começou com 21 anos de idade e só terminou com 82; no ano seguinte, morreu) são o que faz desse gigantesco poema a obra-prima por excelência da modernização. Da década de 1770 aos anos 1830, enquanto o <i>Fausto</i> de Goethe vinha ao mundo, todas as idéias e todas as técnicas que fizeram do ser humano “como mestre e possessor da natureza”, ao menos a seus próprios olhos, vieram ao mundo, a ponto de tirar o fôlego de quem observasse. Foi o tempo da industrialização, do colonialismo, das revoluções burguesas, da derrubada de monarquias – as eras citadas nas obras-primas de Eric Hobsbawm.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Foi também o tempo em que se engendrou a justificativa para todo esse desejo faustiano de dominação e <i>desenvolvimento </i>(eis aí, aliás, um termo capcioso, e que tem sido empregado no Brasil para justificar as maiores atrocidades; sem meias-palavras: crimes!). Para além das relações deus-e-diabo que se lêem na epopéia de Goethe, obras fundadoras como a de Locke afirmam o direito àquela mesma propriedade que Rousseau denunciara, sobrepujando o que poderia ser dito, de maneira não muito rigorosa, mas bastante eficaz, um direito inerente a qualquer objeto: o de ser o que se é. Ou seja, de não receber aquela camada suplementar de simbolização jurídica e linguística que vimos na fórmula do genebrino.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Com esse gesto fundador, político, metafísico e semiótico, torna-se um princípio da dita lei natural que a voz do humano (aquele que nomeia todas as coisas…) sobredetermine a essência de um pedaço de terra, uma porção de matéria modificada pelo engenho, um rebanho de animais…</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E como Locke justifica esse direito à propriedade? Pelo trabalho, seja diretamente, seja mediado pela circulação de uma outra força simbólica, o dinheiro que é capaz de contratar (e <i>comandar</i> trabalho, dirá mais tarde Adam Smith, fundando a noção de “valor relativo ou de troca”). Trabalho, técnica, linguagem, um trio poderoso capaz de fazer do ser humano aquele ser “terrível” (<i>deinon</i>) de que fala Sófocles<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>5</sup></a>, porque é capaz de, ao mesmo tempo, “expulsar” a natureza (do plano do discurso, como já mencionei) e, tendo-a expulsado, tornar-se “como mestre e possessor” dela.</p>
<p><em>Continua</em>…</p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><strong>Notas</strong></p>
<div id="sdfootnote2">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">2</a><span lang="pt-BR">. <em><span style="font-size: small;"><span lang="en-GB">“During the time men live without a common power to keep them all in awe, they are in that conditions called war; and such a war, as if of every man, against every man. </span></span><span style="font-size: small;"><span lang="en-US">To this war of every man against every man, this also in consequent; that nothing can be unjust. The notions of right and wrong, justice and injustice have there no place. Where there is no common power, there is no law, where no law, no injustice. Force, and fraud, are in war the cardinal virtues. </span></span><span style="font-size: small;"><span lang="en-GB">No arts; no letters; no society; and which is worst of all, continual fear, and danger of violent death: and the life of man, solitary, poor, nasty, brutish and short.”</span></span></em></span></p>
</div>
<div id="sdfootnote3">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">3</a><span lang="pt-BR">. <em><span style="font-size: small;">Uma exceção notável está em Spinoza, com a distinção entre natureza naturante e natureza naturada. Outra excepcionalidade está em sua dedução do direito civil por dentro do direito natural: “seja ele insensato ou sábio, o homem é sempre uma parte da natureza, e tudo aquilo pelo qual ele é determinado a agir deve ser relacionado à potência da natureza enquanto ela pode ser definida pela natureza de tal ou tal homem”. Por sinal, Spinoza é exceção em muitas coisas! Ainda assim, a diferença entre o direito natural e o direito civil é uma de barração de uma espécie de “direito de todos a tudo” (segundo a potência de cada um em sua natureza) que é na verdade um direito a nada (porque a potência de cada um limita a potência dos demais) que se aproxima bastante do estado de guerra de Hobbes.<br />
</span></em></span></p>
</div>
<div id="sdfootnote4">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">4</a><span lang="pt-BR">.<em><span style="font-size: small;"><em><span style="font-size: small;">“Mais, sitôt que j’ai eu acquis quelques notions générales touchant la physique, et que (…) j’ai remarqué jusques où elles peuvent conduire, et combien elles diffèrent des principes dont on s’est servi jusques à présent, j’ai cru que je ne pouvois les tenir cachées sans pécher grandement contre la loi qui nous oblige à procurer autant qu’il est en nous le bien général de tous les hommes: car elles m’ont fait voir qu’il est possible de parvenir à des connoissances qui soient fort utiles à la vie; (…) on en peut trouver une pratique, par laquelle, connoissant la force et les actions du feu, de l’eau, de l’air, des astres, des cieux, et de tous les autres corps qui nous environnent, aussi distinctement que nous connoissons les divers métiers de nos artisans, nous les pourrions employer en même façon à tous les usages auxquels ils sont propres, et ainsi nous rendre comme maîtres et possesseurs de la nature. Ce qui n’est pas seulement à désirer pour l’invention d’une infinité d’artifices, qui feroient qu’on jouiroit sans aucune peine des fruits de la terre et de toutes les commodités qui s’y trouvent, mais principalement aussi pour la conservation de la santé, laquelle est sans doute le premier bien et le fondement de tous les autres biens de cette vie (…).”</span></em></span></em></span></p>
</div>
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">5</a><span lang="pt-BR">.<em><span style="font-size: small;"><em><span style="font-size: small;"><i>Deinon</i>, como aparece no coro de Antígona:</span></em></span></em></span></p>
<p class="western"><span style="font-family: Times New Roman, serif;"><span style="font-size: small;"><i>Há muitas coisas terríveis e assustadoras (deinon), mas nenhuma / é tão terrível e assustadora quanto o homem. / Ele atravessa, ousado, o mar grisalho, / impulsionado pelo vento sul / tempestuoso, indiferente às vagas / enormes na iminência de abismá-lo; / e exaure a terra eterna, infatigável, / deusa suprema, abrindo-a com o arado / em sua ida e volta, ano após ano, / puxados por seus cavalos. / Ele captura a grei das aves lépidas / e as gerações dos animais selvagens: / e prende a fauna dos profundos mares / nas redes envolventes que produz, / homem de engenho e arte inesgotáveis. / Com suas armadilhas ele prende / a besta agreste nos caminhos íngremes; / e doma o potro de abundante crina, / pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo / que amansa o feroz touro das montanhas. / Soube aprender sozinho a usar a fala / e o pensamento mais veloz que o vento / e as leis que disciplinam as cidades, / e a proteger-se das nevascas gélidas, / duras de suportar a céu aberto, / e das adversas chuvas fustigantes; / ocorrem-lhe recursos para tudo / e nada o surpreende sem amparo; / somente contra a morte clamará / em vão por socorro, embora saiba / fugir até de males intratáveis.</i></span></span></p>
<p class="western">
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