Por Aquiles Lopes (Buenos Aires)

Pós verdade, fake news e o direito à comunicação foram temas que estiveram no centro da pauta e das atenções durante a Conferência Latino Americana de Ciências Sociais (Clacso), finalizada neste domingo, em Buenos Aires. O evento reuniu aproximadamente sete mil pesquisadores e militantes dos movimentos sociais do mundo inteiro, incluindo importantes nomes do pensamento crítico, como o português Boaventura de Sousa Santos, o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel e o embaixador do Estado Palestino Elias Sanbar.

A plataforma Mueve, idealizada por um grupo de jornalistas independestes das Américas e Caribe, foi lançada durante a Clacso. A iniciativa reúne conteúdo compartilhado e aberto sobre direitos humanos, democracia e política de toda a América Latina.

Um dos principais nomes do projeto, o professor Cesar Hernandez Paredes, presidente do Centro de Estudos de Comunicação Estratégica do México, explica que a sociedade está diante de um problema jamais enfrentado, que é a disseminação estratégica de conteúdo falso com objetivo político. “Precisamos lutar nesta arena, de forma organizada e eficaz. O Mueve irá reunir dados sobre o que está acontecendo no continente, principalmente violações aos direitos humanos, mas também trabalhar na formação de programadores e geradores de conteúdo, acumulando informações abertas por quem nos acessar”, explica.

A psiquiatra argentina Julia Hermida, que realizou um estudo sobre as estratégias da Cambridge Analytica, detalha que ao entrar em sites de quiz, por exemplo, o usuário das redes sociais abre seus dados sobre idade, região onde mora e preferências pessoais. “Até bem pouco tempo a publicidade realizava pesquisas com grupos focais, para direcionar conteúdo e realizar campanhas mais eficientes. Agora tudo isto está disponível, informado pelas próprias pessoas, em lugares como o Facebook”, diz.

O jornalista e professor chileno Pedro Santander coordenou o primeiro grande estudo sobre política e twitter em seu país, realizado em 2017 durante as eleições presidenciais do Chile, onde o voto é facultativo. O trabalho relacionou as citações no twitter com os candidatos presidenciais, classificando-as em positivas, negativas e neutras, além de avaliar a frequência com que estas menções ocorriam. “Percebemos que o twitter reage muito rapidamente ao conteúdo televisivo. Todas as vezes que havia debates, por exemplo, o número de citações explodia, aumentando o poder de alcance da própria rede”. Com o estudo foi possível prever a vitória do atual presidente chileno o milionário Sebastian Piñera, dono do canal de TV Chilevision. “Então é importante compreender que a estratégia política não se restringe apenas ao debate eleitoral e ao conteúdo que circula nas redes, pois os meios tradicionais ainda são discutidos no ambiente digital, com grande poder de influência”, argumenta Pedro.

Fundador do Le Monde Diplomatique e respeitado como um dos mais importantes jornalistas da atualidade, Ignacio Ramonet acredita que a mídia tradicional está enfrentando uma grande crise de confiança e credibilidade. “Os meios precisam aprender a dialogar com este novo perfil de público, que é bombardeado o tempo inteiro por diversas versões e narrativas. Nossa responsabilidade, enquanto comunicadores, é ainda maior nestes tempos”.

Memória

Um grupo de aproximadamente 50 adolescentes conversa baixinho na sala de projeção enquanto o filme não começa. Falam sobre onde ir depois, os preparativos para a final da Copa Libertadores e as paqueras. As janelas de vidro por onde entra uma intensa luz solar, são cobertas por cortinas automáticas que viram parte do cenário e então começa a ser exibido um documentário com oito minutos de duração. O filme mostra os crimes cometidos pela ditadura militar que se instalou no país entre 1976 e 1983.

Para os argentinos os sequestros, mortes, torturas e desparecimentos realizados por agentes do Governo são chamados de “Terrorismo de Estado”, termo presente por todos os lugares da capital argentina. O filme mostra o julgamento dos militares e civis acusados destes crimes, após denúncias de vítimas e testemunhas. Entre os condenados o ex-presidente Jorge Videla, sentenciado à prisão perpétua, falecido em 17 de maio de 2013, na cadeia Marcos Paz.

A projeção acaba, as cortinas são abertas e uma monitora, um pouco mais velha que os jovens espetadores, entra na sala. Ela explica que tudo que foi visto ali é verdade e que a Argentina tem o compromisso em não deixar que tantas histórias tristes, de crimes contra a humanidade se repitam. Uma longa pausa silenciosa se estabelece e alguns jovens se abraçam chocados. O local onde tudo isto acontece é o prédio o de funcionou a sombria Escola da Marinha (ESMA), hoje chamada de Espaço de Memória e Direitos Humanos. O lugar serviu como cadeia para centenas de pessoas, centro de tortura e sala de partos.

Na ESMA, os recém-nascidos eram afastados das mães e doados a militares ou seus parentes, ou simplesmente atirados no rio da Prata, junto com os pais, nos chamados voos da morte. “Até hoje, mesmo após mais de 30 anos do fim da ditadura, ainda estamos tentando reconhecer desaparecidos e encontrar crianças que foram separadas de suas famílias”, diz Estela de Carloto, presidente do grupo das Avós de Mayo.

O Espaço, que tem visitação gratuita, reúne material audiovisual, documentos, fotografias e uma enorme quantidade de conteúdo relacionado à ditadura militar argentina. Também funcionam salas de estudos, onde trabalham pesquisadores e professores, tanto do país quanto convidados, interessados em memória e transição. Tudo é inteiramente mantido pelo governo argentino, que, na atual gestão, chegou a cogitar cortar recursos, mas retrocedeu após pressões das Mães e Avós de Mayo junto ao parlamento. O memorial funciona entre quartas e domingos e recebe, ao menos cinco escolas por semana, chegando a uma média de 250 alunos, entre 13 e 18 anos. “Brasileiros? Sim recebemos muitos aqui, tanto que todos os nossos panfletos e audioguias estão em português”, explica o monitor, logo na entrada.