Devido à necessidade de distanciamento social, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estima que 80% de todos os estudantes do mundo não estão frequentado salas de aula presencialmente. No Brasil, as atividades presenciais foram suspensas em meados de março. O que se viu em seguida, foi o alargamento do abismo entre os alunos dos colégios particulares que conseguem manter o direito à educação através de aulas remotas e os estudantes das redes públicas, cujos gestores ainda não encontraram uma forma de voltar a oferecer o serviço para toda a rede.

Após a suspensão, iniciada no dia 16 de março, as escolas adotaram a estratégia de antecipar as férias do mês de julho e os estudantes ficaram sem atividades até o dia 4 deste mês, quando se reiniciou o ano letivo com atividades remotas. Em Pernambuco, as aulas presenciais estão suspensas até o dia 31 de maio, quando nova avaliação será feita.

Nas redes públicas estadual e municipal, também houve a antecipação das férias, mas o retorno só aconteceu para os estudantes do último ciclo do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio. Para os demais, não há previsão.

Na tarde da quinta, 14, o governo do estado através da Secretaria Estadual de Educação e Esportes anunciou a antecipação do recesso escolar para o período de 15 a 29 de maio. A medida decorre da necessidade de minimizar os impactos da suspensão das aulas presenciais para estudantes e professores, além de estar relacionada com o período de quarentena com medidas restritivas. As aulas remotas estarão suspensas e o período contribuirá para reorganização do calendário escolar.

A Marco Zero Conteúdo conversou com educadoras, estudantes e com mães. Os desafios têm sido os mais variados para as famílias da rede privada e pública de ensino e vão desde a adaptação à nova rotina, que mistura medo, ansiedade e divisão do tempo com as atividades do trabalho em casa, para as famílias de classe média e alta, e falta de acesso à educação, desemprego, garantia de alimentação suprida por doações de cestas básicas e os cuidados de higiene necessários para enfrentar a pandemia para os representantes das parcelas mais vulneráveis da população.

As escolas da rede particular de ensino buscam superar as dificuldades com aulas por aplicativos e plataformas como Plural, Google Classroom ou UNOi. “A escola tem se esforçado em passar atividades com brincadeiras e materiais que temos em casa, o que torna as atividades mais lúdicas. Já usamos fósforos para fazer contagem, além de material como papel, tinta, lápis de cor para construção de um cartão para o dia das mães. Ao mesmo tempo que é muito lúdico, também tem sido difícil porque qualquer barulho desconcentra a criança e ela não quer mais fazer a atividade”, explica a arquiteta Cecília Maia, mãe de Emília, de 5 anos, estudante de escola particular no Parnamirim, que está trabalhando em casa e se dividindo para encarar a nova rotina.

Cecília reconhece os privilégios que pode oferecer a Emília e acredita na importância de manter as aulas, mesmo com as dificuldades, embora ressalte a preocupação com as crianças que não têm esse direito garantido. “Enquanto vivo essa realidade, a filha da minha diarista está com as aulas paradas. A carência é tamanha que essas pessoas não têm acesso sequer a papel e lápis coloridos para tentar oferecer alguma atividade didática, infelizmente, sabemos as diferenças existentes”, afirma.

Emília, 5 anos, assistindo aula remota em seu quarto

Com dois filhos, Clarice de 7 anos e Miguel, de 9, a empresária Adriana Reis também vive essa adaptação. Mesmo no período de férias antecipadas, as crianças receberam missões semanais para não perder o ritmo escolar. As atividades complementares Kumon e Inglês não pararam, o que ajudou a manter a rotina.

“Como a escola não optou por atividade em tempo real é mais chato. Acho que se fosse aula com horário marcado, como algumas escolas estão fazendo, seria mais instigante. Miguel, por exemplo, já disse que estava com saudade da escola, dos amigos e professoras. Já Clarice, ainda não conseguiu se expressar dessa forma e tem estado mais ansiosa, dormindo mal. Acredito que isso é reflexo na mudança de rotina dela”, explica.

Embora perceba que na escola tradicional aprende mais, Tiago Monteiro, 11 anos, estudante do sexto ano, está aprovando o novo formato. “Gostei desse modelo que a minha escola está usado por conta do coronavírus. A maior diferença é que na escola normal passava tarefa todo dia, nesse programa de aula virtual não passa”, conta.

Para ele, a principal vantagem é a diferença nas atividades sugeridas. “As tarefas que eu mais gostei até agora foram a de fazer um mapa do percurso da minha casa até a escola que fiz junto com minha mãe, e uma história em quadrinhos, onde criei um super herói e um vilão com a ajuda de papai”, explica o morador das Graças e estudante de escola particular do bairro da Madalena.

Tiago, 11 anos, atento ao tablet em sua aula online e sua história em quadrinhos

Rede pública sem aulas

Maria com os filhos Talisom e João Vitor que estão sem atividades escolares

A realidade de Talisom Silva, 7 anos, morador da ocupação Carolina de Jesus, no Barro, e estudante da escola municipal no bairro de Jardim São Paulo, é bem distinta. Sem aula há mais de um mês, ainda sem receber atividades escolares e sem perspectiva de ter acesso a aulas remotas, o que lhe ocupa é a televisão. “Estou com saudade de ir à escola, eu gosto de estudar e sinto falta dos meus amigos. Queria que a professora mandasse vídeos de aulas e tarefas para eu fazer na minha casa. Desse jeito está muito ruim”, conta.

“Ele não pode brincar com outras crianças porque tem que ficar em casa e não recebi nada de tarefa para ele fazer nem avisaram na escola se isso vai acontecer”, lamenta Maria da Silva, mãe, desempregada.

Sem receber as apostilas de atividades da escola o filho fica completamente desocupado. “A única coisa que recebemos da prefeitura foi uma cesta básica por mês e um livro falando do corona. Ele já perguntou várias vezes quando vai poder voltar para escola. No final do ano, vão passar para outra sala sem saber de nada. Nossos filhos não estão aprendendo nada, não é justo”, explica.

Maria tem ainda um filho de 3 anos, João Victor, que fazia parte da creche local, mantida pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), e que também precisou fechar as portas. Na casa de 18m² moram ela, os dois meninos, uma filha grávida e o genro. “Até o espaço é pequeno para tanta gente dentro de casa”, complementa.

Igor, 10 anos, com seu caderno de atividades já preenchido

A saudade da escola também é sentida por Igor da Silva Andrade, 10 anos. O estudante do 5° ano, do ensino fundamental, que mora em Jiquiá, está há mais de um mês sem aulas. “Eu sinto falta de ir para escola todos os dias. A única coisa que eu tenho feito de estudo são as tarefas que chegaram quando minha mãe foi buscar a cesta básica na escola, mas isso foi no começo do mês e eu já fiz todas. Vem bem pouquinha e agora nem sei mais quando vão mandar outras”, lamenta.

A reposição das aulas é uma dúvida para os pais. “Estou preocupada com essas aulas por celular. Será que essas aulas serão repostas? Na minha casa só eu tenho celular e duas filhas precisando assistir aos vídeos das aulas, acompanhar as tarefas pelo whatsapp. Não tem como funcionar, não para a minha família” desabafa Ana Paula Oliveira, mãe de Ketiliane e Juliana, 9 e 14 anos, desempregada e de mudança para Itamaracá.

Para Juliana, 14 anos, estudante do 9° ano de uma escola no bairro da Mangueira, a barreira tecnológica e financeira preocupa. Ela sente que será prejudicada por não conseguir assistir todas as aulas. “Essa semana, não consegui fazer nenhuma tarefa nem assistir as aulas no YouTube porque minha mãe precisou sair o tempo todo e não tem outro celular que eu possa usar. Nem eu nem minha irmã estudamos, assim a gente vai ficando para trás”, explica.

Ketiliane e Juliana, 9 e 14 anos, sem celular nem computador sentem-se prejudicadas

Educadoras apontam dificuldades

Entre os profissionais da educação, tanto a oferta de ensino remoto para as crianças quanto a falta dele são fontes de preocupação. Para Fabíola Siqueira, professora do primeiro ano do Ensino Fundamental em uma escola da rede municipal de ensino do Recife no bairro do Pina, oferecer aulas neste formato pode ser um problema porque a educação infantil requer a interação pessoal no processo de alfabetização e também porque não há garantia de que as famílias de estudantes da rede pública terão acesso aos recursos necessários (computador ou celular com acesso à internet) para a oferta do serviço.

Além disso, o formato requer a participação efetiva dos responsáveis. “Não é que na rede pública não exista a capacidade dos pais de fazerem isso, mas a realidade é que muitos teriam dificuldade, inclusive disponibilidade tecnológica e de tempo mesmo diante dos outros afazeres”, explica.

Fabíola também alerta para as dificuldades dos profissionais de educação com o formato. “Mesmo os professores que têm alguma intimidade com a tecnologia vão precisar ter habilidade para adaptar a aula presencial ao ensino a distância. Será preciso apoio efetivo da equipe de tecnologia da Secretaria para garantir que essa transição seja mais fácil e que chegue ao aluno de forma mais clara e tranquila”, ressalta. Os docentes da Rede Municipal do Recife passaram por dez dias de formação continuada online, mas não há previsão de aulas remotas para os de menor idade.

Famílias e escola têm que ressignificar o processo de aprendizagem, buscando o melhor para o estudante. Esse é o raciocínio de Vanessa Miranda, professora de escola particular em Garanhuns, licenciada em Letras e com especialização em psicopedagogia: “Só funcionará se as famílias abraçarem a causa e colaborarem com as escolas, pois muitos professores estão trabalhando triplicado, acreditando que seus momentos de aula serão significativos. O que está acontecendo é irreparável para todos nós”.

A formação em Pedagogia é voltada para aulas presenciais e as metodologias são diferentes das oferecidas para profissionais que se preparam para ensinar à distância (EaD) e o que vem sendo oferecido para esses estudantes são aulas remotas.

“O professor teve uma formação acadêmica para trabalhar com pessoas, lidar com o aluno, olhar no olho, fazer as trocas coletivas que são tão importantes na construção do aprendizado, isso desde as séries inicias até as finais. Lidar com a interface entre tecnologias é uma tarefa nova, tudo isso exige mais dedicação, mais estudo. É um grande desafio”, opina Rejane Alves, pedagoga, especialista em administração escolar e planejamento com mestrado em psicanálise.

Para ela, os conteúdos oferecidos nesta fase precisam fazer parte da grade curricular mas deve ser oferecidos de forma mais lúdica. “Também é o momento de manter o vínculo entre alunos e professores, alunos e colegas de sala”, comenta.

“Acredito que de imediato o governo deveria ter disponibilizado uma plataforma para que todas as escolas tivessem acesso, tanto as públicas quanto as particulares. Que fosse uniforme, que cada escola entrasse e pudesse trabalhar sua metodologia e conteúdos específicos de cada grupo classe a sua maneira, mas usando a mesma plataforma. Isso facilitaria para todos. Tem pais com três filhos em escolas diferente, cada uma usando uma plataforma, isso fica muito difícil de administrar. Então, para minimizar isso acredito que essa seria uma boa forma”, encerra.

O que tem feito a gestão pública

A rede municipal de ensino está oferecendo aos alunos material didático impresso, em forma de cartilhas que são distribuídas, nas creches e escolas, mensalmente junto com uma cesta básica. Na terceira entrega feita pela prefeitura, no último dia 9, foram distribuídos kits lúdicos com tinta, lápis de cor, cola, giz de cera, para as crianças das 85 creches da rede.

No site da Secretaria Municipal está disponível um Catálogo de Games e Sites Assistivos, que consiste em um pdf com indicações de filmes, jogos interativos, brincadeiras, atividades lúdicas e pedagógicas para todas as idades. O site informa ainda que são todos gratuitos e podem ser baixados pelo Play Store e APP Store.

Desde o dia 6 de abril, a rede estadual de ensino disponibilizou aulas por streaming para os alunos do 6° ao 9° ano e do ensino médio, através da Plataforma Educa-PE. Funciona como um canal do Youtube normal que, inclusive, aparecem propagandas aleatórias, mas é aberto para qualquer pessoa assistir. Até a manhã da terça, 12, haviam 164 mil inscritos. Todas as videoaulas tem tradução em libras e são disponibilizadas na plataforma pela manhã permitindo que o estudante organize seu horário de aula de forma mais conveniente e reveja quantas vezes quiser.

Além do canal de internet, o conteúdo das aulas está sendo transmitido, desde o dia 13 de abril, pela TV Pernambuco (TVPE), TV Alepe, TV Nova e Universitária. De segunda a sexta-feira, pelas manhãs, os estudantes dos anos finais do ensino fundamental acompanham as aulas pela TV PE, Universitária e Alepe. A retransmissão pela TV Nova acontece das 23h às 2h.

Para a rede estadual foi oferecido um cartão alimentação no valor de R$50. Para receber esse auxílio o responsável pelo aluno deverá estar cadastrado no Sistema Cadastro Único (CadÚnico) do Ministério da Cidadania, e ter realizado o cadastro até o dia 29/02/2020, eliminando assim algumas famílias que não faziam parte do CadÚnico.

Também no site da Secretaria Estadual os responsáveis e estudantes encontram material de apoio para estudos e atividades, explicações sobre o Educa-PE e uma página sobre o cartão alimentação que permite consultar beneficiário e estabelecimentos credenciados.