Nesta semana completa dois meses que os pernambucanos vivem assombrados pelo pior pesadelo da Covid-19. No dia 25 de março, o estado registrou a primeira morte e, até hoje, mais de duas mil pessoas perderam suas vidas. No mesmo período, outras 6.694 pessoas tiveram a doença e são consideradas recuperadas, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. Os números positivos, no entanto, devem ser muito maiores uma vez que as estatísticas oficiais só registram a cura dos pacientes atendidos e testados em hospitais.

A dor da perda dos familiares e amigos dos que não resistiram é imensa, mas a mesma intensidade tem a felicidade dos que se recuperaram, alguns com memórias de sintomas leves e quase imperceptíveis, outros com lembranças mais dolorosas dos incômodos provocados pela Covid-19, mas todos com a certeza de que venceram a maior batalha das suas vidas.

A Marco Zero conversou com quatro desses recuperados e ouviu relatos de medo, solidão e sofrimento físico, mas também de resiliência, fé e esperança. Hoje, estão em processo de recuperação e retomando suas atividades, mas são unânimes em pedir àqueles que podem: fiquem em casa.


Senti medo de contaminar minha família, senti medo de morrer


Crédito: Max Levay/Divulgação

Foi durante uma live no dia 17 de abril que o músico Geraldinho Lins, 45 anos, desconfiou que estava contaminado. “Senti muita moleza e coriza durante o show que estava fazendo em casa. Quando terminei, já falei com um amigo médico que suspeitou ser Covid-19. Fiquei observando a evolução e, quando a febre começou, iniciei o tratamento com Azitromicina, orientado por ele”, explica.

O quadro clínico do cantor evoluiu para tosse, perda de paladar e olfato e muitas náuseas. “Fiquei acamado por quase 20 dias. A pessoa fica só a ´capa´, a sensação é que dentro não tem nada. Não sentia cheiro nem sabor, muitas dores. Se tocasse a música Cinco Sentidos, de Alceu Valença, eu seria menos três, porque até os olhos eram difíceis de abrir”, brinca.

A esposa e a filha de Geraldinho também tiveram a doença, numa forma mais leve. Para ele, a doença não é só física e provoca também sintomas psicológicos na forma de sentimentos assustadores. “Senti medo de contaminar minha família, senti medo de morrer. Desliguei o celular e não assisti mais noticiários. Fiz um esforço para pensar em coisas boas, rezei bastante e, nos dias que me sentia melhor, até conseguia ouvir uma música ou assistir a um filme para tentar não ficar tão baixo astral”, comenta.

Geraldinho não apresentou comprometimento pulmonar nem precisou de medicação após o período viral, mas perdeu amigos e se preocupa com o futuro. “Tenho medo, sim, de me contaminar novamente, não existem provas ainda que a pessoa que já teve a doença está imune. Continuamos com todos os cuidados como se ninguém tivesse tido aqui em casa”, explica.

Na volta à “vida normal”, o artista – um dos mais conhecidos nomes do forró pernambucano – tem retomado a agenda de shows através das redes sociais, mas expressa preocupação com o futuro da sua atividade profissional e, principalmente, com o sustento das 15 pessoas – entre músicos e técnicos – que o acompanham. “Sei que meu setor (shows e entretenimento) será um dos últimos a retomar as atividades mas tenho quebrado a cabeça diariamente para encontrar uma forma de manter o pagamento das pessoas”, garante. “O que mais dói é saber que tive e me recuperei, mas ver a tristeza que as pessoas estão passando nos hospitais e as que estão perdendo familiares e amigos, eu mesmo perdi um grande amigo. A gente está meio sem saída. É muito triste ver a falta de estrutura no Brasil, que não tem condições de acolher as pessoas por causa de um sistema de saúde falido”, comenta.


Não parecia uma gripe e nunca tinha sentido nada parecido


Aline Moura, jornalista. Crédito: Arquivo Pessoal

A tosse foi o primeiro sintoma a aparecer na jornalista Aline Moura, 45 anos. Por ser alérgica e fumante não valorizou o que estava sentindo. Vieram então, febre e moleza, que após responder as perguntas de um aplicativo de classificação de risco para pacientes com Covid-19 a levaram a procurar um médico.

“Tenho plano de saúde e procurei o hospital credenciado. Emergência cheia, aguardei 4 horas, com muita tosse, dor para respirar e febre. Recebi antitérmico e uma bombinha para aliviar os pulmões. Não fiz exame de sangue nem teste para Covid. O Raio X de pulmão não mostrava alteração e não ouvi nenhuma menção da médica sobre suspeita de Covid. Saí do hospital com um atestado médico de gripe e orientação para ficar reclusa em casa”, conta. Na receita médica, Azitromicina e Duovente N, um antibiótico utilizado para o tratamento da Covid-19 e um remédio usado para asma e bronquite.

Morando em um apartamento pequeno dividido com o companheiro, Antonio Viola, e a sogra de 73 anos, Sebastiana de Vasconcelos, que se recuperava de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), permaneceu isolada por orientação médica.

Da porta do quarto, de onde enfrentava falta de ar, dores, febre e tosse, e com diagnóstico de gripe, no dia 25 de abril, quatro dias após ter estado na emergência, Aline assistiu dona Sebastiana ter uma forte falta de ar e ser socorrida. Horas depois, Viola retornou para casa sozinho. Sebastiana não resistiu ao que no hospital chamaram de Síndrome Respiratória Aguda Grave. Essa foi a última vez que viu a sogra. Até a data da entrevista o resultado do exame de Sebastiana não havia saído.

Convencida de que era Covid, a jornalista resolveu pagar pelo exame RT-PCR (do inglês reverse-transcriptase polymerase chain reaction). “Fiz porque não parecia uma gripe e nunca tinha sentido nada parecido, eu tossia sem parar, não tinha trégua”. Quatro dias úteis após pagar R$ 400,00 saiu o resultado positivo.

Muito mais que os sintomas físicos, os traumas vividos levaram Aline a procurar ajuda psiquiátrica. “Ainda tenho muito medo de ter sequelas e me contaminar porque não sei se podemos pegar novamente. Choro quando lembro de tudo que passei. Continuamos mantendo todos os cuidados de higiene quando saímos de casa e voltamos porque posso não ser transmissora, mas posso transportar o vírus pelas roupas e objetos”, explica.

Pouco mais de um mês depois, a tosse e a dificuldade para respirar ainda preocupam. “Essa semana fui ao pneumologista, que passou novos remédios e uma tomografia dos pulmões. Por isso é tão importante que as pessoas fiquem em casa, precisamos diminuir a velocidade de contaminação para que menos pessoas sofram e morram dessa doença”, finaliza.


Atendida na sala vermelha e encaminhada para UTI


Maria José em casa se recuperando. Crédito: Sônia Nascimento

Maria José Nascimento tem 87 anos e também enfrentou a Covid-19. Mantendo distanciamento social desde março, a moradora de Sirinhaém, litoral sul do estado, começou com uma fraqueza e falta de apetite. Levada ao médico em sua cidade, não houve desconfiança sobre Covid. Com o quadro complicando os filhos resolveram trazê-la para o Recife. “Ela reclamava de muita dor de cabeça e cansaço, estava com tosse e repetia que sentia uma coisa ruim, uma coisa seca por dentro”, conta a filha Sônia.

Com o agravo dos sintomas Sônia ligou para o SAMU na tentativa de levá-la a um hospital, mas a resposta foi negativa. Por orientação conseguida por atendimento através de um aplicativo, a família recorreu à UPA de Barra de Jangada. “Ela foi atendida rapidamente e levada para a sala vermelha, onde ficam os casos mais graves. A saturação já estava em 80 e pelo resultado do Raio X dos pulmões já iniciaram o tratamento com antibióticos. No dia seguinte, fui avisada que ela seria transferida para uma UTI, foi quando a ficha caiu”, lembra Sônia.

Dois dias após dar entrada na UPA, Maria José foi transferida para o Hospital Boa Viagem. Encaminhada direto para a UTI, ela não receberia visitas. O teste para Covid foi feito e a família foi orientada a ficar no isolamento e aguardar notícias pelo celular.

“Foi das piores sensações que senti. Ficava pensando se ela ia achar que nós tínhamos abandonado ela dentro de um hospital. Era só isso que passava na minha cabeça. A cada vez que o telefone tocava era um susto”, conta a filha. Mesmo com tantas angustias, as notícias que iam chegando diariamente eram animadoras. A internação durou 10 dias, sendo oito em UTI, mas ela não precisou ser sedada e entubada.

Nos dias em que ficou hospitalizada, Maria José assistiu muita coisa. “Tinha horas que começava um barulho, os médicos passavam correndo, ia tudo para cima de um doente. Depois, quando eu olhava, ele estava todo coberto pelo lençol. Levavam embora aquela pessoa que tinha morrido e depois chegava outra para o lugar. Mesmo assim não senti medo, sou evangélica e conheci uma irmã na UTI e a gente evangelizava e cantava para todos”, conta.

A relação família-hospital, segundo Sônia relata, foi a melhor possível. “O tratamento foi excelente, não poderia ter sido melhor mesmo sendo pelo SUS. Os médicos, sempre que possível, eram disponíveis e claros nas respostas das minhas perguntas. A única coisa que acho que poderia ter sido melhor orientado são os procedimentos pós alta. Como não temos contato com o médico, recebemos o prontuário do paciente e a receita para medicação posterior, mas sem orientações sobre período de uso. Vou precisar levá-la novamente à UPA para saber o que fazer agora”, explica Sônia.

Perguntada sobre o que gostaria de fazer depois de curada, dona Maria José responde que quer mesmo é voltar para a casinha dela no interior e seguir a vida.

Maria José cantando hino evangélico na UTI do Hospital Boa Viagem


É algo surreal. Parece um filme


As histórias de Geraldinho, Aline e Maria José – apesar do desfecho vitorioso – foram difíceis e deixaram más recordações nos ex-pacientes e em seus familiares, mas nenhuma batalha foi tão dura quanto a do comentarista esportivo Maciel Júnior, 52 anos, que há 33 dias trava uma guerra para se recuperar da doença. “Nunca fui sedentário e não tenho comorbidades, mesmo assim tive a doença na sua forma grave. Passei 24 dias no hospital, sendo 20 na UTI”, lembra.

Maciel acredita ter se contaminado numa ida ao supermercado, mesmo mantendo os cuidados orientados pelas autoridades em saúde. “Me senti febril e tive também uma alta de pressão. Fui à emergência, recebi medicação para a pressão e receita de um anti-térmico e fui mandado de volta para casa. Poucos dias depois, senti falta de ar durante o banho, pedi ajuda ao meu filho e fui para o hospital. Neste dia, já fiquei internado”, conta.

Com o quadro clínico agravado, precisou ser entubado. Foram 11 dias em coma induzido, necessário para manter o paciente com a ventilação mecânica. “Minhas memórias desses dias em coma são como as de um sonho”, conta. Em casa há nove dias, Maciel hoje está cercado do carinho dos familiares e dos vizinhos que prepararam uma grande recepção para sua volta para casa como mostra um vídeo emocionante que tem circulado nas redes sociais.

As sequelas da doença até agora foram a perda de 16 quilos e muita massa muscular, além do comprometimento de cerca de 25% da capacidade pulmonar. Da rotina pós alta hospitalar permanecem os cuidados de higiene, a fisioterapia respiratória e física, a alimentação cuidadosa, a medicação e o dever de comunicar e orientar as pessoas para a gravidade da doença.

“É uma doença que a gente só sabe o nome, não sabe o tratamento. O remédio que serve para mim pode não servir para outra pessoa. Então é fundamental que as pessoas fiquem em casa e não adoeçam ao mesmo tempo para não superlotar o sistema de saúde”, explica.

No vídeo abaixo, uma entrevista feita por videoconferência, onde Maciel fala sobre os traumas, solidariedade e cuidados.

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Entrevista com Fabiana Nascimento

Fabiana Nascimento é Psicóloga, Gestalt-terapeuta, especialista em casal e família

Você tem observado um número crescente de pessoas procurando terapia ou retornando ao processo após terem sido infectadas?

Observo uma procura pelo processo terapêutico por pessoas com sintomas de ansiedade, angústia, ao perceberem mania de limpeza ou aceleração quando assistem a algum programa de TV e por estarem impressionadas com a doença. Muitas vezes a procura é pelo serviço de plantão. Também percebo o retorno à terapia daquelas pessoas infectadas e que haviam suspendido anteriormente as sessões na expectativa de que o distanciamento social fosse ser mais rápido e, com o passar do tempo e com a contaminação, retornaram, inclusive para trabalhar durante a doença o sentimento de muita insegurança, medo de morrer, de contaminar parentes, o que vem causando sofrimento maior.

Solidão por conta do isolamento e o medo de se contaminar novamente são sentimentos relevantes nesse momento pandêmico? Quais os impactos do distanciamento social nas pessoas em geral?

Algumas pessoas que moravam só voltaram para a casa dos pais ou parentes, onde sentem-se mais seguros e menos sós. Já os idosos enfrentam a realidade de não poderem ir para a casa dos filhos e netos pelo aumento dos riscos de contaminação mas, ao mesmo tempo, eles têm uma capacidade de acomodação e compreensão da necessidade desse isolamento maior do que a dos mais jovens. Pessoas de humor muito instável, ou com histórico de vida mais denso, têm mais dificuldade porque o convívio social era sua fonte de energia, especialmente aqueles afastados da família e com poucas relações afetivas. O distanciamento social traz também os problemas de excesso de convivência. Antes, as pessoas se encontravam menos e, com todos em casa, começam a aflorar os atritos, as manias e a falta de privacidade. Isso gera os sintomas de instabilidade emocional, irritação, sufocamento, que são os aspectos negativos da convivência. É realmente um teste passar por esse distanciamento social, separados ou com todos em casa. Algumas famílias conseguem reorganizar e entender as necessidades individuais, outras não. Ao final desse processo assistiremos aproximações e afastamentos reais.

Como você avalia o impacto emocional provocado pela Covid-19? Você acredita que pode evoluir para transtornos mais graves como depressão ou transtorno de ansiedade, por exemplo?

Avalio que os impactos emocionais serão grandes, principalmente porque poderá levar muitas pessoas a processos depressivos e transtornos obsessivos. Muitas vezes os transtornos emocionais não são apenas dos que já passaram pela Covid-19, mas também daqueles que temem ter a doença. O medo de ser transmissor é muito grande e vem acontecendo dessas pessoas fantasiarem situações que não condizem com a realidade, provocando compulsões, obsessões, medos e uma ansiedade grande. Essa somatização padece também o corpo e surgem sintomas de doenças psicossomáticas, baixando a imunidade, por exemplo. Além da doença, ainda existem as preocupações com a perda da atividade laboral, pela crise financeira provocada pela pandemia que tem levado algumas pessoas a perderem o controle de si. Perceber que não se tem controle da situação, que é uma luta contra algo invisível e ter que encarar e se adaptar não é fácil, mexe com todo mundo. Pessoas que já tiveram a Covid-19 relatam, inclusive, que se sentiram nocivas ao outro, por não poderem ser tocadas ou acolhidas. Esse é um sentimento muito forte. Na nossa cultura, quando um filho adoece, a mãe cuida e vice-versa, mas dessa vez isso não pode acontecer. É tudo diferente do que estamos acostumados e desgastante para as relações humanas.

Como tem sido a abordagem no atendimento a esses pacientes?

Com suporte, apoio, escuta, acolhimento para os sentimentos virem à tona e podermos desmistificar algumas fantasias geradas e os excessos, uma vez que a pessoa ansiosa superdimensiona atitudes e sentimentos, por isso é tão importante uma boa escuta. Além de trabalhar para ampliação do campo de percepção da vida e do que realmente essa pessoa está vivendo, para que ela olhe para o contexto e reconheça a sua importância. Então, é uma atenção vigilante a cada passo, a cada sensação porque isso gera um estado de vulnerabilidade grande que, dependendo do histórico de cada um, não sabemos o que pode desencadear de mais grave.

Como as pessoas que tiveram a doença, ou mesmo as que não tiveram ainda, podem tentar manter a saúde mental nesse momento tão complicado?

Não é tão simples manter a saúde mental em uma pandemia, afinal, é algo novo que a maioria nunca lidou. Vai depender muito do jeito de ser de cada pessoa, dos valores e princípios, dos suportes, da experiência de vida de cada indivíduo. Os mais maduros tendem a ter uma capacidade de resiliência maior e de criar formas de compreensão, percepção e adaptação mais facilmente. As mais imaturas, as mais sensíveis, precisam buscar esse equilíbrio através de algo que lhes dê suporte, que pode ser através de estímulos de pessoas do convívio, de leitura, buscando coisas que lhes deixem tranquilos, resgatando, inclusive, atividades que lhe faziam bem. A situação pede também aproveitar a tecnologia para manter-se em contato com os outros, utilizar jogos eletrônicos e assistir filmes, resgatar hábitos tradicionais ou desenvolvê-los, como cozinhar, todas essas coisas são importantes para que a pessoa sinta que está construindo algo, está sendo produtivo. O autocuidado também é importante. É você se olhar e perguntar o que queria mudar em si e por falta de tempo ou outras questões não tinha feito e aproveitar o momento para ser melhor, desenvolvendo a capacidade de autocrítica, autoconhecimento na intenção de buscar sentimentos melhores.

E para os que perderam parentes e amigos?

O processo de luto chega devagar. É um processo lento que requer passar por todas as datas no ano seguinte, rememorar, mas o luto de perder uma pessoa numa pandemia é diferente, porque não há o rito de passagem, não há despedida, não há a possibilidade de estar do lado do outro cuidando, não pode haver a despedida com a visualização do corpo. Isso quebra o ritual de luto e aceitação de que aquela pessoa morreu, principalmente por não poder ver o corpo. Na pandemia, recebe-se a notícia da morte, sem velório ou de forma muito rápida, mas sem receber o acolhimento dos amigos e familiares. É um momento em que até o rito do enterro ou cremação é solitário. Por isso tudo é indicado o acompanhamento psicológico e, algumas vezes, psiquiátrico.