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	<title>Arquivos golpe de 1964 - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos golpe de 1964 - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>UFPE apresenta detalhes das perseguições da ditadura a professores, técnicos e estudantes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Mar 2026 17:49:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Comissão da Verdade]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Comissão da Verdade, Memória e Reparação da UFPE sobre a ditadura de 1964 apresentará, no próximo dia 31 de março, os resultados parciais de seu levantamento. Realizado desde junho de 2025, o trabalho identificou pelo menos 649 professores, estudantes e técnicos da universidade que foram alvo de práticas autoritárias do regime militar, que vão [&#8230;]</p>
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<p>A Comissão da Verdade, Memória e Reparação da UFPE sobre a ditadura de 1964 apresentará, no próximo dia 31 de março, os resultados parciais de seu levantamento. Realizado desde junho de 2025, o trabalho identificou pelo menos 649 professores, estudantes e técnicos da universidade que foram alvo de práticas autoritárias do regime militar, que vão desde investigações sobre atividades “subversivas” até demissões, cancelamentos de bolsas e expulsões. Desse total, 132 pessoas foram presas ou detidas e, pelo menos, seis estudantes foram mortos pela repressão.</p>



<p>O evento <em>A UFPE e o compromisso com as memórias</em> acontece a partir das 9h, no auditório João Alfredo, na Reitoria, em uma data simbólica: os 62 anos do golpe militar. Além de detalhar os números e perfis das vítimas, a comissão anunciará as próximas etapas do trabalho de investigação e reconstrução histórica da repressão na instituição entre 1964 e 1985. </p>



<p>Como parte das atividades, serão remontadas exposições organizadas pelo Núcleo de Documentação sobre os Movimentos Sociais Dênis Bernardes (Nudoc) da UFPE: <em>Lutas de Classes sob a ditadura de 1964-1985</em> e <em>Tecendo memórias e lutas</em>, com foco nos assassinatos políticos de Soledad Barret e padre Henrique. Também será lançado um conjunto de vídeos de três minutos sobre estudantes da UFPE mortos pela repressão, que passarão a ser exibidos como interprogramas na TVU a partir das 18h.</p>



<p>Os produtos de memória são resultado de uma experiência pedagógica que envolveu estudantes de jornalismo no semestre passado, sob orientação das professoras Paula Reis e Yvana Fechine. Alunos produziram os vídeos no Laboratório de Imagem e Som (LIS) e também realizaram 18 reportagens e entrevistas que serão disponibilizadas no site da comissão. O levantamento de dados, por sua vez, conta com a participação de estudantes voluntários e bolsistas, sob supervisão de especialistas.</p>



<p>A escolha do Auditório João Alfredo, no prédio da Reitoria, carrega simbolismo histórico. João Alfredo Costa Lima, reitor da então Universidade do Recife à época do golpe de 1964, foi vítima da repressão e acabou renunciando ao cargo poucos meses depois, sob pressão de militares e setores que o acusavam de abrigar “comunistas” na instituição.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/dossie-revela-como-militares-interferiam-na-vida-academica-da-ufpe/" class="titulo">Dossiê revela como militares interferiam na vida acadêmica da UFPE</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/militares-vigiavam-ate-os-reitores-da-ufpe-durante-a-ditadura/" class="titulo">Militares vigiavam até os reitores da UFPE durante a ditadura</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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		<title>A violência da ditadura militar começou pelas ruas do Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Apr 2025 14:24:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[crimes da ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[Gregório Bezerra]]></category>
		<category><![CDATA[violência da ditadura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A violência dos militares durante a ditadura não ficou apenas entre as paredes dos sombrios centros de tortura, como se viu no filme Ainda estou aqui. No Recife, poucas horas após o golpe de 1964, a dor e sofrimento chegaram às ruas e praças da cidade, levadas por militares completamente descontrolados, porém respaldados pelos seus [&#8230;]</p>
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<p>A violência dos militares durante a ditadura não ficou apenas entre as paredes dos sombrios centros de tortura, como se viu no filme <em>Ainda estou aqui</em>. No Recife, poucas horas após o golpe de 1964, a dor e sofrimento chegaram às ruas e praças da cidade, levadas por militares completamente descontrolados, porém respaldados pelos seus aliados civis, principalmente usineiros e políticos de direita. </p>



<p>Na tarde de 1º de abril daquele ano, numa das esquinas mais movimentadas da cidade naquela época, aconteceram os dois primeiros assassinatos cometidos pela ditadura. No dia seguinte, um idoso de 64 anos, o líder camponês Gregório Bezerra, foi torturado em plena praça de Casa Forte, endereço de dezenas de representantes da elite recifense. Essas são as histórias que contamos nesta videoreportagem: </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Assassinatos à luz do dia e tortura: as primeiras horas da ditadura militar no Recife" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/RNYfn2whcWM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Aos 83 anos, gêmeas Teresa e Teresinha não abrem mão de sonhar com justiça social e democracia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jul 2024 21:44:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[comunistas]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[militância]]></category>
		<category><![CDATA[PT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 4 de julho de 1941, em São Lourenço da Mata, cidade da Região Metropolitana do Recife, nasciam em uma família engajada nas lutas sociais, Teresa e Teresinha Braga de Moraes. Gêmeas idênticas que, desde sempre, tiveram a vida marcada pela militância de base, em defesa dos direitos humanos, liberdade do povo e educação. Servidoras [&#8230;]</p>
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<p>Em 4 de julho de 1941, em São Lourenço da Mata, cidade da Região Metropolitana do Recife, nasciam em uma família engajada nas lutas sociais, Teresa e Teresinha Braga de Moraes. Gêmeas idênticas que, desde sempre, tiveram a vida marcada pela militância de base, em defesa dos direitos humanos, liberdade do povo e educação. Servidoras públicas aposentadas trilharam caminhos diferentes, mas que se unem quando o assunto é atuação política.</p>



<p>Parecidas na aparência, no jeito e no modo de falar, elas sempre marcam presença nas manifestações, protestos, conferências e debates. Por isso, são figuras conhecidas entre os militantes de várias gerações dos partidos e movimentos sociais. Além da atuação presencial, acompanharam as mudanças tecnológicas e também participam ativamente das discussões nas redes sociais.</p>



<p>Há quem ache que Teresa, conhecida na família como Tequinha, seja mais falante, no entanto, ao conversar com as duas juntas é fácil identificar que, também nisso, elas não são muito diferentes. As falas se atravessam e a conversa se torna ainda mais interessante. Os pontos em comum, além do gosto por contar histórias e os nomes parecidos, são vários: Teresa tem uma filha, mas nenhuma das duas se casou. </p>



<p>O calor pela luta política ao lado dos mais pobres e vulneráveis sempre esteve presente na vida das irmãs. Ainda crianças, elas acompanharam a prisão do tio Jeferson Barbosa Teixeira, filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e vice-prefeito de Jaboatão dos Guararapes na década de 1940, quando a cidade era chamada de &#8220;Moscouzinho&#8221;. Escondidas em casa, escutavam as rádios soviéticas em ondas curtas junto com o avô João Carlos. Segundo elas, desse jeito elas foram &#8220;percebendo as injustiças do mundo&#8221;. </p>



<p>&#8220;No corredor da nossa casa em São Lourenço da Mata, tinha um retrato de Stalin e o retrato de Charles de Gaulle. E vovô colocava a gente pra cantar junto com ele o hino da União Soviética, a <a href="https://www.youtube.com/watch?v=YLi5A7BiBVk" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Marselhesa</a> e a <a href="https://www.youtube.com/watch?v=DGIb--joV_w" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Internacional Socialista</a>&#8220;, relembra Teresinha, que foi a primeira a nascer, oito minutos antes da irmã. Já Teresa recorda de uma inquietação social: &#8220;eu me lembro vindo de ônibus de São Lourenço para o Recife e vi uma pessoa quase morrendo, aí eu perguntei e a mulher ao lado respondeu que foi &#8216;de fome&#8217;. Quer dizer, aquilo tudo mexia muito&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Lembranças de março de 1964</h2>



<p>No 83º aniversário, elas relembram as diversas histórias compartilhadas com nomes como Paulo Freire e Dom Helder Câmara, referências sobre direitos civis. Mas são os causos na época do golpe militar de 64 que merecem maior atenção e capricho nos relatos.</p>



<p>Nesta época, Teresinha havia ingressado há poucos anos na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) como servidora concursada e era estudante da terceira turma de Direito, da Universidade Católica de Pernambuco. O 1º de abril daquele ano foi marcado pela inquietação que a estimulava, o que fez ela seguir para a porta da Sudene para acompanhar a movimentação.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Em 1964, quando o Brasil tinha o trabalhista João Goulart como presidente, o país sofreu um golpe militar realizado por grupos conservadores de civis e militares. Daquela data até 1985, o país esteve sob a ditadura dos generais.</p>
        </div>
    </div>



<p>“Eu fui para a frente da antiga sede da Sudene e quando eu vi, atiraram em um rapaz e ele morreu. Eu saí correndo pela rua do Príncipe, aí a polícia vinha e eu entrei numa casa que tinha uma imagem Sagrado Coração de Jesus ‘desse tamanho’ [nessa altura da conversa, ela abriu os braços para ressaltar que se tratava de algo grande]”, lembra Teresinha. A dona da casa não gostou da sua presença ali, mas deixou que ela ficasse até a polícia ir embora.</p>



<p>Para Tereza, que na mesma época era estudante de Ciências Sociais na mesma universidade e auxiliar de pesquisa no Movimento Cultura Popular (MCP), os acontecimentos do 1º de abril também a surpreenderam porque os integrantes do MCP não imaginavam o que estava acontecendo. Ela só descobriu no momento que iria iniciar uma aula na antiga Saner, uma autarquia de saneamento do Recife.</p>



<p>“Quando eu cheguei lá disseram: prenderam Miguel Arraes, ele levou um golpe. E tão dizendo que o MCP, no Sítio da Trindade, está fazendo resistência. Ainda criaram uma<em> fake</em>, né?”, recorda Teresa. Depois disso, ela foi até a sede do movimento e avisou aos colegas, que então saíram da sede e foram se esconder.</p>



<p>Como as duas estudavam em Recife, moravam com a avó na estrada de Belém, nos arredores do bairro de Campo Grande, foram para casa enfrentar a tristeza de enterrar os livros de suas coleções para que os militares não encontrassem nada. Depois, a casa virou um restaurante. As memórias e os livros ficaram pra trás.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Vida dupla e militância internacional</h2>



<p>Pouco depois, um professor de Teresinha foi convidado a coordenar a comissão de atividades subversivas universitárias &#8211; uma espécie de central interna de espionagem &#8211; e, como sabia de seu bom desempenho acadêmico, a convidou para ser sua secretária. Com medo, ela hesitou e só aceitou o convite depois de pedir conselho a Dom Helder Camara, que tinha acabado de assumir a arquidiocese de Olinda e Recife. Por sugestão do arcebispo, ali começou uma vida dupla.</p>



<p>Com a relação dos nomes dos estudantes que estavam sendo vigiados, sob orientação do religioso ela procurava suas famílias e para avisá-los e evitar que fossem às reuniões onde havia espiões. “Com isso, acho que mais de 100 estudantes deixaram de ir às reuniões. Quando os militares chegavam lá, estava vazio”, relembra Terezinha. Anos depois, sua atuação foi descoberta, mas ela escapou de ser punida. </p>



<p>Em 1971, Teresa foi a única pernambucana a ganhar uma bolsa de estudos para estudar sobre o projeto de educação na América Latina, por nove meses, em Louvain, na Bélgica. No entanto, o governo brasileiro encerrou o programa de intercâmbio com a instituição francesas, mas, ao mesmo tempo, surgiu a oportunidade dela estudar na <a href="https://www.hartford.edu/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Universidade de Hartford</a>, em Connecticut. Com isso, ela se juntou a uma amiga para acompanhar os diversos movimentos pacifistas e antirracistas que aconteciam em Nova York, a aproximadamente 65 quilômetros da universidade.</p>



<p>Nos Estados Unidos, Tequinha provavelmente estava sendo monitorada, logo depois que voltou ao Brasil, em junho de 1972, policiais à paisana em uma perua Veraneio tentaram sequestrá-la no centro do Recife. Na mesma época, as gêmeas foram convocadas para dar explicações no escritório do Serviço Nacional de Informações, conhecido pela famigerada sigla SNI.</p>



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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>“Eu fico pensando como é que eu tive coragem, eu fui pra esse movimento em defesa de Angela Davis, contra a guerra do Vietnã, o paz e amor. E a gente fazia isso tudo sem dinheiro, pois eles pagavam apenas a alimentação e a hospedagem na universidade”, lembra. Pela falta de dinheiro, elas faziam bate-volta entre uma cidade e outra para conseguir acompanhar os protestos.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Militância que inspira</strong></h3>



<p>As gêmeas sabem que são fonte de inspiração para quem luta por justiça social, principalmente, para ex-militantes que perderam o gás com o passar do tempo. Hoje, as duas são filiadas ao Partido dos Trabalhadores (PT) e se tornaram referência de perseverança, militância e capacidade de sonhar. Em 2019,  por exemplo, as gêmeas participaram das vigílias organizadas pelo frade franciscano Aloísio Fragoso pela liberdade de Lula, na época preso em Curitiba.  </p>



<p>Também estão ligadas à ala progressista da Igreja Católica. &#8220;No Cursilho [movimento de evangelização], a gente faz parte da Hora Mariana, ficamos responsáveis pelas quartas-feiras. Teresa faz o salmo e eu faço o comentário do evangelho. Eu aproveito tudo que posso, para mostrar nos versículos o que é que o reino de Deus traz. Então, quando eu faço os evangelhos, pego ali em uma entrelinha e mando uma reflexão, sabe?&#8221;, afirma Teresinha. </p>



<p>Também na Igreja Católica, sua irmã Teresa, a Tequinha, faz parte da equipe que atua na Casa do Pão, no bairro de Santo Antônio, cuja a intenção é &#8220;realizar um trabalho de conscientização social e cidadã dessa população em situação de rua, através de roda de conversa, abordando temas escolhidos por eles e elas&#8221;. Eles acolhem pelo menos 25 pessoas e realizam leituras de mundo a partir da vivência de cada participante.</p>



<p>&#8220;E foi por meu esforço junto com outros militantes do Cursilho, inclusive, Teresinha, no início, que conseguimos que o MEB viesse para atuar junto à Casa do Pão, instituição de apoio e assistência ao povo em situação de rua (moradores ou não), criada como legado do <a href="https://cen2020.arquidioceseolindarecife.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">XVIII Congresso Eucarístico Nacional</a>, realizado no Recife&#8221;, completa Teresinha.</p>



<p>Para Teresa, as esquerdas precisam aumentar a atuação de base: &#8220;as soluções para essa crise global estão nas comunidades&#8221;. </p>
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		<item>
		<title>Encontros com a dor e a coragem</title>
		<link>https://marcozero.org/encontros-com-a-dor-e-a-coragem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Apr 2023 14:24:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[Dom Paulo Evaristo Arns]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de estado]]></category>
		<category><![CDATA[jornal O São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[tortura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Segundo texto de Samarone Lima, a respeito de suas pesquisas sobre a resistência à ditadura no Brasil e nos países da América do Sul. Por essas reviravoltas que o mundo dá, em 1996 eu estava morando em São Paulo, me virando com frilas. Estava num mato sem cachorro, quando alguém me indicou para o jornal [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/encontros-com-a-dor-e-a-coragem/">Encontros com a dor e a coragem</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Segundo texto de Samarone Lima, a respeito de suas pesquisas sobre a resistência à ditadura no Brasil e nos países da América do Sul.</strong></p>



<p>Por essas reviravoltas que o mundo dá, em 1996 eu estava morando em São Paulo, me virando com frilas. Estava num mato sem cachorro, quando alguém me indicou para o jornal O São Paulo, da Arquidiocese comandada pelo lendário Dom Paulo Evaristo Arns, adversário ferrenho da ditadura militar de 1964.<br><br>Fui à redação, na Avenida Higienópolis, 890, local simbólico para quem lutou pelos Direitos Humanos naqueles anos desumanos. A redação ficava na parte de baixo, após uma descida rodeada de plantas, e parecia um <em>minibunker</em>, com uma equipe de jornalistas extremamente simpáticos.<br><br>Saí de lá com uma pauta sobre o Dia Mundial da Fome, que me rendeu uma página inteira no jornal e o convite para cobrir a vaga de um dos jornalistas, que estava saindo de férias.<br><br>Durante dois anos, cobri a área de Direitos Humanos do jornal, assunto que sempre esteve no meu farol, desde a primeira matéria que fiz. Estava no centro da memória da resistência. Na parte dos fundos, funcionava a Comissão Justiça e Paz e o Centro Santo Dias de Direitos Humanos.<br><br>Numa das muitas conversas com a velha guarda da resistência, geralmente num dos botecos ali da Santa Cecília, onde morava, comecei a escutar os relatos sobre as ações de um grupo chamado Clamor, que teve uma atuação extremamente importante na luta pela defesa dos Direitos Humanos no Chile, Uruguai e Argentina.<br><br>Em alguns momentos, as histórias eram tão inacreditáveis, que eu acreditava que as cervejas ajudavam a torná-las mais absurdas. O tempo me mostraria que a verdade era muito mais sombria que qualquer relato.<br><br>Já estava concluindo meu primeiro livro, o <em>Zé</em>, quando fui fazer uma pauta no gigantesco arquivo da Cúria. Naquele labirinto, encontrei uma sala cheia de caixas com o nome Clamor, e pedi para dar uma olhada. Estavam cheias de cartas desesperadas, fotografias, relatos, de pessoas dos países vizinhos, que viviam o momento mais trágico de suas ditaduras. Estavam no poder, após golpes militares sangrentos, Rafael Videla, na Argentina, Augusto Pinochet, no Chile, e a Junta Militar, no Uruguay.<br><br>Voltei para a redação e fui conversar com os ex-integrantes do Clamor. Estava nascendo meu segundo livro, agora sobre a conexão dos que lutaram pelos Direitos Humanos, em quatro países.</p>



<p>Uma coisa me recomendaram desde o início:<br><br>“Você precisa entrevistar Dom Paulo Evaristo”<br><br>Eu quase nunca o via, por causa dos horários e de sua agenda sempre lotada. O contato maior foi na confraternização de um final de ano, em que ele estava lá, bem sorridente. Sempre fui azarado em sorteios, comentei isso com os amigos, até que sortearam uma linda cafeteira, Dom Paulo puxou meu número, ficaram chamando meu número, e me abestalhei, olhando para aquele homem, cheio de fé, mas transbordante de coragem. Chamaram outro. Quando fui reclamar o prêmio, era tarde.<br><br>Fui à sua secretária, pouco tempo depois, marcar uma entrevista. Ele tinha audiências que duravam exatamente 15 minutos.<br><br>Não sei exatamente a data, mas em algum momento de 1998, estava na sala de trabalho de Dom Paulo, entrevistando-o sobre ditaduras e solidariedade na América do Sul.<br><br>São esses, os momentos em que o jornalismo se torna algo especial na minha vida. Quando ele transborda, sai do cotidiano das notícias, e cria memória.<br><br>Foram 45 minutos de conversa, que serviram de base para um livro que começava a ser pensado &#8211; Clamor.<br><br>Um ano depois, estava na sede das Abuelas de Plaza de Mayo, em Buenos Aires, entrevistando Stella de Carlotto, presidente da entidade, que, desde 1977, reúne avós em busca de seus netos, sequestrados pela ditadura da Argentina.<br><br>A repressão no país atingia não apenas os militantes, mas toda a família. Quando um “patota”, grupos paramilitares armados, invadiam uma casa para prender alguém considerado “subversivo”, levava o casal &#8211; incluindo mulheres grávidas ou com bebês. Segundo estimativa das Abuelas, cerca de 500 crianças foram sequestradas durante a ditadura (quando ainda eram pequenas ou logo após o nascimento), entre 1976 e 1983.<br><br>Stella, uma mulher extremamente amorosa, com as palavras de esperança, explicou-me como funcionava a organização, a luta, durante tantos anos, e ao final da entrevista, me revelou seu sonho: encontrar o neto. Quando sua filha Laura foi presa, em 1979, estava grávida, e nunca mais foi encontrada. Ela teve seu filho no centro clandestino La Cacha, e depois foi assassinada. Os familiares nunca souberam o destino do bebê.<br><br>“É meu sonho, encontrá-lo”<br><br>Depois de um silêncio profundo, como se lembrasse de tantas dores, completou:<br><br>“Não quero morrer sem esse abraço”.<br><br>Estava com 69 anos.<br><br>No dia 5 de agosto de 2014, o que parecia impossível aconteceu. As Abuelas convocaram uma entrevista coletiva para anunciar que Stella havia encontrado seu neto, após 36 anos de buscas.<br><br>Os dois apareciam juntos, sorridentes.<br><br>“Tudo isso que está acontecendo parece maravilhoso e mágico para mim”, disse a avó.<br><br>Ignácio Urban, era o nome oficial do neto. Mas nas poucas horas em que ficou com seu filho, a mãe o havia chamado de Guido, apelido do avô, nome do marido de Stella.<br><br>Entre 1998 e 2002, entrevistei 43 pessoas e viajei diversas vezes para a Argentina, Uruguai e Chile, para uma dissertação de mestrado sobre a solidariedade entre os grupos de Direitos Humanos durante as ditaduras do Cone Sul.<br><br>O Brasil, que estava saindo da fase mais brutal de sua ditadura, teve uma importante atuação na denúncia internacional das violações nos países vizinhos.<br><br>Foi Dom Paulo quem disse a frase que serviu como norte para os grupos de Direitos Humanos nos anos seguintes:<br><br>“Solidariedade não tem fronteiras”.</p>
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		<title>Nunca mais</title>
		<link>https://marcozero.org/nunca-mais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Apr 2023 13:46:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[1º de abril]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[livro reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[tortura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este texto estava programado para ser postado ontem (sábado, 1º de abril), o que acabou não acontecendo porque o site ficou fora do ar por mais de 48 horas em razão de graves problemas nos equipamentos da empresa que abriga a página. Oficialmente, segundo os responsáveis técnicos da empresa, os &#8220;clusters de cloud servers (ou [&#8230;]</p>
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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Este texto estava programado para ser postado ontem (sábado, 1º de abril), o que acabou não acontecendo porque o site ficou fora do ar por mais de 48 horas em razão de graves problemas nos equipamentos da empresa que abriga a página. Oficialmente, segundo os responsáveis técnicos da empresa, os &#8220;<em>clusters</em> de <em>cloud servers</em> (ou seja, a infraestrutura que<strong></strong>realiza o armazenamento do processamento de informações e de aplicativos) precisaram ser substituídos. </p></blockquote>



<p><strong>O golpe militar de 1964 teve início na madrugada de 1º de abril, quando o Forte de Copacabana foi ocupado, como <a href="https://www.instagram.com/p/Cqcv3KLu008/?igshid=YmMyMTA2M2Y=" target="_blank" rel="noreferrer noopener">provam os registros do fotógrafo Evandro Teixeira</a>, o primeiro a chegar lá, levando por um oficial do Exército amigo. Deslocar a data em um dia livrou os generais</strong> <strong>do incômodo de celebrar os aniversários da ditadura junto com o Dia da Mentira. Por isso, a Marco Zero decidiu que os 59 anos do golpe seriam abordados hoje, o contrário seria ratificar uma pequena e imerecida vitória aos golpistas.</strong></p>



<p><strong>Para marcar esse dia, convidamos o jornalista, poeta e escritor <a href="https://www.instagram.com/samarone_lima_escritor/?igshid=YmMyMTA2M2Y%3D" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Samarone Lima</a>, um dos fundadores da Marco Zero. Samarone está imerso na pesquisa do tema desde que era estudante universitário. De lá pra cá, publicou dois livros reportagens (<em>Zé </em>e <em>Clamor</em>) e um livro de poesia (<em>Cemitérios clandestinos) </em>sobre personagens, circunstâncias e episódios daquele período.</strong></p>



<p>***</p>



<p>Em 1993, eu era um estagiário magricela do Diário de Pernambuco, portador de uma timidez brutal, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e terminando o curso de Educação Artística na “Federal”, como sempre chamamos a UFPE. Tinha passado na seleção do estágio, e creio que contou a meu favor a habilidade com o teclado das velhas Remington, que ocupavam todas as editorias do Diário.<br><br>Era realmente delicioso trabalhar com aquela sinfonia de teclas, e o famoso reeeeec, quando alguém puxava a folha que estava sendo batida, com papel carbono, irritado por algum erro grave. Cigarros estavam sempre no bico de alguns editores e eu achava aquilo tudo o máximo.<br><br>Nos meus 23 anos de idade, o tema Ditadura no Brasil não era uma grande preocupação. Durante os vários anos de colégio, o tema nunca me foi apresentado. Meu pai, funcionário bem colocado no Banco do Brasil, era transferido com rara facilidade, mas em nenhuma delas das escolas das cidades por onde passamos tinha professor que falasse do tema. Meu pai nunca falou sobre o assunto. Nem minha mãe. Na oitava série, um professor de Moral e Cívica poderia até falar do assunto, mas sempre chegava de óculos escuros, com uma ressaca memorável (as aulas eram na segunda-feira), ele queria tudo, menos falar.<br><br>Um belo dia, apareceu um exemplar do livro <em>Brasil: Nunca Mais</em> lá em casa, e comecei a ler e fiquei chocado. Estava com 16 anos. Depois, meu irmão Paulo, que tinha ido para um seminário em Carpina, ser padre, chegou em casa com outro livro, <em>Batismo de Sangue</em>, e fiquei ainda mais impressionado com a violência da repressão;<br><br>Até que tive uma pauta com Amparo Araújo, líder do Grupo Tortura Nunca Mais em Pernambuco. Era sobre o Monumento Tortura Nunca Mais, que estava sendo construído, às margens do Rio Capibaribe. Ela começou a falar de sua vida, a militância contra a ditadura, os amigos e amores que perdeu, e a militância por justiça e memória, que fiquei impressionado. Ela era um arquivo vivo dos 21 anos dos militares no poder.<br><br>Saí de lá com cinco ou seis crimes cometidos pelos militares, que jamais tinham sido publicados, e a pauta sobre o Monumento rendeu um bela matéria numa edição de domingo do Diário. Vários familiares de mortos e desaparecidos e pessoas que lutaram contra a ditadura deram um abraço coletivo em torno do Monumento, ainda cercado por tapumes.<br><br>Como estava perto de concluir o curso de Jornalismo, e teríamos a famosa &#8220;Banca de Conclusão do Curso”, resolvi fazer uma boa pesquisa sobre uma das histórias mal contadas do período para uma série investigativa. O tema, portanto, seria a ditadura. Vários colegas da turma ficaram surpresos.<br><br>“Mas a Ditadura? Por quê? Teve alguém da tua família que foi preso?”<br><br>Que eu soubesse não, mas o que me motivava era ir em busca das vozes dos que viveram aquele período. Amparo me deu vários contatos. Eu já tinha um gravador que usava nas minhas entrevistas.<br><br>Fiz algumas entrevistas com pessoas que ela me indicou. Fiquei impactado, comovido, e impressionado por saber que aquelas pessoas nunca tinham dado depoimento sobre o que viveram. Prisão, torturas, exílio, perdas de amigos, de trabalhos, projetos, sonhos.<br><br>Até que surgiu o nome do mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, militante da Ação Popular, que teria morrido no Recife, em 1973, num tiroteio com os companheiros da organização.<br><br>Segundo a ditadura, foi uma morte causada por tiroteio entre os pares. Amparo me alertou que era comum no período criar situações que incriminasse as próprias vítimas da violência.<br><br>“Ele foi morto no DOI-CODI do Recife, em 28 de outubro de 1973”, disse. “Você precisa encontrar provas ou testemunhas disso”, alertou Amparo, me dando alguns nomes.<br><br>Fui à luta.<br><br>Encontrei pessoas que tinham visto o Zé chegar vivo ao DOI-CODI do Recife, naquele terrível outubro de 1973, e que nunca tinham falado. Um silêncio de 20 anos, difícil de desatar.<br><br>Descobri que tinha paciência e empatia. Nunca fazia a entrevista no primeiro encontro. Falava das pesquisas e do meu propósito, de resgatar memórias de quem viveu no corpo e na alma uma ditadura. Encontrei uma mulher guerreira, a advogada Mércia Albuquerque, que conseguiu localizar a cova clandestina onde o Zé foi enterrado, ao lado do companheiro de AP (como era conhecida a organização Ação Popular), Gildo Lacerda.<br><br>E na metade da pesquisa, recebi um telefonema de Amparo, com uma frase que jamais esqueci:<br><br>“Samarone, um ‘cachorro’ abriu, em João Pessoa. Estamos indo para lá agora. Quer ir com a gente?”<br><br>Falei com meu editor, expliquei o caso, precisava viajar.<br><br>“Pode ir, mas mande uma matéria de lá para o jornal”, disse.<br><br>No carro, perguntei a Amparo o que era aquela expressão.<br><br>“Cachorro é gente que trabalhou para a repressão, levando companheiros à prisão, tortura e morte”, respondeu.<br><br>Chegamos à OAB de João Pessoa. Gilberto Prata, cunhado de José Carlos da Mata Machado, iria fazer uma declaração pública.<br><br>Para um auditório perplexo, revelou que, em 1973, trabalhou para a repressão, como infiltrado na Ação Popular. Sua missão foi localizar o próprio cunhado.<br><br>Ao final do evento, o entrevistei e perguntei o motivo de ter passado para o lado da ditadura.<br><br>“Covardia ou medo”, respondeu.<br><br>O corpo de José Carlos Novais da Mata Machado foi devolvido à família, em Belo Horizonte, com a condição de que o caixão, lacrado, não fosse aberto. Só 20 anos depois a família fez uma exumação e confirmou que eram mesmo os restos mortais dele.<br><br>De 1993 a 1997, entrevistei mais de 50 pessoas, entre militantes da AP, amigos e parentes do Zé.<br><br>Sempre que eu me despedia de cada pessoa entrevistada, voltava pra casa com o <em>Nunca Mais</em> orientando a caminhada.<br><br>Em 1998, lancei, em Belo Horizonte, meu primeiro livro, <em>Zé: José Carlos Novais da Mata Machado, reportagem biográfica</em>.<br><br>Ano passado, o livro teve roteiro adaptado pelo cineasta mineiro Rafael Conde, e virou um longa-metragem.<br><br>Chegará aos cinemas no segundo semestre.<br><br>Será a chama do <em>Nunca Mais</em> tremulando novamente.</p>



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<p></p>
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		<title>Embaixada americana criou índice ideológico para apoiar opositores a Jango no pré-golpe de 64</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 20:10:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[João Goulart]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mais um véu que encobria a participação do governo norte-americano no processo de desestabilização política do Brasil pré-golpe civil-militar de 1964 caiu. Consultas a documentos diplomáticos feitas pelo professor e pesquisador Felipe Pereira Loureiro revelaram que a Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro produziu um índice ideológico para classificar os governadores dos estados [&#8230;]</p>
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<p>Mais um véu que encobria a participação do governo norte-americano no processo de desestabilização política do Brasil pré-golpe civil-militar de 1964 caiu. Consultas a documentos diplomáticos feitas pelo professor e pesquisador Felipe Pereira Loureiro revelaram que a Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro produziu um índice ideológico para classificar os governadores dos estados entre 1961 e 1964 e fortalecer os opositores do governo João Goulart com recursos do programa Aliança para o Progresso e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).</p>



<p>Foram criadas sete categorias. No extremo à esquerda estavam os “comunistas ou criptocomunistas” e na outra ponta do espectro político, os “extremistas de direita”. Entre eles, os “companheiros de viagem ou inocentes úteis” os “esquerdistas ultranacionalistas”, os “reformistas radicais não-comunistas”, “os centristas” e os “conservadores”. O índice era enviado para os consulados nos estados (São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Belém e Recife) e estes faziam a análise e classificação, enviavam de volta para a Embaixada e esta para o Departamento de Estado, em Washington.</p>



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<p>E foi lá, em Washington, que Felipe acessou os documentos no arquivo nacional norte-americano por meio do Freedom of Infomation Act (FOIA), a Lei de Acesso à Informação dos Estados Unidos. “Demorou mais de um ano para eu poder acessar o que pedi e, em parte dos documentos, encontrei esse índice ideológico”, explica o coordenador do curso de graduação de Relações Internacionais da USP. A partir da classificação, Felipe fez o cruzamento com os apoios financeiros aos estados nos anos que antecederam o golpe de 1964 e percebeu o quanto os interesses políticos foram importantes para as decisões econômicas do governo norte-americano no Brasil.</p>



<p>“A pesquisa desmonta completamente a argumentação do critério técnico como batia na tecla o Lincoln Gordon (embaixador dos Estados Unidos no Brasil na época do golpe). A distribuição de ajuda do governo norte-americano e mesmo do BID está claramente relacionada a critérios eminentemente políticos. Ou seja, ajudar os governadores que fossem mais pró-Washington, fortemente anti-comunistas e estivessem na oposição ao governo Goulart, quando não na oposição ferrenha ao governo”, explica.</p>



<p>Os governadores classificados nas categorias “companheiros de viagem” e “esquerdistas ultranacionalistas” não receberam nenhum empréstimo em dólar da Aliança para o Progresso. Casos emblemáticos são os de Pernambuco e Rio Grande do Sul, em que Miguel Arraes e Leonel Brizola, respectivamente, não foram contemplados com apoios, enquanto Cid Sampaio e Ildo Meneghetti caíram nas graças dos norte-americanos.</p>



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<p>Criada pelo governo John Kennedy, a Aliança para o Progresso tinha uma retórica que se baseava no apoio ao desenvolvimento econômico e social dos países da América Latina, mas, na prática, foi uma espécie de contrapartida ao que a Cuba de Fidel Castro passou a representar depois da Revolução. A intenção era ampliar a dependência da região aos recursos norte-americanos reduzindo a margem de alinhamento ao bloco comunista ou a reformas comunistas. Em síntese, uma arma direta da Guerra Fria. “Era o principal tipo de ajuda no momento em que a economia brasileira estava numa fase difícil, em que a balança de pagamentos brasileira estava com problemas. Ajuda em dólar era o vaso de ouro”, diz Felipe.</p>



<p>Com o direcionamento político desses recursos, o objetivo dos Estados Unidos era o de reduzir a capacidade de movimentação de João Goulart, fortalecendo a posição dos seus principais opositores e forçando o governo brasileiro a negociar com as forças conservadoras, o que inviabilizaria ações mais efetivas do campo progressista. Na época, as eleições para governadores eram descasadas, uns foram eleitos em 1958 e 1962 e outros em 1960. A eleição unificada no mesmo ano só aconteceria após a Constituição de 1988.</p>



<p>No horizonte da época estavam as eleições presidenciais de 1965. Com a deterioração das relações bilaterais entre o final de 62 e início de 63 &#8211; ano em que Goulart recupera os plenos poderes da Presidência -, entra em foco a possibilidade de ruptura institucional. “Não é à toa que os principais governadores beneficiados com a ajuda econômica da Aliança para o Progresso vão estar publicamente vinculados ao golpe civil-militar de 64, a exemplo de Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Ademar de Barros”, argumenta Felipe Loureiro.</p>



<p>O estado da Guanabara, administrado por Lacerda, recebeu 26,9% dos empréstimos do BID (US$ 35 milhões) e quase 60% dos da Usaid (US$ 19,5 milhões), agência norte-americana para o desenvolvimento. Isso para um território ocupado por 5% da população brasileira.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Desconstruindo a teoria da conspiração</h2>



<p>Para o pesquisador, o golpe de 1964 é um momento crucial da história brasileira, mas também latino-americana. Na medida em que a ditadura militar brasileira apoiou a desestabilização de regimes progressistas na América do Sul, caso do Uruguai, da Bolívia e, especialmente, do governo de Salvador Allende, no início dos anos 1970, no Chile. “O golpe de 64 não é um momento que traz transformações políticas e econômicas e sociais absolutamente chaves só para o Brasil, tem impactos na América Latina. Entender as raízes do golpe para mim sempre foi uma coisa importante enquanto historiador e estudioso das relações internacionais”.</p>



<p>Pesquisas como as de Felipe desconstroem a ideia de que apontar a interferência norte-americana na política brasileira não passaria de teoria da conspiração. É nessa perspectiva que ele faz um paralelo entre 1964 e 2016, com o processo de desestabilização política que culminou no impeachment do governo Dilma. Num país que viu voltar às ruas o espantalho do anti-comunismo e a defesa da ditadura militar.</p>



<p>Os interesses norte-americanos pelo pré-sal, alerta Felipe, ficaram evidentes com as revelações da troca de correspondências diplomáticas e a espionagem de autoridades brasileiras trazidas a público pelo Wikileaks. O apoio de fundações norte-americanas a grupos políticos criados após a vitória de 2014 de Dilma, que foram para as ruas pressionar pelo impeachment, e toda uma política de treinamento, apoios e acordos, até extraoficiais, com procuradores e juízes brasileiros para a implementação das forças tarefas anti-corrupção seguem essa tradição de interferência, na visão do pesquisador.</p>



<p>As conclusões da pesquisa de Felipe Loureiro foram publicadas no livro recém-lançado A Aliança para o Progresso e o Governo João Goulart (1961-1964): ajuda econômica norte-americana a estados brasileiros e a desestabilização da democracia no Brasil pós-guerra, da editora Unesp. Em entrevista concedida à Marco Zero, ele fala do período, faz uma ponte com a queda de Dilma e analisa as repercussões da eleição presidencial norte-americana de 2020 sobre o governo Bolsonaro.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Governo Kennedy e o cerco político a Goulart</strong></h4>



<p>&#8220;O governo Kennedy não tinha desde o início uma posição claramente golpista em relação ao governo Goulart. Os riscos de apoiar uma ruptura democrática eram muito grandes porque se desse errado isso poderia acabar acelerando uma aproximação do Brasil com o bloco neutralista ou até mesmo com o bloco soviético. No começo, a ideia é colocar o presidente brasileiro numa situação de impossibilidade política. Fortalecer grupos moderados e conservadores no país, muitos dos quais anti-goularistas, anti-PTB, anti-trabalhismo, com o intuito de moderar a administração Goulart e impedir que pudesse governar no Congresso ou nos estados sem o apoio dessas forças moderadas e conservadoras. Seria impossível, por exemplo, aprovar uma reforma tributária hiper progressista ou uma reforma agrária com desapropriação de terras e pagamentos de títulos agrários&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Mudança de rumo: o golpe entra na agenda</strong></h4>



<p>&#8220;Com a deterioração das relações bilaterais, a partir do final de 62 e ao longo de 63, qualquer ajuda do governo norte-americano para o governo federal vai ser praticamente suspensa e aí fica muito clara a ideia de manter governadores próximos via ajuda econômica, mas não só, para formar um bloco e, se necessário, um bloco que golpearia a administração Goulart. Não é à toa que os principais governadores beneficiados com a ajuda econômica da Aliança para o Progresso vão estar publicamente vinculados ao golpe civil-militar de 64, a exemplo de Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Ademar de Barros&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Aos aliados, muito. Aos governistas, nada.</strong></h4>



<p>&#8220;É muito interessante ver a frieza como o governo norte-americano interveio na política e na democracia brasileiras com a decisão da Embaixada, que é ratificada pelo Departamento de Estado, de categorizar todos os governadores brasileiros de acordo com o índice ideológico. Todos aqueles que caíam no agrado dos Estados Unidos foram os principais receptores de ajuda e aqueles que eram considerados adversários ficaram praticamente sem qualquer ajuda. Principalmente a ajuda em dólar, que era a ajuda mais importante, considerando a dificuldade da balança de pagamentos brasileira naquele contexto. Esse é o principal achado da pesquisa e a principal evidência do direcionamento político da ajuda econômica, um achado inédito&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Ajuda em dólar e ajuda em cruzeiro</strong></h4>



<p>&#8220;Havia um programa do governo norte-americano de vender trigo excedente da sua produção interna para vários países do mundo e esse trigo poderia ser pago em moeda local. Esse dinheiro em moeda local era utilizado para ajuda, em forma de doação ou empréstimos, para atores e instituições locais. Então você tem ajuda em dólar, que podia vir por doação ou por empréstimo, todos eles subsidiados com taxas de juros bem abaixo do que as praticadas pelo mercado, e com prazos longos de amortização; e ajuda em cruzeiro em doação ou empréstimo também. Os projetos que conseguiam ser pagos fundamentalmente com recursos de empréstimos e doações em cruzeiro eram de educação, construção de escolas, treinamento de professores, projetos que envolvem vários ramos da saúde pública, hospitais, campanha de vacinação. Agora, aqueles projetos que vão conter importação de bens e serviços, esses projetos necessariamente vão precisar do uso de dólares e aí você vai ter o empréstimo ou doação em dólares. Muitos projetos de infraestrutura, abastecimento de água, esgoto, comunicações, estradas, construção de casas populares&#8221;.</p>



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	                                        <p class="m-0">Miguel Arraes discursa no Teatro Nacional, em Brasília, poucos meses antes do golpe de 1964. Crédito: Arquivo Nacional</p>
	                
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<h4 class="wp-block-heading"><strong>Tudo ou nada. De Cid Sampaio para Miguel Arraes</strong></h4>



<p>&#8220;Pernambuco foi um alvo absolutamente fundamental porque, até o final do governo Cid Sampaio, Pernambuco recebia um aporte significativo da Aliança para o Progresso. Foi só Miguel Arraes ser eleito e Pernambuco virou o patinho feio da história e praticamente não recebe mais recursos da Aliança. A companhia de borracha sintética de Pernambuco, a Coperbo, foi financiada com recursos da Aliança, além de estradas, habitação. Tem vários projetos financiados especialmente no governo Cid Sampaio. Com o governo Miguel Arraes, a situação muda radicalmente e os recursos cessam&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>O paralelo 1964-2016</strong></h4>



<p>&#8220;Tal como lá e aqui, os atores locais tiveram evidentemente um papel. O golpe não foi 100% feito em Washington em 64 e também não foi 100% feito em Washington em 2016. É importante dizer isso porque senão você tira completamente a agência dos atores locais, interesses de classe fortemente envolvidos. Mas ir pro outro extremo e não reconhecer nenhum tipo de papel? Aí me parece ingenuidade política. As evidências que nós temos mostram que houve, sim, interesse de setores do governo norte-americano nessa desestabilização nos anos 2010&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Wikileaks expôs interesse norte-americano no pré-sal</strong></h4>



<p>&#8220;O Wikileaks mostrou de forma muito clara a correspondência da Embaixada norte-americana, em Brasília, com o Departamento de Estado, vinculada, por exemplo, com o interesse estratégico dos Estados Unidos no pré-sal e na Petrobras, no contexto do final do governo Lula e do começo do governo Dilma. As várias iniciativas patrocinadas pelo governo norte-americano para espionar a própria presidenta e figuras do alto escalão do governo federal da administração Dilma e várias pessoas que trabalhavam e estavam no conselho de administração da Petrobras. Fica muito evidente o interesse do governo norte-americano em favorecer um determinado grupo político doméstico brasileiro, representado na época pelo PSDB, pela figura de José Serra, em 2010, posteriormente vinculado a Aécio Neves e Michel Temer. Isso é uma coisa que, com o Wikileaks, está absolutamente estabelecido&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Departamento de Justiça e programas anti-corrupção</strong></h4>



<p>&#8220;Também está estabelecido o vínculo do Departamento de Justiça norte-americano no apoio a programas anticorrupção e, não só, mas em estruturar e viabilizar o modelo que vai dar origem à força tarefa da Lava Jato. Vários tipos de programas com juízes, com promotores, com advogados, vinculados à noção de terrorismo, isto é, a de que para combater o terrorismo você tem que combater o crime financeiro e aí estruturar e construir as forças tarefas, a modificar a legislação e as instituições, e treinar juízes e procuradores para serem capazes de atuar nesse tipo de crime financeiro. A gente não tem ainda evidentemente nenhuma prova da utilização dessa ideia de força tarefa, da utilização das instituições, para a partir disso perseguir politicamente figuras aqui no Brasil, mas é muito evidente que todo esse processo de reestruturação do Judiciário brasileiro, de politização do Judiciário brasileiro, está relacionado a esses programas de treinamento&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Ligação direta</strong></h4>



<p>&#8220;O Departamento de Justiça fazendo acordos diretos com procuradores estaduais, passando por cima do Ministério Público Federal, então a gente está vendo um paralelo com a Aliança para o Progresso, ao invés de passar recursos para o governo federal para ajudar os governadores, da mesma forma, ao invés de passar pelo MPF, fazer acordos diretos com procuradores estaduais. Alguns dos quais, inclusive, informais. Tem fala de membros do governo norte-americano dizendo que não era necessário fazer acordos formais com determinados grupos de procuradores estaduais. E a gente sabe que Curitiba virou o epicentro desse vínculo direto com o Departamento de Justiça, sem passar por Brasília. Isso está documentado. Mas como não temos acesso a muitas informações é possível que essas contribuições tenham sido muito mais fortes ainda&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Grupos de mobilização e fundações norte-americanas</strong></h4>



<p>&#8220;Quando a gente vai por uma via não tão oficial, aí você pensa nos vários grupos de mobilização que vão surgir no Brasil, coincidentemente, logo depois das eleições de 2014. Eu estou pensando no Vem Pra Rua, no MBL… Muitos desses grupos vão receber recursos de fundações norte-americanas que estão vinculadas a grupos de direita norte-americanos e a grupos semioficiais como, por exemplo, o National Endowment for Democracy, quer é um tipo de fundo que surge no governo Ronald Reagan, que apoia determinado tipo de ONGs, do terceiro setor, que, por sua vez, têm um papel importante de interferência política indireta em vários países do mundo e, especificamente, na América Latina. É difícil imaginar que esses grupos brasileiros surgiram de forma tão rápida e explosiva e com a estrutura que eles surgiram sem algum tipo de apoio. E que, interessantemente, sumiram depois. Da mesma maneira que o complexo Ipes-ibad (institutos formados por empresários conservadores e que contaram com apoio norte-americano) surge com grande força no início dos anos 60 e some depois de 64, acontece agora a mesma coisa&#8221;.</p>



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	                                        <p class="m-0">Trump e Bolsonaro se cumprimentam na sede da ONU, Nova Iorque, em setembro de 2018. Crédito: Alan Santos/PR</p>
	                
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<h4 class="wp-block-heading"><strong>Ligação de Bolsonaro é com o trumpismo, não com os EUA</strong></h4>



<p>&#8220;A ligação do bolsonarismo é muito mais forte com o trumpismo do que com os Estados Unidos, uma aliança dependente. Na verdade, não dá nem pra falar em aliança porque aliança pressupõe uma contrapartida. É uma vinculação dependente do bolsonarismo com o trumpismo, e é uma angulação que tem implicações ideológicas e organizacionais, ou seja, o bolsonarismo bebe do trumpismo, da forma como o trumpismo se organiza em termos de base de mobilização, redes sociais&#8230; Uma derrota do trumpismo, mesmo enquanto movimento, enfraqueceria Bolsonaro&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Política externa como arena do purismo ideológico</strong></h4>



<p>&#8220;Do ponto de vista político, Bolsonaro está num movimento de se acomodar com as elites domésticas fazendo acordos com grupos que ele antes dizia que não faria de jeito nenhum. Para os radicais ideológicos, para os puristas do bolsonarismo, a vinculação com o centrão e a indicação do Kassio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal repercutem muito mal, representariam uma traição. E aí Bolsonaro joga para o purismo ideológico justamente na política externa para sinalizar aos radicais, como fica evidente na atuação em relação à China&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Joe Biden, China e o isolamento de Bolsonaro</strong></h4>



<p>&#8220;Um governo Joe Biden (candidato democrata à Presidência dos EUA) vai ter um foco inicial muito doméstico porque os Estados Unidos estão vivendo hoje uma crise gravíssima de saúde pública, uma crise gravíssima do ponto de vista econômico. Acredito que o governo Biden vai ter muita semelhança com o começo do governo Franklin Roosevelt, no início dos anos 30, em que o foco do governo era lidar com a Grande Depressão de 1929 e não tanto de se preocupar com o sistema internacional. Apesar disso, o governo Biden vai evidentemente se contrapor à crescente participação e dominação chinesa em órgãos multilaterais do sistema ONU. Vai voltar a valorizar sistemas multilaterais para se contrapor à China, e isso é uma posição que o governo Bolsonaro tem dificuldade em seguir, isso vai representar um isolamento do governo brasileiro no sistema internacional&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>EUA x China e o 5G</strong></h4>



<p>&#8220;No embate entre Estados Unidos e China, um governo Biden, talvez de uma forma menos crua e nua, vai buscar os mesmos objetivos de Trump, impedir o aumento da participação e penetração chinesa econômica e financeira na América Latina, sobretudo no que se refere à questão tecnológica e de comunicações porque o 5G vai ser crucial. É a internet das coisas, ou seja, tudo estará vinculado à internet, da geladeira ao seu carro, à eletricidade. Quem ocupar esse espaço, sejam os Estados Unidos ou a China, terá acesso a informações amplas e muito significativa sobre os países, sobre as nossas sociedades latino-americanas. Nesse ponto, Biden vai tentar articular uma relação com o governo brasileiro para diminuir a participação e a penetração chinesa no setor de tecnologia e de comunicações do Brasil. Aí a diferença entre Biden e Trump é mais na forma, não tanto no conteúdo&#8221;.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Biden retaliará agenda ambiental de Bolsonaro</strong></h4>



<p>&#8220;Em termos de relação bilateral, a diferença mais clara, para além do plano da retórica, será na política ambiental. A questão da necessidade do Brasil modificar a forma de ocupação da terra, de exploração da terra, evidentemente, a biodiversidade, a proteção à floresta e, portanto, é possível que venham retaliações caso o governo brasileiro não modifique a sua postura em vários desses âmbitos. Isso eu considero que vai ser uma mudança muito perceptível&#8221;.</p>
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