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Maior operadora do Brasil, Hapvida entra no jogo político da hidroxicloroquina

Raíssa Ebrahim / 28/05/2020

Líder no Norte e Nordeste, Hapvida pressiona médicos a prescreverem hidroxicloroquina (crédito: B3)

A Organização Mundial de Saúde (OMS) suspendeu os testes com a hidroxicloroquina em pacientes com a Covid-19. Estudos vêm apontando ineficácia, riscos colaterais e aumento dos casos de morte. Mas nada disso impediu que o Ministério da Saúde – com ministro interino há 13 dias – publicasse um protocolo, com intenções mais políticas do que sanitárias, com orientações para o uso da droga em casos leves. Também não impediu que a maior operadora de saúde do Brasil, a Hapvida, seguisse receitando e doando a medicação para uso em casa.

Para piorar, médicos da empresa denunciam que estão sendo pressionados a prescrever o remédio. Segundo profissionais ouvidos pela reportagem, a comunicação da chefia, via WhatsApp, começou amena, mas foi ganhando tons de pressão pela necessidade de seguir o protocolo da Hapvida, que indica a medicação no início dos sintomas.

O caso da Hapvida, que é líder no Norte e Nordeste, se soma a médicos com patrocínio político da deputada bolsonarista Clarissa Tércio (PSC) e grupos empresariais que vêm promovendo a hidroxicloroquina. Eles se intitulam “Doutores da verdade” e prescrevem e doam a droga em comunidades da periferia do Recife, como mostramos aqui, há algumas semanas.

Após o alerta dos riscos da medicação no combate ao novo coronavírus dado pela OMS, a Prefeitura do Recife e o Governo de Pernambuco informaram, no início da semana, que retiraram o remédio de seus protocolos.

A Marco Zero Conteúdo teve acesso a algumas dessas mensagens de WhatsApp. Nelas, está dito que não se pode deixar de seguir o protocolo institucional e profissionais que não estiverem receitando o remédio, que faz parte de um kit de medicações, terão que explicar pessoalmente as razões.

A comunicação pede ainda que os médicos parem de falar sobre os riscos da hidroxicloroquina, uma vez que os pacientes que estão indo para casa com o kit estão tendo melhoras e não estão retornando às unidades com agravamento de quadros. Uma matéria publicada nesta quinta-feira (28) pela Folha de São Paulo relata que já houve demissão na Hapvida.

Acontece que o protocolo de manejo de pacientes com a Covid-19, da Hapvida, ao qual a reportagem também teve acesso, cita um artigo de evidências in vitro e o outro que é de um estudo clínico não randomizado, sem critério de inclusão e já amplamente refutado. Isso sem contar que a própria Hapvida cita como referência um artigo que mostra as complicações cardíacas resultantes do uso da hidroxicloroquina.

A denúncia contra a Hapvida chegou ao Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), inclusive com temor de retaliações, por isso o anonimato dos denunciantes. Em nota, a entidade informou que “a posição do sindicato é o respeito à autonomia do médico e do paciente, já afirmada em nota pública” e informou que enviou a denúncia ao Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe).

Consultado, o Cremepe se restringiu a reforçar que “o tratamento do paciente é autonomia do médico, seguindo o que foi estabelecido pelo CFM (Conselho Federal de Medicina)”.

Nos pacientes sem indicação para internação, a recomendação é o isolamento domiciliar por 14 dias, o oferecimento dos serviços de teleatendimento para orientações e retirada de dúvidas, e a prescrição da ivermectina, do prednisona e da hidroxicloroquina, de acordo com a idade e a presença de comorbidades. Tudo isso mediante a assinatura de um termo de consentimento do paciente.

O documento, cuja última atualização é de 22 de maio, reconhece que não há tratamento recomendando para a Covid-19, mas, ainda assim, insiste em manter a hidroxicloroquina no protocolo da operadora. Está lá escrito: “Apesar de não haver nenhum tratamento recomendado atualmente para o combate à infecção pelo novo coronavírus, alguns estudos em seres humanos sugerem benefício com o uso da hidroxicloroquina em pacientes infectados, devido ao seu efeito imunomodulador e de redução da replicação viral, devendo ser usado, portanto, preferencialmente nos primeiros dias de sintomas”.

O documento da Hapvida fala também da possibilidade de associação ao antibiótico azitromicina: “O seu uso pode ser potencializado em associação ao azitromicina em pacientes que possam ser monitorizados (em internação hospitalar)”.

No entanto, um estudo feito pela Universidade de Harvard com 96 mil pacientes e publicado pela renomada revista britânica The Lancet, na semana passada, mostrou que usar cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 não traz nenhum benefício. E pior: aumenta o risco de arritmias cardíacas e de óbitos.

Quando associada ao antibiótico, a droga pode ser ainda mais perigosa: a taxa de mortalidade foi a maior do estudo, de 23%. E, ao contrário do que propagam muitos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, a publicação científica fala da ineficácia quando o tratamento é “iniciado precocemente após o diagnóstico”.

A pesquisa francesa que listava os benefícios da hidroxicloroquina combinada ao azitromicina e vinha sendo bastante citada por quem defende a associação das drogas foi retirada do ar recentemente pelos próprios autores. Aliás, nesta quarta-feira (27), França e Itália proibiram o uso da medicação para tratar Covid-19 e a Bélgica emitiu um alerta contra a droga.

O tal estudo francês, que nunca foi publicado em revista científica com revisão por pares, ganhou repercussão e se popularizou depois de uma publicação da Fox News, nos Estados Unidos. Foi ele que embasou a campanha #TeichLiberaCloroquina nas redes sociais pressionando o então ministro da Saúde, Nelson Teich, a liberar o uso nos tratamentos do novo coronavírus.

Além disso, em parecer conjunto, Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia não recomendam, por consenso, o uso da hidroxicloroquina para tratar o novo coronavírus.

“A polêmica da hidroxicloroquina já está desvendada. É um medicamento antimalárico, relativamente seguro, e usado como imunomodulador em algumas doenças autoimunes como artrite reumatóide e lúpus. Não deve ser endemoniado por essas indicações, mas infelizmente não se mostrou eficaz contra a Covid-19. Nós bem que estamos torcendo para que surja uma droga que impeça a multiplicação viral ou mesmo que reduza os danos causados pelo novo coronavírus, mas ainda não temos essa alternativa terapêutica”, reforça Ana Brito, médica infectologista e pesquisadora da Fiocruz Pernambuco.

A reportagem vem há uma semana tentando um posicionamento da Hapvida, mas, através de sua assessoria de imprensa, o grupo disse que não tinha uma resposta para os questionamentos da reportagem.

Hapvida faz aceno político

Em linha com os anúncios do governo federal, a indicação de uso da hidroxicloroquina pela Hapvida é um aceno político de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Com 6 milhões de usuários, 39 hospitais, 185 clínicas e 42 pronto-atendimentos, o Sistema Hapvida, que abriu seu capital na bolsa há dois anos, é quem mais atende brasileiros depois do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ao mesmo tempo em que o Brasil vivia um aprofundamento do desmonte do SUS e o congelamento dos gastos com saúde e educação, após o golpe de 2016, a família Pinheiro expandia seus negócios, de estrutura altamente verticalizada, com a popularização dos planos de saúde.

Aliás, os cortes do sistema público de saúde calculados em R$ 20 bilhões vêm colocando em xeque a capacidade de combate ao vírus, como mostramos em reportagem logo no início da pandemia.

No final de março, numa reunião por videoconferência organizada pelo presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, um grupo de mega empresários se prontificou a ajudar o governo federal nas demandas de saúde. Na presença de ministros (o da Saúde, na época Luís Henrique Mandetta, não estava), Bolsonaro fez um apelo para que o setor produtivo do país não pare diante da pandemia.

Entre os participantes estava Candido Pinheiro, presidente do Conselho de Administração da Hapvida. O segmento de saúde suplementar faturou R$ 213,5 bilhões em 2019.

Jorge Pinheiro, presidente da Hapvida

Enquanto as farmácias estão desabastecidas da hidroxicloroquina para pessoas com lúpus ou artrite reumatóide, a Fundação Ana Lima, braço social da Hapvida, fez uma doação da medicação às operadoras do sistema. O presidente da companhia, Jorge Pinheiro, citado pela Forbes em 2019 como um dos homens mais ricos do mundo, com um patrimônio de US$ 1,2 bilhão na época, assegurou haver tratamento com a droga para 20 mil pessoas. “Mas estamos trabalhando para ampliar essa quantidade”, adiantou.

A reportagem questionou a Hapvida sobre com quem e como adquiriu tantas unidades do remédio, já que ele está em falta nas farmácias. Mas ficamos sem a resposta.

O Sistema Hapvida já investiu mais de R$ 70 milhões em ações contra o novo coronavírus, com compra de insumos médicos, equipamentos de proteção individual, materiais, medicamentos, equipamentos tecnológicos e reforço na infraestrutura. Também fretou aeronave para distribuir insumos para sua rede própria em todo o país e fazer o remanejamento de equipes para as áreas com maior incidência da doença.

Com mais de 400 mil casos e 25 mil mortes por coronavírus no Brasil, Jorge disse, esta semana, em teleconferência com analistas ao comentar uma suposta redução da curva de contaminação: “Já estamos vendo sinais de que isso pode estar acontecendo em algumas de nossas regiões de atuação. Estamos muito otimistas de que o evento pode estar em curva descendente e estamos discutindo planos de desmoblização de algumas praças”.

A pressão pela polarização

(crédito: Barcroft Media Getty Images)

“A discussão é uma distorção do ponto de vista científico e da medicina baseada em evidências. Então me parece que o uso é uma questão muito mais no campo da política”, avalia Fausto Pereira dos Santos, diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) entre os anos 2003 e 2010, durante o governo Lula.

Ele lembra que, a todo tempo, se polarizou a discussão e se tentou reduzir no Brasil o papel das evidências, principalmente as internacionais, numa discussão muito rasa, como se as instituições e os governos de outros países que adotaram medidas contra a propagação da Covid-19 tivessem uma atuação contra o governo brasileiro e as ideias que se pregam no Brasil.

“Isso é uma paranoia, uma alucinação completa e uma resistência a tudo que se tem feito no restante do mundo”, critica Fausto.

“O sistema de saúde suplementar sempre buscou nas discussões internas e na incorporação de novas medicações a base das evidências. Então é de se estranhar que agora essas mesmas empresas lancem mão de uma ferramenta ao contrário de tudo que é discutido dentro do aparato regulatório”, complementa.

Daniel Dourado, médico, advogado sanitarista, professor e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (USP), pondera ainda quenenhum desses medicamentos citados no kit da Hapvida têm registro para tratamento da Covid-19, então, em tese, nem poderiam fazer parte de um protocolo oficial.

Para ele, isso mostra claramente que o governo federal está “forçando a mão” e nem todos querem bancar o custo jurídico e político disso, não à toa que secretários e dois ministros saíram de seus cargos de chefia da pasta de Saúde, que segue com um ministro interino.

“De onde foi tirada essa posologia? Não há evidência nenhuma. É off label, fora de bula”, provoca Daniel, para quem, no cenário atual de publicações científicas e posicionamentos de entidades de classe, qualquer incentivo ou pressão pelo uso da hidroxicloroquina é “muito grave”.

A Marco Zero Conteúdo também procurou a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) para repercutir a denúncia, mas a entidade se restringiu a dizer que vem acompanhando as iniciativas lideradas pelo Ministério da Saúde e “tem orientado suas associadas a atuarem em consonância com as melhores práticas de políticas públicas”.

“É importante lembrar ainda que não há no mundo uma orientação definitiva para o tratamento de Covid-19, não existe um protocolo único a ser seguido. A recomendação do tratamento é uma soberania médica, que leva em conta o histórico individual de saúde de cada paciente, que tem de consentir com o mesmo. Todas as alternativas objetivam alcançar o melhor resultado assistencial e a preservação da vida das pessoas. A única opção que não é levada em consideração é deixar o paciente desassistido”, diz a nota.

Atualização

Nesta sexta (29), dia seguinte à publicação desta matéria, a Hapvida enviou uma nota à reportagem. Segue o texto na íntegra:

O Sistema de saúde, fundado por um médico, em seus mais de 40 anos de atuação, sempre respeitou a soberania médica. O profissional médico é sempre a autoridade máxima, quando o principal compromisso é salvar vidas.

Prova disso, no que se refere à prescrição da hidroxicloroquina dentro das nossas unidades, é que pouco mais que a metade dos pacientes recebeu a medicação por prescrição médica e consentimento do cliente (55%). Cerca de metade dos médicos adotou a droga como tratamento, em comum acordo com os pacientes.

A outra metade dos pacientes não recebeu, porque não houve prescrição médica (cerca de 45%). Prova da soberania do médico. O profissional teve total liberdade de tomar outra condução terapêutica

Nosso corpo médico das emergências e urgências é formado por 2 mil médicos. Se houve alguma demissão, seguramente, esse não foi e nem será o fator decisório.
A medicação é doada aos pacientes, que contam com a prescrição como forma de afiançar o acesso ao tratamento, visto que a medicação não é mais encontrada à venda nas farmácias das cidades.

A operadora segue determinada no combate à pandemia, com investimento de mais de 70 milhões de reais em equipamentos, profissionais e insumos que auxiliem na promoção à saúde dos pacientes.

AUTOR
Foto Raíssa Ebrahim
Raíssa Ebrahim

Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornalismo hiperlocal do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com