Por Eneline Gouveia Pessoa*

Eu não conheço mais uma medicina sem ruas, casas, telhados e caixas d’água. Sem chão batido, escadarias, sem tijolos, reboco, cimento. Sem escolas ou associações. A medicina que conheço é cuidar dessa gente que reinventa a própria existência e segue ocupando os espaços. Resistindo. (Re)erguendo suas casas e sustentando o mundo inteiro.

Transmuto o consultório em sala de aula e sala de aula em espaços de cura. Faço muito com muito pouco e lamento profundamente não conseguir fazer mais. Ergo minha voz pelos que falam mas não são ouvidos. Que não é mais do que cumprir com minhas atribuições enquanto médica de família e comunidade.

Pós-graduada pela Secretaria de Saúde do Município do Recife (Sesau), onde atuo desde janeiro de 2014, tive a oportunidade de fazer a maior parte da minha formação enquanto residente nas Upinhas 24h, assim chamadas mesmo a contragosto da 11ª Conferência Municipal de Saúde. Sou muito grata à Sesau pela excelente formação que me proporcionou através do Programas de Residência em Medicina de Família e Comunidade (PRMFC).

Aprendi a enxergar as pessoas por inteiro e entender que seus problemas de saúde estão intimamente relacionados com suas famílias, sua comunidade e seu trabalho. Aprendi principalmente a ouvir atentamente suas histórias e hoje gostaria de contar a minha. Minha história que se mistura com a deles, nessa relação médico-paciente sem começo nem fim.

Entendo que a especialidade médica que escolhi não possui luxos. Nem é o que eu desejo. Não espero mármore, granito, vidros espelhados. No entanto, hoje percebo que é justo que nos sejam oferecidas condições mínimas de trabalho. Como por exemplo, uma sala onde possa entrar a luz do sol por uma janela, que tenha circulação de ar.

Um lugar onde não nos falte cronicamente água para beber ou esporadicamente para lavar as mãos. Sabão. Que não precisemos temer que o teto desabe em nossas cabeças enquanto fazemos uma refeição. É isso, não temos o mínimo. E hoje fui diagnosticada com tuberculose.

Fui diagnosticada por conta de um derrame pleural em meu pulmão esquerdo atelectasiado (colapso completo ou parcial de um pulmão) e drenaram cerca 1.750 ml de líquido sero hemático. Aprendi no corpo o significado de tantos termos médicos corriqueiros. Entendo que trabalhando no Recife, com uma população que, apesar de estar distante dos presídios, está visceralmente relacionada com ele – por si só seria um fator de risco.

Penso que esse risco aumentou um pouco mais quando, devido ao déficit de Agentes Comunitários de Saúde (ACS), eu mesma realizei o TDO de pacientes etilistas crônicos na esperança de aumentar a adesão ao tratamento, em meu consultório. No entanto, não consigo parar de pensar no meu consultório, onde não há janelas por onde a luz do sol possa entrar ou o ar possa circular, apenas uma porta por onde o bacilo entra… E aparentemente não sai.

Não consigo parar de pensar nas infinitas visitas da engenharia e promessas de reforma. Estamos no segundo mandato da gestão deste partido e as paredes da nossa Unidade de Saúde da Família (USF) ainda são das cores da primeira gestão do partido da oposição, em 2001. Penso no contraste da minha atual Unidade de Saúde e a Upinha onde fiz minha formação. 

Interessante pensar que talvez minha USF seja a única unidade da cidade com três equipes e três médicas de família, com especialização em preceptoria, que recebem residentes, doutorandos e acadêmicos. Temos tanto potencial! E não tínhamos sala suficiente nem para que os profissionais de saúde atendessem!

Transformamos depósitos e corredores em sala para conseguir assistir a população. Nos sentimos abandonados pela gestão nesse aspecto. Em contrastes com as Upinhas do “Recife-Belga”, onde tudo tem seu devido lugar, com leitos de observação e procedimentos, salas de nebulização, salas de reunião, trabalho no “Recife-Haitiano”. Onde compramos até material para realizar pequenas cirurgias porque nos recusamos a cair na mediocridade para a qual somos convidados todos os dias – por falta de insumos e estrutura.

Nos recusamos a fazer uma medicina pobre. E não vamos deixar de fazer aquilo que aprendemos, somos médicas de família e comunidade, afinal!

Acredito em uma Atenção Primária forte. Inclusive é nela que estou realizando o tratamento da minha tuberculose. Inclusive foi no Laboratório Municipal do Recife que tive meu diagnóstico confirmado em menos de 24h da biópsia da minha pleura.

Ainda estou tentando entender o que ter tuberculose significa para mim. Mas o que eu já entendo é que não quero deixar de atender minha comunidade. Não quero um “desvio de função”. Não quero outro emprego. Não quero outra especialidade. Quero apenas que na minha sala haja uma janela por onde entre a luz do sol e que o ar circule nela.

Que não nos falte água para beber e EPI para nos proteger. Que o teto não ameace cair sobre nossas cabeças e que os residentes tenham salas para atender. Gostaria também que a Sesau seguisse as normas de biossegurança relacionadas à tuberculose na APS, segundo o manual do Ministério da Saúde. Meu Covid-19 é do século XIX.

* Médica de Família e Comunidade