O que a compra do colégio Apoio revela sobre os rumos da educação pública

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No dia 29 de outubro, pais, mães e responsáveis por alunos do colégio Apoio receberam por e-mail um longo comunicado em que as quatro sócias – todas professoras de formação – comunicavam que o grupo Bahema Educação iria assumir o negócio. No mesmo dia, o grupo paulista postou no site oficial um comunicado para os investidores sobre a compra de 100% do colégio por R$ 15.792.700,00 – 40% pagos na mesma data e o restante dividido em 36 meses. Entre os primeiros projetos do novo grupo está a ampliação do número de turmas e a criação do ensino médio para 2021.

No mercado há 35 anos, o colégio Apoio tem 1.200 alunos na educação básica, 250 funcionários e trabalha um conteúdo pedagógico baseado no sócio-construtivismo. Não há notas, mas conceitos. Há psicólogos à disposição dos alunos e a inclusão é estimulada. Já a Bahema começou sua história há 66 anos, na Bahia, com Afrânio Affonso Ferreira vendendo máquinas agrícolas. Filho do fundador, Guilherme Affonso Ferreira fez fortuna investindo mercado de ações. Em 2016, o filho dele, Guilherme Affonso Ferreira Filho, e um sobrinho, Fred Affonso Ferreira, fundaram a Bahema Educação. No ano seguinte, o consultor financeiro Bruno Belliboni se juntou à empresa.

No mesmo ano da fundação, Guilherme Filho foi um os organizadores do 3º Fórum Liberdade e Democracia, que contou com a participação do então deputado federal Jair Bolsonaro e de um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), Fábio Ostermann. A partir de 2017, a Bahema Educação passou a comprar escolas com alta credibilidade, muitas delas reconhecidas pela educação inclusiva e progressista. A cada compra, a participação de Guilherme no Fórum vinha à tona e gerava polêmica (e indignação) entre pais e alunos.

Apoio funciona em sete imóveis em Casa Amarela. Foto: Inês Campelo

Apoio funciona em sete imóveis em Casa Amarela. Foto: Inês Campelo

Foi assim, por exemplo, com a aquisição das escolas da Vila, em São Paulo, e Parque, no Rio de Janeiro, e Balão Vermelho, em Belo Horizonte. Quando a venda do Apoio foi anunciada, muitos responsáveis pelos alunos da escola se sentiram traídos. Em conversa com a reportagem da Marco Zero, um questionamento era comum: Como uma escola tão progressista estava sendo entregue a um grupo de investidores supostamente apoiadores de uma política tão retrógrada?

O comunicado da venda já avisava aos pais que o colégio estava pronto para esclarecimentos. Foram três reuniões. Guilherme Affonso Ferreira Filho participou de todas e foi questionado sobre suas inclinações políticas. Descrito como simpático e educado, Guilherme se definiu, então, como um “libertário”. Em entrevista por e-mail à Marco Zero Conteúdo, ele afirmou que “libertário, ao pé da letra, significa acreditar na liberdade absoluta. Não sou de “direita” nem “esquerda”, sou humanista, acredito na liberdade de escolha e respeito a todos”.

Pais e mães ouvidos pela Marco Zero têm receio que o Apoio se transforme em apenas uma mercadoria, podendo ser trocado, vendido e mudado de acordo com seus resultados financeiros. “Não nos associamos às escolas para mudar seu DNA, muito pelo contrário, queremos perenizar os projetos pedagógicos de cada uma delas com gestão profissional. Mas a escola precisa dar lucro”, se defende Guilherme (entrevista completa abaixo).

Os colégios de metodologia progressista adquiridos pela Bahema nestes últimos dois anos foram abarcados em um subgrupo chamado Critique. O comando pedagógico dessas escolas butiques – de médio porte e com alto conceito – estarão a partir de 2020 sob a tutela de Sônia Barreira, professora que foi uma das fundadoras da escola Vila.

Em todas as escolas que adquiriu o grupo Bahema Educação teve mais ou menos o mesmo modus operandi. A escolha é por escolas bem conceituadas, progressistas e, muitas vezes, sem sucessão natural. Há um contrato com os antigos proprietários para que continuem como gestores pedagógicos por determinado período, enquanto a Bahema assume a administração e o financeiro. O grupo não compra estruturas físicas: leva a marca, o programa pedagógico e a carteira de estudantes.

No caso do Apoio, as quatro sócias não tinham sucessores entre familiares. Duas delas, Lillian Clark e Ceça Gomes, após quase 40 anos de trabalho, queriam se aposentar. As negociações com o Bahema transcorreram em sigilo. As duas sócias que permanecem são Rejane Maia e Terezinha Cysneiros, que agora receberão um salário da Bahema pela coordenação pedagógica. Devem permanecer por, pelo menos, mais quatro anos à frente da escola. “Está determinado por contrato”, explica Rejane. Dos sete imóveis onde o Apoio funciona, no bairro de Casa Amarela, apenas dois pertencem às sócias. A partir de 2020 estarão todos alugados à Bahema Educação.

Experimentos para abocanhar recursos públicos

O que interessa na venda do colégio Apoio ao grupo Bahema não é tanto o receio de responsáveis e alunos de que o a instituição mude seu projeto pedagógico. Há uma questão bem mais ampla: a compra explicita um recente movimento no mercado da educação privada que pode ameaçar o desenvolvimento da educação pública brasileira.

Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, Celso Napolitano é um pesquisador do mercado da educação. Se, até poucos anos, atrás era a universidade privada a menina dos olhos do empresariado – e que fez a fortuna de muitos, apoiados em programas como o Fies e o ProUni – hoje a aposta para mina de ouro é a educação básica. Uma frase e uma transição são citadas pelo professor para marcar essa virada.

A frase é a do presidente do maior grupo educacional brasileiro, o Króton, avaliado em mais de R$ 17 bilhões, Rodrigo Galindo. Em 2015, ele disse algo como “o ensino superior tem cliente cativo por 4 anos. No básico, o cliente é cativo por 12 anos”. “Mudar o filho de escola é sempre um processo difícil, porque é retirar uma criança, um adolescente do seu meio de convívio social. Em escolas progressistas, como as que a Bahema vem comprando, tem um fator a mais. Muitos pais participam de grupos, presenciais e virtuais, e há uma conexão de amizade também entre os adultos. Tirar a criança da escola é quebrar esses laços”, diz Napolitano.

A transição foi quando, em 2017, o bilionário libanês Chaim Zaher vendeu sua parte no grupo Estácio por R$ 430 milhões e investiu boa parte disso na aquisição de escolas da educação básica.

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O sócio da Bahema, Guilherme Affonso Ferreira Filho. Foto: reprodução Pressreader.com

Os grandes grupos de educação estão atuando com estratégias parecidas nos últimos anos. Investem primeiramente em escolas conceituadas e com projetos pedagógicos fortes. São escolas para a classe média alta, com ticket médio entre R$ 1,5 e R$ 2 mil. É a faixa, por exemplo, do Apoio. Em seguida, usam a expertise das escolas butiques para fundarem escolas mais acessíveis, com mensalidades abaixo dos R$ 600, localizadas em bairros populares. É o que Zaher vem fazendo desde o ano passado, com planos de ter 25 escolas e 30 mil alunos com mensalidades em torno dos R$ 400. A Bahema Educação está tocando projeto semelhante com a Escola Mais, na Zona Leste de São Paulo.

É nessas escolas que se encontra não só um negócio lucrativo em si, mas também a promessa para algo maior. Para o professor Celso Napolitano, é uma experiência para que, em um futuro próximo, essas empresas privadas possam conseguir oferecer aos governos estaduais e prefeituras um modelo em que seja mais barato – ou a mesma coisa – pagar a escola privada ao invés de investir no ensino público. Seria, então, a privatização do ensino público no Brasil.

Essa prática já foi inclusive apoiada pelo ministro da economia Paulo Guedes como uma solução para a educação pública, ao citar o sistema de vouchers, adotado no Chile durante o governo de Pinochet – e reformulado e questionado a partir da década de 1990. Mês passado, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender o sistema. No Brasil mesmo, há três anos este modelo está sendo utilizado provisoriamente para creches, desde que uma Emenda Constitucional começou a valer e incluiu a educação infantil na educação básica. Como mostra esta reportagem do projeto Colabora, o Distrito Federal, Salvador e algumas cidades do Rio Grande do Sul usam ou usaram o modelo de vouchers para tapar a brecha da falta de creches públicas.

Para Guilherme Affonso Ferreira Filho, o sistema de vouchers é “um modelo que vale a pena testar. Não temos um modelo fechado nem uma solução mágica para melhorar a educação nem vamos ficar esperando o governo se mexer. Mas estamos testando e aprendendo. O voucher é um modelo pouco utilizado no mundo e ainda existem dúvidas sobre sua eficácia”, disse.

Nas reuniões com pais, mães e responsáveis pelos alunos do Apoio, Guilherme afirmou que vê a educação privada como a solução para a educação pública brasileira. Questionado pela Marco Zero como se daria isso, ele respondeu que “infelizmente, o governo já mostrou que não é capaz de prover educação básica de qualidade a, aproximadamente, 50 milhões de crianças e jovens brasileiros. Há exceções mas na maioria das vezes a educação básica pública não é boa”.

Os ganhos que os grandes grupos investidores podem ter no setor da educação pública não se restringe, claro, ao sistema de vouchers. “São muitos negócios que podem ser feitos. Como o oferecimento de apostilas, livros, educação à distância. Recentemente, o grupo Króton se dividiu em quatro empresas para dar conta dessas operações”, conta o professor Celso Napolitano.

Em linhas gerais, os grupos educacionais estão em um momento de apostas. “Se vier o voucher, nessa linha liberalizante, o mercado está se preparando para isso, mostrando que tem um projeto educacional importante. A compra de escolas com projetos progressistas está dando um verniz a esse projeto”, explica. “Para o poder público teoricamente parece que resolve: ao invés de você fazer comida, você compra um lanche fora. Em termos de projeto educacional de um país, a gente vai ficar nas mão dos grandes investidores e a educação vai depender da bolsa de valores. O projeto vai ter sentido enquanto houver lucratividade”, alerta Napolitano.

Entrevista// Guilherme Affonso Ferreira Filho, do grupo Bahema Educação

Por que investir em educação em um momento de crise econômica?
Educação é uma prioridade para as famílias e deveria ser também para o país. É um investimento de longo prazo. Por essas razões, crises econômicas, que são passageiras, não interferem na decisão de investimento. Para nós, investir em educação é uma das melhores forma de contribuir com o desenvolvimento do Brasil e um dos motores da recuperação econômica.

Com a compra do colégio Apoio, o Bahema Educação entra no mercado nordestino. Vocês tem algum interesse em adquirir outras escolas na região? Já visitamos centenas de instituições de ensino básico em todo o Brasil e olhamos sempre para as boas escolas, independentemente da região.

Por que adquirir escolas com modelos pedagógicos progressistas e construtivistas? Há um receio de pais e alunos de que se trate de um projeto para desmantelar esse tipo de proposta escolar e, ao longo dos anos, substituí-la por um modelo mais voltado para o mercado.
Estamos de olho em boas escolas, não consideramos que exista um modelo pedagógico ideal para todas as famílias. Pode ser construtivista, bilíngue, conteudista, depende muito das necessidades e escolhas das famílias e alunos. Não há interferência da Bahema Educação no projeto pedagógico das escolas. Não mudamos as marcas, os educadores e o projeto pedagógico. Nossa contribuição é na gestão das áreas administrativa, financeira, TI e comunicação, por exemplo. Não nos associamos às escolas para mudar seu DNA, muito pelo contrário, queremos perenizar os projetos pedagógicos de cada uma delas com gestão profissional. Mas a escola precisa ser sustentável, precisa dar lucro para poder investir nela mesma, em seus alunos e, assim, contribuir para o desenvolvimento do país. Outra premissa é que a troca de saberes e de boas práticas entre as escolas parceiras melhora as instituições, uma pode aprender com a outra e melhorar sem ferir seu DNA.

Aqui no Recife se repetiu a polêmica de que o grupo Bahema apoia ou tem relações com personagens da extrema direita, por conta da sua participação na organização do 3º Fórum Liberdade e Democracia, que contou com a participação de Jair Bolsonaro e Fábio Ostermann, do MBL. No Recife, em reunião com pais e alunos, você se definiu como “libertário”. O que isso significa?
Libertário, ao pé da letra, significa acreditar na liberdade absoluta. Não sou de “direita” nem “esquerda”, sou humanista, acredito na liberdade de escolha e respeito a todos. A Bahema não tem um posicionamento político partidário.

Você também falou que era o ensino privado quem iria melhorar a educação pública do Brasil. Como se daria isso?
Para nós, infelizmente, o governo já mostrou que não é capaz de prover educação básica de qualidade a, aproximadamente, 50 milhões de crianças e jovens brasileiros. Há exceções mas na maioria das vezes a educação básica pública não é boa. A maioria das escolas investidas até agora pela Bahema tem mensalidades para classe A e B. Estamos aprendendo muito com essas escolas e compartilhando conhecimento. Estamos trabalhando e testando modelos de escolas mais acessíveis à maioria dos estudantes brasileiros. É o caso da Escola Mais, em São Paulo. O modelo é fazer uma escola “boa e barata”, cuja missão é levar educação de alta qualidade por um preço que caiba no bolso de todos.

Qual a opinião dos sócios da Bahema Educação sobre a sugestão do ministro Paulo Guedes de se disponibilizar vouchers, bancados pelo governo, para que alunos do ensino público estudem em escolas privadas?
Achamos que é um modelo que vale a pena testar. Não temos um modelo fechado nem uma solução mágica para melhorar a educação nem vamos ficar esperando o governo se mexer. Mas estamos testando e aprendendo. O voucher é um modelo pouco utilizado no mundo e ainda existem dúvidas sobre sua eficácia. Mas, novamente, o importante é testarmos soluções, com certeza não irá existir uma única solução mágica para resolver o problema da educação no Brasil.

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