Romaria de dona Zefinha
Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

“Este menino é um anjo de Deus”. É exatamente com estas palavras que dona Zefinha, Josefa Lacerda, aposentada de 81 anos, pede que eu inicie este texto – ele fala um pouco a respeito do seu filho Uinston Fabian. Nascido em Macaé, Rio de Janeiro, e criado em Sítio dos Nunes, distrito de Flores, no sertão de Pernambuco, Uinston faleceu aos 14 anos, vítima de um acidente com um trator da empresa onde o seu pai, Luiz Barreiros, trabalhava. 

Foi em 5 de julho de 1985, em Terra Nova, outro município do sertão pernambucano, lugar onde a família do garoto foi trabalhar e residir, que a tragédia aconteceu. Uinston era menor aprendiz da construtora Queiroz Galvão e, no fim do expediente, voltou para casa com outros oito funcionários da empresa.  A viagem seria feita em um dos tratores da construtora, pois o único carro que transportava os funcionários demorou a chegar e eles decidiram pegar uma carona no trator que estava de saída.

Segundo conta Josefa, num determinado trecho do caminho, o motorista perdeu o controle e o veículo foi em direção a uma ribanceira. Os homens que perceberam o perigo, começaram a saltar, um a um, enquanto Uinston não teve coragem de pular. O menino foi arremessado para fora do trator e a máquina, pesada e robusta, caiu sobre o seu corpo. “Ele morreu de braços abertos, como nosso senhor Jesus Cristo”, descreve dona Zefinha. O corpo de Uinston foi sepultado no cemitério de Sítio dos Nunes, distrito onde sua família voltou a morar e sua mãe vive até hoje. No local do acidente, ela mandou erguer uma cruz em lembrança e homenagem ao filho. 

Passado um tempo do falecimento de Uinston Fabian, dona Zefinha começou a ouvir relatos de graças alcanças e atribuídas ao menino. Segundo ela, muitos moradores de Terra Nova ficaram impressionados com a morte trágica e prematura do garoto e começaram a falar de sonhos e aparições de Uinston pela cidade. “O povo que morava lá começou a me contar que sonhava com ele, que ele falava nos sonhos. Dava conselhos e ajudava a alcançar graças. Muita gente passou a fazer promessa pra ele e a visitar o lugar onde aconteceu o acidente”.

Romaria de dona Zefinha
Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

A partir daí, Dona Zefinha passou a organizar, todos os anos, no mês em que ele nasceu, novembro, uma pequena romaria que sai de Sítio dos Nunes e vai até o cruzeiro de Uinston, em Terra Nova. A distância é de pouco mais de 200 quilômetros. Há mais de 30 anos, moradores e amigos dos dois municípios a acompanham na viagem e rezam pelo menino. “Tem que chamar um carro, enfeitar, colocar o andor com a imagem de Padre Cícero, encher de flor, de bandeirinha, fita. E o que eu puder colocar para ficar bem enfeitado, eu coloco”. 

Dona Zefinha Lacerda me conta tudo enquanto passeamos pelos cômodos de sua casa. Todas as paredes são pintadas e decoradas com quadros que ela mesma pintou. A aposentada faz questão de mostrar cada detalhe e, para cada ambiente, carrega o seu aparelho de som, para tocar a música que acha adequada para cada história e assunto da conversa. Para falar de Uinston Fabian, ela escolhe e acompanha cantando a música Soleado, a música do céu, de Ciro Dammicco, gravada por Moacyr Franco, e Sertaneja, de René Bittencourt e gravada por Orlando Silva. A primeira, dona Zefinha canta em homenagem ao filho e a última, segundo ela, era a que ele mais gostava de ouvir.

No quarto que era de Uinston, entre  imagens de santos e religiosos de quem dona Zefinha é devota, estão abrigados e cobertos de enfeites vários retratos do menino. Um deles é uma reprodução que a própria Josefa fez de uma fotografia tirada no dia da sua primeira comunhão, na capela de São João Batista, em Sítio dos Nunes. Zefinha aprendeu a pintar sozinha na juventude. Conta que, antigamente, quando só tinha dinheiro para as tintas, cortava pequenas mechas de cabelo das filhas e usava como pincel para pintar os seus quadros.

O acidente que matou Uinston Fabian aconteceu um dia antes do aniversário da sua irmã caçula, Christiane Vieira, de 40 anos. A família tinha organizado uma festa e alugado um salão para a comemoração que aconteceria no dia seguinte. “O meu aniversário foi um dia depois do acidente, 6 de julho. Eu era muito pequena, mas lembro que a minha mãe estava organizando tudo pra festa. O salão, os enfeites. Tudo quase pronto, quando aconteceu essa tragédia. A partir daí, os dias foram muito tristes para a nossa família”, conta Christiane.

Romaria de dona Zefinha
Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Se estivesse vivo, Uinston completaria 51 anos no próximo dia 11 de novembro. A sua irmã mais velha, Jacqueline Rênia, que agora tem 52, lembra que o irmão era um menino bom e um grande companheiro. “Nós éramos como irmãos gêmeos. Só tinha um ano de diferença entre a gente. A gente brincava muito, conversava. Era meu companheiro. Nunca vou esquecer do dia que ele foi embora. Como se fosse ontem, lembro de tudo. Foi um dia muito triste, era um menino muito bom, não tem como esquecer”.

Josefa Lacerda está pensando em voltar à Terra Nova este ano. Por causa da pandemia e por ter tomado a segunda dose da vacina só há poucos meses, não foi possível viajar no ano passado. Como de costume, ela está preparando o andor para Padre Cícero, os enfeites para os amigos romeiros e arrecadando roupas e alimentos para levar e doar, em nome de Uinston, às pessoas que necessitam.

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