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A peste, uma doença que sempre volta

Maria Carolina Santos / 28/08/2023
Fachada de imóvel de pequenas proporções, com paredes de tijolos aparentes, duas portas gradeadas nas laterais da fachada, encimadas por uma placa indicando Fundação Nacional de Saúde - Fiocruz - Laboratório da Peste Exu.

Exu (PE) – No mês de julho, uma equipe de nove pesquisadores da Fiocruz de Pernambuco e do Rio de Janeiro, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Campina Grande (UFCG) refizeram a rota do pesquisador Francês Baltazard, do Instituto Pasteur, e do então presidente do Instituto Aggeu Maggalhães, Frederico Simões Barbosa, pelo interior de Pernambuco, na década de 1960.

Em uma semana, percorreram os municípios de Garanhuns, São José do Belmonte, Triunfo e Exu, revisitando as instalações onde funcionaram os laboratórios e serviços de vigilância da peste, buscando registros e testemunhos de antigos trabalhadores do Programa de Peste.

Em Exu, o laboratório de peste ainda está de pé, com máquinas, mas fica fechado e não faz mais análises ou capturas de animais. De lá, as pesquisadoras levaram para a sede da Fiocruz-PE cadernos de laboratório e várias lâminas com pulgas preservadas.

Nos outros lugares que visitaram, não havia a mesma estrutura. Em Triunfo, o laboratório estava sendo encaixotado e esvaziado. O de Garanhuns não existe mais, todavia o prédio segue em boas condições. O serviço de São José do Belmonte, que fazia apenas capturas de animais, estava fechado.

Além de fazer o resgate dos registros históricos dessa epidemia quase esquecida, os pesquisadores queriam analisar as condições dos laboratórios para uma eventual necessidade de uso.

O último caso de peste registrado em Pernambuco foi em 1980, em Ipubi. Foi também a última morte no estado, encerrando uma epidemia que durou de 1976 a 1980. Desde os anos 1990, as ocorrências de peste humana no Brasil se limitam a raros e esporádicos casos. O último caso notificado de peste em ser humano foi em 2005, no município de Pedra Branca, no Ceará.

Mas se o estudo da peste ensinou alguma coisa, é que ela é impossível de ser erradicada.

Notícias do Diário de Pernambuco na década de 1960. Crédito: Acervo Biblioteca Nacional

Doença milenar, a peste teve seu primeiro registro no livro de Samuel, do Antigo Testamento da Bíblia, que narra uma epidemia na cidade de Ashod, na Palestina, em 1320 antes de Cristo.

Durante a era cristã, ocorreram três grandes pandemias: a primeira, a Peste de Justiniano (542-602 d. C.), que começou no Egito e teria ajuda no declínio do Império Romano. A segunda, a devastadora Peste Negra, teve início na Ásia e se espalhou pelo norte da África e por toda a Europa, matando mais de 40 milhões de pessoas entre os séculos 14 e 16. A terceira pandemia é chamada de Contemporânea. Teve início na cidade de Yunnan, na China, no final do século 19, e do porto de Hong Kong se espalhou para áreas em que a peste nunca havia chegado, como as Américas.

Em junho de 1894, o bacteriologista franco-suíco Alexandre Yersin isolou o bacilo da peste pela primeira vez, em Hong Kong. Ele também demonstrou que a bactéria estava presente tanto no rato quanto no ser humano. Quatro anos depois, o médico francês Paul-Louis Simonddescobriu que a pulga era a ponte entre os dois.

Os primeiros casos da doença no Brasil foram documentados em outubro de 1899 pelos cientistas Vital Brasil e Oswaldo Cruz. A porta de entrada foi o porto de Santos, em São Paulo, e a doença chegou ao Nordeste em 1900, com os primeiros casos em Fortaleza. Em Pernambuco, foi registrada pela primeira vez em 1902. A partir dos anos 1910, atingiu as zonas rurais de cidades do interior do Nordeste.

Há alguns aspectos da peste que ainda são incompreendidos pela ciência. Sabe-se que os roedores silvestres são reservatórios permanentes da Yersinia pestis, mas o mecanismo pelos qual as epidemias eclodem e acabam ainda não é totalmente compreendido. Estudos do Instituto Pasteur do Irã mostraram que a bactéria pode sobreviver alguns anos em tocas na terra, quando um animal doente morre e é decomposto. Em superfícies, vive apenas por poucas horas ou dias.

Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas.”

A peste, Albert Camus

Desde que os antibióticos foram desenvolvidos, é no começo dos surtos que os óbitos são mais prováveis de acontecer, porque ninguém espera que a peste volte depois de décadas ou até séculos de silêncio da doença.

“Os médicos não têm mais aulas de peste na faculdade e desconhecem os sintomas e quais antibióticos são eficazes. A estreptomicina foi o mais usado na época de combate à peste, mas atualmente tem as tetraciclinas e cloranfenicol. Se tratar o doente com penicilina, por exemplo, o paciente vai a óbito, porque é ineficaz contra a peste. Pode até ter uma impressão enganosa: in vitro, o exame de antibiograma dá que é sensível à penicilina, mas na prática o remédio não funciona”, explica Alzira Almeida.

Foto colorida de duas mulheres em uma sala onde funcionava antigo laboratório. Em primeiro plano, fotografada da cintura para cima, mulher de meia idade, cabelos castanhos curtos encaracolados, usa uma blusa azul turquesa e mostra uma placa encardida de cultura de material biológico. Ao seu lado esquerdo (à direita da imagem), porém mais distante da câmera, está a segunda mulher, idosa, cabelos brancos cursos e encaracolados, está com a mão direita levantada em direção à câmera.

Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Pernambuco abandonou vigilância da peste em 2017

Com tratamento eficaz e o último caso em Pernambuco tendo ocorrido há 43 anos, é compreensível que a peste esteja bem longe das prioridades de saúde de um governo. Mas, como é uma doença que passa por longos períodos de silêncio, pesquisadores defendem que pelo menos a vigilância epidemiológica continue sendo realizada nos municípios que, historicamente, são focos da peste.

Durante muito tempo, a vigilância era feita com a captura de roedores – tanto domésticos como silvestres – que ficavam de quarentena nos laboratórios. Quando morriam, passavam por necrópsia e era feita uma cultura para ver se carregavam a Yersinia pestis. Esse tipo de análise ainda é feito pontualmente, mas apenas para pesquisas acadêmicas.

Em 2007, o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica mudando a metodologia de vigilância para o exame sorológico de mamíferos – geralmente cães e gatos de zonas rurais, nas cidades de foco. “O animal pode ter peste e morrer ou pode ter peste e se curar espontaneamente. Esses que se curam, principalmente cachorros, desenvolvem anticorpos que permanecem por longos meses, quase um ano, dependendo do animal e do tempo de vida. Podemos fazer uma vigilância retrospectiva”, explica Alzira Almeida.

Mas em Pernambuco desde 2017 nenhum tipo de vigilância é feito. “Na época, o governo do estado alegou que estava sem condições. É uma questão econômica: como o último caso humano em Pernambuco foi em 1980, logicamente os recursos minguaram e foram para outros problemas considerados maiores”, diz Alzira. Algumas prefeituras ainda continuaram por mais alguns poucos anos, a exemplo de Triunfo.

No Brasil, hoje, apenas três estados mantêm a vigilância epidemiológica nos focos de peste: Ceará, Minas Gerais e Alagoas. Em Pernambuco, o laboratório do Serviço Nacional de Peste, da Fiocruz-PE, é o único capaz de fazer diagnóstico da doença.”Quase sempre que se procura peste em animais nos municípios que tiveram focos, se encontra”, diz Alzira.

Para a pesquisadora da Fiocruz-PE Marise Sobreira, vice-coordenadora do Serviço Nacional em Peste, é fundamental manter a vigilância. “Quando a peste fica nesses períodos longos de silêncio, o maior risco é descontinuar a vigilância, e isso, infelizmente, foi o que vimos nessa viagem. Estão desconsiderando o silêncio da doença. Temos focos naturais da peste e deveria se investir também na formação dos profissionais, principalmente os novos, que não estudam mais a peste. Com a modernização e a reforma curricular, as faculdades de Medicina têm dado espaço para as tecnologias mais modernas e negligenciam essas áreas, que são importantes para a saúde pública”, afirma.

A peste como arma de bio-terrorismo

Nos Estados Unidos, a peste chegou na mesma onda do Brasil, em 1900. Nunca conseguiram eliminar a doença: de acordo com dados do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), há uma média de sete casos de peste por ano nos EUA. A grande maioria, 80%, é de casos de peste bubônica, a forma mais “leve” da doença.

Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mapeou mais de 30 países onde ocorrem casos de peste. São entre mil e 2 mil casos humanos reportados a cada ano, mas a OMS acredita que esse número é bem maior, por conta da subnotificação. Nos últimos anos, os casos têm se concentrado em países africanos.

Após o 11 de setembro, e as novas políticas anti-terrorismo dos Estados Unidos, a peste passou a ser vista como uma possível arma para um ataque bioterrorista. “ A Yersinia pestis provavelmente seria usada em um ataque de aerossol, com pequenas partículas ou gotículas contendo a bactéria sendo liberadas no ar (por exemplo, poeiras, névoas ou vapores). As pessoas que inalam a Yersinia pestis podem então desenvolver peste pneumônica, a forma mais grave da doença e a única que pode ser transmitida de pessoa para pessoa”, diz o site do CDC. Não há nenhum registro do uso da peste como arma biológica.

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AUTOR
Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Ávida leitora de romances, gosta de escrever sobre tecnologia, política e cultura. Contato: carolsantos@gmail.com