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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Raquel Lyra enfrenta deboche e ironia de estudantes nas redes sociais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Apr 2025 21:12:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Estudantes]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não é de hoje que a governadora Raquel Lyra é alvo dos estudantes das escolas da rede pública estadual. Os protestos dos últimos dias, que culminaram com uma audiência pública na Assembleia Legislativa convocada por deputados de oposição, levaram para a realidade física o que, desde os primeiros dias de aula de 2023, é uma [&#8230;]</p>
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<p>Não é de hoje que a governadora Raquel Lyra é alvo dos estudantes das escolas da rede pública estadual. Os protestos dos últimos dias, que culminaram com uma audiência pública na Assembleia Legislativa convocada por deputados de oposição, levaram para a realidade física o que, desde os primeiros dias de aula de 2023, é uma rotina nas redes sociais: críticas repletas de sarcasmo e deboche à condução da educação de Pernambuco. </p>



<p>São quase 500 mil adolescentes nas escolas estaduais de ensino médio, a maioria com idade para o primeiro voto e intimidade com o Instagram e, principalmente, o TikTok, apontando com bom humor os problemas que enfrentam no dia a dia das salas de aula.</p>



<p>Na semana dos protestos, uma postagem com mais de 62 mil visualizações na página do Instagram do Grêmio Estudantil Dandara Pedrita, da Escola Técnica Estadual Miguel Batista, mostrou alunos reunidos em sala de aula para mostrar o material escolar que a “titia Lyra” mandou. Em suas bancas, os estudantes balançam suas bolsas vazias e ainda disparam que ao final do ano a governadora deseja ver os “resultados”.</p>





<p>Não demorou muito para que estudantes de outras escolas manifestassem insatisfação nos comentários, em um deles uma jovem dispara: “e disse que iríamos ganhar um vale pra comprar sapato, nem farda eu tenho”. As proporções foram ainda maiores quando uma página de memes reproduziu o vídeo e atingiu quase 600 mil visualizações.</p>



<p>Esse é um dos diversos conteúdos que circulam nas redes sociais mostrando como os jovens têm se mobilizado para reivindicar as faltas da gestão estadual com as escolas públicas. No TikTok, os vídeos com as denúncia são repletos de humor ácido. </p>



<p>Os primeiros conteúdos críticos na plataforma de vídeos foram postados por estudantes já em abril de 2023, três meses após a posse da governadora, como neste exemplo aqui: <a href="https://www.tiktok.com/@3_adm23/video/7242384584875183365?q=raquel%20lyra%20merenda&amp;t=1744051263332">Reage, mulher!<img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f921.png" alt="🤡" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Não tem kir, não tem merenda, não tem farda… nao tem &#8230; | TikTok</a>. Os problemas vão de atrasos de kit escolares e fardamentos, falta de qualidade das merendas até calor nas salas de aula. Como mostra neste vídeo com a legenda “se tá ruim pra você, imagina pra gente que na de aula tem quatro ventiladores e só pega um”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-tiktok wp-block-embed-tiktok"><div class="wp-block-embed__wrapper">
https://www.tiktok.com/@vitoriawqx/video/7488046999024143671
</div></figure>



<p>Já os estudantes da EREM Senador João Cleofas de Oliveira, de Vitória de Santo Antão, se reuniram em frente à instituição em protesto para reivindicar o que ainda não haviam recebido. Entre as falas, uma jovem pergunta: “Raquel Lyra, cadê os kits dos estudantes? Cadê os kits dos professores? Cadê o compromisso com os alunos do governo?”.  </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-tiktok wp-block-embed-tiktok"><div class="wp-block-embed__wrapper">
https://www.tiktok.com/@lorenzo_bl4dll/video/7488100712241433861?_r=1&#038;_t=ZM-8vConeeUb2b
</div></figure>



<p></p>



<p>Esse movimento dos alunos expõem a contradição da governadora. Em cinco de janeiro deste ano, Lyra fez <a href="https://www.tiktok.com/@raquellyraoficial/video/7320735436274453766?_r=1&amp;_t=ZM-8vEBcsFATKB" target="_blank" rel="noreferrer noopener">uma publicação na sua conta oficial do TikTok garantindo que o ano letivo iniciaria com 500 mil kits escolares entregues para todos os alunos</a>. “Através do programa Juntos pela Educação, a gente já vai garantir que cada aluno, em cada escola de Pernambuco, possa receber o seu kit”, ressaltou no vídeo. </p>



<p>Quando se fala em merenda, os alunos também se posicionam. Meninos e meninas se queixam da qualidade da comida, a variedade e até a quantidade de óleo no tradicional macarrão com sardinha, como aponta esse vídeo do primeiro ano de gestão de Raquel. No texto da legenda, a ironia: &#8220;Eis que a fábrica de óleo resolve patrocinar o governo de PE&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-tiktok wp-block-embed-tiktok"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="tiktok-embed" cite="https://www.tiktok.com/@https.leticiaxz__/video/7277626335906876678" data-video-id="7277626335906876678" data-embed-from="oembed" style="max-width:605px; min-width:325px;"> <section> <a target="_blank" title="@https.leticiaxz__" href="https://www.tiktok.com/@https.leticiaxz__?refer=embed">@https.leticiaxz__</a> <p>Eis que a fábrica de óleo resolve patrocinar o governo de PE <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f921.png" alt="🤡" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> <a title="recife" target="_blank" href="https://www.tiktok.com/tag/recife?refer=embed">#recife</a> <a title="foryou" target="_blank" href="https://www.tiktok.com/tag/foryou?refer=embed">#foryou</a> <a title="governodepernambuco" target="_blank" href="https://www.tiktok.com/tag/governodepernambuco?refer=embed">#governodepernambuco</a> <a title="merenda" target="_blank" href="https://www.tiktok.com/tag/merenda?refer=embed">#merenda</a> <a title="recifeordinario" target="_blank" href="https://www.tiktok.com/tag/recifeordinario?refer=embed">#recifeordinario</a> </p> <a target="_blank" title="♬ Na Vibe - MC Loma e As Gêmeas Lacração &#038; DJ Torricelli" href="https://www.tiktok.com/music/Na-Vibe-6768278293377452034?refer=embed">♬ Na Vibe &#8211; MC Loma e As Gêmeas Lacração &#038; DJ Torricelli</a> </section> </blockquote> <script async src="https://www.tiktok.com/embed.js"></script>
</div></figure>



<p>O programa Ganhe o Mundo tem sido outro motivo de angústia para aproximadamente 900 estudantes aprovados para fazerem um intercâmbio internacional para o Canadá e os Estados Unidos, com tudo pago pelo Governo do Estado. Contudo, o embarque que deveria ter ocorrido até o mês passado, não tem nenhuma previsão para acontecer. É possível ver a frustração desses jovens aprovados na publicação em que a governadora acompanha o embarque de estudantes que foram para o Chile.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/04/image-1-300x207.png">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/04/image-1.png" alt="Essa imagem captura um momento em que uma pessoa está segurando uma sacola de papel marrom. Na sacola, há um adesivo com a bandeira do estado de Pernambuco. Atrás dela, há uma pessoa vestindo uma camisa azul com o logotipo do governo de Pernambuco e a palavra MUNDO. Outras pessoas também estão ao fundo, provavelmente participantes ou observadores de um evento. Na parte superior da imagem, há um texto que diz Deixa com a gente, Governadora!. Já na parte direita da imagem, há uma captura de tela de uma postagem no Instagram da conta raquellyraoficial. A postagem tem 5630 curtidas e foi feita há 6 dias. Alguns comentários fazem perguntas sobre kits ou tratam da demora para atender demandas de quem está nos EUA e Canadá." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Instagram</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">A descoberta do direito de lutar</h2>



<p>“A gente olha para o governo dela e não enxerga aquela mulher enquanto governadora, porque as atitudes, os pensamentos e as ações não condizem com o cargo político que ela está. A gente acaba se prejudicando muito, porque ficamos em situações insalubres”, relata Luana Rêgo, de 17 anos, estudante do 3º ano da Escola de Referência em Ensino Médio Augusto Severo, localizada em Piedade, Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife.</p>



<p>A jovem começou sua jornada no ensino médio junto com o início da gestão de Lyra e afirma que os problemas enfrentados acontecem desde o primeiro ano. “A falta de climatização, a infraestrutura básica da escola que não é fornecida direito, a merenda também. Então, são coisas básicas que não são garantidas para nós estudantes”, afirma. Ano passado, os alunos receberam o fardamento no mês de abril e o kit escolar em junho. </p>



<p>Os últimos dias do mês de março foram marcados por reivindicações de alunos e professores de diversas escolas da rede estadual. Na última segunda-feira (31), os estudantes da Augusto Severo se reuniram em frente à escola reforçando as denúncias feitas na internet, com um agravante: a acusação de coação da Gerência Regional de Educação (GRE) Metro Sul para evitar a mobilização e o tratamento agressivo da nutricionista responsável.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/programa-ganhe-o-mundo-atrasa-e-estudantes-nao-sabem-quando-vao-embarcar/" class="titulo">Programa Ganhe o Mundo atrasa e estudantes não sabem quando vão embarcar</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>“O gestor e a presidente da GRE Metro Sul foram lá na escola tentar nos calar, começaram a coagir os alunos a não fazer a mobilização, mandaram mensagem para os pais, até para os professores, mas, mesmo assim, a gente teve coragem de ir para o meio da rua e fazer o máximo que a gente conseguiu. Acabou dando certo”, reforça a jovem.</p>



<p>Coincidentemente, após o ato e a presença na audiência pública que aconteceu na Assembleia Legislativa de Pernambuco na última terça-feira (10), os jovens desta escola receberam os kits escolares. No entanto, segundo a adolescente, o material entregue não atendeu a todos os alunos, pois o número de kits foi insuficiente para o total de estudantes, além de não condizerem com a quantidade de itens informados no QR Code da embalagem.</p>



<p>Apesar desses problemas, foi com essa cobrança que obtiveram alguma resposta do Governo do Estado. “A gente percebeu que os estudantes têm voz, sim, e a gente pode sim ir atrás dos nossos direitos, porque eles tentaram todo esse tempo, há três anos, fazer com que a gente engolisse a seco todas as falhas deles”, discursa Luana.</p>



<p>O presidente da União Metropolitana de Estudantes Eecundaristas de Pernambuco (Umes), Kleyton Pimentel, aponta que a entidade recebe diversas denúncias desde o início da gestão, mas não há diálogo com a secretaria “A gente se preocupa muito, porque o governo de Pernambuco não dialoga com os movimentos estudantis. Não dialoga com a classe estudantil, com a classe dos professores e trabalhadores da educação. Então, é um grande tiro no escuro. A gente fica, inclusive, sempre esperando a próxima bala que vai atingir os estudantes’, compara. Só após muita insistência, a UMES conseguiu uma reunião com o secretário de educação.</p>



<h3 class="wp-block-heading">As respostas do secretário de Educação</h3>



<p>O secretário de Educação do Estado, Gilson Monteiro, esteve na audiência pública, no dia primeiro de abril, convocada pela Comissão de Administração Pública, da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE), para responder os principais questionamentos da comunidade escolar, que lotou o Auditório Senador Sérgio Guerra. Estudantes e deputados reforçaram denúncias que vêm sendo feitas nos últimos meses.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Confira o que o secretário disse:</span>

		<ul>
<li><span style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Sobre os kits escolares, o secretário informou que a gestão precisou realizar as compras por meio de atas de preços definidas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Governo Federal. Isso aconteceu por causa de problemas no processo licitatório e por medidas cautelares do Tribunal de Contas do Estado (TCE). O secretário ainda garantiu que, até o dia 20 deste mês, os kits serão entregues para toda a comunidade escolar.</span></span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-weight: 400;">Em relação ao fardamento, entendendo como parte do fardamento não só as camisas, mas a mochila e o tênis prometidos pela gestão estadual, houve uma série de atrasos. Este ano, o governo fez uma parceria com o Polo Têxtil para que as camisas fossem produzidas aqui no estado, no entanto, o secretário afirmou que o atraso aconteceu devido ao processo de adesão das empresas, capacitação, discussão e convencimento da efetividade da parceria. De toda forma, até o momento foram entregues 566 mil fardas e, até meados de abril, serão entregues mais duas fardas por aluno. A secretaria se comprometeu em checar com as escolas que possuem alunos que ainda não receberam.<br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
Para viabilizar as mochilas, o caminho é ainda mais complexo: o secretário chamou o processo para a produção das mochilas de “traumático”, pois apenas dez empresas se cadastraram no chamamento público para a produção. Então, houve um atraso pelo tempo maior entre o chamamento, credenciamento, capacitação e fornecimento. Quem está à frente da produção é o Polo de Cupira, mas o secretário não sabe quando as mochilas vão ser entregues.<br />
</span><span style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><br />
E os tão esperados tênis parece que ainda vão demorar. A SEE está aguardando propostas dos bancos públicos para efetivar a contratação dos cartões pré-pagos no valor de R$ 150. Além disso, eles precisam de condições para limitar o valor e identificar as lojas específicas de calçados, além de acompanhar e prestar contas dos valores fornecidos. Também não há previsão de quando isso será resolvido.<br />
</span></span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">Sobre a merenda, o secretário afirmou que a rede pública de ensino possui 878 escolas com a produção da merenda e 191 escolas, 18% do total, com a merenda terceirizada. Seriam estas com problemas no processo licitatório, sofrendo também medidas cautelares do TCE e causando os transtornos na distribuição. Segundo Monteiro, a ideia é produzir a merenda em todas as escolas, com seus próprios insumos, equipamentos e funcionários.<br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
No que diz respeito à quantidade de proteínas, o gestor afirmou que o contrato em vigor com a Ceasa estava defasado e foi necessário fazer um aditivo. Também houve dificuldades junto aos fornecedores, de recebimento, reprodução e de distribuição, mas que a distribuição vem sendo normalizada.<br />
</span><span style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><br />
Monteiro também falou sobre o tapurus (larvas de insetos) encontrados na merenda de diversas escolas. Segundo ele, houve uma troca de empresa de logística, assumindo um novo contrato. O que ele avalia que tem facilitado a distribuição e o armazenamento com mais qualidade.<br />
</span></span></li>
<li><span style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Em relação à climatização nas escolas, o secretário informou que o grande gargalo nesse momento é o sistema elétrico dos imóveis, que não comportam o número de aparelhos de ar-condicionado necessários e, muitas vezes, nem mesmo de ventiladores. Por esse motivo, a SEE está em contato com a Neoenergia desde 2023 para a instalação de subestações que comportem os equipamentos. A expectativa é que mais de 360 subestações sejam entregues entre 60 e 90 dias e, até 2026, as 1.069 escolas da rede estejam climatizadas.<br />
</span></span></li>
<li><span style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Sobre o Programa Ganhe o Mundo, que leva alunos de escolas públicas para intercâmbios internacionais, foram apontados problemas com a licitação, envolvendo incertezas jurídicas com relação à única empresa que foi contratada para viabilizar o intercâmbio. Aproximadamente 200 alunos já embarcaram para o Chile, mas os que aguardam para viajar ao Canadá e aos Estados Unidos, seguem sem garantias de quando vão acontecer. A expectativa do secretário é que ocorra ainda nesse primeiro semestre.</span></span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-weight: 400;">Já as denúncias de coação levadas pelos estudantes à deputada estadual Dani Portela, Monteiro afirmou que “Qualquer medida tomada por gestor, gerente regional ou secretários-executivos que não estejam atreladas ao que a comunidade escolar precisa e a construção coletiva que pensamos, está fora do padrão. Está registrado, vamos apurar para abrir os processos administrativos e disciplinares, escutar o gestor e os estudantes que tiveram esse cerceamento”.</span></li>
</ul>
	</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Calma lá: vacinação de estudantes só vale para os que estagiam em instituições de ensino</title>
		<link>https://marcozero.org/calma-la-vacinacao-de-estudantes-so-vale-para-os-que-estagiam-em-instituicoes-de-ensino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Jun 2021 21:51:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[covid]]></category>
		<category><![CDATA[estágio]]></category>
		<category><![CDATA[Estudantes]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
		<category><![CDATA[Vacina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O fim de semana foi inundado de burburinho e indignação por conta de uma nota que a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) emitiu na sexta-feira sobre a vacinação da comunidade acadêmica. Nela, afirmava que todos os estudantes do campus Recife que têm contrato de estágio, obrigatório ou não, estariam aptos a se vacinar contra a [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O fim de semana foi inundado de burburinho e indignação por conta de uma nota que a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) emitiu na sexta-feira sobre a vacinação da comunidade acadêmica. Nela, afirmava que todos os estudantes do campus Recife que têm contrato de estágio, obrigatório ou não, estariam aptos a se vacinar contra a covid-19. Ou seja, estudantes na casa dos 20 anos, estagiando em qualquer lugar, estariam enquadrados no grupo prioritário de educação, o que seria um fato inédito nessa campanha de vacinação.</p>



<p>Antes que a nota fosse desmentida ontem pela Secretaria de Educação do Recife, que está à frente da vacinação desse público, já havia centenas de comentários criticando a decisão nas redes sociais. Houve até a formação de uma comissão de estudantes da Faculdade de Direito do Recife, que emitiu uma carta aberta para a imprensa. Nela, afirmavam que haviam procurado a Diretoria de Gestão Acadêmica (DGA) e a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), que reafirmaram o entendimento exposto na nota: todo estudante da UFPE com contrato de estágio, de qualquer curso, estagiando em qualquer lugar, poderia se vacinar.</p>



<p>O documento dos estudantes de Direito, que preferiram se manter anônimos, argumentava que &#8220;(..) há pessoas com prioridade, além de outras com idade avançada e classes de trabalhadores muito mais expostos ao vírus e que estão sem previsão de receber a vacina. Muitos de nós, estagiários, inclusive, temos pais na faixa dos 50 anos que ainda não puderam receber a vacina&#8221;. Terminavam a carta ressaltando que eram a favor da vacinação de toda a população, mas que neste momento &#8220;é preciso que haja um mínimo de coerência na elaboração das prioridades&#8221;.</p>



<p>Depois do frenesi e das informações desencontradas do fim de semana, houve uma reunião na segunda-feira pela manhã com o secretário de educação do Recife, Frederico da Costa Amâncio, e representantes de instituições, entre elas a UFPE e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Nela, ficou esclarecido que a vacinação nessa fase prioritária realmente seria para estudantes de qualquer curso, mas só daqueles que estagiam em instituições de ensino. Por exemplo, os estudantes que estagiam na própria UFPE. A decisão vale para quem estagia de creche à educação superior, passando por educação profissionalizante, como Senac e Senai.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/vacina-para-alunos-de-medicina-do-ciclo-basico-gera-debate-sobre-fila-de-prioridades/" class="titulo">Vacina para alunos de medicina do ciclo básico gera debate sobre fila de prioridades</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A lógica é a mesma adotada na vacinação prioritária de funcionários de clínicas e hospitais. Nessa atual fase da campanha de vacinação, não só professores estão sendo contemplados, mas quem trabalha na limpeza, na administração ou noutros departamentos de uma instituição de ensino. Ou seja, não vale para qualquer estudante com estágio, como dizia a nota da UFPE divulgada na sexta-feira.</p>



<p>Ontem à tarde, a <a href="https://www.ufpe.br/agencia/noticias/-/asset_publisher/dlhi8nsrz4hK/content/comunicado-conjunto-da-ufpe-e-ufrpe-sobre-vacinacao-contra-covid-19/40615" target="_blank" rel="noreferrer noopener">UFPE publicou nota de &#8220;calma aí&#8221;</a>, afirmando que &#8220;por ora, a UFPE e a UFRPE estão suspendendo a emissão de declaração para estudantes de estágio com vínculo contratual até que seja publicada nova orientação por parte do município do Recife&#8221;. De acordo com a assessoria da UFPE à Marco Zero, nenhuma declaração para os estagiários chegou a ser emitida.</p>



<p>A Secretaria de Educação do Recife, por sua vez, divulgou nota afirmando que &#8220;não são todos os estagiários do ensino superior que estão contemplados, mas apenas aqueles que são diretamente contratados pelas instituições de ensino e que nelas trabalham. Outras modalidades de estágio não estão contempladas nesta fase. O órgão pontua também que já manteve contato com as universidades para reforçar estes entendimentos&#8221;.</p>



<p>À Marco Zero, a assessoria de comunicação da secretaria também reiterou que a norma vale para todas as instituições baseadas no Recife. Se um estagiário mora em Olinda, por exemplo, mas estagia no Recife, ele também tem direito à vacina. E que as instituições de ensino recebem um modelo de atestado de vínculo, que são as declarações que os profissionais e estagiários devem usar para se vacinar. Apenas duas pessoas responsáveis, por instituição, podem assinar o documento. A secretaria não soube informar quantos estagiários devem ser vacinados no Recife. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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		<title>Vacina para alunos de medicina do ciclo básico gera debate sobre fila de prioridades</title>
		<link>https://marcozero.org/vacina-para-alunos-de-medicina-do-ciclo-basico-gera-debate-sobre-fila-de-prioridades/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Mar 2021 20:49:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[denúncia]]></category>
		<category><![CDATA[Estudantes]]></category>
		<category><![CDATA[medicina]]></category>
		<category><![CDATA[PNI]]></category>
		<category><![CDATA[vacinação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Nossos alunos da Fits serão vacinados nessa quarta, quinta e sexta. Eles vão estar com uma lista nominal dos alunos com nome, CPF e data de nascimento de todos os alunos regularmente matriculados&#8221;.Um áudio que começava com essa mensagem circulou por grupos de WhatsApp gerando críticas e espanto. Era a coordenação da Faculdade Integrada Tiradentes [&#8230;]</p>
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<p>&#8220;<em>Nossos alunos da Fits serão vacinados nessa quarta, quinta e sexta. Eles vão estar com uma lista nominal dos alunos com nome, CPF e data de nascimento de todos os alunos regularmente matriculados&#8221;.</em><br><br>Um áudio que começava com essa mensagem circulou por grupos de WhatsApp gerando críticas e espanto. Era a coordenação da Faculdade Integrada Tiradentes (Fits), em Jaboatão dos Guararapes, convocando todos os alunos para serem vacinados contra a Covid-19 já nesta semana. Boa parte dos estudantes com menos de 20 anos. No calendário do município, a vacinação por idade está nos moradores com mais de 74 anos.<br><br>Depois que os áudios se espalharam pelas redes sociais, a Prefeitura de Jaboatão e a Fits emitiram notas para explicar a situação. A prefeitura afirmou que o áudio era equivocado. &#8220;Serão imunizados apenas os estudantes que estiverem cadastrados no município e atuando na linha de frente contra a pandemia no suporte aos usuários do sistema público de saúde do Jaboatão&#8221;, diz a nota.<br><br>A própria assessoria da prefeitura enviou para a Marco Zero o posicionamento da Fits, que, de certa forma, contraria a nota municipal. &#8220;A Faculdade Tiradentes em sua estrutura curricular possui componentes que direcionam a realização de práticas nos serviços de saúde desde o primeiro período do curso&#8221;, afirma, justificando a vacinação de todos os alunos.<br><br>Desde 2014, o currículo dos cursos de medicina prevê aulas práticas desde o primeiro período. Nos últimos dois anos de medicina, o estudante fica no regime de internato: ainda que não tenha diploma, já participa do atendimento de pacientes, com supervisão.<br><br>O Plano Nacional de Imunização (PNI) garante a vacinação de &#8220;acadêmicos em saúde e estudantes da área técnica em saúde em estágio hospitalar, atenção básica, clínicas e laboratórios&#8221;.<br><br>A Fits é uma faculdade nova em Jaboatão dos Guararapes. Foi inaugurada em 2018 com a presença do prefeito Anderson Ferreira e do então ministro da Educação, José Mendonça Filho. Por isso, ainda não tem nenhuma turma no ciclo profissional. São todos do ciclo básico, onde, sim, acontecem aulas práticas em ambiente hospitalar. A parceria da Fits para essas aulas e internato é com a Secretaria de Saúde de Jaboatão dos Guararapes e o Hospital Memorial de Jaboatão. É a única faculdade de saúde com sede no município.<br><br>Nas redes sociais, alunos da Fits do segundo período comemoraram nessa semana que conseguiram ser vacinados. Não há ilegalidade se são mesmo considerados estagiários da Secretaria Municipal de Saúde &#8211; como afirma a nota da secretaria.<br><br>O que parece haver é mais uma questão de prioridade entre prioridades. Com uma população de mais de 706 mil pessoas, Jaboatão recebeu até agora apenas 44.286 doses de vacina contra a Covid-19 (32.836 doses da CoronaVac e 11.450 doses da Oxford/AstraZeneca). Alunos jovens, muitos de outras cidades, devem ter prioridade? Ou deve haver mais prioridades dentro das prioridades?</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/tudo-o-que-voce-queria-saber-sobre-vacinas-contra-a-covid-19-e-nao-tinha-a-quem-perguntar/" class="titulo">Tudo o que você queria saber sobre vacinas contra a covid-19 e não tinha a quem perguntar</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading">Disputando misérias</h2>



<p>Para um professor de medicina ouvido em reserva pela Marco Zero, estudantes que estão no internato devem ter tanta prioridade quanto os profissionais de saúde. Isso porque eles estão no dia a dia do hospital e fazem atendimento direto de pessoas doentes. Já os do ciclo básico ficam menos expostos, já que participam apenas de aulas práticas, que duram cerca de uma hora, por uma ou duas vezes na semana, em pequenos grupos.<br><br>Mas, em um mundo com mais vacinas, esses estudantes também deveriam ser incluídos. Afinal, também estão frequentando unidades de saúde, e isso no meio de uma pandemia de um vírus extremamente contagioso e grave. &#8220;O que acontece é que estamos disputando misérias. Eles deveriam sim ser vacinados. Mas e o senhor de 70 anos que está trabalhando com o público? Ele não seria de maior risco?&#8221;, questiona, lembrando também da responsabilidade do Governo do Estado em acompanhar e fiscalizar as prioridades estabelecidas pelos poderes municipais. A Marco Zero questionou o Governo do Estado sobre a vacinação de estudantes de medicina, mas não obteve resposta. <br><br>Uma estudante do ciclo profissional de medicina em uma universidade pública, que denunciou a vacinação da Fits e que também preferiu não se expor nesta reportagem, reclama que &#8220;são estudantes que poderiam estar realizando suas atividades à distância, mas estão sendo priorizados na vacinação&#8221;. O MEC não autorizou que o ciclo básico funcione apenas com aulas remotas. &#8220;Entendo e concordo com o prejuízo das atividades à distância, mas também entendo que o contexto é de prejuízo generalizado. O tipo de prejuízo que esses estudantes terão não chega nem perto daqueles que trabalhadores desprotegidos terão&#8221;, afirma.<br><br>&#8220;Acho que o momento de colapso do sistema pede que o investimento das imunizações deva ser direcionado para grupos de risco. Sobretudo para grupos que não conseguimos encontrar outras formas de proteger, a exemplo de funcionários de serviços essenciais que não conseguem ficar em casa por precisar manter seu sustento. Parece uma extrapolação absurda, mas colocar estudantes do ciclo básico para vacinar em detrimento de outros grupos, no momento de colapso, acaba sendo escolher quem vive e quem morre&#8221;, disse à Marco Zero. &#8220;Não consigo me conformar com a proteção de estudantes não essenciais, sobretudo quando me lembro dos pacientes que vi quando estava tendo meu rodízio de internato na UPA. Quantos de lá não teriam se livrado se tivessem tido acesso à vacinação?&#8221;, questiona. </p>



<h2 class="wp-block-heading">Frente pela vacinação dos estudantes</h2>



<p>O que aconteceu com a Fits é um caso isolado. Estudantes que estão na linha de frente em hospitais encontram dificuldades para conseguir a imunização, mesmo estando incluídos no Plano de Imunização Nacional. Por isso, em fevereiro, diretórios acadêmicos de faculdades públicas e privadas de medicina criaram a Frente dos Estudantes de Medicina da Região Metropolitana do Recife pela Vacinação.<br><br>Em uma pesquisa com 3.938 estudantes de medicina de todas as Instituições de Ensino Superior da Região Metropolitana do Recife, de todos os períodos, a quase totalidade dos estudantes (95,86%) afirmou ainda não ter recebido nenhuma dose da vacina contra a Covid-19. Ao mesmo tempo em que 71,56% dos estudantes disseram já ter tido contato com casos suspeitos ou confirmados da Covid-19 durante estágios curriculares na rede de saúde. Para os alunos que estão no período de internato, o percentual de exposição à Covid-19 foi de 98,28%.</p>



<p>A pesquisa é divulgada aqui em na Marco Zero em primeiro mão, mas os dados são de fevereiro, quando foi realizada a coleta, e não inclui a vacinação desta semana. </p>





<p>Os dados servem para avaliar o panorama de vacinação dos estudantes de medicina. &#8220;Com esses dados, esperamos embasar melhor uma articulação com gestores de saúde e com a sociedade em geral. Afinal, não é só quem é formado que é exposto ao risco da doença. Não é só quem tem diploma. Nós que ainda não somos formados estamos nos mesmos ambientes que os formados estão. Apenas pelo fato de terem um diploma, um registro em conselho de saúde, eles tinham direito e a gente não estava tendo. Profissionais de emergência foram vacinados e estudantes no mesmo local, com o mesmo risco, não tiveram direito a imunização. Uma parte muito pequena dos estudantes conseguiu a vacinação. Isso contraria o princípio de equidade do SUS&#8221;, afirma Letícia Rodrigues, integrante da Frente dos Estudantes de Medicina da Região Metropolitana do Recife pela Vacinação.<br><br>Para a Frente, é necessário também ter prioridades entre os estudantes. &#8220;Na Covid-19 quem está mais exposto ou quem tem mais risco de complicar são os que devem ser priorizados. Defendemos sim que a equidade seja seguida, começando com quem tem mais risco e está mais exposto. Então, dentro do curso de medicina a gente defende que os estudantes que devem ser primeiramente vacinados são os estudantes em ambientes de maior exposição, como os que estão rodando nas emergências, principalmente os do internato. Deve começar por eles&#8221;, diz.<br><br>Letícia também reforça a necessidade de mais vacinas. &#8220;É muitíssimo importante lembrar sempre que, como sociedade, não podemos fechar os olhos para as irresponsabilidades do Governo Federal frente à pandemia. Precisamos cobrar a compra de mais vacinas, precisamos cobrar uma postura de respeito de quem governa o país. A atual situação nacional é precária, é uma imensa falta de responsabilidade que, cada vez mais, vem colaborando com a catástrofe humanitária que se tornou a pandemia no país&#8221;, diz.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero</strong>…</p><cite>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.<br><br>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.<br><br>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.<br><br>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.<br><br>É hora de assinar a Marco Zero <a target="_blank" href="https://marcozero.org/assine/" rel="noreferrer noopener">https://marcozero.org/assine/</a></cite></blockquote>
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		<title>Um dia no Campo do Onze</title>
		<link>https://marcozero.org/um-dia-no-campo-do-onze/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Aug 2016 00:58:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Estudantes]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Mário Fontes* Recife, manhã de domingo. Enquanto boa parte da cidade, consumida pela ressaca da noite anterior, dorme em berço esplêndido, os times Sem Estresse e Acabadinho já estão de pé no Campo do Onze, próximo ao Shopping Tacaruna, em Santo Amaro, para mais uma partida da Copa dos Cinquentões. Os primeiros jogadores começam [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<strong><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif"><img decoding="async" class="size-full wp-image-2303 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif" alt="2774980_CreateAgif" width="120" height="90"></a>por Mário Fontes*</strong>

Recife, manhã de domingo. Enquanto boa parte da cidade, consumida pela ressaca da noite anterior, dorme em berço esplêndido, os times Sem Estresse e Acabadinho já estão de pé no Campo do Onze, próximo ao Shopping Tacaruna, em Santo Amaro, para mais uma partida da Copa dos Cinquentões.

Os primeiros jogadores começam a aparecer por volta das 8h. São moradores do bairro, que chegam andando ou de bicicleta e vão arrumando o material do jogo, trazem água, se aquecem, conversam com os amigos, tanto os colegas de time quanto os que vieram para assistir ao jogo, que é truncado, duro e até feio. Isso porque, o campo tem dimensões desproporcionais (longe de ser retangular) e o terreno desnivelado.

Certamente esta não é uma grande final de campeonato e nem mesmo uma das competições mais disputadas e aguardadas da própria comunidade de Santo Amaro (status que pertence aos torneios juvenil e adulto, que vai “dos 18 anos até onde o cara aguentar”). Porém, apenas a partir dela, já é possível perceber como o futebol atua como um elemento agregador entre aquelas pessoas.

Mesmo em um dia de jogo morno, dezenas de pessoas estão ali reunidas, bebendo, comendo, confraternizando ou observando, nem que seja por puro e simples tédio. Mas estão ali. Enquanto a mídia e o Governo incutem uma cultura de medo e vigilância, elas estão ali. Enquanto a avassaladora especulação imobiliária do Recife toma áreas de convivência, construções históricas e áreas de patrimônio público, elas estão ali. Enquanto a Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer da cidade destaca atividades num programa higienizado e higienizador no Bairro do Recife e ignora a manutenção dos campos de Várzea, elas continuam ali. Os campos e o futebol praticado nessas comunidades são posturas de resistência intrínseca. “O Governo é a gente mesmo”, resume em seco Marconi Gadelha, organizador do torneio e do União Futebol Clube, do qual também é técnico.

O futebol se desvela um catalisador dos encontros. Está além de seu tão propagado potencial para a inclusão social: tem a ver com perceber a si mesmo enquanto ser coletivo-comunidade marginalizada e uma forma de empoderamento e ação. As conversas vão da política ao futebol, sempre entrecortados por inúmeras saudações aos conhecidos que passam por ali.

Em meio a tantos debates e teses sobre a “crise de representatividade” política e social, um simples jogo de bola instiga identificações, afetos e desencontros. Não é à toa que Marconi organiza as partidas há quase 30 anos. O quadro branco na pequena e modesta sede do União F.C., junto aos troféus, aponta os mandamentos do clube: humildade, compromisso, responsabilidade, comprometimento, profissionalismo, pontualidade.

<div id="attachment_2539" style="width: 1175px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/11f.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2539" class="size-full wp-image-2539" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/11f.jpg" alt="Foto: Gabriel Albuquerque" width="1165" height="699"></a><p id="caption-attachment-2539" class="wp-caption-text">Foto: Gabriel Albuquerque</p></div>

Entre esses compromissos está também a vontade de manter aquele local vivo, pulsante, através do futebol. É aquele pedaço de Santo Amaro que a comunidade usa para seu lazer, nos fins de semana principalmente. E praticamente sem nenhuma outra alternativa, o bairro transformou o Campo do Onze num espaço quase sagrado. Por isso, o campo acaba resistindo em meio à feroz busca de espaços para a construção civil, principalmente para a iniciativa privada.

Marconi recorda quando, em 2003, a comunidade recebeu uma notificação da Prefeitura do Recife informando que o campo daria lugar a um conjunto residencial. A &#8220;intimação&#8221; não foi aceita pelos habitantes do local, que se reuniram e conseguiram manter o espaço sob seu domínio.

Rogério, que foi campeão brasileiro em 1987 pelo Sport, e hoje é comentarista esportivo, é uma das &#8220;crias&#8221; do Onze, e ainda joga todos os domingos por lá. &#8220;Eu comecei aqui na comunidade de Santo Amaro jogando pelo Ramezoni, time de várzea. Depois, o treinador Nereu Pinheiro me chamou para a Seleção Pernambucana, de onde eu acabei saindo para o Náutico e fui seguir minha vida&#8221;, disse ele.

Assim como o ex-jogador, outros destaques também deram seus primeiros piques atrás da bola no Campo do Onze. É o caso do meio-campo Kássio, que jogou pelo União. O atleta teve passagem pelo Sport, e foi campeão da Copa do Brasil de 2008 com o rubro-negro da Ilha do Retiro.

E é justamente por isso que o local se faz tão importante. Mesmo sem um luxo de um gramado perfeito ou o glamour de uma Arena da Copa, o &#8220;terrão&#8221; é acessível para os jovens. Sem portas ou cadeados, é uma tentação para quem quiser jogar. A sedução do campo é uma saída para evitar que os jovens não participem de tráfico de drogas nem cometam crimes. Os valores ensinados no União, por exemplo, além da ocupação do tempo de lazer, soam como um mapa para afastar os mais jovens do caminho da droga e do crime.

&#8220;Eu acho muito importante essa união que se faz aqui de alguns treinadores. Tira muitas crianças das coisas erradas, porque aqui é muito fácil delas saírem para o &#8216;outro&#8217; lado, e mostra que aqui em Santo Amaro tem coisas boas também, não só as ruins&#8221;, disse Rogério, ao ser perguntado sobre a importância da sua &#8216;cancha&#8217; predileta.

<strong>Bola para todos</strong>

<div id="attachment_2540" style="width: 1253px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/11d.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2540" class="size-full wp-image-2540" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/11d.jpg" alt="Foto: Gabriel Albuquerque" width="1243" height="699"></a><p id="caption-attachment-2540" class="wp-caption-text">Foto: Gabriel Albuquerque</p></div>

<strong></strong>Jovens, velhos, altos, baixos, gordos e magros. Todos podem ter acesso a um campo de várzea, e mesmo não sendo um craque, cada toque na bola e cada chute dado são momentos únicos na vida de uma pessoa, seja uma criança ou cinquentão grisalho. São essas emoções que fazem com que um torneio disputado em uma comunidade adquira ares de final de Copa do Mundo. Emoções renovadas toda vez que uma criança se sinta como um profissional e sonhe. Ou toda vez que alguém encontre um amigo para se divertir.

É por isso que os “terrões” devem ser valorizados. Porque não são espaços desperdiçados, ou vazios, são a alma de uma região, de uma comunidade. E o futebol é uma força que pulsa em todos que dependem de um campinho de barro.

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/mario.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2536 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/mario.jpg" alt="mario" width="150" height="150"></a>* Mário é estudante de Jornalismo na UFPE, fã de esportes, apaixonado por futebol, rúgbi e futebol americano. É colaborador no site Torcedores.com e repórter esportivo na Folha de Pernambuco. Já trabalhou também no Cabanga Iate Clube de Pernambuco.<p>O post <a href="https://marcozero.org/um-dia-no-campo-do-onze/">Um dia no Campo do Onze</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>O despertar da sororidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Aug 2016 20:57:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A união feminina, no sentido de irmandade, cuidado e respeito mútuo mostra exemplos de atitudes capazes de melhorar e facilitar a vida de muitas mulheres que precisam sobreviver em uma sociedade machista e hostil por Lara Tôrres* Sororidade é uma palavra desconhecida por muitas pessoas, porém bastante familiar às integrantes dos movimentos feministas. O termo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<em><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2303 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif" alt="2774980_CreateAgif" width="120" height="90"></a>A união feminina, no sentido de irmandade, cuidado e respeito mútuo mostra exemplos de atitudes capazes de melhorar e facilitar a vida de muitas mulheres que precisam sobreviver em uma sociedade machista e hostil</em>

por Lara Tôrres*

Sororidade é uma palavra desconhecida por muitas pessoas, porém bastante familiar às integrantes dos movimentos feministas. O termo significa fraternidade, irmandade, união e cuidado mútuo entre mulheres, algo primordial para que haja um sentimento de grupo e reconhecimento das opressões sofridas em conjunto pelas mulheres que vivem em sociedades machistas.

O feminismo, hoje, também abraça uma ideia definida por outra palavra pouco comum: a interseccionalidade, pré-requisito para que a irmandade feminina possa ser mais atenta e cuidadosa, observando as necessidades especiais de cada grupo de mulheres e as diferentes formas de opressão que elas sofrem. A ideia de interseccionalidade implica que não exista primazia de uma opressão sobre as outras e que não pensemos nas mulheres como uma categoria universal, fazendo-se necessário o reconhecimento das particularidades de cada grupo de mulheres e de suas opressões. Uma mulher negra, por exemplo, que precisa lidar ao mesmo tempo com o machismo e com o racismo, é diferente de uma branca. Quando praticada prezando pela ideia de interseccionalidade, a sororidade se concretiza plenamente.

Nesta reportagem, serão apresentados alguns exemplos do poder transformador que a sororidade pode exercer na vida das mulheres mundo afora. Você conhecerá grupos de apoio mútuo, trabalhos voluntários e ações feministas que proporcionar uma vida melhor às mulheres em meio às dificuldades impostas pelo patriarcalismo e machismo social presente e forte no Brasil.

<strong>Costura e Boa Vontade </strong>

Fernanda La Ruina vive no Rio de Janeiro e ganha a vida como professora de português para estrangeiros. Além disso, criou, no final de 2015, um projeto chamado “Costura e Boa Vontade”. Ela, que aprendeu a costurar com sua mãe, confecciona vestidos para as meninas atendidas pelo orfanato feminino Rita de Cássia usando materiais doados. Tudo começou com uma postagem no Facebook, onde Fernanda pedia doações para iniciar o seu projeto: “Comecei com um post na minha página pessoal pedindo saias usadas para transformar em vestidinhos. Daí, recebi 200 peças doadas pela mãe de uma amiga feminista e fui correndo comprar tecidos novos e aviamentos.”

Fernanda trabalha sozinha na confecção dos vestidos, mas aceita auxílio de quem leva jeito para costura e aceite “dar uma mão” voluntariamente. Por enquanto, o orfanato Rita de Cássia é o único atendido pelo Costura e Boa Vontade. Há duas razões para isso: primeiro, o número de vestidos que podem ser feitos atualmente não permite a inclusão de outra instituição a ser beneficiada, depois a proposta é atender exclusivamente meninas, afinal Fernanda preza pela sororidade em sua iniciativa.

No momento Fernanda está impossibilitada de costurar devido a complicações decorrentes de uma queda, mas afirma que gostaria muito de conseguir ensinar mais pessoas a costurar e assim poder ajudar mais meninas: “Faço tudo na minha casa. Um apartamento bem pequenininho com espaço dedicado para essa máquina de costura velha (tem uns 30 anos, sério!). Ter um espaço, ensinar outras meninas e poder levar vestidos a orfanatos é um sonho meu. Como agora sou sozinha para isso, acabo me limitando. Agora mesmo sequer posso andar e tive que parar de costurar. Assim que puder, volto”.

Com o Costura e Boa Vontade, Fernanda quer ajudar ao máximo essas meninas que já passaram por tantas dificuldades desde tão pequenas e que têm tantas necessidades.

A intenção é levar alento e autoconfiança às meninas, ao mesmo tempo em que oferece alento e um ombro a pequenas mulheres em formação: <em>“</em>Eu quero interagir com elas, quero conversar e mostrar que elas podem ser o que elas quiserem ser, e podem fazer o que quiserem fazer. É como se o vestido fosse uma maneira gentil e física de quebrar o bloqueio, como se dissesse ‘estou vindo aqui para tentar ser sua amiga, para ouvir você, e você me ouvir!’ Um vestido, dentro da constituição machista, é algo muito feminino. O que eu estou tentando despertar nessas meninas é algo delicado e um carinho, para que elas se sintam mais amadas e tenham orgulho. Porque a gente vive numa sociedade vista pelas etiquetas. Mas eu quero que elas se sintam orgulhosas delas mesmas.”

<div id="attachment_2526" style="width: 778px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/sororidade3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2526" class="size-full wp-image-2526" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/sororidade3.jpg" alt="Fernanda La Ruina criou, no final de 2015, um projeto chamado “Costura e Boa Vontade”. Foto: Elias Azevedo/ Divulgação)" width="768" height="531"></a><p id="caption-attachment-2526" class="wp-caption-text">Fernanda La Ruina criou, em 2015, o projeto “Costura e Boa Vontade”. Foto: Elias Azevedo/ Divulgação</p></div>

Quem mora no Rio de Janeiro e se interessa pelo projeto pode ajudar com doações de roupas, tecidos, aviamentos e dinheiro. No caso de pessoas que moram longe, é possível enviar as doações por pessoas que estejam indo ao Rio ou com dinheiro através de depósito bancário na conta da própria Fernanda:
<blockquote><strong>Bradesco
ag 0991
poupança 1001193-0
CPF 100685637
Fernanda C Vieira La Ruina</strong></blockquote>


<strong>Universitárias criam sistema para ajudar colegas com “acidentes” menstruais </strong>

Manu Marinho é uma estudante de Design recifense de 20 anos de idade que leva a irmandade feminina muito a sério – e acredita que ela deve se converter em ação coletiva. Com uma caixa de plástico, uma folha de papel, canetas e um punhado de absorventes, ela criou um posto de doações de absorvente num dos banheiros do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para que ninguém mais passe por constrangimentos quando for surpreendida pela menstruação. Na plaquinha, escreveu: <em>Pegue um, caso precise. Deixe um, se tiver sobrando.</em>

O que ela não sabia era que, naquele momento, estava criando um movimento, plantando uma ideia de ação permanente que espalhou solidariedade e sororidade para muito além do que havia imaginado.

A ideia foi muito bem recebida e logo começou a ser estendida a outros banheiros da universidade. Até o encerramento da apuração desta reportagem, em maio de 2016, somente no campus do Recife existiam caixas de doação em, pelo menos, 16 banheiros.

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/sororidade2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-2528" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/sororidade2.jpg" alt="sororidade2" width="680" height="872"></a>

Em alguns deles, a ideia foi além da doação de absorventes, sendo possível também encontrar outras coisas úteis e importantes para a preservação da boa saúde, como tubos de pasta de dente e preservativos femininos. “Eu só lembro de ter visto uma ideia parecida no Facebook e na hora pensei em fazer na minha universidade. Coloquei só no banheiro do térreo e logo a ideia se espalhou sozinha”, conta. “Eu estou muito feliz, não imaginei que outros centros fossem aderir, que as minas fossem colocar outras coisas além de absorventes”.

A estudante de Geologia Mirella Rodrigues diz que trouxe as caixinhas aos banheiros do seu centro de estudos para criar uma corrente de cuidados entre mulheres<em>. </em>“Foi só mais uma forma de lembrar o quanto essas pequenas coisas são importantes e podem ajudar alguém. O que aconteceu no nosso departamento foi semear as boas ideias. A colega que um dia passar por uma situação desagradável agradece desde já”.

Ingridhy Figueiredo, 23 anos, estuda Engenharia de Produção. Ela decidiu levar a iniciativa adiante por achar que seria muito útil para todas as mulheres. “É meio ruim pedir absorvente a alguém no meio da aula. Pior ainda se você não conhece ninguém, fica toda sem jeito; ir no banheiro e já saber que vai encontrar na caixinha é muito mais simples. Apesar de hoje eu não ser mais pega de surpresa por tomar remédio e já saber os dias certinhos, eu quis propagar a ideia pra ajudar as outras”.

Ingridhy também espera que as estudantes passem a se engajar mais em projetos de movimentos sociais que possam trazer benefícios coletivos. “Vi meninas comentando na publicação que nunca pensaram em ver isso no Centro de Engenharias, então, espero que daqui pra frente todas elas façam esforço pra aderir a qualquer movimento social que traga benefício pra gente e pra nossa universidade como um todo”.

Ainda no Recife, a ideia saiu dos limites da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e se estendeu por outras instituições de ensino superior da cidade, tanto do sistema público (Universidade Federal Rural de Pernambuco e UFPE, no campus de Vitória de Santo Antão) quanto do privado (Universidade Maurício de Nassau). Não parando por aí, também foi identificada a existência de caixinhas de coleta de absorventes para doação em banheiros femininos de cursos preparatórios para vestibular da cidade.

Fora da capital pernambucana, também existem caixinhas postas na Escola de Referência em Ensino Médio da cidade de Bezerros, no Agreste pernambucano; Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), no mesmo estado; Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a Universidade de Campinas (UNICAMP) também têm caixinhas de doação em alguns dos seus banheiros.

<strong>Mete a Colher </strong>

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/sororidade4.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-2527" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/sororidade4.png" alt="sororidade4" width="802" height="801"></a>

O Mete a Colher nasceu em uma Startup Weekend Women (grupo de mulheres à procura de um modelo de negócios inovador) e está se organizando para, em breve, lançar uma rede de apoio a mulheres vítimas de violência. O aplicativo, de uso exclusivamente feminino, vai focar em ajudar mulheres que estejam precisando de apoio psicológico, apoio jurídico, abrigo ou inserções no mercado de trabalho. Só mulheres vão poder baixar o aplicativo. A ajuda poderá vir de pessoas físicas ou de empresas.

Estão previstas três formas de prestar apoio às mulheres que se encontrem em situação de violência de gênero. Será possível fornecer apoio emocional por meio de conversas que busquem confortar e dar forças à mulher para conseguir quebrar o ciclo de agressões, fornecer apoio em processos jurídicos e auxiliar as vítimas através de inserções no mercado de trabalho, visando quebrar a dependência financeira entre vítima e agressor.

O aplicativo Mete a Colher ainda não está pronto mas, segundo Renata Albertim, responsável pela área de comunicação do projeto, o que já existe é “uma plataforma tipo teste para a gente ajustar as falhas e perceber se de fato o aplicativo estava funcionando de forma intuitiva”.

O projeto está inscrito em editais de financiamento para que seja possível concretizar o investimento necessário para que o aplicativo fique disponível para download grátis. Caso não seja aprovado nos editais, será lançada uma plataforma de arrecadação de fundos por meio de campanha de financiamento coletivo.

No que diz respeito à segurança do aplicativo, existem algumas ferramentas para possibilitar a maiores garantias possíveis de estarem em um ambiente seguro e exclusivamente feminino, destinado à sororidade.

O controle das pessoas será feito através de um cadastro por meio do Facebook, ferramenta essa que permitirá filtrar quem usa o aplicativo a partir do gênero que declara nas redes sociais; existirá ainda uma senha de acesso para cada usuária, de modo a garantir que pessoas estranhas e possíveis agressores se infiltrem. Ainda com tudo isso, caso alguma usuária suspeite que o aplicativo está sendo usado por um homem, ela poderá informar o caso à moderação do Mete a Colher para que sejam tomadas providências quanto á conta que estiver sob suspeita.

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/lara.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2524 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/lara.jpg" alt="lara" width="150" height="150"></a>*Lara Tôrres veio de Pesqueira-PE, tem 20 anos, estuda jornalismo na UFPE, é vegetariana, feminista, leonina, amante de cabelos naturalmente enrolados e fã da Disney. Acredita no bom jornalismo e no dever social que ele tem; defende a regulamentação da mídia, liberdade de expressão, jornalismo independente e comunicação pública.<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-despertar-da-sororidade/">O despertar da sororidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Transcender: a transexualidade muito além das imposições sociais</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Aug 2016 12:58:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-2303" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif" alt="2774980_CreateAgif" width="120" height="90"></a>por Mariah Villanova**

Da infância vivida ouvindo Beatles, Allan* herdou o gosto pelo rock das décadas de 70, 80 e 90. Apaixonado pelo Queen, também guarda espaço no coração para Aerosmith e Van Halen. Nas roupas, Allan quase sempre estampa o amor por Star Wars &#8211; são cerca de seis camisas da saga &#8211; e a contradição de não gostar de vestir preto, mas estar sempre trajando a cor escura. É fã de Noviça Rebelde, já quase despontou a carreira na natação e queria ser jogador de futebol, mas fazia futsal escondido na infância porque, segundo o próprio pai, o esporte é “coisa de homem”. Allan*, estudante, 24 anos, se reconheceu como homem <b>transexual</b> há um ano.

O prefixo <i>trans</i>-, de origem grega, significa “além de”. Ir além dos limites do que é socialmente imposto desde o dia em que se respira pela primeira vez: <i>gênero</i>. A sociedade não pauta a transexualidade, muitas vezes não sabe sobre o que se trata, evita a abordagem e essa cadeia de desinformação molda um cenário de invisibilidade e discriminação. As consequências são reveladas através de estatísticas: o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, segundo <a href="http://tgeu.org/transgender-day-of-visibility-2016-trans-murder-monitoring-update/">pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU)</a>. São 802 mortes de pessoas transgênero contabilizadas no país entre 2008 e 2015, para um total de 2016 assassinatos registrados no planeta, no mesmo período.
<dl id="attachment_2406" class="wp-caption alignnone">
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<div id="attachment_2406" style="width: 2058px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/alan-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2406" class="wp-image-2406 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/alan-3.jpg" alt="Allan, estudante, 24 anos, se reconheceu como homem transexual há um ano. Foto: Mariah Villanova" width="2048" height="1536"></a><p id="caption-attachment-2406" class="wp-caption-text">Allan, estudante, 24 anos, se reconheceu como homem transexual há um ano. Foto: Mariah Villanova</p></div></dt>
</dl>
<div>O termo<b> transexual</b> se opõe aos vocábulos <b>cisgênero</b> ou <b>cissexual</b>, que são pessoas que se identificam com o gênero determinado pelo sexo designado no nascimento. Há cerca de um ano, Allan revelou aos amigos que se reconhece como pessoa do gênero masculino. “Foi no maior impulso, nada planejado, mas assim que eu descobri a minha verdadeira identidade, quis recuperar o tempo perdido e contar pro mundo todo. Minha família é bem fora de cogitação ainda, mas como fui agraciado com amigos incríveis, quis compartilhar com eles e deu super certo, apesar de alguns terem reagido de maneira indelicada comigo”, conta. Ele foi questionado sobre ter demorado a contar a situação e sobre a própria sexualidade. “Perguntaram se isso não era apenas eu me descobrindo lésbica”, diz.</div>
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<span style="font-weight: 400;">A ausência de aceitação, porém, inicia cedo, ainda dentro de âmbito educacional. Segundo a </span><a href="http://flacso.org.br/files/2015/11/LIVROWEB_Juventudes-na-escola-sentidos-e-buscas.pdf"><span style="font-weight: 400;">pesquisa &#8220;Juventudes na Escola, Sentidos e Buscas: Por que frequentam?&#8221;, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO)</span></a><span style="font-weight: 400;">, 2,5% dos jovens entre 15 a 29 anos não queriam ter uma pessoa transexual como colega de classe. “Sofri muito bullying na escola por conta do meu jeito. Os colegas de classe me apelidaram de um nome masculino. Depois do treino de futsal, eles me encurralavam no corredor e me pediam para ensiná-los a jogar que nem homem”, relata Allan.</span>

A descoberta sobre o que é identidade de gênero, no entanto, aconteceu tardiamente na vida de Allan, muito embora o desconforto estivesse sempre presente. Durante a infância, algumas situações causaram inquietação, como a primeira menstruação, que foi motivo de choro e incômodo. Entre outras características, divergentes do que se tem como padrão social de comportamento feminino, odiava esmaltes, bijuterias, maquiagem e, nas fotos com as primas, era o único sem camisa.

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<div style="padding: 8px 0; font-family: Arial!important; font-size: 13px!important; line-height: 15px!important; text-align: center; border-top: 1px solid #dadada; margin: 0 30px;"><a style="color: #989898!important; text-decoration: none!important;" href="https://infogr.am/d2448fea-f171-4130-b038-45cad520017b" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Untitled infographic</a>
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Há um ano, quando começou a questionar o próprio gênero, Allan se considerava uma <b>pessoa trans não-binária</b> &#8211; indivíduo que não se identifica como homem e nem como mulher ou que se identifica como ambos, o chamado <b>gênero fluido</b>. Ele tinha a concepção de se encaixar numa estética andrógina, percebendo-se através de ambas as designações, homem e mulher. “Tem coisas em mim que lembram papeis de gênero [socialmente considerados] femininos e na minha cabeça um homem trans não podia ser feminino, mas isso era errado. Quando eu me descobri trans, tive que desconstruir isso em mim também”, conta.

Allan tem seios, não fez tratamento hormonal para estimular o crescimento de pelo facial ou para tornar a voz mais grave. A cirurgia de <b>transgenitalização</b> (processo cirúrgico para ressignificação do gênero) não é um desejo e ele se sente totalmente confortável com o corpo que possui, da cintura para baixo. “Tenho certa resistência quanto a me submeter a muitas mudanças apenas para agradar ao padrão que a sociedade estabeleceu como masculino. Queria fazer uma mastectomia, pois o que mais me incomoda é o volume dos seios, mas tenho muito medo de fazer uma intervenção irreversível com o meu corpo”, comenta.

Por não se adequar ao padrão cis, que muitas vezes não reconhece o homem trans afeminado, Allan, assim como vários homens e mulheres transgênero, vive uma barreira para ser reconhecido diante do corpo social tradicional. “A construção da transgeneridade independe da relação sexo-gênero, um homem não precisa fazer cirurgia para ganhar o status de homem trans e o mesmo vale para as mulheres”, explica Luciana Vieira, professora do Departamento de Psicologia da UFPE e responsável pela Diretoria LGBT da Universidade.

A questão se estende às atividades rotineiras e Allan permanece frequentando banheiros femininos por receio do preconceito. “Frequento banheiros femininos porque me sinto mais seguro, tenho medo de ser hostilizado ou sofrer alguma agressão física em banheiros masculinos. É traumático toda vez que eu olho pra porta do banheiro e vejo a figurinha de saia, mas é pela minha integridade”.

No âmbito pessoal, redes sociais de relacionamento como o Tinder evidenciam o preconceito não só com a pessoa transgênero, mas principalmente com os que optam por não realizar interferências no próprio corpo. “Quando estou conversando com uma menina e ela me chama pelo feminino, corrijo e ela simplesmente some&#8230; Não aconteceu uma vez só, mas várias. Parece que as pessoas correm quando sabem disso”, comenta Allan.

Na vida profissional, como estudante, Allan teve a sorte de ser bem acolhido em estágios, sendo respeitado e reconhecido diante da identidade de gênero. Apesar disso, pensa em prestar o concurso do Itamaraty para der Diplomata, mas acredita que, na área, dificilmente respeitariam a identidade masculina. “Não acho que estou disposto a abrir mão de quem eu sou por conta de um sonho profissional, por isso eu resolvi fazer mestrado para me tornar professor de alguma universidade pública. Nesse lugar eu acho mais fácil me respeitarem, porque foi na universidade pública que eu comecei a minha desconstrução”, diz.

Allan cita, ainda, a campanha “Meu Nome Importa”, da Universidade Federal de Pernambuco, como um ponto de segurança na instituição. O projeto visa conscientizar alunos e docentes sobre a importância de respeitar o nome social, aceito na Universidade. Caso entre para o mestrado, essa se desenha como a próxima luta que Allan pretende assumir, para ter registrado nos documentos universitários o nome que o identifica.

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*Allan é um nome fictício utilizado para proteger a integridade pessoal do personagem entrevistado.

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/mariah.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2411 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/mariah.jpg" alt="mariah" width="150" height="150"></a>**Mariah é estudante de Jornalismo pela UFPE. Durante a graduação, se aventurou no jornalismo gastronômico, através do blog Gastrô404, e na organização da II Semana de Jornalismo da UFPE. Teve experiências em assessoria de imprensa e mídias digitais e, hoje, se arrisca na reportagem.<p>O post <a href="https://marcozero.org/transcender-a-transexualidade-muito-alem-das-imposicoes-sociais/">Transcender: a transexualidade muito além das imposições sociais</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Reforma psiquiátrica: conflitos e entraves no tratamento em saúde mental</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Aug 2016 17:42:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Aline Soares e Dandara Palankof e Cruz * Em 2016, a polêmica Lei Paulo Delgado, como também é conhecida Lei 10.2016/2001, que implementa a reforma psiquiátrica no Brasil, completa quinze anos. Contudo, continua a ser alvo de críticas e, portanto, divisora de opiniões. O projeto tramitou no Congresso Nacional por quase doze anos, até [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2303 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif" alt="2774980_CreateAgif" width="120" height="90"></a>por Aline Soares e <i>Dandara Palankof e Cruz</i> *

<span style="font-weight: 400;">Em 2016, a polêmica Lei Paulo Delgado, como também é conhecida <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10216.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Lei </a></span><a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10216.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">10.2016</span></a><span style="font-weight: 400;"><a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10216.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer">/2001</a>, que implementa a reforma psiquiátrica no Brasil, completa quinze anos. Contudo, continua a ser alvo de críticas e, portanto, divisora de opiniões. </span>

<span style="font-weight: 400;">O projeto tramitou no Congresso Nacional por quase doze anos, até ser aprovado em 2001. A lei prevê um sistema de atenção à saúde mental que se proponha a tratar o cidadão “com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade”. </span>

<span style="font-weight: 400;">Assim, o texto aprovado institui não apenas um tratamento com maior participação da família, como estabelece a internação psiquiátrica como último recurso e cria uma política de fechamento dos hospitais psiquiátricos, uma vez que, de acordo com seu Artigo 6º “é vedada a internação de pacientes portadores de transtornos mentais em instituições com características asilares”.</span>

<b>Contexto histórico</b>

<span style="font-weight: 400;">A criação e a evolução da instituição hospitalar tem suas bases na Europa do século XVII e levou também à chamada institucionalização do paciente, recolhido e isolado da sociedade. Uma prática corrente até meados do século XX, que transformou hospitais em hospícios, semelhantes à prisões – onde o crime, muitas vezes, era não apenas ser mentalmente incapacitado, mas simplesmente diferente; o recolhimento indevido de pessoas, como moradores de ruas ou usuários de drogas, aos chamados manicômios foi apenas um dos abusos constatados no estabelecimento rotineiro de hospitais psiquiátricos, sem os devidos cuidados médicos.</span>

<span style="font-weight: 400;">Além disso, ao longo do tempo, a busca empírica da construção do conhecimento psiquiátrico levou a uma série de tratamentos que passaram a ser vistos como nada mais do que torturas, como a eletroconvulsoterapia, popularmente conhecida por eletrochoque. É a partir disso que surgem os movimentos pela reforma do tratamento da saúde mental; seu expoente é o psiquiatra italiano Franco Basaglia, que na década de 1960 lutou pela reforma psiquiátrica em seu país. E ainda que muitos brasileiros não estejam a par do tema, está em curso no Brasil desde a década de 1970 uma reforma psiquiátrica e com isso a implementação de uma série de mudanças.</span>

<span style="font-weight: 400;">Nesse momento histórico de luta pelo fim da ditadura, tomaram forma os movimentos de reforma sanitária e psiquiátrica. Em 1979, é realizado o I Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental. O II Encontro é realizado em Bauru, interior de São Paulo, em 1987. É nessa segunda ocasião que o lema “Por uma sociedade sem manicômios” é documentado no Manifesto de Bauru, tornando o dia 18 de maio o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.</span>

<span style="font-weight: 400;">A partir de então, uma série de acontecimentos históricos contribuem e fomentam a reforma psiquiátrica no país: os métodos de terapia ocupacional de Nise da Silveira no Rio de Janeiro, a criação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em São Paulo, ainda em 1987; a aprovação da Constituição de 1988, que cria o Sistema Único de Saúde (SUS); até o projeto de lei antimanicomial ser colocado em votação na Câmara, em 1989, pelo deputado Paulo Delgado.</span>

<span style="font-weight: 400;">Com o propósito de compreender o cenário da assistência em saúde mental, entrevistamos dois profissionais: Vinícius Suares, psicólogo e membro da Luta Antimanicomial, e o dr. Everton Botelho Sougey, psiquiatra e presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria.</span>

<b>Liberdade e autonomia</b>

<span style="font-weight: 400;">Existem diferenças gritantes no modelo de assistência à saúde mental promovido nos hospitais psiquiátricos e o modelo instituído com a reforma psiquiátrica. É o que afirma Vinícius Suares<span style="background-color: #ffffff; color: #000000; font-family: arial,helvetica,sans-serif;">, </span></span>psicólogo, técnico de Referência de Residências Terapêuticas no Cabo de Santo Agostinho e Gerente do CAPS Livremente no Recife. Integrante da Luta Antimanicomial de Pernambuco, e<span style="font-weight: 400;">le ressalta que há, no hospital, um contingente de pessoas em tratamento muito maior, o que impossibilita um cuidado mais direcionado com o paciente; e que “em lugares fechados, onde há muitas pessoas, é inevitável que haja um processo de institucionalização muito forte. As pessoas então começam a perder a noção de tempo, de espaço, de individualidade e da capacidade de desenvolver sua própria vida naquele ambiente.”</span>

<span style="font-weight: 400;">Outro aspecto destacado por Suares é que nos hospitais há uma forte tendência de a medicalização do paciente ser administrada de modo a simplesmente dopar o paciente. Assim, o intuito da reforma psiquiátrica é a promoção de outros espaços, que sejam da ordem da reinserção social, de modo que o usuário esteja desperto, desenvolvendo atividades diárias.</span>

<span style="font-weight: 400;">O psicólogo também afirma que é essencial para o movimento da Luta Antimanicomial pensar as relações sociais que envolvem a loucura. Para ele, é preciso refletir sobre a problemática cultural que leva a sociedade a enxergar os portadores de distúrbios psiquiátricos como incapazes para convivência e inúteis para a produção em âmbito social. Ele afirma que “nesta concepção, as pessoas associam a loucura ao retardo, inferindo que a pessoa portadora de qualquer transtorno mental está impossibilitada de desenvolver todo tipo de atividade”. Assim, para os integrantes do movimento, o trabalho da saúde mental não pode ficar restrito ao âmbito da saúde; ele precisa acontecer nas áreas da educação, da assistência social, da cultura, do trabalho refletindo sobre em quais dimensões é possível transformar as relações que envolvem a sociedade e loucura. “Precisamos transformar as relações de quais lugares são adequados para tratar e cuidar dos transtornos da saúde mental e gerar a consciência de que espaços asilares não são necessários; porque enquanto os hospitais existirem, as pessoas ainda enxergarão neles possibilidades e referência em cuidados pras pessoas”, afirma.</span>

<div id="attachment_2476" style="width: 706px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/viniciusSuares3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2476" class="size-full wp-image-2476" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/viniciusSuares3.jpg" alt="Vinicius Suares, psicólogo,técnico de Referência de Residências Terapêuticas no Cabo de Santo Agostinho e Gerente do CAPS Livremente, no Recife, integrante da Luta Antimanicomial de Pernambuco" width="696" height="534"></a><p id="caption-attachment-2476" class="wp-caption-text">Vinicius Suares, psicólogo,técnico de Referência de Residências Terapêuticas no Cabo de Santo Agostinho e Gerente do CAPS Livremente, no Recife, integrante da Luta Antimanicomial de Pernambuco</p></div>

<span style="font-weight: 400;">Suares também critica a perspectiva ainda comum à sociedade de enxergar na instituição do manicômio uma alternativa para tirar do convívio os indivíduos considerados indesejáveis. Ele lembra que Franco Basaglio, precursor da reforma psiquiátrica na Itália, alertou para a visão de que os manicômios são instituições para pessoas que não conseguem produzir através do trabalho na sociedade.</span>

<span style="font-weight: 400;">Há também um aspecto que tomou força durante o período da ditadura militar: o do capital sobre a assistência em saúde mental. Suares conta que, a partir de 1964, teve início a expansão de redes hospitalares privadas, em que o hospital particular recebia os pacientes e o governo repassava ao seu proprietário o valor referente à diária para seu tratamento. A chamada </span><a href="http://marcozero.org/industria-da-loucura/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">“Indústria da Loucura”</span></a><span style="font-weight: 400;"> promoveu um aumento de 3 a 4 vezes no número de hospitais psiquiátricos e de seus internos entre as décadas de 1960 a 1970. “Pessoas começaram a aprisionar outras para ganhar mais dinheiro”, afirma o psicólogo.</span>

<span style="font-weight: 400;">Suares conta que, ao longo da história, os hospitais psiquiátricos foram denunciados e responsabilizados por violências das mais diversas ordens &#8211; tendo se tornado, assim, as chamadas instituições totais, nas quais o indivíduo é privado de direitos e liberdades individuais. As crueldades aconteciam não somente em práticas médicas invasivas, como a lobotomia e a eletroconvulsoterapia (popularmente conhecido como eletrochoque) &#8211; contra as quais a psiquiatra </span><a href="http://marcozero.org/nise-o-coracao-da-loucura/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Nise da Silveira</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi uma das primeiras a se manifestar, mas também por maus-tratos como incitação de brigas entre os internos e pela negligência com outros quadros clínicos apresentados pelos pacientes, como diabetes e hipertensão &#8211; muitos dos quais vinham a óbito. Por essas razões, o psicólogo e demais representantes da Luta Antimanicomial mantêm suas ressalvas quanto aos hospitais: “Não negamos a necessidade da internação em um espaço hospitalar”, ele rebate. “Apenas entendemos que não é no modelo do hospital psiquiátrico, um espaço que não provê o cuidado e que, principalmente, leva ao esquecimento, que devemos nos concentrar para o tratamento da saúde mental”. Para ele, a chamada Lei Antimanicomial preconiza casos em que possa haver necessidade de internação e é por isso que a </span><a href="http://marcozero.org/a-rede-de-atencao-psicossocial/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Rede de Atenção Psicossocial</span></a><span style="font-weight: 400;"> (RAPS) prevê a existência de leitos em saúde mental hospitais gerais.</span>

<span style="font-weight: 400;">Porém, Suares admite que existe, sim, uma dificuldade da atual rede de atendimento à saúde mental em atender todas as demandas de crises e surtos psicóticos. Mas o psicólogo acredita que o principal motivo para a emergência do Hospital Ulysses Pernambucano &#8211; conhecido entre os recifenses como Tamarineira &#8211; ter pacientes à espera de atendimento a qualquer hora do dia é o fato de ele estar fortemente cristalizado no imaginário popular como o lugar de referência para acolhimento. “Durante muito tempo, o único modelo de assistência a saúde mental era o hospital psiquiátrico. Então, se a pessoa tivesse uma crise, era levada para o hospital. Isso cria um comodismo: os familiares preferem deixar a pessoa no hospital em tempo integral para não precisar levá-la e buscá-la a cada crise”, ele explica. “Essa perspectiva do abandono é modificada com o atendimento nos CAPS, os Centros de Atenção Psicossocial, onde o usuário recebe assistência, mas não fica meses ou anos internado, e precisa retornar para casa. Assim, a responsabilidade do tratamento é compartilhada com a família &#8211; o que acaba, em muitos casos, não sendo muito fácil”.</span>

<span style="font-weight: 400;">Suares explica ainda que, apenas em 2001, com a aprovação da Lei 10.216, é que surge o estímulo para a reflexão quanto às alternativas de práticas, equipamentos e instrumentos para o sistema de assistência em saúde mental. Entre elas, estão os CAPS 24h e a incorporação de políticas relacionadas ao consumo de álcool de outras drogas &#8211; culminando na criação, em 2004, dos CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). Passa-se a ter também a percepção de que há uma demanda de dispositivos específicos para o tratamento de crianças e adolescentes portadoras de distúrbios, o que leva à formação dos CAPS Infanto-Juvenis. Assim, para Suares, a preparação da rede para lidar com toda a gama de especificidades é um processo que está em constante construção.</span>

<span style="font-weight: 400;">“Hoje, a RAPS</span><span style="font-weight: 400;">conta com vários equipamentos para atender às demandas de assistência em saúde mental. Entre elas, estão o Consultório na Rua, os CAPS, as residências terapêuticas, as unidades de acolhimento transitório, os hospitais gerais. Até mesmo o Samu acaba sendo componente da rede, porque é muitas vezes a porta de entrada de uma situação de crise”, conta Suares. “E o Samu pode ser visto como um dos gargalos, já que nem sempre as equipes estão sensibilizadas para entender que o transtorno mental não é questão de polícia, mas sim uma questão de saúde como qualquer outra, a ser remetida aos hospitais gerais.”</span>

<span style="font-weight: 400;">É nesses momentos emergenciais em que Suares vê a importância do espaço hospitalar, de modo que sejam garantidas ao indivíduo as condições de cuidados clínicos. Ilustrando essa situação, o psicólogo relata o caso do morador de uma residência terapêutica que apresentou repetidas crises intensas, levando a comportamentos violentos. O psiquiatra do CAPS então determinou o tratamento com psicofármacos atípicos &#8211; que produzem uma resposta psiquiátrica satisfatória rapidamente, mas podem trazer outros efeitos clínicos indesejados. Assim, o morador foi encaminhado para um leito no Hospital das Clínicas, por um período de 30 dias, para que o uso e a reação do medicamento fossem monitoradas. “Em seguida ele pôde retornar bem à residência, fazendo uso do medicamento atípico, com seu quadro clínico estável”, conclui.</span>

<span style="font-weight: 400;">Suares defende que a própria política da reforma psiquiátrica preconiza que haja um determinado número de leitos em hospitais gerais para emergência psiquiátrica, a fim de garantir que a equipe tenha melhores condições no cuidado dos internos. Além disso, ele aponta que “é preciso ter em mente que a existência desses leitos em hospitais gerais é importante e necessária para dar conta de questões que o CAPS, que o serviço residencial terapêutico, que o consultório de rua ou qualquer outro dispositivo como esses, não dá conta; que precisaria da dimensão de um espaço como o hospital. Mas não na dimensão em que foram construídos historicamente os hospitais psiquiátricos.”</span>

<span style="font-weight: 400;">Para o psicólogo, é preciso destacar que, mesmo nos ambientes dos CAPS que funcionam 24h, a política de internação inevitavelmente difere da política dos hospitais psiquiátricos. No primeiro, há a disponibilização de um leito por um período de 15 a 30 dias, para que a pessoa possa se estabilizar e retornar para casa. Já no segundo, as pessoas dão entrada na emergência e lá ficam durante meses, podendo até mesmo passar para a ala hospitalar de internação, sem a previsão ou o intuito do recebimento da alta.</span>

<span style="font-weight: 400;">Se hoje há um grande entrave para a reforma psiquiátrica é a resistência de determinadas parcelas da sociedade. Mas para Suares, as manifestações contrárias acontecem não pela crença de que que esta não é a alternativa mais adequada de cuidado à saúde mental, mas pela ausência de serviços. “A reforma realmente está em construção e nem sempre a gente tem serviços suficientes para suprir a demanda que o território apresenta. Recife tem 17 CAPS, e considero que há a necessidade de mais unidades, mas não estamos conseguindo qualificar a discussão para a expansão”, explica o psicólogo. “Então, a dificuldade é pensar como conseguimos garantir uma reforma assegurando a quantidade suficiente de equipamentos para que as pessoas não se sintam desassistidas; essa é uma discussão da saúde mental, mas que perpassa as outras áreas da saúde”.</span>

<span style="font-weight: 400;">O movimento antimanicomial vem conseguindo fortalecimento e organização progressivos para o enfrentamento de uma série de pautas, cientes das dificuldades impetradas pelo contexto político atual, tanto em nível estadual quanto nacional. E para Suares, elas não são poucas &#8211; nem simples. “Hoje, tanto no âmbito estadual quanto municipal, nossas atenções estão voltadas para a precarização dos vínculos trabalhistas, com a terceirização de vários serviços; para a dificuldade de expansão da rede psicossocial, tanto no Recife quanto no interior de Pernambuco; e para a ampliação da discussão sobre o uso álcool e outras drogas, principalmente com a popularização das unidades terapêuticas de cunho religioso, onde a cada inspeção são encontradas diversas violações aos direitos humanos; assim como nos hospitais.”</span>

<b>Pela valorização do saber médico</b>

<span style="font-weight: 400;">“Apesar de ter sido norteada por princípios de base humanista, a lei de 2001 foi um tanto precipitada”. Essa é a visão de Everton Botelho Sougey, psiquiatra clínico, professor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria – instituição federada à Associação Brasileira de Psiquiatria. Ambas as instituições, assim como várias outras ligadas ao tratamento da saúde mental, são signatárias do documento </span><a href="http://marcozero.org/as-diretrizes-da-contestacao/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">“Diretrizes para um modelo de atenção integral em saúde mental no Brasil”</span></a><span style="font-weight: 400;">. Redigido em 2014 e entregue aos mais diversos órgãos governamentais ligados à área de saúde, o documento lista uma série de propostas que visam não se contrapor diretamente à Lei Antimanicomial, mas sim repensar seu funcionamento e ampliar seu alcance diante das dificuldades de sua total implantação – mas sem retrocesso.</span>

<span style="font-weight: 400;">Para Sougey, ainda que o atual modelo de assistência aos portadores de transtornos mentais em Pernambuco e no Brasil seja passível de uma série de críticas, o caminho não é mais um total contraponto aos pressupostos defendidos pelos integrantes da chamada Luta Antimanicomial. Diante da conjuntura atual, em que a maioria dos hospitais já se encontra fechado e o atendimento é centrado principalmente nos CAPS (Centro de Assistência Psicossocial), Dr. Everton acredita que o diálogo entre as duas correntes seja o caminho mais benéfico rumo à uma assistência próxima do ideal. “A lei, é fato, não tem mais volta”, ele afirma. “Então, como todo corpo funciona em harmonia com suas duas metades, o mais interessante na atual conjuntura seria que pudéssemos estabelecer conversas entre as duas correntes, que nos levassem a um caminho comum.”</span>

<span style="font-weight: 400;">A assistência ao portador de distúrbio mental no Brasil, ele admite, sempre foi “o calcanhar de Aquiles da psiquiatria”: ao longo do tempo, a busca pelo conhecimento que formaria a base de um tratamento psiquiátrico adequado, através do empiricismo, levou a práticas totalmente condenáveis; assim como as distorções na implantação do sistema de hospitalização, principalmente durante os anos 1970, levaram ao recolhimento indevido de milhares de cidadãos em situação de rua – todos fatores admitidos por Sougey. </span>

<span style="font-weight: 400;">Contudo, segundo ele, o abrupto abandono do </span><a href="http://marcozero.org/alguns-dos-hospitais-psiquiatricos-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">sistema de internação</span></a><span style="font-weight: 400;"> causou uma série de efeitos colaterais imediatos. “A Lei Antimanicomial, surge com uma proposta muito interessante – no papel. Na prática, se vai desmontar um sistema, que tinha muitos defeitos, e substituí-lo por uma rede de assistência que não estava devidamente capilarizada.” Os efeitos disso seriam sentidos até hoje: pacientes que, ao voltarem às casas de famílias repentinamente confrontadas com a necessidade de lidarem com distúrbios que podem dificultar a convivência, acabam confinados em cômodos (os quartinhos ou “puxadinhos”), transformados em verdadeiras celas; ou acabam abandonados, vagando pelas ruas e sendo recolhidos, dessa vez, pela polícia – os últimos anos registram aumento significativo de portadores de distúrbios psiquiátricos nas prisões brasileiras. Além disso, Sougey afirma que o número de CAPS criados, bem como o número de profissionais designados para estes centros, era insuficiente para atender à demanda gerada pelo fechamento dos hospitais – e com a alta demanda e o desgaste gerado, muitos destes profissionais decidiram desligar-se da área de assistência. Para ele, tudo isso configura um verdadeiro retrocesso. “Voltamos à era pré-psiquiátrica”, afirma.</span>

<div id="attachment_2394" style="width: 646px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/everton-botelho2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2394" class="size-full wp-image-2394" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/everton-botelho2.jpg" alt="Everton Botelho Sougey, psiquiatra clínico, professor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria" width="636" height="640"></a><p id="caption-attachment-2394" class="wp-caption-text">Everton Botelho Sougey, psiquiatra clínico, professor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria</p></div>

<span style="font-weight: 400;">Assim, a necessidade da existência de hospitais psiquiátricos torna-se o ponto de maior discordância entre os adeptos da Luta Antimanicomial e outras instituições voltadas à saúde mental: para a associação presidida por Sougey e muitas outras, há, sim, a necessidade de um espaço constituído dentro de moldes hospitalares, que ofereça o tratamento adequado aos pacientes possuidores de distúrbios mentais. “Se a cardiologia e a maternidade, por exemplo, possuem um ambiente hospitalar específico, por que não a psiquiatria?”, ele questiona. “Mas os integrantes da luta não concebem que alguém possa defender um modelo de assistência que funcione com a existência de hospitais.”</span>

<span style="font-weight: 400;">Sua posição é a de que o ambiente hospitalar deve ser aprimorado, não extinto. E uma das medidas visando esse aprimoramento seria a constituição de equipes multidisciplinares, unindo as mais diversas competências, em um ambiente de estrutura moderna e apropriada – diferente dos modelos popularizados em décadas anteriores. Ainda assim, ele afirma que as instituições de psiquiatria não se posicionam contra as residências terapêuticas ou os lares protegidos – experiências que, segundo ele, tiveram sucesso na Inglaterra (nas chamadas “comunidades terapêuticas”) e foram responsáveis por um processo de humanização da especialidade. Mas sem prescindir do tratamento em ambiente hospitalar.</span>

<span style="font-weight: 400;">Uma outra crítica de Sougey à Lei Paulo Delgado, como também é conhecida, diz respeito ao fato de que, segundo o psiquiatra, seu norteamento é mais ideológico do que científico. Um dos indícios que comprovariam esse fato é justamente a utilização do termo que dá nome ao movimento. “Manicômio é uma instituição psiquiátrica para tratar terapeuticamente, em regime fechado, doentes mentais que cometeram crimes sérios”, ele explica. “Se a reforma não estivesse a serviço de uma ideologia, não chamariam hospitais de manicômio, nem psiquiatras de torturadores. A desconstrução de um conhecimento, que possui uma história – mas não a esconde – é muito perigoso. Afinal, a medicina tem andado pra frente”, continua Sougey. “Talvez tenhamos tido uma época difícil, onde o médico ficou desumanizado. Principalmente porque as condições de trabalho, na maioria do tempo, são de enorme dificuldade. Mas discordo do discurso cada vez mais difundido que relega a figura do psiquiatra a um plano de menor importância no tratamento dos distúrbios mentais.”</span>

<span style="font-weight: 400;">É partindo do pressuposto de uma disputa política que Sougey refuta a afirmação de que os profissionais da psiquiatria, ao defenderem o modelo hospitalar, estariam desprezando o bem-estar de seus pacientes. “Numa profissão juramentada como a medicina, quem pode, em sã consciência, concordar com um modelo asilar como o que ocorria? Concordar com uma Tamarineira, com 1200 pacientes?”, ele pondera. “Contudo, décadas atrás, não havia outra alternativa. Os tratamentos medicamentosos só começaram a surgir nos anos 1950. Historicamente, é algo muito recente. Ninguém é a favor de ‘holocaustos’ – como no livro </span><a href="http://marcozero.org/holocausto-brasileiro/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">‘Holocausto Brasileiro’</span></a><span style="font-weight: 400;">, sobre o caso ocorrido em Minas Gerais. O problema é outro: o fato de o modelo de hospitalização ser muito complexo.” Sougey afirma ainda que o único outro país a adotar uma visão de desmonte da prática hospitalar foi a Itália, na reforma da saúde psiquiátrica coordenada por Franco Basaglia – modelo que serviu de referência à reforma implementada no Brasil. Mas para Everton, essa foi uma experiência totalmente fracassada. </span>

<span style="font-weight: 400;">A internação em modelo hospitalar, contudo, não prescindiria da aplicação de outros métodos, em conjunto, durante o tratamento. O psiquiatra afirma que isso nem mesmo pode ser considerado novidade, ao citar como exemplo os métodos desenvolvidos por </span><a href="http://marcozero.org/ulysses-pernambucano-o-pioneiro/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Ulysses Pernambucano</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Hospital da Tamarineira (que hoje, inclusive, leva seu nome), durante a década de 1930; lá, o psiquiatra desenvolveu, junto à Anita Paes Barreto, tratamentos que utilizavam, entre outras técnicas, a terapia ocupacional. “Havia uma padaria na Tamarineira, na qual os pacientes faziam seu próprio pão”, lembra o psiquiatra. “Mas ele nunca perdeu a visão científica.” </span>

<span style="font-weight: 400;">É essa visão científica que Sougey evoca como maior aliada do tratamento psiquiátrico. Para ele, a resolutibilidade dos problemas psiquiátricos obteve avanço significativo nas últimas três décadas, fazendo com que a realidade, hoje, seja muito diferente daquela do início do sistema psiquiátrico no Brasil. Mas ele afirma que o conhecimento médico desenvolvido e acumulado nesse período vem sendo deixado de lado no atual modelo de assistência. “Defensores da lei chegam a afirmar que não existe doença – o que vemos como um absurdo.” Segundo o psiquiatra, para que a assistência psiquiátrica fosse instituída a partir de preceitos que não os da medicina, ela teria que ter sido desenvolvida a partir da ciência social – o que não é o caso. “Mas nossa visão é médico-naturalista, de forma que o psiquiatra enxergue não apenas o distúrbio, mas a saúde e a pessoa do paciente de forma integral; ainda assim, uma visão médica, científica.”</span>

<span style="font-weight: 400;">Assim, a solução dos problemas enxergados por Sougey, pela associação que preside e por outras signatárias do documento “Diretrizes (…)”, seria o investimento massivo e o planejamento detalhado – atitudes que, ele afirma, estiveram ausentes na implantação da Lei de 2001 (ainda que ele admita que o investimento em saúde, em todas as áreas, seja precário). </span>

<span style="font-weight: 400;">Diferente do Movimento Antimanicomial, Everton acredita que o investimento na adequação e modernização das estruturas, além das equipes multidisciplinares capacitadas, que criariam um modelo hospitalar distante das chamadas “instituições totais” – aquelas que acabam por retirar a autonomia e os direitos individuais daqueles que nelas são confinados. Assim, as internações não se dariam de forma inadequada, nem por um tempo além do necessário. “Para mim, o discurso de que o hospital, em si, desumaniza, é puramente político. Um hospital preparado, que realmente atenda às necessidades do paciente, não teria esse efeito.”, ele afirma.</span>

<span style="font-weight: 400;">Contudo, o tratamento seria sempre voltado para o menor tempo de internação possível e para restabelecer totalmente a capacidade de o indivíduo gerenciar sua própria vida. Esse é um ponto de convergência com as propostas da Lei Paulo Delgado, mas que hoje é executado de outras maneiras – para Sougey, de forma totalmente improvisada. Ele cita como exemplo a adaptação de vários CAPS de forma improvisada, sem sistematização, como determinadas unidades que preveem a internação. Isso acarretaria um contrassenso à própria lei e enfraqueceria um de seus objetivos mais destacados: a desinstitucionalização. “Se o paciente diz que adora o CAPS, ele não demonstra ainda estar institucionalizado? A falta de planejamento vem criando uma colcha de retalhos”, conclui o psiquiatra.</span>

<b>Paciente ou usuário?</b>

<span style="font-weight: 400;">Contrapondo-se as falas de Vinícius Suares e Everton Sougey, percebe-se uma diferença no termo utilizado para se referir a uma pessoa portadora de distúrbios mentais que seja atendida pelo sistema de saúde psiquiátrica. Enquanto Vinícius, representante da Luta Antimanicomial, utiliza o termo “usuários”, Sougey dá preferência ao costumeiro pacientes. Mas o que essa diferenciação significa?</span>

<span style="font-weight: 400;">Em um artigo intitulado “Da institucionalização da loucura à reforma psiquiátrica: as sete vidas da agenda pública em saúde mental no brasil”, a pesquisadora Eliane Maria Monteiro da Fonte diz o seguinte:</span>
<blockquote><span style="font-weight: 400;">“Como afirma Perrusi (2010: 102-103), o uso de psicotrópicos produziu um processo de diferenciação na clientela psiquiátrica, que não precisa mais ser identificada como reclusa no asilo, produzindo internamentos intermitentes (com duração limitada) e possibilitando a boa parte dos pacientes o uso de serviços extra-hospitalares. Atualmente no Brasil, assim como em muitos outros países, os serviços psiquiátricos e de atenção psicossocial são utilizados voluntariamente pelos pacientes, identificados como ‘usuários’, no papel de doentes, ou seja, ‘num papel reconhecido e sancionado socialmente, como qualquer outro serviço de saúde pública ou privada’, contribuindo para minimizar o estigma da intervenção psiquiátrica. Como resultado conjunto da reforma institucional (hospitalização do asilo + instituições extra-hospitalares), o portador do sofrimento psíquico pôde deixar de ocupar uma linha biográfica, a carreira moral de paciente psiquiátrico, cujo resultado era a cronicidade do paciente, se transformando em usuário.”</span></blockquote>
<b>Sobre a loucura e a lucidez</b>

<span style="font-weight: 400;">Já cantou Caetano Veloso que, de perto, ninguém é normal. Muito provavelmente, dentre as pessoas atendidas no posto de saúde onde Yasmin** trabalha, nenhuma delas seja capaz de imaginar o passado e o histórico em saúde mental da técnica de enfermagem que os assiste. Observam, porém, a dedicação e o bom trato que ela tem com as crianças e o empenho a cada dia de vacinação. </span>

<span style="font-weight: 400;">Yasmin, por sua vez, equilibra em sua agenda o trabalho, o andamento da construção de sua casa, os planos para o casamento, os estudos para aprovação em um concurso público e os encontros semanais com sua psiquiatra. Yasmin tem esquizofrenia e se enche de orgulho ao contar que leva uma vida normal.</span>

<span style="font-weight: 400;">Ela teve três surtos psicóticos ao longo da vida, que a ensinaram a necessidade de se reerguer. O primeiro, em abril de 2003, foi ocasionado por uma estafa mental e estresse no ambiente de trabalho. O segundo no ano de preparação para o vestibular; e o último, em 2007, pela convicção que a invadiu de que o pai era um suicida. “Eu tranquei meu pai no terraço para que ele não pudesse mais fazer mal a ele mesmo, pois eu tinha em mim a certeza de que ele beber muito significava que ele queria se matar”, conta ela.</span>

<span style="font-weight: 400;">Em todas as situações, Yasmin passou por tratamento. Chegou a ser atendida na emergência psiquiátrica do Hospital Otávio de Freitas e foi acompanhada pelos profissionais do CAPS David Capistrano. “Precisei ser socorrida, mas meu tratamento foi mesmo no CAPS, que na minha época tinha uma estrutura muito boa. Mas hoje em dia está bastante sucateado”.</span>

<span style="font-weight: 400;"></span><span style="font-weight: 400;">Yasmin conta que após cada episódio, a parte mais difícil é retomar uma vida normal. “As pessoas tendem a não acreditar em você, elas acham que você é inválida”.</span>
<blockquote><i><span style="font-weight: 400;">“O meu maior sonho e o de muitos pacientes é poder ser respeitado no seu local de trabalho, que seu chefe, seu colega saiba que você foi paciente da saúde mental, mas que saiba que você pode trabalhar, que nos dê uma chance e acredite que a gente tem potencial.”</span></i></blockquote>
<span style="font-weight: 400;">O relato de Yasmin vem cheio de sonhos: o casamento, a vontade de ser aprovada num concurso público&#8230; O maior deles, porém, talvez se concretize na luta diária que ela trava com o mundo para ter uma vida normal. “Eu quero dar o exemplo para que ninguém desista! Qualquer pessoa tem direito de ter </span><b>loucura</b><span style="font-weight: 400;">, de sofrer das emoções, mas essa pessoa pode se reerguer. O que não pode é a gente ficar </span><b>excluído</b><span style="font-weight: 400;"> ou ser visto como doente pro resto da vida.”</span>

<span style="font-weight: 400;">**Nome fictício utilizado a pedido da entrevistada.</span>

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/aline.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2401 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/aline.jpg" alt="aline" width="186" height="151"></a>

*Aline Soares, bacherela em Rádio, TV e Internet pela UFPE e estudante do 4º período de Jornalismo.





<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/dandara.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2402 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/08/dandara.jpg" alt="dandara" width="185" height="151"></a><i>*Dandara Palankof e Cruz é radialista, mestranda em comunicação pela UFPB e tradutora de histórias em quadrinhos.</i><p>O post <a href="https://marcozero.org/a-reforma-psiquiatrica-no-brasil-conflitos-e-entraves-no-tratamento-em-saude-mental/">Reforma psiquiátrica: conflitos e entraves no tratamento em saúde mental</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Da busca por um sorriso nasce a luta pelo direito à cidade</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jul 2016 13:00:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Conheça o duro cotidiano dos artistas de rua do Recife, marcado por dificuldades que vão desde a degradação e a privatização do espaço público até a inexistência de políticas públicas para o setor e a consequente falta de recursos para que possam exercer a profissão com dignidade Por Sandro Barros* Todos os dias eles acordam [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2303 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2774980_CreateAgif.gif" alt="2774980_CreateAgif" width="120" height="90"></a><em>Conheça o duro cotidiano dos artistas de rua do Recife, marcado por dificuldades que vão desde a degradação e a privatização do espaço público até a inexistência de políticas públicas para o setor e a consequente falta de recursos para que possam exercer a profissão com dignidade
</em>

<strong>Por Sandro Barros*</strong>

Todos os dias eles acordam cedo para conseguir sobreviver de seu ofício. Mesmo diante das muitas adversidades, perseveram na luta por uma cidade mais democrática, que garanta espaços de promoção para uma arte pública de rua. Sim, os artistas de rua existem e estão nas vias públicas do Recife em busca de respeito e dignidade. É difícil precisar o número exato desses artistas na capital pernambucana, mas cerca de dez grupos participam do Movimento de Teatro Popular de Pernambuco. Isso sem contar aqueles que atuam individualmente.

Além do amor irrestrito pelo que fazem e da busca incessante por um sorriso do público, cada um destes artistas populares compartilha um cotidiano marcado pela superação de barreiras para se expressarem. Dificuldades que passam pelo direito ao espaço público onde possam exibir seus trabalhos, pela captação de recursos para as produções e, principalmente, pela quase total inexistência de políticas públicas voltadas para o setor. Um drama que será contado aqui na voz dos próprios personagens.

<div id="attachment_2330" style="width: 710px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-01PP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2330" class="size-full wp-image-2330" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-01PP.jpg" alt="Apresentação da Trupe Circuluz durante o 6º Festival de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim – Cupira – PE. Foto: Sandro Barros" width="700" height="467"></a><p id="caption-attachment-2330" class="wp-caption-text">Apresentação da Trupe Circuluz durante o 6º Festival de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim – Cupira – PE. Foto: Sandro Barros</p></div>

<strong>Primeiro ato: O direito à cidade</strong>

O raciocínio é simples e lógico: o artista de rua precisa do espaço público para se expressar. Poucos como eles se relacionam, conhecem e sofrem com os problemas da cidade. Esse é o caso da historiadora, mãe de dois filhos, mestra em teatro, atriz, palhaça eintegrante do Movimento de Teatro Popular de Pernambuco (MTP-PE), Raquel Almeida. Como artista de rua, ela fala com propriedade do sucateamento das praças e do excesso de estímulos que a população recebe para não habitar os espaços públicos:
<blockquote><em>“Existe uma ação em curso, gradualmente, enquanto pensamento e políticas públicas, na tentativa de privatização e negação dos espaços públicos, que são vendidos, cerceados, abandonados. Então, para nós fazedores da arte pública, estar nos diferentes espaços urbanos significa possibilitar um grito simbólico de chamamento ao governo para que instaure efetivamente nas cidades o amplo uso e circulação de ideias, pensamento e afetividades nas ruas, praças, viadutos, ruelas, assentamentos. Existem comunidades que nem praça têm, suas ruas são puro esgoto e lixo, muitas das praças são abandonadas, escuras, as pessoas têm medo de usá-las em determinado horário. E não se enganem, pois a rua vazia, desabitada, as pessoas trancafiadas em suas casas, conectadas à televisão,só serve para a desmobilização e alienação. Para distanciar as pessoas umas das outras e fecundar o medo”.</em></blockquote>
Em tempos onde a sociedade contemporânea reivindica novas ordens, como os direitos urbanos, direitos culturais e diante de uma crescente onda tradicionalista, com o fortalecimento das políticas conservadoras, os artistas populares temem um aumento da coerção social da população e da privatização dos espaços públicos. Nesse aspecto o produtor cultural, ator integrante do MTP e do Grupo de Teatro de Rua Cafuringa, Alexandre Menezes, exemplifica claramente o momento atual:
<blockquote><em>“Cada vez mais, estão sendo privatizados os espaços públicos. Os teatros por exemplo ainda atendem uma determinada classe social que certamente não são os que estão na periferia. Na comunidade as pessoas não precisam pegar um ônibus, nem colocar a melhor roupa, basta chegar na roda. Às vezes abrem sua porta ou janela e estão diante de uma peça teatral. Ao se depararem com a arte pública em espaços abertos, se emocionam e se reconhecem ali”.</em></blockquote>
<div id="attachment_2331" style="width: 810px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-02PP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2331" class="size-full wp-image-2331" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-02PP.jpg" alt="Apresentação da Trupe Circuluz durante o 6º Festival de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim – Cupira – PE. Foto: Sandro Barros" width="800" height="533"></a><p id="caption-attachment-2331" class="wp-caption-text">Trupe Circuluz aproveita festivais, como o de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim, para levar sua arte ao Interior do Estado. Foto: Sandro Barros</p></div>

<strong>Segundo ato: a eterna ausência de políticas públicas</strong>

Esse segundo raciocínio também é óbvio: uma expressão artística que se situa à margem da chamada indústria cultural, como é o caso do teatro de rua, só pode existir se estiver inserido em um conjunto de políticas públicas articuladas, democráticas, transparentes e eficientes. Dentro deste contexto, Raquel Almeida avalia as políticas públicas estaduais pensadas especificamente para arte pública de rua:
<blockquote><em>“Eu levo em conta uma dimensão que compreende o incentivo com recursos, com um edital que compreenda a especificidade do nosso fazer. Na prática, temos um edital em nível estadual que não prevê essas singularidades e ainda por cima coloca valores menores de incentivo em relação às outras linhas de teatro. Além disso, temos festivais estaduais e municipais com formatos de produção e organização que não pensam e refletem acerca do fazer cênico para os espaços públicos, com programações voltadas muito mais para palcos e espaços fechados. Esses dados geram uma lacuna na produção e fruição do teatro de rua em Pernambuco, tanto como montagem, quanto como pesquisa, circulação e intercâmbio”.</em></blockquote>
Muitas são as críticas de quem faz teatro de rua no Recife. Essas críticas também são referendadas por outras expressões artísticas ligadas à cultura popular no estado. Os artistas que dialogam com estéticas alinhadas com a indústria cultural, mercadológica, acabam se destacando, pois seus padrões estéticos estão inseridos em contextos globais (mainstream). Essa estética começa no figurino, passa pelos instrumentos, padrões vocais, entre outros. Quando observamos a estética voltada para a cultura popular, o seu diálogo é com as culturas tradicionais. Essa identidade cultural é pouco vivenciada pela maior parte da população no Estado, com exceção das festas ligadas ao calendário oficial, como Carnaval e São João, por exemplo.

Nesse momento observa-se que as políticas culturais sub fomentam brincadeiras que despertem a valorização das identidades locais, e quando olhamos mais atentamente, o teatro de rua acaba tendo uma visão bastante deturpada da sua concepção primária, que é de informar, educar e promover arte pública em territórios onde pouco se fomenta arte. Alexandre Menezes fala abertamente sobre as políticas culturais pensadas para uma arte pública de rua:
<blockquote><em>“Digo com total clareza que não existe uma Política Cultural nesta cidade e sim uma politicagem cultural estabelecida pelas gestões que estão no poder. Já participei de diversos fóruns temáticos, consultas públicas, setoriais e nenhuma proposta ou instrumento foi levado em consideração. As conferências municipais e estaduais não são respeitadas e nem colocadas em prática. Então não existe uma fomentação, principalmente para as manifestações artísticas feitas para espaços abertos”.</em></blockquote>
<div id="attachment_2332" style="width: 810px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-03PP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2332" class="size-full wp-image-2332" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-03PP.jpg" alt="Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na praça da Paz, Cidade Tabajara, Olinda - PE. Foto: Sandro Barros" width="800" height="533"></a><p id="caption-attachment-2332" class="wp-caption-text">Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na praça da Paz, Cidade Tabajara, Olinda &#8211; PE. Foto: Sandro Barros</p></div>

<strong>Terceiro ato: o dinheiro sumiu</strong>

Teatro, mesmo o popular, não se faz só com amor. Para colocar um espetáculo na rua, claro, precisa-se de dinheiro. Dinheiro que, por conta da inexistência de uma política pública voltada para o setor, praticamente não existe. Para ilustrar os valores destinados à produção do teatro de rua, a última vez que a Prefeitura do Recife ofertou uma seleção pública nesta áreafoi em 2010. Na ocasião, o edital previa o pagamento de R$ 20 mil e, ainda assim, que <a href="http://www.recife.pe.gov.br/2010/01/05/aberto_edital_de_fomento_as_artes_cenicas_170014.php" target="_blank" rel="noopener noreferrer">só foram liberados com um ano e meio de atraso</a>.

No âmbito estadual, a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambucano (SECULT-PE) se apoia no Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura). Na chamada pública de 2015/2016 foram destinados R$ 1.210.000,00 para propostas em artes cênicas. Esse montante é dividido em dezesseis linhas de ações. Das ações existentes, apenas uma linha de ação, a linha 02, está voltada exclusivamente para teatro de rua, destinando o valor máximo de R$ 64 mil para montagem de espetáculo específicos dessa modalidade, conforme <a href="http://www.cultura.pe.gov.br/wp-content/uploads/2015/01/TEATRO.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Resolução da Comissão Deliberativa do Funcultura Nº 02/2014</a>.

O Coordenador de Artes Cênicas da SECULT-PE, Jorge Clésio, que também é ator, reconhece a discrepância nos valores das linhas de ações ofertadas atualmente no Funcultura e fala que a secretária atualmente trabalha na revisão dos valores:
<blockquote><em>“As discrepâncias entre os valores das produções de Teatro estão sendo revistas. Assim como todo edital do Funcultura, essa discussão aconteceria a partir de setembro desse ano, mas diante dos acontecimentos políticos, e principalmente pela extinção do Ministério da Cultura (MINC), a Secult revolveu adiantar esse processo, o que já está ocorrendo nesse momento”</em>.</blockquote>
Jorge fala sobre a perseverança dos artistas de rua do Estado, suas lutas para promover uma arte sem muros e mais próxima do cidadão, e também das contribuições desses artistas para a construção da cidade que queremos:
<blockquote><em>“Destaco a perseverança dos atores de rua na afirmação da sua arte e sua contribuição na discussão sobre a cidade que queremos. Há uma lacuna entre a sociedade civil e o poder público neste aspecto. Cultura não está associada a nossa cidade”.</em></blockquote>
<div id="attachment_2333" style="width: 810px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-04PP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2333" class="size-full wp-image-2333" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-04PP.jpg" alt="Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na Academia da  Cidade, Ipojuca - PE. Foto: Sandro Barros" width="800" height="533"></a><p id="caption-attachment-2333" class="wp-caption-text">Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na Academia da Cidade, Ipojuca &#8211; PE. Foto: Sandro Barros</p></div>

<strong>Quarto ato: a resistência</strong>

<strong></strong>O Movimento de Teatro Popular de Pernambuco, com sede no bairro dos Coelhos, Recife, composto por grupos e artistas individuais, reúne-se semanalmente para discutir caminhos, estratégias, e ações em prol do teatro popular no estado. Fazem parte deste movimento os grupos Cafuringa, Ifá-Rhadha de art’Negra, Teamu e Cia, Arteiros, Grupo de Teatro Drão, Loucos e Oprimidos da Maciel, Trupe Circuluz, Cia Máscaras de Teatro, Luci da Poesia, POESIS – Grupo Cultural do Alto José do Pinho, entre outros artistas.

O MTP-PE atua como mediador dos grupos junto às instituições públicas e órgãos públicos responsáveis pela fomentação cultural nas três esferas do governo. As pautas surgem a partir de decisões coletivas, fruto das reuniões semanais, assim como decisões para realizações de intervenções públicas e ações como o Festival de Teatro de Rua do Recife. Em dezembro de 2013 ocorreu sua 10º edição, e já com uma latência de três anos, tendo em vista que a 11ª edição do festival não ocorrerá este ano, por falta de apoio financeiro nacesfera governamental.

Para a produtora Cultural, palhaça, mãe de dois filhos e integrante do movimento, Marília Vilas Boas, o MTP tem a função de agrupar e fortalecer politicamente os grupos que estão a ele vinculado, instigando sua jornada através de suas ações e empoderamento sociocultural, buscando sempre aprimorar os conhecimentos dos artistas:
<blockquote><em>“O movimento tem uma grande importância para os brincantes de teatro de rua, atualmente nós artistas de rua não temos muitas oportunidades na questão de verba pública e na discussão sobre arte pública por parte do governo, só conseguimos ser remunerados com nossa arte através da compreensão dos espectadores ao rodarmos o chapéu, ou através de editais que acabam tornando-se um meio falho para remuneração da nossa arte”.</em></blockquote>
A palhaça aponta como são tomadas as decisões e as ações culturais fomentadas pelo movimento:
<blockquote><em>“Tudo é definido no coletivo, onde cada grupo tem um ou mais representantes que são incumbidos de levarem para seus grupos as decisões com o objetivo de manter uma coerência coletiva. No MTP-PE já temos três ações sistemáticas que são o Festival de Teatro de Rua do Recife, o Março de Teatro e o Teatro no Centro. No início do ano, mês de janeiro, acontece o planejamento anual, onde são deliberadas as demandas do Movimento baseando-se nas ações sistemáticas.</em></blockquote>
Quando falamos sobre pautas e discussões que trazem à tona a fomentação de uma arte pública, que ocupe espaços abertos, que permita o contato direto do artista com seu público, Raquel Almeida diz:
<blockquote><em>“Já em relação à discussão sobre arte pública e mesmo o teatro de rua, existiram diferentes tentativas. O Movimento de Teatro Popular de Pernambuco tenta impulsionar esse fazer, nas ações que promove. Contudo, ainda é algo muitas vezes pontual, não existindo um cronograma permanente de debates e mesmo de ações em torno desse tema, o que seria importante de acontecer. Mesmo assim, os grupos se lançam para a prática, efetivamente eles estão fazendo a arte pública. Os artistas estão nos espaços públicos, nos semáforos, praças, bares, avenidas, descampados, escolas etc. Pernambuco tem uma história depertencimento à arte pública, que se materializa em sua sambadas de maracatu e coco, nos seus brincantes de frevo, no seu carnaval de rua, na sua capoeiragem, nos seus poetas marginais”</em>.</blockquote>
Alexandre diz ainda que, mesmo com a organização alavancada pelo MTP-PE, os grupos de teatro de rua ainda realizam ações de maneira isolada, o que dificulta o fortalecimento da expressão artística no âmbito local.
<blockquote><em>“Hoje em Recife existem pelo menos seis grupos de teatro de rua atuantes, mas que ainda realizam suas ações de forma isolada e o conceito de arte pública, que é algo tão antigo e tão novo, está sendo discutido em todo Brasil através justamente dos grupos de teatro de rua. Digo isso porque conheço bem esses grupos do Recife e por mais que sejam relevantes seus trabalhos, por mais que participemos dos encontros enquanto Movimento de Teatro Popular de Pernambuco (MTP-PE), as ações ainda são pontuais e não avançamos nessa discussão. Temos que ter a clareza de saber o porquê, pra quê e pra quem fazemos teatro de rua”. </em></blockquote>
Perguntado sobre como os artistas de rua conseguem garantir acessibilidade cultural não massificada à população de baixa renda, Alexandre traz à tona o teatro instrumento de transformação social, e resistência cultural diante da indústria cultural massificante e alienante:
<blockquote><em>“Existem os que fazem teatro da arte pela arte, dos que fazem para comercializar suas produções e os que fazem com um cunho social e político. Eu prefiro a terceira opção. Foi o que escolhi. Com nossos espetáculos não garantimos somente o entretenimento, mas também damos olhos e principalmente ouvidos à população. Nossos espetáculos nascem das questões que afligem a nós e ao povo, dos direitos que foram e são negados até hoje. Na rua ou na praça estamos em roda, ombro a ombro, diante do trabalhador. Trocando e nos encontrando com o público e com nós mesmos”.</em></blockquote>
<div id="attachment_2334" style="width: 810px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-05PP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2334" class="size-full wp-image-2334" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-05PP.jpg" alt="Apresentação do Espetáculo Valentin, em Jardim Atlântico, Olinda - PE. Foto: Sandro Barros" width="800" height="533"></a><p id="caption-attachment-2334" class="wp-caption-text">Apresentação do Espetáculo Valentin, em Jardim Atlântico, Olinda &#8211; PE. Foto: Sandro Barros</p></div>

<strong>Epílogo: A busca pelo Sorriso <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f609.png" alt="😉" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></strong>

Nessa busca incessante por um sorriso, por querer dar voz aos oprimidos, por acreditar que a arte é fundamental &#8211; assim como o pão de cada dia &#8211; milhares de artistas espalhados pelo mundo à fora vibram e choram de alegria quando conseguem despertar, por um segundo que seja, a atenção de quem há muito tempo sofre com as desigualdades nascidas desde o ventre.

Por tantos Severinos espalhados pelas periferias do mundo. Por tantas Macabéas parideiras de tantos Severinos. São para eles que os artistas de rua se motivam para levantar cedo todos os dias. Os artistas são as pessoas que provaram o néctar da vida, quando derramaram seu espírito criativo e tocaram no coração do próximo. No prazer de buscar no sorrido do outro a alegria do dia a dia e se alimentar de suas próprias lágrimas, os artistas de rua do Recife vão transcendendo suas próprias limitações.

<div id="attachment_2335" style="width: 810px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-06PP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-2335" class="size-full wp-image-2335" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/Sandro-Barros-06PP.jpg" alt="Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na Academia da  Cidade, Ipojuca - PE. Foto: Sandro Barros" width="800" height="533"></a><p id="caption-attachment-2335" class="wp-caption-text">&#8220;Os artistas estão dispostos a dar a sua vida por um momento &#8211; para que aquele verso, aquele riso, aquele gesto agite a alma do público&#8221;. Foto: Sandro Barros</p></div>
<blockquote><strong>OS ARTISTAS</strong>

“Os artistas são as pessoas mais motivadas e corajosas sobre a face da terra. Lidam com mais rejeição num ano do que a maioria das pessoas encara durante toda uma vida. Todos os dias, artistas enfrentam o desafio financeiro de viver um estilo de vida independente, o desrespeito de pessoas que acham que eles deviam ter um emprego a sério e o seu próprio medo de nunca mais ter trabalho. Todos os dias, têm de ignorar a possibilidade de que a visão à qual têm dedicado suas vidas seja apenas um sonho. Com cada obra ou papel, empurram os seus limites, emocionais e físicos, arriscando a crítica e o julgamento, muitos deles a ver outras pessoas da sua idade a alcançar os marcos previsíveis da vida normal – o carro, a família, a casa, o pé-de-meia. Por quê? Porque os artistas estão dispostos a dar a sua vida inteira por um momento – para que aquele verso, aquele riso, aquele gesto agite a alma do público. Artistas são seres que provaram o néctar da vida naquele momento de cristal quando derramaram o seu espírito criativo e tocaram no coração do outro. Nesse instante, eles estão mais próximos da magia, de Deus e da perfeição do que qualquer um poderia estar. E nos seus corações, sabem que dedicar-se a esse momento vale mil vidas ”
<p style="text-align: right;"><strong>David Ackert</strong></p>
</blockquote>
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<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2016-07-27-PHOTO-00000048.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-2357" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/2016-07-27-PHOTO-00000048-150x150.jpg" alt="2016-07-27-PHOTO-00000048" width="150" height="150"></a>* Sandro Barros é estudante de jornalismo da UFPE, produtor e comunicador cultural, fotógrafo, músico, arte educador, assessor de imprensa e social media. Nasceu em Jaboatão dos Guararapes, mas foi em Olinda que descobriu o amor pela cultura popular e comunicação. Hoje atua no campo da comunicação comunitária, audiovisual e produção cultural. Acredita na comunicação e no jornalismo como instrumentos de transformação social através da fomentação e valorização da cultura popular. Compartilha do pensamento que à apropriação da cultura tradicional é vital para libertação do povo contra as instituições sociais opressoras e reguladoras.<p>O post <a href="https://marcozero.org/da-busca-por-um-sorriso-nasce-a-luta-pelo-direito-a-cidade/">Da busca por um sorriso nasce a luta pelo direito à cidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Vítimas dos próprios alunos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Jul 2016 19:28:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A violência contra o professor não se restringe à rede pública de ensino, mas está presente também nas escolas particulares e até mesmo nos cursos de idiomas. A idade também não se mostra uma restrição: crianças de até 6 anos já agridem seus professores Por Carolina Seixas** O professor brasileiro é o que mais sofre [&#8230;]</p>
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Por Carolina Seixas**

O professor brasileiro é o que mais sofre violência de seus alunos no mundo. Isso é o que aponta um estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2014. De acordo com a pesquisa, 12,5% dos professores entrevistados no Brasil afirmaram ser alvo de agressões verbais ou de intimidação por seus alunos ao menos uma vez na semana. A taxa média entre os 34 países analisados é de 3,4%, mais de três vezes menor do que a nossa.

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Essa realidade também se aplica ao estado de Pernambuco, e não somente nas escolas públicas, como grande parte da população tende a pensar, mas também nas instituições privadas. São vários tipos de agressão, que vão desde piadinhas maldosas e xingamentos até a própria violência física. Os professores são vítimas de assédio até mesmo nos cursos particulares de idiomas e, inclusive, por parte de crianças pequenas. Esse é o caso de André* e Roberta*, que já protagonizaram episódios do tipo nos cursinhos onde lecionam.

André conta que um de seus alunos o xingou e ameaçou cuspir em seu rosto durante uma atividade em sala de aula. A turma, cuja idade varia entre 7 e 9 anos, estava brincando de “batata quente” (uma bola é passada de mão em mão entre as crianças até que a música que está tocando pare, e então quem ficou com a bola por último tem que responder a uma pergunta). Então um menino, na sua vez de responder, se recusou a participar e saiu da brincadeira irritado. Algum tempo depois, ele começou a acusar o professor de estar roubando (na atividade) e o chamar de ladrão “da mesma laia de Dilma e Lula”. Um colega se juntou a ele dizendo “vamos cuspir na cara de Dilma!”, ao que o primeiro corrigiu: “na cara de Dilma não, na cara do <em>teacher </em>(professor em inglês)”.

O professor diz que conseguiu controlar a agitação dos meninos e, posteriormente, falou com a coordenação da instituição a respeito do ocorrido. O curso entrou em contato com a mãe do aluno, que disse que o comportamento agressivo do filho se repetia na escola e que ele já estava sendo acompanhado por uma psicóloga por conta disso. Apesar da explicação, André acredita que pode haver certa negligência com a criança. “Bullying ou outra violência que ele possa sofrer reflete em comportamento violento e descontrolado algumas vezes. Nunca se sabe o que aquele aluno passou para chegar ali, se dormiu bem, se teve algum desentendimento durante a semana”.

Não são todos os casos, porém, que são bem resolvidos pela instituição de ensino. Roberta, por exemplo, que também ensina idiomas, ficou decepcionada com a atitude do curso onde trabalhava. Ela foi agredida por um aluno de 6 a 8 anos de idade que também já tinha um histórico violento, sempre atacando os colegas de classe. Ele bateu na professora e tentou cuspir nela sem motivo aparente. Roberta conta que ficou tão nervosa que acabou tendo uma crise de ansiedade e indo parar num hospital depois do ocorrido.

Ela fala que ninguém na escola se pronunciou acerca do fato diante dela. “Foi tratado como se nada tivesse acontecido”, conta. Houve uma reunião entre os pais e a coordenação, mas ela, a vítima, não foi convidada. “A reunião deveria ter sido com a minha presença, pois eu fui lesada. O curso deveria tê-los processado porque não tinha sido a primeira vez que ele batia. Ele batia nos colegas toda aula”. A professora acha que a criança se comportava daquela forma para chamar a atenção da mãe, porque depois de passar algumas semanas com o pai (os pais são separados), ele parecia outra criança: calmo e amoroso com os colegas.

Mesmo não dando mais aula no mesmo cursinho, Roberta sente que mudou em relação aos alunos. “Eu mantenho o máximo de distância. Sinceramente, estou com medo de que isso possa acontecer de novo”. Ela ainda desabafa: “noto que os professores são tratados como nada, e que casos assim sempre estão acontecendo. A classe média acha que, por ter dinheiro, tem também a verdade. E nos tratam com descaso”.

Já o caso de Aline Barbosa, professora de matemática, aconteceu na escola municipal Marechal Castelo Branco, em Limoeiro (PE), na qual ela própria estudou até a 8ª série. A professora ensinava pelo Programa Mais Educação (que visa, entre outras coisas, reforçar as disciplinas de português e matemática para alunos com dificuldades). Um dos alunos, segundo ela, era bastante problemático. Estava no 6º ano e já havia passado por uma expulsão e duas transferências até chegar naquela escola, da qual só não tinha sido expulso porque a secretária de educação fizera com que ficasse.

Aline conta que depois de uma primeira semana tranquila de aula, ele começou a mostrar-se agressivo. “Eu passava diariamente por ofensas verbais. Ele me chamava de gorda quatro olhos &#8211; sou um pouco baixinha e gordinha, também uso óculos”. Após ignorar os insultos durante um tempo, a professora passou a ficar mais atenta, até que um dia, enquanto escrevia no quadro, o flagrou imitando-a de maneira ofensiva. “Levei-o até a coordenação do projeto. Após esse episódio, no mesmo dia, ele voltou para a sala com uma bola de handebol e jogou em mim enquanto eu estava passando atividade no quadro em outra turma. Ela não me acertou por muito, muito pouco. Foi uma pancada tão forte perto dos meus ouvidos que eu senti zunir. A bola voltou e ele tentou pegá-la de novo, mas outro aluno foi mais rápido, e puxou ele para fora da sala”.

Logo após o incidente, ela foi conversar com a diretoria. Entraram em contato com a mãe, mas não permitiram que Aline falasse com ela. “Aceitei não falar com a mãe dele, mas me recusei a voltar a dar aulas para o aluno”. O colégio tentou expulsá-lo mais uma vez, mas a secretária de educação, da mesma forma, não permitiu. “Eu me senti muito ameaçada. Não sabia até onde isso poderia chegar. E se ele me perseguisse fora da escola?” Aline diz que ainda se sentia importunada por ele durante o tempo que passou na escola, embora ele nunca mais tenha tentado agredi-la novamente.

Ela confessa que esperava mais apoio da escola, um maior aprofundamento. “Tentar descobrir a causa, procurar um acompanhamento psicológico. E o mesmo da parte da mãe: por ser um rapaz com histórico negativo, ela poderia tentar entender o que ocorria com ele. Ela nunca pareceu sensibilizar-se com a situação”. Aline acredita que a situação pode ter começado em casa, mas que se agravou porque “todo mundo foi ‘empurrando com a barriga’ sem tentar entender a raiz do problema. Eu mesma poderia ter tentado. Ter procurado o menino e falado com ele para entender a reação. Mas, por medo, não fiz”.

A professora fala ainda sobre as consequências da agressão. “Tudo isso me deixou muito impactada. Eu quis largar a profissão. Só não saí da escola porque precisava do salário. Mas quis desistir de tudo e procurar outra área”. Apesar de tudo, ela continuou atuando como professora e diz que seu comportamento não mudou com nenhum estudante. “Por mais que estivesse insegura e descontente com o trabalho, eu precisava ser profissional. Eram crianças e pré-adolescentes. Eu tive medo de acabar influenciando em algo. Me sentia mais alerta e medrosa, mas tentava segurar para mim. Já em casa, eu desmoronava tudo o que segurava o dia inteiro na escola. Acabei ficando impaciente, um tanto agressiva”.

Aline afirma que as coisas melhoraram depois que saiu do colégio municipal e passou a trabalhar numa rede particular. Ela ainda anda alerta à sinais de agressividade, mas se sente bem melhor. A escola oferece uma boa estrutura e os alunos são mais respeitosos. “O que acontece muito, e principalmente nas escolas públicas, é a falta de uma equipe que possa dar suporte. O professor torna-se pai e mãe dos alunos. A direção exige que sejamos psicólogos, super-heróis. Coisas que não somos e nem temos como ser. Existe, sim, a intenção de entender cada aluno em sua essência. Mas fazer isso, com várias turmas, todas lotadas, é quase impossível. E alguns casos passam despercebidos. Só chegam à visão quando ‘explodem’. De minha parte, eu queria, em resumo, apoio. Apoio para poder auxiliar e orientar os alunos, e para poder me proteger”.

<strong>A origem da violência</strong>

A doutora em psicologia Fátima Santos, que estuda a violência, explica o que pode representar esse tipo de comportamento. “Uma criança que xinga, bate, cospe, pode estar reagindo a uma violência sofrida na própria escola. Como, muitas vezes, ela não tem domínio total da linguagem, pode usar o corpo para expressar sua indignação ou sentimento de injustiça, através de comportamentos que consideramos agressivos”. Ela diz que, com frequência, os professores são autoritários ou simplesmente não procuram saber o que o aluno está pensando em seu momento de raiva, e repreendem logo a criança. “Obviamente, não estou dizendo que todo comportamento agressivo é culpa do professor, mas a violência é sempre algo relacional, e não característico de um só indivíduo. O professor deve representar a autoridade, mas isso não significa ser autoritário e, por vezes, essas coisas não são tão claras para o adulto”.
<blockquote>“A violência é sempre algo relacional, e não característico de um só indivíduo”</blockquote>
Fátima cita outros fatores que mexem com o comportamento infantil, como o desinteresse pela escola, problemas fora do ambiente escolar (nesse caso, a violência é uma tentativa de chamar a atenção e, inclusive, pedir socorro) e até mesmo quando pais ou professores não conseguem estabelecer limites com clareza. Ela exemplifica: “se uma criança corre brincando dentro de casa e esbarra sem querer em um objeto valioso, os pais brigam com ela porque ficam incomodados de ter perdido algo que era caro, mas se a criança rasga de propósito uma caixa de fósforo para agredir os pais, eles às vezes não dão importância, porque o prejuízo econômico foi pequeno. Agindo assim, eles não estão ensinando o valor moral da agressão, mas o valor econômico do objeto”.

A psicóloga acredita que, antes de tudo, quando a criança age de forma agressiva, cabe aos adultos compreender os motivos da criança e, em seguida, ensinar os limites da sua ação. “Nós, adultos, temos que aprender a ouvir de fato as crianças e tentar entender as suas motivações. Isso não significa que elas podem fazer o que quiser. Pelo contrário, a partir de suas razões, temos que ensiná-las a viver em sociedade e respeitar os limites das relações humanas e das instituições. Ao mesmo tempo, temos que ser figuras de referência para elas”.
<strong>Revertendo o quadro</strong>

Luciano Paz, secretário geral do Sinpro (Sindicato dos Professores do Estado de Pernambuco), defende que a realidade violenta enfrentada pelo professor merece intervenção do Estado. “O combate à violência nos espaços escolares não é só obrigação da escola ou da família. Trata-se de um problema de segurança pública, pois a escola reflete o que temos de marcante na sociedade como um todo: valores, conflitos, preconceitos, solidariedade e sociabilidade.”

Luciano acredita que, apesar de crítica, a situação atual é reversível. “Os adolescentes precisam de orientação. Sentimos que eles clamam por autoridade. Saber dosar essa autoridade, instruindo, fomentando valores que contribuam para a vida equilibrada em sociedade é um passo importante para se vencer essa realidade que, infelizmente, está presente nas nossas escolas”.

O presidente do SINTEPE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação em Pernambuco), Fernando Melo, também é otimista: “considero que um conjunto de fatores possa contribuir para a reversão desses casos de desrespeito para com o professor: o apoio pedagógico direcionado ao professor e ao estudante, feito nos locais de trabalho por psicopedagogos preparados para a função; além do atendimento às famílias e da construção de um ambiente de cumplicidade envolvendo toda a comunidade escolar”.

Para Heleno Araújo, diretor de assuntos educacionais do Sindicato, é a falta de educação em casa que reflete na escola e cria um sentimento de desrespeito no ambiente. “Toda a sociedade brasileira passa por um momento de afirmações e práticas de direitos humanos. Isto leva a tratar, por exemplo, os limites para as crianças em casa ao extremo de que tudo pode e/ou a criança escolhe o que e como fazer. Isto deixa o ambiente familiar confuso e muitos delegam à escola a tarefa de promover a educação doméstica e impor limites às crianças e aos jovens”.

Ele ressalta também a relevância da interação entre família e escola. “É muito importante. Pai, mãe ou responsável pelos alunos têm um papel fundamental no processo da formação cidadã das pessoas e podem contribuir muito para melhorar as relações no ambiente escolar”.

Fernando concorda: “a escola sofre, com certeza, os efeitos dos problemas sociais e familiares, da inversão de valores, da falta de segurança e da banalização da vida, dentre outros males do cotidiano. Os pais precisam compreender que, sem a parceria escola e família, pouca coisa de concreto pode ser feita”.

Ele acredita, porém, que não há uma diminuição no respeito do estudante pelo professor. “Vejo que falta respeito ao sistema (educacional), e o professor, por estar na linha de frente, acaba sofrendo as consequências. O sistema precisa ser repensado e o professor merece ser respeitado pelos governantes. Atualmente, ele é desrespeitado e desvalorizado salarialmente, sofre com a falta de condições de trabalho, tem uma jornada diária estressante, enfrenta uma carreira que não é atraente e ainda, mesmo trabalhando com o conhecimento e a formação do cidadão, não recebe formação continuada. Assim, quem primeiro desrespeita o professor é o poder público”.

Fernando conclui que “o professor precisa sair da condição de explorado e assumir o papel que lhe cabe. Mas isso só será possível com uma forte consciência política e cidadã, além de intensa luta social para o fortalecimento da profissão”.

<em>*Nomes fictícios, pois os entrevistados preferiram não ter a identidade revelada.</em>



<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/carolina-seixasPP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2381 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/07/carolina-seixasPP.jpg" alt="carolina seixasPP" width="150" height="152"></a>** Carolina Seixas é recifense e estudante de jornalismo. Demora para tomar decisões e gosta de analisar as pessoas. Tenta ser simpática com todo mundo. Gosta mais de ouvir do que de falar. Mais de olhar do que de expor. Mais de pensar do que de dizer.<p>O post <a href="https://marcozero.org/vitimas-dos-proprios-alunos/">Vítimas dos próprios alunos</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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