Censura: Caixa alega que grupo de teatro não “zelou pela boa imagem de patrocinadores”

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Cinco dias após cancelar a temporada da peça Abrazo no Recife, a Caixa Cultural finalmente explicitou a cláusula que usou para pedir rescisão do contrato. Em nota, o grupo Clowns de Shakespeare afirma que a Caixa alegou que foi infringido o inciso VII da Cláusula Quarta, que prevê que o grupo contratado seja obrigada a “zelar pela boa imagem dos patrocinadores, não fazendo referências públicas de caráter negativo ou pejorativo”. A peça é sem falas. A infração, segundo a Caixa repassou ao grupo, teria ocorrido no bate-papo realizado após a primeira sessão.

Nesta quinta-feira (12), o grupo teatral abriu um processo judicial, apresentando um pedido de tutela antecipada em caráter antecedente, junto à 2ª Vara Federal da Justiça Federal/PE, para evitar a rescisão unilateral do contrato.

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Com a explicação oficial, ainda que parcial, o grupo afirma, sem rodeios, que sofreu censura da Caixa Econômica Federal, única patrocinadora da Caixa Cultural. “Ainda sem ideia do que poderia ser alegado, uma vez que não reconhecemos nada que pudesse gerar esse tipo de reação, e diante da ausência de informações adicionais, não conseguimos imaginar outra razão para essa rescisão que não seja censura ao nosso trabalho e pensamento”, diz trecho da nota divulgada pelo Clowns de Shakespeare no final da tarde desta quinta.

Sobre a roda de conversa, um dos fundadores da companhia, Fernando Yamamoto, afirmou que tudo transcorreu normalmente. “Teve perguntas de ordem técnica e do conteúdo do espetáculo. Falamos sobre o momento que estamos vivendo no Brasil. Não houve nada fora do contexto”, explicou, em entrevista à Marco Zero no começo da semana. A peça discute censura, repressão e o golpe militar de 1964.

O Clowns de Shakespeare também anunciou uma apresentação gratuita do espetáculo Abrazo neste sábado (14), no Teatro Apolo. A apresentação acontecerá após o protesto contra a censura que está marcado para às 15h na Praça do Arsenal. De lá os manifestantes seguem para a frente da Caixa Cultural, no Marco Zero.

O ato contra a censura foi uma iniciativa dos movimentos “Batendo o Texto na Coxia” e “Virada Cultural do Teatro do Parque”, que ganhou adesão de outros grupos teatrais do Recife, movimentos sociais e artistas.

“Assim, acreditamos que fecharemos a primeira etapa dessa jornada tão intensa, difícil, mas ao mesmo tempo repleta de suporte e carinho de tanta gente, novos e antigos parceiros, instituições e pessoas que acreditam nos mesmos princípios que nós, e que lutam por um país livre e democrático”, diz a nota do grupo, que pede que as pessoas participem do ato com camisas e bexigas brancas.

O espetáculo Abrazo
A sinopse diz que “num lugar em que não é permitido abraçar, personagens atravessam um quadrado contando histórias de encontros, despedidas, opressão, exílio e, porque não, de afeto e liberdade”.

Não há nenhuma fala no espetáculo. A história é narrada por meio de uma trilha sonora especialmente composta para as cenas e com o vídeo de animação, além do trabalho dos três atores em cena. “É a segunda parte da trilogia que compõe o projeto de pesquisa latino-americano, que trata de repressão, de ditadura e censura, concebida no contexto do golpe militar de 1964″, explica Fernando Yamamoto, um dos fundadores do grupo.

O espetáculo Abrazo havia sido seleciona para quatro sessões e uma oficina na Caixa Cultural do Recife. Cinco minutos antes de começar a segunda sessão, o grupo recebeu a notícia de que o espetáculo estava cancelado. O grupo receberia R$ 220 mil pelas apresentações e oficinas no Recife e também em Curitiba. O investimento total da Caixa com o edital de 2019 seria de R$ 17,6 milhões.  No primeiro semestre, a Caixa Cultural não recebeu espetáculos.

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