Cavani Rosas

por Marina de Sá Costa Lima*

A Casa Tombada do Sítio Donino, no Poço da Panela, atualmente sofre com o descaso na conservação do patrimônio, o que está culminando em um desabamento visível. Há anos que a preservação, obrigatória, da estrutura arquitetônica não tem sido concretizada, fato que impulsionou a abertura de uma denúncia aos promotores do Ministério Público de Pernambuco (Processo nº 62421042019-2), no ano passado, na medida em que não fazem a conservação mínima desse patrimônio.

 A referida Casa Tombada, imóvel 136, é um Imóvel Especial de Preservação, localizada na rua Joaquim Xavier de Andrade, sendo uma das primeiras casas a ser construída em Casa Forte. Bem de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental, inclusive de valor afetivo para a população, a Casa do Sítio Donino, necessita de proteção pelo poder público, nos termos da legislação municipal de nº 16.284/97, a qual prevê uma série de sanções, em suma, multas, proibição, por dez anos, do direito de construir edificação no local onde existia o imóvel especial de preservação, entre outros, para impedir a descaracterização e destruição do imóvel supracitado.

Os proprietários antigos, pelo fato de morar na residência, realizar encontros culturais e festivos, criaram apego e cuidados à casa de forma a mantê-la bem conservada, com sua estrutura física registrada em diversas fotografias e em obras de artistas da região. Hoje em dia, o imóve se encontra em sério risco de desmoronar, fato que impulsionou às iniciativas atuais de abertura de denúncias e pedidos de andamento da denúncia anterior ao MPPE e à Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural.

Pela sua trajetória cultural histórica da construção de Recife, a Casa do Sítio Donino, sobretudo por ter ensejado tantos eventos musicais caros à memória pernambucana, poderia sediar um Museu, Fundação ou Centro de Cultura musical popular, como forma de manter a estrutura arquitetônica” da Casa e dar vazão ao seu histórico cultural e folclorista. Neste processo de recuperação e restauração, provavelmente não faltariam pessoas no bairro e instituições que se dispusessem a cooperar com o empreendimento. Tal como afirma Duda Quadros, da Comunicação e Saúde da Fiocruz:

Manter a Casa em pé representa, igualmente, preservar os valores de nossas histórias entrecortadas de vivências múltiplas e que precisam da territorialidade, do espaço para se exercerem e continuarem habitando nossa construção simbólica e nossa identidade cultural

(Duda Quadros)

A Casa do Sítio Donino (Arte e foto de Clarissa Garcia)

A história cultural do Sítio Donino

A Casa do Sítio Donino manteve, por décadas, as festividades de São João tradicionais, desde 1959, também conhecidas como as antigas festas na roça – de celebração da colheita, com comidas típicas, fogos, balões e brincadeiras do interior até o amanhecer, finalizando com bode inteiro assado na fogueira, na beira do rio Capibaribe.As irmãs Ana Halleynita, Dolores, Conceição e Maria de Lurdes Andrade foram as pioneiras a trazerem o pastoril e presépio tradicional de Timbaúba para Casa Forte. Quando residiam em Timbaúba, elas participavam das festividades de Natal e cantavam as músicas de presépio na região. Ao se mudarem para Recife, elas trouxeram essas tradições de presépio, junto às Lapinhas, que passaram a ser feitas na casa em questão. Época em que era comum fazer lapinhas em suas casas.

Entre os anos de 1932 a 1938, o Padrinho Dadá, Padre Francisco Donino – segundo pároco de Casa Forte – iniciou as apresentações do Presépio do Sítio Donino no espaço que seria a atual Praça de Casa Forte. A partir daí, a cada ano, os presépios do Sítio Donino eram realizados na Praça, ao lado da Matriz de Casa Forte e na escola Pio X, abertos para a comunidade. Este período representou a influência da cultura para apreciação da comunidade na região.

Em 1956, Villa Lobos visitou a Casa do Sítio Donino para reencontrar suas alunas Dolores e Lurdes e ver a irmã, Ana Halleynita (Dona Ninita) tocar piano. Villa Lobos tocou piano e, em seguida, Ninita também tocou. Admirado, ele afirmou categoricamente: “Dona Ninita, a senhora poderia estar entre as maiores pianistas do Brasil”, segundo a professora do Conservatório Pernambucano presente no dia, Carmen Virgínia.

Ana Halleynita de Andrade Costa Lima, não chegou a estudar piano, mas tocava de ouvido, talento este que a fez se juntar a uma de suas irmãs, Maria de Lurdes Góes Xavier de Andrade, na época era Diretora do Departamento de Música de Pernambuco, para escrever o livro: Aspectos do Folclore de Pernambuco (Xavier de Andrade e Costa Lima, 1975). Este livro fez registros de suas improvisações no piano e foram transcritas as músicas de presépio e pastoril de Timbaúba, pela primeira vez para a partitura.

Dona Ninita, além de pastoril e presépio, manteve uma rara tradição no Brasil: tocar e cantar o “Parabéns” genuinamente brasileiro: a composição de Villa Lobos “Saudamos”. Atualmente, acredita-se que cinco famílias no Brasil ainda mantêm essa cultura. Foi através dos encontros presenciados com Dona Ninita que surgiu uma cena dessa experiência no filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça. Outro filme que também se inspirou nessa tradição, para a cena, foi: Deus é Brasileiro de Cacá Diegues, com as filhas e sobrinhas de Ninita cantando o Parabéns Brasileiro “Saudamos”, cantando no filme: Lúcia, Meire, Valda, Amélia e Bete Costa Lima. Dona Ninita ainda fazia o fundo musical de piano, no antigo cinema mudo, em casa Forte, o qual depois virou o cinema Luan.           

Igualmente talentosa, a irmã de Ninita, Dolores Andrade aprendeu formalmente a tocar piano com Villa Lobos e, ao vir morar no Sítio Donino, passou a alegrar todos os domingos, junto com Dona Ninita, a tocar piano com músicas predominantemente populares: chorinho, carnaval antigo, baião, forró pé de serra. Na época que ainda estavam construindo suas carreiras, Sivuca e Antônio Carlos Nóbrega foram grandes musicistas que prestigiaram as festas na Casa do Sítio Donino. Em seu esplendor, a Casa ficou imortalizada nas obras dos artistas Cavani Rosas e Clarissa Garcia, que ilustram esse artigo.

Ninita e sua filha Carmen Virgínia, ainda influenciaram suas netas: Marina e Mariana Costa Lima, as quais fizeram Conservatório Pernambucano de Música e tocavam aos domingos com a avó. A primeira, encantada pela música popular, aprendeu a tocar com a avó os pastoris, baião e forró pé de serra no piano, uma estratégia de Ninita seduzi-la para manter o estudo de piano erudito. Sedução essa que fez Marina se dedicar exclusivamente à cultura popular, fazendo parte do Maracatu Nação Estrela Brilhante de Recife, tocando nos carnavais de Recife, de 1997 a 2002, na Alemanha e Portugal (em 2000), no Afoxé Oyá Alaxé e a fazer parte de brinquedos de músicas tradicionais, como “Meninas do Sítio” e “Angáatanàmú”, incluindo a prática da tradicional capoeira angola. Neste ano de 2020, a mesma se apresentou em frente à Casa do Sítio e no carnaval de Recife pelo “Boi Marinho”, de Helder Vasconcelos.

A outra neta, Mariana Costa Lima, seguiu a carreira de violinista erudita por 12 anos. Mariana, aos cinco anos, também aprendeu a estudar música com Dona. Ninita e foi arrebatada pelo violino ao conhecer o Quinteto da Paraíba, na atuação do Chileno Yerko Pinto. Após o Conservatório, em 2000, ela ingressa na Faculdade de Música, na Universidade Federal da Paraíba – UFPB, para ser aluna de Yerko, chegando a tocar frequentemente na Casa do Sítio ao lado da avó e do professor do Conservatório Pernambucano de flauta transversa, Antônio Justo. Mariana se apresentava na Fundação Cultural Cassiano Ricardo, do Vale do Paraíba, em São José dos Campos (SP). Embora tenha se dedicado à Música Erudita, a influência de sua avó permaneceu, como bem expressam suas palavras: “Minha formação é mais a música clássica, mas a música popular é como se as pessoas estivessem em outro plano”.

Em meados da década de 1990 e início dos anos 2000, diversos encontros musicais feitos principalmente por mulheres, chamadas carinhosamente de “Meninas do Sítio”, no Sítio Donino. Sob a iniciativa de etnomusicólogas percussionistas, as irmãs Cristina e Virgínia Barbosa, esses encontros eram organizados como um “brinquedo” no sentido popular para cantar coco, ciranda, reisado, cavalo marinho, forró pé de serra, samba de roda, afoxé, realizados embaixo da jaqueira da Casa do Sítio Donino, às margens do Capibaribe. Algumas eram apenas amantes da cultura popular e outras, incluíam pesquisadoras que eram alunas de Carlos Sandroni (UFPE), etnomusicologista responsável pelo reconhecimento como patrimônio cultural de diferentes grupos culturais (Samba de Roda, Maracatu, Cavalo Marinho) e, atualmente, do forró pé-de-serra tradicional.

Outros importantes grupos tradicionais recifenses, de influência nacional e internacional, que estiveram presentes no Sítio Donino foram o Maracatu Estrela Brilhante de Recife, com a presença da Rainha Marivalda e Nina, Mestre Walter França, do atual Maracatu Raízes de África. O bisneto do saudoso Mário Melo (eternizado nos frevos pernambucanos), Cristiano Cavendish, morador do terreno antigo da Casa do Sítio Donino, trouxe o Mestre Narciso do Banjo para abrilhantar os encontros culturais da época.  

Encontros esses que chegaram a ter a presença de pessoas competentes e influentes da atual cena cultural de Pernambuco e de São Paulo, tais como: Guitinho da Xambá, do Grupo Bongar; Maria Helena, do Afoxé Oyá Alaxé; Mestre Nico; Abuhl Junior; Ana Diniz, Nana Milet. Mais recentemente, no Natal de 2017 e 2018, Guida Gomes, uma das responsáveis pela Casa Astral (ao lado da Casa do Sítio Donino) fez uma homenagem à Ana Halleynita resgatando pastoris da época, juntamente a Rafa da Rabeca e Véio Mangaba. O baile de rabeca é um estilo marcante da Casa, em especial, o grupo Forró na Caixa. A Casa Astral é um influente palco atual de folguedos e folclores nordestinos.

Em 2014, um dos grandes defensores da preservação da cultura popular, Ariano Suassuna, chegou a ser consultado para propor a fazer da Casa do Sítio, já naquele tempo em situação crítica de abandonado e descaso, o Centro Cultural Ariano Suassuna como forma de mantê-la protegida. Infelizmente, três meses depois, Ariano veio a falecer.

Em pleno pré-carnaval de 2020, a frente e no entorno da Casa do Sítio Donino passou a ser um ponto de encontro de blocos reunidos na rua, organizado pelo espaço coletivo Flô de Jambo, contando com a participação de artistas reconhecidos como Helder Vasconcelos trazendo em cena o Boi Marinho, o cantor Silvério Pessoa, blocos de carnaval e demais músicos que bebem na fonte da cultura popular. Neste espaço, em frente à Casa do Sítio, ainda atua um grupo de capoeira, mais tradicional, o Semente Jogo de Angola – Pernambuco, que segue a linha do Mestre Jogo de Dentro, aluno de um dos principais mestres da história da capoeira: Mestre Pastinha.

O intuito de trazer essas informações é de esclarecer a importância dessa Casa histórica que não se reduz exclusivamente à sua construção arquitetônica, mas especialmente pelo o que ela representou ao longo de décadas, na história do Poço da Panela e em Casa Forte, ao acolher diversas manifestações tradicionais de nossa cultura, mais peculiar, de diferentes formas e que, de alguma, forma, se mantêm nos arredores.

O abandono do imóvel tombado (Crédito: Clarissa Garcia)

Considerações Finais

O Poço da Panela representa hoje um bairro de forte atrativo para a especulação imobiliária que não leva em conta a sua história arquitetônica, menos ainda, sua trajetória e importância cultural. O casa tombada do Sítio, embora faça parte do processo de preservação especial de Recife, sofre com o descaso do capital imobiliário especulativo, bem como a falta de iniciativa de órgãos públicos em resguardar ao menos a conservação de sua estrutura física.

O fato da Casa do Sítio ser legalmente protegida, não garante sua manutenção e valorização enquanto patrimônio histórico, arquitetônico, cultural e ambiental. Diante do atual cenário, em que diversas casas antigas do Poço da Panela já foram destruídas pela especulação imobiliária, mesmo “assegurada” pela lei, faz-se urgente pensar numa forma alternativa de manter a Casa do Sítio enquanto Patrimônio e Memória Viva protegidos.  

Como o próprio Ariano Suassuna atuava, uma dessas formas seria transformar a saudosa Casa do Sítio Donino que já foi moradia de famílias abolicionistas e de apreço pela cultura popular, num Centro Cultural de Salvaguarda das Culturas Tradicionais e Popular, realizando projetos artísticos e patrimonialização das diversas expressões culturais, valorizando seus mestres e os que as mantêm, enquanto protagonistas da cultura popular nordestina.

*Bióloga e doutora pela Unicamp