#QuandoMeViFeminista: é libertador saber porque dói

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É 8 de março, Dia Internacional de Mulher. Para muitas, no entanto, ser mulher carrega uma marca de dor. Ao caminhar ao lado de diversas mulheres que sequer conheço, mas que parecem gritar com a mesma necessidade algo que também sinto em mim. Pergunto a muitas, diversas mulheres, sobre o momento em que se viram feministas. É preciso um tempo para olhar para si mesma, sua trajetória, sentir e enfrentar o medo que nos acompanha.

#QuandoMeViFeminista reúne reflexões de mulheres sobre seus processos de vida e luta que a levaram à marcha pela vida das mulheres, no Recife. Os relatos dão rostos e história às estatísticas de violência contra a mulher, feminicídio, abusos e desigualdade de gênero. Refletem o que números apontam sobre a condição da mulher. Mas, para além disso, mostram possibilidades de romper ciclos e escrever novas histórias a partir da luta por igualdade e respeito.

Dar nome àquilo que desde muito cedo nos atinge com o peso da “normalidade”, mas que machuca, é libertador, me diz uma jovem mulher que precisou enxergar o mundo além da religião onde foi criada, da família que não aceita o fato de amar outra mulher. Mais do que a palavra “feminista”, a prática é que liberta, parecem intuir muitas das mulheres com quem conversei.

É preciso revisitar muitas dores, me diz uma delas. Foi preciso fazer algo por si mesma e se retirar de um relacionamento abusivo antes que a própria vida fosse o elemento de barganha, me diz outra mulher. É preciso coragem para enfrentar o desafio diário de resistir. Desafio esse que fica mais fácil quando é possível compartilhar com outras o desejo de mudança.

Em 2017, Pernambuco registrou 33.344 casos de violência doméstica e familiar contra mulheres. Em média, a cada dia, 91 mulheres sofreram algum tipo de violência dentro de casa ou pelas mãos de um familiar. Muitas delas são potenciais vítimas de feminicídio. Muitas delas não estiveram em marcha e talvez pouco importe o fato de se dizerem, ou não, feministas. Ainda assim, saber chegar à delegacia e denunciar é um passo importante que as aproxima de nós.

O feminismo talvez seja esse caminho a ser trilhado ao lado de outras mulheres com diferentes urgências. É importante saber caminhar juntas para garantir a segurança de chegar ao fim de um percurso vivas. Marchar “por nós, pelas outras , por mim” transforma o trajeto de alguns quilômetros numa missão que pode durar uma vida inteira, mas que é preciso abraçar. É o que fazem as mulheres que apresentamos a seguir.

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Dida, em busca de visibilidade para mulheres com deficiência

Dida tem urgência de que as necessidades das mulheres com deficiência sejam abraçadas pelo movimento feminista e pelos governos. Feminista porque percebeu que, como mulher portadora de deficiência, as desigualdades que pesam sobre si são maiores do que o que sofrem os homens com deficiência. Ela precisa falar, ser ouvida e também de outras mulheres que lutem com ela. O ativismo duplo tanto do movimento de pessoas com deficiência como no feminista não é à toa. É por isso que tem ocupado espaços para denunciar, construir e pautar políticas públicas. “Cadê as mulheres com deficiência?”, pergunta. A resposta ela dá no exemplo, ocupando espaços de poder e construção de políticas públicas para denunciar, construir e pautar a garantia de direitos e presença de mulheres como ela.

Inaê, mulher negra, feminista revolucionária

Com 27 anos, mãe de duas meninas e um menino, Inaê têm o sorriso confiante e a necessidade de falar como, porque e quando começou a construir um movimento e mundo melhor. O feminismo a encontrou e depois disso não enxerga outra possibilidade de existir sem lutar. Estudante de serviço social, foi ao entrar na universidade que teve a chance de conhecer – e entender – como a violência se apresenta de maneiras diferentes na vida de mulheres. No lugar onde vive ainda há outras mulheres que não têm informação sobre feminismo ou direitos, mas a partir dela, deseja ampliar a luta e tentar mudar para melhor a vida de outras mulheres.

Rejane, 49 anos, feminista e dona de si mesma

No dia a dia, a resistência que constrói nos diversos aspectos da vida trouxe a tranquilidade de não trocar a companhia de um homem por sua liberdade. “A gente tinha que dar um grito de socorro”, conta. Com duas filhas, cuida de lembrar sempre que “o respeito não está na roupa, o respeito não está na ausência do homem, está conosco”.  Vinda de Peixinhos, bairro na periferia de Olinda, Rejane é uma das Mães da Saudade, projeto do Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças (GCASC) que acolhe e fortalece mulheres que perderam filhos e filhas para a violência que muitas vezes não respeita a porta de casa. Na periferia a guerra às drogas não reconhece propriedade privada ou dignidade. isabelle ok
Isabelle, mãe de Gael, feminista

Na agitação de ficar de olho no pequeno Gael, inquieto, que desce do braço e vai para o chão desbravar os metros ao redor, e no receio de “não saber o que falar” ela ainda assim topa falar. Nesse meio tempo até a câmera decide não funcionar, este é um relato de um encontro não registrado por máquinas. Isabelle precisas parar um tempo e buscar na memória onde foi, exatamente, que se viu feminista.  Talvez não tenha nunca parado para pensar, ou não precisou o fazer. Por alguns minutos Gael, com um ano e quatro meses, escolhe descansar a cabeça entre as pernas da mãe, com o dedo na boca, balançando devagarinho. É então que ela, filha e neta de mães solo, diz que apenas recentemente se entendeu como feminista – aquilo que nunca teve nome na sua família, mas que aprendeu no dia a dia, a partir do exemplo de autonomia das mulheres que a criaram. Aprender na prática a independência e ter a certeza de não precisar de um homem para criar sua própria família talvez sejam os ensinamentos mais importantes, junto com o desejo de estudar, ler, aprender sobre feminismo. É o que ela tem feito. Entre a marcha, com o filho nos braços, ou na rotina à frente de uma marca de camisetas estampadas com diferentes tipos de peitos libertos, sem tabu.

 


Itanacy, feminista negra por sentir na pele

A fala forte da mulher negra que dedica tempo a olhar para o mundo, as desigualdades, o racismo e machismo e buscar diariamente transformá-lo é a marca de Itanacy. Ela, que se viu feminista quando a consciência das opressões que a mulher negra acumula. Ser mulher, ser negra, ser pobre. A luta por cidadania, direitos iguais é uma parte do que as mulheres negras precisam conquistar. “Ser negra no brasil não é fácil”, sentencia. Da solidão que enfrentam pouco se fala, das relações afetivas que são negadas constantemente pouco se sabe. A força da fala e do olhar de quem está preparada para a luta a todo momento muda nos últimos segundos para uma expressão suave, não menos forte por isso. Lembrar da importância do riso e da alegria para a luta feminista a faz brilhar diferente. É como se pudesse vislumbrar o futuro e soubesse de algo que muitas e muitos ainda não sabem: venceremos.


Ana Maria, feminista antiproibicionista em busca da liberdade

Foi ao ver que a criminalização das drogas age sobre os corpos das mulheres de modo diferente que Ana Maria se encontrou como feminista. Contra a proibição de um modo de vida que é seu, mas que precisa ampliar o olhar e lutar para que outras não sejam penalizadas. Ela, que chegou primeiro ao antiproibicionismo, entende que discutir sobre drogas é ponto de partida para falar de algo maior. Ser feminista antiproibicionista, portanto, requer uma reflexão constante sobre liberdade – sua e de outras mulheres – e os caminhos para alcança-la.          
Elivânia, feminista, negra e antiproibicionista

Elivânia se encontrou “quando eu comecei a entender o que era ser feminista e antiproibicionista, o cuidado e a afetividade que a gente tem pela população que é diretamente atingida com o impacto das drogas”. Como uma mulher negra, de periferia, ela viveu de perto, na própria família, o impacto da proibição e criminalização das drogas na vida do povo negro e pobre. Cresceu marcada pelo peso de não entender o destino que teve seu tio. A descoberta vem com o conforto de saber que ela também tem abrigo e proteção das companheiras da Rede de Feministas Antiproibicionistas (RENFA). “Hoje eu vivo sem opressão”, diz, com o rosto tranquilo e um sorriso de quem escolhe perseguir a esperança, mesmo sabendo que os desafios são grandes.

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Todas com 17 anos, as amigas feministas Duda Cunha, Mariana Piqet, Gabriela Sena, Natália Machado (pela primeira vez para a marcha) e Marina Pessoa

Natália e Marina, jovens com herança feminista

Um grupo de meninas, todas com 17 anos, animadas, com palavras de desordem na pele que não deixam dúvida de que são livres, donas de si mesmas e seus destinos. Uma mais tímida, outra segura de si, lado a lado, querem contar suas histórias. Natália e Marina não só desejam, mas precisam falar. Apesar da juventude, a inspiração das duas vem de mulheres que as apoiam e orientam no mundo, do sangue e do berço. Natália, pela primeira vez em uma marcha, tomou conhecimento há pouco tempo das manifestações, mas aprendeu em casa, observando e compartilhando do sofrimento da avó que o feminismo era um caminho para não viver o mesmo. Marina, por sua vez, não só já foi a outras marchas como registra com sua câmera as expressões das mulheres que erguem cartazes de luta. Inspirada pela sua mãe, no alto dos 17 anos não vacila por um segundo no que a move a luta pela sua liberdade: o exemplo da mãe, que a criou sozinha e a seus irmãos, foi mais do que suficiente para entender que mulheres devem se apoiar. Para ela, assim como suas amigas, estar na rua e ser feminista é construir esse caminho seguro para ser o que quiserem, sem amarrar.
Augusta, jovem feminista negra

Num só impulso Augusta fala sobre empatia, desigualdade, a relação entre mulheres negras a necessidade de união. São muitas as descobertas feministas. Estudante de direito, deseja travar dentro da universidade e do meio jurídico a batalha por reconhecimento. A ansiedade de se afirmar mulher, negra e jovem vem como um desabafo. Acredita na construção de um feminismo que liberte a todas.  

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Sobre o autor

Débora Britto trabalhou como jornalista no Centro de Cultura Luiz Freire - organização não governamental de defesa dos direitos humanos - é integrante do Terral Coletivo de Comunicação Popular, grupo que atua na defesa do direito à comunicação como fundamento para a garantia de outros direitos. Também tem passagem como jornalista pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, entidade voltada para ações de fortalecimento da agricultura familiar agroecológica.

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