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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Do laboratório de Exu saiu Alzira Almeida, uma das maiores especialistas em peste do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Aug 2023 17:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Exu</strong> &#8211; Na troca de cartas para a sua primeira missão para investigar a peste em Pernambuco, o consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) Marcel Baltazard deixou bem claro: não queria treinar uma mulher. Como o trabalho dos estrangeiros em Exu eram feitos por consultorias, a ideia era que um brasileiro ficasse sempre no laboratório. “Ele é contra o treinamento de uma mulher, pois para a solução que buscamos será preciso um indivíduo polivalente”, escreveu o então diretor do Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu), José Rodrigues da Silva.</p>



<p>O desejo inicial do pesquisador francês nunca foi atendido. O perfil que ele queria, lá em 1964 &#8211; “bacteriologista, ecologista, organizador” -, não foi encontrado entre os homens, na época. Mas do Plano Piloto de Exu saiu uma das maiores especialistas sobre a peste no mundo. Uma mulher.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-esquecida-historia-da-mortal-epidemia-de-peste-em-pernambuco/" class="titulo">A esquecida história da mortal epidemia de peste em Pernambuco</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
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        </div>

		


<p>Contrariando a recomendação de Baltazard, Frederico Simões Barbosa, então diretor do Instituto Aggeu Magalhães, convidou Alzira para compor a equipe do laboratório. Pesquisadora emérita da Fiocruz-PE desde 2019, Alzira de Paiva Almeida foi trabalhar em Exu ao lado do então noivo, o biólogo Célio Almeida, em 1966. Na cidade sertaneja, também enfrentou o machismo: o marido era “doutor&#8221; Célio. Ela, “dona” Alzira.</p>



<p>Desde então, ela tem se dedicado ao estudo da peste. Não há material científico sobre peste produzido no Brasil nas últimas décadas que não cite Alzira Almeida, que é doutora em microbiologia pela Universidade Paris VII. Uma de suas várias conquistas é ter deixado o Brasil autossuficiente para o diagnóstico da peste, após ter aprendido novas técnicas para produção do antígeno no Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos. Também ajudou a Pernambuco ter uma das maiores coleções de cepas da <em>Yersinia pestis</em> do mundo, com cerca de mil exemplares.</p>



<p>De Exu, foi trabalhar no laboratório de peste de Garanhuns e depois veio para o Recife. Após 46 anos como servidora, Alzira Almeida se aposentou em 2012, mas, aos 80 anos, segue como pesquisadora na Fiocruz-PE. Em Exu, terra onde tudo começou, ela conversou com a Marco Zero.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p><strong>O que a senhora aprendeu na Exu dos anos 1960? Como começou a coleção de cepas da <em>Yersinia pestis</em>?<br></strong>Aprendi a identificar os roedores, fazer a identificação taxonômica, identificar os diferentes tipos de pulgas. E principalmente técnicas bacteriológicas, de necropsia de roedores, coletas de amostras para fazer cultura, para isolar a bactéria. Em Exu foi iniciada a coleção da bactéria <em>Yersinia pestis</em>. Essa coleção foi ampliada em Garanhuns, onde depois de Exu funcionou o laboratório nacional de peste. E depois também em Recife, com as amostras do último surto de peste que ocorreu no Brasil, de setembro de 1986 a novembro de 1987, na Paraíba.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>A coleção de bactérias</strong></p>



<p>A coleção de <em>Y. pestis</em> da Fiocruz foi iniciada em 1966 e, atualmente, conta com quase mil cepas. É um dos maiores acervos do mundo e o mais importante do país, possibilitando estudos sobre o bacilo dos diversos focos de peste do Brasil. A maioria das cepas foi isolada no período de 1966 a 1986 ,nas Chapadas do Araripe e da Borborema, Triunfo, Serras da Ibiapaba e Baturité, no Ceará, mas também há cepas da Bahia e de Minas Gerais. As coleções brasileiras mais antigas, contendo as cepas das primeiras décadas do século XX, se perderam por falta de conservação.</p>



<p>Recentemente, o genoma completo de 411 cepas da <em>Y. pestis </em>foi sequenciado. As análises do genoma de cepas, que eram de diversos focos e de diferentes períodos epidemiológicos, permitiram confirmar a hipótese de apenas uma única introdução da peste no Brasil.</p>
</blockquote>



<p><strong>Foi dessa época a última morte por peste no Brasil?<br></strong>Neste surto na Paraíba ocorreram as últimas mortes. O último caso registrado no Brasil foi em 2005, no Ceará, em uma área que se sabia que historicamente havia peste e o estado mantinha uma vigilância ativa. O doente foi tratado rapidamente. Na Paraíba, na época desse último surto, o estado estava sem recursos e a vigilância havia sido desativada há uns oito ou dez anos, e ninguém esperava mais que a peste fosse aparecer lá.</p>



<p><strong>Ninguém espera que a peste apareça de novo, parece uma doença muito antiga.<br></strong>É o perigo da peste: quando ela reaparece após alguns anos, as pessoas não estão preparadas. Nem a população preparada para reconhecer os sinais, nem as autoridades de saúde com equipamentos ou equipes preparadas. Os primeiros casos passam despercebidos, só são percebidos quando alguém vai a óbito e se faz uma investigação. Mas aí já está epidemizado e vários casos se sucedem.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peste-a-doenca-que-sempre-volta/" class="titulo">A peste, uma doença que sempre volta</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
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        </div>

		


<p><strong>Sua vida de trabalho foi toda dedicada à peste?<br></strong>Algumas pessoas veem isso até como uma crítica: como uma pessoa passa quase 60 anos fazendo a mesma coisa? Mas é que a peste é uma doença que tem muitas facetas. Para pessoa trabalhar com peste tem que saber história, geografia, ecologia…Fui acumulando conhecimentos sobre todos os elos da cadeia epidemiológica. Adquiri conhecimentos sobre roedores, sobre pulgas, sobre técnicas bacteriológicas, técnicas sorológicas, fiz minha tese de doutorado sobre técnicas moleculares e, agora, estamos fazendo um trabalho de sequenciamento de DNA. Faço colaborações com diversas áreas. Tem a pesquisadora Elainne Gomes, que trabalha muito com georreferenciamento e análise espacial, que junta geografia e clima com dados históricos. E meu trabalho é estudar os dados históricos sobre a peste, agora com novas tecnologias, temos tidos muitos resultados com o georreferenciamento, indo desde o início, em 1966.</p>



<p><strong>Desde 1980 não se registra mais casos de peste em humanos em Pernambuco. Por que é importante manter vigilância, mesmo passados mais de 40 anos?<br></strong>Tem uma frase que eu ouvi uma vez de Jarbas Barbosa, que hoje é diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) : “Vigilância é estar preparado para lutar contra um inimigo que talvez nunca venha”. No caso da peste, isso é mais ou menos verdade. Talvez ela nunca venha. Mas é possível que ela venha. Sabemos que nenhum país do mundo conseguiu se livrar totalmente da peste. Foram feitas várias tentativas nos Estados Unidos, Rússia, China…mas todas foram infrutíferas. Depois de todos os esforços, todo dinheiro despendido, a peste voltou depois de anos, e sempre nos mesmos locais de onde se tentou exterminá-la. Ela sempre retorna para lugares onde desapareceu há 20, 30, 50 e até 100 anos. </p>



<p>Do ponto de vista histórico, temos as evidências das pandemias que ocorreram na era cristã. Teve a primeira no reinado de Justiniano. Passou alguns anos silente e depois veio a segunda, na Idade Média. Depois de alguns séculos, a terceira pandemia que, segundo alguns autores, ainda estamos vivendo essa terceira pandemia, que já dura mais de um século. A peste não se expande mais tanto, pois tem meios de impedi-la, mas ainda ocorre entre as fronteiras terrestres, até por meio dos roedores. No último parágrafo de <em>A peste</em>, de Albert Camus, ele relata as pessoas festejando e o médico observando: as pessoas festejavam porque não sabiam o que a medicina sabia, que a peste pode reaparecer em uma comunidade feliz, para a desgraça da humanidade. A mensagem de Camus é muito válida.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“</em>Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz<em>.”</em></p>



<p><em><br></em>Trecho de<em> A peste, </em>de Albert Camus</p>
</blockquote>



<p><strong>A senhora falou que há ainda alguns mistérios sobre a peste. O que a ciência ainda não sabe?<br></strong>Entre eles, a questão de como eclodem e como desaparecem as epidemias. Como é que ela vai reaparecer depois de até vários séculos, provocando grande número de casos, e como ela se extingue. Esse é um dos grandes pontos ainda a se estudar. Nenhum país ainda conseguiu descrever o mecanismo do reaparecimento da peste. Na época atual, que tem registros mais precisos, em Yunnan, na China, a peste reapareceu dois anos atrás no mesmo local onde a doença havia desaparecido há cem anos. Na América do Sul, reapareceu no Peru, no Equador e na Bolívia no início deste século. No Brasil, em alguns focos já estamos com 50 anos de silêncio. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/tabocas-o-povoado-do-sertao-de-pernambuco-que-nao-esqueceu-a-peste/" class="titulo">Tabocas, o povoado do sertão de Pernambuco que não esqueceu a peste</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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<p>Sobre outros aspectos, há a necessidade de melhoramentos. Na década de 1990 surgiram algumas cepas da <em>Yersinia pestis</em> resistentes a todos os antibióticos. Felizmente, isso não evoluiu. Mas há sempre o risco da resistência e, por isso, é necessário o estudo de novos antibióticos ou novos meios de tratamento. Também não existe uma vacina contra a peste. Desde Oswaldo Cruz, aqui no Brasil, se iniciou a produção de uma vacina, mas não era eficaz. Vários países, durante alguns anos, chegaram a produzir e usar vacinas, mas até hoje não se tem nenhuma que realmente funcione.</p>



<p></p>



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	                                        <p class="m-0">Alzira Almeida concedeu entrevistou durante a passagem por Exu. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
</p>
	                
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<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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			</item>
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		<title>A esquecida história da mortal epidemia de peste em Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/a-esquecida-historia-da-mortal-epidemia-de-peste-em-pernambuco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 19:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[bubônica]]></category>
		<category><![CDATA[exu]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Exu (PE) &#8211; Foi no que hoje é um conjunto de ruínas e casas por trás do memorial criado por Luiz Gonzaga, perto da entrada de Exu, que uma parte importante da ciência em Pernambuco começou a ser construída. Importante, mas esquecida: quem sabe ou lembra que Pernambuco foi um dos estados mais atingidos pela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Exu (PE) &#8211;</strong> Foi no que hoje é um conjunto de ruínas e casas por trás do memorial criado por Luiz Gonzaga, perto da entrada de Exu, que uma parte importante da ciência em Pernambuco começou a ser construída. Importante, mas esquecida: quem sabe ou lembra que Pernambuco foi um dos estados mais atingidos pela epidemia de peste do século 20? Sim, a mesma doença que séculos antes devastou a Europa e que se acredita que já matou mais de 200 milhões de pessoas.</p>



<p>E foi também em Exu que descobertas científicas importantes foram feitas para entender melhor a doença, que até hoje desafia cientistas.</p>



<p>Uma peça-chave para entender o que foi a epidemia de peste em Pernambuco &#8211; e no Brasil &#8211; é a pesquisadora emérita da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-PE) Alzira Almeida, coordenadora do Serviço Nacional de Peste, que há mais de 50 anos estuda a doença.</p>



<p>Andando nas ruínas do que um dia foi o ousado Plano Piloto de Peste em Exu, ela conta que o projeto tinha o intuito de responder a uma grande questão: havia peste silvestre no Brasil? Ou seja, os roedores e pulgas silvestres participavam do intrincado processo de transmissão da bactéria <em>Yersinia pestis</em> para o ser humano? Por muito tempo, se achou que apenas os ratos domésticos carregassem a doença.</p>



<p>Para responder essa questão, durante sete anos, foram realizados em Exu estudos sobre a peste, sob orientação da equipe francesa e iraniana do Instituto Pasteur. O estudo abarcava diferentes disciplinas, como a epidemiologia e a zoologia. “Se trabalhou com roedores para identificar os que existiam na região, o papel dessas espécies, se eram sensíveis ou resistentes à peste, quais eram as pulgas vetores. E também se observou os efeitos das modificações climáticas, ao longo do tempo, sobre a doença nos roedores e nos casos humanos”, conta Alzira.</p>



<p>Os surtos de peste com mais casos e mortes ocorreram em Pernambuco antes do desenvolvimento dos antibióticos e das sulfas, medicamentos que chegaram ao Brasil nos anos 1940 e fizeram despencar a letalidade da doença.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/08/missao-exu-ruinas.jpg" alt="Terreno baldio onde se vê o que sobrou de muros e paredes de uma construção. Á direita da foto, um homem de camisa branca e calça jeans, fotografado de corpo inteiro e à distância, está com as mãos na cintura, olhando para seu lado direito. Á esquerda da foto, junto a uma parede, está uma mulher idosa, de cabelos brancos, calça preta e blusa estampada." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Missão da Fiocruz visita ruínas do laboratório da peste em Exu. Crédito: Arnaldo Sete/ MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>No final dos anos 1920, o então próspero município de Triunfo viveu uma das maiores epidemias do estado, com mais de mil casos.”É um município com um histórico triste de peste: era uma cidade muito próspera até a década de 1920, tanto que se vê construções muito bonitas, mas em 1926 eclodiu uma epidemia de peste, que destruiu a economia local e a cidade demorou a se reerguer”, conta Alzira Almeida. Em meados dos anos 1930, Exu também perdeu muitas vidas, principalmente no distrito de Tabocas.</p>



<p>Aliado aos antibióticos, o controle de roedores nas áreas urbanas, o uso dos repelentes e inseticidas corretos e a limpeza dos ambientes controlaram a doença. Nos anos 1950, se pensou até que a peste estava erradicada de Pernambuco. Mas em meados dos anos 1960 os casos voltaram a aparecer e crescer &#8211; e nos mesmos municípios atingidos nas décadas anteriores.</p>



<p>“Na época, estava havendo epidemias em vários países do mundo. O Brasil, na década de 1960, era o terceiro país do mundo em números de casos de peste, atrás do Vietnã, em plena guerra, e da Birmânia”, conta a pesquisadora.</p>



<p>Pelos dados oficiais, de 1935 até 2005, a epidemia de peste atingiu 7.050 pessoas no Brasil, matando 1.134. Porém, esses números, principalmente das primeiras décadas, são considerados por pesquisadores como subnotificadoseincompletos.</p>



<p>Eram mais de 600 casos por ano no Brasil. “Para peste, é um número muito alto. Não podemos comparar com os números da covid-19, por exemplo, porque o óbito da peste pode ser muito rápido, em menos de 72 horas, e pode “epidemizar” também muito rápido. Um único caso de peste pneumônica, que é a que afeta os pulmões, já tem potencial para causar uma epidemia”, diz Alzira Almeida.</p>



<p>E Pernambuco era o estado onde havia o maior número de casos nos anos 1960. Os registros foram tantos que o governo brasileiro, através do Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu), pediu ajuda à Organização Mundial da Saúde (OMS), que enviou o pesquisador francês Marcel Baltazard, que havia dirigido o Instituto Pasteur do Irã. Especialista em raiva e peste, Baltazard percorreu o interior de Pernambuco em abril de 1965, acompanhado do então presidente do Instituto Aggeu Maggalhães, Frederico Simões Barbosa.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“A escolha de Exu foi porque lá parecia ser um foco fechado de peste, que se poderia estudar devido a barreiras ecológicas em torno da área. A cidade de Exu fica localizada no pé da serra do Araripe, uma chapada sedimentar com duzentos quilômetros de extensão e quarenta de largura, e a uma altitude de aproximadamente setecentos metros. No sopé dessa chapada, que é uma zona agrícola, tinham os brejos, onde ocorriam os casos de peste. Historicamente, desde 1917, os primeiros casos de peste aconteceram em Exu. Essa chapada era circundada pela caatinga, pelo sertão” &#8211; Célio Rodrigues de Almeida, biólogo, em depoimento à Fiocruz e UFPE</p></blockquote>



<p>A expedição de Baltazard deu as bases para a implementação, dois anos depois, do Programa de Peste no Brasil. Foi em Exu que consideraram o melhor local para estudar a peste, pelo número de casos, a geografia e a existência das instalações de uma escola agrícola nunca usada. Surgia assim o Plano Piloto de Exu, o primeiro laboratório de peste do Brasil.</p>



<p>Trabalhando com Baltazard, havia também consultores da França e do Irã,notadamente os médicos iranianos Younes Karimi e Mahmoud Bahmanyar, que fizeram algumas missões a Exu durante os sete anos do projeto. Junto com a equipe brasileira &#8211; que contava com Alzira Almeida e o biólogo Célio Almeida, marido dela &#8211; os trabalhos na Chapada Araripe colaboraram com importantes descobertas sobre a peste.</p>



<p>Uma delas foi a resistência da pulga de roedores (<em>Xenopsylla cheopis</em>) e a pulga “humana” (<em>Pulex irritans</em>) a um tipo de de classe de inseticidas (os organoclorados), que era inclusive entregue pelo governo aos moradores de áreas de foco de peste. O grupo também ajudou na criação de uma metodologia para um teste rápido.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>A peste &#8211; </strong>É uma doença que afeta humanos e outros mamíferos. É causada pela bactéria <em>yersinia pestis</em> e geralmente é contraída pelos humanos após serem picados por uma pulga de roedor que carrega a bactéria. É possível se contaminar também ao manusear um animal infectado. A peste é famosa por ter matado milhões de pessoas na Europa durante a Idade Média. Hoje, os antibióticos são muito eficazes contra a doença. Sem tratamento imediato, a peste pode levar à morte.<br><br><strong>A peste pode se apresentar de três formas:</strong></p><p><strong>Bubônica</strong> &#8211; É a mais comum. Ocorre quando a pessoa é picada por um pulga infectada e a bactéria se multiplica nos linfonodos, geralmente o mais perto da picada, que ficam inflamados, formando os chamados bubões. Há febre alta, calafrios, dor de cabeça e fraqueza, entre outros sintomas.</p><p><strong>Septicêmica</strong> &#8211; Pode ocorrer por conta de picadas de pulga e manipulação de animais doentes ou ainda como uma complicação da bubônica. Um sintoma característico é a necrose de extremidades do corpo, como dedos dos pés e das mãos.</p><p><strong>Pneumônica</strong> &#8211; É a mais grave. Ocorre tanto como uma complicação dos outros tipos, como também pode ser pela manipulação de animal morto. Pode passar de pessoa para pessoa com extrema facilidade, por gotículas e aerossóis da tosse e da fala. Sem tratamento, mata quase todos os doentes. O tratamento com antibióticos adequados deve ser feito nas primeiras 24h de sintomas.</p></blockquote>



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	                                        <p class="m-0">No mapa, os focos no Brasil, com base nos registros de ocorrência de peste humana e animal, do Manual de Controle e Vigilância da Peste</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Os roedores silvestres</strong> e a transmissão da doença</h2>



<p>A descoberta mais importante feita em Exu, contudo, foi a confirmação de que roedores nativos e outros pequenos mamíferos são responsáveis pela conservação da peste na natureza. Antes, havia uma forte corrente que defendia que apenas os ratos domésticos carregavam a bactéria. Foram décadas de controvérsia sobre o assunto. E décadas focando o combate à doença apenas nos ratos domésticos.</p>



<p>Essa linha de pensamento ganhou mais força quando, em 1940, o pestólogo chileno Atílio Machiavello Varas, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), fez estudos no Brasil e refutou a ideia de peste silvestre, culpando apenas os ratos (<em>Ratus rattus</em>).</p>



<p>Na década seguinte, outro pestólogo estrangeiro veio para Pernambuco. O argentino José Maria de la Barrera visitou várias cidades, como Triunfo, e concluiu o contrário: sim, havia contaminação de peste nos roedores silvestres. Seu relatório, no entanto, circulou pouco, não foi publicado e não diminuiu as dúvidas do Ministério da Saúde.</p>



<p>Na época que chegou a Pernambuco, Baltazard, que dirigia o departamento de epidemiologia do Instituto Pasteur de Paris, era a maior autoridade do mundo sobre o estudo da peste. Junto com Karimi e outros pesquisadores, já havia comprovado o papel dos roedores silvestres na transmissão da peste em epidemias no Curdistão e no Azerbaijão.</p>



<p>Baltazar queria vir passar três semanas em Pernambucom mas acabou ficando três meses, com um salário mensal de 900 dólares pagos pela OMS. Viria outras vezes, assim como Karimi e Bahmanyar.</p>



<p>A convivência dos estrangeiros com a equipe brasileira nem sempre foi fácil. Em carta, Bahmanyar reclamava aos superiores de que não havia pesquisadores cultos: queria alguém que falasse inglês e francês. Também era difícil conseguir funcionários qualificados que quisessem ir morar em Exu. Não havia energia elétrica na cidade em 1967 &#8211; o plano piloto usava um gerador a diesel &#8211; e, até hoje, o abastecimento de água na cidade é problemático.</p>



<p>Exu também passava por um período violento de guerra entre as famílias Saraiva, Alencar e Sampaio, que fez até Luiz Gonzaga levar o pai Januário para o Rio de Janeiro. Apesar de tudo isso, o empenho da equipe de brasileiros era enorme. Não demorou para Alzira e Célio caírem nas graças de Bahmanyar. “Meus colaboradores, especialmente Célio e Alzira, estão me ajudando extraordinariamente e aprendendo avidamente todas as fases do trabalho”, escreveu ao diretor do INERu, José Rodrigues da Silva.</p>



<p>Poucas semanas depois de chegar em Exu, o iraniano conseguiu isolar a <em>Yersinia pestis</em> em um <em>Bolomys lasiurus</em>, um pequeno roedor comum na Caatinga e no Cerrado. Vinte dias depois, um caso da doença em humanos foi descoberto em Exu.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>As espécies de roedores da caatinga e doença</strong></p><p>Das quase 2 mil espécies de roedores catalogadas no mundo, cerca de 230 albergam naturalmente a <em>Yersinia pestis</em>. Mas somente de 30 a 40 espécies servem como reservatórios básicos ou primários, com as demais atuando como reservatórios secundários, assegurando a manutenção e a difusão da doença.</p><p>O pequeno pixuna (<em>Necromys lasiurus</em>) é considerado o principal responsável pela epizootização &#8211; o conceito de epidemia aplicado aos animais &#8211; da peste nos focos do Nordeste, por ser também um dos roedores silvestres mais numerosos.</p><p>As famílias de roedores <em>caviidae</em> e<em> echimydae</em> também têm importância epidemiológica, tanto para a epizootização como para a manutenção da bactéria. O preá é relativamente resistente à Y. pestis, enquanto o punaré é extremamente sensível.</p></blockquote>



<p>O médico infectologista Celso Tavares, falecido em 2020, escreveu a tese de doutorado dele sobre o Plano Piloto de Exu. É de onde tiramos as informações sobre as cartas dos pesquisadores que estão nesta matéria, por exemplo. Na publicação, se explicita que os brasileiros não tinham acesso aos relatórios de Bahmanyar e de Karimi e que as publicações de Baltazard “compunham-se basicamente de descrições e comentários”. Os brasileiros chamavam as anotações de “romance de Baltazard”. Havia também muitas disputas entre os pesquisadores.</p>



<p>Em 1971, Baltazard morreu de repente. “&#8230;O que fez com que aquele patrimônio se perdesse entre as querelas e o desinteresse do DNERu/SUCAM, Bahmanyar, Karimi e Mollaret (sucessor de Baltazard)”, escreveu Tavares. O último relatório de Baltazard sobre Exu só foi publicado em 2004, graças a Alzira.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/08/exu-missao-francisco.jpg" alt="Homem idoso, negro, de cabelos ralos e cavanhaque brancos, vestindo camisa rosa claro, gesticula em frente a uma casa de parede branca onde se vê uma porta fechada e janelas abertas." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Francisco começou varrendo o chão e se formou em Biologia. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h3 class="wp-block-heading">Formação de pesquisadores</h3>



<p>Muito além do trabalho científico dos estrangeiros, o Plano Piloto de Exu foi importante para a formação de técnicos e pesquisadores da peste no Sertão. O biólogo Francisco Gomes começou lá varrendo o chão. Terminou pesquisador. Para fazer a graduação em biologia, ia todo dia para o outro lado da Chapada do Araripe, no Crato, em um ônibus fretado por Luiz Gonzaga para ajudar os estudantes de Exu. Só no lado cearense havia faculdade &#8211; até hoje é assim.</p>



<p>Trabalhou como “guarda de endemias” capturando roedores na caatinga. Também atuou fazendo punção nos bubões &#8211; bolhas resultantes do inchaço doloroso do linfonodo, que atinge os tecidos da axila ou da virilha &#8211; dos acometidos pela peste bubônica. Nunca teve medo de se contaminar. “Só fui pensar nisso na verdade quando chegou a covid-19. E aí me lembrei da época da peste e de como não passava na minha cabeça essa preocupação”, afirmou. Apesar de ter tratamento eficaz, a peste bubônica é uma doença muito dolorida. “Lembro que quando ia coletar o material dos bubões, as pessoas deliravam de dor, até desmaiavam”, lembrou.</p>



<p>Também moradora de Exu, Mirtes Saraiva era uma estudante do colegial quando foi trabalhar no laboratório de peste. Só ela e Alzira de mulheres. Ficava com receio apenas quando tinha que acompanhar a captura das pulgas: se passava um pente fino nos roedores, levando as pulgas a caírem numa vasilha com água e ficarem imobilizadas. Mas o sentimento que lembra da época não é de medo, mas de orgulho de trabalhar ali. “Na cidade, todos me tratavam com respeito. Me agradeciam por estar ajudando a fazer um trabalho que beneficiava a região, principalmente os mais pobres, e ajudava a nos livrar de uma doença tão terrível”.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
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                <a href="https://marcozero.org/a-esquecida-historia-da-mortal-epidemia-de-peste-em-pernambuco/" class="titulo">A esquecida história da mortal epidemia de peste em Pernambuco</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A peste, uma doença que sempre volta</title>
		<link>https://marcozero.org/a-peste-a-doenca-que-sempre-volta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 19:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[bubônica]]></category>
		<category><![CDATA[exu]]></category>
		<category><![CDATA[FioCruz]]></category>
		<category><![CDATA[peste em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[roedores]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Exu (PE) &#8211; No mês de julho, uma equipe de nove pesquisadores da Fiocruz de Pernambuco e do Rio de Janeiro, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Campina Grande (UFCG) refizeram a rota do pesquisador Francês Baltazard, do Instituto Pasteur, e do então presidente do Instituto [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Exu (PE)</strong> &#8211; No mês de julho, uma equipe de nove pesquisadores da Fiocruz de Pernambuco e do Rio de Janeiro, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Campina Grande (UFCG) refizeram a rota do pesquisador Francês Baltazard, do Instituto Pasteur, e do então presidente do Instituto Aggeu Maggalhães, Frederico Simões Barbosa, pelo interior de Pernambuco, na década de 1960. </p>



<p>Em uma semana, percorreram os municípios de Garanhuns, São José do Belmonte, Triunfo e Exu, revisitando as instalações onde funcionaram os laboratórios e serviços de vigilância da peste, buscando registros e testemunhos de antigos trabalhadores do Programa de Peste.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/a-esquecida-historia-da-mortal-epidemia-de-peste-em-pernambuco/" class="titulo">A esquecida história da mortal epidemia de peste em Pernambuco</a>
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<p>Em Exu, o laboratório de peste ainda está de pé, com máquinas, mas fica fechado e não faz mais análises ou capturas de animais. De lá, as pesquisadoras levaram para a sede da Fiocruz-PE cadernos de laboratório e várias lâminas com pulgas preservadas.</p>



<p>Nos outros lugares que visitaram, não havia a mesma estrutura. Em Triunfo, o laboratório estava sendo encaixotado e esvaziado. O de Garanhuns não existe mais, todavia o prédio segue em boas condições. O serviço de São José do Belmonte, que fazia apenas capturas de animais, estava fechado.</p>



<p>Além de fazer o resgate dos registros históricos dessa epidemia quase esquecida, os pesquisadores queriam analisar as condições dos laboratórios para uma eventual necessidade de uso.</p>



<p>O último caso de peste registrado em Pernambuco foi em 1980, em Ipubi. Foi também a última morte no estado, encerrando uma epidemia que durou de 1976 a 1980. Desde os anos 1990, as ocorrências de peste humana no Brasil se limitam a raros e esporádicos casos. O último caso notificado de peste em ser humano foi em 2005, no município de Pedra Branca, no Ceará.</p>



<p>Mas se o estudo da peste ensinou alguma coisa, é que ela é impossível de ser erradicada.</p>



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	                                        <p class="m-0">Notícias do Diário de Pernambuco na década de 1960. Crédito: Acervo Biblioteca Nacional
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Doença milenar, a peste teve seu primeiro registro no livro de Samuel, do Antigo Testamento da Bíblia, que narra uma epidemia na cidade de Ashod, na Palestina, em 1320 antes de Cristo.</p>



<p>Durante a era cristã, ocorreram três grandes pandemias: a primeira, a Peste de Justiniano (542-602 d. C.), que começou no Egito e teria ajuda no declínio do Império Romano. A segunda, a devastadora Peste Negra, teve início na Ásia e se espalhou pelo norte da África e por toda a Europa, matando mais de 40 milhões de pessoas entre os séculos 14 e 16. A terceira pandemia é chamada de Contemporânea. Teve início na cidade de Yunnan, na China, no final do século 19, e do porto de Hong Kong se espalhou para áreas em que a peste nunca havia chegado, como as Américas.</p>



<p>Em junho de 1894, o bacteriologista franco-suíco Alexandre Yersin isolou o bacilo da peste pela primeira vez, em Hong Kong. Ele também demonstrou que a bactéria estava presente tanto no rato quanto no ser humano. Quatro anos depois, o médico francês Paul-Louis Simonddescobriu que a pulga era a ponte entre os dois. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
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<p>Os primeiros casos da doença no Brasil foram documentados em outubro de 1899 pelos cientistas Vital Brasil e Oswaldo Cruz. A porta de entrada foi o porto de Santos, em São Paulo, e a doença chegou ao Nordeste em 1900, com os primeiros casos em Fortaleza. Em Pernambuco, foi registrada pela primeira vez em 1902. A partir dos anos 1910, atingiu as zonas rurais de cidades do interior do Nordeste.</p>



<p>Há alguns aspectos da peste que ainda são incompreendidos pela ciência. Sabe-se que os roedores silvestres são reservatórios permanentes da<em> Yersinia pestis</em>, mas o mecanismo pelos qual as epidemias eclodem e acabam ainda não é totalmente compreendido. Estudos do Instituto Pasteur do Irã mostraram que a bactéria pode sobreviver alguns anos em tocas na terra, quando um animal doente morre e é decomposto. Em superfícies, vive apenas por poucas horas ou dias. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>“</strong>Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas.”</p>



<p><em>A peste</em>, Albert Camus</p>
</blockquote>



<p>Desde que os antibióticos foram desenvolvidos, é no começo dos surtos que os óbitos são mais prováveis de acontecer, porque ninguém espera que a peste volte depois de décadas ou até séculos de silêncio da doença.</p>



<p>“Os médicos não têm mais aulas de peste na faculdade e desconhecem os sintomas e quais antibióticos são eficazes. A estreptomicina foi o mais usado na época de combate à peste, mas atualmente tem as tetraciclinas e cloranfenicol. Se tratar o doente com penicilina, por exemplo, o paciente vai a óbito, porque é ineficaz contra a peste. Pode até ter uma impressão enganosa: <em>in vitro</em>, o exame de antibiograma dá que é sensível à penicilina, mas na prática o remédio não funciona”, explica Alzira Almeida.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/08/Missao-exu-sobreira-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/08/Missao-exu-sobreira.jpg" alt="Foto colorida de duas mulheres em uma sala onde funcionava antigo laboratório. Em primeiro plano, fotografada da cintura para cima, mulher de meia idade, cabelos castanhos curtos encaracolados, usa uma blusa azul turquesa e mostra uma placa encardida de cultura de material biológico. Ao seu lado esquerdo (à direita da imagem), porém mais distante da câmera, está a segunda mulher, idosa, cabelos brancos cursos e encaracolados, está com a mão direita levantada em direção à câmera." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Pernambuco abandonou vigilância da peste em 2017</strong></h2>



<p>Com tratamento eficaz e o último caso em Pernambuco tendo ocorrido há 43 anos, é compreensível que a peste esteja bem longe das prioridades de saúde de um governo. Mas, como é uma doença que passa por longos períodos de silêncio, pesquisadores defendem que pelo menos a vigilância epidemiológica continue sendo realizada nos municípios que, historicamente, são focos da peste.</p>



<p>Durante muito tempo, a vigilância era feita com a captura de roedores &#8211; tanto domésticos como silvestres &#8211; que ficavam de quarentena nos laboratórios. Quando morriam, passavam por necrópsia e era feita uma cultura para ver se carregavam a <em>Yersinia pestis</em>. Esse tipo de análise ainda é feito pontualmente, mas apenas para pesquisas acadêmicas.</p>



<p>Em 2007, o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica mudando a metodologia de vigilância para o exame sorológico de mamíferos &#8211; geralmente cães e gatos de zonas rurais, nas cidades de foco. “O animal pode ter peste e morrer ou pode ter peste e se curar espontaneamente. Esses que se curam, principalmente cachorros, desenvolvem anticorpos que permanecem por longos meses, quase um ano, dependendo do animal e do tempo de vida. Podemos fazer uma vigilância retrospectiva”, explica Alzira Almeida.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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<p>Mas em Pernambuco desde 2017 nenhum tipo de vigilância é feito. “Na época, o governo do estado alegou que estava sem condições. É uma questão econômica: como o último caso humano em Pernambuco foi em 1980, logicamente os recursos minguaram e foram para outros problemas considerados maiores”, diz Alzira. Algumas prefeituras ainda continuaram por mais alguns poucos anos, a exemplo de Triunfo.</p>



<p>No Brasil, hoje, apenas três estados mantêm a vigilância epidemiológica nos focos de peste: Ceará, Minas Gerais e Alagoas. Em Pernambuco, o laboratório do Serviço Nacional de Peste, da Fiocruz-PE, é o único capaz de fazer diagnóstico da doença.&#8221;Quase sempre que se procura peste em animais nos municípios que tiveram focos, se encontra&#8221;, diz Alzira. </p>



<p>Para a pesquisadora da Fiocruz-PE Marise Sobreira, vice-coordenadora do Serviço Nacional em Peste, é fundamental manter a vigilância. “Quando a peste fica nesses períodos longos de silêncio, o maior risco é descontinuar a vigilância, e isso, infelizmente, foi o que vimos nessa viagem. Estão desconsiderando o silêncio da doença. Temos focos naturais da peste e deveria se investir também na formação dos profissionais, principalmente os novos, que não estudam mais a peste. Com a modernização e a reforma curricular, as faculdades de Medicina têm dado espaço para as tecnologias mais modernas e negligenciam essas áreas, que são importantes para a saúde pública”, afirma.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A peste como arma de bio-terrorismo</strong></h3>



<p>Nos Estados Unidos, a peste chegou na mesma onda do Brasil, em 1900. Nunca conseguiram eliminar a doença: de acordo com dados do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), há uma média de sete casos de peste por ano nos EUA. A grande maioria, 80%, é de casos de peste bubônica, a forma mais “leve” da doença.</p>



<p>Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mapeou mais de 30 países onde ocorrem casos de peste. São entre mil e 2 mil casos humanos reportados a cada ano, mas a OMS acredita que esse número é bem maior, por conta da subnotificação. Nos últimos anos, os casos têm se concentrado em países africanos.</p>



<p>Após o 11 de setembro, e as novas políticas anti-terrorismo dos Estados Unidos, a peste passou a ser vista como uma possível arma para um ataque bioterrorista. “ A <em>Yersinia pestis</em> provavelmente seria usada em um ataque de aerossol, com pequenas partículas ou gotículas contendo a bactéria sendo liberadas no ar (por exemplo, poeiras, névoas ou vapores). As pessoas que inalam a <em>Yersinia pestis</em> podem então desenvolver peste pneumônica, a forma mais grave da doença e a única que pode ser transmitida de pessoa para pessoa”, diz o site do CDC. Não há nenhum registro do uso da peste como arma biológica.</p>



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