Crédito: Roberto Soares/Alepe

por Franco Benites*

Ainda cedo para dizer quais os efeitos práticos, sobretudo do ponto de vista eleitoral, da fusão entre o DEM e o PSL que resultará na criação do União Brasil. Mas arrisco aqui a dizer que se alguém sai ganhando com esse movimento é a deputada estadual Priscila Krause, que após 27 anos de fidelidade canina ao DEM\PFL, não caminhará mais com a sigla.

De análises políticas mais sérias a conversas de mesa de bar ou whatsapp, uma avaliação comum é a de que Priscila destoava do DEM há algum tempo. De um lado, havia uma deputada jovem e de ideias arejadas, que sabe ocupar o espaço de oposição que lhe tem sobrado em Pernambuco, e do outro havia uma legenda partidária que não soube se renovar e se aliou ao atraso ao abraçar a figura do presidente Jair Bolsonaro na eleição para a prefeitura do Recife no ano passado.

Mas como Priscila poderia deixar o DEM sem parecer oportunista ou sem alimentar teorias de descompasso com seu amigo e aliado Mendonça Filho? A resposta caiu no colo de Priscila com a criação do União Brasil – mas, recorrendo à alegoria do iceberg, essa é apenas a ponta visível do que levou à decisão final.

Embora tenha vivenciado toda a sua vida política em um partido de direita, Priscila ganhou, nos últimos tempos, a simpatia de eleitores de esquerda e centro-esquerda insatisfeitos com a gestão do PSB em Pernambuco. Esses eleitores davam crédito à deputada pela oposição à gestão pessebista no estado e no Recife. No entanto, ao integrar, na eleição municipal passada, uma chapa que usou verniz bolsonarista, Priscila criou fissuras na comunicação com esses eleitores. Agora, o diálogo talvez possa ser retomado.

Por falar em comunicação com os eleitores, Priscila já vinha sendo bastante questionada, em suas redes sociais, por internautas mais apegados ao bolsonarismo. Esse grupo vê, com decepção, a crítica da deputada ao negacionismo e a defesa que ela faz da vacina contra a Covid-19. Longe do DEM, ela perderá apoio entre esses eleitores, mas meu palpite é que isso trará mais bônus do que ônus para a carreira política e a biografia de Priscila.

Para encerrar, um dado curioso: Priscila deixa o DEM no mesmo ano da morte de Marco Maciel, seu mentor político. Ela é a segunda macielista de carteirinha a deixar o partido. O primeiro foi André de Paula, muitos anos atrás. Sem Priscila e sem ter se convertido oficialmente em União Brasil, o DEM em Pernambuco fica ainda menor do que já é.

*Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade do Minho, de Portugal