Crédito: Rennan Peixe

Por Chico Ludermir, parceria da Marco Zero com o Programa Entre, da Rádio Universitária Paulo Freire

Aos 27 anos e uma década de carreira, Luna Vitrolira tem se consolidado como uma das vozes mais ativas da literatura pernambucana. Da poesia sertaneja ao slam, passando pela academia, a poeta se banha em fontes diversas e incorpora referências do local e do universal para construir uma obra carregada de identidade própria, que tem extrapolado fronteiras Brasil afora. “Estou em movimento. Em trânsito”, afirma instantes antes de começar a entrevista.

Marcada pela oralidade, a arte de Luna nunca se dissocia do seu corpo de mulher negra nordestina e tem na sua declamação, o clímax. É a partir dele que ela grita sobre o amor, tema do seu primeiro livro Aquenda – o amor às vezes é isso, publicado em 2018 e que concorre ao prêmio Jabuti deste ano na categoria poesia.

Nos encontramos com Luna no Rio de Janeiro, onde a artista participou da Flup, Festa Literária das Periferias. Desde a capital carioca, a poeta queixou-se do que chamou de “padronização” dos slams, denunciou a persistência do preconceito contra os nordestinos e falou sobre o seu livro e a indicação ao prêmio. “Eu posso estar sendo indicada ao prêmio Jabuti, mas quando eu estou na rua, ninguém sabe quem sou eu. Aí continuo sendo apenas uma mana preta que vem do Nordeste”.

Luna, você acabou de publicar seu primeiro livro – diga-se de passagem, com indicação para o prêmio Jabuti, o de maior prestígio do país. Mas você já tem uma trajetória longa que dialoga muito com a poesia oral – declamação, slam, saraus. Queria que você falasse um pouco sobre essa relação entre letra e voz. Sobre o que está escrito, em letras, e o que o seu corpo inteiro fala no momento da declamação.

Eu sou pernambucana. A minha poesia começa no Sertão de Pernambuco. O Sertão de Pernambuco é um lugar onde a poesia oral é realmente protagonista. A gente tá falando de uma literatura que é convencionalmente chamada de popular e que é uma tradição as pessoas declamarem poesia. Meu contato com a literatura começa aí. A partir da voz. Pelo ouvido. Quando eu chego em São José, que eu vejo crianças declamando. Criança de 3, 4 anos de idade já declamando sextilha, décima ou até um cordel inteiro, eu realmente entendo que a relação com a literatura no Sertão é muito diferente da relação na capital. A relação que eu tinha com a literatura antes disso era da escola. Uma leitura que era muito feita para ser trabalhada para o vestibular. Não era algo pela fruição. Não era algo como vivência. Não era algo profundo. Era sempre muito superficial. E ali eu vi que, na real, as pessoas vivem a poesia que fazem. Conversam sobre poesia naturalmente e estão, o tempo inteiro, declamando poesia. E eu me identifiquei com isso. Eu disse: “eu quero isso!”. Eu sempre fui uma pessoa que disse poesia na rua. Já fiz em supermercado, salão de beleza, hospital, shopping, igreja. Já fiz em penitenciária feminina, em construção, para pedreiros… já passei realmente por vários lugares. Depois de 10 anos eu comecei a entender que para me inserir em outros espaços – que eu também queria participar de festivais dentro e fora de Pernambuco – o livro era importante. Comecei a entender a dimensão política. A relação da escrita, do poder da escrita em detrimento da oralidade. E aí me veio uma questão muito desafiadora que era como transformar tudo isso que eu falo – a palavra falada, a voz, o som – para a palavra  registrada. Vou assentar esse texto agora no papel. Aí começou o desafio de pensar o livro. De pensar politicamente a importância da escrita, da palavra que eu declamo falada, mas ela também registrada. Para que ela consiga circular nos espaços, acessar outras pessoas. Para que pudesse também abrir outros caminhos para mim fora de Pernambuco.

A minha primeira entrevista no Programa Entre foi com Una Martins. De uma maneira similar à sua, ela também demorou muito para lançar o primeiro CD, segundo ela, porque achava que o palco, a performance, o corpo em cena eram suficientes. Parece ter sido suficiente para você viver a poesia oral. Mas o corpo tem limitações de onde pode estar. E o mercado, por sua vez, valoriza a publicação, o registro de uma maneira importante.

É muito louco isso, né? Porque para mim a voz e a performance são suficientes. Mas o livro é que vai me levar para esses lugares. Para que eu possa me realizar com a voz e com corpo, fazendo performance e declamando poesias. É o que o mercado pede. Querendo ou não, um livro é um cartão de visita. Você escreve o projeto, manda seu trabalho que você faz e tudo o mais. Mostra o livro e o pessoal vai se interessar. E vai levar a apresentação a partir do livro. É muito louco porque o mercado inverte as coisas.

Eu queria propor um diálogo entre essas tuas referências, inspirações e vivências mais ligadas ao tradicional em São José do Egito, Arcoverde e Tabira com uma poesia oral contemporânea dos slams, que desde 2014 tem ganhado uma força impactante no cenário da poesia oral e da qual você tem participado. Como você enxerga a relação entre a poesia falada do Sertão com essa poesia falada que tem se internacionalizado como uma voz das periferias.

Tem muita coisa em comum. Muita proximidade. Muita semelhança. A única coisa que me incomoda, que é o que eu venho pensando muito, é que aqui (no Rio de Janeiro)  o Sertão não é visto como periferia. O Sertão é tão esquecido que a poesia falada – que tem séculos e séculos, que tá ali resistindo – não consegue chegar no protagonismo. A gente vive o momento no Brasil da poesia falada, é o que você tá dizendo, em vários lugares. Em quase todos os estados desse país hoje, a gente tem movimento de slam espalhado por aí. A cultura periférica, ela tá conseguindo se projetar, mas essa cultura periférica do interior de Pernambuco, do Nordeste e do Sertão, também sendo uma poesia falada não consegue se projetar e também não é vista, ainda, como a periferia. É invisibilizada. Então quando eu chego nos espaços, eu sinto um pouco isso. Porque de onde eu venho é também minha militância. É uma coisa também que me incomoda muito no slam. Já participei de vários. É um formato muito padronizado, com essa influência da cultura do hip hop. O tipo do texto, o tipo de performance, o ritmo, a estética, a postura política, a entonação da voz é um lugar que se tornou um formato muito específico e muito fechado. Eu, que venho de Pernambuco, que tenho outras referências, inclusive da poesia popular, acabo não sendo muito bem acolhida, nesse sentido, porque eu tenho uma diversidade temática, tenho uma diversidade estética. Tenho uma diversidade de performance, tenho outro ritmo, uma outra forma de falar. Eu tenho muitas outras influências: o rap também. A cultura do hip hop também, mas não é só isso. Então quando eu chego no slam e falo de amor, por exemplo – que é político… não estou falando nem de amor romântico. Eu estou falando de um lugar do amor, na perspectiva feminista, das feministas, dos feminismos e com fundamento racial também. Mas, como  não é o racismo diretamente o tema, você percebe que o acolhimento da plateia não é o mesmo…

Como se não fosse suficientemente político para aquele espaço?

Exato. Porque se construiu um formato. Que é preciso ter um tipo de texto, um tipo de temática. 
Quando vem algo diferente, existe um desequilíbrio: “Nossa! Por que isso tá aqui?”. Quando eu vim para a Flup (Festa Literária das Periferias, no Rio) no ano passado, o (slam) nacional tinha um clima de competição muito tenso. Tem um poema da Jazz (slammer mineira) que fala exatamente sobre isso. “Onde é que está a poesia? Onde é que está o dentro? E até onde a gente vai deixar a nota prevalecer sobre a poesia?”. Inclusive são questionamentos que estão vindo de dentro. As pessoas que estão participando do slam há mais de um ano, dois anos ali, três anos, já estão começando a questionar esse formato. Porque a gente já está o tempo inteiro no mundo, enquanto pessoas negras, periféricas, trans… os nossos corpos políticos que vêm de vários lugares, se posicionam de diversas formas. A gente já está o tempo inteiro tentando se inserir na sociedade. Quando a gente chega no slam, que é um espaço nosso, por que que a gente também tem que se enquadrar num formato único? Ano passado eu saí pensando muito sobre isso. E agora (no slam deste ano) estou em outro clima. De existir da minha forma, com a minha bagagem, com as minhas vivências. De ser quem eu sou. Tenho muita consciência da poesia que eu faço. A gente precisa começar a inserir outras coisas também. E mostrar que é possível a gente ter liberdade e não alimentar só a dor e a violência. A gente fica alimentando esse lugar do sofrimento, da dor, da violência e reforçando esse lugar e sofrendo muito. Então tem muitas poetas adoecendo. Entrando numa piração de fazer uma poesia específica para batalhar. E quando você vê, a poesia que você escreveu no ano passado ela tá defasada. Pieta (slammer mineira vencedora do slam internacional da Flup de 2019) disse: “Nossa! Tem um poema que eu gosto muito e tal, mas já aconteceu tanta coisa que eu preciso atualizar, tá defasado”. A poesia em si, a poesia tem como ficar defasada? Então o que a gente vem construindo? O que é que a gente quer? Que tipo de poesia que a gente tá fazendo? Então são questionamentos que estão vindo de dentro.

Circular pelo Sudeste nos mostra muito dessas relações de poder que existem entre as regiões do país. Me parece que as pessoas do Rio de Janeiro, de São Paulo ainda entendem muito pouco essa dimensão de opressão do Sudeste sobre o Nordeste. A gente é caricaturizado, exotificado, para falar das formas mais sutis de preconceito. Queria que você me dissesse sobre esses trânsitos. De sair de Pernambuco, do Nordeste e chegar no eixo Rio-São Paulo. Como é que você sente essa recepção que, por muitas vezes minimiza o fato de o Nordeste também ser uma periferia.

Eu sempre senti isso muito forte, mas, do ano passado para cá, é que eu venho sentindo isso com muito mais clareza. Parece que o pessoal do Sudeste se sente fazendo um favor quando recebe alguém do Nordeste. Eu não sei até que ponto as pessoas não percebem que exercem essa relação de poder. Isso é um problema muito grave, a meu ver. Outra coisa que eu ando questionando muito é que eu sou uma pessoa que sempre amou a cultura que é chamada popular. E aí lendo um pouco sobre essa questão da invenção do Nordeste, de como uma ideia do Nordeste se constrói – alimentada pela ideia da miséria, da seca. Quanto a literatura dos romances dos 1930 ajudaram a construir essa caricatura. E o que é que Gilberto Freyre tem a ver com isso, com o congresso regionalista? Estudando tudo isso, eu vejo como o povo é usado como patrimônio do Brasil para justificar uma identidade. Como o Nordeste também é usado para representar a identidade do Brasil, mas não é realmente valorizado. É muito bom dizer assim “Ah! O povo brasileiro, o nordestino, a cultura popular, o patrimônio do Brasil”, e o respeito não existe! Não é verdadeiro. Não é real! Por exemplo, o que nós mesmo fizemos com o Movimento Armorial foi pegar a cultura do povo pobre popular e a acessibilizar para a gente rica e colocar em teatro. Tirar a manifestação da rua e colocar em palco. Se apropriar e levar para a elite sob o argumento de estar unindo a cultura popular e a cultura erudita. O povo acessou isso? Não! Mas é muito bonito o argumento, né? Então se a elite branca pernambucana faz isso com a gente, no Sudeste isso acaba sendo muito pior. Porque vira fetiche. A pessoa fala um “Oxe”,  aí vem “ai que bonitinho o jeito que ela fala!”. Parece que tá olhando o animalzinho, fofinho, bichinho. “Fala de novo (pedem). “Ela fala ‘visse’”. Uma escritora que eu admirava muito daqui do Rio me disse isso. É que a Globo inclusive alimenta esse estereótipo. Quando pega um nordestino e coloca como retirante e reforça aquela fala, aquele sotaque. A gente não fala daquele jeito, a gente não tem aquele sotaque!

Por que que não chamam atrizes pernambucanas para fazerem esses papeis, ocuparem esses espaços e se comprometem de fato com a diversidade na representação do país? Por que tem que ser a Suzana Vieira?

Por que tem que construir uma personagem que vai forçar e que vai cair na caricatura, no estereótipo? E a gente tá aí agora, anos e anos, né?! Vai fazer um século já já dessa história toda do regionalismo, aí a pessoa chega para mim e fala: “Luna, eu amo poesia Regional. Amo conhecer poetas regionais!”. Eu não sou uma poeta regional. O que é uma poeta regional para você? Porque toda poeta vem de uma região. Cai no lugar do fetiche, do exótico. As pessoas acham que estão elogiando, mas é um elogio que acaba sendo muito contraditório. Todo cheio de incoerência. O que eu venho fazendo é me posicionar com relação a isso. As pessoas precisam começar a entender a dimensão do respeito, na prática. Existem várias frentes de militância. As pessoas não vão se comportar desse jeito comigo e sair ilesas. Vão falar isso e eu vou rebater. Eu não vou ficar calada mais! É uma relação de poder muito forte.

Sobre o seu livro Aquenda – o amor às vezes é isso, queria que você me dissesse como você recebeu a indicação ao prêmio. O que isso tem de significado pra você?

O livro me trouxe muitas felicidades. Sempre que a gente dá um passo para frente, questões novas surgem. É bem bom que a gente esteja muito atenta a essas questões novas, para que nada passe despercebido e que a gente esteja sempre refletindo criticamente com os nossos filtros sobre tudo que acontece. O livro me abriu muitas portas. Tenho participado de muito festivais. Tive muitas dificuldades para o livro estar do jeito que está: bonito e tudo mais, porque não é fácil ainda publicar um livro. Mesmo que a gente tenha hoje várias formas de fazer, várias editoras independentes e até a possibilidade da gente construir nosso próprio livro. O meu primeiro (livro) mesmo foi cartonero (artesanal, com capa de papelão). Mas aí eu não tinha o selo. Era um livro que eu mesma fazia para poder fazer meu corre, quando chegava nos eventos, e ter uma grana. E aí como que a gente pode usar tudo isso como uma forma de possibilitar outras pautas? E de usar isso como instrumento político também. O que significa para mim estar no Jabuti no ano em que Conceição Evaristo é a homenageado do prêmio Jabuti. Uma mulher que se candidatou para a Academia Brasileira de Letras e não entrou e está sendo homenageada no Jabuti. Eu vi uma entrevista do Marcelino (Freire) na Folha (de São Paulo) dizendo assim: “Estou cansado de ver minha cara de homem branco estampada nos prêmios. Quero começar desde já uma campanha para Conceição Evaristo concorrer ao Nobel de Literatura”. E aí ouvindo muito as falas de Conceição (Evaristo), ela sempre muito consciente disse: “Aqui (nos espaços de literatura) as pessoas podem me aplaudir de pé. Eu posso ganhar um prêmio, ser homenageada, mas, o preconceito, ele continua. O sofrimento, ele continua!”. Ela sai desse ambiente do trabalho dela, onde ela é reconhecida e quando ela tá na rua ela é só uma mulher negra. Eu posso tá sendo indicada ao prêmio Jabuti, mas quando eu estou na rua, ninguém sabe quem sou eu! Eu continuo sendo apenas uma mana preta aqui no Sudeste que vem do Nordeste e que veio da periferia e que trabalha com oralidade e que é professora também. Enfim… Até onde esse título também vale? Como, a partir dele, a gente pode refletir e se posicionar? Nós, que somos da literatura oral, que somos da periferia e que estamos nesse movimento da poesia falada, o quanto que a gente precisa também nos legitimar – porque não é o prêmio que nos legitima, somos nós que nos legitimamos – entendeu? Eu fiquei superfeliz com a indicação. Estou superfeliz. Sei que isso é superimportante de diversas maneiras e isso me faz pensar nessas coisas todas.

“O amor às vezes é isso”, é o subtítulo do seu livro Aquenda. Eu queria saber o que o a amor às vezes é?  

Na hora que eu comecei a pensar no livro, eu vi que eu falava muito de amor, mas o amor não nesse lugar do subjetivo, que a gente idealiza, sabe? O amor perfeito que a gente vai encontrar o nosso príncipe ou nossa princesa e que vai nos salvar e tudo mais. E quando olhei para minha própria trajetória, analisando meus poemas, vi que o amor estava sempre no lugar do sofrimento, sabe? De você ligar a televisão e ver que uma mulher foi jogada do quarto andar depois de ser espancada pelo cara que dizia “eu te amo” todos os dias. Você sai na rua e fica sabendo que Remis (Carla) foi morta, asfixiada pelo namorado e foi enterrada no terreno baldio. “O amor está morto e enterrado”, eu digo isso no meu livro. E nesse poema onde tem a palavra amor, é o nome Remis. Remis está morta e enterrada. Que amor é esse que tá matando Priscila, Manuela, Ana, Angélica, Remis, Alessandra? Que amor é esse que agride fisicamente, psicologicamente e emocionalmente? Que amor é esse que a gente vem construindo desde a infância e que nos pune e que nos mata? Esse amor que a gente sonha não é real. O amor, na prática, ele é o contrário. Então, o que é o amor de verdade? Pensando numa questão até mais filosófica e histórica, o cristianismo tem muita culpa desse amor agressivo. A gente fica pensando num deus que diz que ama a humanidade, mas que pune, que é vingativo, que está te vigiando. “Cuidado que Deus está vendo”. Um deus que entregou seu filho a morte para salvar a humanidade. Marcelino (Freire) tinha até um texto chamado Amor Cristão, que ele termina dizendo: “Cristo mesmo foi quem nos ensinou que se não houver sangue, meu filho, não é amor.” E como a gente naturalizou, né? Que o ciúme é a prova de amor. Que os conflitos, as brigas apimentam a relação. Que briga de amor acaba na cama e, se você vai ver as poesias, se você vai ouvir as músicas – seja de brega, de pagode, MPB, sertanejo – tudo coloca o amor nesse lugar: no lugar da traição, do sofrimento, da vingança. Em um lugar muito violento. A violência foi naturalizada. Tem um livro chamado A Prostituta Sagrada que diz que na época das sociedades neolíticas e paleolíticas – que eram matrilineares, a mulher era o centro dessas comunidades –existiam os templos das deusas, das prostitutas sagradas, onde os rituais eram feitos com relações sexuais para justamente agradecer e celebrar as deusas do amor. A gente tinha a elevação do espírito através do corpo. Com o tempo, quando a sociedade vai se tornando patriarcal, as casas das prostitutas sagradas, das deusas do amor, se tornaram a casa desse deus, feito à imagem e semelhança dos homens. E nós, mulheres, perdemos as nossas referências de deusas, de feminilidade, de liberdade, de prazer, de poder, de tudo. Porque a referência maior é esse deus à imagem e semelhança dos homens, que é agressivo, que pune, que é violento. Isso não me representa.

Queria te ouvir respondendo à pergunta que eu faço para todos os meus entrevistados e entrevistadas – uma pergunta que parte da polissemia da palavra entre, mas que é também uma expectativa minha de entender qual é projeto, o devir mundo que você sonha. Quem nesse mundo, nesse momento histórico, que corpos, que discursos, que poesias precisam entrar? Quem precisa entrar?

Somos todas e todos nós que já metemos o pé na porta – porque ninguém abriu a porta para dizer “entre”. A gente tá há 500 anos aí, nessa luta toda. Somos nós, mulheres, mulheres negras, mulheres da periferia, pessoas trans, pessoas que estão aí cada vez mais desconstruindo todos esses conceitos arbitrários que querem colocar a gente em caixinhas e nos guardar e nos trancar nesses armários.  É a gente que tá entrando com os dois pés na porta. Na verdade, é a gente que vai mudar o mundo para o que a gente quer e que a gente já tá começando a vislumbrar e construir. Somos todas nós.

Luna 1

Crédito: Rennan Peixe

 

O AMOR

o amor é feito bala perdida
que acerta um desavisado

ao cruzar a rua
ao dobrar a esquina

às vezes vem num soco
às vezes vem num grito

o amor às vezes é isso

uma panela de água fervendo
no rosto de alguém querido

às vezes esmola
às vezes migalha

que se devolve com um tiro
ou acaba em facada

o amor tem medo da vida

uma hora eleva
na outra arrasta

desconfia da sorte
tem medo da falta

o amor corresponde à entrega
com uma rasteira e às vezes mata
de tirania
de asfixia
de ciúme
de raiva

como alguém que se alimenta
e de repente engasga