Uma mensagem e um vídeo enviados por whatsapp funcionaram quase como uma colonoscopia: vi como os intestinos da milícia digital bolsonarista continuam a funcionar em plena pandemia, criando culpados e tentando transferir para outros as responsabilidades por uma crise que se mostra além das capacidades de quem está no Governo Federal.

Quem me enviou os zaps foi um sujeito (ex-militar, aposentado, morador de prédio chique em bairro de classe média alta) que não me mandava nada há mais de um ano. O conheci por causa de futebol, único ponto de convergência que poderia nos fazer dialogar, caso fosse do meu interesse desperdiçar tempo e paciência.

Recordo agora que, há algumas semanas, ele saiu do nada para comentar uma postagem no facebook em que compartilhei uma matéria do Intercept sobre os áudios dos pastores que aproveitariam a presença de Ricardo Lopes Dias para converter índios na marra. Um trecho dos seus comentários dá para ter ideia do que passa pela cabeça do personagem: “…Toda civilização tem contato com outras religiões , no Brasil, os esquerdistas desejam que os nossos índios vivam como primatas”

No zap enviado sexta-feira, esse senhor me “convida” a assistir um vídeo que, segundo ele, era de um “analista militar”. Imaginou um especialista em temas relativos à forças armadas? Esqueça, trata-se de um canal de youtube chamado “Hoje no Mundo Militar” com vídeos curtos narrados em off por um locutor com aquela entonação de voz enjoada, forçada, na falta de um adjetivo mais preciso. Um produto com a marca registrada do “gabinete do ódio” dos Bolsonaro, pai e filhos.

Antes de bloquear o contato do sujeito, assisti ao vídeo que pretendia provar porque a China seria a responsável pela pandemia do coronavírus. Foi muito didático: entendi um monte de coisas. Nenhuma delas, porém, tem a ver com o tal mundo militar ou com a epidemia em terras chinesas.

Atenção para a cronologia

Pra começar, vamos às datas: o ensurdecedor panelaço contra o chefe do clã aconteceu na noite de 18 de março; o zero-três (ou Eduardo Bananinha, de acordo com o próprio vice-presidente) usou as redes sociais para responsabilizar a China no da seguinte, 19 de março; no dia 20, o vídeo é colocado no ar e, imediatamente, começa a circular nos grupos bolsonaristas, alcançando 358 mil visualizações enquanto escrevo. Ainda em 20 de março, à noite, duas faixas com insultos ao embaixador chinês são colocadas diante da Embaixada. No domingo, 22, outro canal bolsonarista, o Jornal da Cidade, voltava a publicar mais um vídeo responsabilizando a ditadura chinesa pela doença.

Mais outro fato, antes de partir para minhas deduções: não há novidade alguma no tal vídeo, revelação bombástica passa longe. É apenas um resumo distorcido para alimentar a matilha de cães hidrófobos do whatsapp.

Quem fez o vídeo teve pouco trabalho. Bastou um corta-e-cola em notícias sobre o médico chinês que deu o primeiro alerta para um surto de doenças respiratórias em Wuhan para depois ser enquadrado pela polícia local (no vídeo, foi o “partido comunista” quem o enquadrou) e o requentamento de notícias antigas sobre o desaparecimento de dois jornalistas que cobriam a epidemia (no vídeo o número foi multiplicado por cinco, sem nomes nem circunstâncias para os outros oito desaparecidos).

Todas essas informações estão disponíveis em sites brasileiros e europeus. A tal “mídia comunista” não escondeu nada disso. Aliás, não fosse as notícias dos portais, o pseudo “analista militar” sequer poderia fazer seu vídeo.

Para quê?

Para culpar os outros, livrando-se da própria responsabilidade e incapacidade de coordenar nacionalmente as ações contra a pandemia. Ou de entendê-la.

No final de semana, além da China, o gabinete do ódio escolheu outro alvo: os governadores, que segundo o presidente, seriam responsáveis por espalhar o pânico ao impor quarentena e paralisar o país. No sábado, antes de atacar a China, o Jornal da Cidade postou um vídeo com um médico anestesista (sim, anestesista!) dizendo que há “pânico desnecessário” sobre o tema. O site, porém, continua com maior parte de suas manchetes apontadas para os chineses. O comando para virar a chave ainda não foi dado.

Ao mesmo tempo, nos grupos de whatsapp passou a circular mais uma teoria da conspiração:

O gabinete do ódio parece ter voltado ao modo “campanha eleitoral”.

O panelaço deu a real dimensão de como foi devastador para o capital político de Bolsonaro o impacto das suas próprias palavras, das cenas em que se atrapalhava com uma máscara cirúrgica e, mais ainda, ter desrespeitado a quarentena para se misturar aos participantes das manifestações de 15 de março.

Os cães raivosos continuaram a babar, porém encostaram seus respectivos traseiros na parede, acuados pelas panelas. Era preciso estimulá-los com um pouco de carne fresca para que voltassem a latir e urrar. Era preciso encontrar novos culpados para as presas e mandíbulas digitais dos apoiadores.

Foi aí que o zero-três ou algum dos jovens bem remunerados do “gabinete do ódio” teve a ideia genial (alerta de ironia) de insultar o maior parceiro comercial do Brasil.

A surrada pregação ideológica surtiu efeito apenas entre a matilha digital. Atiçados pelo vermelho da bandeira chinesa, os cães raivosos voltaram ao ataque. Um deles, um contador de Rondônia, decidiu processar a República Poplular do China, alguns colocaram as faixas na frente da embaixada, outros espalharam o vídeo feito sob encomenda para os esquerdistas mais à mão. Fora dela, até os aliados que fazem negócios com a China, reagiram mal.

Os ataques devem continuar, porém esta semana a mira parece que irá se voltar contra os governadores dos estados que se mobilizam para conter o vírus (mancomunados com a China, segundo a paranoia bolsonarista). A ira da família Bolsonaro se dirige mais ao governador João Dória, de São Paulo, e a Wilson Witzel, do Rio de Janeiro. Por conta da pandemia, ambos têm cadeira cativa nos telejornais nacionais e podem conquistar o próprio eleitorado do atual presidente.

É uma aposta arriscada do presidente e de sua milícia digital. A cada cadáver, a cada novo boletim com milhares de novos casos, a doença passa a ser uma realidade próxima para todos os brasileiros, não mais uma epidemia na distante China ou na rica Itália.