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	<title>Arquivos Catolicismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Catolicismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Depois da Virgem Maria negra, Baile do Menino Deus tem indígena fulni-ô no papel de José</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Dec 2023 01:41:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Rosália Vasconcelos Desde o início de novembro, a rotina do ator pernambucano Pedro Caíque Gomes Ferraz, de 34 anos, se divide entre Recife e Águas Belas, município localizado no agreste de Pernambuco. Nas quartas e nas quintas, o rapaz vinha para a capital do estado, ensaiar para o Baile do Menino Deus, em que [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Rosália Vasconcelos</strong></p>



<p>Desde o início de novembro, a rotina do ator pernambucano Pedro Caíque Gomes Ferraz, de 34 anos, se divide entre Recife e Águas Belas, município localizado no agreste de Pernambuco. Nas quartas e nas quintas, o rapaz vinha para a capital do estado, ensaiar para o <em>Baile do Menino Deus</em>, em que representa o personagem José, pai de Jesus. Nos outros dias da semana, o ator voltava para a cidade onde reside com sua esposa e seus filhos. É que, durante os meses de primavera do ano &#8211; setembro, outubro e novembro &#8211; é realizado o ouricuri, ritual sagrado do povo indígena Fulni-ô, aldeado em Águas Belas e do qual o ator faz parte.</p>



<p>Caíque Ferraz é o primeiro ator indígena a representar o papel de José no <em>Baile do Menino Deus</em> e também o primeiro índigena a participar deste tradicional espetáculo pernambucano, que este ano completa 40 anos de encenação, sendo 20 deles de apresentações no Marco Zero. Durante os dois últimos meses, o ator vem vivenciando uma verdadeira experiência de sincretismo religioso.</p>



<p>“Hoje mesmo havia um compromisso com a equipe da indumentária, a prova de roupas, e eu não pude ir porque estou aqui em Águas Belas, concluindo os rituais sagrados. A primeira semana de setembro e a última semana de novembro são as mais emblemáticas para nós Fulni-ô, porque é o nosso encontro e a nossa despedida. Então, eu não poderia deixar de estar aqui com o meu povo”, contou o ator por telefone, no dia em que deu entrevista à repórter. Caíque vivenciava na época a última semana do seu ouricuri. No dia seguinte, contudo, ele estaria no Recife, participando dos ensaios.</p>



<p>Apesar de ter passado dois meses “dividido” entre os rituais de sua prática religiosa Fulni-ô e o mergulho na tradicional história do nascimento de Jesus, que fundamenta a origem do cristianismo, o ator, que se dedicou bastante aos estudos do personagem José, afirma que em nenhum momento sentiu que houve conflitos de valores religiosos. Pelo contrário.</p>



<p>“A concepção de valores cristãos é muito semelhante à concepção dos valores indígenas. As formas ritualísticas é que se diferenciam. As duas religiões comungam da mesma matriz do divino, do sagrado, e de toda a maravilha que é a concepção de um ser iluminado que veio proteger os seres humanos de suas próprias fragilidades. No meu entendimento, o que muda é que diferentes culturas dão nomes diversos”, defende Caíque.</p>



<p>Ele também diz que, como muitos brasileiros não cristãos, viveu em contato direto com a cultura religiosa cristã durante toda a sua vida. “O povo Fulni-ô é um povo milenar, que vive e resiste em uma reserva indígena a quatro quilômetros do bairro de Aldeia, em Águas Belas. Por conta das missões jesuítas para catequizar o nosso povo na época que os europeus invadiram o Brasil, foi construída uma igreja católica no meio da aldeia indígena. Então, de alguma forma, nós tivemos relação com o catolicismo”, lembra.</p>



<p>Segundo o ator, ensaiar o personagem José no <em>Baile do Menino Deus</em> também trouxe para ele um recorte diferente da vida de Jesus. “O roteiro do Baile traz que a escolha pelo homem José para ser o pai de Jesus teve um motivo, não foi em vão. Ele era um homem forte que acolheu Maria virgem, uma mulher que havia engravidado sem a presença da figura masculina. Imagina que para uma sociedade machista, muito mais naquela época do que hoje, José teve que enfrentar sua religiosidade, sua cultura e seu povo. A vida de Jesus é iluminada antes e depois do seu nascimento”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Direito de ser fulni-ô</h2>



<p>Caique Ferraz é ator, do coletivo de teatro <a href="https://www.youtube.com/@resta1coletivodeteatro" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Resta1</a> e fez participação na série Cangaço Novo, do canal por assinatura Prime Vídeo. Ele nasceu no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), localizado no bairro dos Coelhos, área central do Recife, mas sua mãe e sua família materna nasceram todos na região de Águas Belas, onde está situado o povo Fulni-ô.</p>



<p>Apesar de ter crescido no bairro da Boa Vista, no Recife, desde criança a mãe o levava para participar do ouricuri nos três meses de primavera do ano, o que o deu direito a ser um fulni-ô. Durante sua adolescência e início da vida adulta, viveu entre Recife, Águas Belas e Flores, cidade natal do seu pai. Já adulto, após um período do que Caíque chamou de “crise existencial&#8221;, decidiu fixar sua residência de vez junto ao seu povo, em Águas Belas.</p>



<p>Sua esposa e seus filhos são naturais de Águas Belas e também são da etnia Fulni-ô. “Meus filhos vivem na Aldeia, vivenciando a cultura do nosso povo. É algo que faço questão”, orgulha-se Caíque, que além da língua portuguesa, é fluente no idioma dos fulni-ô, chamada Yaathê, que tem dicionário próprio, tamanha sua complexidade. De acordo com os pesquisadores linguistas Adair Pimentel Palácio e Aryon Rodrigues &#8211; dois nomes referências quando o tema é língua indígena brasileira &#8211; o povo Fulni-ô é o único do Nordeste a manter intacto seu idioma e um dos únicos no Brasil a manter viva diariamente sua língua nas atividades do dia-a-dia.</p>



<p>“A partir de janeiro de 2024, quero investir mais tempo em produção audiovisual, pretendo trabalhar no Coletivo Fulni-ô de Cinema, que veio a existir depois da minha formação como ator. Aqui em Águas Belas, temos maravilhosas paisagens e material humano incrível. Temos muitas habilidades a desenvolver e ninguém melhor do que nós para retratar a nossa história e nossa cultura”, planeja Caíque.</p>



<h3 class="wp-block-heading">40 anos de sincretismo no Baile</h3>



<p>O <em>Baile do Menino Deus</em> completa 40 anos em 2023 e se notabilizou ao longo desse tempo por contar a história do nascimento de Jesus, que embasa as festividades natalinas, mas pautada nos elementos da cultura brasileira, contrariando estrangeirismos típicos da época, como neve, papai noel, renas e pinheiros.</p>



<p>Mas não só isso. É um espetáculo que narra um nascimento mítico a partir das culturas formadoras do Brasil. Os três reis magos, por exemplo, representam em suas indumentárias um africano, um indígena e um ibérico, “a sínteses do povo brasileiro”, segundo as palavras de um dos autores da peça, Ronaldo Correia de Brito.</p>



<p>“O divino existe em todas as culturas do mundo. E os povos têm mitos semelhantes a respeito do nascimento do divino. Nós partimos do mito do nascimento de Jesus e ampliamos para um mito mais universal, que celebra nascimentos divinos”, justifica o escritor.</p>



<p>Ele entende que, embora tenha havia um processo de invasão e dominação entre os povos, nenhuma cultura é totalmente dominada por outra. “A forma de resistência cultural dos povos dominados era elaborar uma cultura própria a partir da cultura que estava sendo imposta a eles. E o baile recupera essa intersecção”, afirma Ronaldo.</p>



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	                                        <p class="m-0">Correia de Brito explica que escolha de Caíque foi técnica e não pela etnia. Crédito: Andréa Rego Barros/PCR</p>
	                
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<p>Durante essas quatro décadas, o <em>Baile do Menino Deus</em> buscou representar essa sinergia cultural do povo brasileiro não apenas no religioso, mas também em outras formas de expressão, como nas roupas, nas músicas e nas danças. Em seus primeiros anos de encenação, a partir de 1983, no Teatro Waldemar de Oliveira, o figurino, por exemplo, teve inspiração na cultura bizantina e depois passou a ter elementos do Natal do leste europeu. Na época, 13 atores formavam o elenco e a música era em <em>playback</em>.</p>



<p>Com o passar dos anos, a ampliação de outros elementos culturais aos religiosos foi um processo natural. No Marco Zero, a partir de 2003, o espetáculo traz um elenco de cerca de 60 pessoas, com orquestra ao vivo, coro adulto, coro infantil, corpo de baile e atores.</p>



<p>“No processo de concepção, fomos atrás de músicas dos séculos 15 e 16, algumas delas do processo de catequese de indígenas e africanos. E o Baile recupera também o contato desses povos com a cultura ibérica (portuguesa e espanhola) através desses cantares”, conta Ronaldo Correia de Brito. Já o texto da dramaturgia se manteve.</p>



<p>Mais recentemente, a direção do espetáculo tem inserido elementos culturais urbanos, como o hip hop e o breakdance. Nas apresentações deste ano, que acontecem nos dias 23, 24 e 25 de dezembro, o espetáculo conta com a participação do Rapper Okado do Canal. “A inserção dessas manifestações reflete bem a forma como o Baile se atualiza e absorve a cultura que está viva e que tem essa multiculturalidade”, frisa o escritor.</p>



<p>Sobre a participação do primeiro ator indígena nos 40 anos de cena, Ronaldo Correia de Brito afirma que Caíque Ferraz não foi selecionado por sua etnia, mas por sua qualidade técnica. “A seleção foi natural. Caíque passou por uma audição e nessa audição ele foi selecionado por mim, que sou uma pessoa extremamente exigente. O espetáculo é um guarda-sol aberto, debaixo do qual incluímos todo mundo. Basta ter talento. Ano passado, Maria foi uma atriz negra. Este ano, a Maria é ruiva. Nós selecionamos pela qualidade técnica”, diz.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Laís, a Maria mestiça</h3>



<p>A atriz que interpreta Maria em 2023 é Lais Senna, que prefere se identificar como mulher mestiça ou “negra de pele clara”. Sua formação cultural e religiosa representa exatamente o cerne do <em>Baile do Menino Deus</em>.</p>



<p>“Apesar de negra de pele clara, sou batizada e crismada na Igreja Católica. Mesmo assim, minha família frequentava centros espíritas e budistas. Não tenho vivência de terreiro, mas dancei dois anos no Balé de Cultura Negra do Recife, o que me fez ter contato com elementos das religiões africanas, porque trazíamos isso para o palco. Atualmente, pratico o Sukio Mahikari, que não é exatamente uma religião, mas uma prática religiosa de origem japonesa e que abraça outras religiões”, conta Laís.</p>



<p>Para ela, o Baile dialoga uma narrativa que já está no inconsciente coletivo com a fé das comunidades, a partir do entendimento do que é justo, do que é belo e do que é verdadeiro.</p>



<p>“Enxergo no Baile a grande celebração da cultura em torno do sagrado. A partir de um símbolo católico, o espetáculo traz outras possibilidades do que é sagrado e do que merece ser celebrado. O próprio mito cristão da castidade tem uma releitura a partir do momento em que Maria é humanizada no sentido de sentir dor, de enfrentar dificuldades e de ter o próprio romantismo na sua história com José. É neste sentido que o <em>Baile do Menino Deus</em> se sustenta e se renova, com uma diversidade legitimada e com a celebração da vida. Parece ser óbvio, mas não é”, declara Laís Senna.</p>



<p>Este ano, o B<em>aile do Menino Deus: Uma Brincadeira de Natal</em> acontece de 23 a 25 de dezembro, na Praça do Marco Zero, sempre a partir das 20h. O acesso é gratuito e, seguindo sua proposta de diversidade, o espetáculo possui acessibilidade para cadeirante, audiodescrição e intérprete em libras.</p>



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	                                        <p class="m-0">Peça foi encenada pela primeira vez há 40 anos e está há 20 no Marco Zero. Crédito: Marcos Pastich/PCR</p>
	                
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		<title>Velório do padre Reginaldo Veloso acontece ao lado da igreja do Morro da Conceição, de onde ele foi expulso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 May 2022 14:25:25 +0000</pubDate>
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<p>Vítima de um câncer, o ex-padre Reginaldo Veloso faleceu no final da noite de quinta-feira, 19 de maio, aos 84 anos. O velório do religioso, que foi um dos expoentes da teologia da libertação em Pernambuco, está acontecendo na no Morro da Conceição, na Escola Estadual Padre João Barbosa, Morro da Conceição, exatamente por trás da imagem da santa e da igreja de onde ele foi expulso pelo arcebispo dom José Cardoso, em 1889. Veloso deixa um filho, João José, e a esposa, Edileuza Osório Pereira Veloso, com quem era casado desde 1994. O horário e local do sepultamento ainda não foram divulgados.</p>



<p>O local do velório foi alterado de última hora. Inicialmente marcado para ocorrer na sede do Movimento dos Trabalhadores Cristãos, no bairro da Boa Vista, acabou acontecendo na escola do Morro da Conceição em razão da mobilização de lideranças políticas e de setores católicos. Apesar do salão da igreja onde ele foi pároco não ter recebido o velório, as celebrações religiosas estão acontecendo no templo.<br><br>Nascido em São José da Lage, em Alagoas, a vida pública do ex-pároco foi ligada ao Morro da Conceição e aos trabalhos sociais. Desenvolveu por anos trabalhos de base na comunidade, recebendo o apoio e a admiração do então arcebispo de Olinda e Recife dom Hélder Câmara.<br><br>Após estudar em Roma na década de 1950, Reginaldo Veloso voltou ao Brasil sentindo a necessidade de aproximar a igreja das comunidades e ajudar as pessoas de forma mais efetiva, com conscientização política. Em maio de 1973, foi um dos divulgadores do documento &#8220;Eu Ouvi os Clamores do Meu Povo&#8221;, considerado revolucionário na trajetória política da igreja Católica no Brasil ao denunciar o desemprego, a miséria, a falta de liberdade e outras mazelas sociais durante a ditadura militar.</p>





<p><br>Por conta disso, Reginaldo Veloso foi perseguido pela ditadura e chegou a ser preso para interrogatório. &#8220;Me despiram e colocaram numa jaula que tinha um metro e meio quadrado. Era um cubículo. Fui interrogado por três militares que queriam saber quem havia escrito o documento. Na época, coloquei nomes de figurões da extrema-direita como autores do texto&#8221;, contou, no documentário <em>Reginaldo Veloso: O Amor Mais Profund</em>o, curta-metragem de Daniela Kyrillos.</p>



<p>Ao longo do dia, vários personagens que são referências dos movimentos sociais e dos grupos de católicos progressistas, como o monge e teólogo Marcelo Barros e o frade franciscano Aloísio Fragoso, comentaram sobre a importância do papel desempenhado por Veloso nas lutas sociais em Pernambuco. &#8220;Deixou-nos órfãos de uma voz profética, no sentido mais bíblico da palavra, sempre coerente, colocando o Bem do Povo de Deus acima das suas conveniências&#8221;, resumiu frei Aloísio.</p>



<p>Ativista católica, Maria Tereza Braga de Morais é integrante do Comitê Católico de Luta pela Vida, que está colaborando na organização das missa solene em homenagem ao padre. &#8220;Ele sempre esteve ao lado dos mais pobres, dos mais necessitados. Na próxima semana, a oração do terço contra a fome e favor da democracia que fazemos todas as sextas na calçada da igreja de Santo Antônio, no centro do Recife, será em sua homenagem&#8221;, afirmou.</p>



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	                                        <p class="m-0">Velório aconteceu na escola a poucos metros da igreja de onde Veloso foi expulso pelo arcebispo. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading">Expulsão do Morro da Conceição</h2>



<p>Um episódio bastante conhecido da vida do ex-padre ocorreu quando foi expulso da igreja do Morro da Conceição. Em 1985, Dom Helder Câmara renunciou à arquidiocese de Olinda e Recife. No lugar dele assumiu o conservador dom José Cardoso Sobrinho, que perseguiu alguns padres progressistas, entre eles, Reginaldo Veloso.<br><br>Em 1989, o arcebispo destituiu o padre Reginaldo da Paróquia do Morro da Conceição. Também o suspendeu dos exercícios de sacerdócio, alegando insubordinação. A comunidade, porém, se uniu contra a decisão de dom José e ficou ao lado do padre Reginaldo, que se recusou a deixar a igreja.<br><br>A situação chegou a tal ponto que a Polícia Militar foi chamada para retirar o padre da igreja, cumprindo ordem judicial. Há um episódio, quase anedótico, que é contado também no documentário: quando a polícia chegou, os moradores esconderam a chave da igreja em um balão, que soltaram no céu. Retirado à força da paróquia, padre Reginaldo abandonou a igreja e se casou em 1994. Até o fim da vida se manteve ativo nos trabalhos sociais do Morro da Conceição, que permaneceu ao lado do ex-padre.</p>



<p>Curiosamente, o site da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organismo que representa a hierarquia eclesiástica no país, informou <a href="https://www.cnbb.org.br/faleceu-o-compositor-reginaldo-veloso/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a morte do &#8220;compositor&#8221; Reginaldo Veloso</a> e o apresentou como &#8220;mestre em Teologia e História, escritor, compositor e especialista em liturgia (&#8230;) colaborou com a Igreja no Brasil oferecendo diversas músicas que animaram celebrações e atividades pastorais em todo o Brasil no pós-concilio&#8221;. Nem uma palavra sobre seus vínculos com as lutas do setor progressista da igreja ou o episódio da expulsão da paróquia, um dos mais marcantes de sua vida e na história da igreja Católica em Pernambuco.</p>



<p><em><strong>As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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<p><br></p>
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		<title>Dona Zefinha, a mãe que todos os anos organiza uma romaria em memória do filho, um &#8220;anjo&#8221; sertanejo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 21:57:36 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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<p>“Este menino é um anjo de Deus”. É exatamente com estas palavras que dona Zefinha, Josefa Lacerda, aposentada de 81 anos, pede que eu inicie este texto &#8211; ele fala um pouco a respeito do seu filho Uinston Fabian. Nascido em Macaé, Rio de Janeiro, e criado em Sítio dos Nunes, distrito de Flores, no sertão de Pernambuco, Uinston faleceu aos 14 anos, vítima de um acidente com um trator da empresa onde o seu pai, Luiz Barreiros, trabalhava.&nbsp;</p>



<p>Foi em 5 de julho de 1985, em Terra Nova, outro município do sertão pernambucano, lugar onde a família do garoto foi trabalhar e residir, que a tragédia aconteceu. Uinston era menor aprendiz da construtora Queiroz Galvão e, no fim do expediente, voltou para casa com outros oito funcionários da empresa.&nbsp; A viagem seria feita em um dos tratores da construtora, pois o único carro que transportava os funcionários demorou a chegar e eles decidiram pegar uma carona no trator que estava de saída.</p>



<p>Segundo conta Josefa, num determinado trecho do caminho, o motorista perdeu o controle e o veículo foi em direção a uma ribanceira. Os homens que perceberam o perigo, começaram a saltar, um a um, enquanto Uinston não teve coragem de pular. O menino foi arremessado para fora do trator e a máquina, pesada e robusta, caiu sobre o seu corpo. “Ele morreu de braços abertos, como nosso senhor Jesus Cristo”, descreve dona Zefinha. O corpo de Uinston foi sepultado no cemitério de Sítio dos Nunes, distrito onde sua família voltou a morar e sua mãe vive até hoje. No local do acidente, ela mandou erguer uma cruz em lembrança e homenagem ao filho.&nbsp;</p>



<p>Passado um tempo do falecimento de Uinston Fabian, dona Zefinha começou a ouvir relatos de graças alcanças e atribuídas ao menino. Segundo ela, muitos moradores de Terra Nova ficaram impressionados com a morte trágica e prematura do garoto e começaram a falar de sonhos e aparições de Uinston pela cidade. “O povo que morava lá começou a me contar que sonhava com ele, que ele falava nos sonhos. Dava conselhos e ajudava a alcançar graças. Muita gente passou a fazer promessa pra ele e a visitar o lugar onde aconteceu o acidente”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>A partir daí, Dona Zefinha passou a organizar, todos os anos, no mês em que ele nasceu, novembro, uma pequena romaria que sai de Sítio dos Nunes e vai até o cruzeiro de Uinston, em Terra Nova. A distância é de pouco mais de 200 quilômetros. Há mais de 30 anos, moradores e amigos dos dois municípios a acompanham na viagem e rezam pelo menino. “Tem que chamar um carro, enfeitar, colocar o andor com a imagem de Padre Cícero, encher de flor, de bandeirinha, fita. E o que eu puder colocar para ficar bem enfeitado, eu coloco”.&nbsp;</p>



<p>Dona Zefinha Lacerda me conta tudo enquanto passeamos pelos cômodos de sua casa. Todas as paredes são pintadas e decoradas com quadros que ela mesma pintou. A aposentada faz questão de mostrar cada detalhe e, para cada ambiente, carrega o seu aparelho de som, para tocar a música que acha adequada para cada história e assunto da conversa. Para falar de Uinston Fabian, ela escolhe e acompanha cantando a música <em>Soleado, a música do céu, </em>de Ciro Dammicco, gravada por Moacyr Franco, e <em>Sertaneja, </em>de René Bittencourt e gravada por Orlando Silva. A primeira, dona Zefinha canta em homenagem ao filho e a última, segundo ela, era a que ele mais gostava de ouvir.</p>



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<p>No quarto que era de Uinston, entre&nbsp; imagens de santos e religiosos de quem dona Zefinha é devota, estão abrigados e cobertos de enfeites vários retratos do menino. Um deles é uma reprodução que a própria Josefa fez de uma fotografia tirada no dia da sua primeira comunhão, na capela de São João Batista, em Sítio dos Nunes. Zefinha aprendeu a pintar sozinha na juventude. Conta que, antigamente, quando só tinha dinheiro para as tintas, cortava pequenas mechas de cabelo das filhas e usava como pincel para pintar os seus quadros.</p>



<p>O acidente que matou Uinston Fabian aconteceu um dia antes do aniversário da sua irmã caçula, Christiane Vieira, de 40 anos. A família tinha organizado uma festa e alugado um salão para a comemoração que aconteceria no dia seguinte. “O meu aniversário foi um dia depois do acidente, 6 de julho. Eu era muito pequena, mas lembro que a minha mãe estava organizando tudo pra festa. O salão, os enfeites. Tudo quase pronto, quando aconteceu essa tragédia. A partir daí, os dias foram muito tristes para a nossa família”, conta Christiane.</p>



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<p>Se estivesse vivo, Uinston completaria 51 anos no próximo dia 11 de novembro. A sua irmã mais velha, Jacqueline Rênia, que agora tem 52, lembra que o irmão era um menino bom e um grande companheiro. “Nós éramos como irmãos gêmeos. Só tinha um ano de diferença entre a gente. A gente brincava muito, conversava. Era meu companheiro. Nunca vou esquecer do dia que ele foi embora. Como se fosse ontem, lembro de tudo. Foi um dia muito triste, era um menino muito bom, não tem como esquecer”.</p>



<p>Josefa Lacerda está pensando em voltar à Terra Nova este ano. Por causa da pandemia e por ter tomado a segunda dose da vacina só há poucos meses, não foi possível viajar no ano passado. Como de costume, ela está preparando o andor para Padre Cícero, os enfeites para os amigos romeiros e arrecadando roupas e alimentos para levar e doar, em nome de Uinston, às pessoas que necessitam.</p>



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		<title>Brenda Carranza: &#8220;As condições políticas e culturais favorecem o autoritarismo religioso no Brasil&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/brenda-carranza-as-condicoes-politicas-e-culturais-favorecem-o-autoritarismo-religioso-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2020 23:22:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[aborto legal]]></category>
		<category><![CDATA[Catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[Fundamentalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pesquisadora guatemalteca Brenda Carranza estuda religiões e o fundamentalismo cristão há mais de três décadas. Acompanha o fenômeno das comunidades católicas desde que ganharam força no Brasil, ainda no final da década de 1980 e começo dos anos 1990, com a ascensão da Canção Nova e da Shalom. Na esteira do movimento da Renovação [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A pesquisadora guatemalteca Brenda Carranza estuda religiões e o fundamentalismo cristão há mais de três décadas. Acompanha o fenômeno das comunidades católicas desde que ganharam força no Brasil, ainda no final da década de 1980 e começo dos anos 1990, com a ascensão da Canção Nova e da Shalom.<br><br>Na esteira do movimento da Renovação Carismática, que sacudiu a igreja a partir da década de 1970 com práticas pentecostais, as comunidades cresceram e se fortaleceram. Hoje, são cerca de 1,5 mil comunidades no Brasil, que variam de simples grupos de oração a conglomerados com emissoras de televisão e missões na África, Europa, Estados Unidos e países da América Latina.<br><br>Morando no Brasil há várias décadas, Brenda vem acompanhando a radicalização do cristianismo no Brasil com apreensão. Professora do Departamento de Antropologia e coordenadora do Laboratório de Antropologia da Religião da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a doutora em sociologia e estudiosa das religiões conversou com a Marco Zero sobre as correntes do catolicismo e o fundamentalismo cristão.  Uma aula de como religião e autoritarismo podem caminhar lado a lado. </p>



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	                                        <p class="m-0">A pesquisadora de religiões Brenda Carranza. Foto: Divulgação</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading">A Renovação Carismática</h3>



<p>A Renovação Carismática Católica é um imenso movimento nacional e internacional e vai tendo vários desdobramentos. É um movimento orgânico, o que significa que ele tem suas secretarias, organização interna, ministérios, diretorias, grupos. Diferentes organizações. Tem seus grupos de oração, que são a base, tem as organizações municipais, estaduais, federais e depois se organiza por grupos temáticos. Até politicamente há representantes. Ao lado do movimento carismático, como um desdobramento, há toda uma lavra de jovens cantores, de grupos que cantam nas missas, que vão crescendo à sombra de sacerdotes que cantam, os padres cantores. Então, a renovação carismática tem três grandes pilares: evangelização pela mídia, evangelização com a ajuda da música e a vida no Espírito Santo. Esses padres cantores também vão ter apelo com os jovens, e vão cantar e ter seus grupos. O primeiro foi o padre Marcelo Rossi, temos também o padre Fábio de Melo, o Reginaldo Manzotti. Uma grande ala de sacerdotes, jovens e religiosos e religiosas que se dedicam, nos anos 90, a evangelizar através da música. </p>



<h3 class="wp-block-heading">Novas comunidades católicas</h3>



<p>Junto com isso vão nascendo grupos que surgem na Renovação Carismática, mas vão criar suas próprias organizações. Vão surgir mais ou menos 1,5 mil novas comunidades católicas. Podemos colocar duas como centro: a Shalom e a Canção Nova. A Shalom, de Fortaleza, é uma das grandes comunidades que surgem no Nordeste. E se espalha. A Canção Nova nasce em Guaratinguetá (São Paulo) e se espalha por todo o Brasil. As duas são internacionais, vão exportar missionários para a Europa, África, Estados Unidos, Israel. Tem outra que se chama Ave Maria, não tem a força da Shalom, mas é internacional também.<br><br>Essas comunidades nascem com um carisma. O que é carisma? É alguma missão do Espírito Santo que convoca um indivíduo ou grupo e o grupo vai e faz essa missão. A missão da Canção Nova, por exemplo, é evangelizar pelos meios de comunicação. Ela nasce no ano de 1978. Padre Marcelo cresce na Canção Nova, padre Fábio de Melo cresce na Canção Nova. São filhotes dela. Outra comunidade forte é a que nasce com o padre Eduardo Dougherty, que é um sacerdote que tem o canal Século 21. Um canal católico, que oferece muitos programas carismáticos e não carismáticos. Ele está tão forte como a Rede Vida, a Canção Nova, como aqueles grupos que se reuniram com Bolsonaro em maio para solicitar ajuda e apoio para aumentar a concessão de suas redes no Brasil.</p>



<p>São todos renovação carismática? Quando se pensa em espiritualidade, sim. Mas são todos organizados pela Renovação Carismática? Não. A Renovação Carismática como movimento organizado é um. O padre Marcelo, com o império que ele tem em São Paulo, é outro, independente. Manzotti é outra coisa. A espiritualidade carismática é a obediência ao Papa, a devoção à Nossa Senhora, a fé no Sacramento, a reza do terço e a confissão. Esses são os cinco pilares da renovação carismática.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O pentecostalismo na Igreja Católica</h3>



<p>Tudo está atravessado por uma agenda. A agenda das questões feministas, da moralidade, da homossexualidade, do aborto. Tudo o que tem a ver com sexualidade, moral e bons costumes é uma agenda que perpassa aos grupos conservadores em geral. Eles podem ser conservadores católicos, evangélicos ou não religiosos. É a defesa de um tipo de família, heteronormativa, onde a sexualidade é somente para procriação. Uma agenda que percebe uma família mononuclear, não uma família extensa onde entra madrinhas, tias, mães solteiras. Esse tipo de família não é aceita, mas tolerada. Isso é um componente que atravessa todos os grupos conservadores. Esses grupos se colocam na defesa desse determinado tipo de família. É um traço do conservadorismo moral. Enquanto espiritualidade, em que se parecem os pentecostais evangélicos e as novas comunidades católicas? Se parecem na espiritualidade ligada ao Espírito Santo.<br><br>O pentecostes é a vinda do Espírito Santo (<em>Ato dos Apóstolos, 2:42, que descreve o encontro dos apóstolos de Jesus Cristo com o Espírito Santo</em>) e que é a base do pentecostalismo: línguas de fogo, que significa o fogo do Espírito Santos, que dá energia; o trecho “faz missionários para ir por todo mundo”; o fato de que eles estavam reunidos em oração e também que falavam em línguas (glossolalia) que só eles entendem.</p>



<p>Esse fenômeno de pentecostes é antigo e acompanha todo o cristianismo. Mas é no século XX que ele ganha muitíssima força no catolicismo a partir dos Estados Unidos, em 1978. Antes, os protestantes tinham tido a experiência pentecostal com a Azusa Street, que é um movimento que nasce no final do século XIX, passa por todo os Estados Unidos e chega ao Brasil. Wiliam Joseph Seymour, um pastor afro-americano, lidera o movimento. Em 1910, o pentecostalismo protestante chega ao Brasil, em Belém do Pará.<br><br>O padre Eduardo Dougherty e o Padre Haroldo é que inauguram o pentecostalismo católico no Brasil, com a Renovação Carismática, que nasce em Campinas (SP). Há o elemento do Espírito Santo tomar conta da pessoa, que canta e dança. Há também os elementos de exorcismo, quando espíritos do mal se apossam da pessoa. E para sair só com exorcismo, e só pode ser realizada por um padre na Igreja Católica. Nas evangélicas, a Universal do Reino de Deus começou com esses exorcismos. E com a ideia de que o espírito do mal iria se apossar de todos aqueles das religiões afro-brasileiras. Aí vem um fortíssimo ataque a essas religiões, sobretudo a umbanda.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Financiamento das comunidades</h3>



<p>As comunidades não falam em dízimo, é uma nomenclatura das paróquias. Eles falam em contribuição. Elas solicitam dinheiro para manutenção das obras. A Canção Nova, por exemplo, tem diferentes maneiras de arrecadar dinheiro. Tem o clube dos ouvintes, em que colaboram com a rádio. Tem a colaboração por boleto bancário para pagar a manutenção do canal. Você vai ter o apoio dos colaboradores, se fala muito em “sócios”, que recebem uma revista. Há coisas mais criativas, como ter uma maquininha para passar o cartão, assim como tem nas igrejas pentecostais evangélicas.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Protestos religiosos</h3>



<p>Em outubro de 2017, quando o Sesc de São Paulo trouxe a palestra de Judith Butler (filósofa norte-americana, uma das principais teóricas do feminismo) havia muitos grupos católicos e evangélicos protestando contra a vinda dela, com cartazes, dizendo que ela iria falar pró aborto – a palestra era sobre a ascensão do fascismo. Mas foi colocado assim. No Aeroporto de Congonhas houve agressão física quando ela foi embora. E identificaram grupos religiosos. De lá para cá, tenho observado que os grupos aumentam na maneira de se posicionar. São grupos que se colocam junto com o Pró-Vida, que é uma movimentação internacional dos Estados Unidos muito forte da direita norte-americana, ligada a Trump, aos republicanos. Esses grupos atravessam toda a América Latina, fazem muitos protestos em clínicas de aborto legal nos EUA, ficam na porta com crianças (<em>a pesquisadora indica o documentário Jesus Camp sobre o assunto</em>).<br><br>A ala pró-vida católica no Brasil discute a questão do aborto e muito provavelmente tem conexões com o grupo norte-americano, mas tem vida própria, tem uma pauta própria. As conexões são muito fluídas, os iguais se encontram: vão se conectando um com o outro pelas pautas. Se você vai a um carnaval promovido pelas novas comunidades, vai encontrar gente da Renovação Carismática. Se permeiam.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Agenda política</h3>



<p>As novas comunidades católicas são muito diversas. Tem a Canção Nova e a Shalom com milhares de pessoas e também pequeniníssimas comunidades. As novas comunidades se unem para apoiar políticos que se posicionem contrários ao aborto ou que não passem a homofobia como crime. Todos esses grupos têm uma articulação: se não têm pernas para colocar um candidato, apoiam um político já eleito. É só pegar políticos católicos – como o ex-deputado federal Salvador Zimbaldi (PROS-SP) – que você vê que a pauta pró-vida é fundamental. Eles têm pauta comuns com os evangélicos. É só ver que agora em 2020, em plena pandemia, houve uma urgência em se discutir gênero.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Radicalização dos grupos religiosos</h3>



<p>O que nós estamos observando é um movimento mundial. A radicalização dos grupos de extrema direita é pautada pela violência, pela supremacia racial, pela supremacia sexual, onde a masculinidade vence qualquer tipo de emancipação feminina, onde o machismo é a maneira de se relacionar socialmente. Onde o autoritarismo ignora a complexidade da sociedade.</p>



<p>Eles estavam aí e a gente não via? Eu acho que eles estavam na surdina, não se manifestavam com a radicalidade e o apoio social que estão tendo. Se há avanços dos direitos democráticos, onde cotas raciais, direitos feministas e a pauta social vão caminhando juntos, em um processo democrático, há reações contrárias muito diversas. Porque há grupos que não querem a igualdade social, não querem a desconcentração de renda, o avanço da igualdade social, a pauta feminista.</p>



<p>Não podemos imaginar uma radicalização única. O que temos são diferentes grupos que se radicalizam em torno de uma mesma pauta. Quando a gente está andando no Galo da Madrugada, por exemplo, há grupos que estão ali por razões diferentes. Temos uma ascensão da ultra direita no mundo que passa por Trump, pela Hungria, Polônia, Iraque, Afeganistão, os países árabes, América Latina&#8230; Cada um tem sua agenda: existe o grupo da agenda econômica, a agenda das questões morais, do autoritarismo político. E na avenida, todos se juntam no Galo da Madrugada: contra a democracia, contra os avanços democráticos.</p>



<p>Agora, eles vão gritando e se radicalizando. E vão se mostrando de acordo com a conjuntura. O grupo pró-vida teve seus cinco minutos de glória em frente ao Cisam (centro médico no Recife que realizou o aborto legal numa criança de 10 anos de idade estuprada pelo tio) . Os grupos ecoam, agendas vão se ajudando. Eles sempre estiveram por aí. O que nós estamos observando é que os grupos se empoderam dependendo também da força política que eles vão tendo. E também do clima político. E o que se vivencia no mundo é uma extrema radicalização político-ideológica em torno da direita. Quanto mais lenha você coloca, menos você sabe quem iniciou a fogueira. Os grupos se encontram felizes e contentes quando a pauta é pró-vida, mas se separam quando a discussão é quem vai ganhar um canal de televisão.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Autoritarismo na Igreja Católica</h3>



<p>O autoritarismo nasce de dois pilares: a ignorância e a falta de contato. Então são grupos muito fechados, que acreditam que a verdade está só com eles. Que Deus fala diretamente para eles, sem intermediação. São grupos radicais. A própria Igreja Católica fica muito preocupada em como trabalhar com esses grupos. Porque são grupos que se colocam contra a própria igreja. Têm um pensamento branco ou preto: está comigo ou está contra mim, não tem discussão. É isso que faz o fundamentalismo religioso.</p>



<p>Veja que eles só falam de Bento XVI ou João Paulo II e não querem saber do Papa Francisco. São dois papas da doutrina e esses grupos levam isso ao extremo. Existe um movimento de ultra direita na Igreja Católica que fala que o papa Francisco é o Anticristo. Há cinco cardeais no mundo que são contra o papa e pedem a renúncia dele. São norte-americanos e europeus, mas com filhotes no Brasil, que ainda estão tímidos e não se colocam em público.<br><br>Esses grupos não nascem e crescem sozinhos. Eles nascem em um caldo e têm muitas conexões entre eles, e se fortalecem entre eles. O que estamos vendo é um longo processo de 30, 40 anos de crescimento. E agora as condições políticas e culturais do mundo os favorecem. Por exemplo, não acreditam no coronavírus. A negação da ciência sempre acompanha os grupos radicais, porque são grupos que pensam em uma única direção. Só há uma verdade.</p>



<p>A força de um grupo social depende da força do grupo social contrário. Quanto mais crescer uma sociedade civil pró-democracia mais os grupos do autoritarismo diminuem. Se nas instâncias governamentais e políticas cresce muito o autoritarismo, esses grupos fundamentalistas tendem também a crescer, porque se apoiam e vão arrebanhando. E como são grupos políticos que trabalham muito fortemente com discurso religioso, eles se misturam.<br><br>Como mudar isso? É importante ter nos próprios grupos religiosos e nas próprias paróquias pessoas que digam “eu não acho que o que o tio fez é correto” (em relação ao estupro da menina de dez anos no Espírito Santo). O discurso religioso que só olha o aborto fica enfraquecido também. Você não precisa sair do discurso religioso para confrontá-los.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O futuro do fundamentalismo religioso<br></h3>



<p>Minha maior preocupação é que cresçam com armas na mão. Nós sabemos o que fazem os grupos radicais de extrema direita com armas: a história de 1933 até 1945 na Europa não precisa ser recontada. A preocupação é que esses grupos tenham força militar. E, quando esses grupos se juntam, normalmente têm intolerância a quem pensa diferente. Enquanto você quer me convencer que Deus quer punir uma criança, vamos conversar. Mas se você coloca uma arma na minha cabeça, e diz que eu não mereço viver porque penso diferente, aí a coisa complica.<br><br>Um componente da extrema direita é retirar o monopólio da violência do Estado. O Estado moderno nasce dando ao Estado o poder da violência. E é por isso que se cria a polícia, se cria o Exército. A ultra direita radical retira essa intermediação e coloca as armas na mão do povo. O armamentismo retira toda a defesa institucional. Esse discurso é muito perigoso. Dá um frio no estômago.</p>
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		<title>Três religiosas de mãos dadas contra o fundamentalismo e os preconceitos</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jul 2019 20:00:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Catarina de Angola* Uma onda conservadora tem ganhado força em todo o mundo. Na América Latina, governos de esquerda tem dado lugar a representantes que utilizam do ideal conservador em suas campanhas e que tem ampla propagação pelo fundamentalismo religioso. Discursos&#160; racistas e contra os Direitos Humanos, em especial das mulheres e da população [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Catarina de Angola*</strong></p>
<p>Uma onda conservadora tem ganhado força em todo o mundo. Na América Latina, governos de esquerda tem dado lugar a representantes que utilizam do ideal conservador em suas campanhas e que tem ampla propagação pelo fundamentalismo religioso. Discursos&nbsp; racistas e contra os Direitos Humanos, em especial das mulheres e da população LGBT, se propagam ampliam nesse contexto. No Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) integra esse fluxo global, reforçado pós o golpe de 2016. Movimentos como o feminista e de povos tradicionais são os mais perseguidos.</p>
<p>Esse processo tem contribuído para que cada vez mais diversos setores da sociedade repensem suas estratégias e dialoguem sobre suas formas de atuação. Além do resgate de ações de enfrentamento e resistência já sendo acumuladas. “Estamos vivendo de uma outra maneira aquilo que o nosso povo, infelizmente, já conhece. Nossa tristeza é de ver que a nossa sociedade precisa se fortalecer para reagir da mesma maneira que nós resistimos. Eu, Vera não estaria aqui se não fosse a resistência de nossos ancestrais, que lutaram para que pudessem ver a liberdade e a dignidade ser algo que servisse a todo mundo”, dise Vera Baroni, Yábassê (responsável pelo preparo dos alimentos sagrados no candomblé) do terreiro Ylê Obá Aganjú Okoloiá e integrante da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, durante abertura do curso Caleidoscópio: Corpos livres, Estado laico – Feministas contra o fascismo e o fundamentalismo.</p>
<p>O evento foi promovido pelo SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia, em Recife, de&nbsp; 11 a 13 de julho, e compõe um processo de formação realizado pela organização, através de diálogos entre mulheres. Nessa edição, o avanço do fundamentalismo e do fascismo e os riscos que representam à democracia e à vida das mulheres foi o tema central. Também estiveram presentes na abertura do curso a pastora presbiteriana Sônia Mota e a teóloga feminista Ivone Gebara.</p>
<p>Nesse contexto, Vera Baroni também chamou atenção para como o fundamentalismo tem se expressado no ataque às religiões de matriz africana. “Esse é um momento de destruição, de violência acentuada, onde as pessoas dos terreiros são obrigadas a quebrarem seus símbolos, a saírem de suas comunidades. Isso não acontece, até onde saibamos, com nenhuma outra forma de crença”, disse. “O Rio de Janeiro é o estado onde isso está mais violento, porque houve uma junção de narcotraficantes com neopentecostais”, pontuou.&nbsp; Ataques a terreiros&nbsp; de Candomblé e Umbanda têm sido cada vez mais constantes no Rio de Janeiro por ação de narcotraficantes que se dizem evangélicos. Lá, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) autorizou, em 2017, a construção pela Igreja Universal de templos “ecumênicos” dentro de presídios, acentuando o debate sobre a laicidade do Estado e a relação entre o fundamentalismo religioso com a política.</p>
<p>“Por que as religiões incomodam?”, questionou a teóloga feminista Ivone Gebara, também conselheira das Católicas pelo Direito de Decidir. “porque não estamos em uma democracia, vivemos uma democracia nominal. Uma democracia real exige também a distribuição e redistribuição dos bens econômicos, culturais e simbólicos, temos nominalmente uma democracia, mas não de fato”, disse Ivone. Para ela é necessário se discutir a laicidade do Estado, mas entendendo que o Brasil é um país religioso e que política e religião caminham juntas, e esse é um aspecto importante para basear a discussão do momento que vive o País. “O Estado não precisa ser religioso, mas pode abrir espaços para que isso se manifeste”, disse.</p>
<p>“Vou pedir que nos desarmemos e evitemos a caricatura de que evangélico é sinônimo de fundamentalismo e que são os únicos responsáveis pelo que estamos vivendo. Vamos assumir que vivemos em uma sociedade violenta, machista, homofóbica, racista e que posturas fundamentalistas estão presente em todas as tradições de fé, inclusive em nossos movimentos Claro que em, alguns espaços, mais do que outros e que discursos religiosos podem contribuir para disseminar esses e outros preconceitos”, destacou a pastora Sonia Mota, que também é diretora executiva da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese). “</p>
<p>Sonia alerta para o aumento dos discursos contra a população evangélica, de forma geral, responsabilizando a religião protestante pelo avanço do conservadorismo que tomou conta do debate político no País. Ela alerta que a fé e as concepções religiosas têm sido utilizadas para interesses políticos. “Temos uma sociedade polarizada por esse fundamentalismo religioso que se une ao fundamentalismo político e econômico para colocar um freio, sobretudo a nós mulheres. O fundamentalismo que hoje nos assusta, e que faz a gente se encontrar cada vez mais para conversar sobre ele não é um fenômeno atual, tem histórias, recursos comunicacionais e simbólicos para manter o poder econômico, político e religioso, para manter privilégios e formatar e disciplinar a vida e o corpo das mulheres. O fundamentalismo moderno se apresenta intolerante diante de outras tradições de fé e violentos”, pontuou.</p>
<p>Como enfrentar esse momento, resistir aos ataques e se articular para mudanças foram elementos trazidos nas falas das religiosas, em especial para as mulheres. Sonia Mota reforça que, na contramão do fortalecimento do fundamentalismo, igrejas e outros grupos religiosos têm se organizado. “As comunidades religiosas podem ser espaços importantes de acolhida e resistência. Talvez tenhamos muito de religião e pouco de fé. Surgem novos movimentos feministas cristãos no Brasil que tem assumido com coragem a agenda contra a violência e o racismo”, afirma.</p>
<p>Vera Baroni afirma que as comunidades de terreiro estão articuladas, em especial as mulheres, para que o ataque a essas expressões religiosas não sejam naturalizados. “Vamos convocar instituições como o Legislativo, o Judiciário, as defensorias públicas e a OAB para exigir nossa proteção e defesa. As instituições têm obrigação de nos proteger, pois somos cidadãos brasileiros”, lembra. E Ivone Gebara resgata as conquistas que o movimento feminista tem acumulado ao longo de sua trajetória. “Tem milhares de grupos de mulheres nesse mundo que estão tentando outros caminhos e, embora não haja reconhecimento oficial, nós continuamos sustentando a vida, e essa sustentação tem que fazer parte de uma espiritualidade feminista, que nutra a gente, que não tem que abraçar essa ou outra religião, mas algo que ajude a sustentar esses e outros tempos difíceis que estamos vivendo”.</p>
<p><strong>* Catarina de Angola integra o <a href="https://medium.com/@terral.comunicacao">Terral Coletivo de Comunicação Popular</a>. Este texto faz parte de cobertura colaborativa entre o Terral,&nbsp; a Marco Zero Conteúdo (Débora Britto) e o <a href="https://www.brasildefato.com.br/">Brasil de Fato&nbsp;Pernambuco</a>&nbsp;(Monyse Ravenna).</strong></p>
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