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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>&#8220;Fiquei com mais medo do odor&#8221;. Fala de Medina sobre protesto de mulheres negras gera nova denúncia de racismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 22:24:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarista]]></category>
		<category><![CDATA[Câmara Municipal do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali”. A frase é do vereador de extrema direita do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante sessão plenária desta terça-feira, 1º de setembro. Ele se refere ao protesto que aconteceu, pela manhã, [&#8230;]</p>
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<p>“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali”. A frase é do vereador de extrema direita do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante sessão plenária desta terça-feira, 1º de setembro. Ele se refere ao protesto que aconteceu, pela manhã, na entrada da Câmara do Recife, em defesa da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL).</p>



<p>Um grupo de aproximadamente 30 pessoas, com presença majoritária de organizações sociais e coletivos de mulheres negras, esteve em ato para denunciar episódios de racismo e misoginia contra Jô. Única parlamentar negra da atual legislatura, ela, que também é candidata a deputada estadual, vem, há meses, acusando Medina de perseguição.</p>



<p>“Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa”, disse a vereadora, em pronunciamento, nas redes sociais, logo após o ocorrido.</p>



<p>“Isso vem sendo uma ação coordenada da extrema-direita para perseguir as populações mais vulneráveis, LGBTQIAPN+ e de religiosidades. Eles estão tentando legitimar cada vez mais esse discurso para se tornar comum”, afirmou ela, à tarde.</p>



<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema-direita, com destaque para Medina, como responsáveis pelos ataques.</p>



<p>O plenário virou um espaço de tensão permanente, como mostrou a <strong>Marco Zero</strong> em <a href="https://marcozero.org/entre-mimimi-e-silenciamento-camara-do-recife-vira-palco-de-violencia-contra-mulheres/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reportagem</a> publicada em junho. As denúncias de Jô agora vão além. Além de misoginia, ela acusa Medina de racismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A escalada</h2>



<p>A situação escalou, há pouco menos de 15 dias, após o parlamentar classificar o Projeto de Lei nº 147/2026, de autoria da vereadora, que propunha instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha, como “uma porcaria” e chamar a entidade espiritual da Jurema Sagrada de “mestra dos cabarés”. O projeto acabou sendo rejeitado em plenário por 12 votos a sete.</p>



<p>Após o acúmulo de episódios de violência e meses de denúncias sem que Medina tenha levado, até o momento, nenhuma advertência da Câmara do Recife — presidida pelo PSB, assim como a Comissão de Ética da Casa —, Jô terminou chamando-o de “racistinha de merda” e de “fascistinha” durante a sessão, em 17 de agosto.O episódio levou o vereador a entrar com uma representação, na Comissão de Ética, contra ela.</p>



<p>Alguns dias depois, em 20 de agosto, a subcomissão de Ética da Câmara aplicou uma medida de censura verbal contra a vereadora por palavras proferidas na tribuna em 3 de novembro de 2025, durante um debate sobre letalidade policial e direitos humanos após uma operação de grande repercussão no Rio de Janeiro.</p>



<p>Durante a reunião da subcomissão, a defesa da parlamentar demonstrou que a denúncia se baseou em uma leitura recortada e descontextualizada do episódio, ignorando o vídeo completo, as sucessivas interrupções sofridas por ela e a celebração que ocorria, por parte da bancada bolsonarista, das execuções da tragédia. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/54808211028_9449e83c16_c.jpg" alt="A imagem mostra a vereadora do Recife, Jô Cavalcanti, em ambiente interno, provavelmente durante uma sessão ou reunião. Ela veste uma blusa clara e usa óculos de armação escura. Seu rosto é arredondado, com pele morena, sobrancelhas grossas e bem definidas, nariz levemente largo e lábios cheios. O cabelo é escuro, liso e está solto, emoldurando o rosto. Sua expressão transmite atenção e seriedade, reforçando o contexto institucional da cena." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Única parlamentar negra da legislatura, Jô acusa Medina de racismo e misoginia
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Dias depois da notícia da censura verbal, nesta terça (1º), ao comentar o ato organizado em defesa da parlamentar, o vereador zombou da situação: “Desde a semana retrasada, quando a vereadora perdeu (a votação do Dia Municipal da Mestra Ritinha), ela se coloca como vítima. ‘Eu sou alvo de intolerância, eu sou alvo de racismo, ai eu perdi o Projeto de Lei, quem votou contra é racista’”, discursou em tom de deboche, com a voz em falsete.</p>



<p>“Ontem [segunda, 31] eu fiquei sabendo que hoje haveria uma manifestação contra a minha pessoa, contra o vereador Thiago Medina, por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e todos os mimimi da esquerda”, falou também ao microfone. “Se eu gostasse de mimimi, eu comprava um gato gago, mas, como não gosto, estou aqui discursando”, debochou.</p>



<p>Em resposta aos ataques que vem denunciando, o mandato de Jô, além de protocolar projetos contra a violência de gênero e de raça na Câmara do Recife, entrou com uma representação contra Medina na Comissão de Ética da Casa e também no Ministério Público de Pernambuco por racismo e LGBTfobia.</p>



<p>“E nós representaremos novamente hoje contra esse parlamentar nas duas instâncias por reiteração da prática delitiva”, anunciou a vereadora.</p>



<p>“A Casa José Mariano é uma casa abolicionista, onde não pode acontecer o que vem acontecendo da última semana para cá. O Legislativo não pode tolerar, de forma alguma, esse tipo de postura de violência aos direitos fundamentais das pessoas. Por entender que nenhum vereador está acima de qualquer lei e sabendo que racismo é crime, estamos esperando que o Ministério Público tome as medidas cabíveis”, disse Jô ao falar com a <strong>MZ</strong>.</p>



<p>A reportagem procurou a assessoria de imprensa do vereador Medina, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.</p>



<p>Também questionou a Câmara do Recife se alguma medida será tomada após o ocorrido desta terça (1º). Segue resposta na íntegra, assinada pelo presidente Romerinho Jatobá (PSB):</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>&#8220;A Câmara Municipal do Recife vem a público reafirmar o seu compromisso com a garantia de direitos para todas as pessoas, conforme pressupõe a democracia que defendemos. Ao longo da sua história, a Casa de José Mariano sempre foi um espaço para as mais diversas manifestações populares que refletem a diversidade do povo recifense e de seus representantes. Por tudo isso, o respeito às diferenças deve nortear todos os pronunciamentos das vereadoras e dos vereadores&#8221;.</p>
	</div>



<p></p>
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		<title>Dinheiro, fé e antifeminismo: como a direita disputa o voto das mulheres cristãs em 2026</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 16:04:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e política]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e religião]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres cristãs]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado. Assuntos como [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado.</p>



<p>Assuntos como violência contra a mulher, maternidade, cuidado, família, autonomia financeira e empreendedorismo também passaram a integrar o discurso de setores conservadores, ao mesmo tempo em que ganha força um ativismo cristão antifeminista, que inclusive disputa a própria definição do que significa ser mulher.</p>



<p>Para falar sobre esses e outros temas em torno do voto feminino cristão nestas eleições, a <strong>Marco Zero</strong> conversou com a socióloga da religião e doutoranda em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP) Tabata Tesser, pesquisadora associada do Instituto de Estudos da Religião (Iser).</p>



<p>Socióloga, ela tem estágio doutoral na Universidade de Barcelona (UB) e é mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No ISER, integra a pesquisa <em>Cristianismos e Aborto: disputas nas instituições públicas brasileiras (2010-2025)</em>. Também faz parte do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR-Unicamp) e do grupo de estudos de Investigações em Sociologia da Religião (Isor), da Universidade Autônoma de Barcelona.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto-Tabata-1-1024x726.jpg" alt="A foto mostra Tabata Tesser sentada confortavelmente em uma poltrona de madeira clara com laterais de palhinha trançada. Ela tem cabelos longos e castanhos, usa um macacão azul escuro sem mangas e está sorrindo de forma serena. Seu braço esquerdo repousa sobre o encosto, enquanto o direito apoia a cabeça num gesto descontraído. Usa pulseiras douradas, anel e esmalte vermelho, e há uma almofada verde ao seu lado. O ambiente é elegante e acolhedor, com parede neutra e persiana ao fundo, transmitindo uma sensação de tranquilidade e confiança." class="" loading="lazy" width="666">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Marco Zero — <strong>Nas eleições de 2022, a pauta de costumes parecia mais concentrada no segmento evangélico. Em 2026, vemos novas personagens, como <a href="https://religiaoepoder.org.br/artigo/quem-e-a-catolica-que-emerge-como-um-dos-principais-rostos-femininos-da-campanha-de-flavio-bolsonaro" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Daniella Marques</a>, num movimento que une identidade católica, tradicionalismo, perfil de elite e discurso sobre mulheres e família. O que mudou na forma como a direita está tentando falar com essas mulheres? O que essa mudança revela sobre o eleitorado feminino cristão no Brasil?</strong></p>



<p><strong>Tabata Tesser —</strong> Acho que a primeira mudança importante é que estamos começando a perceber que falar de mulheres cristãs não é falar apenas de mulheres evangélicas. Existe uma espécie de miopia na cobertura eleitoral brasileira que transforma o eleitorado evangélico em sinônimo de eleitorado cristão, quando, na verdade, o cristianismo brasileiro tem um rosto fortemente feminino e o maior contingente de mulheres cristãs é católico.</p>



<p>O Censo de 2022 mostra que as mulheres são 55,4% dos evangélicos e 51% dos católicos. Quando olhamos para esse conjunto, estamos falando de dezenas de milhões de mulheres. São mulheres que não apenas frequentam igrejas, mas sustentam boa parte da vida cotidiana dessas instituições por meio do trabalho voluntário, da catequese, da assistência e do cuidado.</p>



<p>A emergência de uma figura como Daniella Marques é interessante justamente porque ela permite à direita fazer uma operação diferente daquela que vimos em 2022. Ela combina uma identidade católica explicitamente assumida, credenciais técnicas, pertencimento às elites econômicas e um discurso sobre mulheres, família, empreendedorismo e autonomia financeira. É uma tentativa de construir uma interlocutora feminina que não seja apenas a mulher religiosa tradicional, mas uma mulher profissional, economicamente bem-sucedida, empreendedora e, ao mesmo tempo, conservadora nos valores.</p>



<p>Isso é importante porque revela que a direita percebeu que não basta falar de aborto, ideologia de gênero ou sexualidade para disputar as mulheres cristãs. É preciso falar também de dinheiro, trabalho, cuidado, maternidade, violência e família, temas que já fazem parte do cotidiano dessas mulheres.</p>



<p>Ao mesmo tempo, eu teria cuidado para não interpretar isso como se essas mulheres estivessem simplesmente migrando para uma nova liderança. O voto cristão não é um voto que se entrega por atacado. A pesquisa do Iser com mulheres evangélicas mostra justamente isso: elas escutam pastores e familiares, mas fazem suas próprias escolhas, pesquisam e interpretam a política a partir de suas experiências.</p>



<p>Então, mais do que perguntar quem vai “ficar” com as mulheres cristãs, eu acho que precisamos perguntar o que essas mulheres estão dizendo sobre política. E, quando fazemos isso, encontramos um eleitorado muito mais complexo do que os rótulos permitem enxergar.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Janja Lula da Silva e Michelle Bolsonaro são mulheres muito diferentes e que também representam maneiras muito diferentes de construir politicamente a imagem da mulher. Até que ponto elas conseguem produzir uma identificação para além das já eleitoras de seus respectivos campos políticos?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>— </strong>Eu acho que existe um limite importante na própria ideia de primeira-dama como representante das mulheres. Janja e Michelle constroem imagens femininas muito diferentes, mas ambas estão inseridas em projetos políticos bastante identificados com seus respectivos campos.</p>



<p>Michelle Bolsonaro conseguiu construir uma identificação muito forte especialmente entre mulheres evangélicas e setores conservadores, mobilizando uma linguagem de fé, família, maternidade e testemunho cristão. Janja, por outro lado, constrói uma imagem pública que dialoga com outras formas de participação feminina, com pautas sociais, direitos e uma linguagem mais próxima de setores progressistas.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;As mulheres cristãs, por exemplo, não são homogêneas. Classe, raça, geração, território, família, experiência religiosa e cotidiano produzem diferenças enormes&#8221;.</p>
</div>


<p>E há uma questão que considero particularmente importante: a tentativa de “recuperar” ou “entregar” as mulheres cristãs por meio de primeiras-damas ou lideranças religiosas acaba dizendo mais sobre a estratégia dos partidos do que sobre essas mulheres. Elas não são um eleitorado que necessariamente acompanha uma mulher porque ela é mulher ou porque ela é cristã.</p>



<p>A identificação política acontece quando a mulher reconhece sua própria vida naquela agenda. E aí chegamos a temas muito concretos: o preço do supermercado, a consulta médica, a segurança dos filhos, a violência dentro de casa, o trabalho, a renda e a possibilidade de cuidar de quem depende dela.</p>



<p>Por isso, acho que tanto Janja quanto Michelle podem produzir identificação para além de seus campos, mas isso não acontece automaticamente pela imagem feminina ou pela religião. Depende da capacidade de falar com mulheres que não necessariamente se reconhecem integralmente em nenhum dos dois projetos.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Como você já colocou</strong>, <strong>as mulheres evangélicas não formam um bloco homogêneo. Suas posições políticas são atravessadas por questões de classe, raça, geração, território, família e cotidiano. Que peso a pauta de costumes ainda tem como caminho para conquistar essas eleitoras? Ou temas como endividamento, cuidado, violência, trabalho, renda, saúde e segurança podem ser mais decisivos nas eleições de 2026?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu diria que a chamada pauta de costumes continua sendo importante, mas talvez ela seja superestimada quando tentamos explicar o voto das mulheres cristãs.</p>



<p>A pesquisa <a href="https://iser.org.br/publicacao/mulheres-evangelicas-politica-e-cotidiano-2024/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mulheres evangélicas, política e cotidiano</em></a>, do Iser, é muito interessante nesse sentido porque mostra mulheres de diferentes regiões, majoritariamente negras e das classes C e D, falando sobre política a partir da própria vida. E o que aparece no centro não é necessariamente aborto ou ideologia de gênero. Aparecem cuidado, infância, maternidade, família, saúde, segurança, violência contra a mulher, preço dos alimentos e políticas públicas.</p>



<p>Existe uma frase que resume muito bem isso, essas mulheres conhecem a política pelo lado de quem espera o salário, a consulta médica e a condução.</p>



<p>Isso não significa que elas não tenham posições sobre aborto, sexualidade ou educação. Elas têm. Mas essas posições convivem com experiências concretas. Uma mulher pode, por exemplo, ter uma visão bastante conservadora sobre família e, ao mesmo tempo, defender educação sexual nas escolas porque viveu uma experiência de violência na infância. Isso mostra como é inadequado transformar essas mulheres em caricaturas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto.webp" alt="A foto mostra um auditório cheio de pessoas sentadas, voltadas para um palco com cortinas vermelhas abertas e uma grande tela de projeção ao centro. Na tela, lê-se em letras grandes e coloridas “Mulher Potência Empreendedora”, indicando um evento da Prefeitura do Rio de Janeiro voltado ao tema do empreendedorismo feminino. O ambiente é de expectativa e atenção, com luzes baixas e foco na tela, sugerindo o início ou andamento de uma apresentação sobre o poder e a iniciativa das mulheres." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Empreendedorismo feminismo faz parte da pauta das mulheres de direita
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil</span>
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                    </figure>

	


<p>Então, para 2026, eu acho que quem quiser compreender esse eleitorado precisa olhar menos para a pergunta “qual é a posição dela sobre a pauta de costumes?” e mais para “como ela está vivendo?”. Ela está endividada? Consegue cuidar dos filhos? Tem acesso à saúde? Sente-se segura? Tem renda? Quem cuida dela quando ela precisa cuidar de alguém?</p>



<p>E existe uma dimensão religiosa muito importante aí: a igreja muitas vezes funciona como rede de apoio justamente porque o Estado não chega de maneira suficiente. Por isso, políticas públicas também são questões religiosas para essas mulheres, porque atravessam diretamente suas vidas e suas comunidades.</p>



<p>A pauta de costumes não desapareceu. O que muda é que ela precisa ser compreendida dentro de uma vida cotidiana muito mais complexa.</p>



<p>Marco Zero — <strong>A direita nunca falou tanto das mulheres. De 2022 para cá, setores conservadores passaram a disputar temas tradicionalmente associados à esquerda e ao feminismo, como violência contra a mulher, cuidado, autonomia financeira e maternidade. Mas o que vemos é um ativismo cristão antifeminista ganhando força. Como você avalia esse movimento?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu acho que esse é um dos movimentos mais interessantes — e também mais importantes — para entendermos o conservadorismo atual.</p>



<p>Durante muito tempo, determinados temas foram identificados quase exclusivamente com a esquerda e com os feminismos. Agora, setores conservadores perceberam que não precisam abandonar seus valores para falar sobre mulheres. Eles podem disputar a própria definição do que significa proteger uma mulher, cuidar, falar de violência, defender autonomia econômica ou valorizar a maternidade. No fim, o que está em disputa é a pergunta “o que é ser uma mulher?”.</p>



<p>É aí que entra o ativismo cristão antifeminista. Ele não significa simplesmente ausência de uma agenda para mulheres. Pelo contrário: existe uma disputa ativa pela categoria “mulher” virtuosa e pelo significado de conceitos como autonomia, liberdade, cuidado, família e violência.</p>



<p>O caso da Daniella Marques é interessante porque mostra uma dessas formulações. A autonomia feminina aparece associada sobretudo à capacidade de gerar renda, empreender, acessar crédito e adquirir educação financeira. É uma agenda que pode produzir efeitos concretos, mas parte de uma concepção muito específica de desigualdade: a ideia de que a inclusão econômica individual seria um dos principais caminhos para a emancipação.</p>



<p>Isso é diferente de uma perspectiva feminista que olha para as estruturas sociais, econômicas, culturais e políticas que produzem a desigualdade entre homens e mulheres.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;Aí está a novidade: elas estão disputando o feminismo e, em alguns casos, disputando a própria linguagem feminista&#8221;.</p>
</div>


<p>E acho que os feminismos precisam prestar atenção nisso. Porque feministas e antifeministas estão, muitas vezes, falando sobre problemas semelhantes, violência, maternidade, cuidado, dinheiro, saúde, mas a partir de diagnósticos, linguagens e repertórios políticos completamente diferentes e chegando em concluíres distintas sobre a categoria mulher e gênero.</p>



<p>É uma disputa não apenas pelo voto das mulheres, mas pela definição do que é uma mulher, do que ela precisa e de quem deve protegê-la. E isso está acontecendo tanto no campo progressista como na direita. No campo progressista, vide o crescimento de discursos antigênero e antitrans buscando justamente responder a pergunta “o que é ser mulher?”.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Projetos sobre misoginia, violência contra a mulher, educação, família e infância têm mobilizado a direita na Câmara e no Senado, para além de temas como aborto, diversidade, “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”. A pauta de costumes mudou no Congresso Nacional?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Sim, e eu acho que a principal mudança é justamente essa ampliação do repertório. A pauta de costumes não desapareceu. Aborto, diversidade, sexualidade e gênero continuam sendo temas fundamentais para a direita religiosa. Mas eles passaram a conviver com uma agenda muito mais ampla sobre família, infância, adoção, doulagem, educação, violência contra a mulher, misoginia, maternidade e cuidado.</p>



<p>Isso acontece porque esses temas são capazes de produzir uma conexão muito mais direta com a experiência cotidiana das mulheres. E a direita percebeu que pode disputar esses assuntos sem necessariamente adotar o diagnóstico feminista sobre eles.</p>



<p>Por exemplo, falar de violência contra a mulher não significa necessariamente reconhecer as mesmas estruturas de gênero que os feminismos reconhecem. Falar de maternidade não significa necessariamente defender políticas de autonomia reprodutiva e múltiplas capacidades reprodutivas. Falar de cuidado não significa necessariamente reivindicar sua socialização pelo Estado.</p>



<p>É justamente aí que a disputa fica mais sofisticada. Vide a direita que defende armar mulheres para combater a violência doméstica.</p>



<p>Acho que estamos vendo uma passagem de uma pauta de costumes mais caricatural e episódica, aquela dos grandes pânicos morais, como “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”, para uma disputa mais cotidiana sobre quem define família, infância, educação, proteção, violência e a própria categoria mulher.</p>



<p>Isso não torna a pauta menos conservadora. Ao contrário, torna o conservadorismo potencialmente mais capilarizado, porque ele passa a ocupar temas que fazem parte da vida concreta das pessoas para além de fantasmagorias.</p>



<p>E há uma consequência importante para quem pesquisa ou cobre eleições: não podemos mais procurar o conservadorismo apenas quando ele fala de aborto ou sexualidade. Ele também pode aparecer quando fala de cuidado, empreendedorismo feminino, maternidade, proteção da infância, liberdade educacional ou combate à violência.</p>



<p>Por isso, eu diria que a pauta de costumes mudou menos porque abandonou seus temas tradicionais e mais porque ampliou seu território de disputa. E as mulheres estão no centro dessa disputa. E outra questão: mulheres conservadoras/virtuosas não precisam mais de interlocutoras. Estão online e roteando o antifeminismo cristão numa desconfortável, mas importante contradição: são feministas conservadoras na prática.</p>
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		<title>Sem auxílio, famílias de Olinda ainda sofrem com os estragos da enchente de 1º de maio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 20:50:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Mirella Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Prefeitura de Olinda]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
		<category><![CDATA[rio Beberibe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Três meses após as chuvas de 1º de maio, que deixaram seis pessoas mortas e quase 3 mil desabrigadas ou desalojadas em Pernambuco, a Marco Zero voltou ao bairro de Peixinhos, na periferia de Olinda, para saber como ficou a vida das famílias que, atingidas por mais uma enchente do rio Beberibe, não receberam do [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Três meses após as <a href="https://marcozero.org/a-espera-da-dragagem-rio-beberibe-transborda-lixo-lama-e-doencas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">chuvas de 1º de maio</a>, que deixaram seis pessoas mortas e quase 3 mil desabrigadas ou desalojadas em Pernambuco, a <strong>Marco Zero</strong> voltou ao bairro de Peixinhos, na periferia de Olinda, para saber como ficou a vida das famílias que, atingidas por mais uma enchente do rio Beberibe, não receberam do Governo do Estado o Auxílio Pernambuco, no valor de R$ 2,5 mil. O que a reportagem encontrou foi um misto de revolta e desesperança.</p>



<p>A gestão Raquel Lyra (PSD) destinou R$ 8,75 milhões a 3,5 mil famílias nos 27 municípios que tiveram situação de emergência decretada, na época, na Região Metropolitana do Recife (RMR), na Zona da Mata e agreste. O dinheiro, porém, não foi, nem de longe, suficiente para atender todo mundo que teve casas danificadas e perdeu móveis e eletrodomésticos.</p>



<p>Somente Olinda, Recife e Goiana (um dos municípios mais atingidos, localizado na Zona da Mata Norte) cadastraram, juntos, 13.782 pessoas. Essa soma é quase quatro vezes maior que o total de famílias beneficiadas com Auxílio do governo estadual em todo o estado (3,5 mil famílias).</p>



<p>O reflexo dessa diferença pode ser visto nas comunidades Beira-Rio, Condor, Cabo Gato, Boa Esperança, Cuscuz e Embalo, todas em Peixinhos, onde moradores ainda não conseguiram se reestabelecer totalmente.</p>



<p>A título de comparação, a gestão do ex-governador Paulo Câmara (na época, no PSB) destinou R$ 150 milhões para 100 mil famílias atingidas pelas chuvas de maio de 2022, que deixaram 130 mortos e quase 130 mil desabrigados ou desalojados no estado. O valor do auxílio, na época, foi de R$ 1,5 mil.</p>



<p>No Recife, o então prefeito João Campos (PSB), hoje candidato a governador na disputa com Raquel, e a Câmara Municipal, adicionaram mais de R$ 1 mil à ajuda do governo estadual, criando o Auxílio Municipal e Estadual (AME), de R$ 2,5 mil para quase 2,5 mil pessoas.</p>



<p>Apesar de o desastre de 2022 ter sido bem maior, as comunidades de Olinda relataram, em maio, que naquela comunidade o impacto da enchente foi bem maior este ano, quando moradores “nadaram”, dentro de casa, com lixo, ratos e cobra. Naquele dia, a lama invadiu até mesmo casas mais distantes das margens do Beberibe, que teve sua última obra de dragagem feita em 2013. Relembre <a href="https://marcozero.org/a-espera-da-dragagem-rio-beberibe-transborda-lixo-lama-e-doencas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a>.</p>





<h2 class="wp-block-heading">Cadastro tardio e verba insuficiente</h2>



<p>Em Olinda, a gestão Mirella Almeida (PSB) cadastrou, tardiamente, quatro mil moradores após as chuvas de maio, mas o pagamento foi direcionado a apenas 726 pessoas, isto é, 18,15% dos cadastros. Nas comunidades que a <strong>MZ</strong> visitou pela segunda vez este ano, conta-se nos dedos quem recebeu o dinheiro, porém é grande a quantidade de pessoas que perderam mobílias ou tiveram danos graves nas residências. Das três mulheres entrevistadas pela reportagem, apenas uma recebeu o benefício.</p>



<p>No dia das chuvas, Daniele Freitas, de 34 anos, e Ketilyn Ferreira, de 23 anos, beneficiárias do Bolsa Família e moradoras da comunidade do Cuscuz, viram suas casas racharem com o aumento da intensidade das chuvas. Ao passo que o aguaceiro ia aumentando, as casas iam rachando ainda mais.</p>



<p>Ketilyn mora com Andreza Beatriz, de 21 anos, e o filho de cinco anos com autismo nível três de suporte, no final da comunidade, uma das últimas casas. A base alta da construção não impediu que houvesse danos. O piso abriu e a água começou a minar do chão, então a parede cedeu e começou a se afastar da base.</p>



<p>Nessa altura, a família de Ketilyn estava ilhada. Ela só conseguiu sair com a ajuda do pai e do irmão, que saíram do bairro de Campo Grande, no Recife, para resgatá-los.</p>



<p>Se não fosse a mobilização da família, a casa ainda estaria rachada, pois elas não teriam condições de minimamente recuperar o imóvel. “Meu pai e minha mãe se juntaram, pediram para um homem ajeitar e botaram calha. Mas pode ver que, onde tem a ferragem, já está rachando de novo. Aí a mesma coisa agora com a última cheia [chuvas que aconteceram no começo de julho]. A água entrou por debaixo do piso e estourou todinho”, detalha.</p>



<p>Ketilyn está cadastrada no CadÚnico e luta para receber ao benefício a que o filho tem direito. Mesmo assim, não conseguiu acesso ao Auxílio Pernambuco. A frustração toma conta da família. Andreza reflete: “Como o auxílio foi para as pessoas que tinham crianças, pessoas que perderam a casa, que foram danificadas, a gente ficou sem entender porque não recebeu. Porque a gente tem ele e os documentos estão todos certos”.</p>



<p>No começo do beco, Daniele passou por algo parecido, mas a casa está ainda sem móveis, sem telhado e com rachaduras grandes. Ela precisou alugar outra residência, por R$ 250, para morar com a filha e o marido, pois, no momento, não tem condições de fazer os reparos necessários para retornar.</p>



<p>A dor de perder tudo relembra o que viveram em 2022. “Eu já não tinha quase nada. Porque já foi problema para eu conseguir dar uma ajeitadinha na casa, aquela cheia em 2022 me atingiu também, e muito. Cedeu a minha casa. Como a cheia entrou com força, a correnteza da água vinha todinha para cá. Aí, com os R$ 1,5 mil que eu recebi na época [do governo Paulo Câmara], tive como ajeitar. Também peguei emprestado, arrumei um cartão para comprar material. Eu já não tinha condições, já fiz o máximo possível para dar uma ajeitadinha para eu ficar aqui”, relata Daniele.</p>



<p>Próximo dali, na comunidade do Bote, Alexandre José, de 40 anos, mora há mais de dez anos em um barraco de madeira às margens do rio Beberibe. “Tentei salvar a geladeira, mas não deu tempo”, conta o homem que perdeu tudo. Três meses depois, ainda vê sua casa revirada junto com os poucos móveis e eletrodomésticos que não foram arrastados pelas chuvas.</p>



<p>Também beneficiário do Bolsa Família, Alexandre complementa a renda fazendo a travessia dos moradores de Peixinhos para Cajueiro pelo rio. O pouco dinheiro que pegou, nos últimos dias, foi para recuperar o bote com que trabalha. “Não chega ninguém para ajudar a gente aqui, não. Se não formos eu e ele aqui, acabou. Como se diz aqui, a gente é esquecido”, lamenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A vulnerabilidade extrema da falta de documentos</strong></h2>



<p>Se a verba do Auxílio Pernambuco não foi suficiente para os cadastrados, a possibilidade ficou ainda mais distante para quem não tem nem os documentos básicos. É o caso do flanelinha Zenon Ferreira, de 69 anos. O idoso, que não é aposentado, quase perdeu a vida dentro do barraco onde mora. As paredes improvisadas com madeiras, telhas e papelões foram embora com a correnteza.</p>



<p><strong>&#8220;</strong>Foi a pior cheia. Já teve cheia grande também, viu? Faz tempo, há uns 10 anos ou mais. Mas essa de maio foi a pior que teve&#8221;, lamenta Zenon, que mora no local há 31 anos. Agora, ele está com os documentos em dia para tentar a aposentadoria.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/peixinhos-Zenon.jpg" alt="Um homem idoso está sentado em uma cadeira branca no interior de uma casa precária, com piso de terra batida irregular e paredes de madeira cobertas por um telhado de zinco ondulado que deixa entrar raios de luz por entre as frestas. Ele veste camiseta amarela com estampa colorida, shorts xadrez, chinelos vermelhos e um boné listrado, e olha para cima com as mãos sobre as pernas, enquanto ao seu redor se veem baldes, recipientes, um barril com etiqueta, panos pendurados fazendo divisórias e troncos de madeira sustentando a estrutura, num ambiente de pouca luz marcado pelo contraste entre claridades que entram pelas brechas e sombras profundas." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Agora, a esperança de Zenon Ferreira é conseguir se aposentar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo a gestão estadual, o pagamento do Auxílio Pernambuco usou como base a quantidade de cadastros repassada ao governo pelas prefeituras no princípio da situação de emergência provocada pelas chuvas do dia 1º. Havia pressa por causa da situação e da necessidade de envio do Projeto de Lei à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).</p>



<p>“Naquele momento, os municípios tinham formado aquela quantidade de famílias e foi a quantidade que nós trabalhamos. Então algumas famílias que estão reclamando ou não estavam no critério ou realmente chegaram depois e não estavam nesse critério de priorização”, afirmou a secretária estadual de Assistência Social, Combate à Fome e Políticas sobre Drogas (SAS), Andreza Pacheco, em julho, após uma onda de protestos.</p>



<p>O decreto do Auxílio Pernambuco priorizou pessoas com deficiência, gestantes e mulheres responsáveis pelo núcleo familiar.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Mobilização da comunidade</h3>



<p>Os cadastros em Olinda foram realizados tardiamente após pressão popular. Em Peixinhos, a gestão de Mirella Almeida começou a realizar os cadastros nas comunidades em 21 de junho. Em 26 de junho de 2026, a gestão ainda informava que estava realizando o cadastramento das famílias atingidas no bairro de Rio Doce.</p>



<p>A visita às casas afetadas aconteceu ao lado de mobilizadores locais integrantes do Comitê Popular de Luta pelo Direito à Vida. Um mês depois do início dos cadastros, o comitê se reuniu com moradores e representantes do Governo do Estado para tratar desse e de outros assuntos.</p>



<p>Com mais de 30 pessoas presentes, os moradores compartilharam suas angústias e a sensação de insegurança e desamparo. No entanto, Josiane Silva, diretora da Secretaria Estadual de Periferias de Pernambuco, foi categórica ao afirmar que não haveria mais pagamentos a quem se cadastrou e não foi contemplado.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/peixinhos-reuniao.jpg" alt="Em uma sala de paredes brancas com piso de cerâmica clara, dezenas de pessoas — homens e mulheres de diferentes idades, alguns de máscara e roupas casuais — estão sentadas em cadeiras plásticas dispostas em duas fileiras que se enfrentam, formando um corredor central, enquanto participam de uma reunião comunitária; o ambiente é decorado com bandeirinhas coloridas de festa junina, fotos e documentos afixados nas paredes, e ao fundo, além de um arco, vê-se uma parede azul-clara com um crucifixo e um ventilador de teto, sugerindo um espaço de caráter religioso ou comunitário." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Moradores pressionaram representantes do governo estadual em reunião
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Questionada pelos moradores sobre a escolha das pessoas que receberiam o dinheiro, a representante afirmou que quem selecionou e encaminhou para o Governo do Estado foi a própria prefeitura.</p>



<p>A <strong>MZ</strong> perguntou à Prefeitura de Olinda sobre os critérios de seleção utilizados e por que tantas pessoas ficaram de fora. A gestão respondeu “realizou os cadastros em conformidade com os critérios estabelecidos pelo Governo do Estado. Além de atender às exigências do processo, o levantamento também servirá como instrumento de mapeamento da realidade local, permitindo a coleta de informações que subsidiem a elaboração de políticas públicas voltadas à população”.</p>
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		<title>&#8220;Lavagem de terra&#8221;: o jogo por trás dos leilões usados para expulsar camponeses na Mata Sul de Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/lavagem-de-terra-o-jogo-por-tras-dos-leiloes-usados-para-expulsar-camponeses-na-mata-sul-de-pernambuco/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2026 19:57:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[despejo]]></category>
		<category><![CDATA[Justiça de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[usinas]]></category>
		<category><![CDATA[Zona da Mata]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A determinação da Justiça Federal de remoção forçada de 70 famílias agricultoras do Engenho Fervedouro, na semana passada, abriu um novo capítulo nos conflitos fundiários da Zona da Mata Sul de Pernambuco e acendeu um alerta em outras comunidades de Jaqueira. O município é um dos epicentros de violentas disputas e denúncias de &#8220;lavagem de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A determinação da Justiça Federal de remoção forçada de 70 famílias agricultoras do Engenho Fervedouro, na semana passada, abriu um novo capítulo nos conflitos fundiários da Zona da Mata Sul de Pernambuco e acendeu um alerta em outras comunidades de Jaqueira. O município é um dos epicentros de violentas disputas e denúncias de &#8220;lavagem de terra&#8221; protagonizadas por oligarquias do estado.</p>



<p>Enquanto reivindicam do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), há mais de uma década, a efetivação da reforma agrária para garantir a criação de um assentamento no local, as famílias que vivem e produzem em Fervedouro enfrentam violações de direitos que incluem ameaças de morte, tentativas de assassinato, destruição de lavouras, contaminação de fontes de água, vigilância por drones e presença de milícia privada.</p>



<p>O engenho era parte da Usina Frei Caneca, fundada no século XIX, numa área de 5 mil hectares e que deixou de produzir em 2003, após as crises do setor sucroalcooleiro no estado. A usina acumulou grandes dívidas fiscais e trabalhistas, um passivo que ultrapassa R$ 200 milhões, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que acompanha os conflitos na região.</p>



<p>Em 2018, a Frei Caneca foi arrendada para a Agropecuária Mata Sul S/A. Dois anos depois, em 2020, Fervedouro foi arrematado, em leilão judicial, pelo empresário Eduardo Jorge Vieira Leite de Lima “a preço de banana”, por aproximadamente R$ 632 mil.Para se ter ideia do deságio, o Incra avalia essas mesmas terras para fins de reforma agrária em pouco mais de R$ 11 milhões. </p>



<p>Em maio deste ano, em mais uma reunião de tentativa de conciliação, Eduardo Jorge disse, por meio de seu advogado, que não aceitava receber do Incra menos de R$ 18 milhões. Assim o impasse deve seguir na Justiça e a reforma agrária a passos lentos.</p>



<p>Agora, Eduardo Jorge quer usar apoio de força policial para expulsar as famílias — a maioria formada por antigos trabalhadores da Usina Frei Caneca que nunca receberam seus direitos. Ele conseguiu amparo numa decisão proferida pelo juiz da 11ª Vara Federal Isaac Batista de Carvalho Neto, que revogou garantias judiciais anteriores que proibiam despejos e preservavam os quase 214 ha ocupados pelos agricultores, de um total de 527 ha do engenho.</p>



<p>A medida, caso executada, vai atingir casas, lavouras, uma escola municipal, igrejas, a sede da associação comunitária, espaços de lazer, estradas e toda a infraestrutura construída pela comunidade há 80 anos. Além do consumo próprio, os trabalhadores abastecem programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).</p>



<p>Uma liminar da última sexta-feira, 14 de agosto, do desembargador federal Fernando Braga Damasceno, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), suspendeu a decisão, ao menos por ora, do juiz Isaac Batista de despejar as 70 famílias de Fervedouro. A novidade, no entanto, não encerra a disputa.</p>



<p>“Hoje, com esse cenário que estamos em Fervedouro, o nosso medo é que aconteça a mesma coisa em outros engenhos. Sabemos como atuam essa empresa e também as forças políticas”, teme Geovani Leão, agente pastoral da CPT.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O jogo societário</h2>



<p>Eduardo Jorge tem uma ligação indireta com a Agropecuária Mata S/A, arrendatária da Frei Caneca. Entre seus ramos de atuação, o empresário investe no setor de energia e é proprietário da EJVL Energia, que leva, no nome, as suas iniciais (Eduardo Jorge Vieira Leite de Lima). A EJVL, por sua vez, é sócia da Camuruzinho Agropecuária, que tem, em seu quadro societário, José Syllio Diniz de Araújo, da Agropecuária Mata Sul.</p>



<p>Ao todo, aproximadamente 1,2 mil famílias residem nas imediações dos 5 mil ha da extinta Frei Caneca e representam aproximadamente 40% dos habitantes de Jaqueira. A extensão de terras da usina corresponde a quase 50% da área total do município. Ao todo, são sete comunidades: Fervedouro, Laranjeiras, Várzea Velha, Barro Branco, Caixa D’Água, Guerra e Rampa.</p>



<p>“Buscamos o reconhecimento, por parte da Justiça Federal, de que a imissão do arrematante Eduardo Jorge não pode se dar sobre as áreas que são possuídas há décadas pelas famílias agricultoras, porque essas famílias já possuem direitos sobre a terra. Buscamos também que o Incra faça a sua parte para dar uma solução definitiva a esse conflito e promova a reforma agrária nesse território”, informaram à <strong>MZ</strong> as assessoras jurídicas da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Mariana Vidal e Luísa Duque. Elas argumentam que, na prática, todas essas destruições contra os engenhos são, além de abusivas, ilegais.</p>



<p>O próprio desembargador federal Fernando Braga Damasceno, do TRF-5, reconhece isso em sua decisão liminar que suspendeu o despejo, na última sexta (14).</p>



<p>A <strong>Marco Zero</strong> fez contato com o advogado de Eduardo Jorge, mas não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Outras comunidades temem despejo</strong></h2>



<p>Além do Engenho Fervedouro, Eduardo Jorge arrematou, no mesmo leilão, em 2020, outros dois engenhos pertencentes à extinta Frei Caneca: Colônia II (Laranjeiras) e Colônia IV (Várzea Velha), também habitados por antigos trabalhadores da usina que nunca receberam suas verbas trabalhistas. Os agricultores agora temem que o empresário vá à Justiça para retirá-las à força também.</p>



<p>Em 2021, em plena pandemia de covid-19, famílias de Fervedouro sofreram ameaças de policiais sob o argumento de cumprimento de reintegração de posse, com relatos de episódios de agressão e destruição de plantações. Confira <a href="https://marcozero.org/em-jaqueira-pernambuco-a-violencia-no-campo-nao-fica-de-quarentena/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a> a reportagem da <strong>Marco Zero</strong> à época.</p>



<p>Nesse mesmo ano, sob pretexto de imissão de posse na Justiça Federal, plantações de banana situadas em sítios do Engenho Várzea Velha também foram derrubadas e uma família chegou a ter sua casa destruída com a presença de seguranças privados e com apoio da Polícia Militar. </p>



<p>O que aconteceu naquele ano reforça a situação de alerta em que os agricultores se encontram no momento.</p>





<h3 class="wp-block-heading">&#8220;Lavagem de terras&#8221;</h3>



<p>O Engenho Fervedouro é o retrato do que vem acontecendo na Mata Sul de Pernambuco. Imóveis de antigas usinas falidas ou desativadas, que acumularam grandes dívidas trabalhistas e fiscais, estão sendo levadas à Justiça para quitar esses débitos, mas leiloadas a preços irrisórios.</p>



<p>Por exemplo, os cerca de 527 ha de Fervedouro foram arrematados por Eduardo Jorge por R$ 632 mil. Isso significa que ele pagou menos de R$ 2 mil por ha, enquanto a CPT estima que o valor real de venda na área ultrapassa R$ 10 mil por ha.</p>



<p>Discrepâncias desse tipo alimentam questionamentos sobre avaliações abaixo do valor real dos imóveis e sobre o uso dos leilões como mecanismo para transferir grandes áreas de terra por valores muito inferiores aos de mercado. Pesquisadores da área identificam indícios de um possível processo de “lavagem de terras”, hipótese reforçada pelo fato de que, em determinados casos, empresários ou pessoas com vínculos com os antigos grupos usineiros aparecem como compradores dos imóveis, seja diretamente ou por meio de terceiros.</p>



<p>Para João Victor Venâncio, advogado da CPT e também pesquisador acadêmico sobre conflitos e reconfigurações territoriais na Mata Sul pernambucana, esse cenário “é consequência de um processo histórico de abandono das terras por antigas usinas, que encerraram suas atividades deixando dívidas trabalhistas e fiscais e sem cumprir a função social da propriedade”.</p>



<p>Ele também critica a atuação do Judiciário, morosa diante das irregularidades cometidas pelos grupos usineiros, mas, que décadas depois, atua de forma rápida para promover leilões judiciais de imóveis por valores abaixo do mercado, com uma série de indícios de irregularidades, desconsiderando comunidades que já possuem a posse consolidada sobre essas áreas.</p>



<p>João Victor expõe que, na prática, esse processo de lavagem de terras permite a transferência e também manutenção do patrimônio entre grupos e “sobrenomes” da região, revelando uma aplicação desigual do direito de propriedade. Enquanto trabalhadores e comunidades enfrentam dificuldades para ter seus direitos reconhecidos, os grandes proprietários conseguem preservar ou recuperar suas terras mesmo com dívidas acumuladas e do descumprimento da função social da propriedade.</p>



<p>“Isso mostra que o direito de propriedade das classes dominantes, para o Poder Judiciário, é absoluto e não precisa observar a lei nem a função social. Isso torna possível alguém ser usineiro, não pagar dívidas de centenas de milhões de reais com o Estado, além de dívidas trabalhistas milionárias, e ainda assim manter seu direito de propriedade por 10, 20 anos, mesmo tendo abandonado a área. E ainda conseguir vender essa área, mesmo existindo comunidades que ali habitam, exercem posse e dão a função social daquela propriedade”, afirma.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/lavagem-de-terra-o-jogo-por-tras-dos-leiloes-usados-para-expulsar-camponeses-na-mata-sul-de-pernambuco/">&#8220;Lavagem de terra&#8221;: o jogo por trás dos leilões usados para expulsar camponeses na Mata Sul de Pernambuco</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>“Meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, denuncia agricultor vizinho de eólica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 21:12:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[atingidos pelas renováveis]]></category>
		<category><![CDATA[Caetés]]></category>
		<category><![CDATA[enegia renovável]]></category>
		<category><![CDATA[energia eólica]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando ‘pai, eu consegui dormir’, quando voltou da casa de uma parente longe daqui”. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres [&#8230;]</p>
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<p>“A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando ‘pai, eu consegui dormir’, quando voltou da casa de uma parente longe daqui”. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres eólicas ao lado de casa, em Caetés, no agreste pernambucano, tirou o sossego também das crianças.</p>



<p>“Se a gente não dá a medicação altamente forte, nem dorme ele nem dorme a gente, ele fica delirando. Infelizmente esse é o resultado do empreendimento que trouxeram para nós”, lamenta Walisson. A caçula, Jenifer Victória, de 6 anos, também já sente os efeitos. “Eu comecei a perceber recentemente que ela está com sinais de ansiedade e de bruxismo”, relata o trabalhador rural, que teve perda auditiva por causa das turbinas, instaladas no município há mais de uma década.</p>



<p>Ainda não há pesquisas científicas que relacionem o impacto desse tipo de geração de energia na saúde infantil de Caetés, a 250 quilômetros do Recife. Mas, para os profissionais da saúde, os relatos clínicos não deixam dúvidas: a vida dos mais novos já não é mais a mesma, as mudanças atravessam o cotidiano, as formas de brincar, o sono, a sensação de segurança e a relação com o território.</p>



<p>“O que tenho visto, dando suporte médico no território, é que crianças e adolescentes desenvolveram, entre outras coisas, transtorno de ansiedade generalizado e que a síndrome da turbina eólica atingiu também essa população”, relata Maria Eduarda Valois Spencer, médica da atenção primária à saúde e professora de Medicina no Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e na Autarquia de Ensino Superior de Garanhuns (Aesga). Ela é colaboradora da <a href="https://marcozero.org/pesquisa-comprova-danos-a-saude-mental-de-camponeses-10-anos-apos-instalacao-de-eolicas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pesquisa</a> da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) que constatou que 68% dos camponeses de Caetés estão em sofrimento psíquico.</p>



<p>Os ruídos emitidos pelas hélices gigantes costumam gerar sintomas como dor de cabeça, zumbido e pressão nos ouvidos, náusea, tontura, taquicardia, irritabilidade, problemas de concentração e memória e episódios de pânico. A exposição às torres por tempo prolongado pode causar, além desses sintomas, distúrbios mais graves como a Síndrome da Turbina Eólica e a Doença Vibroacústica.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><strong>Síndrome da turbina eólica</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sintomas compreendem distúrbios do sono, aumento de frequência e/ou gravidade de dores de cabeça, tonturas, instabilidades, náusea, exaustão e alterações no humor, problemas de concentração e aprendizagem e zumbido nos ouvidos. Indivíduos com histórico de enxaqueca ou problemas auditivos anteriores ao contato com as eólicas e pessoas idosas são grupos mais suscetíveis.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Doença Vibroacústica</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É uma doença sistêmica causada pela exposição prolongada a ruído de grandes amplitudes (90 dB) e baixa frequência (&lt; 500Hz, incluindo os infrassons). É uma patologia com evolução lenta e que pode afetar vários órgãos e tecidos, como os sistemas nervoso e imunitário e os aparelhos cardiovascular e respiratório. Além de ser caracterizada por lesões nos tecidos ou órgãos, pode ocasionar uma série de alterações no organismo, como alterações neurológicas, endócrinas, na tensão arterial e na função respiratória.</span></p>
        </div>
    </div>



<p>“É frequente o relato de crianças que fazem uso de medicações psicotrópicas desde muito novas e que, quando vão passar férias em regiões mais distantes, onde não há usinas eólicas, as famílias já testaram não dar a medicação e as crianças conseguiram viver e dormir melhor”, atesta Maria Eduarda, que também é coordenadora do projeto “Reflorestando o Cuidado na Caatinga: semeaduras de esperança e resiliência frente aos impactos do Complexo Eólico em Paranatama” do PET-Saúde Clima, do Ministério da Saúde.</p>



<p>A médica relata ainda o aparecimento de questões dermatológicas e respiratórias. “As turbinas, que ficam próximas às casas, provocam poeira que contém diversas partículas do ambiente e da própria turbina que causam reações alérgicas na pele e no sistema respiratório”, explica. “Além disso, a questão do zumbido e do efeito estroboscópico das hélices têm um potencial de gerar náuseas e problemas de equilíbrio, por exemplo, numa fase muito importante, de intenso desenvolvimento neuromotor da criança, principalmente na primeira infância”, complementa.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, denuncia agricultor sobre eólicas" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/NRUjdTQ3Tyc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Uma, duas horas da manhã, eles estão acordados no meio da casa”</strong></h2>



<p>“Estamos vendo crianças mais agitadas, com alteração do ciclo sono-vigília, agressivas, irritadas, isso tudo numa fase ainda de construção neurológica e emocional, o que acaba potencializando e atrapalhando um desenvolvimento mais seguro e equilibrado dessa população”, alerta Maria Eduarda.</p>



<p>É o que vem acontecendo com os filhos da agricultora Michele Maria da Silva, de 39 anos, mãe de seis, com idades entre 22 e quatro anos. Eles vivem a apenas 500 metros das turbinas. “Os que ainda moram comigo dormem muito tarde. Uma, duas horas da manhã, estão acordados no meio da casa. Mesmo acordando cedo de manhã, não conseguem dormir cedo. Eles ficam muito incomodados à noite, é muito forte o barulho”, afirma a agricultora, diagnosticada com depressão, diabetes e distúrbios na tireoide.</p>



<p>À noite, o barulho das hélices aumenta porque é um horário em que tende a ventar mais. Despertar na madrugada, detalha Maria Eduarda, é justamente atrapalhar o pico de produção de melatonina pela glândula pineal, localizada no cérebro, que precisa de silêncio e escuridão, caso contrário a produção é interrompida.</p>



<p>Há um ano, ela teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Antes das torres, eu não tinha de jeito nenhum esses problemas”, diz. O filho de 10 anos começou a tomar remédio para ansiedade. “Ele está muito agitado. Agora, com a medicação, se acalmou um pouco. Mas ele fica muito aperreado, cansado, sufocado. E agora apareceu esse medo que ele está, da torre cair”, descreve Michele. Ela gasta R$ 450 de remédio por mês, é mais da metade do Bolsa Família, de R$ 800, que recebe.</p>



<p>O filho mais novo, de apenas quatro anos, está aguardando consulta com um psiquiatra, após encaminhamento de um psicólogo. “Ele está muito agitado, não tem paciência com nada, quebra tudo”, conta.</p>





<h3 class="wp-block-heading">Desenvolvimento infantil comprometido</h3>



<p>A médica Maria Eduarda defende que os impactos das usinas eólicas sobre a saúde infantil devem ser analisados a partir do conceito de cuidado integral. Para ela, não é possível avaliar a saúde das crianças apenas pela presença ou ausência de doenças, sem considerar o ambiente em que vivem.</p>



<p>“O primeiro aspecto que a gente precisa analisar é o meio em que essas crianças vivem, o território. As transformações provocadas pela instalação dos parques eólicos na caatinga alteram justamente esse ambiente, o que pode repercutir no desenvolvimento infantil”, explica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Eduarda integra pesquisa sobre impacto das eólicas
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Embora as evidências disponíveis atualmente se baseiam principalmente em relatos de populações afetadas, esses relatos apontam para impactos que merecem atenção, especialmente na primeira infância. “Essa é uma fase em que hiperestímulos e ruídos acabam atrapalhando o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças. É um período muito delicado e tudo o que acontece nessa fase reverbera mais na frente”, diz Maria Eduarda.</p>



<p>Na avaliação dela, a exposição contínua aos ruídos das turbinas, que não cessam, pode estar associada a dificuldades de concentração, maior agitação e outros sinais observados durante a infância, mas que também podem se desenvolver mais tarde, aparecendo na adolescência com ansiedade, traumas ou outros transtornos emocionais.</p>



<p>“E aí a necessidade de medicação logo na primeira infância preocupa porque esses remédios têm efeitos colaterais e podem acompanhar a criança por muitos anos. Mas o problema não se resolve apenas com um diagnóstico e um remédio. É preciso compreender o território, o meio ambiente e o contexto cultural em que essas crianças vivem”, afirma Maria Eduarda.</p>



<p>Os empreendimentos eólicos também impactam o brincar, por causa do aumento do risco de acidentes durante a implantação e a manutenção desses empreendimentos, com a circulação intensificada de caminhões e veículos pesados nas estradas rurais, modificando espaços tradicionalmente ocupados pelas crianças.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Dica da redação</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Documentário “Filhos do Vento”, disponível no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hNjRzGMewbI"><span style="font-weight: 400;">Youtube</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">O filme é uma produção dos jornalistas Euziane Bastos e Rogério Bié que mergulha nos conflitos socioambientais e na resistência da comunidade quilombola do Cumbe, em Aracati (CE), diante da chegada de um parque eólico em 2008. Sem serem consultados, os moradores deram início a uma luta contra os impactos que o empreendimento causou nos seus modos de vida, cultura e relação com o território.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O documentário revela o cenário de conflitos e contradições por trás do discurso de “energia limpa” desse modelo energético. O filme é uma narrativa direta sobre a luta pela preservação de uma comunidade quilombola frente às mudanças trazidas por grandes empreendimentos.</span></p>
	</div>



<p><em>A repórter viajou a convite da <a href="https://www.caatingaclimateweek.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Caatinga Climate Week</a></em></p>
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		<title>Às vésperas da titulação, protesto quilombola abre nova crise na disputa por terra em Suape</title>
		<link>https://marcozero.org/as-vesperas-da-titulacao-protesto-quilombola-abre-nova-crise-na-disputa-por-terra-em-suape/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 22:37:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[comunidade quilombola]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[mercês]]></category>
		<category><![CDATA[suape]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um novo protesto da comunidade quilombola Ilha de Mercês, em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, reacendeu a histórica disputa por terra travada no local por Suape. Sufocadas pelo complexo industrial portuário, aproximadamente 300 famílias vêm, há décadas, denunciando um processo de expulsão e de degradação de rios e mangues que já comprometeu o sustento [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um novo protesto da comunidade quilombola Ilha de Mercês, em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, reacendeu a histórica disputa por terra travada no local por Suape. Sufocadas pelo complexo industrial portuário, aproximadamente 300 famílias vêm, há décadas, denunciando um processo de expulsão e de degradação de rios e mangues que já comprometeu o sustento e a permanência de parte da população tradicional pesqueira no território.</p>



<p>Nesta quarta-feira, 8 de julho, José Reis, conhecido como Martins, liderança de Mercês, chegou a ser levado para a delegacia do Cabo de Santo Agostinho (município vizinho) numa ação da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) para tentar conter a manifestação às margens da PE-09, próximo à “Curva do Boi”.</p>



<p>Nos vídeos que circulam no WhatsApp e nas redes sociais e a que a Marco Zero teve acesso, fica evidente o uso excessivo da força policial. Há muita gritaria, empurra-empurra e ameaças de prisão.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Protesto quilombola reacende disputa por terra em Suape" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/91bnFc0ib5Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>O motivo do protesto foi a demolição, por parte da Compesa, a pedido de Suape, de duas rampas irregulares e uma barraca à beira da rodovia. As rampas passavam por cima de uma adutora, o que representava um risco iminente à própria população. Os quilombolas dizem reconhecer o risco, no entanto denunciam que não houve diálogo nem negociação.</p>



<p>O pano de fundo dessa disputa, apontam moradores de Mercês, é a continuidade da disputa pela terra. A ação das autoridades aconteceu às vésperas da retomada do processo de titulação do quilombo pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), um trabalho que se arrasta desde 2017 — há uma primeira reunião desse processo de retomada agendada para o próximo dia 20.</p>



<p>Naquele mesmo ano (2017) — após diversos episódios de conflitos referentes à posse de terra, tentativas de reintegração e denúncias de pressão por parte de Suape para retirar pessoas da comunidade —, uma recomendação conjunta foi assinada pelos ministérios público Federal e Estadual (MPF e MPPE) e pela Defensoria Pública da União (DPU) para que, entre outros pontos, Suape não mais adentrasse o território sem prévia autorização nem interferisse nos modos de vida de Mercês.</p>



<p>Mas a comunidade relata que, em maio deste ano, seguranças de Suape destruíram o restaurante de uma quilombola que fornecia marmitas. O caso foi encaminhado ao MPF pelo Fórum Suape Espaço Socioambiental, organização que atua junto às comunidades atingidas pelo complexo industrial portuário. Com o episódio desta semana, o clima voltou a ficar tenso no local.</p>



<p>“Eu nunca me opus que a rampa fosse retirada. Mas não era para terem feito uma atrocidade dessa. Não somos invasores”, disparou José Miguel da Silva Filho, conhecido como “Marrom Quilombola”, irmão de Martins, contra a forma como os agentes públicos agiram. “Os policiais deram voz de prisão à minha esposa, que está gestante e tinha arrancado um dente um dia antes. Ainda quebraram 50 telhas brasilit minhas”, detalha.</p>



<p>Marrom é dono do sítio onde uma das rampas demolidas estava instalada. É também dono da barraca que estava sendo instalada para venda de lanches e marmitas como forma de sustento da família.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/51372184131_a1146490e9_c.jpg" alt="A imagem mostra uma casa simples, de um andar, com telhado de barro e paredes brancas um pouco desgastadas. Na frente, há roupas coloridas penduradas para secar — vermelhas, verdes, listradas — e um grande tecido floral cobrindo parte do muro. Três pessoas estão na calçada: uma mulher à esquerda com saia jeans e camiseta listrada, uma menina no centro encostada no muro, e outra mulher à direita vestindo blusa vermelha e saia laranja. O céu está azul e claro, com algumas nuvens e palmeiras ao fundo, sugerindo um clima quente e tranquilo de região tropical." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pelo menos 300 famílias vivem no quilombo de Mercês
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Disputa vai muito além de rampas e barrac<strong>a</strong></h2>



<p>As duas rampas de acesso demolidas pela Compesa a pedido de Suape eram usadas pela comunidade quilombola Ilha de Mercês para facilitar a mobilidade. Uma delas foi construída recentemente pela própria população. A outra é bastante antiga, estava no local há mais de 20 anos, foi erguida pelo Governo do Estado e era usada para passagem de crianças a caminho da escola e também Pessoas com Deficiência.</p>



<p>Representantes de Mercês dizem que não foram notificados por Suape nem pela Compesa sobre as demolições e agora ficaram lesados. A versão do complexo é outra (confira ao final da reportagem). Marrom Quilombola conta que acordou no susto com os funcionários da companhia de abastecimento, acompanhados pela polícia.</p>



<p>“Foi quando eu joguei no grupo de zap e o pessoal da comunidade foi chegando, incluindo minha mãe, de 76 anos. Aí resolveram fechar a pista. Mas a comunidade não fez vandalismo. Não somos bandidos, somos pais de família”, defende.</p>





<p>“O que Suape quer é amedrontar o nosso povo para a gente sair das nossas terras. Mas não somos invasores, estávamos aqui antes de Suape chegar”, diz, lembrando que muita gente saiu do território porque não tinha mais como se sustentar.</p>



<p>Marrom se refere, sobretudo, ao <a href="https://marcozero.org/com-14-anos-de-atraso-suape-comeca-a-retirar-barreira-que-destruiu-manguezal-do-rio-tatuoca/">embarreiramento do Rio Tatuoca</a>, que era para ter durado apenas um ano, mas durou 14 anos, e asfixiou o ecossistema local para dar lugar a uma estrada. A via foi usada para levar materiais e máquinas para construir o Estaleiro Atlântico Sul. Foi tempo mais do que suficiente para degradar o manguezal e levar junto a fonte de sustento de diversas famílias pesqueiras.</p>



<p>A população viu peixes e crustáceos se acabarem junto com o mangue. Antes, as pessoas pescavam na porta de casa, onde havia bastante unha de velho, sururu, marisco, ostra. Hoje não sobrou quase nada, a pesca diminuiu tanto em quantidade quanto em variedade. E agora muitas famílias vivem apenas da venda de lanches e marmitas à beira da PE-09 e de frutas como manga e banana.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Clemente Coelho Júnior/cortesia</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	




<p>Mercês está localizada dentro da área que foi apropriada por Suape. A comunidade, que tem raízes nos latifúndios de açúcar da região, foi reconhecida formalmente como quilombo pela Fundação Palmares em 2016. Dos cinco hectares pertencentes ao quilombo, hoje restam apenas 1,6 ha.</p>



<p>“São situações como a que aconteceu em maio e nesta semana que tornam ainda mais urgente a retomada do processo de titulação pelo Incra, com as autoridades acompanhando de perto esse processo”, avalia Luísa Duque, advogada do Fórum Suape. A organizou acionou o MPPE para apurar o ocorrido e também registrou o caso na Comissão Estadual de Acompanhamento dos Conflitos Agrários Coletivos de Pernambuco (Ceaca-PE).</p>



<p>Na tarde desta quarta (8), uma reunião de urgência foi convocada pelo MPPE com DPU, Compesa, Polícia Militar, Fórum Suape e representantes da Ilha de Mercês para ouvir as partes. Suape não compareceu, alegando, dez minutos antes, que ainda estaria se inteirando do que aconteceu. Mas, menos de uma hora depois do final da reunião, o complexo enviou uma extensa nota à imprensa com seu posicionamento (confira mais adiante).</p>



<p>O promotor de Justiça Leonardo Caribé, que coordena o Núcleo de Conflitos de Terra e Moradia (Nusf), informou que serão solicitadas mais informações a Compesa, Suape e também Prefeitura de Ipojuca. Também será apurado se houve abuso por parte da PM. Uma nova reunião deve ser agendada em breve. Apesar da irregularidade das rampas, Caribé defendeu que é preciso que se chegue a uma solução.</p>



<p>Presente na reunião, o coronel da PMPE José Mário Canel reforçou que a corporação foi acionada para dar apoio à atividade da Compesa. O major Cesar Júnior, presente na ação, detalhou que foi solicitado reforço após o início do protesto e que a liderança Martins disse que tocaria fogo na via.Chamado para negociar, estava irredutível, segundo o major. Foi então detido por “incitar violência”. </p>



<p>À <strong>MZ</strong>, Martins negou: “Eu não reagi, a polícia é que veio na força, sem negociação”. Ele foi rapidamente liberado depois de chegar à delegacia do Cabo.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que diz Suape</span>

		<p>O Complexo Industrial Portuário de Suape informa que foram identificadas recentemente duas intervenções irregulares em área inserida na poligonal do Porto Organizado: uma edificação em madeira e uma rampa em alvenaria construída sobre uma tubulação pressurizada da Compesa.</p>
<p>A edificação de madeira estava localizada em área sujeita a restrições específicas de ocupação e segurança, onde não são permitidas novas construções. Essas restrições já foram objeto de manifestações e orientações por parte de instituições competentes.</p>
<p>No segundo caso, foi identificada uma rampa em alvenaria construída sobre uma tubulação pressurizada da Compesa. Por se tratar de infraestrutura pertencente à companhia e localizada dentro do Complexo Industrial Portuário, Suape comunicou formalmente a ocorrência à Compesa, que, após avaliar a situação, adotou as providências cabíveis para a desmobilização da estrutura irregular sobre sua tubulação.</p>
<p>Também foi constatada a retirada de trecho do guard-rail da Avenida Portuária para criação de acesso ao local. O dispositivo integra a estrutura de segurança viária e não pode ser removido ou alterado sem autorização.</p>
<p>Diante das irregularidades identificadas, foram realizadas notificações prévias aos envolvidos e à representação da comunidade. Nesta quarta-feira, 8 de julho, Suape realizou a desmobilização da edificação irregular em madeira, enquanto a Compesa promoveu a retirada da rampa construída sobre sua tubulação pressurizada.</p>
<p>As medidas foram adotadas no âmbito das respectivas responsabilidades institucionais, considerando critérios de segurança portuária, segurança viária e proteção da infraestrutura pressurizada de abastecimento existente no local.</p>
<p>Em reação às intervenções, um grupo de manifestantes realizou o bloqueio da Avenida Portuária, afetando temporariamente o acesso ao Porto de Suape. As forças de segurança foram acionadas e atuaram, dentro da legalidade, na liberação da via.</p>
<p>Suape ressalta que respeita o direito à manifestação e mantém canais de diálogo com as comunidades do território. Ao mesmo tempo, tem o dever institucional de agir diante de construções e intervenções irregulares que possam comprometer a segurança das pessoas, a integridade das infraestruturas existentes, a circulação viária e a operação portuária.</p>
<p>As providências adotadas foram de natureza preventiva e de segurança, restritas à remoção das intervenções irregulares identificadas.</p>
	</div>
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		<title>Recife é a 8ª cidade brasileira mais ameaçada por ondas de calor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 18:10:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[calor]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recife é a oitava cidade brasileira mais ameaçada por ondas de calor e ocupa a 89ª posição em um ranking global que avaliou 205 cidades com mais de um milhão de habitantes. O levantamento, realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado na revista científica Sustainable Cities and Society, mostra que os riscos associados [&#8230;]</p>
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<p>Recife é a oitava cidade brasileira mais ameaçada por ondas de calor e ocupa a 89ª posição em um ranking global que avaliou 205 cidades com mais de um milhão de habitantes. O levantamento, realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado na revista científica <a href="https://www.sciencedirect.com/journal/sustainable-cities-and-society">Sustainable Cities and Society</a>, mostra que os riscos associados ao calor extremo não dependem apenas das condições climáticas, mas também de fatores sociais, econômicos e de infraestrutura.</p>



<p>Entre as cidades brasileiras analisadas, Manaus aparece como a mais vulnerável aos impactos das ondas de calor. Na sequência, estão Goiânia (46ª posição no ranking global), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª).</p>



<p>O estudo considerou apenas cidades com população superior a um milhão de habitantes. Das 15 cidades brasileiras que se enquadram nesse critério, 11 foram incluídas na classificação global do estudo.</p>



<p>A pesquisa rompe com abordagens tradicionais que medem o risco apenas a partir da temperatura registrada. Para os pesquisadores, esse tipo de análise pode ser enganosa, já que o impacto do calor sobre a população é mediado por fatores como renda, perfil demográfico, qualidade da infraestrutura urbana e capacidade dos governos e das comunidades de responder a eventos extremos.</p>



<p>Para elaborar o índice, os estudiosos combinaram três dimensões: exposição ao calor, medida a partir do Índice Universal de Clima Térmico (UTCI); vulnerabilidade social, relacionada a aspectos econômicos e demográficos; e capacidade de enfrentamento, associada à infraestrutura disponível e às condições urbanas.</p>



<p>Os resultados mostram que mais de 95% das cidades classificadas como de maior risco estão concentradas no Sul Global, especialmente no Sul e Sudeste Asiático e na África Subsaariana.</p>



<p>A pesquisa de Oxford destaca justamente que cidades com menor capacidade de adaptação podem apresentar níveis elevados de risco mesmo quando não registram as temperaturas mais extremas do planeta.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ondas de calor já provocaram 120 mil mortes no Brasil</strong></h2>



<p>Os resultados do levantamento dialogam com outra pesquisa recente, desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob a coordenação das equipes técnicas dos projetos <a href="https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/cgcl/paginas/ciencia-clima" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ciência&amp;Clima</a> e <a href="https://www.adaptacao.eco.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ProAdapta</a>, que identificou 120 mil mortes associadas às ondas de calor no Brasil entre 2000 e 2018.</p>



<p>Lançado na semana passada, o estudo <em><a href="https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/cgcl/paginas/saude-e-ondas-de-calor" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Saúde e ondas de calor do Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS</a></em> apresenta dados inéditos que caracterizam padrão de exposição a eventos de ondas de calor e os efeitos na saúde humana em todo o território nacional.</p>



<p>Os achados reforçam o calor extremo como ameaça à saúde pública e destacam a necessidade de fortalecer a agenda de adaptação, diante do aquecimento global e da intensificação e frequência de ondas de calor.</p>



<p>De acordo com a pesquisa, o aumento da frequência e da intensidade dos episódios de calor extremo já produz impactos significativos sobre a saúde pública, elevando o risco de desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e aumento da mortalidade, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças preexistentes.</p>



<p>Os idosos foram os mais afetados: mais de 97 mil óbitos de pessoas com 65 anos ou mais podem ser associados a esses eventos extremos, o que representa aproximadamente 80% dos óbitos atribuíveis totais. Ainda dentro do total, quando observado o quantitativo de mortes por causas mais relevantes, destacam-se as doenças cardiovasculares e respiratórias. Os pesquisadores identificaram aproximadamente 34 mil e 24 mil mortes atribuíveis ao calor, respectivamente.</p>



<p>Em âmbito nacional, o estudo explorou os efeitos do calor extremo sobre as internações hospitalares do SUS. Na população em geral foi identificado um aumento consistente do risco de internação por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e geniturinárias, como insuficiência renal, em quase todas as regiões. O estresse térmico sobrecarrega as funções cardiorrespiratórias, contribuindo para inflamações sistêmicas e agravando doenças respiratórias pré-existentes, além de afetar o trato urinário por meio da desidratação, da hipovolemia (redução do volume total de sangue e líquidos no corpo) e da disfunção renal.</p>



<p>Para crianças menores de 10 anos, as gastroenterites (diarreias) foram a causa de internação mais fortemente associada às ondas de calor em todas as macrorregiões do país. A condição pode estar associada à maior suscetibilidade à desidratação, à imaturidade dos mecanismos de termorregulação e às alterações ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos durante períodos de calor extremo.</p>



<p>Já na população idosa, indivíduos com mais de 60 anos mostraram alta sensibilidade em causas respiratórias, renais e metabólicas (diabetes).</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/como-um-shopping-center-se-tornou-o-lugar-mais-quente-do-recife/" class="titulo">Como um shopping center se tornou o lugar mais quente do Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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		<title>Raquel Lyra comemora queda de homicídios, mas violência policial cresce em PE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:52:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Polícia Militar]]></category>
		<category><![CDATA[redução da violência]]></category>
		<category><![CDATA[Violência em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Enquanto a redução geral dos homicídios ocupa o centro da narrativa da gestão Raquel Lyra (PSD) na área da segurança pública, Pernambuco registrou um aumento nas mortes por intervenção policial em 2025, com 89 pessoas assassinadas no ano passado, 30,9% a mais do que em 2024, . A letalidade da polícia tem cor, gênero, idade [&#8230;]</p>
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<p>Enquanto a redução geral dos homicídios ocupa o centro da narrativa da gestão Raquel Lyra (PSD) na área da segurança pública, Pernambuco registrou um aumento nas mortes por intervenção policial em 2025, com 89 pessoas assassinadas no ano passado, 30,9% a mais do que em 2024, .</p>



<p>A letalidade da polícia tem cor, gênero, idade e território: 94,4% das vítimas eram negras, 100% eram homens, 71,9% eram jovens de até 29 anos e 12,4% (o maior percentual registrado) estavam no Recife quando foram mortas.</p>



<p>Os números fazem parte da sétima edição do estudo <em>Pele Alvo: entre racismo e letalidade</em>, <em>o amanhã</em>, que monitora dados de letalidade policial fornecidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelas secretarias de segurança de nove estados (Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo).</p>



<p>Com os resultados de 2025, foi possível contabilizar que, na média dos nove estados, negros têm quatro vezes mais chances de serem mortos pela polícia do que brancos. Em Pernambuco, essa chance chega a ser 11 vezes maior.</p>



<p>De acordo com o estudo, nos nove estados monitorados, o ano passado encerrou com um número recorde de mortes provocadas por policiais (4.330), um aumento de 6,4% em relação a 2024. Considerando os registros de raça ou cor “não informados”, o racismo na segurança torna-se evidente: 86,3% (3.104) das vítimas eram negras.</p>



<p>“Quando analisamos os dados de 2025 em Pernambuco, percebemos uma contradição muito importante. Ao mesmo tempo em que o estado vem divulgando a redução das mortes violentas e intencionais como um resultado positivo da política de segurança, principalmente por meio do programa Juntos pela Segurança, o número de mortes decorrentes de intervenção policial aumentou. Isso nos faz refletir sobre o que realmente significa falar em prevenção da vida quando a violência produzida pelo próprio Estado também cresce. Quando a gente para e olha quem são essas vítimas, o cenário fica mais preocupante”, avalia Dália Celeste, pesquisadora do estudo “Pele Alvo” em Pernambuco.</p>



<p>Afrotransfeminista e estudante de Direito e de Letras, Dália destaca que “existe um perfil muito evidente de qual corpo é atingido por essa violência”. Ela afirma que “isso demonstra que a letalidade policial não acontece de forma aleatória, ela atinge principalmente jovens negros. O que reforça a necessidade de discutirmos o racismo estrutural e as desigualdades presentes na política de segurança pública”.</p>



<p>Outro dado que chama a atenção no estudo é que, apesar de Pernambuco ter informado raça ou cor em 100% dos registros, 78,7% das vítimas não tiveram a profissão identificada. Para Dália, esse contraste é revelador, uma vez que o estado registra a cor daqueles que morrem, mas apaga suas trajetórias nos documentos oficiais.</p>



<p>“Embora o estado consiga informar a raça de todas as vítimas, não sabemos nada sobre quem eram essas pessoas antes da morte. Os dados mostram que um policial, inclusive, foi vítima de uma decorrência da intervenção da própria polícia. Isso aponta que a lógica do confronto também produz riscos para os próprios profissionais da segurança pública”, diz a pesquisadora.</p>



<p>“A nossa preocupação é que o debate sobre segurança pública não fique restrito apenas à redução dos homicídios. É preciso cobrar do estado mais transparência, responsabilização e políticas públicas que tenham como prioridade a preservação da vida”, argumenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Pernambuco segue tendência nacional</h2>



<p>Embora os números ainda sejam altos, Pernambuco vem apresentando uma retração nos principais indicadores criminais monitorados pela Secretaria de Defesa Social (SDS-PE), acompanhando uma tendência verificada na média brasileira.</p>



<p>O estado encerrou os cinco primeiros meses de 2026 (janeiro a maio) com os menores índices já registrados, em toda a série histórica, para Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVPs) e Mortes Violentas Intencionais (MVIs). Até maio, foram registradas 8.070 ocorrências de CVP, o menor resultado dos últimos 16 anos, e 1.167 ocorrências de MVI, o menor resultado dos últimos 23 anos.</p>



<p>O governo estadual aponta o programa Juntos pela Segurança como principal responsável pela melhora do cenário, associado aos investimentos em tecnologia, inteligência e ações policiais.</p>



<p>Já o Brasil atingiu, em 2024, a menor taxa de homicídios em 11 anos, segundo o <em>Atlas da Violência 2026</em>, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) — esses são os dados nacionais mais recentes.</p>



<p>Os pesquisadores apontam que essa redução nacional dos homicídios está relacionada a um conjunto de fatores. Entre eles, estão a adoção de políticas de segurança pública mais orientadas por dados, permitindo ações focadas nas áreas com maior incidência de violência; mudanças na atuação de grupos criminosos, incluindo períodos de menor confronto entre facções em algumas regiões; e o envelhecimento da população, uma vez que os jovens continuam sendo o grupo mais exposto ao risco de assassinato.</p>



<p>Apesar da tendência de queda, o estudo recomenda cautela na interpretação dos números. Isso porque houve aumento dos registros de mortes violentas classificadas como de causa indeterminada, categoria que pode incluir homicídios não identificados oficialmente. Com base nessa hipótese, os autores estimam que o Brasil pode ter contabilizado até 49.673 homicídios em 2024. Nesse cenário, a redução em relação ao ano anterior seria de apenas 0,4%, significativamente menor do que a indicada pelos dados oficiais.</p>
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		<title>Indígenas pankará se preparam para cultivar maconha medicinal no sertão de Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2026 21:36:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[maconha]]></category>
		<category><![CDATA[Pankará]]></category>
		<category><![CDATA[sertão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pela primeira vez no Brasil, um povo indígena se organiza para produzir medicamentos à base de maconha de forma institucionalizada. No sertão de Pernambuco, o povo Pankará Serrote dos Campos deu início à criação da Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial (Acarapuá), iniciativa que pretende viabilizar o cultivo da planta [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Pela primeira vez no Brasil, um povo indígena se organiza para produzir medicamentos à base de maconha de forma institucionalizada. No sertão de Pernambuco, o povo Pankará Serrote dos Campos deu início à criação da Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial (Acarapuá), iniciativa que pretende viabilizar o cultivo da planta para fins terapêuticos dentro do território.</p>



<p>A associação já possui estatuto e Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e agora inicia uma longa jornada jurídica e técnica para obter autorização judicial para o plantio. Os pankará vivem no município de Itacuruba, a quase 500 quilômetros do Recife. </p>



<p>O pajé Geraldo Leal relata que o povo deixou de cultivar maconha há décadas por medo da criminalização. Segundo ele, a planta fazia parte dos saberes terapêuticos tradicionais da comunidade. “Como a maconha é proibida, ninguém mais quer nos dar raízes e ser descoberto”, lamenta.</p>



<p>Para os pankará, a retomada do cultivo representa não apenas a busca por novos tratamentos de saúde, mas também a recuperação de conhecimentos tradicionais interrompidos pela política de proibição das drogas no país.</p>



<p>A criação da Acarapuá resulta de um projeto coordenado pelo Centro de Prevenção às Dependências (CPD), organização não governamental que recebeu uma emenda parlamentar do deputado estadual João Paulo (PT) para estruturar a associação.</p>



<p>Para Ana Glória Melcop, coordenadora do CPD, a iniciativa possui também um caráter de reparação histórica. “A cannabis entrou no Brasil por africanos escravizados e logo os indígenas também começaram a usá-la para fins medicinais. Foram perseguidos, presos e mortos pelo plantio e pelo uso. Hoje trabalhar e ter essa associação é uma reparação, é um dever que a sociedade e o Estado brasileiro têm com os povos indígenas”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O caminho para a autorização judicial</h2>



<p>Embora a associação já esteja formalizada, o caminho até o cultivo efetivo ainda deve levar alguns anos. Atualmente não existe no Brasil um marco regulatório consolidado para associações de maconha medicinal produzirem seus próprios medicamentos. Segundo a advogada da Aliança Medicinal e vice-presidente da Comissão de Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), Lyane Menezes, as autorizações existentes têm sido obtidas por meio de decisões judiciais.</p>



<p>“Não existe hoje um caminho regulatório consolidado. O que existe são autorizações obtidas judicialmente, seja por ações cíveis ou por habeas corpus coletivos”, explica. Segundo ela, existem mais de 300 associações de cannabis no Brasil, mas apenas cerca de 30 conseguiram autorização judicial para cultivar a planta.</p>



<p>O primeiro passo dos pankará foi constituir juridicamente a associação. Agora lideranças indígenas participam de processos de formação técnica e científica para estruturar o projeto. Na última semana, um grupo formado por lideranças, entre elas agrônomos e o pajé Geraldo Leal, participou de uma capacitação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), parceira da iniciativa. </p>



<p>Durante as atividades, professores do Departamento de Farmácia apresentaram os princípios ativos da cannabis, métodos de extração e boas práticas de fabricação de medicamentos. “Mostramos como obter preparados, extratos e outros produtos para fins medicinais que vão ajudar o povo pankará”, explica a professora Larissa Rolim, pesquisadora da cannabis sativa na UFPE.</p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Reunião de fundação da associação Aracauá
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Foi muito bom aprender de cada coisa um pouquinho e conhecer a utilidade da maconha para o ser humano”, comemora o pajé Geraldo Leal.</p>



<p>Além da formação acadêmica, as lideranças visitaram, nesta quinta-feira, 18 de junho, a associação de pacientes Aliança Medicinal, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, onde conheceram experiências de cultivo e produção de derivados da maconha. Segundo o diretor-executivo da Aliança Medicinal, Ricardo Hazin Asfora, a próxima etapa será identificar, dentro do território indígena, os pacientes que poderão ser beneficiados pelo tratamento e capacitar os profissionais de saúde que atendem as aldeias.</p>



<p>“A associação precisa demonstrar a necessidade do uso medicinal entre os pacientes. A partir disso, o jurídico poderá ingressar com ações judiciais solicitando autorização para o cultivo&#8221;, explica. De acordo com Hazin, somente após obter autorização judicial será possível iniciar o plantio experimental e a produção dos primeiros extratos medicinais.</p>



<p>Posteriormente a associação poderá tentar integrar o chamado sandbox regulatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mecanismo criado para estudar e testar modelos de regulamentação para associações de pacientes.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/indigenas-pankara-se-preparam-para-cultivar-maconha-medicinal-no-sertao-de-pernambuco/">Indígenas pankará se preparam para cultivar maconha medicinal no sertão de Pernambuco</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Entre “mimimi” e silenciamento, Câmara do Recife vira palco de violência contra mulheres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 19:13:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Câmara do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
		<category><![CDATA[Violência política de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal do Recife. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema direita como responsáveis pelos ataques. O plenário virou um espaço de tensão permanente. Sessões legislativas passaram a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal do Recife. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema direita como responsáveis pelos ataques.</p>



<p>O plenário virou um espaço de tensão permanente. Sessões legislativas passaram a acumular quase que diariamente episódios de tentativas de silenciamento, desrespeito e de desqualificação das falas das mulheres, além de muitas acusações de “mimimi” dirigidas principalmente às vereadoras de esquerda — mas não só. Os ataques extrapolam o ambiente institucional e ocupam também as redes sociais. </p>



<p>Os episódios mais recorrentes envolvem os vereadores Eduardo Moura (Novo) e Thiago Medina (PL) e têm como principais alvos Cida Pedrosa (PCdoB), Jô Cavalcanti (PSOL), Kari Santos (PT) e Liana Cirne (PT), mas também atingem a evangélica Ana Lúcia (Republicanos).</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Violência política de gênero na Câmara do Recife" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/jKesN5Zo-J8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>Em vídeos registrados durante sessões recentes da casa, é possível ver os parlamentares interrompendo falas femininas, fazendo gestos ostensivos e criando tumultos paralelos enquanto as vereadoras ocupam a tribuna. Muitas vezes a discussão abandona completamente o mérito político e se desloca para provocações pessoais e tentativas de desmoralização pública.</p>



<p>As cenas têm se repetido com frequência suficiente para que vereadoras de diferentes partidos passem a identificar o fenômeno não mais como casos isolados, mas como parte da própria dinâmica política instalada na Câmara Municipal.</p>



<p>A vereadora Cida Pedrosa afirma que o centro da disputa não está apenas nas divergências ideológicas entre esquerda e direita, mas no direito das mulheres existirem politicamente dentro das instituições. “O que está em disputa é o direito das mulheres ocuparem os espaços de poder. Quando uma vereadora é interrompida, quando tentam cortar sua voz, quando tentam deslegitimar sua presença naquele lugar, não estão atacando apenas aquela mulher individualmente. Estão atacando o mandato que ela representa, a população que a elegeu e a própria democracia”, diz.</p>



<p>Cida relata que as tentativas de silenciamento acontecem mesmo em situações protegidas pelo regimento interno da Câmara. “Eu sou frequentemente uma das vereadoras mais interrompidas na Câmara do Recife. E isso acontece mesmo quando o regimento garante que uma parlamentar não pode ser interrompida na tribuna, no aparte ou em uma questão de ordem”, explica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/cida-pedrosa-foto-Guga-Matos.jpeg" alt="A imagem mostra Cida Pedrosa, mulher de meia-idade com cabelos curtos castanhos e óculos escuros, falando ao microfone em um ambiente de conferência. Ela veste uma blusa azul-clara bordada com desenhos brancos e segura um papel enquanto sorri de forma tranquila e confiante. À sua frente há um copo de água, e o fundo está desfocado, sugerindo um espaço formal com outras pessoas presentes." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cida Pedrosa (PCdoB) é uma das vereadoras mais atacadas. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Guga Matos/Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo ela, há um padrão repetitivo de intimidação direcionado às mulheres parlamentares: “toda vez que uma mulher ocupa um espaço legítimo de fala, determinados vereadores tentam atravessar essa fala, falar mais alto, impor o dedo em riste, criar constrangimento público”.</p>



<p>As imagens das sessões confirmam a descrição. Em diversos momentos, as vereadoras tentam concluir suas falas enquanto parlamentares homens conversam alto, fazem comentários paralelos ou provocam interrupções sucessivas. Em alguns episódios, o ambiente se deteriora a ponto de a sessão precisar ser temporariamente interrompida.</p>



<p>Para Jô, “isso revela que a política brasileira ainda carrega uma estrutura muito machista que aceita mulheres desde que elas não incomodem, não enfrentem e não disputem o poder de verdade”. “É por isso que a divergência política faz parte da democracia. O problema é quando a divergência vira silenciamento e humilhação ou tentativa de deslegitimar um mandato eleito pelo povo”, comenta.</p>



<p>Apesar de existir lei para combater a violência política de gênero, Jô acredita que “a lei sozinha não pode mudar uma cultura política construída durante séculos. Para nós mulheres, além da lei, é preciso responsabilização, formação institucional e mudança de prática. Quando uma vereadora é silenciada não é só ela que perde, perde quem votou nela, o debate público e também a democracia”, sustenta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/jo-foto-camara-recife.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/jo-foto-camara-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Jô Cavalcanti, mulher negra de meia-idade, com cabelo crespo curto e óculos de armação escura, falando ao microfone em um ambiente formal, como uma sala de reuniões ou plenário. Ela veste uma blusa vermelha de gola alta e um blazer preto, transmitindo uma aparência elegante e profissional. O fundo tem paredes de madeira clara, partes de bandeiras e estruturas metálicas, sugerindo um espaço institucional. Sua expressão é atenta e firme, indicando que está discursando ou apresentando algo com convicção." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para Jô Cavalcanti (PSOL), &#8220;a política ainda carrega uma estrutura muito machista&#8221;. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara Municipal do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Violência política de gênero se espalha pelas Câmaras Municipais</h2>



<p>O que acontece no Recife acompanha um processo nacional documentado por organizações de direitos humanos, institutos de pesquisa e organismos internacionais. Levantamentos recentes apontam que as câmaras municipais brasileiras se consolidaram como um dos principais espaços de violência política de gênero no país.</p>



<p>Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema foi produzido pelo Instituto Marielle Franco. O relatório <a href="https://www.violenciapolitica.org/baixe-a-pesquisa2023"><em>Violência política de gênero e raça no Brasil</em></a> reúne relatos de mulheres parlamentares e candidatas de diferentes regiões do país e aponta que interrupções constantes, desqualificação intelectual, ameaças, constrangimentos públicos e tentativas de silenciamento passaram a integrar a rotina institucional de mulheres na política.</p>



<p>Outro levantamento, produzido pela ONU Mulheres em parceria com a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), aponta que a violência política aparece hoje como uma das principais barreiras à participação feminina nos espaços institucionais da América Latina. O estudo identifica que mulheres progressistas, feministas, negras e periféricas figuram entre os grupos mais expostos a ataques.</p>



<p>Dados do Observatório da Violência Política e Eleitoral também mostram crescimento contínuo dos registros de violência política de gênero desde as eleições municipais de 2020.</p>



<p>No Recife, as vereadoras afirmam reconhecer nas sessões da Câmara exatamente os padrões descritos pelas pesquisas nacionais. Para Kari Santos, a violência política deixou de ser excepcional e passou a operar como método de disputa institucional.</p>



<p>“Quando um vereador me interrompe no meio de uma fala, quando vira as costas e começa a conversar alto enquanto eu falo, quando entra com processo na Comissão de Ética porque eu denunciei uma violência de gênero, ele não está discordando do meu argumento. Ele está dizendo que eu não tenho direito de estar aqui”, avalia.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/kari-foto-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Kari Santos, mulher jovem de pele clara e cabelos loiros presos, usando óculos grandes de armação amarela. Ela veste uma camisa vermelha e um blazer preto, com um colar prateado e um pingente pequeno em formato de coração. Kari está sentada em um ambiente formal, possivelmente uma sala de reuniões ou plenário, com microfones e cadeiras de escritório ao redor. Sua expressão é séria e concentrada, sugerindo atenção ao que está sendo discutido." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Na avaliação de Kari Santos, &#8220;violência é estratégia para que mulheres desistam da política&#8221;. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara Municipal do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo Kari, existe uma estratégia contínua de desgaste psicológico e político direcionada às mulheres parlamentares. “Interromper é uma estratégia. Ridicularizar é uma estratégia. Processar é uma estratégia. Tudo isso serve ao mesmo objetivo: fazer com que a gente se canse, se cale, desista”, aponta.</p>



<p>Ela afirma que os ataques não se restringem aos momentos mais explícitos de confronto. Eles aparecem também nas pequenas dinâmicas cotidianas do funcionamento parlamentar. “O deboche, a caricatura da mulher como descontrolada e que faz ‘mimimi’ são instrumentos clássicos para tentar deslegitimar mulheres que ocupam o poder”, detalha.</p>



<p>Kari afirma ainda que a estrutura das casas legislativas ainda opera segundo uma lógica profundamente masculina. “A estrutura parlamentar foi construída para homens e por homens. Não existem mecanismos internos que reconheçam de fato a violência política de gênero nos regimentos ou nas comissões de ética”, critica.</p>



<p>Essa percepção aparece também nas falas de Ana Lúcia (Republicanos), partido que integra o campo conservador. Embora esteja em outro espectro ideológico, ela relata experiências semelhantes dentro da Câmara do Recife. “Quando uma parlamentar não consegue fazer uso da fala na tribuna, que é uma caixa de ressonância, e ela é interrompida, ou o barulho constante pela plateia eminentemente masculina faz com que a gente se desconcentre, isso é para nos ridicularizar”, avalia.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ana-lucia-camara-do-recife-300x200.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ana-lucia-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Ana Lúcia, vereadora do Recife, uma mulher de meia-idade com cabelos loiros e lisos, usando óculos de armação dourada. Ela veste uma blusa preta e um blazer claro com detalhes escuros nas bordas, transmitindo uma aparência elegante e profissional. Ana Lúcia está falando ao microfone, em um ambiente formal, possivelmente uma sessão plenária ou reunião institucional, com bandeiras e estruturas metálicas visíveis ao fundo. Sua expressão é séria e concentrada, sugerindo que está abordando um tema importante com firmeza e serenidade." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O que está em disputa, na visão de Ana Lúcia, é dizer &#8220;aqui não é lugar de mulher&#8221;.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Ana Lúcia afirma que a mensagem transmitida pelos ataques é direta. “O que está em disputa é uma única frase: ‘aqui não é lugar de mulher’”, resume. Ela descreve um ambiente em que manifestações de machismo aparecem de maneira naturalizada. “A gente escuta frases como ‘mulher fala demais’, ‘já começou’, ‘é porque é mulher’. Quando pedimos respeito para falar, dizem que somos histéricas, que queremos mandar”, relata.</p>



<p>A vereadora afirma que o problema não está apenas nos episódios individuais, mas na própria composição estrutural da Câmara. “Uma casa com 37 vereadores e apenas sete mulheres já diz muito sobre o quanto precisamos avançar”, contabiliza.</p>



<p>No ano passado, foi sancionada a Lei Municipal nº 19.387/2025, de iniciativa da vereadora, que cria oficialmente a Semana Municipal de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Tentativas de intimidação</strong></h2>



<p>A Marco Zero analisou pelo menos 60 horas de vídeos de sessões plenárias disponíveis no canal oficial da Câmara no YouTube da Câmara. Neles, a repetição dos comportamentos chama a atenção. As interrupções quase sempre ocorrem quando mulheres ocupam a tribuna ou fazem apartes críticos. Em vários momentos, vereadores homens se levantam durante os pronunciamentos, falam simultaneamente ou provocam tumultos paralelos.</p>



<p>As imagens também registram reações corporais típicas dos episódios relatados pelas vereadoras: sorrisos irônicos, gestos de impaciência, conversas paralelas e expressões caricaturais enquanto as vereadoras discursam.</p>



<p>Para as parlamentares, essas atitudes não são casuais. “Elas fazem parte de uma tentativa de ensinar pela punição qual seria o ‘lugar adequado’ da mulher na política”, afirma Kari Santos. “Ser dócil, obediente e silenciosa.”</p>



<p>A vereadora Liana Cirne afirma que a violência política de gênero se intensifica especialmente quando mulheres desafiam estruturas históricas de poder. “Quando uma mulher progressista apresenta projetos que questionam a ordem patriarcal, quando ocupamos a tribuna, quando não baixamos a cabeça, a reação é agressiva”, comenta.</p>



<p>Segundo ela, a violência não é apenas simbólica, “está em disputa quem tem direito de falar, quem tem direito de decidir, quem tem direito de questionar as estruturas de poder.” Liana concorda que o funcionamento da política institucional ainda é moldado por valores patriarcais.</p>



<p>“Como estamos em um lugar que não foi construído para nós (mulheres), eles resistem, seja cortando microfones, ridicularizando nossa aparência ou transformando nossa firmeza em histeria”, argumenta. Liana também relaciona os ataques à incapacidade de parte dos parlamentares de conviver democraticamente com mulheres em posição de poder. “Quando eles não conseguem vencer pelo argumento, recorrem à violência simbólica.”</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/liana-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Liana Cirne, mulher de pele clara e cabelos curtos grisalhos, falando ao microfone em um ambiente formal, provavelmente uma sessão plenária ou reunião institucional" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para Liana Cirne, ataques revelam incapacidade de conviver com mulheres em posição de poder
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">A Lei 14.192, a estrutura e os limites da punição</h3>



<p>A violência política de gênero passou a ser tipificada no Brasil em 2021, com a aprovação da <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14192.htm">Lei 14.192</a>. A legislação alterou o Código Eleitoral para estabelecer normas de prevenção, repressão e combate à violência contra a mulher em ambientes políticos. A lei define como violência política qualquer ação que busque constranger, humilhar, perseguir ou impedir a atuação política feminina.</p>



<p>A norma prevê punições para ameaças, assédio, constrangimento público, humilhação e tentativas de impedir o exercício do mandato. Apesar disso, os dados apontam crescimento contínuo dos casos. Mas, para todas as parlamentares ouvidas, é unânime que a lei sozinha não será capaz de mudar a realidade, pois o problema é estrutural.</p>



<p>Segundo levantamento do Observatório da Violência Política e Eleitoral, os episódios de violência política contra mulheres aumentaram significativamente desde a aprovação da lei, especialmente em ambientes legislativos municipais.</p>



<p>Especialistas apontam que uma das principais dificuldades está na aplicação prática da legislação. Muitas das agressões aparecem disfarçadas de “debate político”, “liberdade de expressão” ou “embate parlamentar”.</p>



<p>Liana Cirne afirma que esse é hoje um dos entraves para a responsabilização. “Uma das principais dificuldades é a prova da motivação de gênero. Muitas agressões aparecem disfarçadas de crítica política”, diz.</p>



<p>Ela cita a própria experiência como exemplo dos limites institucionais da legislação: “fui agredida com spray de pimenta em 2021, denunciei, pedi investigação, a Câmara aprovou requerimento de apuração. Mas, e depois? Não houve punição”.</p>



<p>Liana relata que, após o episódio, passou a sofrer ameaças de morte, de estupro e de agressão. “As consequências disso apareceram até no meu desempenho parlamentar. Eu queria que aqueles que tiveram seus segundos de fama me agredindo nas redes fossem punidos. Mas não foram”, lamenta.</p>



<p>Para ela, a ausência de responsabilização reforça a sensação de impunidade. “Mesmo quando há denúncia formal e legislação, a vontade política de implementar justiça é frágil”, acredita.</p>



<p>Ana Lúcia faz avaliação semelhante: “Enquanto tivermos legislação sem aplicabilidade, os índices continuarão crescendo.” De acordo com ela, a violência política muitas vezes é minimizada até dentro das próprias instituições.</p>



<p>“Toda vez dizem ‘agora tudo é violência política’. Não. O que for violência política precisa ser reconhecido e encaminhado”, reivindica. Ela defende que casos sejam levados às comissões de ética das casas legislativas, pois “o vereador precisa responder por isso.”</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Violência afasta mulheres da política</strong></h3>



<p>Embora as vereadoras descrevam diferenças ideológicas entre si, todas convergem em um ponto: a violência política produz efeitos concretos sobre a permanência das mulheres na política institucional. Cida afirma que os impactos vão além do ambiente parlamentar, ao dizer que “a mulher parlamentar tem o mesmo trabalho, a mesma responsabilidade e a mesma tarefa que os homens, mas muitas vezes precisa exercer seu mandato sendo acossada todos os dias. Isso adoece”.</p>



<p>Ela afirma que a violência política pode afastar mulheres da vida pública. “O maior risco é que a violência política faça as mulheres desistirem da política. E isso seria uma derrota para a democracia”, avalia.</p>



<p>Kari também relaciona os ataques à tentativa de impedir o avanço da representação feminina: “cada mulher eleita é uma fissura a mais nessa estrutura construída para nos excluir.” Para ela, o crescimento da presença feminina na política explica parte da reação observada hoje nas câmaras municipais. “Eles têm medo porque nós temos coragem de enfrentá-los”, defende.</p>



<p>“O que a gente não pode aceitar é que dentro de uma casa legislativa eles coloquem suas posturas machistas para fora e a gente silencie”, defende.</p>
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