Ato contra a celebração da ditadura militar mobiliza manifestantes no Recife

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No dia 31 de março de 1964, quando teve início o golpe militar que depôs o presidente João Goulart, uma assembleia permanente foi instaurada na antiga escola de Engenharia que ficava na rua do Hospício, centro do Recife. Reunidos nesse polo de resistência, estudantes e militantes resolveram sair em passeata, no dia seguinte, até o prédio do Governo do Estado. Mas a caminhada terminou bem antes, na Avenida Dantas Barreto, quando o grupo se encontrou com os militares. O pelotão já chegou atirando para cima.

Marcelo Mário de Melo, jornalista e poeta pernambucano, era aluno do Ginásio Pernambucano na época. Ele estava na passeata junto com os amigos Ivan Aguiar e Jonas Barros, que foram fuzilados pelos militares. “Perdi, ao todo, 27 amigos durante a ditadura militar, entre assassinados e desaparecidos”, contou. Perseguido, preso e torturado pelo regime, no último domingo (31), 55 anos depois do golpe, Marcelo foi ao Monumento Tortura Mais, na Rua da Aurora, centro do Recife. Ali, militantes, políticos, parentes de vítimas do regime e pessoas de vários segmentos da sociedade se reuniram para relembrar os crimes cometidos pela ditadura militar, que jamais podem ser repetidos e, muito menos, celebrados.

Em resposta às declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), que recomendou comemorações no dia 31 de março,  o “ato contra a celebração do golpe de 64” foi puxado no Recife pelo Partido da Causa Operária (PCO) e pelo movimento Nova Esquerda Pernambucana, que se declara apartidário. Outros eventos semelhantes aconteceram em vários estados brasileiros. “Achamos um absurdo celebrar um regime que matou e torturou milhares de pessoas”, disse Victor Assis, coordenador estadual do PCO. “A gente quer reforçar o quanto a democracia e a liberdade de expressão são importantes”, comentou Welber Galdino, ex-militante do PPS e um dos organizadores do Nova Esquerda Pernambucana.

Ato contra o golpe de 64 reuniu manifestantes no Recife

Ato contra o golpe de 64 reuniu manifestantes no Monumento Tortura Nunca Mais, na Rua da Aurora

Na tarde nublada de domingo, enquanto o Palácio do Planalto divulgava um vídeo em defesa do regime militar e o filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), louvava a ditadura no twitter, aos poucos a praça Padre Henrique, onde fica o Monumento Tortura Nunca Mais, ia ficando cheia de pessoas. Muitas vestiam preto em sinal de luto e algumas empunhavam cartazes. Outras trouxeram flores que foram depositadas aos pés da escultura de um homem nu, pendurado em um pau de arara – instrumento de tortura comumente usado pelos militares -, ou sobre as placas no chão em formato de lápides, onde estão os nomes e fotos de mortos ou desaparecidos durante os anos do regime. Havia bandeiras com a frase “Lula Livre”, que ecoou várias vezes durante a manifestação.

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Janaína Pereira trouxe uma placa com a foto e o nome do pai Solon Pereira de Araújo. Ele era delegado e foi preso político durante o regime militar. “Meu pai foi torturado, colocado em uma cela minúscula com apenas um pote de água no chão. Eu e meus irmãos fomos expulsos da escola porque éramos filhos de comunistas. Minha casa foi revirada várias vezes, minha mãe ficou doente”, contou Janaína. Solon foi solto depois de seis meses, mas jamais se recuperou totalmente dos traumas. Ele faleceu há mais de 20 anos. “Não tive oportunidade de conhecer meu avô porque ele morreu dez anos antes do meu nascimento”, comentou a neta, Roseane Pereira, que acompanhava a mãe durante o evento. “Sei que o regime militar deixou marcas profundas na minha família que permanecem até hoje”.

Nascida em Minas Gerais, a índia Pataxó Maria Flor Guerreira aproveitou o microfone aberto para lembrar que mais de oito mil indígenas foram assassinados pela ditadura militar. “Nosso território Pataxó,  hoje homologado, era uma prisão indígena”, ressaltou. A servidora pública Ana Cláudia Oliveira acompanhou emocionada a fala de Maria Flor. “A gente pensa em tudo o que as pessoas sofreram naquela época”, comentou.

Maria Flor Guerreira e Ana Cláudia protestaram contra a ditadura militar

Maria Flor Guerreira e Ana Cláudia protestaram contra a ditadura militar

Entre os políticos e militantes da esquerda presentes, Liana Cirne, professora de Direito que já foi candidata a deputada estadual pelo PT, ressaltou o golpe de 64  como “uma página da história que não pode ser rasgada, mas jamais deve ser comemorada”. “É mais um dia de luta para que nunca mais aconteça”, frisou a deputada estadual do mandato coletivo das Juntas, Carol Vergolino. O deputado estadual João Paulo (PCdoB) lembrou que foi preso duas vezes durante a ditadura. “A luta pela democracia não é somente a liberdade de votar e ser votado, mas de ter uma imprensa livre, de ter a liberdade de se expressar. A ditadura pregou progresso, mas o que houve foi uma grande concentração de riqueza”, considerou.

“Quem mais perdeu foi o povo brasileiro”, disse o jornalista Marcelo Mário de Melo, também analisando as perdas sociais e implicações do regime. “Antes do golpe, o presidente João Goulart tinha assinado reformas sociais como um decreto desapropriando dez quilômetros de terras para efeito de reforma agrária ou ainda um lei de remessas de lucros, que controlava o lucro das companhias estrangeiras que teriam que investir no Brasil”, argumentou.

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Vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira (PCdoB) teve sua história profundamente marcada pela ditadura. Ele foi preso e torturado por mais de um mês e sua esposa também foi barbaramente torturada. A atitude de Bolsonaro, na avaliação de Siqueira, demonstra que a luta pela democracia no Brasil se faz cada vez mais urgente. “As urnas não dão autorização para desfazer a Constituição do país, nem desfazer o espírito democrático do povo”.

A transição da ditadura para o período democrático, no Brasil, foi feita de forma incompleta na avaliação do ex-deputado Federal Fernando Ferro (PT). “Diferente de outros países na América do Sul, a ditadura aqui nunca foi concluída. Porque nos estamentos militares permaneceu uma cultura de formação e de idolatria ao golpe de 64. Por isso ainda é preciso defender e ampliar a democracia”.

Manifestantes deixaram flores no monumento Tortura Nunca Mais

 

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

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