Empresa de foragido da Justiça recruta operários em Recife. Será golpe?

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por Inácio França e Mariama Correia 

Por volta das 7h desta quarta-feira (30), uma fila de desempregados ocupava parte da calçada em frente a um espaço de locação de salas no bairro do Espinheiro, no Recife. Eles aguardavam o processo seletivo da Midas Incorporadora e Investimentos LTDA, empresa com sede em São Paulo, que anunciou vagas para a construção de um shopping em Miami, nos Estados Unidos. Causou desconfiança entre os candidatos, contudo, o fato da empresa pedir R$ 180, pagos em espécie, para cobrir custos de um exame psicossocial.

A desconfiança seria ainda maior se os candidatos soubessem que um dos sócios da empresa Midas, Willams da Silva Hardman, é foragido da Justiça do Rio Grande do Norte desde janeiro de 2017, quando o juiz Raimundo Carlyle de Oliveira Costa, da 3ª Criminal de Natal, decretou sua prisão preventiva num processo que correu à revelia. O crime do qual ele é acusado é estelionato, o que reforçaria as suspeitas de que a seleção de operários é uma fraude.

O processo de estelionato em Natal tem como vítima Antônio Carlos Souza Marques, cujo nome aparece como diretor da Associação dos Diabéticos e Hipertensos do Rio Grande do Norte. A Marco Zero Conteúdo tentou, sem sucesso, fazer contato com o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) e a Polícia Civil potiguar para obter mais informações quanto aos detalhes do golpe, investigado inicialmente pela Delegacia Especializada em Falsificações e Defraudações.

Para evitar lançar suspeitas contra um homônimo, a Marco Zero verificou se o foragido da Justiça potiguar seria a mesma pessoa que aparece como sócia da empresa que está recrutando pessoal e se apresenta como presidente da empresa e sócio-administrador da Midas Incorporadora e Investimentos, segundo cadastro do CNPJ da Receita Federal.

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A confirmação só aconteceu na manhã desta quinta-feira (31). Trata-se do mesmo Willams da Silva Hardman, portador do CPF  054.086.454-44. A única discrepância é que, no processo do Rio Grande do Norte, o  nome aparece grafado como Williams, com adição de um “i” no primeiro nome, o que pode ser explicado pelo fato dele nunca ter sido encontrado pela Polícia.

Além do processo criminal, o nome de Willams da Silva Hardman é listado como requerido em um processo trabalhista instaurado em 2015, em São Paulo.

Oferta sedutora

A Midas Incorporadora anunciou as vagas em grupos de Whatsapp administrados por representantes da empresa. Em apenas um deles  há mais de 140 trabalhadores pernambucanos. Pelo aplicativo de troca de mensagens, a empresa informou a abertura de 600 vagas de emprego para construção de um shopping em Miami, com salários de R$ 6 mil a R$ 10 mil, pagos em dólar. Todos os custos, incluindo hospedagem, alimentação, passagens para os Estados Unidos, seriam cobertos pela empresa, que também se comprometeu a financiar um curso de inglês e espanhol para os selecionados.

A única exigência para os candidatos foi o pagamento, em espécie, de uma taxa de R$ 180, que serviria para cobrir despesas de um exame psicossocial. O valor seria reembolsado no fim do recrutamento para os que não fossem selecionados. Esse mesmo argumento foi usado com profissionais do município de Suzano, no estado de São Paulo, no começo do mês, mas eles não receberam os reembolsos até agora, como noticiou o portal Suzano Hoje.

As entrevistas de emprego no Recife começaram na terça-feira (29). Nenhum dos candidatos entrevistados na fila do recrutamento da última quarta-feira (30) sabia dizer o nome do suposto shopping para o qual a empresa estava recrutando profissionais. Mas, mesmo com dúvidas sobre a veracidade das promessas, as vantagens oferecidas pela Midas Incorporadora atraíram rapidamente os pernambucanos, que enfrentam um mercado onde a taxa de desemprego foi superior aos 16% de outubro a novembro do ano passado, segundo dado mais recente do IBGE.

“A gente desconfia, né moça? Mas o que se pode fazer? Não tem emprego aqui”, disse um dos candidatos, um pedreiro de 53 anos que está desempregado há um ano. “Não tenho medo de ir para fora do país. O que não dá é pra ficar sem dinheiro aqui”, comentou outro candidato, que é pintor, tem 44 anos e está desempregado desde 2017. Os participantes do processo seletivo preferiram manter a identidade em sigilo para não serem prejudicados no recrutamento.

Outro candidato disse que recebeu um calendário pelo Whatsapp, que mostra a realização de recrutamentos da empresa em Fortaleza (CE), de 23 a 26 deste mês, e em Salvador (BA), a começar no dia 4 de fevereiro. Além do aplicativo de troca de mensagens, os profissionais também disseram que ficaram sabendo das vagas pela agência do trabalho da Avenida Rio Branco, no Recife Antigo.

Nesta quarta-feira (30), a reportagem foi até o local de seleções, mas não conseguiu entrevistar nenhum representante da Midas Incorporadora. “Só quem pode falar é o responsável pela empresa”, disse um dos executivos presentes, que entregou um pedaço de papel com um telefone de São Paulo e o nome de Willams Hardman. Ninguém atendeu as ligações. Outro executivo, que estava dentro do prédio onde acontecia o recrutamento, informou que Hardman estava em uma coletiva de imprensa no Recife com a prefeitura local e o Sine (Sistema Nacional de Emprego), mas não soube dizer o local do evento. Tanto a Prefeitura do Recife quanto o Sine negaram a realização de qualquer coletiva de imprensa com o empresário.

Na noite de quarta-feira (30),  os organizadores do recrutamento informaram, novamente por meio de uma mensagem de Whatsapp, uma mudança no local de aplicação dos testes psicossociais, que deixa de acontecer no espaço locado no Espinheiro e muda para o auditório do Hotel Jangadeiro, Boa Viagem, porém anunciam que, “no local das entrevistas haverá um ônibus para levar todos vocês, quem tiver transporte próprio poderá ir direto ao novo endereço”.

Midas

A Midas Incorporadora abriu cadastro na Receita Federal em 24 de maio de 2018. O endereço informado ao Fisco fica em um empresarial da Avenida Paulista, em São Paulo. Não foi possível identificar o telefone da portaria para confirmar a existência de uma empresa ativa com esse nome no local. No cadastro da Receita também há um telefone de São Paulo que não pertence à Midas. É de uma empresa de equipamentos chamada Locar, que negou qualquer vínculo com a incorporadora.

A página do Facebook da empresa informa um segundo endereço, também em São Paulo. No local funciona um coworking, espaço que abriga vários negócios. A portaria do coworking confirmou a existência da Midas Incorporadora e chegou a transferir a ligação para a empresa, contudo todas as pessoas que atenderam informaram que não eram contratadas da Midas, porém do próprio coworking. Repetimos a ligação três vezes sem conseguir o contato.

Também tentamos falar com outros executivos citados pelos participantes dos grupos de recrutamento no Whatsapp. Um deles é Jonathan Ferraz, que se apresenta como diretor executivo. Ele chegou a atender nossa ligação, mas antes de esclarecer questões sobre a seleção dos trabalhadores, a conexão foi interrompida. Depois disso, ele não voltou a atender as chamadas.

Outro contato informado pelos trabalhadores pernambucanos é o da empresa New Orizont, de Sérgio Noyama. O e-mail da empresa New Orizont, que é de São Paulo e atuaria na construção naval, foi apontado para envio dos currículos. A New Orizont já teria atuado em obras no Japão e na Refinaria Abreu e Lima, em Suape, segundo descrição da empresa feita pelo próprio Sérgio Noyama no Linkedin.

Na Receita Federal, o CNPJ da New Orizont aparece com o nome de S L da Cruz Noyama. O endereço fica no município de Suzano, em São Paulo, onde há uma residência de acordo com as imagens do Google Street View.

A Marco Zero compartilhou as informações apuradas com a Polícia Civil, a Prefeitura do Recife, o Governo do Estado e o MPT-PE, no sentido de alertar sobre os riscos de possíveis danos aos trabalhadores pernambucanos, que nesta quinta-feira (31) começam a pagar a taxa de R$ 180 cobrada pela empresa.

 

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

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