Crédito: Coletivo Viva JK

Por Bárbara Buril*

Nenhuma forma de sofrimento deveria ser vista em chave pedagógica. Por mais que possamos aprender algo com as catástrofes, trata-se apenas de uma possibilidade de aprendizado. Os sofrimentos que a humanidade carrega nas costas após anos de escravidão, décadas de totalitarismo e genocídios os mais diversos não nos impediram de ainda praticar a escravidão, mesmo que em outras formas, nem de defender torturadores, tampouco de ir às ruas para pedir a volta da ditadura. Os exemplos da história nos mostram que o sofrimento nos ensina muito pouco. Contudo, não deveríamos ver o sofrimento em chave pedagógica não porque todo sofrimento é injustificável, é ultrajante, é violento e, por isso, não pode ser motivo de pedagogia, como defendeu o filósofo Geoffroy de Lagasnerie em uma postagem na sua página no Facebook. Na minha opinião, não podemos ver o sofrimento em chave pedagógica porque simplesmente não é possível fazê-lo: os exemplos da história nos mostram que temos muita dificuldade em aprender com o sofrimento. Também discordo do argumento  de Lagasnerie de que o ultraje de um sofrimento deveria impedi-lo de ser visto pedagogicamente, em uma interpretação moralizante. Se não fomos capazes de evitá-los, que ao menos tenhamos a liberdade de tentarmos aprender algo com eles.

No entanto, embora seja infrutífero falar do potencial pedagógico desta pandemia, uma vez que os exemplos da história nos mostram que os sofrimentos parecem nos ensinar muito pouco, acredito que podemos, ao menos, conceder à pandemia um poder revelatório. Refiro-me aqui ao fato de que, se a pandemia não vai nos ensinar nada posteriormente (ou muito pouco), certamente ela já nos revela agora, em luz neon, aspectos de nossa forma de vida que não víamos muito bem quando a vida funcionava em “modo normal”. Paradoxalmente, é só agora, em uma situação de exceção, que podemos perceber a forma, o calibre e a densidade da vida que levávamos há até pouco tempo. Foi só com a suspensão das rotinas que pudemos, enfim, enxergá-las – e com tudo o que elas significam para nós. 

Embora haja uma variedade de textos hoje dedicados a refletir sobre algum aspecto revelatório da pandemia – a necessidade de um Estado de bem-estar social, a importância da luta contra a desigualdade, a urgência de pararmos de consumir carne, para citar alguns exemplos –, acredito que o fato principal revelado por ela é como a vida em sociedade nos é necessária em nível psíquico. Parece óbvio, mas não é, porque até pouco tempo estávamos administrando o nosso tempo para harmonizar as nossas buscas individuais com a necessidade aparentemente socialmente imposta de encontrarmos pessoas. Como se o social não fosse uma necessidade profundamente nossa. Como se as pessoas funcionassem como decoração de uma paisagem espelhada onde o que vemos apenas são reflexos repetidos de quem somos: eu, eu e eu. Como se o outro fosse um obstáculo, e não a condição de possibilidade de realização. Como se fôssemos mesmo muito bons e muito fodas para não precisarmos de ninguém (Não é por acaso que o livro Seja Foda!, de Caio Carneiro, é um best-seller. Ele fala sobre o nosso tempo).

Um artigo muito interessante publicado no The Atlantic, intitulado Why You Never See Your Friends Anymore, mostra que está cada dia mais difícil encontrar os nossos amigos. Não por falta de dinheiro ou de transporte público, mas porque simplesmente não temos espaço, na nossa rotina, para aquilo que ultrapassa as nossas buscas individuais de realização individual. Infelizmente, encontrar amigos não parece, na nossa sociedade, integrar este projeto normativo de felicidade. A nossa forma de vida nos diz de modos indiretos, pela tangente, de modo subliminar, mas nem sempre, que o tempo que dedicamos a um outro deve ser compreendido como uma perda de tempo.

Assim, o que esta pandemia nos revela é que aquilo que tentávamos “encaixar” como figurantes ou objetos decorativos, em nossa rotina insana de busca pela realização de nós mesmo, é justamente aquilo que estrutura a nossa existência, de modo muito profundo, psiquicamente. Querem nos fazer acreditar que somos suficientes para nós mesmos ou que, no máximo, a família nos é suficiente, mas é só uma pandemia como esta nos obrigar a ficarmos confinados em casa, em família, para vermos como as pequenas e grandes trocas com amigos, colegas de  trabalho e senhores da vendinha nos eram vitais. 

Esta “falta de gente” de que padecemos nos revela muitas coisas. A primeira delas é que esta forma familiar burguesa nos é insuficiente. Há pessoas isoladas que certamente estão pensando que agora, em família ou pelo menos em casal, seria mais fácil. Talvez sim, mas certamente não seria muito mais satisfatório. Quem está acompanhado agora sabe que a família não dá conta das nossas necessidades amplas e diversificadas do outro, em sua rica alteridade, seja ela agradável ou perturbadora, mas certamente rica. O isolamento de uma vida individualista, restrita à família burguesa, nos torna empobrecidos. 

Um segundo aspecto deste sentimento de “falta de gente” é que ele revela como o trabalho se tornou central nas nossas vidas. Refiro-me aqui, desta vez, não ao aspecto produtivo do trabalho, mas ao relacional. O home office não supre a riqueza relacional que oferece o trabalho realizado na firma, no escritório, no consultório. Neste sentido, temos uma rica rede de amizades, de companheirismo ou, ao menos, de afinidades em um ambiente de produção que se revela como mais do que isso. O trabalho é mais do que o trabalho. O trabalho, feliz ou infelizmente, compõe a nossa vida afetiva.

Esta pandemia nos revela como as pequenas e grandes trocas relacionais do dia nos eram psiquicamente vitais. Mesmo quando tentávamos viver segundo um imperativo individualista psiquicamente empobrecedor, não o conseguíamos de fato: sempre havia os colegas de trabalho, o chefe, o amigo, o senhor da vendinha que ora nos solicitavam, ora éramos nós quem os solicitávamos. Confinados nos limites apertados da família ou dos próprios pensamentos, é agora que vemos como esta forma de vida individual, realmente carente de outro, nos seria insuportável se fosse possível. Na prática, vivemos mais no trabalho do que em família, afinal. Isto nos revela que, em situação de normalidade, o núcleo da sociedade não é a família, mas a sociabilidade.

Pode ser que aprendamos algo com a pandemia, pode ser que não. Só veremos as mudanças a posteriori. O sofrimento não necessariamente nos ensina algo: a tendência inclusive é que ele não nos ensine muitas coisas. Não podemos negar, no entanto, que o sofrimento revela. O sofrimento fala e, principalmente, fala sobre.  O sofrimento fala sobre os conflitos entre o que realmente desejamos e o que dizem que precisaríamos desejar. Neste nosso contexto de pandemia, os sofrimentos que experimentamos em casa revelam a impossibilidade do individualismo: nós nunca fomos sozinhos mesmo, e só agora estamos nos dando conta disso. Mesmo que ele não fosse impossível, como não parece ser agora, no momento em que estamos, em certa medida, emulando temporariamente o que seria viver em uma sociedade individualista, o sofrimento fala sobre o caráter insuportável desta forma de vida. A pandemia revela, então, que o individualismo não só nunca existiu, como ele não seria suportável. 

* Bárbara Buril é pesquisadora visitante na Universidade de Lucerna (Suíça) e doutoranda em filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina. É mestre em filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco, onde também obteve o seu bacharelado em Comunicação Social/Jornalismo.