Na pele do torcedor: a aventura de um jornalista que assistiu ao Clássico das Multidões na torcida visitante

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Nos dias que seguiram ao clássico entre Sport x Santa Cruz em que, pelo menos, 60 pessoas ficaram feridas, as discussões em torno da violência policial e da confusão nas arquibancadas foram intensas tanto nas redes sociais quanto fora delas. Foram postas em cheque a truculência policial e a supremacia do business no futebol expressa pela decisão de prosseguir a partida com dezenas de feridos sendo socorridos à beira do gramado. A cobertura jornalística também foi bastante questionada.

Com raras exceções, programas de televisão, resenhas de rádio, portais especializados e jornais seguiram a linha adotada ainda na transmissão ao vivo: ênfase na responsabilidade das torcidas organizadas, as “culpadas de sempre”, e endosso da versão oficial da Polícia Militar. Torcedores comuns desafiaram jornalistas a acompanhar um jogo no meio da torcida.

Marco Zero Conteúdo aproveitou a deixa e convidou um jovem repórter esportivo a assistir, uma semana depois, ao próximo Sport x Santa Cruz no mesmo estádio, no espaço destinado à torcida visitante,  cenário do episódio de violência ocorrido sete dias antes. Thiago Vieira foi desafiado a contar a experiência da forma que lhe conviesse, mas não poderia, em hipótese alguma, usar sua credencial ou usar ostensivamente equipamentos que o identificassem como jornalista.

 

Por Thiago Vieira
Especial para Marco Zero Conteúdo

Depois de trabalhar diretamente com esportes por pouco mais de um ano, recebi o convite da Marco Zero Conteúdo para que deixasse a credencial de lado para ter essa vivência. Já havia participado da cobertura de alguns jogos em Pernambuco, e como todo amante de futebol, frequentei estádios por boa parte da minha vida, aliás frequento até hoje. Ir a um jogo como visitante na Ilha do Retiro, no entanto, era uma novidade para mim.

A saída

A minha primeira preocupação antes de ir para a partida era como chegar no estádio. O caminho, claro, eu sabia qual era, mas precisava saber a forma mais segura até o destino. O Recife é, por si só, uma cidade perigosa. O horário da partida às 21h45 coloca mais um empecilho na cabeça de quem quer ver um jogo de futebol de perto. Perto da hora do jogo, consegui uma vaga numa van organizada por torcedores que partiria do Arruda às 19h30. Foi a melhor opção.

Cheguei no estádio do Santa Cruz às 19h10, onde já havia alguns outros torcedores que fariam o mesmo percurso que eu. A partida aconteceu com um pouco de atraso, às 19h54. Enquanto esperávamos, a conversa principal era as lembranças de outros jogos em que tinham ido como visitantes. Desde os trajetos até os problemas com a dificuldade de lidar com a polícia. O tom da conversa deixava transparecer a naturalidade de que lidar com esse tipo de tratamento.

O veículo seguiu pela avenida Norte, até atravessar a avenida Real da Torre, contornar pela Benfica, passar pela Agamenon Magalhães e chegar à reta final. Tudo isso sem nenhum grande problema.

Chegando na Ilha

A van chegou à avenida Beira-Rio às 20h18, e eu desci em uma área já reservada para a torcida visitante. A primeira impressão era de que a polícia sabia que tinha errado na última partida. Desta vez, o batalhão do Choque apenas cercava o perímetro de segurança, enquanto alguns outros policiais militares faziam a primeira barreira, que permitia apenas torcedores com ingresso atravessarem.

Passamos, sem nenhuma dificuldade. Estávamos na parte de trás do estádio, onde está localizado o único portão que dá acesso à torcida visitante, o portão número 10. Alguns esperavam a passagem do ônibus que trazia os jogadores do Santa Cruz, que por alguma manobra de segurança, entrou uma rua depois que o habitual, o que frustrou alguns. Para evitar o tumulto, decidimos entrar no estádio com bastante antecedência. Pouco antes de 20h30, uma nova barreira policial pedia que os torcedores terminassem suas bebidas, já que não é permitida a entrada com latinhas.

Nesse momento, um torcedor do Santa Cruz, acendeu fogos de artifício apontando para cima. A ação não pareceu levar risco a ninguém, mas foi o suficiente para ver os policiais do Batalhão de Choque atuando pela primeira vez. “Foi aquele camisa 10″, apontou com o cassetete um dos homens. Em fila, cerca de cinco policiais mandaram o grupo do responsável pelos fogos pela irem para a parede. Com as mãos na cabeça, nenhum deles ofereceu resistência, mas tiveram que ouvir alguns gritos dos policiais. Depois da revista, nada foi encontrado. Os policiais, então, ordenaram esses torcedores a entrar no estádio.

Clássico 3

“Se liga que eles estavam apontando para tu”

Em meio à tensão intensificada na última semana, estava ali para ver o modus operandi do Estado na segurança de um evento deste porte. No momento em que a polícia agiu em busca do torcedor que acendeu os fogos, cometi algo que aparentemente soa como uma afronta aos policiais: comecei a filmar. Na verdade, estava apenas com o celular na mão, com a câmera pronta, mas ainda sem nenhum tipo de gravação. De longe, sem intervir em nenhuma ação. Apenas para que, em caso de abuso, houvesse o registro.

Como já narrado, a ação embora de certo modo truculenta, não chegou a ser violenta. Mas a surpresa veio logo após ela. Um outro torcedor na minha frente virou para mim e disse: “Se liga que eles estavam apontando para tu”. Eles, os policiais, estavam me observando de forma negativa por ter tido a ideia de filmar a ação.

As pessoas que me acompanhavam também viram a cena, e me alertaram para evitar fazer aquilo. Poderia parecer provocação aos policiais, que não acham que devem ser questionados pelos seus atos.

A entrada

Em outros jogos que fiz com o crachá de “Imprensa”, já havia visto como é o modelo de entrada para os torcedores. A rua toda é interditada, enquanto a passagem fica restrita à calçada do lado direito. Naquele momento, estava tranquila, mas sei que no momento de maior fluxo de pessoas, como geralmente ocorre mais próximo da hora do jogo, ali seria insuficiente. Depois, um zigue-zague feito com barras de ferro direcionam o torcedor diante da última travessia antes de chegar às arquibancadas.

Desta vez seis catracas, duas a mais que da última vez. Cheguei ao interior do estádio por volta das 20h40. Agora era só esperar o jogo começar.

 A lição do último jogo ecoou

Todos os 2.600 ingressos colocados à disposição da torcida visitante foram vendidos. Grandes aglomerados de pessoas precisam ser supervisionadas porque alguém pode acabar fazendo algo que pode colocar as pessoas em risco. Acontece no carnaval, como acontece no futebol. Em tese, a polícia é preparada para, mesmo nessas situações, garantir a segurança das pessoas no entorno. Por vezes, a necessidade punitiva contra quem transgride determinada norma ultrapassa o zelo pelas pessoas. Tinha sido assim na última partida, mas não foi assim nessa.

No dia 7, dezenas pessoas ficaram feridas após a ação da polícia sob a justificativa de que um torcedor teria acendido um sinalizador. Algo, de fato, proibido. Desta vez, torcedores isolados quebraram regras. Como quando dois copos foram jogados em direção ao campo, por exemplo. Em nenhuma delas a polícia conseguiu identificar o responsável e, portanto, preferiu não agir. Atitude acertada. Um copo jogado, ainda que seja fora das normas, não feriu ninguém. Uma eventual ação desastrosa dos policias poderia ter consequências mais graves. Felizmente, nada aconteceu.

Fim de jogo

A derrota ajudou a dispersar os torcedores. Alguns preferiram sair antes do apito final, então o aglomerado final de torcedores era um pouco menor que os 2600 iniciais. Tradicionalmente, a torcida visitante tem que esperar algumas dezenas de minutos para que o portão seja aberto.

O início da espera foi tranquila, porém cada vez mais as pessoas ficaram irritadas e puxaram cantos para que os portões fossem abertos. No auge da tensão, o primeiro conflito. Dois homens iniciaram uma briga ali mesmo no apinhado vão em que todos aguardavam. Os soldados do Batalhão de Choque que estavam encostados na parede, atravessaram a multidão para conter. De início, pareceu eficiente. Puxara cada um para um lado e encerraram a briga. Mas, com a situação já controlada, um policial não perdeu a oportunidade de distribuir tapas em um dos brigões, apenas pelo fato dele tentar se justificar, dizendo que não teria sido o causador da confusão. Na mesma hora, portões liberados, e a torcida pôde sair do estádio por volta de 0h15.

A Volta

Todos desceram as escadas para sair do estádio. Já na rua, o que se via era um grande número de policiais que pareciam pouco pacientes com a situação. Uma parte deles empunhando armas de bala borracha exigiam que os torcedores se apressassem. Um outro grupo e PMs pareceu ter sido acionado, e se deslocou. Não sei ao certo a motivação. O que dava para ver é que alguns torcedores passaram batendo no portão de alumínio, que fazia mais barulho do que um dano real. Seja essa a razão ou não, pouco depois um rapaz de, no máximo, 25 anos passou correndo com a camisa enrolada na cabeça, que sangrava.

Se a liberação dos portões parecia ser a última contenção para a volta para casa, na avenida Beira-Rio havia um novo bloqueio. Apenas quem estivesse indo para o lado direito, sentido Joana Bezerra, estava liberado. Para o outro lado, uma cavalaria fechava a passagem e pedia para que os torcedores esperassem. “É para o próprio bem de vocês, para evitar confronto”, dizia um policial militar. Esse sim, transmitia calma e pedia a compreensão.

A poucos metros, outro policial militar era sua antítese. Também com uma arma de bala de borracha na mão, ficava repetindo “passa, passa, bora”. O torcedor ao meu lado questionou, em voz baixa: “Oxe, e é cachorro é?”. Não era, embora parecesse. Quem tinha a saída liberada andava num ritmo normal em direção ao seu destino. Os demais esperavam. A intimidação parecia gratuita e inútil. Depois de entrar na van, não demoramos muito para voltar ao Arruda. Sem maiores problemas.

Mesmo sem maiores conflitos em relação ao último jogo, ficou a sensação de que, entre os policiais, há o julgamento de que a torcida precisa ser tratada agressivamente para andar na linha. Acontece que, quanto mais truculenta é a abordagem, mais intensa é a resposta. E o sentimento de medo, de que a qualquer momento pode haver um confronto, alimenta a tensão. Nesse contexto, qualquer evento que fora do previsto pode ser multiplicado e transformado em mais violência.

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