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	<title>Arquivos saúde mental - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos saúde mental - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Pesquisa comprova danos à saúde mental de camponeses 10 anos após instalação de eólicas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Dec 2025 17:22:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[energia renovável]]></category>
		<category><![CDATA[eólicas]]></category>
		<category><![CDATA[FioCruz]]></category>
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<p>Dez anos após a instalação do primeiro empreendimento eólico do Brasil, em Caetés, no agreste de Pernambuco, a 240 quilômetros do Recife, o que se vê é uma comunidade, em sua maioria, em sofrimento psíquico. Uma nova pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) campus Garanhuns constatou que 68% dos camponeses que ali vivem sofrem com problemas de saúde que ultrapassam a condição do corpo, chegando ao adoecimento psicológico e desenvolvimento de transtornos mentais leves, com consequente aumento do uso de remédios psiquiátricos.  </p>



<p>Intitulado <em>Necropolítica dos ventos: determinação social da saúde mental diante da exposição de empreendimentos eólicos em comunidades camponesas de Pernambuco</em>, o levantamento comprova que, diante dos resultados encontrados, percebe-se uma população que vivencia um trauma psicossocial, uma forma de trauma que transcende o indivíduo e afeta a dimensão social e cultural.</p>



<p>Em 2014, empreendimentos eólicos foram instalados nas comunidades rurais de Sítio Sobradinho, em Caetés, com distâncias que vão de 100 e 900 metros entre as casas e as turbinas. Diversos estudos, no entanto, já comprovaram, na última década, que, a até 2 quilômetros, é possível perceber prejuízos à saúde.</p>



<p>A pesquisa entrevistou 50 pessoas, sendo 80% mulheres e 20% homens, de 18 a 89 anos, em sua maioria negros e agricultores familiares. Desse total, 34 corresponderam ao ponto de corte que configura sofrimento psíquico, representando 68% da amostra. Todas estão no território há mais de 10 anos, ou seja, antes da implantação dos aerogeradores. Segundo o levantamento, muitas estão em fase de esgotamento, se recusando a responder questionários de pesquisas diante da pressão das empresas sobre as comunidades.</p>



<p>“Como têm sido implementadas as energias renováveis?”, provoca Felipe Cazeiro, professor da UPE e pesquisador da Fiocruz que está à frente dos estudos sobre o impacto das eólicas no campo da saúde mental. As eólicas são hoje a segunda maior fonte de energia elétrica do Nordeste, atrás apenas da hídrica. A região tem sido a de maior instalação dessas turbinas, abrigando mais de 80% dos empreendimentos em operação no país.</p>



<p>Os ruídos de baixa frequência emitidos pelas turbinas costumam gerar sintomas como dor de cabeça, zumbido e pressão nos ouvidos, náuseas, tonturas, taquicardia, irritabilidade, problemas de concentração e memória e episódios de pânico. Tais ruídos podem ocasionar, além desses sintomas, distúrbios mais graves como a Síndrome da Turbina Eólica e a Doença Vibroacústica.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Síndrome da Turbina Eólica</strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Os sintomas compreendem distúrbios do sono, aumento de frequência e/ou gravidade de dores de cabeça, tonturas, instabilidades, náusea, exaustão e alterações no humor; problemas com concentração e aprendizagem, além de zumbido nos ouvidos. Indivíduos com histórico de enxaqueca ou problemas auditivos anteriores ao contato com as eólicas e pessoas idosas são grupos mais suscetíveis.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Doença Vibroacústica</strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>É uma doença sistêmica causada pela exposição prolongada (mais de dez anos) a ruído de grandes amplitudes (90 dB) e baixa frequência (&lt; 500Hz, incluindo os infrassons). É uma patologia sistêmica com uma evolução que aparece lentamente e pode afetar vários órgãos e tecidos, como o sistema nervoso, o sistema imunitário, o aparelho cardiovascular e o aparelho respiratório. Além de ser caracterizada por lesões nos tecidos ou órgãos, pode ocasionar uma série de alterações no organismo, como alterações neurológicas, endócrinas, na tensão arterial e na função respiratória, entre outros problemas. Esses efeitos igualmente são resultados da exposição prolongada aos ruídos de baixa frequência, que interferem no funcionamento normal dos sistemas corporais.</p>
	</div>



<p>O levantamento da Fiocruz com UPE, realizado por 11 pesquisadores, utilizou como metodologia o <em>Self-Report Questionary 20 (SRQ-20)</em>, um questionário da Organização Mundial da Saúde (OMS) cujo objetivo é comprovar sofrimento psíquico ou transtornos mentais leves, sem a função de diagnosticar, avaliar ou trazer um quadro específico patológico em saúde mental.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Camponeses pensam em suicídio</strong></h2>



<p>“É muito comum a ideia de que o processo de doença é individual, e não que é determinado socialmente. Então, quando vemos esses dados e vemos a determinação social da saúde, percebemos que a exposição que essas pessoas estão vivendo há 10 anos junto das eólicas tem trazido impactos em diferentes âmbitos, seja na saúde animal, humana, mental ou vegetal, na terra e no território”, comenta Cazeiro, que é doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).</p>



<p>Um dado preocupante foi sobre o item “Tem tido ideia de acabar com a vida?” do questionário. Entre as pessoas que responderam estar com a ideia de tirar a própria vida, uma delas disse que isso aconteceu após a chegada das eólicas e relatou: “me sinto ‘sem controle’ em alguns momentos, os sintomas atrapalham muito a minha vida, sentindo pânico para dormir”.</p>



<p>Outra pessoa respondeu que a ideia de tirar a própria vida não apareceu com a chegada das eólicas, ela tinha diagnóstico prévio de depressão, mas relatou que a ideação suicida piorou com a chegada dos aerogeradores: “às vezes, tenho medo de mim”. Ambas tomam psicotrópicos, porém estão desassistidas de um acompanhamento de saúde contínuo.</p>



<p>“O Estado não tem dado nenhuma assistência às comunidades, essa é a maior dificuldade, existe pouca atenção e há um discurso antagônico. O Estado acha que as comunidades são contra o desenvolvimento, mas as comunidades não são contra o desenvolvimento, são contra o desenvolvimento sustentável da forma como ele está sendo feito, sem preocupação com as famílias. A mesma coisa são as empresas”, adiciona o pesquisador.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Uma pesquisa-ação</strong></h2>



<p>Esse trabalho desenvolvido em Caetés é uma pesquisa-ação. Nesse âmbito, foi criada a Escola dos Ventos, em parceria com a Comissão Pastoral da Terra (CPT Nordeste II), como um coletivo que possui como objetivo ser um espaço baseado no saber popular de Paulo Freire, em que as comunidades passaram a refletir coletivamente sobre seus problemas e traçar estratégias de defesa de seus territórios, além da reivindicação de direitos, numa iniciativa conjunta com Fiocruz e UPE.</p>



<p>A escola realizou diversos encontros e debates ao longo do ano. O objetivo é ampliar o debate e estimular a mobilização contra os impactos causados pelo modelo centralizador e concentrador de geração de energia renovável. A ideia do projeto de pesquiusa-ação é procurar saídas comunitárias para uma transição energética justa, que respeite verdadeiramente o meio ambiente e as populações do campo.</p>
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		<title>A dificuldade das mulheres da periferia de acessar serviços de saúde mental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Mar 2025 20:28:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[saúde em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[saúde em Recife]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Martihene Oliveira* Seis meses ou até um ano. Esses marcos temporários são registrados por mulheres pretas e periféricas de Recife que esperam por atendimento psicológico oferecido pela prefeitura da capital pernambucana. A dor que alastra o coração e a alma dessas mulheres é invisível para o poder público, que não garante uma assistência à [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Martihene Oliveira*</strong></p>



<p>Seis meses ou até um ano. Esses marcos temporários são registrados por mulheres pretas e periféricas de Recife que esperam por atendimento psicológico oferecido pela prefeitura da capital pernambucana. A dor que alastra o coração e a alma dessas mulheres é invisível para o poder público, que não garante uma assistência à saúde mental de forma efetiva e rápida. Enquanto isso, milhares de mulheres, que aguardam na fila de espera, enfrentam o medo, a depressão e a solidão.</p>



<p>“Ela disse a mim que o meu caso era para uma psicóloga me acompanhar, mas no momento ia demorar um pouco, porque a fila de espera estava muito grande, tem gente lá que está esperando há mais ou menos um ano para ser atendido, porque na prefeitura não tem quantidade de psicólogos suficiente para suprir a demanda”, narra Elizabeth Santos, de 40 anos, ao contar a experiência de tentar atendimento psicológico na Prefeitura do Recife.</p>



<p>Segundo Elizabeth, a consulta foi uma sugestão de uma endocrinologista, que a encontrou em um posto de saúde, fora de sua comunidade. A profissional diante do seu relato de insônia e alimentação compulsiva para tratar da obesidade, solicitou agendamento com uma especialista de saúde mental. </p>



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	                                        <p class="m-0">Ilustração: Isadora Clemente/Sargento Perifa</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Antes de nos aprofundarmos sobre a realidade em Recife, é importante informar que a pesquisa <em>Esgotadas</em> com 1.078 mulheres brasileiras pelo <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Laboratório da Inovação Think Olga</a> apontou que quase metade das entrevistadas já foi diagnosticada com algum transtorno mental. Desse grupo, 68% faz acompanhamento médico; 55% afirmou não terem recebido nenhum diagnóstico, contudo, entre aquelas que responderam afirmativamente, ansiedade (35%), depressão (17%) e síndrome do pânico (7%) foram os diagnósticos que mais se destacaram.</p>



<p>São mulheres com idades a partir dos 18 anos, de todas as classes e regiões do país, com ansiedade, depressão, síndrome do pânico, entre outros transtornos. </p>



<p>Voltemos ao Recife, cidade que, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) possuía em 2022 uma população de 1.488.920 habitantes, dos quais 54,9% são mulheres.</p>



<p>Para falar de acesso à saúde mental por mulheres periféricas na cidade é preciso primeiro conhecer qual a estrutura que a cidade dispõe se, em tese, todas as mulheres recifenses, independentemente de cor ou classe, decidissem buscar apoio psicológico no sistema de saúde municipal. </p>



<p>Segundo resposta da prefeitura enviada no dia 12 de janeiro de 2025 à solicitação via Lei de Acesso à Informação (LAI), há 20 psicólogos com carga de 40 horas semanais vinculados às equipes multiprofissionais (eMulti) dos oito distritos sanitários do município. Cada eMulti dá suporte a até nove equipes de Saúde da Família, realizando atendimentos diretos à população. </p>



<p>Para mulheres em situação de violência, o Instituto Clarice Lispector, programa ligado à Secretaria da Mulher de Recife, disponibiliza oito psicólogas. Na mesma resposta via LAI, a secretaria de Saúde informou que há <a href="https://www2.recife.pe.gov.br/servico/servicos-de-saude-mental-caps">18 Centros de Atenção Psicossocial (Caps)</a> em funcionamento que se dividem em serviços voltados para a população infanto-juvenil, pessoas que realizam uso complexo de substâncias psicoativas e pessoas com transtornos em geral. </p>



<p>Fora isso, há psicológos em um Serviço Integrado de Saúde Mental, um Centro de Convivência, três Unidades de Acolhimento e em 50 Serviços Residenciais Terapêuticos, mais comumente conhecidas como residências terapêuticas. Também é possível ter acesso a atendimento psicológico nos serviços de média<br>complexidade &#8211; atendimento ambulatorial nas policlínicas &#8211; e de emergência.</p>



<p>A prefeitura acrescentou que há disponibilidade de equipamentos da Academia da Cidade para auxiliar em processos terapêuticos: &#8220;os Polos de Academia da Cidade, entre outros dispositivos que auxiliam no tratamento de ansiedade e/ou depressão. A unidade a qual o usuário será direcionado, dependerá da análise realizada pela equipe de saúde da família&#8221;, diz a resposta da gestão municipal de saúde.</p>



<p>Essa estrutura, no entanto, não bastou para garantir o acesso a Elizabeth Santos &#8211; e das outras mulheres que entrevistamos nas comunidades periféricas do Recife &#8211; a atendimento psicológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O impacto da pandemia</h2>



<p>Ceça Costa, doutora em psicologia clínica e integrante do Ilê Psi, um consultório formado majoritariamente por psicólogas negras que compreendem o racismo como um fator de sofrimento psíquico enfatiza que o serviço de atendimento psicológico para qualquer cidadão é uma tarefa do poder público e alguém precisa mostrar como fazer: “existe sim a possibilidade de ajudar, isso é uma tarefa do serviço público e alguém precisa dizer a ele como fazer. Eu não acredito em salvação fora do SUS. Nós fazemos uma clínica de atendimento psicológico aqui fora do SUS, porque o SUS não tem”.</p>



<p>A falta de assistência especializada pode agravar a saúde mental de mulheres periféricas. A partir da pandemia de covid-19, por exemplo, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O resumo do relatório da OMS apontou que o impacto da covid-19 na saúde mental atingiu principalmente as mulheres. E, após a pandemia, é perceptível notar um número elevado de mulheres lidando com quadros de depressão e/ou ansiedade.</p>



<p>“A pandemia mostrou isso para gente, mas a pandemia foi só um sinal, foi aquele apito da panela de pressão que botou para fora a pressão, mas as mulheres já adoecem há muito tempo e continuam adoecendo. Quando elas são atendidas, elas são medicalizadas. A medicalização esconde a dor e deixa essas mulheres mais quietas. Então a medicalização não é a saída para saúde mental. É só um apoio quando precisa. E as mulheres? Porque elas estão adoecendo, porque elas estão perdendo os filhos. A grande maioria já não tem marido, porque é mãe solo, é mãe solteira”, relata a psicóloga.</p>



<p>Quando o assunto é mortes por problemas de saúde mental, o Ministério da Saúde, através do <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf/view">Boletim Epidemiológico v.55 nº4</a>, aponta que “experiências de vida estressantes – como a morte de entes queridos, diagnóstico de doenças graves, divórcio, violência doméstica, desemprego, adversidades financeiras ou migração forçada – não apenas aumentam o risco, mas também podem servir como gatilhos para o ato suicida”. </p>



<p>No Brasil, as mortes autoprovocadas, segundo o último levantamento realizado em 2021, ocupam a 27ª posição no número de óbitos do país, sendo a 3ª maior causa das mortes da população jovem, com 1 suicídio a cada 34 minutos. As mulheres ocupam 25% desse grupo e Pernambuco, nesse mesmo relatório, está na 6ª posição quando se trata do aumento dessa taxa entre 2010 e 2021, que foi de 67% no número de mortes por suicídio.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><span style="font-weight: 400;">A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que para cada suícidio existe uma média de 20 tentativas e para cada tentativa com sucesso, uma média de 6 pessoas próximas são diagnosticadas com depressão, ansiedade entre outros transtornos. Ainda, para o Ministério da Saúde “até 90% das pessoas que cometeram suicídio apresentavam algum transtorno mental antes do ato, sendo a depressão o transtorno mais frequente. Desse modo, o suicídio também pode ser compreendido como um indicador do bem-estar psicossocial de uma população”.</span></p>
	</div>



<p>Abaixo, você conhecerá algumas mulheres com quem eu tive a oportunidade de dialogar e de conhecer. Confira trechos que exibem uma realidade silenciosa, camuflada no estereótipo de guerreira, silenciada pela falta de atendimento psicológico.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Lindalva: um enorme acúmulo de “tristeza” na rua Chã de Alegria</h3>



<p>Há relacionamentos que adoecem.</p>



<p>— Não, eu não vou comemorar.</p>



<p>— Mas, por que, Dona Lindalva? &#8211; Disse eu, curiosa e inquieta.</p>



<p>Era 1 de fevereiro de 2025 e eu havia acabado de lhe informar que no dia seguinte seria o meu aniversário. Ela vibrou, me deu os parabéns e perguntou se teria festa em minha casa. Eu disse que não, nada com muita purpurina, mas minha família e alguns amigos de infância nunca deixam essa data sem nenhum estardalhaço.</p>



<p>O cheiro na calçada estava relativamente suportável. O dia havia sido ensolarado, o amontoado de tecidos apodrecidos onde ela dorme com Moisés não recebeu contato com a água. Cheguei por volta das 19h, armei o meu banquinho de improviso e sentei de frente para ela, para uma conversa olho no olho.</p>



<p>Mais de 20 dias após essa nossa última conversa, Dona Lindalva continua com a mesma roupa, Moisés, também. A casa, do mesmo jeitinho, com cada coisinha no lugar, as plantas da rua Chã de Alegria também não se arredaram, pelo contrário, criaram raízes e fortaleceram-se. O tempo as deixou mais bonitas, ele faz as flores germinarem a cada estação. É um subúrbio do Recife, um bairro da periferia da zona norte, a Bomba do Hemetério, vizinho ao Morro da Conceição.</p>



<p>A Bomba do Hemetério possui 8.472 habitantes, desse número, 54% da população é composta por mulheres. No quesito negritude, o bairro é 68,56% feito de negras e negros.</p>



<p>Lindalva é uma negra retinta que afirma possuir 56 anos, mas, a profissional do Consultório na Rua me informou que sua idade é 60. Eu poderia tirar essa dúvida pedindo a mesma para ver seus documentos, contudo, o medo de me tornar invasiva e perder a glória da conversa fez desse detalhe, para aquele momento, algo irrelevante. Ainda que Lindalva tenha mais idade, sua dignidade foi esquecida. E ainda que ela tenha menos, seu direito de envelhecer, também.</p>



<p>De todo modo, ao colocar o endereço de sua grande casa no <em>Google Street View</em>, tenho imagens de 2011 até agora. É que, pelo menos de dois em dois anos, o carrinho invasivo da <em>big tech</em>, passa nas ruas das cidades do país, registra fotos inusitadas, borra os rostos das pessoas e disponibiliza para o mundo. Às vezes há brechas para a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), e quem se sente invadido, pode ganhar uma grana.</p>



<p>De dor em dor, um acúmulo de objetos foi tomando o espaço. As cortinas registradas pelo <em>street view</em> se transformaram em farrapos e o enorme casarão foi engolido pelo lixo, pelos trapos, plantas mortas, resto de comidas, ratazanas, geladeira de inox comprada na loja, dinheiro velho, roupas, máquina de costura, garrafas e muita tristeza. Um espaço de menos de um metro entre a grade e a casa sobrou para mãe e filho que quando chega a madrugada, se deitam um de frente para o outro, com as cabeças para lados opostos.</p>



<p>— Tudo na infância é bom, tudo na adolescência é bom, mas quando vai chegando a velhice a gente já vai ficando mais envergonhada, mais quietinha no cantinho, né?</p>



<p>— É mesmo? A senhora se divertia muito na juventude?</p>



<p>— Ah… eu era uma negra muito fogosa. Sambava, ia pro Carnaval, dançava muito e desfilava por aí. Depois casei e a gente se tornou evangélico. Ele sempre quis ser pai, mas eu demorei pra engravidar. Só cedi a vontade dele depois de 6 anos de casada. Quando engravidei já tinha 36, e o menino nasceu com hidrocefalia. Pronto, esse foi o fim do meu casamento.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
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	                                        <p class="m-0">Dona Lindalva mora na Bomba do Hemetério com seu filho
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Martihene Oliveira/Sargento Perifa</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Os dados da <em>Esgotadas</em> informam que poucas amizades (25%), solidão (24%), árdua jornada de cuidado ou trabalho doméstico (20%), falta de parceria do companheiro(a) (19%), problemas amorosos e conjugais (17%), responsabilidades com filhos (16%) e falta de rede de apoio (16%) são as maiores causadoras de depressão e ansiedade. Nesse aspecto, Dona Lindalva crava em todas as etapas.</p>



<p>Em novembro de 2024, quando comecei a preparar a reportagem, eu não sabia o nome e nem muito sobre ela. Depois de algumas pistas do Sr. Google e de comentários sobre a mesma na comunidade, o interesse foi ficando mais latente. Dona Lindalva, sem dúvidas, é a mulher da história de bell hooks, a síntese em carne e osso da solidão da mulher negra. Aquela que cuida de todos, que embeleza a rua, que já teve o corpo desejado e que sambava como ninguém. A que foi arrasada pelo amor e foi adoecendo aos poucos, diante dos olhos da sociedade, dos vizinhos que hoje não suportam o seu cheiro, dos pais, professores e alunos que entram e saem da escola Mardônio Coelho e do posto de saúde Dr. Luiz Wilson.</p>



<p>— Eu não gosto de comemorar aniversários, eles me trazem muitas lembranças. Lembram casa cheia, comemorações, gente reunida em volta da mesa… lembram o amor de um casamento.</p>



<p>Um silêncio tomou conta do espaço e seu olhar foi ficando distante.</p>



<p>Quando comentei à psicóloga Ceça Costa sobre esse diálogo, ela respirou fundo e comentou &#8220;a gente pensa: então tem que atender todo mundo, porque o SUS é universal, perfeito. Mas a gente tem a equidade, que é tratar diferente quem tem necessidade diferente. Isso tá na lei, tá no papel, mas não tá na prática. O posto de saúde falha porque ele não entende que dona Lindalva precisa que o posto vá até ela e fale com dona Lindalva como você foi, sente com ela, escute dona Lindalva. Porque a dona Lindalva tem muito para falar. O silêncio dela é denunciador”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Camila: a perda de um filho e o desencanto do viver</h3>



<p>Quando uma mãe perde um filho negro assassinado, ela perde duas ou três vezes. Perde fisicamente, moralmente e emocionalmente também.</p>



<p>“Ela ficou assim após a perda de Richard. Não tinha nada a ver com drogas. Ele morreu assassinado porque se envolveu com uma mulher casada”, afirmou Carolina Félix, 32, irmã de Camila Félix, 34, morta em outubro de 2024.</p>



<p>— Esse miojo, partido no meio é a sopinha que guardei para Camille e Mateus. Daqui a pouco ele vai acordar e vai se alimentar &#8211; Disse Camila.</p>



<p>— E depois?</p>



<p>— Depois a gente vê. Aqui não tem nada, só um pouquinho de feijão que meu pai deu, já para eu inteirar amanhã para ver se dá para arrumar um macarrão para fazer comer dos meus filhos. A geladeira tá assim, eu guardo o meu feijão aqui embaixo, ó! Tem nadinha, ó!</p>



<p>Era 28 de outubro de 2022, havia cinco meses que as chuvas no Recife ceifaram mais de 149 vidas e em uma visita do Coletivo Sargento Perifa à residência de Camila Félix, a conversa se resumiu à falta de comida para ela e os filhos. Mesmo que sua casa estivesse a quase um metro de distância de um precipício, a lona que cobria a barreira estivesse rasgada e o luto pelas perdas na região metropolitana do Recife ainda nos assombrasse.</p>



<p>Claro que isso tudo foi uma tragédia anunciada, e a morte de Camila, 1 ano após esse depoimento, também. Embora não fosse pelas chuvas, a morte dela seria só mais um caso, caso costumeiro na favela. Não só por causa do miojo partido, da insegurança alimentar, nem porque 15% das famílias da comunidade foram afetadas pelo feminicídio e 83% pela violência de gênero e suas mais variadas nuances.</p>



<p>O caso dela, estaria nas estatísticas do Censo do <a href="https://coletivosargentoperifa.com/">Coletivo de Mídia Independente Sargento Perifa</a>, no percentual de 32% que corresponde a 99 famílias do Córrego do Sargento que perderam pessoas para a violência urbana, não que ela fosse a vítima direta, nesse caso, seu filho, Richard, 15 anos, foi o preto assassinado. A morte dela foi ocasionada pela dor da perda, dor esta que lhe deu desânimo para caminhar 6 km e ir até o Córrego da Jaqueira, no mesmo bairro, ser atendida pelo posto de saúde e descobrir o diagnóstico que ceifou sua vida em tempo precoce.</p>



<p>Quando o assunto é fatalidades, <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf">mortes de entes queridos são responsáveis por 45% do adoecimento mental de mulheres</a>, mas Camila, além da perda do filho, também foi atravessada pelo racismo e suas mais variadas nuances, que ocasiona a negligência do Estado em fornecer o básico para uma comunidade periférica onde negros, para estatísticas boas ou ruins estão sempre no topo das notícias.</p>



<p>A comunidade do Córrego do Sargento está localizada em Linha do Tiro, bairro de quase 15 mil habitantes situado na zona norte do Recife, composto 70,37% de negras e negros e 52,8% de mulheres. Desse grupo, 372 famílias residem no Córrego do Sargento. Em outubro de 2024, o Censo do Sargento Perifa entrevistou 306 representantes de famílias da comunidade. Perguntados sobre acesso ao posto de saúde, um total de 169 (64,4%) famílias afirmou não ter. Além disso, moradores consideram que a comunidade não possui área de lazer (90,2%), nem cultura (73,5%), nem creche (39,9%). Também não há escola nem parque, apenas uma igreja evangélica, a sede do Coletivo Sargento Perifa e uma praça criada pelos próprios moradores.</p>



<p>Tudo é fora do Córrego do Sargento e se para o atendimento básico de saúde, as pessoas precisam caminhar quase dois quilômetros até o Córrego da Jaqueira, Unidade de Saúde da Família disponibilizada para atender também a essa comunidade no bairro, quando o assunto é atendimento psicológico, a assistência é zero.</p>



<p>“Eu nunca vou entender isso. Ela estava com um caroço enorme no pescoço, mas o caixão veio fechado. A declaração foi de tuberculose. Eu tanto que falava: ‘Camila, vamos ao médico para ver isso?’. E ela não tinha ânimo pra nada. Para mim ela se entregou”, relata Carolina.</p>



<p>Camila faleceu no Hospital Otávio de Freitas, depois que se deitou no chão da emergência e gritava pedindo que lhe dessem ao menos soro, porque não conseguia se alimentar.</p>



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<h3 class="wp-block-heading">Madalena: o câncer, a solidão e o medo</h3>



<p>Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Recife, 10 de maio de 2024, 12h33:</p>



<p>— Comecei. [choro]</p>



<p>— Tá chorando?</p>



<p>— Tô</p>



<p>— Oxe, vai dar tudo certo, menina. Deus está no controle. Calma!</p>



<p>— Tá.</p>



<p>— Doi?</p>



<p>— Só uns beliscões na mão, mas a dor é mais pelo medo do que pelo procedimento de agora.</p>



<p>Enquanto escuto os bips da máquina da quimioterapia, Madalena chora. Sozinha, enrolada em sua colcha piel de pato, com meia nos pés para conter o frio e com o braço esquerdo, onde recebe o remédio, totalmente coberto. Estamos separadas por uma parede, mas conectadas via <em>WhatsApp</em>.</p>



<p>A conversa marca sua primeira vez na sala de tratamento e no seu caso, as sessões são infinitas. Algo paliativo, que não vai permitir que lhe caiam os cabelos, mas vai descamar sua pele, lhe gerar enjoos perturbadores, dores intensas nos pés e nas pernas e um desmaio em casa, dois dias após essa conversa, na frente de sua mãe e filha, que posteriormente vão gritar desesperadas pensando que ela terá morrido.</p>



<p>Madalena Oliveira, 36, é moradora do município de Abreu e Lima, cidade da Região Metropolitana do Recife, com 98.462 habitantes, dos quais 51.508 são mulheres. Negra, mãe solo e principal provedora de seu lar, em março de 2024 foi diagnosticada com um câncer no reto, que passou para o intestino, depois para o baço e pulmão e também tomou conta de sua região pélvica. O quadro metastático lhe gera insônia e angústia. A vaidade briga com sua aparência que agora, em março de 2025, depois da cirurgia no intestino, lhe afastou da quimioterapia por dois meses e lhe devolveu alguns quilos a mais. De “brinde”, uma bolsa de colostomia vai lhe acompanhar até seu último dia de vida.</p>



<p>A quimioterapia lhe formiga o braço e lhe dá vontade de morrer, causa isolamento e o desejo de se esconder. De 21 em 21 dias, após cada procedimento, sendo 7 dias sem comer e nem beber água. Durante esse período, abastecida apenas por soro, quando a dor nos pés e pernas ficam insuportáveis, a morfina é sua maior aliada.</p>



<p>Madalena é o retrato de 50,5% das mulheres com câncer no país, conforme a pesquisa realizada em 2023, pela <a href="https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/download/3700/2644/26217">Revista Brasileira de Cancerologia</a>. O câncer de cólon e reto é o segundo mais frequente (9,7%) no grupo, perdendo apenas para o câncer de mama feminina(30,1%).</p>



<p>O diagnóstico de Madalena também ilustra outra realidade no Brasil, de que doenças físicas como o câncer, provocam transtornos mentais aos pacientes, segundo <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf">o Instituto Think Olga</a>. Apesar disso, o posto de saúde no município de Abreu e Lima, onde Madalena é atendida, desde novembro de 2024, a mantém na fila de espera, para atendimento psicológico, sem nenhuma previsão de agendamento.</p>



<p>“Acredito que minha saúde mental nunca mais foi a mesma e nunca será. É muito difícil encontrar profissionais de saúde na área de psicologia, pois pelo SUS demora meses para você conseguir agendar uma consulta. Só fui atendida uma vez e depois disso, nunca mais. Minha experiência em relação a essa única consulta: no início eu ficava me perguntando sobre o motivo de estar ali e o que isso iria mudar na minha vida. Para mim, nada, pois não mudaria meu diagnóstico e muito menos me traria a cura. Mas depois que conversei me senti muito aliviada, foi como se eu tivesse tirado um peso enorme de cima de mim”, narra Madalena.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><i><span style="font-weight: 400;"><strong>*</strong>Reportagem produzida a partir do edital Vozes de Impacto: Jornalismo investigativo sobre direitos humanos e democracia, promovido pela</span></i><a href="https://fiquemsabendo.com.br/"> <i><span style="font-weight: 400;">Fiquem Sabendo</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> em parceria com a</span></i><a href="https://www.gov.uk/world/organisations/british-embassy-brazil.pt"> <i><span style="font-weight: 400;">Embaixada Britânica</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> no Brasil.</span></i></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Coordenação Editorial: Maria Vitória Ramos</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Análise de dados: Igor Laltuf</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Revisão textual: Taís Seibt</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Mentoria: Marta Alencar</span></em></p>
    </div>



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<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-dificuldade-das-mulheres-da-periferia-de-acessar-servicos-de-saude-mental/">A dificuldade das mulheres da periferia de acessar serviços de saúde mental</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Serviços de saúde mental poderão continuar na Tamarineira?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Apr 2024 15:40:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[parque da tamarineira]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[Tamarineira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde que começaram as obras do parque Tamarineira os funcionários do Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano e do Centro de Prevenção Tratamento e Reabilitação de Alcoolismo (CPTRA) estão em espera. Com o início das obras, sem diálogo algum, se tornou evidente que não há intenção da prefeitura do Recife em conciliar um parque em um bairro [&#8230;]</p>
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<p>Desde que começaram as obras do parque Tamarineira os funcionários do Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano e do Centro de Prevenção Tratamento e Reabilitação de Alcoolismo (CPTRA) estão em espera. Com o início das obras, sem diálogo algum, se tornou evidente que não há intenção da prefeitura do Recife em conciliar um parque em um bairro de classe média com o atendimento médico e psicológico a pessoas com doenças mentais.</p>



<p>Na semana passada, em uma reunião com gestores da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), os servidores do Centro de Prevenção Tratamento e Reabilitação de Alcoolismo (CPTRA) foram comunicados que, eventualmente, terão que se mudar. Não foi informado para onde, nem quando. No Ulysses Pernambucano, o fechamento ou a saída do casarão histórico também é dada como certa pelos funcionários, ainda que não haja nenhuma comunicação oficial.</p>



<p>A construção de mais um parque na zona norte é uma ideia que atravessa mandatos de vários prefeitos. Mas, em 2011, a coisa começou a engrenar quando a gestão de João da Costa fez um concurso para escolher um projeto de arquitetura e paisagismo para o futuro parque. O projeto vencedor foi do escritório de arquitetura Luciana Raposo, mas passou anos engavetado.</p>



<p>Era um projeto grandioso. Tinha de labirintos a cafeteria e restaurante, uma praça na Avenida Norte (onde hoje funcionam três lojas), preservação da mata, fontes d’água, <em>playgrounds</em>, campo de futebol. O casarão histórico, que precisa urgentemente de uma reforma, viraria um complexo cultural. No projeto original, tudo isso funcionaria em harmonia com um “complexo hospitalar”, com emergência psiquiátrica e a manutenção do CPTRA.</p>



<p>“O hospital continuaria funcionando, mas não exatamente naquele edifício histórico, seria deslocado para a rua Cônego do Barata e seria só para atendimentos mais agudos, de acordo com as mudanças da política de saúde mental”, conta a arquiteta Luciana Raposo, do escritório que ganhou o concurso. “Recentemente, a prefeitura veio com o resgate do projeto para poder construir apenas na parte da frente do hospital”, diz ela. Um dos arquitetos que participou do projeto está hoje na Emlurb, acompanhando a execução da obra.</p>



<p>“O projeto era para ser uma grande ode à saúde mental. A própria ideia de se ter labirintos era para se perder para se achar, sabe? Também deveria haver essa integração entre a ressocialização de quem já não está em um estado tão agudo, mas que tem suas terapias no espaço”, diz Luciana.</p>



<p>O projeto que está em execução pela Emlurb tem alterações. “A Emlurb nos disse que, de fato, quer honrar com o concurso, mas tem coisa que não consegue fazer. Íamos despoluir um riacho que passa por lá, ia ter um espelho d &#8216;água, centro de sustentabilidade e talvez isso não possa ser feito”, diz Raposo.</p>



<p>A Marco Zero solicitou à prefeitura do Recife o cronograma e o projeto da obra, mas não obteve retorno. Fizemos então uma solicitação pela Lei de Acesso à Informação (LAI) e estamos esperando a resposta.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Diálogo zero</h2>



<p>A execução das obras passou bem longe da ideia de um projeto de “ode à saúde mental” e gerou uma forte reação dos servidores do Hospital Ulysses Pernambucano. Em cartas abertas e posts nas redes sociais denunciaram desde a falta de diálogo com a Emlurb &#8211; teve até a colocação de uma cerca bloqueando a entrada do Hospital Ulysses Pernambucano &#8211; à importunação e assédio dos trabalhadores da obra contra pacientes do hospital.</p>



<p>A Marco Zero esteve no canteiro de obras e é gritante a falta de privacidade dos pacientes: sem muros, seguem expostos aos olhares tanto dos trabalhadores da obra como de quem passa nas avenida Rosa e Silva e Cônego Barata. Além disso, há muitas poças com água e lixo espalhado.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/tamarineira-1.jpg" alt="Foto do portão de entrada do hospital Ulysses Pernambucano, cujo nome está no alto de um pórtico no centro da imagem. A entrada está em estado de desordem, com uma pilha de entulho e madeira empilhada na frente. Uma placa amarela indica que o acesso de pedestres e veículos está temporariamente interrompido. O cenário é ao ar livre, com árvores visíveis ao fundo." class="" loading="lazy" width="669">
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	                                        <p class="m-0">Obras começaram sem aviso, surpreendendo até diretoria do hospital
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A carta aberta, publicada no começo do mês, também denunciava a falta de informações sobre a permanência dos serviços de saúde no local. Foi como uma resposta a esse quesito que aconteceu na semana passada que aconteceu a reunião da Emlurb com os funcionários do CPTRA.</p>



<p>“Passamos recentemente por uma grande reforma. Hoje, funcionam aqui dois CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), com duas equipes diferentes. Foram feitas muitas adaptações e agora vem essa história de mudança. Mas era esperado. A classe média recifense não iria querer conviver com as pessoas pobres, muitas vezes moradoras de rua, que são atendidas aqui”, lamentou um servidor público, que participou da reunião e pediu que não divulgasse seu nome, com receio de retaliações. Na reunião, foi ventilada a possibilidade do CPTRA ir para o Hospital Helena Moura, que fica a alguns metros de lá.</p>



<p>Por nota, a prefeitura afirmou que “os serviços de saúde que funcionam no terreno (hospitais Psiquiátrico Ulysses Pernambucano, Pediátrico Helena Moura e o Centro de Prevenção, Tratamento e Reabilitação de Alcoolismo-CPTRA) continuam à disposição da população e terão acessos independentes das atividades do Parque”. Não informou até quando.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Nota da Prefeitura do Recife</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p>A Prefeitura do Recife está realizando as obras do Parque da Tamarineira através da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb). Atualmente as obras englobam a primeira etapa do projeto, em um trecho beneficiado que mede 24,7 mil m<sup>2</sup> e equivale à frente do terreno. O atual projeto foi adaptado a partir do concurso público realizado em 2011 e que inclui praças internas, quadra poliesportiva, academia para a terceira idade, pista de cooper, playground infantil e banheiros. O trecho equivale à parte da frente do terreno, com acesso de pedestres pela avenida Rosa e Silva, não impactando nos serviços de saúde que funcionam no local. A intervenção deve ser entregue ainda no primeiro semestre de 2024.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>A primeira fase do parque terá três praças internas, quadra poliesportiva, academia para a terceira idade, pista de cooper com extensão de 600m, playground infantil e banheiros femininos, masculinos e para a família. A guarita e o antigo pórtico de entrada serão restaurados e todos os equipamentos serão acessíveis às pessoas com deficiência. Os muros antigos serão removidos e trocados por gradil, permitindo maior permeabilidade visual, e a calçada da Avenida Rosa e Silva será requalificada e alargada, ganhando também área de embarque e desembarque. Os carros vão acessar o estacionamento pela Rua Cônego Barata.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>O eixo principal receberá tratamento especial, ganhando praças com labirintos de vegetação arbustiva que fazem alusão à complexidade da mente humana. A primeira é a praça da fonte interativa, também conhecida como fonte seca, com jatos d’água que saem do piso e proporcionam oportunidade de diversão, principalmente para as crianças. A segunda contém o playground infantil. Já a terceira praça, de caráter contemplativo, garante a preservação dos bancos históricos e da estátua com o busto do médico Ulysses Pernambucano.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>O projeto inclui elementos de sustentabilidade, como os jardins de chuva, que utilizam uma técnica de compensação sustentável para drenagem urbana com o propósito de retenção de águas pluviais e redução do escoamento superficial. A área de solo natural é de aproximadamente 15 mil m2, ou 60% do terreno da primeira etapa. Com relação à arborização, serão implantadas 70 novas mudas de espécies nativas, sem afetar as extensas áreas gramadas, que remetem aos pomares de sítios antigos.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Os serviços de saúde que funcionam no terreno (hospitais Psiquiátrico Ulysses Pernambucano, Pediátrico Helena Moura e o Centro de Prevenção, Tratamento e Reabilitação de Alcoolismo-CPTRA) continuam à disposição da população e terão acessos independentes das atividades do Parque.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<p>O Governo do Estado foi igualmente vago. “A Secretaria ressalta que por efeito das obras do parque no terreno ao lado do Hospital Ulysses Pernambuco (HUP), não existe a possibilidade de mudança de local da unidade de saúde psiquiátrica”, diz nota da Secretaria Estadual de Saúde. A secretaria também informou que “aguarda um cronograma da Prefeitura do Recife (PCR) com informações detalhadas e fornecimento das fases das obras do Parque da Tamarineira, indicando etapas futuras e intervenções a realizar até a conclusão dos trabalhos”. Confira a nota completa ao final deste texto. </p>



<p>E que em uma reunião realizada nesta semana com a prefeitura “também ficou estabelecido que a SES-PE será informada, todas as sextas-feiras, sobre a programação das ações da semana posterior, a fim de impedir maiores transtornos a todos que fazem parte do Ulysses Pernambucano”, diz a nota.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Especialistas defendem rede descentralizada</h3>



<p>O fechamento do Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano já deveria ter acontecido. E não por conta do parque, mas pelas políticas antimanicomiais. É o que defende quem luta pela saúde mental. Mas não é fechar e pronto. “Em paralelo ao fechamento desse tipo de serviço, a gente propõe a implantação de uma rede psicossocial fortalecida em tudo”, afirma a psicóloga e ativista antimanicomial Telma Melo. Hoje, o HPUP conta apenas com a emergência e internação breve, de até 15 dias.</p>



<p>“Por mais que a gente tenha avançado na rede de saúde mental, a gente não conseguiu ainda ter emergências descentralizadas nos grandes hospitais e nas UPAs, para atender pessoas que precisam de atendimento psiquiátrico, principalmente para álcool e drogas. As UPAs têm total possibilidade de fazer essa abordagem”, afirma a psicóloga.</p>



<p>Telma Melo não acredita que os serviços de saúde mental irão ocupar o mesmo espaço do parque, que deve ter sua primeira etapa entregue ainda neste primeiro semestre. “É muito pouco provável que isso aconteça, principalmente da forma como está sendo feito, sem diálogo. Porque se realmente houvesse essa intenção, as pessoas, o movimento, teriam que estar participando. O que não está ocorrendo. Inclusive, nós temos propostas concretas para o prédio do Ulysses Pernambucano. Um memorial da saúde mental em Pernambuco e um espaço que promovesse formação para a reinserção social”, afirma.</p>



<p>O psicólogo e consultor Rafael West, que faz parte do Comitê Judiciário Antimanicomial do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), reforça que o Governo do Estado tem que participar mais efetivamente da rede de saúde mental. “Hoje a gente tem dispositivos possíveis para poder fazer uma transição e fechar o hospital psiquiátrico. Há opções de residências terapêuticas, unidades de acolhimento, novos centros de atenção psicossocial. Temos a possibilidade de fazer essa transição de uma maneira que respeite a dignidade, os direitos humanos e o que preconiza a saúde mental brasileira, que é fechamento dos hospitais psiquiátricos e abertura de serviços de modelos substitutivos”, detalha.</p>



<p>“Estado e prefeituras deveriam estar em comunicação para seguir esse fluxo que se chama desinstitucionalização. Algo que sempre defendemos é que o Estado possa financiar mais esses serviços da rede municipal. Precisamos estruturar melhor a emergência psiquiátrica 24 horas que existe em Pernambuco. A única porta de entrada hoje é ali, na Tamarineira. Precisamos de uma reestruturação e, do ponto de vista da própria legislação da saúde mental, abrir vagas em UPAs, hospitais gerais, para que estejam preparados para poder lidar com situações de crise na saúde mental. O Governo do Estado tem que ter essa meta”, afirmou.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Nota do Governo de Pernambuco</span>

		<p>A Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE) destaca a importância da única emergência psiquiátrica do Estado, o Hospital Ulysses Pernambucano (HUP), que atende hoje mais de mil pacientes por mês, e reforça com os órgãos de controle a necessidade da garantia da segurança e privacidade das pessoas atendidas da unidade, uma vez que são pacientes com maior vulnerabilidade.</p>
<p>Atualmente, o Hospital é a expressão do cuidado mental do Estado, juntamente com a assistência que deve ser dividida com os municípios e a União. Por isso, a SES-PE informa que aguarda um cronograma da Prefeitura do Recife (PCR) com informações detalhadas e fornecimento das fases das obras do Parque da Tamarineira, indicando etapas futuras e intervenções a realizar até a conclusão dos trabalhos.</p>
<p>Em reunião realizada essa semana entre a Secretaria e Prefeitura também ficou estabelecido que a SES-PE será informada, todas as sextas-feiras, sobre a programação das ações da semana posterior, a fim de impedir maiores transtornos a todos que fazem parte do Ulysses Pernambucano.</p>
<p>A Secretaria ressalta que por efeito das obras do parque no terreno ao lado do Hospital Ulysses Pernambuco (HUP), não existe a possibilidade de mudança de local da unidade de saúde psiquiátrica.</p>
	</div>



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		<title>&#8220;Sou uma mulher de 40 anos que tem medo da chuva&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/sou-uma-mulher-de-40-anos-que-tem-medo-da-chuva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jun 2023 13:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[alagamentos]]></category>
		<category><![CDATA[ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas no recife]]></category>
		<category><![CDATA[deslizamento de barreira]]></category>
		<category><![CDATA[medo da chuva]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em meio ao luto que completou um ano e à lama que se forma com a chegada das chuvas, muitas mentes não dormem e corações não sossegam. “Eu tenho até vergonha de falar isso, porque parece muito dramático, mas é a realidade: sou uma mulher de 40 anos que tem medo da chuva.” Elivaneide Nunes [&#8230;]</p>
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<p>Em meio ao luto que completou um ano e à lama que se forma com a chegada das chuvas, muitas mentes não dormem e corações não sossegam. “Eu tenho até vergonha de falar isso, porque parece muito dramático, mas é a realidade: sou uma mulher de 40 anos que tem medo da chuva.” Elivaneide Nunes estava dormindo na manhã de 7 de junho de 2022 quando foi “engolida pela própria casa”, na Linha do Tiro, zona norte do Recife, onde estava com o marido e os filhos, Lucas Daniel, de 13 anos, e Arthur, de 8 anos. O mais velho não sobreviveu.</p>



<p>Em Coqueiral, na zona oeste da capital, a possibilidade de uma nova cheia virou o maior medo de John Arthur Chagas, de apenas 12 anos. Em 28 de maio do ano passado, ele sobreviveu à forte correnteza formada com o transbordamento do rio Tejipió. Depois do resgate arriscado, feito por voluntários da igreja, o menino ficou em pânico sem conseguir entrar em casa quando o nível da água baixou.</p>



<p>Até hoje, Arthur não esquece. Virou “garoto meteorológico”, acompanhando a previsão do tempo e o nível da água sempre que começa a chover. O barulho da chuva, que antes embalava o sono, mesmo no verão, com o som no celular ou no tablete, virou motivo de ansiedade, enjoo e ânsia de vômito. Nem ele nem a mãe, Fabiana Chagas, dona de casa e vendedora de lanches, conseguiram apoio psicossocial por parte do poder público depois da tragédia.</p>



<p>A história de Elivaneide, Arthur e Fabiana mostra que a dor de um trauma pode nunca silenciar, mas, sem acolhimento e ajuda profissional, essa dor talvez nunca pare de gritar.</p>



<p>Esses são exemplos de tantas famílias que vivem na periferia ou em áreas de morros e encostas e perderam parentes, tiveram suas casas destruídas ou seus pertences perdidos com os temporais de 2022, que, ao todo, mataram ao menos 130 pessoas na Região Metropolitana do Recife.</p>



<p><a href="https://marcozero.org/somente-as-chuvas-nao-explicam-mortes-nos-morros/">Mas somente as chuvas não explicam o que aconteceu.</a> A lógica de desenvolvimento e a falta de políticas habitacionais empurram a classe trabalhadora mais pobre, em sua maioria negra, para áreas vulneráveis ao mesmo tempo em que políticas de planejamento urbano e uso do solo privilegiam apenas uma pequena parte da população e do setor privado.</p>





<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Tudo que eu sonho são as recordações da tragédia”</strong></h2>



<p>A casa de Elivaneide, na Linha do Tiro, ficava em cima de uma barreira que deslizou após um grande volume de chuvas. Lucas, o filho mais velho, chegou a ser socorrido com vida, mas não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho do hospital. Foi a 109ª vítima entre maio e junho do ano passado.</p>



<p>O depoimento do avô de Lucas, Eliziario da Silva, conhecido como Pelé, falando <a href="https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2022/06/07/nao-ha-necessidade-de-alguem-morar-pendurado-em-barreira-diz-avo-de-adolescente-vitima-de-deslizamento-no-recife.ghtml">“não há necessidade de alguém morar pendurado em barreira”</a> ficou bastante conhecido na internet. “Eu queria muito sonhar com o meu filho, mas, desde esse dia, eu não sonho mais. Tudo que eu sonho são as recordações da tragédia”, relata Elivaneide.</p>



<p>Antes do deslizamento, ela já enfrentava uma “batalha psicológica” – como ela mesma caracteriza – para superar a obesidade e o alcoolismo. Ela recorda que estava em um bom momento de recuperação antes da tragédia. “Eu estava tão bem com a minha saúde mental, estava esplêndida e aconteceu isso, a morte do meu filho. Hoje eu peso menos de 80 quilos e isso é tão gratificante”, lembra. “Ele [Lucas] me ajudou muito durante todas as minhas batalhas e eu queria muito que ele estivesse aqui para me ver agora”, lamenta.</p>



<p>“O primeiro Dia das Mães sem ele foi terrível. Infelizmente as pessoas não vão mais lembrar, porque vai cair no esquecimento, vai virar mais uma estatística, e, para mim, vai doer para sempre”, complementa Elivaneide. “As pessoas só vão lembrar a necessidade de dar uma casa a ‘Neide’, a necessidade de dar os móveis a ‘Neide’. Mas ninguém tem a percepção que ‘Neide’ precisa de um atendimento psicológico”, ela diz.</p>



<p>A dona de casa faz acompanhamento psicológico, com sessões semanais de terapia, pagas do próprio bolso. Ela não se sentiu segura com a abordagem médica e o tratamento sugerido num Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) do Recife, onde foram realizados atendimentos de apoio às vítimas dos deslizamentos.</p>



<p>“Encaminharam eu, minha irmã, meu esposo e meu filho mais novo para o Caps. Só que o tratamento que se dá não é voltado para o que a gente precisa. Não desmerecendo a situação, mas eu não preciso de medicação para me acalmar, para me botar para dormir e foi isso que eles me ofereceram”, explica.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Na fila de espera por acompanhamento psicológico</strong></h2>



<p>Elivaneide está na fila de espera aguardando acompanhamento psicológico pela Prefeitura do Recife para Arthur, o filho mais novo, que sobreviveu. “Eu consegui fazer uma casinha com o meu próprio corpo e protegi Arthur. Passei dias com as costas roxas. A médica disse que, se eu tivesse o peso que tinha antes, eu teria sufocado meu próprio filho. Só de lembrar disso, eu me emociono. Eu queria ter salvado os dois, eu queria que Lucas tivesse perto de mim também para eu protegê-lo, mas ele estava no outro quarto.”</p>



<p>Em nota à <strong>Marco Zero</strong>, a secretaria de Saúde do Recife afirmou que, no primeiro trimestre após as fortes chuvas de maio de 2022 – junho, julho e agosto –, a média de atendimentos dos Caps do Recife passou de 14.300 para 17.300, um aumento de 20%. No segundo trimestre após as chuvas – setembro, outubro e novembro –, esse número caiu para 14.500.</p>



<p>“Esses números não refletem apenas a procura por questões relacionadas às chuvas, mas compreendem todos os tipos de atendimento que a Raps (Rede de Atenção Psicossocial) oferece, como consultas individuais e em grupo, apoio psicossocial e/ou de tratamento para transtornos decorrentes de sofrimento psíquico ou do consumo abusivo de álcool e outras drogas”, frisou a pasta.</p>



<p>Durante as chuvas, afirma a prefeitura, foi montada uma força-tarefa, com 60 profissionais de diversas áreas da saúde mental, para oferecer atendimento psicossocial às pessoas desabrigadas. Segundo a gestão, a assistência especializada, com suporte de psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e enfermeiros, foi feita diretamente nos abrigos instalados nos oito distritos sanitários da cidade, com reforço das ações no território do Distrito VIII (Cohab, Ibura e Jordão), mais afetado pelas chuvas.</p>



<p>A gestão municipal disse também que, ao todo, 348 pessoas foram atendidas e aquelas que necessitaram de tratamento continuado foram encaminhadas para a rede de Caps, formada por 17 unidades. A secretaria de Saúde do Recife contabilizou que, desde maio de 2022, nomeou 111 profissionais, entre médicos, psicólogos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fonoaudiólogos e outros, para recompor a Raps do município. Além disso, repassou que tem investido na requalificação dos Caps para promover melhorias estruturais nos espaços de atendimento à população. </p>



<p>A pasta levantou que os principais tipos de transtornos de estresse pós-traumático verificados nas vítimas foram ansiedade e depressão, sejam em pessoas que apresentaram sintomas pela primeira vez desde a tragédia e aquelas que agravaram um quadro pré-existente.</p>



<p>No dia da entrevista, Elivaneide faltou a terapia porque estava chovendo. “Quando eu estou na rua e começa a chover, fico tão nervosa. Quando chove de madrugada, eu nem durmo. E não tenho como mudar isso, vai ser sempre assim. Porque não vai parar de chover, todos os anos vai ter inverno. O que eu queria mesmo é que não existissem mais vítimas como Lucas”, desabafou.</p>



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	                                        <p class="m-0">Local onde aconteceu o deslizamento da barreira que vitimou Lucas, filho de Elivaneide, na Linha do Tiro. Crédito: Arnaldo Sete/MZ</p>
	                
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<p>Não bastassem as lembranças frequentes do que aconteceu, a dona de casa segue morando em frente ao local que deslizou. Tendo que olhar todos os dias para a barreira, que agora está sendo cimentada pela Prefeitura do Recife. O sentimento é de medo e impotência.</p>



<p>“Quando chegam as pedras, quando você vê os trabalhadores chegando e os entulhos descendo, vai aflorando ainda mais as lembranças, é muito difícil. E eu fico pensando: ‘para onde eu posso ir?’, se minha mãe e toda a minha família moram aqui perto e eu não tenho condições financeiras de me mudar? O auxílio que nos oferecem não é suficiente para pagar aluguel e eu sempre morei em casa própria”, reflete.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>“É desumano ver que seu filho não consegue dormir”</strong></h3>



<p>“Quando minha mãe me trouxe para casa e a gente foi olhar a rua, eu me desesperei quando vi a correnteza e a altura da água. Eu comecei a chorar que nem doido”. Essa é a primeira lembrança do choque de Arthur, de 12 anos, filho de Fabiana, de Coqueiral, na cheia do ano passado.</p>



<p>Foi difícil convencê-lo a ser resgatado de dentro da casa inundada. Ele estava em pânico, com muito medo. “Quando eu consegui sair de casa e as pessoas gritaram ‘olha a pedra, olha a pedra’, eu me desesperei mais ainda. Me segurei com mais força para não cair”, conta com detalhes. A correnteza foi tão forte que arrastou, além de pedras, carros, pedaços de casas e objetos pela rua.</p>



<p>A frase que mais marcou Fabiana naquele momento foi o filho dizer “mãe, eu não estou vendo a nossa casa”, de tão desfigurado que ficou o imóvel. “O que eu mais repetia, na minha cabeça, a cada armário e cômoda que eu jogava fora, era ‘obrigada, Deus, eu estou botando móvel, não estou botando um caixão’”, agradece.</p>



<p>Desde então, a chuva se tornou o maior medo da família e isso tem atrapalhado também o desempenho educacional de Arthur, que virou uma criança mais retraída. Os bonecos articulados que ele fazia deram lugar a armas construídas com papel. “É desumano você não conseguir dormir e ver que seu filho não consegue dormir enquanto a chuva não diminui. Aí como ele vai no outro dia para escola? Como vai ficar o resultado dele? Vai continuar a vida de uma forma normal e, quando chegar no inverno, ele vai parar?”, indaga a mãe.</p>



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	                                        <p class="m-0">Fabiana com o filho, Arthur, na casa ainda com as manchas do nível da água nas paredes, em Coqueiral. Crédito: Arnaldo Sete/MZ</p>
	                
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<p>“Eu não vou sair com ele dentro d&#8217;água. Isso eu já botei na minha cabeça. A gente começou a fazer uma estratégia de guerra, porque eu não vou deixar meu filho passar pelo o que ele passou”, garante. Fabiana já prometeu: ao menor sinal de que a chuva está apertando, vai correndo pegar o filho na escola.</p>



<p>Nem mesmo os Bombeiros conseguiram chegar no dia da tragédia, em 2022, porque as ondas ameaçavam virar os botes. “Ninguém tinha energia, ninguém tinha telefone, não tinha 4G, não tinha internet, não tinha nada. A gente ficou literalmente num filme de terror”, compara.</p>



<p>“É algo desesperador você não controlar uma angústia que vem de dentro, que lhe faz tremer, que você perde o controle do seu corpo”, descreve a dona de casa que passou por crises de choro incontroláveis enquanto esperava comida na fila da igreja entre maio e junho do ano passado.</p>



<p>“Eu não estou aqui para esperar que o governo ache que com R$ 2,5 mil eu vou comprar geladeira, fogão, estante, sofá, roupa”, rebate Fabiana, contando que a família passou um tempo tirando a roupa para tomar banho e se enxugando com ela, porque não tinha toalha nem lençol. A igreja Batista de Coqueiral foi o principal centro de apoio durante 30 dias para alimentação, vestuário, higiene e limpeza.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>“A gente tem que se virar”</strong></h3>



<p>Ao longo da última década, Carla Suzarte, de 46 anos, também de Coqueiral, modificou a casa para se proteger das enchentes e evitar mais prejuízos no lugar onde ela vive há quase 30 anos. Os móveis hoje são de cimento, há cerâmica em todas as paredes e ela construiu com o marido um primeiro andar. É para lá que a família vai, junto com geladeira, fogão e móveis, quando o nível do Rio Tejipió ameaça subir. Nas chuvas de 2022, a água dentro do imóvel chegou a quase cobrir a TV na parede.</p>



<p>A TV que ela exibe foi comprada com uma cota que o pessoal do trabalho fez para ajudá-la. São incontáveis os móveis e eletrodomésticos que a família já perdeu por causa da água. “Sonho de anos, parcelado, que vai embora em um dia”, define a guia de turismo e artesã. Carla começa a tremer e ficar ansiosa a cada vez que a chuva aperta.</p>



<p>“A gente já tem um sistema nervoso, a gente não dorme. Então vem aquela ansiedade. Tem hora que eu fico no desespero, eu choro do nada”, diz, detalhando que sente falta de ar, dor no peito e dor de cabeça. “No outro dia, você também sente dor de cabeça, porque não dormiu. Fica irritada, não consegue raciocinar”, fala.</p>



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	                                        <p class="m-0">Na foto, Carla, de Coqueiral, exibe o nível que água atingiu dentro de casa, quase cobrindo a TV na parede. Crédito: Arnaldo Sete/MZ</p>
	                
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<p>“Sou feliz porque consegui ter um imóvel e, ao mesmo tempo, triste porque, toda vez que chove, a gente tem esse desespero”, explica. Segundo Carla, esse desespero já começa quando ela precisa desmontar a casa toda. “É pior que mudança”, compara. &#8220;Além de você não dormir durante a noite todinha olhando o nível do rio, você fica com aquela adrenalina. Você não sabe onde arranja tanta força”, descreve.</p>



<p>Carla afirma que o posto de saúde perto de casa costuma ter somente médico clínico. O Caps mais próximo fica em Jardim São Paulo, a cerca de cinco quilômetros, e, segundo ela, só atende pacientes em situação de surto. “A gente que se virar, é com chazinho e se acostumando”, detalha. “A gente não mora em beira de rio porque quer. A gente é empurrado, a classe pobre é empurrada para esses bairros.”</p>



<p>Na avaliação da assistente social e coordenadora do projeto Rios Livres, Cidades Saudáveis, do Instituto Social Solidare, Géssica Dias, “o adoecimento mental é tão crônico que ele não precisa de perda fatal, eles mexe com gatilhos das vivências da família e o fato de ano passado ter sido o pior ano”. O instituto junto com a igreja conseguiu retirar cerca de 500 pessoas de situações de perigo nas chuvas de 2022.</p>



<p>Géssica calcula um aumento de 70% nas buscas ao instituto de famílias pedindo ajuda para encaminhamento para serviço de saúde mental. “As pessoas estão vivendo uma sobrevida, estão adoecidas, não conseguem mais lidar com os fenômenos naturais”, afirma. “As famílias estão desacobertadas e isso inclui o atendimento clínico individualizado. Nem sempre o atendimento em grupo faz sentido”, alerta.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Jardim Monteverde protesta um ano depois</strong></h3>



<p>O cenário ainda é desolador na comunidade de Jardim Monte Verde, no Ibura, numa área limítrofe entre os municípios do Recife e de Jaboatão dos Guararapes, onde mais de 20 pessoas morreram, sendo 12 delas de uma mesma família.</p>



<p>Na sexta-feira, 26 de maio, moradores e familiares das vítimas realizaram um ato em memória dos falecidos e para cobrar medidas e ações efetivas do poder público na mitigação dos danos e riscos causados pelas chuvas. A mobilização iniciou no Terminal de Jardim Monteverde e seguiu em caminhada até a rua da Capela, onde ocorreu o maior número de mortes, 17 ao todo.</p>



<p>Durante todo o ato, foi possível notar a dor e a tristeza dos moradores. Uma maioria de mulheres, entre 30 e 60 anos, e crianças vestidas de preto com cartazes estampando frases carregadas de cobranças, como “Quantas mortes mais vai precisar?”, ocuparam as ruas e se emocionaram ao relembrar a tragédia.</p>



<p>A reportagem <a href="https://marcozero.org/somos-uma-comunidade-adoecida-jardim-monteverde-6-meses-depois-das-chuvas/">esteve na comunidade seis meses após as chuvas</a> para falar sobre adoecimento mental e o relato dos moradores, desde então, só piora.</p>



<p>“É muito triste o que está acontecendo em Jardim Monte Verde. As pessoas estão morrendo e os governantes não fazem nada, a culpa do que aconteceu é deles. O bairro está morrendo, as pessoas estão doentes. Depois do que aconteceu ano passado, muitos idosos morreram de remorso e de solidão, não aguentaram a dor. As pessoas estão se cortando, o suicídio está aí. As crianças entram em pânico quando escutam a chuva, isso não é normal”, afirmou a moradora Dalva Damares, 67 anos, ao denunciar o adoecimento mental da comunidade durante sua fala no ato.</p>



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	                                        <p class="m-0">Comunidade de Jardim Monteverde protesta um ano depois da tragédia. Crédito: Giovanna Carneiro/MZ</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>De acordo com os moradores, após a tragédia das chuvas, a Prefeitura de Jaboatão colocou dois psicólogos na Unidade Básica de Jardim Monteverde para prestar assistência à comunidade.</p>



<p>Em nota à <strong>Marco Zero</strong>, a prefeitura afirmou que “diante da situação emergencial de desastre, no ano passado, a Secretaria Municipal de Saúde reconfigurou e expandiu a estratégia de atendimento em saúde mental, visando garantir acolhimento emocional imediato à população e aos trabalhadores da prefeitura. Foi implantado um Plano Emergencial em Saúde Mental para Situações de Emergências e Desastres, com atuações voltadas tanto para o cuidado da população atingida quanto para profissionais que atuaram diretamente nessa demanda”.</p>



<p>“O município se antecipou e implantou rapidamente plantões psicológicos nas sete comunidades mais atingidas pelas chuvas. Com atendimento imediato, sem necessidade de agendamento prévio ou filas de espera. Atualmente quatro plantões continuam acontecendo semanalmente em três comunidades: Jardim Monteverde (dois plantões semanais), Bola de Ouro (um plantão semanal) e Dois Carneiros Baixo (um plantão semanal)”.</p>



<p>A Secretaria de Saúde disse que também realizou monitoramento e atendimento sistemático e/ou imediato, quando necessário, às demandas de saúde mental nos 23 abrigos utilizados; executou ações de escuta qualificada; ampliou oferta de grupos de saúde mental na atenção básica; e realizou ações específicas para a população em situação de rua.</p>



<p>“Com as medidas, não percebemos aumento da procura de atendimento na rede municipal. [&#8230;] A média é de 130 atendimentos ao mês”, concluiu a gestão municipal. A resistência de alguns moradores em admitir o trauma e buscar apoio psicológico pode explicar a falta de aumento na procura por atendimento nas unidades de saúde.</p>



<p>Corina Maria da Silva, 63 anos, perdeu o filho durante os deslizamentos de 2022 no Jardim Monteverde e, até hoje, sente medo da chuva e se revolta ao lembrar da tragédia. “Não foi a primeira vez, só que dessa vez a tragédia foi maior e é culpa do descaso do governo de Pernambuco e das prefeituras. Eles dizem que têm milhões e milhões de dinheiro, mas não chegam com benefícios para nossa comunidade. Eu quero que eles tenham vergonha na cara e venham na nossa comunidade trabalhar, venham com projeto, com soluções de moradia. Porque é isso que nós queremos: moradia”, afirmou a autônoma.</p>



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	                                        <p class="m-0">Corina na área onde seu filho morreu. Crédito: Giovanna Carneiro/MZ</p>
	                
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<p>Bastante emocionada, chorando e com as mãos trêmulas, Corina admite que sente os efeitos do trauma, mas acredita que não precisa de acompanhamento psicológico. “Eu sou uma pessoa que eu tenho maior devoção em Deus e eu acredito que Deus me dá força para seguir em frente sem precisar de tratamento psicológico. Eu tomei um calmantezinho hoje porque isso mexe muito comigo, mas eu estou bem, estou tranquila. Porém, aqui na comunidade, tem muita gente traumatizada, tem crianças que não podem ver chuva que já começam a chorar”, disse.</p>



<p>Privação do sono e sensação de pânico com a chegada das chuvas são alguns dos efeitos que Corina experimenta durante o inverno. A idosa mora em um local rodeado por barreiras, próximo de onde aconteceu o deslizamento que causou a morte do filho. De acordo com Corina, a Defesa Civil chegou a notificá-la do risco e solicitou que ela deixasse o imóvel.</p>



<p>“No dia que começou a chover muito, eu não consegui dormir, porque eles [agentes da Defesa Civil] dizem que o meu terreno é área de risco, então, se uma barreira cair, pode derrubar uma casa e consequentemente essa casa pode derrubar a minha. [&#8230;] Infelizmente eu não posso sair da minha casa sem ter para onde ir. Eles oferecem um habitacional, mas não dizem nem qual é esse habitacional. E eu não vou sair da minha casa por um auxílio-moradia que só dá para alugar casa em barreiras ou na beira do rio”, declarou.</p>



<p>No início de maio, o Governo de Pernambuco anunciou um investimento de R$ 52,4 milhões para fortalecer o Fundo Estadual de Assistência Social e os serviços de proteção do Estado. O valor deve ser transferido para os fundos das gestões municipais e o montante de cada administração vai variar conforme os serviços socioassistenciais ofertados por cada município.</p>



<p>O investimento vai contemplar as unidades de Centros de Referência da Assistência Social (Cras), com R$ 10,2 milhões, e também os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), com R$ 5,8 milhões. A partir do dia 30 de maio até dezembro, todos os municípios pernambucanos vão receber os valores pactuados.</p>



<p>Segundo a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, o município está “na fase de celebração de assinatura do termo de aceite com o Governo do Estado de Pernambuco e ainda não recebeu essa verba. O montante do repasse financeiro no bloco da Proteção Social de Média Complexidade Creas/Paef será de R$ 30 mil para todo o ano de 2023. Esse recurso será utilizado para custear ações já desempenhadas pelo município, não sendo suficiente para ampliar serviços, neste momento”.</p>



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		<title>Saúde mental em Pernambuco está sem comando desde janeiro</title>
		<link>https://marcozero.org/saude-mental-em-pernambuco-esta-sem-comando-desde-janeiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Mar 2023 22:35:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[alepe]]></category>
		<category><![CDATA[caps]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades terapêuticas]]></category>
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		<category><![CDATA[secretaria de saude]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde o controverso decreto de janeiro em que a governadora Raquel Lyra (PSDB) exonerou todos os cargos comissionados do Governo de Pernambuco, a vaga de Gerência de Saúde Mental (Gasam) da Secretaria Estadual de Saúde segue vazia. É de responsabilidade do cargo apresentar para os profissionais de saúde do estado as diretrizes que a saúde [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde o controverso decreto de janeiro em que a governadora Raquel Lyra (PSDB) exonerou todos os cargos comissionados do Governo de Pernambuco, a vaga de Gerência de Saúde Mental (Gasam) da Secretaria Estadual de Saúde segue vazia. É de responsabilidade do cargo apresentar para os profissionais de saúde do estado as diretrizes que a saúde mental vai ter ao longo do governo, fazer a ponte com o Governo Federal, além de oferecer capacitação para os profissionais.</p>



<p>Há pelo menos três reuniões a comissão de saúde mental do Conselho Estadual de Saúde cobra uma posição sobre o cargo vago. A Marco Zero questionou a SES-PE sobre o assunto, mas não obteve resposta.</p>



<p>Na última reunião do Conselho, ocorrida na semana passada, a secretária Zilda Cavalcanti pediu paciência e disse que está em busca de um perfil técnico, compromissado e que a questão da saúde mental é de extrema importância dentro da secretaria. Também afirmou que em breve a nomeação deve sair e que as questões que seriam da gerência estão, por ora, com a secretaria executiva de vigilância e atenção primária, comandada por Verônica Cisneiros. </p>



<p>Entre psicólogas, psiquiatras e terapeutas existe o receio de que o cargo esteja sendo avaliado, ou disputado, por políticos evangélicos e conservadores ligados às comunidades terapêuticas. Isso porque, desde que Raquel Lyra assumiu, há uma série de movimentações em relação às políticas de drogas e de saúde mental do governo. Quanto mais demora na nomeação do cargo, maior a desconfiança. </p>



<p>A primeira movimentação dos políticos evangélicos fundamentalistas ocorreu já na única emenda à reforma administrativa de Raquel Lyra aprovada pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), em janeiro. A emenda, do deputado Cleiton Collins (PP), que é fundador da comunidade terapêutica Saravida, alterou as competências da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança, Juventude e Prevenção à Violência e às Drogas. Uma mudança sutil, mas vista por especialistas como uma brecha para o financiamento de comunidades terapêuticas, como acontece na secretaria equivalente da Prefeitura do Recife.</p>



<p>Outra evidência da pressão dos fundamentalistas evangélicos foi a exoneração do secretário executivo de Políticas sobre Drogas, Rafael West, militante pela redução de danos, que saiu antes mesmo de assumir, poucos dias após ter sido nomeado.</p>



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	                                        <p class="m-0">Zilda Cavalcanti. Crédito: Mª Eduarda Bione/SES-PE</p>
	                
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<p>Já na Alepe, foi criada em fevereiro a Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental dos Pernambucanos com o deputado evangélico fundamentalista Joel da Harpa (PL) na presidência e entre os membros os pastores Júnior Tércio (PP) e Cleiton Collins.</p>



<p>Até hoje as secretarias de saúde &#8211; tanto estadual quanto a do Recife &#8211; seguem “blindadas” dos avanços das comunidades terapêuticas. Mas há o receio de que haja uma pressão por espaço. “Até agora a Secretaria de Saúde não apresentou um fluxograma de ações. Não pode ficar só apagando incêndios, tem que ter planejamento e diretrizes. A gerência de saúde mental é quem faz o monitoramento das ações de saúde mental dos municípios. É um modelo descentralizado e tem que haver os gestores”, critica a coordenadora de saúde mental do Conselho Estadual de Saúde, Íris Maria. </p>



<p>Para ela o governo Raquel Lyra está também perdendo tempo em não estreitar relações com Governo Federal, que recentemente reativou seu departamento de saúde mental, que havia sido desmantelado no governo Bolsonaro. “É uma vaga que tem, sim, o interesse dos políticos conservadores, que é um grupo hermético, que não tem muita discussão. Mas hoje temos um caminho bem interessante para discutir saúde mental no Brasil junto ao Governo Federal. Raquel Lyra vai querer ir na contramão desse movimento?&#8221;, questiona Irís.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Leis “barram” comunidades terapêuticas</h2>



<p>Irís Maria lembra que em julho vai ter a 17ª Conferência Nacional de Saúde, evento para discutir e melhorar as políticas públicas em saúde. É um momento importante de construção coletiva e, por isso, municípios e estados devem estar bem preparados. A demora em nomear um gestor pode enfraquecer essa preparação. </p>



<p>Nas conferências participam os segmentos de usuários, trabalhadores e gestores. &#8220;As políticas públicas de saúde mental precisam ser implementadas e melhoradas. O controle social é quem é o guardião dessa política, no sentido de avançar, de ver os processos de financiamento&#8221;, explica.  As conferências de saúde mental acontecem a partir da convocatória do Conselho Nacional de Saúde. Pernambuco finalizou em agosto do ano passado a IV Conferência Estadual de Saúde Mental, evento que precede a conferência nacional, reforçando a luta pela Rede de Atenção Psicossocial (Raps), com tratamento no território e em liberdade. O tema foi &#8220;A Política de saúde mental como direito: Pernambuco pela defesa do cuidado em liberdade, rumo à avanços e garantia dos serviços da atenção psicossocial no SUS&#8221;. </p>



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	                                        <p class="m-0">Íris Maria, coordenadora da comissão de saúde mental do Conselho Estadual de Saúde</p>
	                
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<p>O psicólogo clínico João Marcelo Costa, mestre em Gestão Pública, estava como gestor do Gasam de 2015 até a exoneração em janeiro deste ano. Na visão do ex-gestor, a reforma psiquiátrica, aprovada como lei em 2001, que prevê o fechamento gradual de leitos de longa permanência, e a portaria estadual 747, de 2018, que estabelece as políticas de saúde mental em Pernambuco, são impeditivos legais para as comunidades terapêuticas avançarem na pasta da saúde.</p>



<p>As comunidades terapêuticas, mantidas por grupos religiosos, pregam a reclusão para tratamento. Elas estariam, portanto, na contramão da legislação. “A política estadual não é ditada por uma gestão, mas é toda coletiva. Está nítido nela que não há permissão de nenhum tipo de cuidado baseado nos princípios asilares. A política é muito clara ao não conceber o hospital psiquiátrico como ponto de atenção e ao colocar que não cabe tipo algum de modelo asilar (de reclusão) na rede de cuidados”, afirma João Marcelo.</p>



<p>Pernambuco, que já teve quase três mil leitos exclusivos de saúde mental, tem hoje 235 leitos divididos entre um hospital contratado pelo município de Serra Talhada e o Ulysses Pernambucano, na Tamarineira, a grande referência de urgência e emergência psiquiátrica do estado. Há também 89 vagas em hospitais regionais, que receberam capacitação para atender os pacientes de saúde mental.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Faltam Caps</h3>



<p>Ao contrário de outras áreas da saúde, ter menos leitos em hospitais psiquiátricos é algo desejável. Mas o avanço da reforma psiquiátrica passa também pelo fortalecimento e expansão dos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, geridos pelos municípios com fundos principalmente do Governo Federal, e que têm caráter aberto, integrado e comunitário. E isso não está acontecendo, nem aconteceu na gestão passada. É um desafio complexo, que ficou ainda mais sofrido com a pandemia. No Recife, por exemplo, há apenas três Caps voltados para crianças.</p>



<p>A Marco Zero conversou com duas militantes da reforma psiquiátrica que trabalham em Caps no Grande Recife. Uma delas relatou que os dez Caps com atendimento 24 horas na capital não estão dando conta. No relato, ela fala que o imóvel do Caps Davi Capistrano, no Ipsep, foi interditado com as chuvas de maio do ano passado e ainda está em reforma, com a equipe atendendo no Caps Livre Mente, em Setúbal. E cobrou que o estado tenha mais participação no financiamento da rede. </p>



<p>Há também o adoecimento dos profissionais, que, muitas vezes, trabalham sobrecarregados. “A pandemia aumentou muito o número de pessoas com depressão, ansiedade e tentativas de suicídio. E os profissionais de saúde não ficaram imunes a isso. Há uma sobrecarga de trabalho e a rede de Capes e de unidades de acolhimento, para pessoas com problemas abusivos de álcool e outras drogas, não estão sendo expandidas. Também não temos clareza qual o direcionamento que o governo do estado vai dar para a saúde mental”, criticou outra servidora, que preferiu não se identificar.</p>



<p>A vaga na gerência de saúde mental é uma das muitas que ainda não foram preenchidas na Secretaria Estadual de Saúde. Na sexta-feira passada, a deputada estadual Dani Portela (Psol) protocolou uma indicação à secretaria para que preencha 678 cargos que ainda se encontram vagos. Entre eles, há 210 postos de médicos, 129 vagas de analistas em saúde, 119 vagas de assistentes em saúde, 147 vagas de auxiliares em saúde e 40 (quarenta) vagas de fiscais da vigilância sanitária sem nomeação na secretaria.</p>



<ul class="wp-block-list"><li>ERRATA: este texto foi corrigido às 15:07 de 22 de março. Inicialmente publicamos que a equipe do Caps do Ipsep estava atendendo, desde maio do ano passado, no Caps Espaço Azul, de Casa Amarela, quando o correto é que os profissionais foram alocados temporariamente no Caps Livre Mente, em Setúbal.</li></ul>



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		<title>Única emenda aprovada pela Alepe na reforma de Raquel Lyra abre brecha para financiamento de Comunidades Terapêuticas</title>
		<link>https://marcozero.org/unica-emenda-aprovada-pela-alepe-na-reforma-de-raquel-lyra-abre-brecha-para-financiamento-de-comunidades-terapeuticas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Jan 2023 20:51:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades terapêuticas]]></category>
		<category><![CDATA[Pastor Cleiton Collins]]></category>
		<category><![CDATA[reforma administrativa]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi uma mudança sutil. A única emenda aprovada pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) para a reforma administrativa da governadora Raquel Lyra (PSDB) traz pequenas mudanças nas competências da recém-criada Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança, Juventude e Prevenção à Violência e às Drogas. De autoria do deputado pastor Cleiton Collins (PP), a emenda muda o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Foi uma mudança sutil. A única <a href="https://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-texto-completo/?docid=10309&amp;tipoprop=e" target="_blank" rel="noreferrer noopener">emenda</a> aprovada pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) para a reforma administrativa da governadora Raquel Lyra (PSDB) traz pequenas mudanças nas competências da recém-criada Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança, Juventude e Prevenção à Violência e às Drogas. De autoria do deputado pastor Cleiton Collins (PP), a emenda muda o texto de atribuições da secretaria de apenas “redução” ao uso abusivo de drogas para &#8220;redução, prevenção e cuidado&#8221;. O final do texto proposto pelo executivo dizia que a Secretaria deve atuar em consonância com “as diretrizes do Sistema Único de Saúde e do Sistema Único de Assistência Social e Social&#8221;. O deputado acrescentou &#8220;através do incentivo à uma política estadual de acolhimento às pessoas em uso abusivo de drogas”.</p>



<p>Parece pouco, mas pode ser um movimento em direção ao financiamento das Comunidades Terapêuticas pelo Governo do Estado. Na nova redação das atribuições da secretaria estadual, os termos “cuidado”, que é bastante forte no léxico evangélico, mas também na área de saúde mental, e o “incentivo” a uma “política estadual de acolhimento”, que ainda é inexistente, levantam sobrancelhas, mas é o próprio autor da emenda e a comemoração que ele fez da aprovação nas redes sociais que chamou mais a atenção das especialistas ouvidas pela Marco Zero Conteúdo. Além de pastor e deputado, Collins e a esposa, a vereadora do Recife Michelle Collins, são fundadores da Saravida, <a href="https://marcozero.org/o-jogo-politico-partidario-por-tras-das-comunidades-terapeuticas-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">uma das CTs mais estruturadas localmente</a>.</p>



<p>Integrante do Conselho Estadual de Saúde e do Conselho Regional de Psicologia em Pernambuco, Íris Maria afirma que a emenda é um movimento do deputado em busca de financiamento para as CTs . “A família dos Collins se apoderou da narrativa de redução de danos também. Como eles perderam o financiamento das comunidades terapêuticas no âmbito da Saúde, eles passaram a afirmar que as CTs fazem redução de danos. São estratégicos: criam um projeto que dialoga com a proposta, mas não dizem como é feita essa redução de danos”, afirma.</p>



<p>Coordenadora do Centro de Prevenção às Dependências, Ana Glória Melcop critica e lamenta também o fim da Secretaria de Políticas de Prevenção à Violência e às Drogas, que com a reforma administrativa de Raquel Lyra foi incorporada à Secretaria de Desenvolvimento Social.</p>



<p>“Pouquíssimos estados do Brasil tinham uma secretaria exclusiva. Mas essa secretaria ficou mesmo mais ligada à execução do Programa Atitude e do Juventude Presente. Não foi uma secretaria que avançou na política sobre drogas. Não contemplou povos indígenas, mulheres, adolescentes. De fato, o estado de Pernambuco precisa de uma política sobre drogas”, afirmou Melcop, fazendo um adendo. “Mas não cabe nesta política o financiamento às CTs. Primeiro, pelo princípio e origem das CTs no Brasil, ligadas à questão religiosa, quando nosso estado é laico. E é necessário uma equipe de profissionais da saúde. Um usuário de álcool, por exemplo, pode entrar em crise de abstinência e morrer, porque não há médicos. Não há tratamento adequado nas CTs”, diz.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/o-jogo-politico-partidario-por-tras-das-comunidades-terapeuticas-em-pernambuco/" class="titulo">O jogo político-partidário por trás das comunidades terapêuticas em Pernambuco</a>
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<p>Em relação ao Governo Raquel Lyra, Melcop espera que haja diálogo com a sociedade civil. “Pernambuco é vanguarda nessa área. Há mais de 30 anos se começou a política de redução de danos no governo de Jarbas Vasconcelos. Também tivemos recentemente a lei de plantio e uso da cannabis medicinal. Nossa expectativa é de que Pernambuco venha a ter de fato uma política sobre drogas. Democrática, que atenda todos os segmentos da sociedade, e que haja um impacto de fato e que as pessoas possam ter sua liberdade&#8221;, afirma Melcop.</p>



<p>A extinção da Secretaria é vista com preocupação por Íris Maria. “Quando um gestor assume um cargo, ele deve fazer uma abertura para o diálogo. Não houve. Sou do Conselho Estadual de Saúde e só houve uma conversa antes do governo começar. É muito pouco para a complexidade do estado de Pernambuco. A política de drogas ainda tem um viés proibicionista, visando apenas a abstenção e prisão dos usuários”, critica.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Recife, que já foi exemplo, hoje financia CTs</h2>



<p>A movimentação com a emenda, acreditam as especialistas, pode ser algo como se viu na Prefeitura do Recife, durante a gestão de Geraldo Julio (PSB). Com verbas para as CTs barradas na Secretaria de Saúde, o deputado Cleiton Collins (PP) e a vereadora Michelle Collins (PP) moveram suas estratégias para a Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Juventude e Políticas sobre Drogas, que, a partir de 2018, começou a dar verbas para CTs. Em 2019, a então secretária Clara Marques exaltava que Recife era a única cidade do Estado de Pernambuco a oferecer vagas em CTs. </p>



<p>O financiamento das Comunidades Terapêuticas tem continuado no governo de João Campos (PSB). Só no primeiro semestre do ano passado, a prefeitura liberou quase de R$ 4 milhões paras as CTs e nada para a Rede de Atenção Psicossocial, de acordo com <a href="https://www.brasildefatope.com.br/2022/06/22/recife-investiu-quase-r-4-mi-em-comunidades-terapeuticas-e-nada-no-servico-equivalente-do-sus" target="_blank" rel="noreferrer noopener">levantamento do Brasil de Fato</a>. </p>



<p>Íris Maria acredita que a meta dos Collins com a emenda é também conseguir verbas do Governo do Estado por meio da nova Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança, Juventude e Prevenção à Violência e às Drogas.“É a mesma estratégia que usaram na Prefeitura do Recife. Saíram da área da saúde, porque foram barrados, e agora estão indo buscar financiamento na assistência social”, disse. “ Encontraram um terreno fértil justamente em um governo que na campanha ficou isento em relação a várias temáticas”, diz Isís.</p>



<p>A psicóloga e redutora de danos Alda Roberta Campos lembra que a cidade do Recife já foi considerada um exemplo em política sobre drogas, com a criação do programa Mais Vida, em 2003, na gestão do prefeito João Paulo. Durou até 2016, no início do governo de Geraldo Julio. “Foi feita a integração da política de saúde mental e álcool e outras drogas”, afirma. Hoje, enquanto as CTs recebem milhões da prefeitura, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) estão sucateados.</p>



<p>“As equipes estão adoecidas, precisam de suporte e supervisão. O jeito de um governo dizer que algo não funciona é sucateando. Se houver investimento, cuidado e interesse de fazer acontecer, dá certo. Práticas como o aluguel social, a reinserção no trabalho e o retorno à vida escolar, com um trabalho com equipe multidisciplinar, dão certo”, afirmou a psicóloga.</p>



<p>A ideia das Comunidades Terapêuticas foi criada pelo psiquiatra sul-africano Maxwell Jones, na década de 40. No Brasil, o termo foi apropriado há mais de 40 anos por setores evangélicos, que desvirtuaram o conceito. “Enquanto Jones pregava um substitutivo do hospital psiquiátrico, com a auto gestão e a valorização da escuta, no Brasil, as CTs se transformaram em manicômios renomados. Há uma mistura do que é tratamento e o que é missão religiosa, o que é um risco imenso. Dentro da Lei da Reforma Psiquiátrica há a desinstitucionalização e o que se vê nas CTs são pessoas trancafiadas por meses, muita LGBTIfobia e violação dos direitos humanos”, diz Alda.</p>



<p>Para se contrapor aos avanços das CTs, Alda defende um diálogo maior entre a sociedade civil, as organizações sociais e os governos, o fortalecimento dos conselhos e comitês da área de saúde mental, para que possam fiscalizar e monitorar as atividades dessas comunidades.</p>



<p>“Outra coisa importante é a necessidade de todos os serviços serem laicos. Na pandemia vimos os danos relacionados ao negacionismo, que ceifaram vidas. O governo de Pernambuco não pode repetir essa história e colocar na mão de negacionistas o cuidado com a vida das pessoas. É fundamental uma política de drogas no âmbito estadual. As CTs estão aí e não adianta fazer de conta que não existem. Há estudos, há comprovação científica de que o tratamento em liberdade, dentro do território, nos conceitos do Sistema Único de Saúde (SUS), é a solução para o tratamento do uso abusivo de drogas. As CTs precisam ser fiscalizadas”, afirmou.</p>



<p>A Marco Zero entrou em contato com o deputado pastor Cleiton Collins para saber porque ele propôs as mudanças na redação das atribuições da secretaria, mas não obteve retorno. A Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança, Juventude e Prevenção à Violência e às Drogas também foi questionada se haveria alguma mudança com a emenda, mas até o fechamento desta matéria não houve resposta.</p>



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		<title>Setembro Amarelo: desmonte do SUS no pós-golpe dificulta a prevenção ao suicídio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Sep 2020 19:30:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[golpe]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[Setembro Amarelo]]></category>
		<category><![CDATA[suicídio]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Cortes de R$ 20 bilhões no Sistema Único de Saúde (SUS), diminuição no volume de investimentos em saúde mental, queda no ritmo de abertura de novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e congelamento dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf). Essa é apenas uma fração da preocupante realidade brasileira do pós-golpe de 2016 [&#8230;]</p>
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<p>Cortes de <a href="https://marcozero.org/cortes-de-r-20-bilhoes-no-sus-do-pos-golpe-poem-em-xeque-controle-do-coronavirus-no-brasil/">R$ 20 bilhões</a> no Sistema Único de Saúde (SUS), diminuição no volume de investimentos em saúde mental, queda no ritmo de abertura de novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e congelamento dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf). Essa é apenas uma fração da preocupante realidade brasileira do pós-golpe de 2016 para lidar com os índices crescentes de suicídio no país &#8211; sobretudo entre a população negra e indígena -, e que se <a href="https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/41420/2/Cartilha_PrevencaoSuicidioPandemia.pdf">agravam por conta da pandemia</a> de Covid-19.</p>



<p>Neste Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre o tema, a <strong>Marco Zero Conteúdo</strong> mostra como o desmonte do SUS afeta as ações e os suportes de prevenção ao suicídio. Para piorar, a publicização de dados está cada vez menos transparente.</p>



<p>Ao mesmo tempo em que organismos internacionais emitem alertas e definem metas para redução de casos, o Brasil do governo ultraconservador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sucateia a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), incentiva a internação psiquiátrica e <a href="https://marcozero.org/o-jogo-politico-partidario-por-tras-das-comunidades-terapeuticas-em-pernambuco/">financia comunidades terapêuticas</a>, numa abordagem proibicionista de questões relacionadas a uso de álcool e outras drogas.</p>



<p>Enquanto os índices mundiais de suicídio caem, no Brasil eles crescem. Os dados mais recentes sobre o assunto publicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2019, mostram que o índice a cada 100 mil habitantes caiu 9,8% no mundo e cresceu 7% no Brasil entre os anos de 2010 e 2016.</p>



<p>Mesmo com a queda na média mundial de casos, os números ainda são bastante elevados. A OMS estima que 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos, sobretudo por enforcamento, envenenamento por pesticidas e uso de armas de fogo. Isso equivale a uma morte a cada 40 segundos.</p>



<p>No Brasil, foram registrados mais de 13 mil suicídios em 2016, segundo <a href="http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/julho/17/2019-014-Publicacao-02-07.pdf">boletim</a> do Ministério da Saúde publicado no ano passado. A média a cada 100 mil habitantes foi de 6,1 suicídios, sendo que, entre os homens, esse número foi muito maior &#8211; de 9,7 -, enquanto que, entre as mulheres, foi de 2,8. Homens jovens negros, entre 10 e 29 anos, são os mais afetados.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sucateamento da atenção básica</strong></h2>



<p>“Posso afirmar sem dúvida que vivemos o pior momento para a saúde mental no Brasil. Isso tem grave repercussão para a perspectiva do suicídio porque deixa as pessoas mais vulneráveis”, resume a terapeuta ocupacional e membra do Fórum de Trabalhadores e Trabalhadoras em Saúde Mental de Pernambuco Priscilla Viégas. Com experiência em Caps e também conselheira nacional de saúde e estadual de assistência social em Pernambuco, ela vincula essa realidade à pauperização da vida e à perda de direitos nos últimos anos.</p>



<p>Na prática, relata, o que se tem são serviços sendo desmontados e sucateados. Falta material e falta pessoal. Priscilla destaca que o quadro piorou na pandemia, quando, em vários municípios Brasil afora, a rede de saúde básica, feita nos territórios, foi desmontada e perdeu espaço para setores especializados ou hospitais de campanha. “As ações nos territórios são essenciais na prevenção ao suicídio e outras questões e no acompanhamento das pessoas. Esse vínculo é tudo. Os Caps, no entanto, ofertam pouco e não têm capacidade de articulação. Falta, por exemplo, carro para se deslocar e realizar um trabalho presencial preventivo”, detalha.</p>



<p>A política de assistência social está comprometida pelo sucateamento dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e dos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). São serviços que acolhem pessoas em situação de violência ou gente que perdeu o vínculo familiar, por exemplo.</p>



<p>A médica sanitarista Bernadete Perez, integrante da Rede Solidária em Defesa da Vida e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), defende que “o suporte tem que ser do tamanho da complexidade do problema”. A política de atenção precisa ser feita em rede, integrada nos territórios, por exemplo, à proteção social e ao suporte das escolas. É preciso haver um olhar ampliado para o sofrimento e para o apoio terapêutico, argumenta.</p>



<p>E isso não é possível de ser feito numa rede fragmentada, embora haja uma rede instituída. “Quem será a pessoa de referência para o acompanhamento terapêutico do caso para constituir um plano e um projeto terapêutico de longo prazo, que não é um ambulatório pontual com um medicamento que vai resolver um problema com dimensões subjetivas, sociais e biológicas?”, provoca.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um breve histórico recente</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">Quantidade de abertura de novos Caps vem caindo nos últimos anos. Crédito: Prefeitura de Farroupilha/RS</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>“O campo da atenção psicossocial no Brasil vive atualmente uma crise sem precedentes na história da reforma psiquiátrica”, afirmam pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro em <a href="https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1981-77462020000300509">artigo</a>. Nelson Falcão, Renata Weber e Pedro Gabriel Godinho compilaram normativas e documentos no trabalho intitulado “Retrocesso da reforma psiquiátrica: o desmonte da política nacional de saúde mental brasileira de 2016 a 2019”.</p>



<p>O que já não era ideal, entrou num processo acelerado após o golpe jurídico-parlamentar que tirou a presidenta Dilma Rousseff (PT) do poder. O ano de 2016 já chegou acompanhado da Emenda Constitucional 95/2016, publicada pelo então presidente Michel Temer (MDB), que congela por 20 anos os recursos em saúde e educação. Segundo um estudo da Comissão de Orçamento e Financiamento (Cofin) do Conselho Nacional de Saúde (CNS), o <a href="https://marcozero.org/cortes-de-r-20-bilhoes-no-sus-do-pos-golpe-poem-em-xeque-controle-do-coronavirus-no-brasil/">SUS já perdeu R$ 20 bilhões</a> desde então.</p>



<p>O impacto sobre os serviços comunitários de saúde mental desde 2016, quando o país ainda não havia atingido a cobertura necessária, pode ser sentido pela diminuição no ritmo de criação de novos Caps no país, mostra o artigo. Em 2015, a cobertura média de Caps, segundo os parâmetros adotados pelo Ministério da Saúde, era em torno de 70% das necessidades. Naquele ano, foram abertos 119 novos Caps no Brasil. Em 2018, só saíram do papel apenas 30 novos Centros.</p>



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	                                        <p class="m-0">Fonte: artigo UFRJ</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em 2019, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) instituiu a “Nova Política Nacional de Saúde Mental”, caracterizada pelo incentivo à internação psiquiátrica e pela ênfase no financiamento de comunidades terapêuticas com uma abordagem proibicionista e punitivista.</p>



<p>Em 2020, através de uma mera nota técnica <a href="https://www.conasems.org.br/wp-content/uploads/2020/01/NT-NASF-AB-e-Previne-Brasil.pdf">(nº3/2020)</a>, houve, na prática, a eliminação e invisibilização dos importantes Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf). Por meio do programa Previne Brasil, o governo determinou que não haverá novos cadastramentos de Nasf. Criado pelo Ministério da Saúde em 2008 para fortalecer a atenção básica através de apoio e consolidação, eles são compostos por equipes multissetoriais, com, por exemplo, psicólogo, psiquiatra, acupunturista, assistente social e arte educador.</p>



<p>Desde então, passou a caber aos secretários municipais e estaduais de saúde definirem quais profissionais entram ou não em uma equipe multiprofissional e sua carga horária mínima. Além disso, os gestores não precisam mais inserir o profissional do Nasf no Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (Cnes), o que os torna invisíveis na gestão pública.</p>



<p>Como alerta o psiquiatra, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e conselheiro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) Deivisson Viana, o Nasf é o único lugar em que, oficialmente, cabem psicólogos para apoio à saúde mental na atenção primária.</p>



<p>“Se não temos isso, não temos possibilidade de apoio aos médicos da família, o que reduz a capacidade de atendimento e é um contrassenso. Em países como Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia, os investimentos são maiores na atenção básica, porque atender mais casos reduz as internações, que são mais caras”, explica. O Brasil fez justamente o oposto aumentando o financiamento para leitos psiquiátricos.</p>



<h4 class="wp-block-heading">Comunidades terapêuticas</h4>



<p>Deivisson se mostra preocupado também com o crescimento do financiamento de comunidades terapêuticas, retirando verba de onde há eficácia comprovada na saúde mental e na prevenção ao suicídio. “Você transfere o dinheiro para equipamentos que não são nem de saúde nem têm eficácia comprovada. É a construção de uma política pública sem critério técnico nenhum”, avalia.</p>



<p>A previsão do governo federal é injetar R$ 153,7 milhões ao ano nesse tipo de assistência, que muitas vezes viola os direitos humanos e tem no isolamento, na prática religiosa e no trabalho forçado um caminho de atuação. São unidades, em sua maioria, instaladas em locais distantes dos centros urbanos, de difícil acesso, cercadas por muros, grades, portões e, algumas vezes, com vigilantes e punições, que vão de trabalho forçado a isolamento, em caso de fugas ou descumprimento de regras.</p>



<p>Muitas delas são promotoras de exclusão e de maus-tratos, veem na abstinência o único caminho possível, apostam na prática do proselitismo religioso e não é rara a imposição de uma rígida rotina de orações.</p>



<h4 class="wp-block-heading">Falta de transparência</h4>



<p>A obtenção de dados públicos é uma queixa constante entre pesquisadores da área de saúde mental. Deivison lembra que antes o Ministério da Saúde soltava e compilava dados como, por exemplo, número de Caps, leitos em hospitais gerais e residências terapêuticas. Agora quem mexe com dados federais vê que eles não são mais tão amigáveis. Muitas vezes é preciso fazer tudo manualmente e subentender informações, o que deixa as avaliações imprecisas, na opinião do professor.</p>



<p>Em dezembro, o Grupo de Trabalho (GT) Saúde Mental da Abrasco irá apresentar um documento com diversos pontos que mostram regressividade da saúde mental no Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Pandemia de saúde mental</strong></h4>



<p>Os cortes nos Nasf no início deste ano retiram a perspectiva de continuidade nos atendimentos, dificultando o fortalecimento da atenção primária, que é muito importante na atenção à prevenção ao suicídio, por ser um trabalho de proximidade, feito nos territórios e de porta aberta, explica a psiquiatra, professora de Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e médica de família Ana Carolina Pieretti. “A atenção primária está cada vez mais sobrecarregada e sem suporte”, lamenta.</p>



<p>Casos de tentativa de suicídio têm sido recorrentes durante a pandemia, segundo Ana, por causa do momento de maior vulnerabilidade, seja econômica ou por questões de perda e luto. Em duas semanas atuando num Caps na Zona Norte do Recife, a médica relata que a maior parte dos atendimentos que realizou foi por tentativa e ideação de suicídio. Ela avalia que o esgarçamento do tecido social dificulta a manutenção de apoio e estratégias de cuidado, com aumento dos transtornos mentais.</p>



<p>O uso de medicações controladas, como ansiolíticos e antidepressivos, também preocupa. Em diversos casos, realmente é necessário entrar com tratamentos farmacológicos, mas cada vez mais gente tem solicitado e os médicos têm prescrito os medicamentos de tarja preta. “Percebemos que, em paralelo, as pessoas deixam de ter outras formas de lidar com o sofrimento”, detalha Ana.</p>



<p>A médica acredita que vivemos, além do novo coronavírus, uma pandemia de saúde mental, que alguns chamam de “quarta onda”, alimentada por fragilidade, desamparo, isolamento, adoecimento pelo próprio isolamento, perdas, luto e falta de assistência em saúde.</p>
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		<title>Episódio #12: Está na hora de retomar a vida?</title>
		<link>https://marcozero.org/episodio-12-esta-na-hora-de-retomar-a-vida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2020 18:15:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[Pós-pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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<iframe title="Spotify Embed: Está na hora de retomar a vida?" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/1izA5YYShQB9SmZhvFHFQX?si=5DQRXtGIQXyXzpQ9xG16Zg&#038;utm_source=oembed"></iframe>
</div><figcaption>Depois de quatro meses de distanciamento social, uns já desistiram de ficar tanto tempo em casa e têm se arriscado em atividades não essenciais. Outros que ainda não fizeram, se perguntam diariamente se está na hora de retomar a vida. Será? Os especialistas pedem cautela e alertam que a pandemia ainda não acabou, mas também apontam a necessidade de cuidar da saúde mental. Neste episódio, Carol Monteiro, Lula Pinto e Laércio Portela discutem também as transformações positivas e negativas do mundo pós-pandemia.</figcaption></figure>
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		<title>Recuperados da Covid-19 contam histórias de dor e superação</title>
		<link>https://marcozero.org/recuperados-da-covid-19-contam-historias-de-dor-e-superacao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 May 2020 12:40:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[covid19]]></category>
		<category><![CDATA[recuperados]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[saúde pública]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta semana completa dois meses que os pernambucanos vivem assombrados pelo pior pesadelo da Covid-19. No dia 25 de março, o estado registrou a primeira morte e, até hoje, mais de duas mil pessoas perderam suas vidas. No mesmo período, outras 6.694 pessoas tiveram a doença e são consideradas recuperadas, segundo dados da Secretaria Estadual [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nesta semana completa dois meses que os pernambucanos vivem assombrados pelo pior pesadelo da Covid-19. No dia 25 de março, o estado registrou a primeira morte e, até hoje, mais de duas mil pessoas perderam suas vidas. No mesmo período, outras 6.694 pessoas tiveram a doença e são consideradas recuperadas, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. Os números positivos, no entanto, devem ser muito maiores uma vez que as estatísticas oficiais só registram a cura dos pacientes atendidos e testados em hospitais.</p>



<p>
A
dor da perda dos familiares e amigos dos que não resistiram é
imensa, mas a mesma intensidade tem a felicidade dos que se
recuperaram, alguns com memórias de sintomas leves e quase
imperceptíveis, outros com lembranças mais dolorosas dos incômodos
provocados pela Covid-19, mas todos com a certeza de que venceram a
maior batalha das suas vidas.</p>



<p>A Marco Zero conversou com quatro desses recuperados e ouviu relatos de medo, solidão e sofrimento físico, mas também de resiliência, fé e esperança. Hoje, estão em processo de recuperação e retomando suas atividades, mas são unânimes em pedir àqueles que podem: fiquem em casa.</p>



</br>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Senti medo de contaminar minha família, senti medo de morrer</strong></h2>



</br>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Crédito: Max Levay/Divulgação</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Foi durante uma live no dia 17 de abril que o músico Geraldinho Lins, 45 anos, desconfiou que estava contaminado. “Senti muita moleza e coriza durante o show que estava fazendo em casa. Quando terminei, já falei com um amigo médico que suspeitou ser Covid-19. Fiquei observando a evolução e, quando a febre começou, iniciei o tratamento com Azitromicina, orientado por ele”, explica.</p>



<p>O quadro clínico do cantor evoluiu para tosse, perda de paladar e olfato e muitas náuseas. “Fiquei acamado por quase 20 dias. A pessoa fica só a ´capa´, a sensação é que dentro não tem nada. Não sentia cheiro nem sabor, muitas dores. Se tocasse a música Cinco Sentidos, de Alceu Valença, eu seria menos três, porque até os olhos eram difíceis de abrir”, brinca.</p>



<p>A esposa e a filha de Geraldinho também tiveram a doença, numa forma mais leve. Para ele, a doença não é só física e provoca também sintomas psicológicos na forma de sentimentos assustadores. “Senti medo de contaminar minha família, senti medo de morrer. Desliguei o celular e não assisti mais noticiários. Fiz um esforço para pensar em coisas boas, rezei bastante e, nos dias que me sentia melhor, até conseguia ouvir uma música ou assistir a um filme para tentar não ficar tão baixo astral”, comenta.</p>



<p>Geraldinho não apresentou comprometimento pulmonar nem precisou de medicação após o período viral, mas perdeu amigos e se preocupa com o futuro. “Tenho medo, sim, de me contaminar novamente, não existem provas ainda que a pessoa que já teve a doença está imune. Continuamos com todos os cuidados como se ninguém tivesse tido aqui em casa”, explica.</p>



<p>Na volta à “vida normal”, o artista – um dos mais conhecidos nomes do forró pernambucano – tem retomado a agenda de shows através das redes sociais, mas expressa preocupação com o futuro da sua atividade profissional e, principalmente, com o sustento das 15 pessoas – entre músicos e técnicos – que o acompanham. “Sei que meu setor (shows e entretenimento) será um dos últimos a retomar as atividades mas tenho quebrado a cabeça diariamente para encontrar uma forma de manter o pagamento das pessoas”, garante. “O que mais dói é saber que tive e me recuperei, mas ver a tristeza que as pessoas estão passando nos hospitais e as que estão perdendo familiares e amigos, eu mesmo perdi um grande amigo. A gente está meio sem saída. É muito triste ver a falta de estrutura no Brasil, que não tem condições de acolher as pessoas por causa de um sistema de saúde falido”, comenta.  </p>



</br>



<h2 class="wp-block-heading"> <strong>Não parecia uma gripe e nunca tinha sentido nada parecido</strong></h2>



</br>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Aline Moura, jornalista. Crédito: Arquivo Pessoal</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>A tosse foi o primeiro sintoma a aparecer na jornalista Aline Moura, 45 anos. Por ser alérgica e fumante não valorizou o que estava sentindo. Vieram então, febre e moleza, que após responder as perguntas de um aplicativo de classificação de risco para pacientes com Covid-19 a levaram a procurar um médico.</p>



<p>“Tenho plano de saúde e procurei o hospital credenciado. Emergência cheia, aguardei 4 horas, com muita tosse, dor para respirar e febre. Recebi antitérmico e uma bombinha para aliviar os pulmões. Não fiz exame de sangue nem teste para Covid. O Raio X de pulmão não mostrava alteração e não ouvi nenhuma menção da médica sobre suspeita de Covid. Saí do hospital com um atestado médico de gripe e orientação para ficar reclusa em casa”, conta. Na receita médica, Azitromicina e Duovente N, um antibiótico utilizado para o tratamento da Covid-19 e um remédio usado para asma e bronquite.</p>



<p>Morando
em um apartamento pequeno dividido com o companheiro, Antonio Viola,
e a sogra de 73 anos, Sebastiana de Vasconcelos, que se recuperava de
um AVC (Acidente Vascular Cerebral), permaneceu isolada por
orientação médica.</p>



<p>Da
porta do quarto, de onde enfrentava falta de ar, dores, febre e
tosse, e com diagnóstico de gripe, no
dia 25 de abril, quatro dias após ter estado na emergência, Aline
assistiu dona Sebastiana ter uma forte falta de ar e ser socorrida.
Horas depois, Viola retornou para casa sozinho. Sebastiana não
resistiu ao que no hospital chamaram de Síndrome Respiratória Aguda
Grave. Essa foi a última vez que viu a sogra. Até a data da
entrevista o resultado do exame de Sebastiana não havia saído.</p>



<p>Convencida de que era Covid, a jornalista resolveu pagar pelo exame RT-PCR (do inglês <em>reverse-transcriptase polymerase chain reaction</em>). “Fiz porque não parecia uma gripe e nunca tinha sentido nada parecido, eu tossia sem parar, não tinha trégua”. Quatro dias úteis após pagar R$ 400,00 saiu o resultado positivo.</p>



<p>Muito mais que os sintomas físicos, os traumas vividos levaram Aline a procurar ajuda psiquiátrica. “Ainda tenho muito medo de ter sequelas e me contaminar porque não sei se podemos pegar novamente. Choro quando lembro de tudo que passei. Continuamos mantendo todos os cuidados de higiene quando saímos de casa e voltamos porque posso não ser transmissora, mas posso transportar o vírus pelas roupas e objetos”, explica.</p>



<p>Pouco mais de um mês depois, a tosse e a dificuldade para respirar ainda preocupam. “Essa semana fui ao pneumologista, que passou novos remédios e uma tomografia dos pulmões. Por isso é tão importante que as pessoas fiquem em casa, precisamos diminuir a velocidade de contaminação para que menos pessoas sofram e morram dessa doença”, finaliza.</p>



</br>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Atendida na sala vermelha e encaminhada para UTI</strong></h2>



</br>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Maria José em casa se recuperando. Crédito: Sônia Nascimento</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Maria José Nascimento tem 87 anos e também enfrentou a Covid-19. Mantendo distanciamento social desde março, a moradora de Sirinhaém, litoral sul do estado, começou com uma fraqueza e falta de apetite. Levada ao médico em sua cidade, não houve desconfiança sobre Covid. Com o quadro complicando os filhos resolveram trazê-la para o Recife. “Ela reclamava de muita dor de cabeça e cansaço, estava com tosse e repetia que sentia uma coisa ruim, uma coisa seca por dentro”, conta a filha Sônia.</p>



<p>Com o agravo dos sintomas Sônia ligou para o SAMU na tentativa de levá-la a um hospital, mas a resposta foi negativa. Por orientação conseguida por atendimento através de um aplicativo, a família recorreu à UPA de Barra de Jangada. “Ela foi atendida rapidamente e levada para a sala vermelha, onde ficam os casos mais graves. A saturação já estava em 80 e pelo resultado do Raio X dos pulmões já iniciaram o tratamento com antibióticos. No dia seguinte, fui avisada que ela seria transferida para uma UTI, foi quando a ficha caiu”, lembra Sônia.</p>



<p>Dois dias após dar entrada na UPA, Maria José foi transferida para o Hospital Boa Viagem. Encaminhada direto para a UTI, ela não receberia visitas. O teste para Covid foi feito e a família foi orientada a ficar no isolamento e aguardar notícias pelo celular.</p>



<p>“Foi
das piores sensações que senti. Ficava pensando se ela ia achar que
nós tínhamos abandonado ela dentro de um hospital. Era só isso que
passava na minha cabeça. A cada vez que o telefone tocava era um
susto”, conta a filha. Mesmo com tantas angustias, as notícias que
iam chegando diariamente eram animadoras. A internação durou 10
dias, sendo oito em UTI, mas ela não precisou ser sedada e entubada.

</p>



<p>Nos dias em que ficou hospitalizada, Maria José assistiu muita coisa. “Tinha horas que começava um barulho, os médicos passavam correndo, ia tudo para cima de um doente. Depois, quando eu olhava, ele estava todo coberto pelo lençol. Levavam embora aquela pessoa que tinha morrido e depois chegava outra para o lugar. Mesmo assim não senti medo, sou evangélica e conheci uma irmã na UTI e a gente evangelizava e cantava para todos”, conta.</p>



<p>A relação família-hospital, segundo Sônia relata, foi a melhor possível. “O tratamento foi excelente, não poderia ter sido melhor mesmo sendo pelo SUS. Os médicos, sempre que possível, eram disponíveis e claros nas respostas das minhas perguntas. A única coisa que acho que poderia ter sido melhor orientado são os procedimentos pós alta. Como não temos contato com o médico, recebemos o prontuário do paciente e a receita para medicação posterior, mas sem orientações sobre período de uso. Vou precisar levá-la novamente à UPA para saber o que fazer agora”, explica Sônia.</p>



<p>Perguntada sobre o que gostaria de fazer depois de curada, dona Maria José responde que quer mesmo é voltar para a casinha dela no interior e seguir a vida.</p>



<figure class="wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div><figcaption>Maria José cantando hino evangélico na UTI do Hospital Boa Viagem<br><br></figcaption></figure>



</br>



<h2 class="wp-block-heading">É algo surreal. Parece um filme</h2>



</br>



<p>As histórias de Geraldinho, Aline e Maria José &#8211; apesar do desfecho vitorioso &#8211; foram difíceis e deixaram más recordações nos ex-pacientes e em seus familiares, mas nenhuma batalha foi tão dura quanto a do comentarista esportivo Maciel Júnior, 52 anos, que há 33 dias trava uma guerra para se recuperar da doença. “Nunca fui sedentário e não tenho comorbidades, mesmo assim tive a doença na sua forma grave. Passei 24 dias no hospital, sendo 20 na UTI”, lembra.<br> <br>Maciel acredita ter se contaminado numa ida ao supermercado, mesmo mantendo os cuidados orientados pelas autoridades em saúde. &#8220;Me senti febril e tive também uma alta de pressão. Fui à emergência, recebi medicação para a pressão e receita de um anti-térmico e fui mandado de volta para casa. Poucos dias depois, senti falta de ar durante o banho, pedi ajuda ao meu filho e fui para o hospital. Neste dia, já fiquei internado”, conta.</p>



<p>Com o quadro clínico agravado, precisou ser entubado. Foram 11 dias em coma induzido, necessário para manter o paciente com a ventilação mecânica. “Minhas memórias desses dias em coma são como as de um sonho&#8221;,  conta. Em casa há nove dias, Maciel hoje está cercado do carinho dos familiares e dos vizinhos que prepararam uma grande recepção para sua volta para casa como mostra um vídeo emocionante que tem circulado nas redes sociais.<br> <br>As sequelas da doença até agora foram a perda de 16 quilos e muita massa muscular, além do comprometimento de cerca de 25% da capacidade pulmonar. Da rotina pós alta hospitalar permanecem os cuidados de higiene, a fisioterapia respiratória e física, a alimentação cuidadosa, a medicação e o dever de comunicar e orientar as pessoas para a gravidade da doença. <br> <br>“É uma doença que a gente só sabe o nome, não sabe o tratamento. O remédio que serve para mim pode não servir para outra pessoa. Então é fundamental que as pessoas fiquem em casa e não adoeçam ao mesmo tempo para não superlotar o sistema de saúde”, explica.</p>



<p> No vídeo abaixo, uma entrevista feita por videoconferência, onde Maciel fala sobre os traumas, solidariedade e cuidados. <br>  </p>



<figure class="wp-block-embed-youtube aligncenter wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p></p>



<p></p>



<p style="color:#ffffff" class="has-text-color">&lt;/br</p>



<p style="color:#ffffff" class="has-text-color"> br &gt;</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista com Fabiana Nascimento</strong> </h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Fabiana Nascimento é Psicóloga, Gestalt-terapeuta, especialista em casal e família</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você tem observado um número crescente de pessoas procurando terapia ou retornando ao processo após terem sido infectadas?</strong><br><br>Observo uma procura pelo processo terapêutico por pessoas com sintomas de ansiedade, angústia, ao perceberem mania de limpeza ou aceleração quando assistem a algum programa de TV e por estarem impressionadas com a doença. Muitas vezes a procura é pelo serviço de plantão. Também percebo o retorno à terapia daquelas pessoas infectadas e que haviam suspendido anteriormente as sessões na expectativa de que o distanciamento social fosse ser mais rápido e, com o passar do tempo e com a contaminação, retornaram, inclusive para trabalhar durante a doença o sentimento de muita insegurança, medo de morrer, de contaminar parentes, o que vem causando sofrimento maior.  </p>



<p><strong>Solidão por conta do isolamento e o medo de se contaminar novamente são sentimentos relevantes nesse momento pandêmico? Quais os impactos do distanciamento social nas pessoas em geral? </strong><br><br>Algumas pessoas que moravam só voltaram para a casa dos pais ou parentes, onde sentem-se mais seguros e menos sós. Já os idosos enfrentam a realidade de não poderem ir para a casa dos filhos e netos pelo aumento dos riscos de contaminação mas, ao mesmo tempo, eles têm uma capacidade de acomodação e compreensão da necessidade desse isolamento maior do que a dos mais jovens. Pessoas de humor muito instável, ou com histórico de vida mais denso, têm mais dificuldade porque o convívio social era sua fonte de energia, especialmente aqueles afastados da família e com poucas relações afetivas. O distanciamento social traz também os problemas de excesso de convivência. Antes, as pessoas se encontravam menos e, com todos em casa, começam a aflorar os atritos, as manias e a falta de privacidade. Isso gera os sintomas de instabilidade emocional, irritação, sufocamento, que são os aspectos negativos da convivência. É realmente um teste passar por esse distanciamento social, separados ou com todos em casa. Algumas famílias conseguem reorganizar e entender as necessidades individuais, outras não. Ao final desse processo assistiremos aproximações e afastamentos reais.<br><br><strong>Como você avalia o impacto emocional provocado pela Covid-19? Você acredita que pode evoluir para transtornos mais graves como depressão ou transtorno de ansiedade, por exemplo?</strong></p>



<p> Avalio que os impactos emocionais serão grandes, principalmente porque poderá levar muitas pessoas a processos depressivos e transtornos obsessivos. Muitas vezes os transtornos emocionais não são apenas dos que já passaram pela Covid-19, mas também daqueles que temem ter a doença. O medo de ser transmissor é muito grande e vem acontecendo dessas pessoas fantasiarem situações que não condizem com a realidade, provocando compulsões, obsessões, medos e uma ansiedade grande.  Essa somatização padece também o corpo e surgem sintomas de doenças psicossomáticas, baixando a imunidade, por exemplo.  Além da doença, ainda existem as preocupações com a perda da atividade laboral, pela crise financeira provocada pela pandemia que tem levado algumas pessoas a perderem o controle de si. Perceber que não se tem controle da situação, que é uma luta contra algo invisível e ter que encarar e se adaptar não é fácil, mexe com todo mundo. Pessoas que já tiveram a Covid-19 relatam, inclusive, que se sentiram nocivas ao outro, por não poderem ser tocadas ou acolhidas. Esse é um sentimento muito forte. Na nossa cultura, quando um filho adoece, a mãe cuida e vice-versa, mas dessa vez isso não pode acontecer. É tudo diferente do que estamos acostumados e desgastante para as relações humanas.<br><br><strong>Como tem sido a abordagem no atendimento a esses pacientes?</strong></p>



<p>Com suporte, apoio, escuta, acolhimento para os sentimentos virem à tona e podermos desmistificar algumas fantasias geradas e os excessos, uma vez que a pessoa ansiosa superdimensiona atitudes e sentimentos, por isso é tão importante uma boa escuta. Além de trabalhar para ampliação do campo de percepção da vida e do que realmente essa pessoa está vivendo, para que ela olhe para o contexto e reconheça a sua importância. Então, é uma atenção vigilante a cada passo, a cada sensação porque isso gera um estado de vulnerabilidade grande que, dependendo do histórico de cada um, não sabemos o que pode desencadear de mais grave.  <br><br><strong>Como as pessoas que tiveram a doença, ou mesmo as que não tiveram ainda, podem tentar manter a saúde mental nesse momento tão complicado?</strong><br><br>Não é tão simples manter a saúde mental em uma pandemia, afinal, é algo novo que a maioria nunca lidou. Vai depender muito do jeito de ser de cada pessoa, dos valores e princípios, dos suportes, da experiência de vida de cada indivíduo. Os mais maduros tendem a ter uma capacidade de resiliência maior e de criar formas de compreensão, percepção e adaptação mais facilmente. As mais imaturas, as mais sensíveis, precisam buscar esse equilíbrio através de algo que lhes dê suporte, que pode ser através de estímulos de pessoas do convívio, de leitura, buscando coisas que lhes deixem tranquilos, resgatando, inclusive, atividades que lhe faziam bem. A situação pede também aproveitar a tecnologia para manter-se em contato com os outros, utilizar jogos eletrônicos e assistir filmes, resgatar hábitos tradicionais ou desenvolvê-los, como cozinhar, todas essas coisas são importantes para que a pessoa sinta que está construindo algo, está sendo produtivo. O autocuidado também é importante. É você se olhar e perguntar o que queria mudar em si e por falta de tempo ou outras questões não tinha feito e aproveitar o momento para ser melhor, desenvolvendo a capacidade de autocrítica, autoconhecimento na intenção de buscar sentimentos melhores.<br><br><strong>E para os que perderam parentes e amigos?</strong></p>



<p>O processo de luto chega devagar. É um processo lento que requer passar por todas as datas no ano seguinte, rememorar, mas o luto de perder uma pessoa numa pandemia é diferente, porque não há o rito de passagem, não há despedida, não há a possibilidade de estar do lado do outro cuidando, não pode haver a despedida com a visualização do corpo. Isso quebra o ritual de luto e aceitação de que aquela pessoa morreu, principalmente por não poder ver o corpo. Na pandemia, recebe-se a notícia da morte, sem velório ou de forma muito rápida, mas sem receber o acolhimento dos amigos e familiares. É um momento em que até o rito do enterro ou cremação é solitário. Por isso tudo é indicado o acompanhamento psicológico e, algumas vezes, psiquiátrico. 

</p>



<p></p>
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		<title>O esforço de filhos e netos para manter os idosos em casa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Mar 2020 18:40:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[idosos]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tem sido difícil convencer os mais velhos a ficarem em casa durante a pandemia do coronavírus. Filhos e netos vêm gastando saliva, mirabolando ideias e se desentendendo com pais e avós na missão de explicar a necessidade do isolamento. “Ah, mas eu sou uma pessoa de fé em Deus”, “Vou só ali rapidinho e já [&#8230;]</p>
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<p>Tem sido difícil convencer os mais velhos a ficarem em casa durante a pandemia do coronavírus. Filhos e netos vêm gastando saliva, mirabolando ideias e se desentendendo com pais e avós na missão de explicar a necessidade do isolamento.</p>



<p>“Ah, mas eu sou uma pessoa de fé em Deus”, “Vou só ali rapidinho e já volto” ou “Você acha que vou passar meses sem ver meus netos?” são algumas das frases mais ouvidas pelos mais jovens em casa. Isso sem contar o silenciamento e as saídas escondidas.</p>



<p>Uma pesquisa do instituto francês Ipsos em 12 países mostrou que, no final de fevereiro, 80% dos italianos “acreditavam fortemente” que a mídia exagerava no impacto da doença. Em duas semanas, quando o número de casos passou a crescer assustadoramente, esse percentual caiu para 29%. Esses números mostram como a ficha da maioria das pessoas demorou a cair.</p>



<p>“Minha mãe, de 64 anos, continua saindo. Esses dias quando acordei, ela já tinha ido e voltado da padaria. Mas pendurou um terço na porta para se proteger”, conta uma leitora da <strong>Marco Zero</strong>.</p>



<p>“Lá em casa a situação é difícil porque meus pais têm mais de 70 anos, ela é diabética e hipertensa e ele é cardiopata. Já sabemos de todos os procedimentos há um tempo porque meu irmão mora em Madri. Mas não foi suficiente. Não sei se é um processo de negação ou se eles seguem a linha do ‘Não vamos nos desesperar, não é pra isso tudo’. Percebemos um silenciamento muito grande”, relata um outro leitor.</p>



<p>“Eles estão saindo para resolver coisas. Não têm internet banking, não sabem trabalhar na web. Meu pai trabalha com tradução, não tem manejo com tecnologia, não tem impressora em casa”, detalha.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Autonomia e rotina</h2>



<p>“Os mais velhos dão as normas, não recebem as normas”. Essa é uma das explicações da psicóloga Patrícia Raquel Barbosa, especialista em análise bioenergética e arteterapeuta em formação, sobre o porquê da resistência, sobretudo daqueles que têm renda ou aposentadoria própria e vivem de forma mais independente.</p>



<p>“O enrijecimento é natural e, para os mais velhos, é mais difícil sair da rotina e lidar com o novo”, explica Larissa Vieira, psiquiatra. “Já é difícil para todos lidar com o isolamento e a cartela de opções fica mais restrita para os idosos que não fazem uso da tecnologia”.</p>



<p>“Muitas vezes é revoltante para esses idosos tirá-los a autonomia e criar uma situação de dependência, porque eles não podem sair para pagar uma conta nem ir ao mercado, por exemplo. Sabemos que nem os idosos passaram por uma situação como essa. Tudo é muito novo e os mais velhos têm na cabeça que já viveram muito, têm muita experiência de vida e que não devem entrar nessa. E aí terminam também por não acreditarem muito e entram nessa resistência de não querer se submeter a uma norma que venha de fora”, complementa Patrícia.</p>



<p>O processo de conscientização muitas vezes envolve uma relação de poder, observa.</p>



<p>Há também um recorte de classe nesse cenário. Os idosos que contam com uma pequena renda ou uma pequena aposentadoria não costumam ter uma segunda opção para se sustentar e se sustentar o restante da família. Por isso não conseguem parar de trabalhar ou de gerir a casa.</p>



<p>Para os homens a aceitação também pode ser mais difícil por causa da masculinidade, do homem super poderoso, corajoso, que tudo tudo enfrenta.</p>



<p>Além disso, quanto mais velha a pessoa, mais trabalhada tende a ficar a questão da fé para quem é religioso.</p>



<p>A preocupação do enclausuramento dos idosos se torna também o adoecimento mental, para que a mudança de rotina não gere somatizações e fragilize a imunidade. Esse momento exige então muita empatia, como indica Patrícia e Larissa. </p>



<p>“São pessoas com idade já avançada, história de vida longa, com suas construções emocionais, de personalidade, de vida. Desconstruir isso é difícil. Então a juventude se colocar nesse lugar é muito importante”, aconselha a psicóloga.</p>



<p>Em vez de bater de frente, é preciso entender e pensar como ajudar a contornar, avalia Larissa. Ela acredita que o melhor caminho é o da compreensão e do diálogo, em vez de imposição. </p>



<p>“É preciso ouvir, entender e respeitar. E aí colocar os argumentos num lugar de conciliação em relação às novas rotinas. Tentar trazer as novas informações conversando e respeitando as convicções de cada um, com muito amor e paciência”, diz.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Humor e filosofia </h3>



<p>Perto de completar 91 anos, a artista plástica Tereza Costa Rego, já vive a quarentena desde janeiro. Recuperando-se de uma queda que lhe custou fissuras na coluna, desde então ela está a casa da filha e convive com um colete cervical, mas continua pintando pequenos fragmentos de quadro.</p>



<p>Com a tranquilidade que não terá a rotina alterada mais do que já foi, ela resume com um misto de bom humor e filosofia a resistência dos idosos em ficar em casa:</p>



<p>&#8220;Talvez seja porque, quando a pessoa passa dos 90 anos, como eu, perde a fé nos micróbios. Só pode ser isso&#8221;.</p>
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