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	<title>Arquivos memória - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 25 Mar 2026 21:03:18 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos memória - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>“Roda de Memórias” promove encontro para resgatar histórias de moradores de Olinda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 20:53:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[história oral]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O projetoRoda de Memóriasrealiza no próximo sábado (28) mais um encontro dedicado à preservação da história oral da cidade alta de Olinda. O evento acontece a partir das 16h, no Gracinha Restaurante, localizado na rua de São Bento, 210. Com uma proposta informal, a iniciativa convida moradores antigos e seus familiares para compartilhar relatos e [&#8230;]</p>
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<p>O projeto<em>Roda de Memórias</em>realiza no próximo sábado (28) mais um encontro dedicado à preservação da história oral da cidade alta de Olinda. O evento acontece a partir das 16h, no Gracinha Restaurante, localizado na rua de São Bento, 210.</p>



<p>Com uma proposta informal, a iniciativa convida moradores antigos e seus familiares para compartilhar relatos e vivências do que foi um dia a “Velha Marim dos Caetés”. A ideia é dar continuidade à construção de um mosaico histórico da região, valorizando as vozes de quem vive ou viveu nesse espaço tão simbólico.</p>



<p>As memórias serão estimuladas por meio de um “passeio” virtual pela cidade alta, utilizando a ferramenta Google Street View, projetada para os participantes. A atividade busca reunir histórias e “estórias” que ajudem a recompor a identidade cultural do local.</p>



<p>A organização do evento pede que os interessados convidem e tragam parentes e amigos mais velhos que tenham ligação com a região. A entrada é livre e aberta ao público.</p>



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		<title>Há 40 anos, &#8220;Brasil: Nunca Mais&#8221; escancarou para o país a violência da ditadura militar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Jul 2025 15:11:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil Nunca Mais]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1985 eu tinha 16 anos, e nunca, nas conversas familiares, ou nas muitas escolas que tinha frequentado, alguém me informou que durante todos esses anos, eu tinha vivido sob uma ditadura. Nasci em maio de 1969, quando o país era governado por uma Junta Militar. Estava com cinco meses, quando assumiu a presidência o [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 1985 eu tinha 16 anos, e nunca, nas conversas familiares, ou nas muitas escolas que tinha frequentado, alguém me informou que durante todos esses anos, eu tinha vivido sob uma ditadura.</p>



<p>Nasci em maio de 1969, quando o país era governado por uma Junta Militar. Estava com cinco meses, quando assumiu a presidência o sanguinário Emílio Garrastazu Médici.</p>



<p>Meu pai era funcionário do Banco do Brasil, e parecíamos nômades, em cima do seu Fusca cinza (placas IZ- 3059). Moramos no no Crato (CE), onde nasci, Brejo Santo (CE), Imperatriz (MA) e Fortaleza (CE). Nunca ouvi críticas aos milicos. Meu pai, bastante autoritário em casa, não tocava no assunto, mas nunca o vi elogiando o regime.</p>



<p>Num misterioso dia de 1985, por motivos que até hoje desconheço, apareceu em nossa casa um livro de capa vermelha, com a imagem de uma pessoa dentro de uma roda (para mim, era o que parecia), e um aviso: ”Um relato para a história”, e “prefácio de Dom Paulo Evaristo, Cardeal Arns”.</p>



<p>Era um ser estranho, aquele objeto.</p>



<p>Nossa biblioteca familiar tinha as onipresentes enciclopédias Delta Larousse, revistas Pais &amp; Filhos, além de de uma miscelânea que envolvia Adelaide Carraro, Jorge Amado, revistas “Placar”, e outros que não lembro. O livro que me fez ser leitor obstinado foi “Papillon, do francês Henri Charrièrre, que é uma história de aventuras.</p>



<p>Desavisadamente, resolvi abrir aquele livro que começava com “Brasil”, acompanhado do intrigante “Nunca Mais”.</p>



<p>Eram relatos comoventes e dolorosos, de pessoas que tinham sido presas e torturadas durante a ditadura. Todo o material foi coletado de depoimentos de pessoas que passaram por prisões, e foram torturadas.</p>



<p>Foram quase seis anos de um trabalho sigiloso, envolvendo advogados e jornalistas, sob o manto protetor do arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, com financiamento do Conselho Mundial de Igrejas, para coletar no Superior Tribunal Militar os relatos de presos políticos, feitos durante seus julgamentos. Além do arcebispo, o porjeto contou com o apoio fundamental do reverendo James Wright (1927-1999), da Missão Presbiteriana do Brasil Central.</p>



<p>O Brasil ainda estava sob o jugo dos militares, mas o mundo assombroso da violência, estava escancarada.</p>



<p>O livro se tornou um fenômeno. Lançado pela Editora Vozes, permaneceu na lista dos dez mais vendidos por 91 semanas. Na época, foi o livro de não-ficção brasileiro mais vendido de todos os tempos.</p>



<p>“Estávamos ainda sob a ditadura, mas nenhum militar falou nada, questionou nada. Contra os fatos, não há argumentos”, lembra Luiz Eduardo Greenhalgh, um dos idealizadores do projeto.</p>



<p>Não sabia que minha vida estava mudando, por causa daquele livro. Três anos depois, eu estava no Recife, estudando Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, com a semente daquele livro monumental em minha alma.</p>



<p>Por essas coisas que não podemos explicar, em 1995 estava na Cúria Metropolitana da Igreja Católica de São Paulo, comandada pelo Cardeal Arns, trabalhando no jornal “O São Paulo”.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">40 anos depois&#8230;</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Desde o dia sete de setembro de 2024, no Memorial da Resistência, em São Paulo, essa história está aberta ao público, com a exposicão </span><i><span style="font-weight: 400;"><a href="http://(https://memorialdaresistenciasp.org.br/exposicao/uma-vertigem-visionaria-brasil-nunca-mais/" target="_blank" rel="noopener">Uma vertigem visionária &#8211; Brasil: Nunca Mais</a>.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste período, mais de 85 mil pessoas já visitaram a exposição, que tem cartazes, fotos, gráficos, documentos, gravações em vídeo das pessoas que participaram da conspiração pela memória e denúncia da ditadura. Um mergulho no passado, para que ele não se repita, no momento em que o Supremo Tribunal Federal se prepara para julgar os conspiradores do golpe de Estado liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. </span></p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/07/BNM-2.jpg" alt="Foto de uma sala de exposição em ambiente fechado, com piso de madeira e iluminação clara no teto. À esquerda, há uma vitrine de vidro com diversos livros e documentos dispostos lado a lado, entre eles o livro “Brasil: Nunca Mais”, com capa vermelha. Ao fundo, na parede escura da lateral esquerda, três nichos exibem telas com retratos em preto e branco de pessoas falando, aparentemente em vídeos ou depoimentos. No centro da imagem, uma parede clara exibe dois grandes textos em painéis cor-de-rosa e, ao lado, uma imagem de pés com etiquetas de necrotério — remetendo a vítimas da ditadura. Mais ao fundo, outras paredes brancas contêm painéis com textos em preto e folhas coloridas (em laranja e rosa) penduradas. A exposição trata de temas ligados à memória, direitos humanos e repressão no Brasil." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Exposição que resgata história do projeto já foi visitada por 85 mil pessoas
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Levi Fanan/Memorial da Resistência</span>
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">O projeto</h2>



<p><em>Brasil: Nunca Mais</em> é a mais ampla pesquisa realizada pela sociedade civil sobre a tortura política no país. O projeto foi uma iniciativa do Conselho Mundial de Igrejas e da Arquidiocese de São Paulo, os quais trabalharam sigilosamente durante cinco anos sobre 850 mil páginas de processos do Superior Tribunal Militar. O resultado foi a publicação de um relatório e um livro, em 1985, que revelaram a gravidade das violações aos direitos humanos promovidas pela repressão política durante a ditadura militar. O sucesso da publicação continua influenciando gerações e impulsionou o compromisso do Estado brasileiro com o enfrentamento à tortura.</p>



<p>Com curadoria do pesquisador e professor Diego Matos, a mostra é dedicada à memória do projeto homônimo, empreendido entre 1979 e 1985. A iniciativa foi responsável por sistematizar e, clandestinamente, produzir cópias de mais de 1 milhão de páginas contidas em 707 processos do Superior Tribunal Militar (STM), revelando a extensão da repressão política do Brasil no período.</p>



<p>A história do projeto e seus desdobramentos é apresentada junto a testemunhos em vídeo de advogados, jornalistas e defensores de direitos humanos, que, por anos, tiveram seus nomes mantidos no anonimato: Paulo Vannuchi, Anivaldo Padilha, Ricardo Kotscho, Frei Betto, Carlos Lichtsztejn, Leda Corazza, Petrônio Pereira de Souza e Luiz Eduardo Greenhalgh, por meio do programa Coleta Regular de Testemunhos do Memorial. Há também entrevistas com Dom Paulo Evaristo Arns, Marco Aurélio Garcia, Eny Raimundo Moreira e Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, pertencentes ao acervo do Armazém Memória.</p>



<p>O arquivo de 707 processos judiciais expõe os depoimentos de presos políticos sobre as ações de repressão, vigilância, perseguição e tortura do aparato estatal. As cópias desse conteúdo, que por anos foram mantidas em segurança em acervos preservados na Suíça e nos EUA, tiveram repatriamento, retornando ao Brasil em 2011. Atualmente encontram-se sob salvaguarda do Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, em Campinas.</p>



<p>Hoje, o material coletado na pesquisa está disponível em site próprio, o <a href="https://bnmdigital.mpf.mp.br/pt-br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Brasil Nunca Mais Digital</a>, sob cuidados do Ministério Público Federal.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/07/BNM-ag-Brasil-Rovena-Rosa.webp" alt="Fotografia em plano médio de Dom Paulo Evaristo Arns, idoso, sorrindo amplamente. Ele veste um traje eclesiástico escuro com colarinho branco clerical e um pequeno crucifixo metálico pendurado no peito por uma corrente. Usa óculos e tem cabelos curtos, brancos e ralos. A imagem está levemente inclinada de baixo para cima, destacando sua expressão alegre e serena. Ao fundo, vê-se uma cortina verde escura e parte de um ambiente interno pouco iluminado. A luz incide sobre seu rosto, acentuando a atmosfera acolhedora e respeitosa da cena." class="" loading="lazy" width="688">
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	                                        <p class="m-0">Dom Paulo Evaristo Arns impulsionou a pesquisa
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil</span>
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                    </figure>

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			</item>
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		<title>Projeto digitaliza 200 vídeos populares produzidos em Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Jul 2024 20:00:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[MST]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Será lançado, nesta sexta-feira (26), o projeto Acervo do Vídeo Popular em Pernambuco, que recuperou quase 200 fitas captadas por movimentos sociais e organizações populares atuantes no estado entre os anos de 1980 e 1990. As produções são da TV Viva, do SOS Corpo e do Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Foram dois anos [&#8230;]</p>
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<p>Será lançado, nesta sexta-feira (26), o projeto Acervo do Vídeo Popular em Pernambuco, que recuperou quase 200 fitas captadas por movimentos sociais e organizações populares atuantes no estado entre os anos de 1980 e 1990. As produções são da TV Viva, do SOS Corpo e do Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Foram dois anos de pesquisa e digitalização. O evento de lançamento será às 18h no Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda, e contará com a exibição de oito desses vídeos, seguida de uma roda de conversa. O site/repositório <a href="http://videopopularpe.com.br" target="_blank" rel="noreferrer noopener">videopopularpe.com.br</a> disponibiliza gratuitamente o acervo digitalizado e categorizado.</p>



<p>Essa produção audiovisual incidiu e participou de acontecimentos decisivos da história pernambucana recente, como a campanha pelas eleições diretas e a formulação da Constituição de 1988, ficando conhecida, em conjunto com produções de outras regiões, como Movimento do Vídeo Popular.</p>



<p>Entre os filmes dessa primeira mostra, desta sexta (26), estão <em>Profissão Doméstica</em>, de 1985, da TV Viva; cenas do grupo de Teatro Loucas da Pedra Lilás, filmadas em 1989 pelo SOS Corpo; e o discurso de Jaime Amorim em frente ao Fórum de São Bento do Una, em 1998, registrado pelo MST. A ocasião marca também a celebração dos 40 anos da TV Viva, um dos principais coletivos de comunicação independente de Pernambuco.</p>





<p>A mostra faz parte de um ciclo de exibições públicas que, neste segundo semestre, passará também pelo Armazém do Campo (equipamento cultural do MST), pela sede da organização feminista SOS Corpo e pela Cinemateca Pernambucana. A programação completa está no Instagram <a href="https://www.instagram.com/acervodovideopopularpe/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@acervodovideopopularpe</a>. O projeto tem incentivo do Sistema de Incentivo a Cultura (SIC), da Prefeitura do Recife, e da Lei Paulo Gustavo.</p>



<p>“O projeto nasce da pergunta ‘O que a produção audiovisual gestada na parceria entre realizadores e movimentos sociais no passado recente tem a nos ensinar hoje?&#8217;”, explica Vinícius Andrade, coordenador da pesquisa. “Era um contexto de vitalidade e participação democrática e popular efervescentes que são muito inspiradoras e que precisam ser preservadas&#8221;, afirma Caioz, produtor e responsável pela gestão técnica do projeto. &#8220;O material vasto que digitalizamos tem a potência de narrar as lutas a partir do ponto de vista autônomo dos movimentos sociais e isso é precioso e não pode se perder com o tempo&#8221;, completa.</p>


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		<title>Uma Vila perdida</title>
		<link>https://marcozero.org/uma-vila-perdida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jan 2024 12:12:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[ponte Engenheiro Jaime Gusmão]]></category>
		<category><![CDATA[vila esperança]]></category>
		<category><![CDATA[ZEIS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Marília Felix* Quanto vale a memória? Quanto vale o local em que toda a sua vida foi construída? Quanto vale morar numa comunidade em que se sente acolhido? Quanto vale a sua própria personalidade? Para muitas pessoas, a moradia é apenas uma questão transitória. É só um endereço, uma residência ou um número. Mas, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Marília Felix</strong>*</p>



<p>Quanto vale a memória? Quanto vale o local em que toda a sua vida foi construída? Quanto vale morar numa comunidade em que se sente acolhido? Quanto vale a sua própria personalidade? Para muitas pessoas, a moradia é apenas uma questão transitória. É só um endereço, uma residência ou um número. Mas, para os moradores da Vila Esperança, as suas casas iam além de uma habitação, elas se tornaram a sua própria identidade.</p>



<p>Depois de dois anos de luta, a Vila Esperança se transformou numa guerra perdida. Sem forças para resistir às pressões da esfera municipal, os moradores precisaram aceitar as baixas ofertas de indenizações ou as sentenças das decisões judiciais. O resultado foi um misto de casas derrubadas, ruas vazias e um sentimento de tristeza permanente no ar. A esperança da Vila se foi.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma luta pela memória</strong></h3>



<p>A Vila Esperança é reconhecida como uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) desde 1994. A comunidade está situada no bairro do Monteiro, na Zona Norte do Recife, às margens do Rio Capibaribe de um lado, próximo à Avenida 17 de Agosto do outro e aos fundos da Escola de Referência Silva Jardim.</p>



<p>Inserida num dos bairros mais ricos da capital pernambucana, a Vila se projeta como um refúgio em meio aos prédios de classe média alta erguidos no seu entorno. Sem portarias ou playgrounds, as crianças da comunidade brincam com os vizinhos na rua. Não há a rigidez dos apartamentos e dos salões de festa para os encontros, as conversas acontecem nos portões das casas, na rua e na mercearia de Seu Luiz, o comerciante mais antigo do local.</p>



<p>Mas, desde o anúncio da construção de uma ponte próxima à Vila, os moradores foram forçados a aceitar um preço pelas suas memórias. Almejada durante muitos anos, a ponte que ligaria o bairro do Monteiro ao bairro da Iputinga, através do Rio Capibaribe, foi intitulada como a salvação para o problema crônico do trânsito entre as Zonas Norte e Oeste da cidade.</p>



<p>Em setembro de 2021, a Prefeitura do Recife anunciou a retomada das obras da ponte, agora nomeada como Engenheiro Jaime Gusmão. O que foi intitulado como um sonho para  o trânsito da cidade se tornou um pesadelo para os moradores da Vila Esperança.</p>



<p>A princípio, 53 casas seriam desapropriadas e demolidas para a primeira etapa da construção da ponte. Mas, <a href="https://jc.ne10.uol.com.br/pernambuco/2022/08/15057664-exclusivo-projeto-da-ponte-monteiro-iputinga-no-recife-preve-quase-cinco-vezes-mais-desapropriacoes-do-que-o-divulgado.html">segundo documento obtido pelo Jornal do Commercio</a> e enviado à Defensoria Pública de Pernambuco pela Autarquia de Urbanização do Recife (URB), órgão responsável pela obra, mais 255 famílias da Vila vão precisar ser retiradas para a implantação do anel viário, a segunda etapa da construção.</p>



<p>As ofertas de indenizações pelas casas abriram as rodadas exaustivas de negociações entre a Prefeitura e os moradores. As residências acabaram recebendo valores bem abaixo do avaliado pela região em que está situada e os residentes são praticamente forçados a negociar algo que não colocaram à venda.</p>



<p>Com as expectativas frustradas, os moradores esperavam a proteção da Vila por ter o título de ZEIS (Zona Especial de Interesse Social). De acordo com a lei nº 15.926 do ano de 1994, assinada pelo então prefeito do Recife, Jarbas Vasconcelos, as áreas que compreendem as localidades da Vila Esperança e o Cabocó, outra comunidade próxima, foram transformadas em ZEIS pelo “fato da ocupação apresentar condições de permanência física, com perspectivas de melhorias a partir da execução do seu Plano Urbanístico e de Regularização Jurídica que venha favorecer a implantação de infraestrutura, demonstrando assim a sua viabilidade de consolidação e melhoria prevista por lei.”</p>



<p>Nas negociações, os moradores sentem que a validação do local como ZEIS não é levado em consideração. Além disso, mesmo que o Direito à Moradia esteja assegurado no artigo 6º da Constituição Brasileira, é como se nem isso estivesse garantido. O que resta é o clima de melancolia que se instala na Vila Esperança. Andando pelas ruas calmas do local, o comum é ver destroços das casas já demolidas. Aquelas que, um dia, foram palco de aniversários, ceias de Natal e conversas alegres no portão.</p>



<p>Mesmo assim, no que restou da Vila, ainda pode-se avistar crianças jogando bola, vizinhos conversando na esquina e cumprimentos de todos os lados. Junto com Dona Dalvinha, uma das moradoras do local, nós andamos pela Vila como exploradores em lugares desconhecidos. Conheça a Vila Esperança conosco através do vídeo abaixo:</p>





<p>Todas as casas da Vila são um conjunto de memórias e histórias de vida que irão se perder em meio ao asfalto e ao futuro trânsito de passageiros que talvez nem saibam o que um dia esteve ali. Mas, aqui, a própria história da Vila Esperança será contada através das vidas de sete moradores. Aqueles que nunca perderam a esperança.</p>





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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Cada casa, uma história</strong></h2>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Seu Leto</strong></h3>



<p>O nome dele é Wellington Lira, mas todo mundo na Vila Esperança o conhece como Leto. Morava na Vila desde que nasceu, há quase 60 anos. Era o terceiro morador mais antigo da comunidade. Seria impossível contar a sua história sem falar da Vila Esperança ao mesmo tempo. Os principais momentos da sua vida, as brincadeiras de infância, as aventuras de adolescente e as responsabilidades de adulto foram nas ruas do local.</p>



<p>A Vila hoje é o resultado de muitas ocupações ao longo do tempo. Terras de um antigo engenho da região, o local tinha cerca de dez casas antigas por volta da década de 1960. As pessoas que ali moravam pagavam aluguéis a um homem chamado Nelson Temporal &#8211; coincidência ou não, o nome da rua principal da Vila é Rua Ilha do Temporal. Depois de um tempo, esse Nelson desapareceu, os moradores ficaram sem saber quem era o novo dono das casas e continuaram morando.</p>



<p>Foi nesse cenário que a avó de Leto, Porcina Maria, chegou na Vila Esperança. Rezadeira e natural de Palmeira dos Índios, município de Alagoas, ela veio para Recife na busca de uma nova vida. E foi na comunidade que Porcina encontrou a possibilidade de uma moradia tranquila. Um ano depois da sua chegada, a filha Alaíde também começou a morar no local.</p>



<p>Em 1964, Wellington nasceu conquistando cada pedaço da Vila. Andava pela rua principal que ainda não era pavimentada. Tomava banho no riacho que atravessava os terrenos da região. Olhava a pequena horta que a sua avó cultivava ao lado da sua casa. Ia pegar água no chafariz que ficava próximo à Avenida Dezessete de Agosto. Brincava com os trilhos da via férrea. Observava com admiração as lavadeiras que desciam dos morros ao redor e abriam as suas saias para lavar as roupas no Rio Capibaribe.</p>



<p>Nos anos 1980, a Vila Esperança começou a se expandir. Os terrenos vazios foram ocupados por outras pessoas que chegavam e construíam as suas moradias. Essas ocupações também foram marcadas por tensões. Chegou a acontecer uma ação da polícia no local para dispersar os novos moradores. Mas, por pressão de alguns movimentos sociais e políticos, as pessoas conseguiram continuar lá. Foi nesse momento que a comunidade ganhou o nome de Vila Esperança. Era a esperança de permanecer e conquistar um novo espaço que os motivaram.</p>



<p>Como não é possível contar a história de Leto sem a Vila, também foi no início dos anos 90 que ele e o cunhado resolveram construir as casas da família no mesmo terreno onde ficava a horta da avó. Três anos depois, a Vila Esperança se tornou uma ZEIS, um título que daria segurança a todos os moradores. Mas, a segurança os deixou desde que a construção da ponte voltou.</p>



<p>No vídeo abaixo, Leto fala emocionado do significado da Vila Esperança na sua vida e da situação atual da sua moradia diante da construção da Ponte Engenheiro Jaime Gusmão:</p>





<p>Em outubro de 2021, os moradores da Vila Esperança foram surpreendidos com funcionários da URB marcando as suas residências e dizendo que seriam chamados para fazer acordos indenizatórios. Todas as casas da família de Wellington foram marcadas, inclusive a da sua mãe, que tem mais de 80 anos. Ele sabe que a ponte é um problema de mobilidade, mas argumenta: “tem dois problemas sérios aqui no Recife, um é a mobilidade, e o outro mexe com muito mais pessoas, que é a camada mais pobre, que é a moradia”.</p>



<p>A partir disso, Seu Leto encampou a luta e a resistência para permanecerem. Em março de 2023, ele foi eleito o 2º líder da Vila Esperança na Comissão de Urbanização e Legalização de Posse da Terra (COMUL). Contudo, o papel de liderança na comunidade acabou ficando estremecido quando Leto foi forçado a negociar a sua casa. Como a própria residência está vinculada às outras da família, a permanência ficaria inviável depois que os parentes decidiram negociar.</p>



<p>Com o valor da indenização, seu Leto adquiriu uma casa em outro local. Ele explica que não aguentaria ver o cenário de destruição que ficou após as demolições, com apenas os destroços das casas da família. Os entulhos não significam apenas tijolos, telhas e portões, é como se a sua própria história estivesse misturada à poeira. Ali, estão simbolizadas as brincadeiras de infância, as refeições em família e a construção de uma vida.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Dona Dalvinha</strong></h3>



<p>Dalvinha é o apelido de Lindalva do Carmo Veríssimo de Sousa. Uma mulher branca, baixa, com os cabelos lisos e brancos que carrega muita história nos seus passos. Natural de Itapetim, cidade do sertão pernambucano, ela chegou à Vila com a esperança que já é natural dos moradores da comunidade.</p>



<p>Da infância sofrida no sertão à juventude esperançosa, ela veio para o Recife definitivamente em 1988 porque precisou cuidar da irmã que morava na Vila Esperança. Após se casar em 1994, como não tinha um lugar certo para morar, passou um tempo pagando aluguel até a irmã ligar e anunciar que tinha uma casa na própria Vila para vender. O local da nova residência era às margens do Rio Capibaribe, no valor de R$ 2.500. Mas, para Dalvinha, era uma oportunidade única.</p>



<p>Mesmo sem o dinheiro completo, entrou em acordo com o então dono para quitar o valor da casa de forma parcelada. E, assim, ela e o marido passaram de 1997 até 1999 pagando o novo lar em prestações conforme o que recebiam dos trabalhos. Até hoje, os recibos dos pagamentos são guardados como artigos de ouro.</p>



<p>Hoje, Dalvinha coleciona mais de 25 anos morando na Vila Esperança. Com o tempo, a casa foi ganhando a forma atual. O cunhado ajudou a erguer as paredes de alvenaria nos cômodos, ela fez uma nova cozinha na parte de trás da casa e comprou todas as grades das portas e janelas com o dinheiro que ganhava lavando roupa para fora.</p>



<p>Contudo, o retorno da obra da ponte tira o sono de Dalvinha. A dúvida e a insegurança chegam. E a possibilidade de indenização não a tranquiliza: “eu tenho medo deles dizerem que vai dar tanto e a gente não encontrar um canto para comprar que dê o dinheiro, um canto que preste, em encosta de barreira, de todo o jeito a gente se aperreia”.</p>



<p>Dona Dalvinha conta que, no mês de agosto, encontrou com uma funcionária da Prefeitura que lhe perguntou: “vocês vão querer habitacional ou auxílio moradia?”. Uma pergunta que pode parecer banal, mas para Dalvinha é a proclamação de uma sentença. Nenhuma das duas opções agrada. Tem receio de habitacional, devido aos casos de desmoronamento de prédios no Grande Recife, e aluguel soa como uma volta assustadora a um passado incerto.</p>



<p>Emocionada, Dona Dalvinha nos fala o que a Vila Esperança simboliza para ela e quais são os seus sentimentos com a perda da própria casa:</p>





<p>O maior desejo de Dalvinha era ficar. “Aqui é um pedacinho do céu para a gente”, ela diz em meio à resposta do porquê gosta de morar ali. Consegue tudo o que precisa na Vila: é fácil pegar um ônibus, é perto da feira, tem bom atendimento no posto de saúde da comunidade e, o principal, se sente numa família. “Aqui, se precisar de um, todos chegam”. Para ela, umas das maiores vantagens do local são as pessoas que moram ali, o sentimento de pertencimento que não se acha em qualquer lugar.</p>



<p>Das grades da cozinha, aos fundos da casa, ela enxerga os avanços da construção da ponte, os guindastes e as duas cabeceiras sendo erguidas às margens do rio. Diariamente, os avanços da obra parecem um relógio avisando a Dalvinha que a hora dela sair chega mais perto. Indignada, ela diz: “a gente não tem força para quem tem dinheiro”.</p>



<p>Lindalva é a mulher que carrega no corpo as cicatrizes da desigualdade social e do tanto que precisou se esforçar para chegar aonde chegou. Ela sorri quando se lembra da própria trajetória: “eu já passei por tanta coisa, mas estou aqui de pé”. Sem esperança de continuar na Vila, ela aguarda o dinheiro da indenização para adquirir uma nova casa em regiões próximas e, quem sabe, ser tão feliz quanto foi na Vila.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Seu Luiz</strong></h3>



<p>Luiz é o dono do comércio mais conhecido da Vila Esperança. Quase como um patrimônio, o Mercadinho de Seu Luiz é um ponto cardeal da comunidade. Lá, ele vende de tudo: gás de cozinha, alimentos não perecíveis, chupeta de criança, refrigerante e por aí vai. Além das vendas, o local também é um ponto de conversa e encontros animados entre os moradores da Vila.</p>



<p>Mas, antes da Vila Esperança, Luiz era um homem em busca de um lar. Nascido em Feira Nova, cidade do agreste pernambucano, ele já trabalhou nas lavouras da região e como faxineiro, porteiro e vigia quando morou em São Paulo. Por lá, ele se casou e teve dois filhos. Mas, quando surgiu a oportunidade de voltar, juntou o dinheiro que tinha e regressou à capital pernambucana.</p>



<p>Aqui, começou uma pequena mercearia do Alto Santa Isabel, comunidade da Zona Norte de Recife. Era o início da profissão que marcaria a sua vida. Ele trabalhava por lá quando soube da Vila Esperança e sentiu desejo de morar no local. A oportunidade apareceu no ano de 1983 quando Luiz comprou um terreno na avenida principal da Vila e decidiu construir o novo lar. Finalmente, ele encontrou o local que fincou raízes.</p>



<p>A construção foi feita aos poucos e com os próprios esforços de Seu Luiz. Comprou barro para aplainar o terreno e levantou a casa com taipa. A rotina da época era pesada: fechava a mercearia às 18h, jantava e ia trabalhar na obra até a meia-noite. O resultado foi que a casa já estava pronta depois de um mês. Em busca do que fazer, Seu Luiz resolveu seguir o conselho do seu fornecedor e iniciou um pequeno negócio na Vila Esperança. E começou do jeito que dava mesmo: abriu uma janelinha para a rua num dos quartos, fez uma pequena coberta do lado de fora e encheu as prateleiras com os primeiros produtos.</p>



<p>Aos poucos, a comunidade aumentou e a clientela da mercearia também cresceu. Mas a estrutura da casa de taipa não aguentou o crescimento. Depois de quatro anos, as prateleiras e as paredes caíram. A partir disso, Luiz entendeu que era hora de construir as paredes com tijolo e cimento.</p>



<p>Ele abria a mercearia às 5h da manhã e vendia enquanto ajudava os pedreiros na obra. Trabalhava nos dois locais até a meia-noite, desgastando o corpo e a mente. Mas o esforço valeu a pena. Hoje, a casa tem o espaço da frente destinado ao comércio, mais a sala, a cozinha, o banheiro e três quartos. No vídeo abaixo, Seu Luiz explica um pouco da sua história com a Vila Esperança e o sentimento de pertencimento que tem com o local.</p>





<p>O Mercadinho de Seu Luiz, como é conhecido, é o resultado do trabalho de toda uma vida. Com a renda do local, ele sustentou a casa e ajudou a criar os dois filhos, que hoje moram em outros estados. Seu Luiz está prestes a completar 68 anos e sente prazer não só em vender, mas em ter contato com as pessoas da comunidade. Sabe de tudo o que acontece na região sem sair de casa e é conhecido por todos da Vila Esperança. Viu crianças crescerem, se casarem e levarem os filhos para comprar na mercearia.</p>



<p>Por muito tempo, Seu Luiz também foi o conselheiro da vizinhança. Bastava qualquer problema e as pessoas iam saber a sua opinião. Ele pensava, analisava e dizia o caminho que parecia certo. Mas essa questão chegou ao ponto de preocupá-lo tanto que ele pediu para as pessoas não pedirem mais os seus conselhos. Mesmo assim, ele não desistiu das pessoas da Vila. Aquele local representa a vida para ele: “A Vila é a minha família, todo mundo me conhece e eu conheço todo mundo”. Ele diz com orgulho que pode ir à casa de qualquer morador que será bem recebido.</p>



<p>Mas a retomada da construção da Ponte Engenheiro Jaime Gusmão e a desapropriação das casas da Vila significam a desintegração dessa família. Luiz acredita que o seu comércio deve acabar com a grande diminuição das pessoas na comunidade. Ele conta que a primeira saída de moradores do local já representa uma perda de 52 clientes. E, mesmo que a sua moradia ainda não tenha sido marcada para a demolição ou chamada para um acordo, sabe que não vai ficar por muito tempo ali: “se eu for obrigado a sair, vou fazer o quê?”. A destruição do lugar não será só a perda da Vila para Seu Luiz, será a perda de uma família.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Dona Gil</strong></h3>



<p>As casas da Vila Esperança representam mais do que apenas residências, representam conquistas. E para Dona Gil não seria diferente. A casa onde mora é resultado do próprio suor e das noites em claro. Por isso, o pedido de desapropriação representa a perda da própria história de vida.</p>



<p>A trajetória de Givanilda Lopes com a Vila Esperança começou há 33 anos, numa casa de taipa situada aos fundos da comunidade. Depois de certo tempo, ela comprou outra residência na avenida principal da Vila. A nova casa precisava de uma reforma completa e, como não tinha condições de pagar trabalhadores para isso, foi a própria Gil que colocou a mão na massa.</p>



<p>Em várias madrugadas, ela assentou pedras de cerâmica nos cômodos e deixou a casa toda arrumada para que pudesse morar com a família. Além disso, Dona Gil também construiu uma pequena sala onde trabalha como manicure. O piso inferior da residência também tem terraço, sala, cozinha, dois quartos e um banheiro. Já no piso superior, ela construiu duas pequenas casas para os familiares.</p>



<p>O local representa a moradia para Gil, seus dois filhos, dois sobrinhos e o ex-marido, além da casa da irmã que fica ao lado da sua. A segurança que sente ao morar no local vem não só de estar perto dos parentes, mas da sensação de bem-estar que a Vila Esperança lhe garante. Givanilda se preocupa com o local onde mora por causa de um dos seus filhos, que tem deficiência mental. Ela assegura que precisa residir numa comunidade tranquila, sem agitação e que lhe dê segurança para deixar o seu filho em casa. A Vila Esperança cumpre todos esses requisitos e, por isso, revolta tanto que precisa sair do local.</p>



<p>Além disso, a localização da Vila garante o deslocamento rápido para o Centro Médico Ermírio de Moraes, onde faz tratamento de oftalmologia e ortopedia, e fica próximo aos médicos que o filho precisa. Caso precise se deslocar a um local distante, o ponto de ônibus está a 130 metros da sua residência. A centralidade da comunidade também auxilia Gil no seu empreendimento, pois facilita quando as clientes se dirigem ao comércio ou nos atendimentos domiciliares.</p>



<p>A própria casa tem um valor inestimável para Givanilda. As lágrimas e a emoção transbordam quando ela relembra como conquistou o local e os benefícios que consegue morando na Vila Esperança, confira no vídeo abaixo.</p>





<p>O modo como as desapropriações das casas da Vila Esperança estão sendo feitas revolta Dona Gil. Ainda sem entender como a retomada da construção da ponte iria impactar a vida dos moradores, ela se deparou com a própria casa sendo marcada por funcionários da URB. Foi o pontapé para uma disputa que se arrasta até hoje: “eles vieram com um valor muito irrisório, que não dá para eu comprar uma moradia”.</p>



<p>Com o valor oferecido pela URB, Dona Gil não conseguiria comprar outra moradia semelhante para acomodar todos os familiares que moram no mesmo terreno hoje. Desesperada, ela apela para que o traçado da ponte seja modificado e possa permanecer no local que lutou a vida inteira. “Se for possível mesmo, eu quero ficar na minha casa. Não tem preço nenhum que eu venda a minha casa”, é a fala de Gil como um pedido desesperado.</p>



<p>Mesmo vendo as casas vizinhas serem demolidas, Givanilda diz que não vai desistir até a garantia de um local seguro para morar. A perda que sente é maior do que qualquer valor ofertado, mas sabe que é seu direito ter uma indenização justa e compatível com a residência atual. Afinal de contas, uma moradia digna não é favor ou boa vontade, é direito.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Dona Bernadete</strong></h3>



<p>A casa de Dona Bernadete é como a porta de entrada da Vila Esperança. Entre as antigas construções do local, ao lado da Praça do Monteiro, emerge uma parede verde com a estrutura porta e janela. Não raro uma figura simbólica aparecia sentada no batente frontal da casa: era a própria Dona Bernadete. Uma mulher idosa, baixa, com os cabelos meio alourados e cheia de história para contar.</p>



<p>Moradora da Vila Esperança há 32 anos, a filha de Bernadete foi a primeira da família a chegar ao local, juntamente com o esposo e dois filhos. Quando a filha ficou viúva, Bernadete decidiu morar na comunidade para ajudar no cuidado com os netos e nunca mais saiu. A convivência gerou amor pela Vila. Emocionada, diz que ali “não é uma comunidade, é uma irmandade”.</p>



<p>Dentre os motivos que escolheu para continuar na Vila, a segurança foi o principal deles. Ela se sentia segura de ficar só em casa e ser socorrida por qualquer um dos vizinhos caso ocorresse algum problema. Também era atendida pelo mesmo médico de outras moradoras da comunidade, na unidade de saúde do Poço da Panela, um dos bairros próximos.</p>



<p>Além disso, também sentia segurança pela sua casa. Ela conta duas histórias marcantes para exemplificar isso. A primeira ocorreu quando esqueceu de trancar a grade na frente da residência ao dormir e ninguém entrou no local. A segunda aconteceu ao sair de casa e não ter fechado a porta, quando retornou havia três rapazes a esperando para garantir que ninguém iria invadir a residência.</p>



<p>Bernadete Miranda conta, no vídeo abaixo, qual é a sensação de morar na Vila Esperança e como se sente com os processos de desapropriações.</p>





<p>Professora aposentada do Estado de Pernambuco após 31 anos de trabalho, Bernadete esperava usufruir do descanso no lugar que escolheu para viver. Mas, o processo de desapropriação a fez perder o sossego. A sua casa é uma das escolhidas para sair desde o início da obra.</p>



<p>Há alguns meses, ficar com Dona Bernadete na calçada era observar que todos os vizinhos a cumprimentavam. Ela sabia quem tinha nascido na comunidade, conhecia os familiares de cada um e até mesmo a filha pequena de um dos vizinhos a chamava de vó. Pedia a quem passar para comprar o pão ou ir ao comércio de Casa Amarela quando estava indisposta. É essa comunidade que não se encontra com dinheiro de indenizações ou construções de moradias distantes.</p>



<p>Bernadete também é pastora da Igreja Quadrangular, de Casa Amarela, e é na sua fé que encontrava forças para resistir. Perdia noites de sono e sentia medo do futuro. Mas o futuro não tardou a chegar. Depois de tantas pressões, Bernadete e a filha tiveram a ordem de despejo decretada e aceitaram a indenização para sair do local. Hoje, a casa de Bernadete é um local abandonado: a figura imponente não está mais na calçada e a porta, que sempre permanecia aberta, está fechada.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Seu Juca</strong></h3>



<p>Imagina acordar por anos na mesma rua, falando com os mesmos vizinhos e fazendo o mesmo trajeto para resolver os compromissos? Pois essa foi a rotina de Seu Juca pelos últimos 37 anos. Um dos símbolos mais antigos da Vila Esperança, ele se refere ao local como parte essencial da sua história. Lá, ele construiu família, casa e as amizades. Agora, olha tudo virar destroços.</p>



<p>No ano de 1986, o avô materno de Juca comprou uma nova casa para ele e a família na Rua Pinto Campos, número 108, no bairro do Monteiro. Mas o endereço representou mais do que uma residência, de lá ele começou a constituir uma família. Primeiro, acabou se casando com a filha da vizinha Jaidete, Valéria. Segundo, o seu sogro presenteou o casal com uma casa na mesma Rua Pinto Campos, no número 106. E detalhe: a nova residência ficava situada entre a moradia da mãe de Juca e a da sua sogra.</p>



<p>Cercado de familiares, Juca e Valéria transformaram a casa de meia porta em três imóveis, que hoje acomodam o casal, dois filhos e um neto. As reformas foram resultados de muito esforço, trabalho duro e luta. Mas, a transformação da Vila Esperança em ZEIS, no ano de 1994, não garantiu à família a titularidade do terreno. Foi, então, alguns anos depois que o pesadelo começou.</p>



<p>Com o primeiro anúncio da construção da ponte, em 2012, a sua rua foi um dos principais alvos do projeto. Na época, Seu Juca e a família aceitaram a negociação, mas, como a obra foi paralisada, não tiveram mais notícias do acordo. Em 2021, a construção voltou como um furacão ao acordar com funcionários da URB marcando as suas casas sem qualquer explicação.</p>



<p>A marcação deu início às rodadas de negociação. Com propostas de valores insuficientes pela sua residência, Seu Juca resistia a negociar até que encontrasse um valor para comprar uma nova casa. Em agosto deste ano, Juca falou como estava acontecendo todo o processo e os seus sentimentos no vídeo abaixo:</p>





<p>Entre os imóveis da família, a casa da mãe de Seu Juca já foi negociada por se tratar de herança entre os irmãos. No dia dessa gravação, antes da demolição, ele tentava aproveitar algum material da residência, como as telhas e as portas. Mesmo assim, os destroços de uma casa impactam mais que a perda financeira.</p>



<p>Profundamente abalado com todo o processo, Seu Juca desenvolveu transtorno de ansiedade nos últimos tempos e precisa utilizar medicamentos antidepressivos. Ele explica: “agora, por exemplo, você deita, fecha o olho e fica pensando onde você vai viver. Ou seja, seus hábitos vão mudar, tudo vai mudar. Minha esposa trabalha a dois quilômetros daqui, eu trabalho a dois quilômetros daqui. Aí vai mudar tudo. Então isso está deixando a gente doente”.</p>



<p>Juca não entende como ele e os vizinhos precisam sair, enquanto nenhum dos condomínios do entorno será afetado. Até mesmo, um terreno em frente à sua casa, que serve apenas como estacionamento, ficará intacto. Ele se revolta e fica triste porque o local onde cresceu vai acabar.</p>



<p>Cerca de dois meses depois, o processo da casa de Juca foi judicializado e o morador precisou aceitar o valor oferecido pela URB. Depois do pagamento, teve início uma nova pressão para sair do local com o prazo de cinco dias. Juca conta que o período da mudança de casa foi traumático, feito às pressas e sem direito a caminhão para ajudar no transporte.</p>



<p>A indenização recebida precisou ser dividida entre a família. Juca adquiriu uma nova casa num local mais distante e o filho precisou se mudar para Paulista. O percurso até o trabalho da esposa de Juca também foi modificado e é necessário sair da residência até uma hora mais cedo, comparado a quando morava na Vila Esperança. Hoje, Juca e a família tentam reconstruir a vida, superar os traumas e encontrar um novo futuro, com a esperança de que a história da Vila não seja esquecida.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Leninha</strong></h3>



<p>Ao andar pelas ruas estreitas da Vila Esperança, Maria Helena cumprimenta todos os moradores pelo nome e é reconhecida por eles. Sabe identificar quem mora na maioria das casas. Leninha, como é conhecida entre os vizinhos, é um dos símbolos de luta da Vila Esperança. Nascida e criada no lugar, ela é a responsável por administrar a página no Instagram, fazer reuniões na Associação de Moradores e articular a resistência com outros vizinhos.</p>



<p>Em março de 2023, Helena foi eleita a 1ª representante da comunidade na Comissão de Urbanização e Legalização de Posse da Terra (COMUL). Mais do que isso, Leninha também é uma âncora para quem ainda está à deriva em relação ao processo de construção da ponte. Não raro, os vizinhos a param na rua e perguntam sobre algo que não sabem ou não entendem das negociações.</p>



<p>Ela sabe de cada passo da disputa porque sente na pele a incerteza do futuro. Leninha mora no primeiro andar construído em cima da casa dos seus pais e ambas as residências foram uma das primeiras a serem chamadas para a desapropriação. Com valores insuficientes para uma nova residência e indignados com a falta de escuta, Helena e os pais não aceitaram as ofertas e os processos foram judicializados. Diante da revolta familiar, Lenina entendeu que a luta não era só dela, mas coletiva. Ela precisava resistir para manter as suas memórias de infância, a convivência com os vizinhos e o seu local de trabalho. Ela precisava resistir para manter a Vila Esperança viva.</p>



<p>A sua história com a comunidade começou antes mesmo de nascer. Os seus pais, Luiz e Valdilene, foram morar no local assim que casaram. A primeira casa foi pequena, numa das regiões mais próximas ao rio, foi lá que Helena nasceu. Depois de uma chuva forte na época, as águas acabaram invadindo o local e forçaram seu Luiz a procurar outra casa. A escolhida foi uma residência na entrada da Vila Esperança, na Rua Ilha do Temporal, onde mora há 30 anos.</p>



<p>Lá, Helena cresceu e colecionou memórias. Brincava na rua calma e tranquila com as crianças que moravam perto, conhecia todos os vizinhos, ia e voltava do colégio andando. Quando a mãe precisava se ausentava à noite, ela ficava sob os cuidados das pessoas que moravam na sua rua. No Natal da Vila Esperança, era mais do que natural cada vizinho visitar os outros para confraternizar, compartilhar as comidas e comemorar o final de mais um ano. A convivência coletiva se transformava numa realidade distante do mundo elitizado à sua volta.</p>



<p>A Vila continua sendo o lar de Helena até hoje. Quando se casou, decidiu construir a sua própria casa em cima da residência dos pais. Além disso, ela ergueu o seu local de trabalho numa sala confortável na varanda, onde realiza serviços de sobrancelhas e maquiagem. A boa localização da casa representa mais possibilidades de atrair a clientela e manter o seu negócio. Por isso, se mudar para outro local é também uma questão de renda.</p>



<p>Helena nos contou mais da sua sensação com as desapropriações da Vila Esperança no vídeo abaixo:</p>





<p>Quando Leninha é perguntada sobre como a Vila Esperança formou a sua personalidade, a emoção e as lágrimas vêm ao rosto. Não é só um local. É nascer, desenvolver, brincar, estudar, crescer, conviver, casar e trabalhar numa só comunidade. É como se a sua personalidade e a Vila Esperança se confundissem ao longo do tempo.</p>



<p>Por isso, a desapropriação das casas da Vila revolta tanto. Com uma visão crítica e ampla, Helena expõe que a retirada das pessoas do local é um reflexo de uma questão maior. Não é só a ponte. Não é só a Vila. É a política de uma cidade. “O que acontece na Vila Esperança não é só em Vila, é na cidade de Recife”, ela diz em meio ao desejo de que mais recifenses entendessem a luta da comunidade.</p>



<p>No último dia 08 de agosto, a justiça decretou a imissão de posse para a Prefeitura do Recife na casa de Helena, assim como a determinação de que o oficial de justiça possa requisitar a força policial para efetivar o cumprimento da ordem judicial. Ela resistiu e entrou com um recurso, que não foi acatado. Sem forças diante de tanta pressão, ela e os pais acabaram negociando as casas.</p>



<p>Como os valores foram insuficientes para garantir duas moradias adequadas, a família decidiu juntar as duas indenizações e comprar um imóvel para os pais. Helena e o seu esposo, que construíram com tanto esforço e dedicação a primeira residência, agora não sabem onde irão morar. Mesmo com a incerteza do futuro, eles só pensam em seguir em frente. Helena, que sempre morou na Vila Esperança e sentia a comunidade como o seu lar, agora não reconhece mais o local: “olhar pra Vila hoje não é encontrar pertencimento, o local está desfigurado, infelizmente”.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>A resposta</strong></h3>



<p>A Prefeitura do Recife foi questionada através de email sobre as alegações apresentadas nesta reportagem. As perguntas enviadas procuravam saber como está a atual situação das desapropriações e indenizações das casas da Vila Esperança; como os valores indenizatórios das casas foram calculados; qual a posição da Prefeitura sobre os depoimentos dos moradores da Vila Esperança a respeito de funcionários municipais exercendo pressão para a saída deles; se a Prefeitura ofereceu algum suporte, como caminhão, para a mudança dos moradores; se a Prefeitura disponibilizou ajuda psicológica para os moradores durante esse processo de desapropriação; por que os destroços das casas já demolidas não foram recolhidos imediatamente e se o habitacional anunciado para os moradores da Vila Esperança tem previsão de entrega.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Confira a íntegra da nota enviada pela Prefeitura do Recife com as respostas:</strong></p><p>“A Autarquia de Urbanização do Recife (URB) informa que a ponte Jaime Gusmão beneficiará diretamente cerca de 60 mil pessoas, criando uma nova ligação entre as zonas Oeste e Norte da cidade. É a primeira ponte a ser entregue na capital pernambucana em quase duas décadas e já está com 95% de conclusão em sua etapa principal de obras, correspondente ao “tabuleiro” sobre o rio.</p><p>A construção da ponte Jaime Gusmão requer a desapropriação de 50 imóveis no Monteiro. Todos já estão negociados e 44 foram pagos. A URB esclarece que cada imóvel é avaliado individualmente e recebe um valor que varia de acordo com questões como existência de documentação legal, área construída e benfeitorias realizadas pelos moradores. Os valores oferecidos são baseados em tabela atualizada anualmente e validada pelos órgãos de controle, como Tribunal de Contas do Estado e Caixa Econômica Federal.</p><p>Quando solicitada, a URB dá apoio na mudança das famílias que tiveram as casas desapropriadas. A Diretoria de Integração Urbanística da URB dá todas as orientações necessárias aos moradores e continua à disposição para dirimir dúvidas. O material das casas já demolidas será retirado à medida que as obras avancem.</p><p>A URB está construindo um conjunto habitacional, com 75 apartamentos, como opção de moradia para que as famílias residentes na Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) Vila Esperança/Cabocó, afetadas pela construção da Ponte Jaime Gusmão, possam permanecer no local. A obra já está em andamento, com investimentos em torno de R$ 13 milhões. Além disso, a comunidade ganhará também uma creche.</p><p>Os equipamentos serão construídos num terreno desapropriado pela Prefeitura do Recife, vizinho à ZEIS. O habitacional será dividido em dois blocos, um com 40 unidades e o outro com 35, contando com jardim, horta comunitária, playground e bicicletário. Os apartamentos medirão cerca de 40 m2 e os prédios terão tipologia do tipo térreo mais quatro pavimentos.”</p></blockquote>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma ponte para quem?</strong></h3>



<p>No evento de inauguração da ponte, estarão presentes autoridades, a imprensa, representantes dos poderes públicos e quem mais queira assistir. Será alardeado como a obra é importante para o trânsito da cidade, a eficiência da Prefeitura em concluir um projeto prometido há tantos anos e como representa a modernização do Recife. Os discursos serão bonitos, entusiastas e alegres com a conclusão da Ponte Engenheiro Jaime Gusmão.</p>



<p>Do outro lado, estará uma Vila que chora. Ela vê os filhos que cuidou desde pequenos irem embora sem a certeza de moradia. As histórias, os momentos felizes, as vidas foram esquecidos pela necessidade da modernidade. A ponte vai passar, o anel viário vai passar, as vias de acesso vão passar, os carros vão passar, as bicicletas vão passar, os pedestres vão passar, todos irão passar pela Vila Esperança como se ela não fosse nada. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/condenada-pela-prefeitura-do-recife-vila-esperanca-recusa-se-a-desaparecer/" class="titulo">Condenada pela Prefeitura do Recife, Vila Esperança recusa-se a desaparecer</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>O novo asfalto pode até brilhar, mas não vai sorrir como Dona Dalvinha. O trânsito dos carros vai fazer barulho, mas não será igual às conversas com Dona Bernadete. As pessoas vão andar, mas não irão parar para conversar com Seu Luiz. A alça de acesso à ponte estará erguida, mas não com o cuidado que Leninha construiu a própria casa. As ciclofaixas serão importantes, mas não lembrarão do passado como Seu Leto. A Avenida 17 de Agosto poderá estar mais bonita, mas não terá Dona Gil andando para chegar em casa. Os novos espaços de convivência atrairão a vizinhança, mas não haverá o terraço de Seu Juca para receber quem chega.</p>



<p>A perda da Vila Esperança e dos seus moradores será inestimável para qualquer um. É mais do que desapropriações, despejos e demolições, é a política de uma cidade. Simboliza como um território coletivo é pensado e ocupado. O que importa mais: as pessoas ou os carros? Retratar as injustiças contra a Vila Esperança é também mostrar o que acontece com outras comunidades que são expulsas diariamente, seja pelo poder público ou privado. Lutar pela Vila Esperança é lutar por nós mesmos, para que a cidade seja pensada a partir da coletividade e do direito de moradia digna para todos.</p>



<p>Eu, a jornalista em formação que vos escreve, não conhecia a Vila Esperança até janeiro deste ano. A experiência de conviver com as pessoas da comunidade, que contagiam e acolhem como se você fosse a âncora que irá lhes salvar do naufrágio, é única. A construção desta reportagem me deu a oportunidade de praticar um jornalismo humano que olha para cada pessoa como se ela representasse todo o país. Talvez eu não salve ninguém, mas a história de cada um estará marcada. Quem sabe ela nos faça olhar além da Vila Esperança, mas também para tantas outras comunidades que lutam para não ter o mesmo destino.</p>



<p><em>* Reportagem multimídia apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco &#8211; 2023.1, da aluna Marília Felix de Carvalho. <strong>Produção e reportagem</strong>: Marília Felix de Carvalho // <strong>Orientação</strong>: Yvana Fechine // <strong>Coorientação</strong>: Jadeanny Arruda // <strong>Imagens em vídeo</strong>: Nildo Ferreira e Tião Possidônio // <strong>Montagem dos vídeos:</strong> Beto Farias</em></p>



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		<title>Fora do orçamento do estado em 2024, Memorial da Democracia recebe exposição sobre rádio Paulo Freire</title>
		<link>https://marcozero.org/memorial-da-democracia-exposicao-radio-paulo-freire/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Dec 2023 19:20:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[rádio]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em comemoração aos 60 anos da Rádio Paulo Freire, a exposição A rádio que Paulo Freire sonhou chega ao Memorial da Democracia de Pernambuco, no Sítio da Trindade, em Casa Amarela, nesta quinta-feira, 21 de dezembro. A mostra acontece em um momento crítico para o equipamento histórico e cultural inaugurado há menos de um ano [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em comemoração aos 60 anos da Rádio Paulo Freire, a exposição <em>A rádio que Paulo Freire sonhou</em> chega ao Memorial da Democracia de Pernambuco, no Sítio da Trindade, em Casa Amarela, nesta quinta-feira, 21 de dezembro. A mostra acontece em um momento crítico para o equipamento histórico e cultural inaugurado há menos de um ano pelo Governo do Estado, já que não há nenhum recurso previsto para o memorial na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2024, <a href="https://www.alepe.pe.gov.br/2023/12/05/orcamento-de-2024-e-aprovado-pela-alepe-com-acrescimo-de-r-11-bilhao-nas-receitas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aprovada no início de dezembro</a>.</p>



<p>Depois de passagens pelo Centro de Artes e Comunicação e pela Faculdade de Direito do Recife da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a temporada da exposição no casarão localizado no Sítio da Trindade, na zona norte do Recife tem um significado especial. Este mesmo espaço que, hoje, abriga a memória da resistência popular contra a ditadura militar, foi sede do Movimento de Cultura Popular (MCP), criado em 13 de maio de 1960, como uma instituição sem fins lucrativos, durante a primeira gestão de Miguel Arraes na prefeitura do Recife. O movimento formado por estudantes universitários, artistas e intelectuais, realizou experiências inovadoras de cultura e educação popular, tendo entre seus dirigentes o próprio Paulo Freire.</p>



<p>Permitindo que o público mergulhe na história da rádio, que foi fundamental para Pernambuco e para o Brasil no início dos anos 60, momento em que o país vivenciava as tensões políticas que culminaram no Golpe Militar, a exposição ficará aberta à visitação até o dia 2 de fevereiro de 2024. Além da mostra em homenagem a história da Rádio Paulo Freire, o Memorial da Democracia de Pernambuco conta com o vasto acervo documental produzido pela Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara.</p>



<p>A exposição é resultado de uma extensa pesquisa em arquivos públicos e digitais nos quais foram localizados fotos, documentos e mais de 300 notícias de jornais publicadas entre 1958 e 1965, disponíveis para o público em 16 painéis em grande formato. Durante a temporada no Memorial da Democracia, a exposição oferece um dispositivo interativo, onde os visitantes são convidados a enviar áudios sobre suas experiências e expectativas em torno do rádio, o material coletado poderá ser veiculado na grade da Paulo Freire como interprogramas.</p>



<p>A recuperação da história da Rádio Paulo Freire, que entrou no ar em caráter definitivo em 29 de setembro de 1963, traça um importante retrato da efervescência cultural e intelectual do Recife no final dos anos 50 e início dos anos 60. Isso porque, em torno de si e do Serviço de Extensão Cultural (SEC) da Universidade do Recife &#8211; atual UFPE -, Paulo Freire conseguiu agregar uma geração de jovens intelectuais progressistas, que se destacaram depois como literatos, designers, críticos e professores, entre eles, José Laurênio de Melo, primeiro diretor da Rádio Universitária; Hermilo Borba Filho, um dos fundadores do Teatro de Estudantes de Pernambuco; e Aloísio Magalhães, talvez o primeiro designer gráfico a conquistar fama nacional.</p>



<p>A exposição <em>A rádio que Paulo Freire sonhou</em> é realizada pela equipe da Rádio Paulo Freire em parceria com a Diretoria de Comunicação (Supercom), com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura e da Cátedra Paulo Freire, além da ajuda da Biblioteca Central e Memorial Denis Bernardes.</p>



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		<title>522 anos de resistência indígena no Nordeste e não queremos o seu &#8216;parabéns&#8217;</title>
		<link>https://marcozero.org/522-anos-de-resistencia-indigena-no-nordeste-e-nao-queremos-o-seu-parabens/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Aug 2022 18:44:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[candidatura icoletiva indígena]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento social]]></category>
		<category><![CDATA[identidade]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[povos indígenas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>* Por Bia Pankararu Há poucos dias, em 9 de agosto, tivemos como data comemorativa o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Dia criado em 1994 pela ONU para celebrar e fortalecer a existência dos povos originários no mundo, afirmação cultural, de identidade, memória e uma caminhada árdua e constante para garantia de direitos humanos, políticas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>* <strong>Por Bia Pankararu</strong></p>



<p>Há poucos dias, em 9 de agosto, tivemos como data comemorativa o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Dia criado em 1994 pela ONU para celebrar e fortalecer a existência dos povos originários no mundo, afirmação cultural, de identidade, memória e uma caminhada árdua e constante para garantia de direitos humanos, políticas públicas e investimentos reais para subsistência e bem viver desses povos.</p>



<p>Entretanto, enquanto indígena que vive em território o ano inteiro, percebo que datas como essa não conseguem chegar nem perto do que poderia significar nos dias atuais. Enquanto existe um interesse crescente em parte da sociedade em relação aos povos indígenas, ainda é pouco diante dos séculos de histórias mal contadas e meias verdades.</p>



<p>Nosso apagamento na história da formação da identidade brasileira gera interpretações folclóricas sobre nós e nossa visão de mundo e de vida. Se eu parar em qualquer rua de qualquer cidade de Pernambuco e dizer que o estado tem 17 territórios indígenas e mais alguns ainda em resistência, saibam, o espanto é real.</p>



<p>Perdi a conta de quantas vezes, em Recife, precisei explicar que sim, em Pernambuco tem territórios demarcados, homologados, e no meio da conversa ouvir “mas vocês não tem cara de índio não” ou “mas índio de verdade já não existe mais”. Como dialogar sobre povos e territórios indígenas em 2022 enquanto habita no imaginário coletivo a imagem do indígena de1500?</p>



<p>Como explicar, todo dia, que os povos indígenas do Nordeste foram os que mais sofreram com o contato dos colonizadores e suas interferências culturais, de língua e território, com a exposição de doenças, conflitos, escravidão, extermínio do corpo e da memória da gente que já habitava nessa parte do continente que um dia se tornaria Brasil? Esse contato, que dura desde a primeira caravela aportada em nosso litoral, faz com que o Nordeste seja a região do país que em que há mais tempo os povos indígenas precisaram desenvolver estratégias de sobrevivência e resistência.</p>



<p>Como, depois de 522 anos, ainda nos cobram que sejamos iguais? Coisas assim a gente precisaria aprender na escola, mas as crianças chegam em casa no 19 de abril cantando a musiquinha da Xuxa, “índio quer apito”, e de novo reforçando o imaginário desse “índio” fantasioso, distante e fora da realidade geral da sociedade.</p>



<p>Em Pernambuco, somos Pankararu, Pankararu Entre Serras, Atikum, Pankará, Pipipã, Kapinawá, Kambiwá, Truká, Tuxi, Tuxá, Fulni-ô, Pankaiwká, Xukuru, Xucuru de Cimbres e somos mais. Somos múltiplos e ainda não chegamos perto de termos um diálogo de entendimento diante de nossas diferenças e semelhanças. No campo das tradições, estamos conseguindo manter o que nossos antepassados deixaram, mas não estamos lidando bem com a herança colonial que permanece nos colocando às margens da cidadania plena de direitos.</p>



<p>Seguimos sendo os primeiros homenageados e os últimos a serem considerados importantes nas tomadas de decisões e no cenário social e político desde que esses cenários existem no país.</p>



<p>Assim como é difícil começar a entender a perspectiva indígena levando em consideração o processo de colonização, para nós, que vivemos essas questões diariamente, também é difícil e muito cansativo ainda precisar explicar que hoje se usa ‘indígena’ e não “índio”, que não andamos todos nus, que não falamos todos o tupi guarani, que não foi descobrimento, foi invasão. Ainda demora muito pra gente chegar nesse pé de entendimento, pra conseguirmos avançar em temas que nos são também urgentes.</p>



<p>Saúde, educação, infraestrutura, saneamento básico, emprego, segurança alimentar, abastecimento de água, o médico e o postinho de saúde nos são urgentes. Violência conta mulher, fome, abuso sexual, alcoolismo, homofobia, machismos, adoecimento mental e emocional, vulnerabilidades mil em todos os territórios e o que ganhamos são homenagens a nossa resistência.</p>



<p>Até quando a visão romântica e idealizadora de como são os territórios vai encobrir e sustentar tantos problemas estruturais e éticos que pioram dia após dia? Os conflitos no campo estão cada vez mais violentos e as perseguições mais intensas. Os Povos estão crescendo e junto deles os problemas que afetam toda a sociedade somadas as problemáticas que triplicam em caso de territórios indígenas.</p>



<p>Precisamos preservar a memória do que nos fortalece e traçar estratégias contra o que nos enfraquece. Infelizmente, por todos os lados, as violências e violações nos territórios têm crescido consideravelmente e não somos capazes de levantar certos debates e mexer em algumas feridas.</p>



<p>De usina eólica no povo Kapinawá, usina nuclear ameaçando os Pankará e todos os outros povos indígenas e quilombolas, os impactos não reavaliados das usinas hidroelétricas e todo distanciamento que a CHESF impõe aos indígenas e povos tradicionais do Rio São Francisco.</p>



<p>Enquanto isso, o povo Pankararu ainda vive incertezas e muitos boatos sobre a população pagar energia elétrica depois de décadas de linhas de transmissão cortando todo território sem distribuição elétrica adequada e segura, prejudicando escolas, danificando bens e causando acidentes fatais ao longo da história. Já existe, só ao redor de Pankararu, a usina hidroelétrica da CHESF e a usina híbrida de energia eólica e solar, mas não existe fornecimento energético de qualidade à população que vive ao lado das usinas.</p>



<p>Se não bastasse, ronda um burburinho local sobre a vinda de mais uma usina eólica, agora para dentro dos limites da reserva Pankararu e a prefeitura de Tacaratu pretende construir um complexo turístico numa serra que também faz parte da reserva indígena, obra essa avaliada em 9 milhões e, segundo os defensores do projeto, a obra vai acontecer com “a peste dos índios querendo ou não” e que somos “burros em não querer um investimento desse”. Investimento e benefício para quem?</p>



<p>Enquanto a cidade sonha com esse tipo de investimento para o progresso da economia local, minha aldeia Agreste, por exemplo, sonha com a construção do postinho de saúde há mais de quinze anos enquanto as equipes da SESAI atendem na igrejinha local. Meu povo sonha com a coleta de lixo que nunca existiu, com a conclusão de obras que levam anos para finalizar, com o abastecimento de água regular, com geração de renda sem precisar vender ou privatizar o pouco território que nos resta.</p>



<p>É possível um caminho de desenvolvimento social e econômico mais justo e respeitoso com os povos tradicionais, mas nenhum caminho será benéfico sem a nossa participação.</p>



<p>Acredito que ocupar os espaços políticos é sim um bom caminho para fortalecer as pautas indígenas, ninguém melhor para falar de nós do que um ou vários dos nossos.</p>



<p>Recentemente foi lançada uma chapa de candidatura coletiva indígena com representantes de 5 etnias do estado. O Coletivo Indígena vem pela primeira vez organizado para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Pernambuco e essa organização me enche os olhos para como estamos conseguindo nos organizar politicamente. Esse movimento já é histórico e pode despertar mais intensamente a importância dos povos indígenas nos processos eleitorais e de representatividade.</p>



<p>Ao mesmo tempo penso que ainda precisamos muito nos organizar e nos fortalecer internamente enquanto Povos tradicionais. Não é tradição de nenhum Povo violentar seu próprio Povo. Casos graves de homofobia se perpetuam nos territórios com muita naturalidade, assim como violência contra mulheres, crianças e adolescentes também são negligenciadas, silenciadas e esquecidas.</p>



<p>O racismo religioso e a evangelização de muitos indígenas geram vários desentendimentos e conflitos. Estamos em falta com a juventude, em trazer mais gente pra perto dos movimentos, em somar forças com quem está chegando para fortalecer as próximas gerações. Como fortalecer o futuro se não fortalecendo o presente? Quando deixamos de entender que um indivíduo do Povo violentado representa toda uma comunidade violentada, perdemos o senso de coletividade.</p>



<p>São tantas complexidades em cada território que fica difícil acompanhar todas as investidas que ameaçam os direitos coletivos e, muitas vezes, o problema começa com quem deveria nos defender. Espero ansiosa pelo momento em que falarei mais sobre como ser indígena é significante, como nossos povos mantém a sanidade da natureza e como me orgulho de pertencer a uma nação indígena, mas por hora, só consigo deixar meu temor pelo futuro trágico que o progresso anuncia.</p>



<p>*<strong>Bia Pankararu tem 28 anos, é mulher indígena, sertaneja, mãe de Otto, LGBT+, técnica em enfermagem e produtora cultural e audiovisual. Ativista pelos direitos humanos e ambientais. Comunicadora da rede @povopankararu.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><p><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><cite><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></cite></blockquote>



<p><br></p>
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		<title>A batalha pela verdade nas redes sociais na pauta da Conferência Latino Americana de Ciências Sociais</title>
		<link>https://marcozero.org/11892-2/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Nov 2018 15:47:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[Buenos Aires]]></category>
		<category><![CDATA[Clacso]]></category>
		<category><![CDATA[comunicação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Aquiles Lopes (Buenos Aires) Pós verdade, fake news e o direito à comunicação foram temas que estiveram no centro da pauta e das atenções durante a Conferência Latino Americana de Ciências Sociais (Clacso), finalizada neste domingo, em Buenos Aires. O evento reuniu aproximadamente sete mil pesquisadores e militantes dos movimentos sociais do mundo inteiro, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<strong>Por Aquiles Lopes (Buenos Aires)</strong>

Pós verdade, fake news e o direito à comunicação foram temas que estiveram no centro da pauta e das atenções durante a Conferência Latino Americana de Ciências Sociais (Clacso), finalizada neste domingo, em Buenos Aires. O evento reuniu aproximadamente sete mil pesquisadores e militantes dos movimentos sociais do mundo inteiro, incluindo importantes nomes do pensamento crítico, como o português Boaventura de Sousa Santos, o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel e o embaixador do Estado Palestino Elias Sanbar.

A plataforma Mueve, idealizada por um grupo de jornalistas independestes das Américas e Caribe, foi lançada durante a Clacso. A iniciativa reúne conteúdo compartilhado e aberto sobre direitos humanos, democracia e política de toda a América Latina.

Um dos principais nomes do projeto, o professor Cesar Hernandez Paredes, presidente do Centro de Estudos de Comunicação Estratégica do México, explica que a sociedade está diante de um problema jamais enfrentado, que é a disseminação estratégica de conteúdo falso com objetivo político. “Precisamos lutar nesta arena, de forma organizada e eficaz. O Mueve irá reunir dados sobre o que está acontecendo no continente, principalmente violações aos direitos humanos, mas também trabalhar na formação de programadores e geradores de conteúdo, acumulando informações abertas por quem nos acessar”, explica.

A psiquiatra argentina Julia Hermida, que realizou um estudo sobre as estratégias da Cambridge Analytica, detalha que ao entrar em sites de quiz, por exemplo, o usuário das redes sociais abre seus dados sobre idade, região onde mora e preferências pessoais. “Até bem pouco tempo a publicidade realizava pesquisas com grupos focais, para direcionar conteúdo e realizar campanhas mais eficientes. Agora tudo isto está disponível, informado pelas próprias pessoas, em lugares como o Facebook”, diz.

O jornalista e professor chileno Pedro Santander coordenou o primeiro grande estudo sobre política e twitter em seu país, realizado em 2017 durante as eleições presidenciais do Chile, onde o voto é facultativo. O trabalho relacionou as citações no twitter com os candidatos presidenciais, classificando-as em positivas, negativas e neutras, além de avaliar a frequência com que estas menções ocorriam. “Percebemos que o twitter reage muito rapidamente ao conteúdo televisivo. Todas as vezes que havia debates, por exemplo, o número de citações explodia, aumentando o poder de alcance da própria rede”. Com o estudo foi possível prever a vitória do atual presidente chileno o milionário Sebastian Piñera, dono do canal de TV Chilevision. “Então é importante compreender que a estratégia política não se restringe apenas ao debate eleitoral e ao conteúdo que circula nas redes, pois os meios tradicionais ainda são discutidos no ambiente digital, com grande poder de influência”, argumenta Pedro.

Fundador do Le Monde Diplomatique e respeitado como um dos mais importantes jornalistas da atualidade, Ignacio Ramonet acredita que a mídia tradicional está enfrentando uma grande crise de confiança e credibilidade. “Os meios precisam aprender a dialogar com este novo perfil de público, que é bombardeado o tempo inteiro por diversas versões e narrativas. Nossa responsabilidade, enquanto comunicadores, é ainda maior nestes tempos”.
<h2><strong>Memória</strong></h2>
Um grupo de aproximadamente 50 adolescentes conversa baixinho na sala de projeção enquanto o filme não começa. Falam sobre onde ir depois, os preparativos para a final da Copa Libertadores e as paqueras. As janelas de vidro por onde entra uma intensa luz solar, são cobertas por cortinas automáticas que viram parte do cenário e então começa a ser exibido um documentário com oito minutos de duração. O filme mostra os crimes cometidos pela ditadura militar que se instalou no país entre 1976 e 1983.

Para os argentinos os sequestros, mortes, torturas e desparecimentos realizados por agentes do Governo são chamados de “Terrorismo de Estado”, termo presente por todos os lugares da capital argentina. O filme mostra o julgamento dos militares e civis acusados destes crimes, após denúncias de vítimas e testemunhas. Entre os condenados o ex-presidente Jorge Videla, sentenciado à prisão perpétua, falecido em 17 de maio de 2013, na cadeia Marcos Paz.

A projeção acaba, as cortinas são abertas e uma monitora, um pouco mais velha que os jovens espetadores, entra na sala. Ela explica que tudo que foi visto ali é verdade e que a Argentina tem o compromisso em não deixar que tantas histórias tristes, de crimes contra a humanidade se repitam. Uma longa pausa silenciosa se estabelece e alguns jovens se abraçam chocados. O local onde tudo isto acontece é o prédio o de funcionou a sombria Escola da Marinha (ESMA), hoje chamada de Espaço de Memória e Direitos Humanos. O lugar serviu como cadeia para centenas de pessoas, centro de tortura e sala de partos.

Na ESMA, os recém-nascidos eram afastados das mães e doados a militares ou seus parentes, ou simplesmente atirados no rio da Prata, junto com os pais, nos chamados voos da morte. “Até hoje, mesmo após mais de 30 anos do fim da ditadura, ainda estamos tentando reconhecer desaparecidos e encontrar crianças que foram separadas de suas famílias”, diz Estela de Carloto, presidente do grupo das Avós de Mayo.

O Espaço, que tem visitação gratuita, reúne material audiovisual, documentos, fotografias e uma enorme quantidade de conteúdo relacionado à ditadura militar argentina. Também funcionam salas de estudos, onde trabalham pesquisadores e professores, tanto do país quanto convidados, interessados em memória e transição. Tudo é inteiramente mantido pelo governo argentino, que, na atual gestão, chegou a cogitar cortar recursos, mas retrocedeu após pressões das Mães e Avós de Mayo junto ao parlamento. O memorial funciona entre quartas e domingos e recebe, ao menos cinco escolas por semana, chegando a uma média de 250 alunos, entre 13 e 18 anos. “Brasileiros? Sim recebemos muitos aqui, tanto que todos os nossos panfletos e audioguias estão em português”, explica o monitor, logo na entrada.<p>O post <a href="https://marcozero.org/11892-2/">A batalha pela verdade nas redes sociais na pauta da Conferência Latino Americana de Ciências Sociais</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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