Crédito: Arquivo Campanha Mãos Solidárias/Marcha Mundial das Mulheres

Não há mais separação entre o profissional e o doméstico na tripla jornada vivenciada pelas mulheres nesta pandemia. A casa, os filhos, o casamento, as atividades políticas e o trabalho acontecem ao mesmo tempo, sem pausa, há cerca de dois meses. É neste contexto que muitas mulheres se articulam e fazem a luta pelos seus direitos resistir diante de um cenário de agravamento das desigualdades sociais e descaso do Estado.

Em entrevista à Marco Zero, representantes de quatro movimentos feministas relatam como têm sido os processos do fazer política e não soltar a mão de nenhuma companheira em meio à crise agravada pelo novo coronavírus. O isolamento social fez com que estes movimentos e muitas organizações repensassem os modelos das suas ações e se adaptassem ao distanciamento, algo que não aconteceu da noite para o dia. As necessidades também tem variado de acordo com o avanço da pandemia.

Até então, os movimentos trazem as experiências de três momentos distintos. O primeiro, de acordo com Liliana Barros, integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, foi de recolhimento para se fortalecer. “O aumento da fome veio de primeira e é uma coisa muito séria, porque traz um desgaste emocional grande. São as mulheres que chefiam a casa, elas que ficam com a responsabilidade e a preocupação.”

“Apesar do vírus ter chegado por meio de uma classe que tem condições de fazer viagens internacionais facilmente, nós sabíamos que seria devastador quando chegasse nas periferias. Então, a se gente se voltou para dentro da rede e começou com um trabalho de autocuidado mais forte para poder aguentar o que está por vir”, acrescenta.

É o que conta também Nivete Azevedo, do Centro das Mulheres do Cabo, organização feminista que tem 35 anos de atuação na cidade do Cabo de Santo Agostinho. Para ela, a carga emocional e psicológica chegou antes de tudo, tanto para as mulheres da organização quanto para as companheiras das comunidades onde o centro atua. Ela chama atenção para a dificuldade de desenvolver tarefas totalmente distintas dentro do mesmo ambiente: a casa.

“A preocupação veio sobretudo para as mulheres que estão nas comunidades mais vulneráveis, algumas que já participam de processos de terapia desenvolvidos pelo centro. Mas outro grupo que encontramos muito fragilizado foram as marisqueiras, porque elas já vinham de outro desastre que era a questão do óleo no litoral do Nordeste. Filtramos e estabelecemos grupos prioritários.”

Ambos os movimentos colocaram a falta de alimentação como primeira urgência apresentada pelas mulheres e suas famílias nas periferias. A Rede e o Centro realizaram distribuições de cestas básicas, produtos de higiene pessoal e limpeza nas comunidades onde têm inserção.

A Rede de Mulheres Negras de Pernambuco tem núcleos em todo o estado de Pernambuco, com atuações voltadas também para terreiros e quilombos. Nesta pandemia, os núcleos da Região Metropolitana destinaram mais esforços para as comunidades do Córrego do Euclides e do bairro de Passarinho, no Recife, assim como em algumas comunidades de Jaboatão dos Guararapes e Paulista.

Já de acordo com o Centro de Mulheres do Cabo, 70% das mulheres que receberam cestas básicas, são marisqueiras das localidades de Gaibú, Suape, Nova Tatuoca e Tiriri e 30% são das comunidades de Charneca, Pirapama, Novo Horizonte, Ponte dos Carvalhos e do município de Escada. Ao todo, foram distribuídas 100 cestas básicas pelo centro.

Reunião com a Rede Estadual de Enfrentamento à Violência Sexual de Criança e Adolescente. Crédito: Arquivo Centro de Mulheres do Cabo

Comunicação

O segundo momento veio com a adaptação dos movimentos em relação ao distanciamento social. Na rotina sem pandemia, as atuações aconteciam olho no olho, constantemente, dentro das comunidades, bairros e periferias. Sem a possibilidade de realizar manifestações de rua, reuniões e encontros, a produção de conteúdo de comunicação se tornou ferramenta central para os desdobramentos das atividades que tomavam outro corpo.

A militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco, Natália Cordeiro, ressalta que neste sentido o trabalho tem acontecido na perspectiva de cobrir lacunas que o próprio Estado tem deixado de maneira “leviana”. “A gente tem conseguido apostar muito nessa maneira de se comunicar. Mas é um serviço que os governos deveriam estar fazendo. Informação de qualidade, de maneira responsável e com uma perspectiva feminista da situação.”, explica.

O Fórum é uma articulação que existe desde 1988 e reúne organizações feministas e mulheres de várias regiões do estado. Atua de maneira descentralizada em várias comunidades do Recife e da Região Metropolitana. Natália conta que a rotina de reuniões se intensificou virtualmente na pandemia. O fluxo tem sido semanal, mas, a partir das definições gerais, as demandas por reuniões vão surgindo nos vários grupos de trabalho. O Fórum também tem se mobilizado em todas as regiões com a distribuição de cestas básicas.

O contato direto por meio das redes sociais e do monitoramento periódico com ligações para as companheiras dos bairros de Brasília Teimosa, Peixinhos e Várzea foi uma das apostas da Marcha Mundial das Mulheres em Pernambuco. A militante Paula Gusmão, do Núcleo Soledad Barrett – Recife diz que o contato por estes meios pode comprometer a “percepção de algumas nuances dos processos de vivência das mulheres”, mas se tornou “indispensável”.

O movimento também tem se feito presente nos bairros através da Campanha Mãos Solidárias com a entrega de cestas básicas. “Estamos nos reunindo virtualmente. Temos reforçado o contato e acompanhamento da situação de nossas companheiras, buscando sempre ouvi-las e saber como estão, orientá-las no acesso a políticas públicas e a informações de prevenção em relação ao coronavírus.”

Paula lembra que, quando a pandemia chegou ao estado, a marcha estava prestes a realizar a terceira etapa da Escola Feminista Popular, que acontece durante o período de um ano. Os processos de formação foram adaptados para o formato de vídeo, mas o movimento tem testado outros modelos, já que de fato a rotina de sobrecarga de trabalho não facilita que as mulheres possam separar um tempo muito longo ou que demande aprofundamento de assuntos muito teóricos.

A Marcha Mundial das Mulheres é um movimento internacional que chegou ao Brasil em 2000, quando a marcha realizou sua primeira Ação Internacional. Tem núcleos em diversos estados do país, assim como na Região Metropolitana do Recife e no Agreste do estado.

Entrega de 100 cestas básicas em comunidades do Cabo de Santo Agostinho e mediações. Crédito: Arquivo Centro de Mulheres do Cabo

No Cabo, o Centro das Mulheres voltou a produzir seu programa diário Rádio Mulher no dia 4 de maio. Com o coronavírus, o formato presencial do programa impossibilitava que ele fosse ao ar. Segundo Nivete, dois estúdios de rádio improvisados foram montados nas casas das duas locutoras do programa que é exibido via live no Facebook da organização.

A Rede de Mulheres Negras também tem investido na produção de conteúdo informativo para circulação nas redes sociais, como foi o mote “Preta, se liga!”. De acordo com Liliana, a proposta é levar informações por meio de carros de som e bicicletas nas comunidades de difícil acesso.

Articulação política

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📢 O Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE) alerta à sociedade e exige dos Poderes Públicos atenção especial para a situação das mulheres no contexto da pandemia de Covid-19, através da sua carta política. . Leia a carta na íntegra (também disponível em PDF para download ⏬ no link da bio): . É pela vida das Mulheres! . 📃🗣CARTA PÚBLICA DO FÓRUM DE MULHERES DE PERNAMBUCO📬 . A pandemia de covid-19 atinge a todo mundo, mas é muito mais grave para as pessoas que vivem em situações mais precárias nas periferias das grandes cidades. A maioria das famílias mais pobres estão sob responsabilidade das mulheres e majoritariamente das mulheres negras. Nós, mulheres, ainda somos responsabilizadas pelos trabalhos domésticos e de cuidados de quem não pode se cuidar e somos sobrecarregadas, ainda, porque o Estado não disponibiliza políticas públicas de cuidado, em especial as que se referem às crianças, pessoas idosas, doentes e pessoas com deficiência. Por isso, a contaminação é um agravante maior para quem já sobrevive em péssimas condições de habitabilidade. Por isso, o Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE) alerta à sociedade e exige dos poderes públicos atenção especial para a situação das mulheres no contexto desta pandemia. Os dados oficiais apontam o crescimento da violência contra as mulheres que estão em isolamento social. Isso se agrava quando se trata de idosas e crianças, que são agredidas por outros entes familiares e têm menos condição de se defenderem. Para muitas de nós, isso significa estar convivendo o tempo inteiro com um agressor. O confinamento é difícil para todo mundo e não pode ser usado como justificativa. O machismo dos homens faz com que eles agridam, ameacem, maltratem e matem as mulheres. Por isso, reivindicamos: atendimento psicossocial e jurídico às mulheres vítimas de violência em todas as cidades; e na ausência de casas-abrigo que o governo providencie condições de abrigamento na rede hoteleira; e campanhas públicas pelo respeito ao isolamento social sem violência contra as mulheres, idosos e crianças. (👇🏾continua nos comentários…) #FMPE #FEMINISTAFMPE #Covid19

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Nivete Azevedo afirma que a articulação entre movimentos parceiros tem sido o foco das reuniões que acontecem diariamente. “O jeito que encontramos é não fazer sozinha e dentro de nossa incidência priorizar as mulheres. A gente tem tido um trabalho remoto exaustivo, buscando formas de atuar conjuntamente com os movimentos mais próximos e nas frentes que estamos incluídas como a Rede Estadual de Enfrentamento à Violência Sexual de Criança e Adolescente”. O Centro das Mulheres do Cabo faz parte da coordenação da rede.

Os outros movimentos seguem caminhos semelhantes e as articulações também têm sido feitas no sentido de cobrar do Poder Público ações mais efetivas no combate à pandemia e pelo direito à informação. A Rede de Mulheres Negras apresentou carta ao governo estadual reivindicando notificações que constem raça e cor dos casos de contaminação e de óbitos por Covid-19.

No sentido de realizar uma audiência pública com os poderes do estado, Executivo e Legislativo, o Fórum de Mulheres tem se articulado junto ao Ministério Público em reuniões virtuais. O movimento também lançou uma carta pública em que faz várias reivindicações por maior enfrentamento da violência contra a mulher, amplo acesso a informações sobre a pandemia como um direito de todos, e por ampla testagem da população.

A Marcha Mundial relata que tem mantido as articulações por meio da Campanha Mãos Solidárias, organizada pela Frente Brasil Popular, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Arquidiocese de Olinda e Recife e o movimento Unificados pelo Povo em Situação de Rua. O movimento feminista está a frente da coordenação de um grupo de cerca de 78 costureiras que produzem voluntariamente máscaras de proteção individual, que são destinadas ao voluntariado da distribuição de refeições e cestas básicas no Armazém do Campo – Recife e nas periferias da RMR.

O movimento internacional lançou publicamente a carta “Máscaras para todos e todas e não apenas para quem pode pagar”. O documento reivindica ao governo do estado e às prefeituras pernambucanas a criação de políticas públicas voltadas para a confecção de máscaras de tecido para a população vulnerável e geração de renda nas periferias, por meio da contratação de costureiras autônomas. Também se pronunciou publicamente solicitando alterações no edital publicado pela Prefeitura do Recife, que credencia costureiras e pequenas confecções para a produção de máscaras.