Lirinha. Crédito: Jonas Tucci

Por Chico Ludermir, parceira da Marco Zero com o @Programa Entre

Com colaboração de Mekson Dias

Depois de avisar pelo whatsapp que eu acabava de chegar, espero do lado de fora de uma casa no Alto da Sé, em Olinda, Lirinha me receber na porta. Sorridente, me convida para entrar na residência em que estava passando aquela temporada, às vésperas do carnaval, período em que fez alguns shows no Recife e em Arcoverde. Com a vista do entardecer do sítio histórico olindense, converso com o vocalista da banda Cordel do Fogo Encantado, banda marco de uma geração que redescobiu o sertão pernambucano, por cerca de uma hora.

Lira não tem pressa. Reponde com tranquilidade, se demora. Digere as perguntas e elabora as respostas sobre duas décadas de carreira e banda. Deambula, mas não se esquiva, sobre o hiato de sete anos do Cordel, o que chamou de “sono profundo”. “Estávamos dentro da terra”, comenta. O poeta nunca economiza nas metáforas. Muitas vezes dá a impressão de que fala em versos. Eu vou no seu tempo.

Desde que lançou, ao lado da banda, o quarto CD, “Viagem ao Coração do Sol”, em 2018, Lirinha tem rodado o Brasil e o mundo em turnê que se encerra este ano. As expectaticas de um público fiel, que vive os shows como um ritual, foram enormes para esse reagrupamento. E continua. Sobre o futuro de grupo, o multiartista aponta: “A ideia é se recolher para construção de um novo espetáculo que, provavelmente, virá com um novo disco”.

Nessa entrevista, falamos ainda sobre representações do Nordeste e do Sertão, magia e a presença de uma mulher (Isadora Melo) no grupo. Lirinha reflete sobre questões políticas, existênciais e sobre a “liberdade” que dá nome a uma das faixas do disco mais recente. “Para fazer arte é necessário liberdade”, afirma. Como não poderia faltar, Lirinha também respondeu quem precisa entrar.

Confira abaixo a entrevista completa. E escute nesse link a entrevista no podcast do Programa Entre.

Nesse show da turnê do Viagem ao Coração do Sol” vocês têm alguns momentos de textos falados/declamados. Em um deles, você se aproxima de Rafa Almeida (percussionista) e provoca: “Rafa Almeida, diga para o público porque Cordel voltou”. Pegando esse mote, eu queria lhe devolver essa pergunta. Lirinha, um ano e meio depois do retorno da banda, nos diga por que o Cordel voltou?

Esse momento do show (com Rafa Almeida) representa uma ligação mística que a banda tem com esse exercício artístico. De qualquer forma, cruzamos com o mercado musical, sempre. Não temos como não nos relacionarmos com isso, sabe? E a volta da banda significa um monte de coisa dentro desse mercado. É a volta de um grupo icônico dentro de um cenário musical. Mas tem outras coisas que importam muito para gente, que são difíceis de serem explicadas com as palavras. É: “explica, Rafa, algo que não é racionalmente explicado”. Porque a música “Pedrinha” (que eles tocam como resposta a essa pergunta durante o show) é uma música que chegou para o Cordel do Fogo Encantado pela presença de Rafa e Nego Henrique (percussionista), que são do Candomblé. E essa música, ela fala sobre determinadas forças místicas, representada pelo símbolo da uma pedrinha. Uma pedrinha miudinha, mas um lajeiro tão grande também. Eu quero uma forma de explicar que a escolha do nome “Cordel do Fogo Encantado” tem uma ligação com os encantados. Esses encantados estão presentes em muitas culturas que fazem parte da origem do Cordel do Fogo Encantado, como por exemplo, a Árvore dos Encantados, do Povo Xukuru. Para onde viajam as pessoas que desencarnam? Onde estão os antepassados? Então para a gente, para mim como um porta-voz do grupo, como vocalista, como o responsável por falar com o público, eu trago essa referência, essa Informação, essa explicação mística do retorno do Cordel. Uma das coisas que mais motivou à volta da banda foi que precisávamos novamente essa reunião para gerar o que esse grupo gera – que é essa força. Então neste momento específico da sociedade, que teve um levante de intolerância religiosa nos últimos anos… também é algo que se comunica diretamente com isso, né? Os terreiros de candomblé que estão sendo perseguidos de uma forma quase autorizada oficialmente pela postura dos governantes atuais… E esse é um símbolo muito forte para nós. Então a música “Pedrinha” e esse momento do show representam, da forma mais abrangente, todos os motivos da nossa volta.

Viagem ao coração o Sol” foi lançado nesse contexto demasiadamente adverso da política nacional – pós-golpe em Dilma, às vésperas da prisão de Lula e no ano de eleição de Bolsonaro. O primeiro single que vocês lançam tem “Liberdade” no nome – “Liberdade, a Filha do Vento”. Obviamente não é um acaso. A política, no seu sentido amplo, é o tempo inteira evocada no CD e no show, em diversas formas que a política se manifesta e se pratica. Aproveitando o símoblo “liberdade”, eu queria te provocar: o que é a liberdade? Onde se pode chegar com a liberdade? Onde não se pode chegar sem a liberdade?

É um tema que a própria filosofia tem dificuldade de definir, de entender essa palavra “liberdade”, porque ela, sem dúvida alguma, é a principal condição de identidade do ser humano, como ser humano. Em quase todas as definições do que é “ser humano”, a liberdade tá presente como definição principal. Nós somos diferentes de outros seres porque temos poder de escolha, criamos novos mundos, temos a imaginação, temos sonhos e os caminhos diferenciados de um para o outro. E isso tudo circula nesse conceito da liberdade. É interessante que ela define o ser humano, mas estamos acorrentados por todos os lados. A nossa experiência existencial é de escravidão e isso gera um conflito que talvez só esse universo da arte pode entender, pode se aproximar. Porque a arte, eu entendo, como a criação de outro espaço-tempo, como a abertura de uma fenda para que outro mundo apareça. Para fazer o que chamamos de artes, é necessário a conversa com a liberdade. É necessário um acordo com a liberdade. É necessário que você tenha algum contato com essa entidade chamada liberdade.

No caso do Cordel do Fogo Encantado, nós optamos por uma linguagem metafórica, herdada da poesia, que motivou o surgimento do grupo. O grupo nasce de um recital de poesias. Nós escolhemos que a nossa comunicação seria através da poesia, através da metáfora, através do sonho. O espetáculo (da turnê de “Viagem ao Coração do Sol”), é aberto com uma fala de Isadora (Melo), convidada pelo grupo para esse retorno da banda. Ela diz: “Precisamos falar com a filha do vento a quem chamam liberdade”. O espetáculo inteiro é essa caminhada para encontrar esse ser chamado liberdade e conversar com ela. Sei que ser livre é querer o outro livre também. Ser livre é entender que a sua dor é a dor do mundo, ou o contrário, que a dor do mundo é a sua dor. Então a liberdade tem essa característica que é a da impossibilidade de ser livre sozinho, numa existência que estamos juntos. São esses os conflitos que geram o material poético do disco do Cordel do Fogo Encantado.

Tem uma coisa da liberdade muito interessante que é a apropriação, por exemplo, que os Estados Unidos fizeram dessa palavra. Eles têm uma propaganda nacionalista-imperialista americana de que eles alcançaram essa liberdade – numa interpretação da liberdade individual. Tem até uma estátua que é a Estatua da Liberdade. E nós não somos bobos. Nós sabemos que isso não é real, que a população americana vive em suas prisões, principalmente nessa estrutura capitalista. É a apropriação de uma imagem muito forte, mas que continua apenas deixando o assunto mais sem solução ainda, porque definitivamente é uma liberdade que não é real.

Lirinha: “A escolha do fogo é por seu poder de transformar as coisas, transformar a matéria”. Crédito: Divulgação

Quando você apresenta os outros integrantes, durante o show, você faz questão de territorializá-los. Em comum, o “Nordeste Brasileiro” e a “América Latina”. Eu queria te provocar acerca desse entendimento do que é ser nordestino e ser latino-americano. O que essas indentidades representam, ao ser ver, nesse nosso momento histórico?

O Nordeste Brasileiro, ele é uma região que vive movimentos de aprisionamento de várias formas. Uma das formas mais fortes é o aprisionamento estético que tentam nos submeter. O Nordeste parece uma invenção. Tem-se uma ideia do Nordeste como algo ligado ao passado, tradicionalista, arcaico e isso tem uma função de domínação, de manutenção da estrutura de opressão do que vivemos. Eu não tenho dúvida que o mundo melhor que desejamos passa pela libertação do Nordeste. Me sinto mais à vontade de falar nesse ambiente artístico. Você falou sobre fronteiras borradas entre arte e política. Hoje eu não tenho dúvida que elas são muito próximas, porque eu entendo a política como uma arte de harmonização das diferenças. Como conduzir sonhos diferentes? Como reunir sonhos, desejos e objetivos diferentes? Eu acho que a arte é isso também. Fazer uma música é uma harmonia de instrumentos. Um espetáculo, uma performance… reunião das diferenças naquele corpo, naquela mensagem. Por isso é tão próximo. Por isso, não consigo conceber uma uma arte que não seja, no nosso país, ou em qualquer outro lugar, uma ação política sabe? Eu percebo que a nossa feitura artística no Nordeste é, antes de ser apresentada, carregada de símbolos definidos. Eu era bem mais arredio, mais crítico ao conceito, por exemplo, de regionalista. Toda vida, a minha banda foi enquadrada como regional. Eu até relaxei um pouco mais quando um jornalista me explicou que isso vinha de uma polêmica da literatura. O movimento regionalista que se contrapôs ao modernismo, em forma de manifesto, né? E aí cristalizou um pouco isso. O modernismo é um movimento forte no Sudeste, né? Continuamos ainda, na literatura oficial, na escola, tendo que engolir que foi o maior movimento, o principal e mais importante movimento no Brasil. A semana de arte de 22. Formado só por homens brancos…

Dentro de um teatro fechado

Dentro de um teatro fechado… E continuam tentando, de alguma forma, solidificar que isso foi o ápice da nossa ação artística. E aí logo após isso, vem o movimento regionalista que se manifesta contra. E aí fica assim: o Nordeste tradicional, arcaico, ligado ao passado, com amor pelas estruturas coronelistas… e o Sudeste antenado, cosmopolita, aberto, o que é uma grande mentira. Não existe isso. Você sabe mais do que eu dos movimentos de vanguarda artísticos feito no interior do país, na periferia do nosso país, no sertão.

Ainda sobre lugares e identidades, Lirinha, quando te ouço falar de sertão, eu não penso somente em território. Eu penso em um modo de vida, de existência. Penos em um estado de presença. Eu queria então te perguntar como é que você entende o sertão.

O sertão é um sonho. Alguns escritores dedicaram muito tempo a pensar sobre esse lugar, entre eles, Guimarães Rosa. Ele construiu frases inesquecíveis sobre o sertão: “O sertão está em toda parte”; “O sertão está dentro de nós”; “o sertão não é um lugar geográfico”. E eu não tenho dúvida de que o sertão, ele está dentro de todas as pessoas, que existe um sertão em cada um. A minha percepção é de que a nossa existência é de costas para o interior. Geograficamente isso é perceptível. Nós somos voltados para os portos, para os centros.

Eu queria relembrar o momento do show em que você apresenta uma maraca Xukuru, às vesperas de começar a cantar “Antes dos Mouros”. Você diz algo como: “Quando essa maraca se move, todo o mundo se movimenta”. Para além de sua relação com o povo Xukuru de Ororubá (que vivem em Pesqueira, cidade vizinha a Arcoverde) eu queria que a gente falasse sobre magia e sobre espiritualidade.

Como eu te disse no começo da entrevista, em relação à música “Pedrinha”, o Cordel do Fogo Encantado optou por esse caminho. O título define muita coisa, né? O nome, a palavra, definem muita coisa. – embora a gente viva um momento em que a palavra parece não ter mais o poder de mover as coisas. No nosso nome, o “Encantado” é isso. São os encantados. A escolha do símbolo fogo é por suas características. Por sua dança – a dança do fogo. Por seu poder de transformar as coisas, transformar a matéria. A palavra “cordel” vem como sinônimo de história. Então é a “história do fogo encantado.” A gente conta essa história…

O encantado é esse lugar mágico. Esse lugar místico. É a nossa opção de linguagem. A apresentação é toda uma uma grande evocação dessa relação com o místico. Quando nós pensamos em tudo do espetáculo – luz, projeção… tudo é voltado a criar um outro espaço- tempo. Durante aquele tempo – uma hora e meia – nós vamos fazer uma viagem, nós vamos criar um outro mundo, que é o mundo da poesia. Essa é a performance do grupo. Eu também tive que entender isso. Eu participo como uma espécie de MC dessa coisa. Nós trazemos os nossos antepassados. Nós também trazemos a profecia, como poesia sobre o futuro. Mas é importante falar sobre isso: a profecia também foi apropriada politicamente, principalmente por grupos religiosos, pelo catolicismo e por outros grupos, como algo de verdade, algo que detém a verdade – até a bíblia fala sobre o cuidado com os falsos profetas. Mas o que falamos de profecia é poesia sobre o futuro: a liberdade. E o Cordel também pede isso. A liberdade para falar sobre um futuro que não necessariamente é a verdade. Por isso pedimos para Rafa Almeida para explicar porque que nós voltamos, cantando Pedrinha.

Lirinha: “Quando essa maraca se move todo o mundo se movimenta”. Crédito: Divulgação

Nessa turnê tem uma personagem nova que é a cantora Isadora Melo. Mais do que uma entrada individual, Isadora representa a presença de uma mulher numa banda composta somente por homens. O que que vocês buscaram em Isadora e também o que ela trouxe para vocês nessa turnê?

É. Isadora traduz simbolicamente muitas coisas. Ela representa muitas respostas desse nosso retorno – do motivo desse retorno e do que desejamos com esse retorno. Teve esse hiato – é assim que chamam – desse período. Poeticamente nós construímos um texto na volta. Dissemos que estávamos num profundo sono. Estávamos dentro da terra, num profundo sono. Foi o período que o Cordel não estava atuando ao vivo. Tiveram muitas reuniões para decidir essa volta. Eu, por exemplo, vim para Recife e fiquei um ano e meio aqui. Morando sem as pessoas saberem que o Cordel estava no processo de retorno, em 2017. Nós ficamos elaborando, compondo, fazendo “Viagem ao Coração do Sol” em segredo, vamos dizer assim. Porque era muito importante pra gente não misturar esse momento, essa criação com o retorno aos palcos, que era uma cobrança que o mercado de música tinha, sempre teve, durante esse tempo todo que a gente passou parado. Tiveram muitas propostas durante esse tempo da banda retornar. Com show especial, aniversário, sei lá; São João de Arcoverde, aniversário de Recife, aniversário de São Paulo; fazer uma apresentação especial e tal… Nunca parou de ter convite para a banda e a gente não abria essa possibilidade. Então, quando decidimos voltar, resolvemos não trazer essa expectativa do show, de circulação de shows, para a gente poder fazer um disco, criar história, uma coisa… a energia toda voltada para isso.

E aí como seria essa volta? Todos mais velhos, um mundo muito modificado. Nesse período que a gente passou sem tocar aconteceu a revolução tecnológica da internet. Exatamente nesse período. E muita coisa foi mudada na sociedade, no mundo com os novos recursos de comunicação. A música teve uma uma mudança muito grande. A forma como se distribui, a forma como as pessoas se relacionam com feituras artísticas… E aí nós pensamos muito em um símbolo dessa volta. Pensamos em convidar uma pessoa que fizesse parte de uma geração que começa a sua atividade artística quando o Cordel para. Pensamos em trazer uma mulher para fazer parte dessa turnê de um grupo só de homens. Porque ela nos ajudaria nssa caminhada a entender esse novo momento, esse novo mundo que encontraríamos. E foi Isadora.

A gente começou a ver vídeos dela e dos trabalhos dela e fizemos o convite. Foi muito importante, porque ela também assumiu a personagem que era “a filha do vento”, que também é conhecida como “liberdade”, na nossa narrativa. Ela abre o espetáculo. É tão simbólico para gente quanto aquele momento de “Pedrinha” e de Rafa. É também uma mensagem. Ela que nos conduz nessa volta. A personagem dela nos tira desse fundo da terra, desse profundo sono, e nos leva e nos guia em direção ao coração do Sol, que é a metáfora do espetáculo. E acho importante dizer que, embora tenhamos procurado uma mulher – era importante que fosse uma mulher – hoje nós já entendemos que esse convite é por essa pessoa. Por tudo o que ela representa e nos traz artisticamente, entende?

Cordel do Fogo Encantado no palco. Crédito: Divulgação

Eu queria te fazer uma pergunta de prospecção de futuro: queria saber o que vai acontecer depois dessa turnê que vocês estão encerrando? O Cordel continua?

Sim. A gente finaliza nesse ano a turnê do “Viagem ao Coração do Sol” e a ideia é se recolher para construção de um novo espetáculo que, provavelmente, virá com um novo disco. A ideia é essa. Mas não sabemos ainda quando e como vai acontecer.

Vou te fazer a pergunta que faço a todos os meus entrevistdados e entrevistadas nesse programa “Entre”. Entrar é ocupar espaço e abrir espaço. É uma pergunta voltada para o projeto de mundo e desejo de cada um que passa por aqui. Nesse momento, nesse contexto, quem são as pessoas, quem são as ideias, sujeitos, corpos que precisam entrar? Quem precisa entrar?

Difícil né? Porque parece que eu, sei lá… parece que tenho um domínio dessa porta, não sei… Mas quem precisa entrar, eu acho, é que quem está fora. Porque percebo que tem uma estrutura que deixa algumas coisas fora da construção e das decisões do nosso mundo. Eu mudo tanto – não de opinião –, vou aprendendo tanta coisa, tou tão atento a outras existências que não são os seres humanos também, sabe? Os animais, as outras formas de vida, também, que eu já não consigo ter uma visão humanista do mundo, sabe? Então acredito que tem que entrar os que foram colocados para fora desse barco do tempo, desse mundo… Acho que é isso que precisa entrar.