Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo

por Mateus Moraes

Quando chegaram ao Recife, em 17 de dezembro de 2018, os 101 venezuelanos que vieram através do Programa de Interiorização Voluntária Pana (amigo, no idioma dos índios warao) foram recebidos com um tratamento especial.  Mereceram recepção com almoço e autoridades locais, jornalistas os aguardavam para realização de entrevistas, os ônibus que os levaram para conhecer os pontos turísticos da capital pernambucana foram escoltados pela Polícia Militar e voluntários entusiasmados descreviam as novas perspectivas e oportunidades que os imigrantes teriam na cidade em que chegavam para morar.

Alguns refugiados comparam a acolhida a uma recepção presidencial.

Após o protocolo formal recheado de boas vindas e de aparente acolhimento, saíram da Casa de Direitos, local onde receberam – e ainda recebem – assistência psicológica, jurídica e outros tipos de cuidado, e foram distribuídos nas 12 casas de passagem. Nessas casas, os venezuelanos assistidos moraram de 3 a 5 meses na tentativa de facilitar a inserção deles no mercado de trabalho recifense. As residências estavam localizadas nos Coelhos, Santo Amaro, Boa Vista, Encruzilhada e Torreão, bairros que convivem com uma realidade de pobreza e com situações de vulnerabilidade social.

Entre a saída da Casa de Direitos, que funciona no primeiro andar da Universidade Católica de Pernambuco, e a chegada nos Coelhos, primeiro local em que morou no Recife, Franklin Rivas, 31, conta que percebeu a dura realidade da região e que “a coisa não era tão bonita como parecia”.

Segundo o venezuelano, “tinham muitos moradores de rua, iluminação ruim, muita sujeira e clima tenso”, descrevendo a realidade da maior parte da capital. Além da desconfiança em relação à vizinhança, a casa que Franklin, sua esposa e seus dois filhos dividiram com outras duas famílias refugiadas estava bem suja, apesar de estar mobiliada com os móveis necessários para a permanência deles. “Parecia que ninguém ia lá há um mês”, recorda.

O impacto do desemprego

A busca pela segurança financeira através da integração no mercado de trabalho recifense é dura. A começar pelo obstáculo do idioma, já que, apenas uma refugiada, entendia com relativa facilidade a língua portuguesa por ser casada com um brasileiro. O alto índice de desemprego no Recife se tornou uma dificuldade extra. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em novembro de 2019, Pernambuco tem a capital com a maior taxa de desemprego entre as 27 do Brasil. Recife abriga 147,3 mil pessoas desempregadas. Este número representa 17,4% da população economicamente ativa.

Para tentar mitigar o impacto do negativo sobre os refugiados, a Secretaria de Desenvolvimento Social, Juventude, Política sobre Drogas, e Direitos Humanos do Recife (SDSJPDDH), a Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente atenderam representantes de 35 famílias venezuelanas na Casa de Direitos. Os imigrantes tiveram orientações de como acessar à rede pública de saúde e de como realizar o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal a fim de possibilitar o direito ao benefício de programas como o Bolsa Família.

O Bolsa Família tem sido um dos principais auxílios para os venezuelanos entrevistados. Enquanto estavam nas casas de passagem e não tinham que pagar aluguel, o benefício possibilitou o envio de dinheiro a parentes na Venezuela e a aquisição de itens que os ajudam a entrar no mercado de trabalho, a exemplo de um flash para câmera fotográfica semiprofissional, como se verá mais adiante. Após o fim da estada nos lares temporários, o amparo social continua sendo fundamental. Aliado aos trabalhos regulares ou não, ele é responsável por pagar parte do aluguel e/ou bancar necessidades como transporte, alimentação e lazer.

De carteira assinada

Mãe de dois meninos, Steve, de 13 anos, e Manoel, 17, e da menina, Isa, de 15, Andrys Otis é casada com Félix Vicente Ramos, 51. Ambos se conheceram em Roraima e vieram ao Recife após receberem o apoio do Pana. Andrys trabalha como camareira em um hotel em Boa Viagem e só folga nas quintas-feiras, dia que utiliza para resolver pendências pessoais. Ela está com a carteira de trabalho assinada, diferentemente de Félix, que trabalha fazendo diárias como pedreiro e como lavador de carros em um lava-jato próximo ao IMIP.

A família de Andrys e Félix vivem em Água Fria. Crédito: Mateus Moraes/MZ Conteúdo

Ao chegar, moraram no bairro da Boa Vista. Hoje, após o apoio financeiro da Cáritas (uma das instituições responsáveis pela Casa de Direitos) minguar, vivem em uma rua íngreme em Água Fria. Apesar de não receberem mais dinheiro, a Cáritas, que só contou com seis voluntários durante o recebimento dos imigrantes, doou um valor referente a dois meses de aluguel, algo em torno de R$ 1.500, e continuam doando cestas básicas.

Apesar das dificuldades financeiras, o que mais angustia a família é a situação de Isa. A filha se relacionou com um rapaz recifense de 21 anos e saiu de casa sem o consentimento da mãe.

Segundo Andrys, a filha não revela onde está morando e só se comunica via redes sociais. Félix conta que o jovem recifense toma antidepressivos, por isso ele diz temer que a menina esteja usando drogas com ele, já que, quando entra em contato, sempre aparece com os olhos cansados e com a voz lenta. Andrys afirma estar em constante diálogo com a Cáritas a fim de tentar solucionar o problema, mas também diz que ainda não acionou as autoridades policiais.

A luta para empreender

Pai de Paul, de quatro anos, e de Fernanda, de seis, Franklin Rivas cursou Design, mas escolheu trabalhar com fotografia e se considera uma pessoa empreendedora. Servia ao exército quando decidiu sair da Venezuela por temer pela saúde dos filhos. Ele conta que o salário mínimo mensal no país eram 11 mil bolívares e que um quilo de açúcar custava 8 mil. Também diz que o valor para tirar um passaporte no seu país custa perto de 300 dólares (R$ 960 na cotação da época) e que a venda da casa, dos utensílios domésticos e de todos os itens vendidos renderam R$ 250 (menos de 80 dólares).

No Recife, chegou a trabalhar como pedreiro e como pintor. Franklin diz que a possibilidade de fazer esse tipo de serviço é remota, contando que é alérgico e que, por isso, esses trabalhos o deixam muito mal. “O primeiro celular que comprei foi com o dinheiro de 10 diárias reformando casas. Cara, foram 10 dias de trabalho e 30 na cama. Tive uma suspeita de pneumonia, foi terrível”.

Após um tempo trabalhando como diarista em um restaurante, sua esposa Maira Quiaro contraiu Chikungunya e, depois que se recuperou, não conseguiu arrumar outro trabalho. Franklin também está desempregado, tornando o Bolsa Família essencial para sua família. Felizmente, segundo o venezuelano, doações tornaram possível o seu trabalho como freelancer. O notebook e a câmera usados para exercer sua profissão foram doados.

Convidado por uma colega fotógrafa, Franklin chegou a ministrar uma oficina sobre a utilização do flash para gerar efeitos visuais nas fotos. “Foi uma experiência ótima. Espero mais oportunidades como esta. O mercado de trabalho está muito complicado, mas o que eu mais quero é trabalhar com fotografia. É uma paixão”, conta. Através do seu novo canal no YouTube, “Fotógrafo Migrante”, Rivas revela o desejo de inspirar outras pessoas que passam por situações semelhantes a dele.

Na tentativa de inserir os venezuelanos através do empreendedorismo, o Instituto Humanitas coordenou a primeira etapa do “Projeto Reconstruir”, onde a ideia é incentivar a veia empreendedora dos imigrantes que vieram para o Recife. No encontro, 12 participantes partilharam suas qualidades e seus dons que podem vir a se tornar um negócio. Franklin Rivas era uma das pessoas presentes no evento. Seu trabalho como fotógrafo pode ser visto na conta @frf_estudio, no Instagram.

Apesar da participação no projeto, Franklin diz que a legislação brasileira não permite que ele trabalhe como microempreendedor individual. Apesar de atender a todos os critérios financeiros para ser um MEI, o fato do venezuelano não ter título eleitoral (documento exigido para abertura do serviço) impossibilita-o de ser um. Rivas afirma que o problema dificulta o acesso ao trabalho, mas que isso não o desmotiva.

Rivas deu aulas de fotografia, mas legislação não ajuda. Crédito: Mateus Moraes/MZ Conteúdo

“Amigo do migrante”

Segundo a secretária regional da Cáritas brasileira, Neilda Pereira, há uma maior dificuldade na inserção das venezuelanas no mercado de trabalho recifense. Os trabalhos que mais tem integrado os imigrantes são os serviços braçais como, por exemplo, pedreiro, pintor ou faxineira. Um terceiro personagem entrevistado está contratado por uma empreiteira e não quis ser citado na matéria, mas afirmou que se sente agradecido por ter a possibilidade de enviar dinheiro para familiares na Venezuela.

Além das tentativas de integração por parte da Cáritas e do Instituto Humanitas, a OAB-PE, por meio da Subcomissão de Direitos dos Refugiados, fez uma proposição da criação do selo “amigo do migrante”. A proposta se tornou projeto na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). “Fica instituído o Prêmio Amigo do Migrante, destinado àqueles que, no âmbito do Estado de Pernambuco, desenvolvam atividades de acolhimento, e de proteção e defesa dos direitos dos migrantes, refugiados e apátridas”. A benesse deve agraciar pessoas físicas, prefeituras, empresas privadas e instituições de ensino ou de saúde.