Crédito: Natan Nigro

Por Natan Nigro*

Fim da folia, hora de contabilizar os danos. Nunca o slogan do carnaval promovido pela gestão municipal fez tanto sentido. Nas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda (SHO), quem reinou foram os camarotes que funcionaram com a vista grossa do controle urbano do município, os paredões de som que tocavam tão alto que não deixaram vestígio dos clarins e orquestras de frevo, os veículos que circulavam livremente em meio aos blocos, troças e demais agremiações, o comércio ambulante que provavelmente sofreu tanto quanto os foliões e moradores com toda a desorganização e falta de controle, e finalmente os mega camarotes na entrada da cidade que atrasaram a vida e o trabalho de milhares de pessoas que precisavam entrar e sair de Olinda diariamente. Explico os porquês.

A demanda por público no Carnaval de Olinda é crescente, tal qual é a demanda por maximização dos lucros no capitalismo. Neste contexto, o modelo de patrocínio privado do nosso carnaval deu sinal que está batendo em um teto – invisível para alguns, é claro. As consequências disso, porém, são bem reais e demasiadamente nefastas. Multidões, publicidade (gratuita para muitos), e números, muitos números. Com movimentação financeira de R$295 milhões e 3,6 milhões de foliões circulando no Sítio Histórico, a indústria da bebida deve ter lavado as burras – não foi à toa que 120 toneladas de lixo reciclado foram recolhidas das ladeiras de Olinda durante sete dias. O setor de bebidas é a principal fonte de recursos para viabilizar a festa promovida pela gestão municipal, Lupércio não poderia perder esse filão né? Aliás, não só Lupércio, parece que o vice-prefeito também gostou muito do “novo” carnaval de Olinda.

O resultado desse, digamos, “evento”, é que Olinda teve duas festas de carnaval, aquela promovida pela gestão municipal: palcos, shows, decoração “instagramável”, infraestrutura de grande porte, camarotes e uma multidão de gente que se apertava nas ladeiras entre baterias de percussão, e paredões de som mecânico. A outra festa foi a festa do povo: agremiações tradicionais impedidas de circular pela quantidade de gente nas ladeiras, percursos interrompidos em meio a confusão do excesso de comércio ambulante nas passarelas naturais do carnaval, orquestras de frevo, batuques de maracatu e afoxé abafados pelos sons de paredões e caixas de som, circulando nas ladeiras e nas janelas das casas e sobrados. Pois bem, em 2020 essas duas festas entraram em rota de colisão. A pergunta é: uma sobrevive sem a outra ou de fato são de natureza incompatível?

Carros e paredões de som acompanhando grupos percussivos prejudicaram a circulação de foliões e blocos pelas ruas de Olinda Crédito: Natan Nigro

A precariedade do trabalho e a realidade do comércio ambulante para que os foliões tivessem cerveja, água e comida ao longo dos quatro dias de festa é de longe uma das mais sinistra das consequências do modelo da festa. Famílias inteiras, desde idosos até crianças, acamparam nas ladeiras e travessas do Sítio Histórico de Olinda (SHO) durante uma semana debaixo de chuva, sol, urina e suor para garantir pagar suas dívidas no final do mês. Tudo sem a mínima condição de higiene necessária para garantir dignidade em seu trabalho, e também segurança alimentar para o consumidor. Eles trabalharam de 12h a 14h por dia para garantir rentabilidade, e dormiam na rua porque não podiam se dar o luxo de custear um local para se abrigar ou se deslocarem de suas casas para o SHO todos os dias.

Catadores de lixo coletaram 120 toneladas de material reciclável ao longo de sete dias de festa, da abertura à quarta feira de cinzas, um número certamente surpreendente. Em um arroubo de exaltação ao feito inédito, a gestão lançou o bordão no instagramável: “Resultado dos 3 por 10”. A ousadia me deixou com algumas perguntas: Quem é que fez a gestão de todo esse lixo? Em que condições as pessoas que coletaram todo esse lixo trabalharam? Haviam crianças e idosos trabalhando na coleta do lixo reciclado, isso não me parece um feito incrível. Nem todas as respostas são fáceis de se conseguir, então resolvi tentar ir mais fundo. Em cinco minutos de conversa, dois catadores me trouxeram algumas elucidações: podem ganham até R$ 1.500,00 nos quatro dias de festa, mas para isso precisam colocar filhos e netos para trabalhar juntos, com até 12h de jornada carregando sacos de lixo pelas ladeiras. Trabalhando sozinhos mal conseguem fazer R$ 1.000,00 no carnaval. Aparentemente, a maioria trabalha em regime de cooperativa, mas não são cooperativados, fornecem a matéria prima e a cooperativa faz a gestão da reciclagem.

E aqui, cabe fugir um pouco ao tema novamente, outras perguntas surgem, naturalmente: Será este um modelo de sustentabilidade e desenvolvimento social e ambientalmente ético? Pode ser considerado empreendedor o trabalhador de coleta de lixo reciclado? Se sim, em quais condições? Sem o carnaval, como vivem essas pessoas? Como desenvolver eticamente o serviço de coleta de lixo reciclado, sem necessitar de toda a parafernalha jurídico-legal de uma empresa ou cooperativa, sem trabalho análogo ao escravo, infantil, e/ou degradante?

Voltando ao nosso tema, o Sítio Histórico de Olinda, como todos sabem, é tombado pelo IPHAN como patrimônio histórico nacional e é titulado pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade, mas mesmo assim até hoje as gestões municipais não introduziram nenhuma ação de contrapartida dos patrocinadores do carnaval na linha de educação patrimonial ou gestão e zeladoria do patrimônio construído. O que será que falta? Que os paredões de som deixem os monumentos históricos de Olinda aos escombros? Que a especulação imobiliária do mercado de aluguel temporário transforme o SHO em uma cidade fantasma? Que o uso abusivo dos sobrados do SHO provoquem catástrofes de grandes proporções? Já imaginou o que um incêndio num sobrado da Rua de São Bento durante o carnaval o significaria?

Os espaços privados de day use estão proliferando e se tornando uma característica do Carnaval olindense. Crédito: Natan Nigro

Este ano, tivemos um número recorde de focos de animação não oficiais em imóveis privados, mais popularmente conhecidos como camarotes ou day-uses, a maioria com as características clássicas dos camarotes. Apesar da variedade de formatos, o fornecimento de serviços de open bar e espaço VIP para brincar o carnaval de rua longe das ruas foi unânime. O aluguel do SHO está mais caro, proprietários de imóveis estão decidindo abandonar o aluguel fixo pelo temporário durante o carnaval. Se um dia acusaram a SODECA de querer transformar o SHO em cidade dormitório, digo que esse modelo de carnaval está transformando o SHO numa cidade morta-viva, que morre na quarta feira de cinzas, e renasce no sábado de zé pereira.

Os moradores, sobretudo, são os mais atingidos com todos esses “eventos”. Não os moradores no sentido das pessoas físicas, mas a ideia do que representa esse conjunto de pessoas e sua importância para sustentar a vida cotidiana e a vitalidade do Sítio Histórico de Olinda. A base da vida de uma comunidade é maior do que a soma de todas as pessoas, é precisamente a construção para além delas: sentido de identidade, laços de amizade e o diálogo construído na busca por resolução dos conflitos de interesse que nascem naturalmente da vida em comunidade.

E agora? O Carvalheira na “Ladeira” já iniciou as vendas de ingressos para 2021, a pedra fundamental para o próximo carnaval foi lançada pela gestão municipal com o anúncio, num clamor pelos patrocinadores, dos números do carnaval 2020. Contudo, é hora de contabilizar os danos ao patrimônio histórico e cultural, o balanço entre investimento privado e gastos públicos com os “frutos” da folia, e sobretudo, avaliar o impacto das duas festas à algo que é quase intangível: a ideia de comunidade que representa o Sítio Histórico de Olinda. Para além destas vicissitudes do cotidiano no calendário carnavalesco Olindense, urge a hora de se reconstruir o debate sobre o carnaval de Olinda. É inadiável a necessidade de se fazer uma reflexão profunda sobre as natureza de sua existência, avaliar sua travessia através do tempo e espaços e traçar ponderações sobre o futuro dessa que é uma das mais genuínas manifestações populares que uma nação poderia construir

* Folião, morador do Sítio Histórico de Olinda e coordenador da Sociedade Olindense de Defesa da Cidade Alta