O que está acontecendo no Ibura?

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por Débora Britto e Mariama Correia

Há cerca de uma semana, comunidades que fazem parte do bairro do Ibura, na Zona Sul do Recife, estão convivendo com o medo de sair às ruas e de permanecer dentro de casa. Assassinatos, tiroteios e relatos de moradores sobre investidas violentas da polícia dentro de casas, sem mandado, justificam a pergunta ainda sem resposta: o que está acontecendo no Ibura?

O Fórum Popular de Segurança Pública de Pernambuco encaminhou ofício, na manhã desta sexta-feira (15), à Diretoria de Articulação Social e Direitos Humanos da Polícia Militar solicitando um reunião oficial para entender o que está acontecendo nas comunidades do bairro. O objetivo é abrir um canal de diálogo com a corporação para viabilizar uma reunião ampliada com o comando do 19º BPM e as comissões de Direitos Humanos da OAB, das casas legislativas e outras organizações que compõem o fórum. Segundo Edna Jabotá, coordenadora do Gajop (Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares), que faz parte do fórum, o ofício foi recebido, mas ainda não foi respondido.

A urgência de entender o que está acontecendo e quais são as ações e planos da corporação para lidar com o problema veio de demanda da sociedade: nas redes sociais, há diversos relatos de insegurança, revolta e medo que por hora dominam algumas comunidades do bairro. “Precisamos envolver diversos atores para dialogar sobre o que está acontecendo lá [no Ibura]no sentido de mostrar que existe uma série de organizações com esse foco que está acompanhando de perto e vai fazer as denúncias que forem necessárias, desde que não vulnerabilize as pessoas que moram no território”, explicou Jatobá.

Escalada de violência

Em nota pública, a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), afirma que existe uma guerra instaurada no Ibura. “Nos últimos dias o Ibura tem vivenciado a face mais perversa do projeto genocida do Estado, o bairro que assim como toda favela urbana é alvo da violência institucional executada pela força armada da polícia, vem enfrentando um clima de guerra, desde domingo (10.06.18) foram diversos os confrontos armados e ações violentas no território, que resultaram em mortes, pessoas feridas por armas de fogo e agressões físicas”, diz o documento, que foi construído com base em relatos de moradores das áreas afetadas.

Ainda de acordo com a nota, nos últimos dias quatro jovens negros foram assassinados. Para o movimento, este fato sugere a vinculação das ações que a PM estaria realizando `com a guerra às drogas, que mira e vitima a população jovem negra. “As ações efetuadas por agentes de segurança pública e grupos armados vem acontecendo durante a semana em diferentes horários de circulação intensa de moradores, afetando de forma grave principalmente os trabalhadores e trabalhadoras que moram na comunidade, e colocando na mira do cano o grupo social do projeto de genocídio do Estado: A juventude negra!”, afirma a nota, que também é assinada pelo Fórum Popular de Segurança Pública de Pernambuco (FPSP)– a RENFA compõe a articulação da sociedade civil.

O clima tenso, na verdade, estaria concentrado na comunidade Milagres, que tem histórico de violência relacionado ao tráfico que, segundo especialistas, fugiria à prática de outras regiões da capital pernambucana. A motivação para a rápida escalada de violência – há relatos de moradores de que há assassinatos todos os dias, com corpos enterrados e ocultados – ainda é desconhecida por movimentos que atuam no bairro.

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar de Pernambuco afirmou que não há registro de nenhuma situação extraordinária no Ibura, ou mesmo dos conflitos que a nota denúncia. A corporação respondeu às denúncias de suposto abuso policial orientando que moradores que têm queixas da ação policial no local deveriam procurar a Corregedoria da PM.

A insegurança, no entanto, continua para moradores e ativistas que acompanham o debate da segurança pública. A possibilidade de envolvimento de agentes do Estado impõe o medo e exige cautela das organizações, que ainda avaliam que ações podem ser feitas no território, em diálogo com moradores. “O fórum não pode tomar nenhuma atitude que vá de encontro ao que os moradores achem que é preciso fazer para resguardar a segurança. A gente não vai procurar Corregedoria, Ministério Público se esta não for a indicação dos moradores. A gente não pode atuar como ator externo, fazendo as denúncias e o pessoal ficar lá visado, exposto”, explicou Jatobá.

Números incertos

A partir de notícias da mídia local e de acordo com o aplicativo Fogo Cruzado, que monitora a violência armada no Grande Recife diariamente, desde o dia 06 de junho houve um aumento no registro de tiroteios e vítimas por arma de fogo no Ibura.

Segundo matéria da TV Jornal, no dia 6 de junho um tiroteio vitimou três homens por disparos de arma de fogo, apenas um deles deles morreu.

No dia 14 de junho, outra notícia do mesmo veículo registrou o assassinato de dois jovens que tiveram os corpos jogados de barreira na comunidade de Vila dos Milagres. O crime teria acontecido na madrugada do dia 13 de junho.

O Fogo Cruzado registrou ainda em junho o caso de um adolescente de 16 anos ferido por disparos de arma de fogo na Comunidade do Candeeiro, também no Ibura.

A Secretaria de Defesa Social (SDS) informou que não divulga recortes de bairro por” questões estratégicas de policiamento”. Até o fechamento da reportagem, não respondeu às demandas enviadas.

Perguntas enviadas à SDS:

- Há algum tipo de conflito acontecendo entre a polícia e grupos armados no Ibura neste momento?
- Esse conflito se intensificou na última semana?Quais são as circunstâncias? Qual tem sido a estratégia da polícia no local?
- A SDS confirma o assassinato de quatro jovens desde o domingo? Quem eram eles e quais as circunstâncias das mortes?
- Houve um aumento de mortes violentas na região neste primeiro semestre? De quanto?
- A denúncia feita pela Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas critica a atuação policial no local. Diz que os policiais estaria invadindo casas sem ordem judicial. Gostaria de uma resposta da SDS para a denúncia.

Toque de recolher e lei do silêncio

O clima de terror que se instalou nas comunidades afetadas pela onda de violência impôs um toque de recolher aos moradores. Crianças estão sem condições de ir às escolas e há relatos de a única creche, localizada na comunidade do Caique, tem fechado mais cedo. A condição de vulnerabilidade de mulheres com filhos pequenos se agrava, seja por não ter com quem deixar as crianças para trabalhar, seja por não ter alternativa segura. Mesmo dentro de casa há o sentimento de insegurança.

“Tem policiais invadindo casas, todo dia está morrendo gente aqui, desde a semana passada. Hoje mesmo invadiram barraco de uma amiga e houve um tiroteio durante o dia. O policial chegou atirando na rua, mandou o povo correr, era cinco horas da tarde”, relata um moradora da comunidade, que prefere não se identificar com medo da violência que adentrou as casas de trabalhadores nos últimos dias.

Quem tem oportunidade está se mudando. Na quinta-feira, moradores que conversaram com a reportagem contaram ver ao menos três caminhões de mudança na comunidade do Caique. Apesar de conviver em um contexto de violações de direitos, moradores afirmam não saber o que motivou o aumento da violência.

“Nossa comunidade vem sofrendo violência policial 24h por dia. A violência policial aqui sempre existiu. Isso não é novidade. Mas se algum tempo para cá vem sendo pior. O problema está sendo mesmo dessa guerra. De traficante com a polícia, não sei. Ontem teve troca de tiros. Não importa se tem gente em casa ou se não tem. Eu não dormi em casa com medo, cheguei com essa notícia. Eu não sei a motivação”, conta uma moradora.

Outra mulher que não quis ser identificada tem duas filhas, uma bebê e outra adolescente, que há uma semana não vai às aulas pelo medo da volta para casa. Segundo ela, há o boato de que três homens encapuzados teriam atirado em dois jovens. “Eles não sabem quem é, nem a mando de quem. Está rolando história de que é briga de tráfico. Não tem certeza”, diz. No dia anterior, na rua em que vive, um carro estacionou atrás de sua casa e desceram quatro homens armados, obrigando moradores a se trancarem dentro de casa. O comércio também fechou.

Até a publicação desta reportagem, o nota pública havia sido compartilhada mais de 200 vezes numa rede social.

Leia nota na íntegra da RENFA:

“NOTA PELO FIM DO GENOCÍDIO NO IBURA/Recife

A Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas escreve essa nota para manifestar a indignação e preocupação com a situação de guerra instalada no bairro do Ibura. O Ibura é um dos bairros localizado no território sagrado dos morros recifenses, tem cerca de 50mil pessoas e assim como em vários morros da cidade o Ibura é fruto das ocupações intensificada na década de 60, abrigando famílias pobres removidas de áreas centrais da cidade vítimas da higienização social, que assim como todo povo pobre, que viveu essa gentrificação mas ressignificou o bairro com luta, amor e resistência.

Hoje o Ibura abriga vários coletivos de luta social, coletivos de cultura, de poesia, organizações comunitárias, mais de 40 associações de bairro, e várias ativistas dos direitos humanos, artistas, produtoras, líderes comunitárias, gente que faz do bairro um lugar que não deixa os sonhos morrerem. Nos últimos dias o Ibura tem vivenciado a face mais perversa do projeto genocida do Estado, o bairro que assim como toda favela urbana é alvo da violência institucional executada pela força armada da polícia, vem enfrentando um clima de guerra, desde domingo (10.06.18) foram diversos os confrontos armados e ações violentas no território, que resultaram em mortes, pessoas feridas por armas de fogo e agressões físicas. As ações efetuadas por agentes de segurança pública e grupos armados vem acontecendo durante a semana em diferentes horários de circulação intensa de moradores, afetando de forma grave principalmente os trabalhadores e trabalhadoras que moram na comunidade, e colocando na mira do cano o grupo social do projeto de genocídio do Estado: A juventude negra!

Quatro jovens mortos, vários carros da polícia circulando o bairro dia e noite ameaçando moradores, invadindo e revirando casas sem ordem judicial, coagindo até mesmo quem está dentro de casa, espaço que é violado diariamente pelo contexto de guerra nas favelas. Em Pernambuco até esse mês morreram mais 360 pessoas, a banalização da violência, é um fenômeno crescente entre a população que não se comove com o corpo de jovens negros ensanguentados, mas se revolta a qualquer ameaça a propriedade privada. O genocídio do povo negro é projeto racista da burguesia que desde a escravidão deseja controlar nosso povo com violência.

A proibição das drogas é o motivo usado pelo Estado para autorizar a polícia a violar direitos, matar pessoas e prender inocentes diariamente nas periferias de todo Brasil, todos os dias têm violação de direito nas periferias, morros e favelas das cidades. Além de lidar com a ausência de comoção dos governantes da mídia local e da população a favela se depara com o silêncio revoltante das organizações, movimentos sociais, parlamentares e pessoas que diariamente se colocam como defensores dos direitos humanos, mas que não tem se incomodado com os apelos feitos por moradores do bairro Ibura durante toda essa semana.

Convocamos a todos os movimentos sociais e organizações que são parceiros nessa luta, e que reconhecemos com grande poder de articulação e mobilização, para fazer a defesa da VIDA do povo que mora no Ibura e todas as comunidades pobres, que vem sendo violadas. É urgente causar a comoção da população pelas vidas das crianças, mulheres, jovens negros e moradores desses bairros.

Exigimos que essa guerra acabe, que as autoridades legislativas, executivas e judiciárias se manifestem e assumam sua responsabilidade pela retirada do braço armado nos territórios, e a garantia do fim desse confronto violento. Exigimos a igualdade de condições para combater essa lógica racista e repressora, não admitimos um mundo onde as armas que chegam nas mãos das crianças nas favelas tenham mais tempo e trajetória de vida que elas. CONTRA O GENOCÍDIO, NENHUM PASSO ATRÁS!

Esse texto foi escrito com o depoimento e diálogo com pessoas que moram nas comunidades do Ibura”

**** Atualização***

Três dias após a publicação desta reportagem, a Polícia Civil de Pernambuco enviou a seguinte nota de esclarecimento:

A Polícia Civil de Pernambuco informa que vem investigando um conflito envolvendo dois grupos rivais que disputam o domínio do tráfico de drogas no bairro do Ibura, na Zona Sul do Recife. Desde o último domingo (10), dois homicídios e duas tentativas de homicídio foram registrados na região. As identidades das vítimas e as circunstâncias desses crimes ainda não foram divulgadas para não atrapalhar as investigações.

A Polícia Civil esclarece que não registrou a participação de policiais nessas investidas. No entanto, investigações preliminares apontam que, para facilitar a abordagem aos grupos rivais, criminosos chegaram usar coletes e simularam que eram policiais em parte desses crimes. Em um dos casos, os criminosos chegaram ao local do crime gritando “polícia”. Isso pode ter gerado a falsa impressão de que policias participaram das investidas.

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil (DHPP) instaurou inquéritos para apurar todas as ocorrências, e as investigações estão em estado avançado. Além disso, medidas judiciais vêm sendo tomadas para garantir a prisão de todos os responsáveis.    

 

Atlas põe oito municípios de PE no ranking da violência

A escalada de violência do Ibura coincide com a revelação de que oito municípios de Pernambuco estão entre os 123 municípios brasileiros  responsáveis por metade das mortes violentas no país, de acordo com o Atlas da Violência 2018 – Políticas Públicas e Retratos dos Municípios Brasileiros. A pesquisa foi divulgada nesta sexta-feira (15) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A capital Recife, Jaboatão dos Guararapes, Caruaru, Olinda,Cabo de Santo Agostinho, Paulista, Petrolina e Camaragibe entraram nesse ranking, que considera dados de 2016.

Entre os 123 municípios listados pelo Ipea – o equivalente a 2,2% do total – estão alguns com menos de 100 mil habitantes. “Decidimos fazer uma análise mais abrangente para que os governos possam decidir onde focar suas políticas públicas de combate à violência”, explica o pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas, Daniel Cerqueira.  Ainda olhando para essa análise, no comparativo com 2015 houve um aumento de municípios que respondem por 50% das mortes violentas no Brasil, de 109 para 123 municípios. O Ipea considera que o fenômeno é “parte de um processo em curso, desde meados dos anos 2000, quando tem-se observado um espraiamento do crime para cidades menores”.

Além desse ranking complementar, o Atlas do Ipea traz como análise principal a relação dos municípios mais e menos violentos do Brasil com mais de 100 mil habitantes. Foram analisados 309 municípios no total. Entre os trinta mais violentos está, novamente, o Cabo de Santo Agostinho em Pernambuco, que ficou na 18º posição com uma Taxa de Homicídios + Mortes Violentas com Causa Indeterminada (MCVI) de 81,4. No comparativo com a última pesquisa do instituto, o Cabo caiu da 10º posição (85,3) para a 18º (81,4) posição, mas ainda mantém uma taxa elevada. Recife, Jaboatão dos Guararapes, Olinda, Caruaru, Paulista e Camaragibe, por outro lado, apresentaram aumento das Taxas de Homicídios + MCVI.

O Atlas do Ipea também fornece informações sobre a qualidade de vida das populações dos municípios pesquisados, como níveis de educação infantil, vulnerabilidade econômica e acesso à habitação. O relatório mostra uma relação entre esses indicadores e os níveis de violência. No Cabo de Santo Agostinho, por exemplo, os dados revelam altas taxas de desocupação e de vulnerabilidade juvenil. O percentual de pessoas de 15 a 24 anos que não estudam nem trabalham e são vulneráveis à pobreza chega a 19,9%, enquanto a média para municípios com mais de 100 mil habitantes é 9,0%. Já o percentual de mulheres de 10 a 17 anos que tiveram filhos chegou a 4,3%, enquanto a média é 2,62%.

“Existe um abismo entre as condições sociais e de desenvolvimento humano nos municípios mais violentos e nos mais pacíficos. Essa questão está totalmente relacionada com o acesso a políticas públicas de educação, saúde e de segurança. Em Pernambuco, por exemplo, o que se observa é um retrocesso no combate à violência”, considera Cerqueira. No relatório nacional que analisa dados dos estados lançado na semana passada, o Ipea pontuou a “exaustão do programa Pacto pela Vida (política de segurança lançada durante o governo Eduardo Campos), que contribuiu para a queda consistente das taxas de homicídios em Pernambuco, entre 2007 e 2013. Nos últimos três anos analisados, o crescimento das mortes foi de 39,3%. Em 2016, a Taxa de Homicídios em Pernambuco foi de 47,3, um aumento de 14,8% no comparativo a 2015 e de 20,7%, considerando a variação de 2011 a 2016.

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