Moro esconde os crimes do sociólogo e inventa os do metalúrgico, diz Jessé Souza

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Por Maria Eduarda da Mota Rocha e Yvana Fechine, de Paris, especial para a Marco Zero Conteúdo

“Moro esconde os crimes do sociólogo quase francês e inventa crimes para o metalúrgico”. Essa foi uma das declarações de impacto do sociólogo brasileiro Jessé Souza em conferência realizada nesta terça (2) no Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL), em Paris, para um anfiteatro lotado por franceses e brasileiros. Na frase em que faz uma referência irônica ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem o então juiz Sérgio Moro temia “melindrar”, segundo revelações do The Intercept Brasil (TIB), Jessé de Souza resume as análises que tem produzido sobre o combate seletivo à corrupção promovido pela Lava Jato com o objetivo de criminalizar  Lula, um dos poucos líderes populares que a história política do Brasil produziu.

Uma das vozes mais audíveis do pensamento de esquerda no Brasil nesse ciclo, a julgar pelo seu sucesso editorial, Jessé Souza tem reafirmado que o combate à corrupção do Estado funciona como uma cortina de fumaça para encobrir as verdadeiras causas da desigualdade brasileira e para fornecer uma justificação moral a um elite que “odeia negros e pobres”, mas que não quer se assumir como “canalha” devido aos seus pudores cristãos.

Localizando no Estado a raiz de todos os problemas, essa elite financeira, midiática e judiciária desvia o foco para a política e esconde causas muito mais profundas da desigualdade, como, por exemplo, a sonegação fiscal e a alta taxa de juros. É o que defende Jessé Souza. Enquanto uma organização independente inglesa estimou em 520 bilhões de dólares o montante de impostos não pagos no Brasil, a Lava Jato faz estardalhaço pela recuperação de um bilhão, argumenta Souza.

Já a alta taxa de juros faz com que os pobres e a classe média que paga impostos sustente os ganhos de quem não trabalha, que vive por exemplo dos rendimentos financeiros obtidos através dos títulos da dívida pública, argumentou o sociólogo. A caça aos políticos pela Lava Jato funciona então, segundo Jessé,  como a perseguição ao tráfico, onde se prende o pequeno traficante e se deixa livre o dono do negócio. “A boca de fumo é o Banco Central”, afirmou, aproveitando a recente apreensão de 39 quilos de cocaína no avião presidencial como metáfora para sua análise dos papeis políticos hoje no Brasil. “Quem mais rouba no país fez doutorado em Chicago e usa terno italiano ou francês”, disse Souza, arrancando risos da plateia.

Na conferência, ele reafirmou que a desqualificação da política é importante porque é somente através dela que negros e pobres podem conseguir mudar a sua condição, o que é “intolerável” para uma elite que “aprendeu a gozar com a humilhação cotidiana dos que considera inferiores sociais” desde a escravidão. Mas, como o cristianismo recrimina o ódio ao mais fraco, ele precisa ser recoberto por uma justificação moral que impeça a visão de si e dos mais próximos como “canalhas”. E é aí que entra a caça aos corruptos, os “outros”, localizados na política e no Estado, argumentou Souza.

Desqualificação da política

Nesta chave de interpretação, a criminalização de Lula e do PT reedita uma velha artimanha em uma sociedade que pouco mudou desde 1930 e que derruba governos minimamente preocupados com os mais pobres, explicou o sociólogo. Foi assim com Vargas, com Jango e também com Lula e Dilma, mais recentemente, lembrou ele. Moro seria então, segundo Souza, o “Lacerda” dos nossos tempos, prestando-se ao trabalho de defenestração da liderança popular do momento. Aliás, uma das noções que justificam o atual estado de coisas no Brasil, é “populismo”, ideia mais recentemente invocada pelo sociólogo. Segundo Jessé Souza, ela funciona desqualificando tudo o que vem do povo como sujo, corrompido e vulgar, inclusive, ou principalmente, os líderes que ousam lhe fazer concessões.

Brasileiros e franceses lotaram sala para ouvir o sociólogo Jessé Souza em Paris

Brasileiros e franceses lotaram sala para ouvir o sociólogo Jessé Souza em Paris

Como “fragmento dessa longa história”, o fenômeno Bolsonaro não se sustentaria, segundo Jessé Souza, sem apoio de outras classes sociais além da elite financeira, que conta com “100 mil brasileiros, não mais do que isso”, afirmou. Os outros segmentos em que Bolsonaro ganhou respaldo seriam justamente os que se sentiram ameaçados pelas concessões feitas aos negros e pobres. O maior pecado de Lula, nesse sentido, na sua visão, teria sido abrir a universidade, “esse bunker da classe média”, ameaçando a sua forma primordial de ocupar uma posição na estrutura de classes, que é o monopólio do conhecimento respaldado socialmente.

Mas o núcleo duro do bolsonarismo é o que Souza chama de “lixo branco”, servindo-se de uma expressão surgida nos Estados Unidos para explicar o alto índice de racismo entre brancos pobres do Sul, justamente os mais próximos socialmente dos negros no momento em que eles começavam a diminuir o fosso econômico, educacional e simbólico em relação ao conjunto da sociedade estadounidense.

Citando pesquisa com italianos pobres do interior de São Paulo, Souza lembra que nada pode ser pior nesse universo, que é bem parecido com o mundo de origem de Bolsonaro, do que o casamento com um negro ou uma negra. Jessé Souza explica que nessa fração pobre e branca da sociedade brasileira a cor da pele é o único traço distintivo dos negros em relação aos quais se julgam moral e socialmente superiores. A identificação de Bolsonaro com essa fração de classe reacende o fascismo brasileiro que já existia desde o começo do século XX. “Bolsonaro é a vingança desse lixo branco”, concluiu o sociólogo, denunciando que o moralismo dessa classe baixa e branca não passa de uma forma de racismo.

A conferência do sociólogo Jessé de Souza, intitulada O Brasil de Bolsonaro: dividir para reinar,  foi uma iniciativa da ARBRE (Association pode la recherche sur le Brésil en Europe), de Sens Public e da RED.br (Rede Europeia pela Democracia no Brasil), uma entidade formada por professores e intelectuais franceses e pesquisadores brasileiros radicados no país, e recebeu o apoio do IHEAL e da Universidade Paris 13.

Desde a eleição de Bolsonaro, a Red.br tem realizado eventos com o objetivo de apresentar à sociedade francesa os retrocessos políticos e sociais no Brasil. Jessé de Souza, que acaba de chegar a Paris para uma temporada de estudos e pesquisa, é professor da Universidade Federal do ABC (São Paulo) e autor, entre outros livros, de A elite do atraso (2017) e A classe média no espelho (2018).

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