Treze dias na Palestina histórica sob ocupação militar.

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por André Frej Hazineh* (com fotos de Manuela Simões)

Julho de 1980. 9 anos de idade. Julho de 2019. 48 anos.

Exatos 39 anos depois, regressei à Palestina ocupada militarmente para viver dias recheados de emoções, vivências, memórias e experiências que deixarão marcas indeléveis pelos restantes dos meus dias.

Testemunhar nessas duas semanas o drama vivido pelas populações palestinas que vivem nos territórios ocupados, bem como em cidades que, a partir da partilha da Palestina em 1948, ficaram sob a jurisdição do que se convencionou chamar Estado de Israel, me trouxe um sentimento de absoluta impotência. E a certeza de que, doravante, viverei a melancolia por não poder contribuir de forma efetiva para minorar o sofrimento de um povo a viver sem liberdade, sem paz e sem justiça.

Pra começo de conversa, quero relatar a experiência transcendente de estar nos lugares sagrados por onde passou o Jesus histórico, que se tornou Cristo Pantocrático (domina céus e terra e rege todas as coisas visíveis e invisíveis). Professo a fé anglicana, cuja dimensão espiritual e mística se mescla com a compreensão de que fé e racionalidade podem coexistir harmonicamente, à luz do iluminismo e das sacras escrituras.

E já que me referi à coexistência, não poderia deixar de começar este relato por Jerusalém, a cidade sagrada para as três religiões monoteístas do tronco abraâmico: cristianismo, judaísmo e islamismo.

Epicentro da disputa política (acentuada após a esdrúxula decisão do presidente Donald Trump em transferir a embaixada dos Estados Unidos, oficialmente estabelecida em Telaviv), Jerusalém é o retrato da diversidade religiosa, cultural, étnica e social dos povos do Médio Oriente. Também é uma cidade que exprime em suas divisões a natureza da apartação a qual estão submetidos os palestinos residentes.

Na cidade velha, cercada pelas muralhas reconstruídas no século XVI pelo Império Turco Otomano, essa divisão é bastante evidente, não somente pela própria divisão geográfica em bairros: cristão, armênio, muçulmano e judeu, mas sobretudo pela presença ostensiva do exército a controlar a circulação das pessoas.

Além de milhares de turistas que diariamente visitam a Terra Santa da Palestina (visitem a PA-LES-TI-NA !), convivem em harmonia litúrgica cristãos, muçulmanos e judeus ortodoxos, a caminharem freneticamente pelas ruas estreitas das dolorosas vias nas quais Jesus viveu o seu calvário.

Abro um pequeno parêntese para destacar que os judeus ortodoxos vivem em espécies de guetos nas vizinhanças de Jerusalém, eximidos de cumprir obrigações estatais, entre as quais o cumprimento do serviço militar (obrigatório para todo cidadão israelense, independentemente do gênero), são sustentados pelo governo através de programas de seguridade social. Os ortodoxos não representam obstáculos à construção da paz com o povo palestino, vide o exemplo do grupo novaiorquino Jewish Voice for Peace, quatro milhões de ativistas que se posicionam contrariamente à natureza sionista do estado de Israel.

Crédito: Manuela Simões/Esp. para MZ Conteúdo

Crédito: Manuela Simões/Esp. para MZ Conteúdo

Fechado o parêntese, entremos novamente pelos portões da cidade velha de Jerusalém, pois lá se encontram importantes pontos de peregrinação cristã, notadamente a Igreja do Santo Sepulcro, coadministrada pelas Igreja Ortodoxa Copta, Igreja Ortodoxa Síria, Igreja Ortodoxa Etíope, Igreja Ortodoxa Armênia e pelo Patriarcado Latino de Jerusalém.

Não há como não se emocionar e reconhecer que ali, supostamente (importante sempre ressaltar esse aspecto de imprecisão histórica) o Messias foi cravado numa cruz, retirado e abraçado pela mãe virgem santa na clássica imagem da Pietá de Michelangelo e teve seu corpo enterrado como o de qualquer ser humano, para depois de três dias (simbolismo aritmético) ressuscitar na vida da igreja e das pessoas crentes.

Meu roteiro cristológico, entrementes, não se restringiu a Jerusalém. De lá fui a Jericho, a cidade mais velha do mundo, localizada na região desértica onde Jesus foi tentado pelo satanás, a representação do mal e que hoje abriga um Mosteiro Grego Bizantino. Também incluiu Nazareth e a sua Basílica da Anunciação, cidade cuja população é exclusivamente palestina mas se encontra encravada no território israelense e onde palestinos são impedidos de hastear a bandeira nas suas casas, pasmem; Tiberíades às margens do mar da Galiléia, onde houve a multiplicação de pães e peixes, e Cafarnaum (centro do ministério de Jesus), também fizeram parte do roteiro.

Finalmente, já na Cisjordânia ocupada, em Bethlehem (Belém para nós, brasileiros), cidade espiritual do cristianismo, cidade universal da cristandade, vivenciei experiências históricas, culturais e espirituais, mais uma vez.

Do ponto de vista dos costumes, da miscigenação cultural e da diversidade de tradições, me permiti mergulhar por inteiro, de corpo e alma, para experimentar os saberes, sabores e valores de uma história milenar.

Sendo assim, cumprimentar os homens com beijos no rosto e dividir o mesmo alimento de forma coletiva, numa partilha por que não dizer teosófica, no sentido da renúncia do eu individual pela sabedoria divina, se transformaram em rotina para quem optou por vivenciar o jeito de ser palestino sob um regime de ocupação.

Conhecer a tradição beduína no deserto de Jerusalém Oriental (Palestina) e perceber que a preservação cultural é um símbolo de resistência, me deu a exata dimensão de como uma identidade consegue sobreviver apesar de décadas (mais precisamente, 70 anos de nakba, palavra árabe que siginifica catástrofe) de opressão e de tentativa de aniquilação, eliminação, limpeza étnica.

Nesse mesmo diapasão, a gente observa um movimento de autoridades governamentais, religiosas e acadêmicas (especialistas em arqueologia, por exemplo), no sentido de preservar o patrimônio histórico, cultural e imaterial na Palestina ocupada, como no caso da valorização de duas tradições originariamente belemitas: a escultura em madeira de oliva (ofício de meu avô paterno) e em madrepérola.

Em Bethlehem tive a oportunidade, ainda, de visitar o Museu do Azeite de Oliva, não apenas para compreender como a árvore da oliveira, símbolo da Palestina, se transforma no nutritivo componente da gastronomia/culinária mediterrânea, mas também para entender o significado da oliveira como parte de sua cultura, como símbolo de sua ligação com a terra, visto que praticamente a metade do território palestino é ocupado pela árvore da vida.

Mas foi em Bethlehem que percebi mais claramente o que é viver sob ocupação militar.

Apesar de estar numa atmosfera completamente diferente da tensão reprimida de Jerusalém, como se estivesse me sentindo em casa, era possível perceber nas pessoas os danos provocados pelas limitações, imposições, restrições impostas ao povo palestino da Cisjordânia e, com mais brutalidade, da Faixa de Gaza. A resiliência forçada e o  desumano esforço para respirar um ar controlado sub-repticiamente estavam sempre presentes.

Para entender essa realidade é preciso buscar ajuda nos números, pois muitas vezes a  aritmética expressa aquilo que a gramática não é capaz de explicar.

O número zero, por exemplo, se torna expressivo, de uma expressividade ímpar, quando a gente descobre que nenhum palestino da diáspora que vive na Jordânia pode regressar a sua terra natal.Isso mesmo: o palestino que possui o passaporte jordaniano é proibido, pelo exército de Israel, de entrar na Palestina para simplesmente gozar férias ou rever seus parentes.

Maior ou igual a zero, utilizando-se da simbologia algébrica, é o percentual significativo de palestinos com autorização para edificar residências, apenas 2% da população.

Outro dado que assombra é o percentual de palestinos que não podem sair da Palestina ocupada: considerando apenas a Faixa de Gaza são dois milhões de pessoas, ou seja, os palestinos vivem na verdade numa cadeia a céu aberto, um cárcere pleonasticamente fechado, fechado no espaço aéreo, assim como no terrestre e marítimo.

Crédito: Manuela Simões/Esp. para MZ Conteúdo

Crédito: Manuela Simões/Esp. para MZ Conteúdo

Em contrapartida, aproximadamente uma centena de permissões são impostas pelo estado de Israel aos palestinos: permissão para circular, permissão para dirigir, permissão para construir, permissão para resistir, permissão para sobreviver, permissão para morrer…

Se, no entanto, restringir-se o universo do estudo, promovendo-se um recorte para tratar especificamente de Bethlehem, a gente se depara com a questão dos assentamentos ilegais, onde 138 mil colonos judeus ocupam ilegitimamente os territórios belemitas (na Palestina ocupada são mais de 600 mil), protegidos pelo exército de Israel e por cercas indevassáveis, usurpando terras originariamente destinadas aos palestinos nos acordos de Paz e nas resoluções da ONU.

Em Bethlehem, como se sabe, se encontra o muro da vergonha de Israel, que traduz em 700 quilômetros de concreto armado a essência de um estado armado e inventado para varrer tanto  outro estado do mapa quanto um povo do seu próprio território, como explicitado no slogan propagandista sionista no pós-Segunda guerra: “uma terra sem povo, para um povo sem terra”.

Após posar para algumas fotografias, registrando a aberração de um muro que separa as pessoas que, antes de 1948, viviam em harmonia na Palestina histórica (cristãos, judeus e muçulmanos), visitei ao museu inserido no Walled Off Hotel. O hotel construído pelo artista britânico Banksy como forma de denunciar aquela que é “a pior vista do mundo”, em suas próprias palavras. No museu-hotel foi possível sintetizar a política colonialista de Israel e ressignificar minha militância em favor da causa palestina.

Por último, é imprescindível relatar a abundante graça de reencontrar familiares de meu pai sobrevivendo em Bethlehem e em Jerusalém, a nos mostrar que a resistência se faz não apenas pela participação nas intifadas, pelo enfrentamento diário de soldados armados de fuzis nas mãos.

Seguir sobrevivendo em meio à catástrofe, à ocupação militar, levando uma vida regular na medida das (im)possibilidades, perpetuando a presença palestina na região é, acima de tudo, um ato revolucionário que nos traz esperança de que as mudanças acontecem quando assumimos nosso papel de sujeitos da história, de protagonistas da nossa própria existência, que se confunde com a própria resistência, em se tratando do povo palestino.

Julho de 2019. 48 anos. Regressar à Palestina ocupada militarmente por Israel me propiciou, além de rever minhas origens, reencontrar minha ancestralidade e redescobrir minha identidade, ressignificar meu papel não apenas como militante palestino da diáspora (66% da população palestina atualmente), mas sobretudo como um ser humano integral que compreende sua missão divinamente humana de lutar pela paz, pela justiça e pela liberdade para todos os povos, independentemente das nossas origens, raízes e etnias.

* Analista judiciário do TRE-PE e membro do coletivo Aliança Palestina Recife

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