Crédito: Brasil de Fato/Josiane Holz

Vítima de um câncer, o ex-padre Reginaldo Veloso faleceu no final da noite de quinta-feira, 19 de maio, aos 84 anos. O velório do religioso, que foi um dos expoentes da teologia da libertação em Pernambuco, está acontecendo na no Morro da Conceição, na Escola Estadual Padre João Barbosa, Morro da Conceição, exatamente por trás da imagem da santa e da igreja de onde ele foi expulso pelo arcebispo dom José Cardoso, em 1889. Veloso deixa um filho, João José, e a esposa, Edileuza Osório Pereira Veloso, com quem era casado desde 1994. O horário e local do sepultamento ainda não foram divulgados.

O local do velório foi alterado de última hora. Inicialmente marcado para ocorrer na sede do Movimento dos Trabalhadores Cristãos, no bairro da Boa Vista, acabou acontecendo na escola do Morro da Conceição em razão da mobilização de lideranças políticas e de setores católicos. Apesar do salão da igreja onde ele foi pároco não ter recebido o velório, as celebrações religiosas estão acontecendo no templo.

Nascido em São José da Lage, em Alagoas, a vida pública do ex-pároco foi ligada ao Morro da Conceição e aos trabalhos sociais. Desenvolveu por anos trabalhos de base na comunidade, recebendo o apoio e a admiração do então arcebispo de Olinda e Recife dom Hélder Câmara.

Após estudar em Roma na década de 1950, Reginaldo Veloso voltou ao Brasil sentindo a necessidade de aproximar a igreja das comunidades e ajudar as pessoas de forma mais efetiva, com conscientização política. Em maio de 1973, foi um dos divulgadores do documento “Eu Ouvi os Clamores do Meu Povo”, considerado revolucionário na trajetória política da igreja Católica no Brasil ao denunciar o desemprego, a miséria, a falta de liberdade e outras mazelas sociais durante a ditadura militar.


Por conta disso, Reginaldo Veloso foi perseguido pela ditadura e chegou a ser preso para interrogatório. “Me despiram e colocaram numa jaula que tinha um metro e meio quadrado. Era um cubículo. Fui interrogado por três militares que queriam saber quem havia escrito o documento. Na época, coloquei nomes de figurões da extrema-direita como autores do texto”, contou, no documentário Reginaldo Veloso: O Amor Mais Profundo, curta-metragem de Daniela Kyrillos.

Ao longo do dia, vários personagens que são referências dos movimentos sociais e dos grupos de católicos progressistas, como o monge e teólogo Marcelo Barros e o frade franciscano Aloísio Fragoso, comentaram sobre a importância do papel desempenhado por Veloso nas lutas sociais em Pernambuco. “Deixou-nos órfãos de uma voz profética, no sentido mais bíblico da palavra, sempre coerente, colocando o Bem do Povo de Deus acima das suas conveniências”, resumiu frei Aloísio.

Ativista católica, Maria Tereza Braga de Morais é integrante do Comitê Católico de Luta pela Vida, que está colaborando na organização das missa solene em homenagem ao padre. “Ele sempre esteve ao lado dos mais pobres, dos mais necessitados. Na próxima semana, a oração do terço contra a fome e favor da democracia que fazemos todas as sextas na calçada da igreja de Santo Antônio, no centro do Recife, será em sua homenagem”, afirmou.

Velório aconteceu na escola a poucos metros da igreja de onde Veloso foi expulso pelo arcebispo. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Expulsão do Morro da Conceição

Um episódio bastante conhecido da vida do ex-padre ocorreu quando foi expulso da igreja do Morro da Conceição. Em 1985, Dom Helder Câmara renunciou à arquidiocese de Olinda e Recife. No lugar dele assumiu o conservador dom José Cardoso Sobrinho, que perseguiu alguns padres progressistas, entre eles, Reginaldo Veloso.

Em 1989, o arcebispo destituiu o padre Reginaldo da Paróquia do Morro da Conceição. Também o suspendeu dos exercícios de sacerdócio, alegando insubordinação. A comunidade, porém, se uniu contra a decisão de dom José e ficou ao lado do padre Reginaldo, que se recusou a deixar a igreja.

A situação chegou a tal ponto que a Polícia Militar foi chamada para retirar o padre da igreja, cumprindo ordem judicial. Há um episódio, quase anedótico, que é contado também no documentário: quando a polícia chegou, os moradores esconderam a chave da igreja em um balão, que soltaram no céu. Retirado à força da paróquia, padre Reginaldo abandonou a igreja e se casou em 1994. Até o fim da vida se manteve ativo nos trabalhos sociais do Morro da Conceição, que permaneceu ao lado do ex-padre.

Curiosamente, o site da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organismo que representa a hierarquia eclesiástica no país, informou a morte do “compositor” Reginaldo Veloso e o apresentou como “mestre em Teologia e História, escritor, compositor e especialista em liturgia (…) colaborou com a Igreja no Brasil oferecendo diversas músicas que animaram celebrações e atividades pastorais em todo o Brasil no pós-concilio”. Nem uma palavra sobre seus vínculos com as lutas do setor progressista da igreja ou o episódio da expulsão da paróquia, um dos mais marcantes de sua vida e na história da igreja Católica em Pernambuco.

As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.