Guia prático do ódio: como o pseudojornalismo da grande mídia nos trouxe até aqui

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O clima de intolerância que toma as ruas, escritórios, bares, teatros e praças do Brasil foi construído pela manipulação da realidade produzida nas redações de jornais, TVs, rádios e redes sociais da grande mídia brasileira. Trata-se de um trabalho contínuo, e muitas vezes sutil, realizado ao longo dos anos, mas que agora deixou cair o pano de sua desfaçatez.

Podemos dizer que há um sistema organizado de inoculação do ódio social diretamente ligado ao modo como a grande mídia narra as disputas legitimas do processo de construção política do Brasil. Comprometida com os interesses econômicos do capital financeiro e da elite liberal politicamente conservadora, as grandes empresas de comunicação do país se empenham diuturnamente em dirigir e enquadrar o debate nacional.

Existe um não-proclamado guia prático do ódio. Ele prega em sua essência a divisão da sociedade em bons e maus; a naturalização de certos aspectos da vida política e econômica social e a criminalização de outros; o enfraquecimento das instituições públicas abertas à influência popular; e, entre outros elementos, a interdição de qualquer debate que questione o poder de manipulação dela própria, a mídia.

Está aí a semente da intolerância que move as pessoas que ocuparam a frente da casa do ministro do STF, Teori Zavascki, para xingá-lo por ter tirado da alçada do juiz Sérgio Moro e transferido para a Suprema Corte as investigações envolvendo o ex-presidente Lula. Está aí a razão de ser das inúmeras agressões verbais e físicas registradas em lugares públicos contra indivíduos que se manifestam contra o impeachment de Dilma.

Editor-chefe da revista ÉPOCA incita violência contra o ministro do STF no Twitter

Editor-chefe da revista ÉPOCA incita violência contra o ministro do STF no Twitter

Casa do ministro do STF, em Porto Alegre (RS), e diretório do PT, em Belo Horizonte (MG), sofrem ataques fascistas

Casa do ministro do STF, em Porto Alegre (RS), e diretório do PT, em Belo Horizonte (MG), sofrem ataques fascistas

Não é surpresa o silêncio da imprensa brasileira a todos esses abusos que colocam em xeque a democracia e o direito à livre expressão. O mais alarmante é que ela, imprensa, os incentiva ao moldar o noticiário nacional de acordo com os preceitos do seu guia prático do ódio. Veja aqui como ele funciona:

Divida o mundo em heróis e bandidos

Cubra a realidade como um filme de hollywood, estrelado por mocinhos e bandidos. Os heróis vão sempre se dar bem no noticiário.  A palavra do delegado de polícia vale ouro.  Ao “bandido” negro e pobre da periferia cabe o julgamento unilateral e devastador das manchetes. O método agora foi exportado para a cobertura política. Qualquer coincidência com a cobertura da Operação Lava-Jato não é mera coincidência.

Pratique dois pesos e duas medidas

Para os do Bem, a relativização de ocasionais suspeitas de envolvimento em malfeitos, o sigilo das investigações e o pleno direito da presunção de inocência. Para os do Mal, a divulgação – ou seria vazamento – de todos fragmentos suspeitosos, devidamente editados; e o julgamento rápido e feroz na primeira página.

Não aprofunde o debate

Se apegue ao jornalismo declaratório, fique na superfície. Não deixe vir à tona o jogo de interesses que está por trás da disputa política. A abertura do pré-sal para as multinacionais? O financiamento das campanhas como razão de ser da corrupção envolvendo o Poder Privado e o Poder Público? Impactos do ajuste fiscal sobre o emprego e a renda dos trabalhadores? Esqueça.

Se atenha ao aqui e agora

Onde se escondeu o debate sobre a necessária reforma política? Quais os caminhos para resolver a crise da representação política no Brasil? O que é preciso mudar na relação público-privada para estancar ou minimizar a corrupção no país? Cadê as reportagens aprofundadas sobre a  repercussão econômica e política da convulsão social e jurídica que vivemos? Nada. Nada de debate do que está por vir no médio e longo prazos. Nada de editorial. Não há tempo a perder. A roda da notícia e do tema-único tem que girar aqui e agora!

Satanize a política e os políticos

Não cubra a política a partir dos grandes debates nacionais. Mas com foco no disse-me-disse declaratório que reduz o fazer político à disputa mesquinha por espaço no governo ou à novela sem fim das traições. Desqualifique as instituições políticas que são abertas à participação popular como o Congresso Nacional, as assembleias legislativas e câmaras municipais. Enfoque a “roubalheira” e o desvio de recursos públicos cometidos pelos políticos. Despolitize os ganhos sociais e institucionais advindos da atividade política de partidos, parlamentares, prefeitos, governadores e presidente e dos grupos de pressão da sociedade civil organizada.

Fortaleça estereótipos

Nas novelas, fica mais evidente o papel coadjuvante dos negros e negras brasileiras na teledramaturgia brasileira, mas se prestarmos atenção também veremos que é menor e menos relevante o espaço que eles ocupam no noticiário nacional. Os “especialistas” – aqueles que detém o conhecimento científico da realidade – são quase sempre brancos, da região Sudeste e muito bem vestidos. Gente “educada”. Assim como os negros e pobres ocupam as comunidades mais afastadas dos bairros nobres, eles também vivem na periferia das pautas do noticiário da grande mídia.

 Criminalize os movimentos sociais

“Vândalos”, “baderneiros”, “gente que atenta contra o patrimônio público”, “irresponsáveis”, “xiitas”. Essas são expressões que se tornaram corriqueiras no dia a dia de jornais, rádios e TVs para definir organizações sociais que pressionam o mundo político e econômico por mudanças no campo e na cidade. Grupos como o Movimento pelo Passe Livre (MPL), o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Você não vai vê-los sendo entrevistados no dia a dia para defender suas propostas, fundamentar suas bandeiras. Eles entram no noticiário apenas nos momentos de crise, em situações de tensão. Quando o olhar noticioso precisa vir a público enquadrá-los e coloca-los no seu “devido lugar”.

Promova um difuso sentido de “indignação” e a ideia de “justiça pelas próprias mãos”

Este papel é cumprido à risca por um batalhão de jornalistas/comentaristas que diariamente analisa as notícias de forma maniqueísta para infundir o ódio no coração de seus leitores/ouvintes/telespectadores. Figuras como Raquel Sheherazade, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. Eles fazem na política o que muitos radialistas promovem há anos nas coberturas de polícia das rádios: massacram ferozmente e sem pudor a reputação de suas vítimas. E mais: afirmam dia e noite que as instituições constituídas são incapazes de lidar com “tudo isso que está aí”, sugerindo que é preciso “fazer justiça com as próprias mãos”.

Interdite o debate sobre a democratização da mídia

“Censura! ”, grite sempre “censura!” toda vez que ouvir a mais tênue crítica à cobertura jornalística. Acuse em editoriais pomposos que a liberdade de imprensa está em xeque toda vez que a sociedade organizada se contrapor aos critérios da cobertura feita pela grande mídia. Sabote todos os parcos esforços do Poder Público de debater e fazer avançar qualquer forma de regulamentação dos meios de comunicação no Brasil, mesmo que ela trate de referendar artigos da Constituição Federal,  como a proibição de monopólio, a vedação à propriedade cruzada e a determinação do equilíbrio entre a comunicação estatal, a comunicação pública e a comunicação privada.  Simplesmente interdite esse debate.

Juntos, todos esses elementos do “fazer jornalístico” da grande mídia têm funcionado para dividir o país, convulsionar as relações sociais e pressionar o meio político pela ruptura da ordem institucional. Um filme que já vimos nos anos 1950 e 1960.

Desvelar os métodos desse “fazer jornalístico” que pretende interferir decisivamente na dinâmica da vida democrática nacional é uma tarefa diária da qual a imprensa independente e a sociedade civil não podem abrir mão. Numa verdadeira democracia e em tempos de internet,  ninguém fala sozinho. É preciso ficar claro que ninguém pode querer se impor como dono da pauta. Nem mesmo a grande mídia.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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