Jogo ideológico de Bolsonaro tenta sem fundamentos culpar Venezuela por vazamento de óleo

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Em quase dois meses, um dos poucos consensos públicos a respeito do desastre ambiental provocado pelo óleo nas praias do Nordeste é de que o petróleo tem DNA venezuelano, como foi demonstrado pela Petrobrás e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). A partir deste fato, acusar o governo da Venezuela de ser responsável pelo vazamento, como quer o governo Bolsonaro, a distância é grande.

Ao menos que o material tenha vazado de um dos campos da Venezuela, chegado até aqui por uma hipotética inversão da corrente marítima das Guianas (que vai do Sul para o Norte) e dado a volta na Guiana, no Suriname, na Guiana Francesa e parte do Norte do Brasil sem ser notado, o Governo Bolsonaro dificilmente tem alguma evidência técnica e científica que justifique a estratégia ideológica de culpar e responsabilizar o país de Nicolás Maduro e sua estatal PDVSA.

O aceno do presidente de extrema-direita serve para saciar apenas seu próprio eleitorado e tentar mascarar a situação, que, na verdade, é de negligência, despreparo e fragilidade das instituições federais. A informação rasa disseminada por Bolsonaro nas redes sociais e reforçada pela cúpula do governo não é suficiente. O petróleo ser da Venezuela não significa que ele foi transportado por uma embarcação venezuelana – que não distribui nem transporta petróleo -, caso o desfecho das investigações, que correm em sigilo, realmente apontem para um vazamento num petroleiro. “Não passa de verborragia ideológica, uma irresponsabilidade”, classifica Breno Altman, jornalista e fundador do site Opera Mundi.

“Da forma como Bolsonaro vem falando, parece que o petróleo saiu da Venezuela e desembarcou diretamente no Brasil, o que é impossível geograficamente”, atesta. Seria preciso investigar e publicizar também as apurações de como o material chegou aqui, em que embarcação e de quem é essa embarcação – ou embarcações. Informações que, até o momento, não foram postas. “Assim sendo, a questão mais relevante é de quem é o navio e por que o governo demorou tanto para agir mostrando organismos extremamente frágeis e falhos”, avalia Breno.

Não há, portanto, fatos para acusar a Venezuela. “Parece que resolveram bater em ‘cachorro morto’ para fazer bonito para a população inocente, na expectativa de que não terão resposta a altura da provocação feita por um país a outro, sem qualquer base legal”. Esse é o entendimento de Yara Schaeffer Novelli, doutora e professora sênior da Universidade de São Paulo (USP). Ela foi a primeira perita judicial da primeira ação civil pública movida no Brasil por dano ambiental, em 1983, num rompimento de oleoduto da Petrobras na Baixada Santista. Confira aqui a entrevista que a Marco Zero Conteúdo fez com ela no início do mês.

“Se o óleo é venezuelano e veio por uma navio clandestino, coisa que ainda não se sabe, a culpa se configura numa imagem geopolítica”, reforça o biólogo e oceanógrafo Clemente Coelho Júnior, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Pernambuco (UPE). Ele lembra que, no mercado de transferência de óleo de barco para barco (ship to ship) feito em alto-mar, existe ainda a possibilidade de uma embarcação ser legal e a outra não, o que reforça a necessidade de investigação.

A Venezuela, por sua vez, é taxativa em dizer que é impossível o óleo ter partido diretamente de lá. Em comunicado único até o momento, no dia 24 de outubro, a PDVSA informou que, em momento algum, recebeu pedido de apoio para determinar se o óleo detectado realmente correspondia a campos de exploração de petróleo bruto exportados pela Venezuela, “razão pela qual é improvável a apresentação de qualquer tipo de opinião ou análise unilateral com resultados tendenciosos e irresponsáveis”.

O comunicado, que reforça a necessidade de investigação, dizia ainda que “a PDVSA rejeita as acusações feitas pelo governo brasileiro, que pretende politizar e responsabilizar a República Bolivariana da Venezuela pelas manchas de petróleo que afetam a costa nordeste do país desde o início setembro de 2019”.

Para a jornalista e editora da revista venezuelana Correo del Alba, Maria Fernanda Barreto, o governo Bolsonaro está escolhendo uma lado sem ter qualquer comprovação. Lamentando que se faça uso política da tragédia, ela reforça que o governo não está buscando a causa nem a solução do problema, assim como fez com as queimadas na Amazônia, e comenta que o assunto não tem sido pauta entre a população de seu país e nem na imprensa local.

“É estranho que na costa norte do Brasil esteja a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa, além de Trinidade e Tobago, onde há um movimento de contrabando de gente que rouba combustível venezuelano. E dessa gente não se falou. Na Guiana, há uma grande produção petroleira dirigida pela ExxonMobil, muito mais próximo da costa nordeste brasileira, e o governo brasileiro em nenhum momento insinuou a possibilidade de que esse vazamento tivesse chegado por ação de algum barco da ExxonMobil”, complementa Maria Fernanda.

O contexto da Venezuela é duro. Depois que os Estados Unidos impuseram o embargo pararam de comprar petróleo venezuelano, o mercado local foi ao chão. No auge das vendas, o país chegou a marca de 3,2 milhões de barris comercializados por dia. Hoje, o número não chega a um milhão.

Jogo ideológico também acusa ONGs

O jogo sujo ideológico também coloca em xeque a atuação das ONGs, assim como vem acontecendo no caso amazônico. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, insinuou no Twitter, na semana passada, com uma imagem de 2016, que o navio responsável pela derramamento de óleo no Nordeste seria do #GreenPixe, expressão que usou para classificar a organização internacional Greenpeace, que se posicionou. Confira a nota enviada à imprensa:

Enquanto o óleo continua atingindo as praias do Nordeste, o ministro Ricardo Salles nos ataca insinuando que seríamos os responsáveis por tal desastre ecológico. Trata-se, mais uma vez, de uma mentira para criar uma cortina de fumaça na tentativa de esconder a incapacidade de Salles em lidar com a situação. É bom lembrar que isso vem de alguém conhecido por mentir que estudava em Yale e ser condenado na Justiça por fraude ambiental.

O nosso navio Esperanza faz parte de uma campanha internacional chamada “Proteja os Oceanos”, que saiu do Ártico e vai até a Antártida ao longo de um ano, denunciando as ameaças aos mares. Ele passou pela Guiana Francesa, entre agosto e setembro, onde realizou uma expedição de documentação e pesquisa do recife conhecido como Corais da Amazônia, com o propósito de lutar pela proteção dos oceanos e contra a exploração de petróleo em locais sensíveis para a biodiversidade marinha. No momento, o navio está atracado em Montevidéu, no Uruguai.

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