Ao longo de toda a quinta-feira (25), circularam pelas redes sociais e nos principais portais de notícias do País as informações sobre as operações deflagradas por juízes eleitorais e executadas por policiais militares e fiscais eleitorais em, pelo menos, 17 universidades públicas de vários estados brasileiros. Em meio à avalanche de informações – e também alguns boatos – chamou a atenção a notícia que vinha do Pará, onde uma aula teria sido interrompida por policiais que, ao receber denúncia de uma aluna filha de policial, foram conferir o “viés ideológico” da disciplina. Ao contrário das demais, essa abordagem aconteceu sem qualquer mandado judicial.

Por telefone, o professor Mário Brasil Xavier contou que, ao contrário da informação que circulou nacionalmente, ele não estava em aula quando foi abordado por policiais da Ronda Tática da PM paraense. Gestor do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Pará (UEPA), ele acredita que o episódio em que se viu envolvido involuntariamente como protagonista, no campus de Igarapé-Açu, a 120 quilômetros de Belém, não teve relação direta com a ofensiva da Justiça Eleitoral nas universidades. ”Foi uma coincidência infeliz”, disse.

Marco Zero – O senhor estava em sala de aula quando os policiais chegaram?

Mário Brasil Xavier – Não foi bem assim. Algumas versões circulando são um pouco exageradas. Eu havia ministrado uma aula sobre as técnicas para produção de artigo acadêmico na disciplina de Metodologia. Quando estava mostrando como incluir fontes de informação, exibi slides com imagens de páginas da Plataforma Lattes, foi quando percebi que algumas alunas estavam tirando fotografias, preocupadas em não perder detalhes. A aluna autora da denúncia não estava entre elas, que fique bem claro. Então eu avisei que elas não se preocupassem em tirar fotos, pois a aula ficaria disponível no Google Classroom. Foi aí que fiz uma brincadeira: disse que, se quisessem tirar fotos, tudo bem, mas que não autorizaria o uso para memes ou fake news. Houve algumas risadas e pronto, a aula prosseguiu normalmente. Tudo aconteceu uns 45 minutos após o término dessa aula.

O que a aluna denunciou exatamente?

Ela diz ter se sentindo ofendida com essa brincadeira. Eu sabia que ela e o pai fazem parte do comitê do inominável em Igarapé-Açu, mas a piada foi dirigida às alunas que fotografavam a aula, coisa que ela não estava fazendo. Bem depois da aula, enquanto eu tomava café, um funcionário me procurou dizendo que a aluna, o pai dela e uma guarnição da PM estava me procurando para tratar de uma denúncia de bullying contra mim.

A abordagem foi violenta?

Não, violenta não. Foi excessiva e grosseira. Era uma equipe de Ronda Tática, armada com submetralhadoras, treinada para enfrentar traficantes e ladrões de bancos. Eu os levei – policiais, a menina e seu pai – para uma sala à parte. Me intimidaram, mas quando disseram que “me levariam para averiguação”, percebi que teria de manter a calma e que seria importante resistir: “Só deixarei o campus na companhia de advogados e de representantes do meu sindicato profissional”. Para minha surpresa, isso foi o suficiente: a aluna mudou sua versão, retirou o que disse contra mim, e os policiais mudaram o tom, passando a falar com mais educação. E foram todos embora.

Um dia após o episódio, como o senhor avalia sua reação e o significado do fato?

Creio que, mesmo com certo exagero e distorções nas versões que passaram a circular nas redes sociais, o fato demonstra que precisamos resistir e denunciar. Irei dar entrevista para a Reuters ainda hoje para ampliar a repercussão da denúncia, pois agora já não é o Mário Brasil que está em xeque, mas a UEPA e o exercício da docência. A denúncia da aluna foi intempestiva e a ação dos policiais foi equivocada, desastrosa e ilegal. Os agentes do aparato policial falharam, mas esperamos que isso não volte a acontecer, pois os desdobramentos poderiam ser ainda piores caso tivesse acontecido com um professor mais inexperiente ou sem percepção do seu papel institucional.