Saúde mental e reprodutiva das mulheres não são prioridades quando o assunto é Zika vírus

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Por Helena Dias

A experiência de estar grávida em meio ao surto de infecção pelo Zika vírus, ocorrido em 2015, as incertezas sobre a transmissão e o direito à interrupção da gravidez em caso de gestantes contaminadas durante a epidemia foram vivências e temas que permearam o cotidiano de várias brasileiras nos últimos três anos. Durante esse período, muito se falou sobre o vírus, mas as mulheres e mães que conviveram com o vírus ou o risco de infeção não foram prioridade.

De acordo com os dados coletados em 2017 para a pesquisa “Impactos Sociais e Econômicos da Infecção pelo Zika Vírus no Brasil”, que está sendo apresentada nesta sexta-feira (30), na sede da Fundação Osvaldo Cruz de Pernambuco (Fiocruz-PE),  pouco se pautou a saúde mental e reprodutiva das mulheres diante do contexto da epidemia, o que interfere diretamente na forma como elas lidam com a presença do Zika em suas vidas.

Por exemplo, a maioria das entrevistadas não sabiam que o vírus pode ser transmitido sexualmente e tinham poucas informações sobre interrupções legais da gravidez. Segundo a socióloga e pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz, Camila Pimentel, os profissionais de saúde não são considerados a principal fonte de informação. As mulheres recorriam à grande mídia e às redes sociais.

“O que não era pautado na mídia era pouco compreendido pelas mulheres. A epidemia de Zika trouxe um debate sobre a possibilidade de ampliação dos permissivos legais para o aborto, porque levaria em consideração a questão da saúde mental. Seria muito custoso para mulher e, neste sentido, poderia ser uma possibilidade. Houve esse debate publico e, quando abordado pela imprensa, se confundiu muito com a questão de eugenia, porque parecia que não se queria mais crianças com deficiência. E não era esta a questão, a questão era mirando a saúde mental da mulher e uma gravidez em meio a um cenário de incerteza”, explica.

Estas constatações foram levantadas através de 147 entrevistas feitas com profissionais de saúde, grávidas, mulheres em idade reprodutiva, homens em idade reprodutiva, mães de crianças com Síndrome da Zika Congênita (SZC) e cuidadores de crianças com a síndrome dos estados de Pernambuco e Rio de Janeiro. Os questionamentos foram sobre história de vida, gestações, contracepção, aborto, informações sobre o Zika, sistemas de saúde e apoio social.

A apresentação do estudo segue na tarde desta sexta abordando os temas “Impactos para a Saúde Reprodutiva” e “Impacto sobre a Vida das Famílias”. As organizações envolvidas na produção da pesquisa são: Fiocruz-PE, IFF-RJ, UFPE e London School of Hygiene and Tropical Medicine.

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